Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
O “Expresso”, o jornal onde comecei a escrever em 1981 (com duas saídas e dois regressos), convidou-me para escrever sobre filmes de Natal. Se ainda não compraram o jornal e a revista, experimentem ir ler aqui. O artigo leva por título “A grande alegria do Natal é a sua tristeza” e o meu editor, o Miguel Cadete, meu amigo também, avisou a navegação do que ali vem, antepondo-lhe este lead: «Uma reflexão nada inocente sobre os filmes de Natal onde se conclui que Charles Dickens, antes de morrer, deixou escrito o argumento do primeiro, do último e de todos os filmes de Natal. É um livrinho, umas 150 páginas singelas, chamado “A Christmas Carol”.»
Já tinha feito alguns exuberantes programas com o Fernando Alvim. Dois lançamentos de livros meus foram objecto de emissões em directo da Prova Oral e tenho deles muito boa memória. Mas nunca tinha ido ao local do crime. Desta vez, para falarmos do Pequeno Livro dos Grandes Insultos, visitei a Caverna de Ali Babá do Alvim (acompanhado pela Catarina Mourão), e o resultado foi o que podem ver e ouvir aqui. Ou, se não quiserem ver, e só usar como música de fundo, também está aqui, no podcast da Antena 3.
Um dia, num blog que infelizmente já acabou, o Jorge Silva, que já foi da Guerra &Paz, convidou-me para eu escolher os filmes da minha vida e responder a um breve inquérito. Levei tudo muito a sério e, por ele me ter pedido uma curtíssima autobiografia, escrevi estas linhas:
Manuel S. Fonseca foi aprendiz e mau na oficina de João Bénard da Costa, na Cinemateca. Escreveu, como crítico, coisas imperdoáveis no “Expresso” durante alguns anos. Depois passou pela televisão, pela produção de telefilmes e de longas-metragens assumidamente comerciais e, sobretudo, viajou muito. Isso tudo já passou e hoje não faz mal a uma mosca. Tem uma coluna nostálgica no “Expresso” e escreve num blog lúdico e sumptuário chamado “Escrever é Triste”.
É bom de ver que ainda não nascera este lugar obscuro e cavernoso que é a Página Negra. Trago por isso, para aqui, para memória futura, as escolhas que fiz nesse ano de 2013, no 1º de Maio. Regressemos, então ao passado.
Os Filmes da Minha Vida
Os dez mais que, por esta desordem, agora me vêm à cabeça:
Broken Blossoms, D. W. Griffith
City Lights, Chaplin
Pierrot le fou, Jean-Luc Godard
The Searchers, John Ford
M, Fritz Lang
Playtime, Jacques Tati
Ordet, Carl Th. Dreyer
Rear Window, Alfred Hitchcock
Close Encounters, Steven Spielberg
The Godfather, Francis Coppola
Fiz esta lista e comentei, logo a seguir, jogando à defesa:
Os melhores filmes deviam ser como os menus dos restaurantes. Uns estariam sempre na carta e outros deviam mudar como os pratos do dia. Amanhã, por exemplo, já constaria o Singin’ n the Rain, o Der Blaue Engel e depois de amanhã o Some Like it Hot, o To Have and Have Not, o Citizen Kane, o A Matter of Life and Death, o Casque d’or, o Senso ou o The River do Renoir. E na montra do restaurante, em vez de “Hoje há passarinhos” apareceria escrito, a letras garrafais, “Hoje há Brigitte Bardot”.
E agora leia-se o cerrado interrogatório a que o meu amigo Jorge Silva me submeteu:
— O filme da sua vida… Talvez seja o “How Green Was My Valley”, a mais perfeita cristalização de um mundo de harmonia que, por nunca ter existido, Deus se viu obrigado a criar através de John Ford, seu filho dilecto.
— Realizador favorito John Ford, por ter ajudado Deus a corrigir algumas imperfeições da Criação. O mundo ficou melhor com a aldeia galesa de “How Green…” e ainda melhor com o povoado irlandês de “The Quiet Man”.
