Rua ou romance?

chita

São duas mulheres. Mãe e filha, na verdade. Conversam:
«— Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?
— Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda.»
São duas mulheres. Conversam. Rua ou romance? E se é rua, é de Lisboa ou do Porto? E se é romance, é de Eça ou de Camilo?

Pela frente ou por trás?

Quando a Epicur estava viva, eu ia, Primavera, Verão, Outono, Inverno, comer os bolos que lá me davam. Era pelo menos assim que se chamava a página da minha crónica: “Disseram-me que davam bolos.” Está foi polémica.

sharon stone

“Disseram-me que davam bolos”, chama-se esta coluna. Prometi bolos e já me distraio com o decote de Madonna. Passou à minha frente, nos MTV Movies Awards, em Los Angeles, quando me convidavam para miminhos desses.

Sei muito bem o que é um decote. Reconheço o altís­simo sobres­salto que um esmagado e espevitado par de cativas pom­bas, chamemos-lhes assim, pro­vo­ca no escasso corpo de um homem. E é verdade que este é o decote de Madonna, mas umas costas nuas! Nada se com­para ao ves­tido de finas alças nos ombros, estuá­rio aberto que se vem fechar sobre as cinco fun­di­das vér­te­bras do sacro – incom­pa­rá­vel é a geo­gra­fia de umas cos­tas nuas.

Prometi bolos e, afinal, espreito um decote. Não obstante, se há prazer que merece ser celebrado, é o das costas nuas. À frente, há uma planície venu­si­ana, certo? Mas atrás! Espa­ços aber­tos, duas rasas margens de um vale com um rio de vértebras ao meio. Ebúrneas e delicadas, castanhas e bronzeadas, de acetinado ébano, cantemos, de uma mulher, e logo desta mulher, as costas nuas.

Obcecado com a promessa de bolos, ainda não disse de quem são as costas. As costas, cósmicas, praia de Deus, são as de Sharon Stone. A dois metros de mim, umas alças, feitas do tecido “o rei vai nu”, seguram-lhe o vestido, que só começa onde lhe acabam as doces vértebras. Uma visão a tentar fazer-nos esquecer que estamos no ano de “Basic Instinct”, filme em que os nossos olhos se focaram na sombra da sua recôndita e faiscante arqueologia.

Qual­quer turista ataca as vistas frontais, para ver o garantido périplo que vai das gémeas tor­res Eif­fel, que Jean-Paul Gaultier desenhou a Madonna, à gruta de Las­caux, que Courbet pintou, à sua escandalosa maneira, chamando-lhe a origem do mundo. Mas as cos­tas nuas! As cos­tas nuas pedem a didác­tica tensão de um Oví­dio, a per­sis­tên­cia do lento apren­diz de uma “Ars Amatoria”.

Viajemos, vértebra a vértebra, as costas de Sharon Stone. Mais breves do que um soneto, cinco versos cer­vi­cais levam-nos da cabeça à linha de ombros. Cinco ver­sos, cinco anéis de ouro e prata a pedir o escor­re­ga­dio beijo dos lábios, os dedos em cacho, como no “Cântico dos Cânticos” se vin­dimava em En-Gaddi.

Dois dedos abaixo, para cantar a vaga­bunda beleza torá­cica e lom­bar das costas nuas, ninguém consegue calar o rei Salomão. Ele nunca viu Sharon Stone e já implora: deixa-me ser o pas­tor que apas­centa os teus reba­nhos. A estas este­pes atravessa-as o mais móvel dos túneis – nas firmes cos­tas, subliminar, subterrânea, há uma lírica trança gela­ti­nosa e óssea. Trança – não, não é um bolo! – que rever­bera a cada toque da polpa de uns dedos, sopro de uns lábios, enca­ra­co­la­dos cabe­los que nela se rocem.

E, no entanto – Sharon Stone não é Galileu! – nem tudo se move. Estão imóveis e fun­di­das as cinco vér­te­bras do sacro, imóveis e fun­di­das as quatro vér­te­bras do cóc­cix. Imóveis e fundidas como sólidas amarras que segurassem o suspenso e oscilante jar­dim babilónico logo abaixo. Sem essas vér­te­bras resi­li­en­tes, nunca o poeta pode­ria ter dito: “Eu entro no meu jar­dim, eu como o mel, o favo.”

Cauda equina de tão ner­vo­sas raí­zes – ai jardim, já o ves­tido te esconde, para que melhor te adi­vi­nhe­mos. E por mais que o manto tape, dese­nham-se nele redondas montanhas, promessa de neves no Kilimanjaro.

O amado, que des­ceu em bei­jos cer­vi­cais, que cor­reu torá­cico, que vadiou no bál­samo lom­bar, que estremeceu no imó­vel rigor sacro­coc­cí­geo, suplica agora à amada: “Pela frente ou por trás?” E ela, voz de Inverno, rosa de Sharon, perdão, de Saron: “Ó meu amor, pela frente ou por trás, para mim tanto faz.”