— Actor favorito Richard Dreyfuss, pelo “American Graffiti”, pelo riso e pelas canções no bote de “Jaws”.
— Actriz favorita
Jean Seberg, pela nuca rapada de “Saint Joan”, pelos shorts de “Bonjour Tristesse” e por ser tão adoravelmente dégueulasse em “A Bout de Souffle”.
— Personagem que gostava de encarnar se fosse possível “entrar” no ecrã… Pierrot, perdão, Ferdinand no “Pierrot le Fou”.
— Filme que mais o marcou no momento do seu visionamento… Posso dizer dois? Primeiro, enternecido, quando vi a Natalie Wood a fazer beicinho para o James Dean no “Rebel Without a Cause”. Nesse mesmo Verão, duas ou três semanas depois, foi um incêndio, ao ver a Elizabeth Taylor a fazer, quais olhinhos, o corpo inteiro, ao Burton, no “The Sandpiper”.
— Obra-prima clássica (ou nem tanto) com que embirre particularmente… Embirro razoavelmente com o William Wyler (Best Years of Our Lives e High Noon) e irrazoavelmente com o Eisenstein a quem prefiro a Sarita Montiel.
— O filme-choque da sua vida… Sem ponta de ironia, um filme polaco belissimamente incompleto, “Pasazerka”, de Andrzej Munk
— Filme do qual possa dizer “a vida é muito parecida com isto”… Um filme terno e cruel, simples, infantil e adulto, chamado “Stand by Me”, de Rob Reiner.
Meçam as palavras. Não chamem vígaro ao príncipe dos vigaristas ou trambiqueiro ao audacioso embusteiro. Elmir de Hory, que Orson Welles celebrou em “F for Fake”, enganou meio mundo pintando falsos Picassos, Matisses e Modiglianis. Aceitando o impulso estético que lhe comandava a mão, Elmyr fê-lo com o mesmo enlevo com que Maria aceitou ser mãe virgem, semicerrando os olhos ao sopro do Espírito Santo.
Devemos apreciar embuste a embuste: e a apreciação moral não pode ser o único critério de avaliação. Se o sonho comanda a vida, então a arquitectura do embuste, o seu horizonte, a sua minuciosa e labiríntica tessitura têm de nos merecer a vénia estética que o sonho, essa fraude nocturna, nos merece a todos e fez ganhar a vida a Freud e à corte de psicanalistas seus seguidores.
De Gregor MacGregor as enciclopédias dirão que era um aldrabão. Era escocês, o que, como um tipo ser português, desculpa muita coisa. Lutou contra Napoleão e gostou. Juntou-se a Bolívar e foi general dele no exército que tornou a Venezuela independente do vil colonialismo espanhol. Lutou tanto e tão bem que casou com uma prima do Libertador.
Eis um homem que, insatisfeito com o seu mundo, o queria mudar. O que é, aliás, da ordem do trivial. A MacGregor não lhe bastava o mundo existente. Ao mundo, que o Senhor Deus todo-poderoso burilou nos sete dias da Criação, faltava um país, Poyais. Criou-o MacGregor, situando-o à volta do Rio Negro, em plena América Central. Inventou esse país, deu-lhe a monarquia como regime, e a si mesmo fez-se príncipe. Em Londres circularam milhares de guias, com as cidades fantasiosas, as montanhas, as ubérrimas riquezas de Poyais. Emitiu, então, douradíssimos certificados do tesouro desse país imaginário, a que logo o lúbrico materialismo britânico afinfou o dente.
Feliz com a sua criação, MacGregor, ao sexto dia, fechou a cúpula do palácio, que era esta astuciosa fraude, vendendo o direito à emigração: dois barcos largaram com colonos britânicos para o eldorado que seria Poyais caso existisse. Encontraram selva, febre e desolação. Inalcançando a beleza da coisa, a justiça perseguiu-o, mas MacGregor refugiou-se na Venezuela, que o recebeu como herói. Eis a trágico-cómica matéria de que se fazem os sonhos, a que Shakespeare se atiraria como um menino à marmelada.
Hoje, o jornal i publica uma longa entrevista comigo. Está aqui, disponível na rede. O pretexto foi a publicação do meu Pequeno Livro dos Grandes Insultos. A um dado momento, o entrevistador trouxe o meu passado angolano à baila. E eu confessei-me:
Gostava de ter ficado em Angola? Na altura podia ter tido a nacionalidade angolana, mas aconteceu que eu era um jovem maoista e entrei muito rapidamente em choque com o MPLA, que apoiava, ao qual pertenci mesmo, no Lobito, nos anos de confronto com a UNITA. Mas quando chegou a independência já as minhas relações com o MPLA eram de grande distância, para não dizer de fortíssima oposição. Opúnhamo-nos a todos os outros, mas também ao MPLA.
Porquê? Tem a ver com opções políticas e, para mim, a percepção, que se tornou evidente, do autoritarismo e da emergência de uma ditadura. Daí o abandono do maoismo muito rapidamente, também. A percepção de que éramos profundamente autoritários e capazes de gerar monstros, tive-a cedo na vida. Aquilo que aconteceu no Camboja não aconteceu por acaso, os jovens idealistas convertem-se rapidamente em gente perigosa se não houver antídotos. E do que me apercebi aos 20 anos foi que o que vinha era tão mau ou pior do que o que tinha vivido antes e recusara, a ditadura salazarista. Nunca mais voltei a pertencer a um partido político nem a fazer vida política porque a minha descrença tornou-se muito forte e, sobretudo, a descrença em mim próprio por ter apoiado e pensado que aquilo que defendia era uma solução.
Quero sublinhar o trabalho do jornalista António Rodrigues, a quem agradeço o rigor da pesquisa e a fidelidade à conversa.
Quando a Epicur estava viva, eu ia, Primavera, Verão, Outono, Inverno, comer os bolos que lá me davam. Era pelo menos assim que se chamava a página da minha crónica: “Disseram-me que davam bolos.” Está foi polémica.
“Disseram-me que davam bolos”, chama-se esta coluna. Prometi bolos e já me distraio com o decote de Madonna. Passou à minha frente, nos MTV Movies Awards, em Los Angeles, quando me convidavam para miminhos desses.
Sei muito bem o que é um decote. Reconheço o altíssimo sobressalto que um esmagado e espevitado par de cativas pombas, chamemos-lhes assim, provoca no escasso corpo de um homem. E é verdade que este é o decote de Madonna, mas umas costas nuas! Nada se compara ao vestido de finas alças nos ombros, estuário aberto que se vem fechar sobre as cinco fundidas vértebras do sacro – incomparável é a geografia de umas costas nuas.
Prometi bolos e, afinal, espreito um decote. Não obstante, se há prazer que merece ser celebrado, é o das costas nuas. À frente, há uma planície venusiana, certo? Mas atrás! Espaços abertos, duas rasas margens de um vale com um rio de vértebras ao meio. Ebúrneas e delicadas, castanhas e bronzeadas, de acetinado ébano, cantemos, de uma mulher, e logo desta mulher, as costas nuas.
Obcecado com a promessa de bolos, ainda não disse de quem são as costas. As costas, cósmicas, praia de Deus, são as de Sharon Stone. A dois metros de mim, umas alças, feitas do tecido “o rei vai nu”, seguram-lhe o vestido, que só começa onde lhe acabam as doces vértebras. Uma visão a tentar fazer-nos esquecer que estamos no ano de “Basic Instinct”, filme em que os nossos olhos se focaram na sombra da sua recôndita e faiscante arqueologia.
Qualquer turista ataca as vistas frontais, para ver o garantido périplo que vai das gémeas torres Eiffel, que Jean-Paul Gaultier desenhou a Madonna, à gruta de Lascaux, que Courbet pintou, à sua escandalosa maneira, chamando-lhe a origem do mundo. Mas as costas nuas! As costas nuas pedem a didáctica tensão de um Ovídio, a persistência do lento aprendiz de uma “Ars Amatoria”.
Viajemos, vértebra a vértebra, as costas de Sharon Stone. Mais breves do que um soneto, cinco versos cervicais levam-nos da cabeça à linha de ombros. Cinco versos, cinco anéis de ouro e prata a pedir o escorregadio beijo dos lábios, os dedos em cacho, como no “Cântico dos Cânticos” se vindimava em En-Gaddi.
Dois dedos abaixo, para cantar a vagabunda beleza torácica e lombar das costas nuas, ninguém consegue calar o rei Salomão. Ele nunca viu Sharon Stone e já implora: deixa-me ser o pastor que apascenta os teus rebanhos. A estas estepes atravessa-as o mais móvel dos túneis – nas firmes costas, subliminar, subterrânea, há uma lírica trança gelatinosa e óssea. Trança – não, não é um bolo! – que reverbera a cada toque da polpa de uns dedos, sopro de uns lábios, encaracolados cabelos que nela se rocem.
E, no entanto – Sharon Stone não é Galileu! – nem tudo se move. Estão imóveis e fundidas as cinco vértebras do sacro, imóveis e fundidas as quatro vértebras do cóccix. Imóveis e fundidas como sólidas amarras que segurassem o suspenso e oscilante jardim babilónico logo abaixo. Sem essas vértebras resilientes, nunca o poeta poderia ter dito: “Eu entro no meu jardim, eu como o mel, o favo.”
Cauda equina de tão nervosas raízes – ai jardim, já o vestido te esconde, para que melhor te adivinhemos. E por mais que o manto tape, desenham-se nele redondas montanhas, promessa de neves no Kilimanjaro.
O amado, que desceu em beijos cervicais, que correu torácico, que vadiou no bálsamo lombar, que estremeceu no imóvel rigor sacrococcígeo, suplica agora à amada: “Pela frente ou por trás?” E ela, voz de Inverno, rosa de Sharon, perdão, de Saron: “Ó meu amor, pela frente ou por trás, para mim tanto faz.”
Crónica escrita há uns anos. Talvez dois. Eram anos Mitroglou. Embora, em boa verdade, os anos que sempre contam sejam os anos de Eusébio da Silva Ferreira.
O pé esquerdo de Eusébio é a mão direita com que escrevo esta crónica. Escrevo à mão, aparo da caneta a raspar o papel, como o pé de Eusébio a aflorar, veloz manso e forte, a relva. Escrevo ao vivo como o pé de Eusébio chutava no paraíso que é, ao vivo, um jogo de futebol. É desse estádio cheio, da multidão que ulula, da multidão que venera, da multidão que canta, que eu hoje quero falar. Falar o quê?! Falar coisa nenhuma, deixem-me é incensar o prazer da multidão que canta.
Não há prazer comparável. Dizem-me que há multidões azuis e verdes. Mas a minha multidão é religiosa: vai à Catedral e, entre Céu e Terra, fica ali cantando como quem reza, vestida de vermelho.
Já ouço o político e o académico que rosnam o seu temor à multidão. A multidão é má. A multidão atropela-se. Imaginem a multidão no Louvre: as mil bocas da sua respiração embaciam os quadros, os mais gigantones tapam a vista da Mona Lisa aos mais baixinhos. A multidão de museu é uma multidão que faz de cada um o anão de si mesmo.
No estádio… quero dizer, na Catedral, a multidão é gloriosa. Canta toda para o mesmo lado, é toda da mesma altura, o que faz com que cada um veja com os olhos de todos. Quando Eusébio marcava um golo, ou agora Jonas ou Mitroglou, a multidão é rasgada pelo mesmo frémito estético. Não é igual à beleza superficial das montras da Avenida da Liberdade, é mais como a beleza feiticeira e sanguínea de Macbeth, como o sentimento épico dos primeiros versos de Os Lusíadas. E, de resignada e incorrespondida paixão, a multidão estremece quando os caprichos dos deuses fazem a bola embater com estrondo no poste da baliza adversária.
A desfraldada multidão vermelha da Catedral é carinhosa. A primeira vez que levei a minha filha a ver o SLB, tinha ela 6 anos. Baptismo na Catedral. Acontecesse o que acontecesse no relvado, a minha filha não parava de gritar. Expliquei-lhe: “Filha, só gritas quando a bola estiver nos pés dos nossos rapazes vermelhos, e só depois de passarem aquela linha de meio-campo, ao aproximarem-se da linha da área adversária.”
Era muita linha e a minha filha ficou confusa. A bola já estava nos pés de João Vieira Pinto, menino de ouro da minha filha, e ela perguntou: “Pai, posso começar a gritar?” A multidão virou para mim um olhar crítico e regalou a minha filha com um sorriso protector. Eram velhos benfiquistas com anos de estádio, com doutoramento de multidão, e disseram num clamor: “Amigo, não seja ditador, deixe gritar a miúda! Grita, princesa, grita sem medo.” Foi a mais bela censura da minha vida: o coração chorava-me de alegria a cada vermelho grito da minha filha.
Todo o português é um Mark Twain, todo o português é um Rudyard Kipling. E antes que a ideia escorra a desbotar-se no parágrafo seguinte, juro ao leitor que, pelo português que já tanto sou, também mereço ser um bocadinho Twain e um bocadinho Kipling.
Falta dizer quem são ou foram estes Twain e Kipling. Twain era patrão de costa. Praticamente nascido num cesto a vogar sobre o Mississipi, o rio entrou-lhe pelos ouvidos e pelos ossos. O rumor das águas, as vozes dos escravos, a água a molhá-lo até ao fémur, colaram-lhe de amor a boca ao rio e não descansou enquanto não foi marinheiro o suficiente para ir ao leme de um barco a vapor a rasgar o fim do século XIX. Por acidente, foi também escritor.
Kipling foi, não o sendo, o último soldado do império britânico. «Um, dois, um, dois, esquerda… esquerda, direita volver», aprendeu a ser cadete e cantou o regimento que nunca teve em poemas como Gunga Din ou Mandalay. Nenhum soldado, capitão ou general os cantou ou cantará tão bem.
Ao leme não há Adamastor que apavore a incerta mão portuguesa, e estaria aqui, estaria a falar de impérios, se não tivesse prometido que vinha só falar do incêndio dos olhos que é o prazer de viajar.
E vejam, nem agora estamos a salvo do americano Twain e do colonialíssimo britânico Kipling. Eles viajaram à volta do mundo. Viajaram além e aquém dos séculos em que viveram, mostrando-nos que no tempo é que se viaja bem. Imito-os.
No dia 11 de Novembro de 1975, por aventurosas razões políticas que interessam tanto como um fiscal de linha num jogo de futebol, eu estava no Sumbe cercado pela UNITA e sul-africanos de que era inimigo. Tinha de fugir para Luanda que, por sua vez, estava cercada pela FNLA e os seus soldados de fortuna. Ali, naquela praia do século XX, só havia barcos a vapor de Mark Twain. “Go West”, gritava-me do século XIX a voz do escravo de Huckleberry Finn. Ainda hoje, essa viagem num barco de cabotagem é a mais epicurista das minhas memórias. Viagem de Angola ao Brasil, Atlântico dentro, eu ao leme a gritar ao Mostrengo: «Aqui ao leme sou mais do que eu / Sou um povo que quer o mar que é teu.» Viajei, glorioso, num barco que nunca saiu do cais.
No dia seguinte, já Angola independente, troquei Twain por Kipling. Vim dormir a Porto Amboim e na manhã de 13 de Novembro, antes de recuar para Luanda, vi o farol lá em cima do morro, na praia, as pedras do velho forte, e uma rapariga africana num silêncio sem desculpas a olhar o mar. Era, vinda de Kipling e de Mandalay, a minha rapariga birmanesa. Ter-me-á visto? E se me viu, terá ela pensado, no futuro que veio a ter, se algum futuro teve, que um dia evocaria a fugaz imagem de um perdido rapaz português, excrescência do império e de Kipling, à beira do mar em Porto Amboim?
By the old Moulmein Pagoda, lookin’ lazy at the sea, There’s a Burma girl a-settin’, and I know she thinks o’ me