Feira da Língua Portuguesa. É oficial. Está aberta

Oferecemos-lhe, caro leitor, outra Feira do Livro, a Feira da Língua Portuguesa. Começa hoje, agora mesmo e vai até dia 5 de Maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa. Está aberta esta feira que comemora essa pátria que é a língua portuguesa, como lhe chamou Pessoa ou, por ele, o ajudante de guarda-livros Bernardo Soares.

A língua portuguesa é a nossa pátria por ser ela que estrutura o nosso pensamento – não há pensamento sem língua – a nossa comunicação de todos os dias, as ternuras que dizemos a quem amamos, mesmo os insultos que dirigimos a quem nos ataca ou ofende.

Há livros maravilhoso escritos sobre a nossa língua. Alguns foram publicados pela Guerra e Paz editores. Sobre a origem e evolução da língua portuguesa, sobre as suas normas, dois grandes autores, os professores Fernando Venâncio e Marco Neves, escreveram livros como o Assim Nasceu uma Língua, o Dicionário dos Erros Falsos e Mitos do Português e outros títulos magníficos. São professores, sim, mas escrevem com uma leveza e um humor que parece que estão sentados à mesa connosco. Puxe da sua bica e sente-se também. Há livros de insultos, há livros de ortografia, há um livro caluanda e até palavras cruzadas lhe oferecemos. E não poupamos o malfadado Acordo Ortográfico que nesse mau ano de 1990 enfiaram pela boca da língua abaixo.

Está aberta a feira! Entre agora mesmo e faça já um selfie com este nosso cartaz. Mande-a para comunicacao@guerraepaz.pt. Nós vamos eleger a mais criativa e bem humorada – a que melhor servir e se servir da língua – e ofereceremos dois livros, a Gramática para Todos e o Pequeno Livro dos Grandes Insultos, aos autores das duas melhores selfies.

Um conselho. Leve os livros que quer numa só compra. Se atingir um valor de 30€ a 49€ de compras, oferecemos-lhe as Memórias Póstumas de Brás Cubas, do grande Machado de Assis, o que é um magnífico bónus. Se os seus livros atingirem o valor de 50€, oferecemos-lhe a edição de luxo da Tabacaria, em cinco línguas e caixa de madeira, o Rolls-Royce das edições da Guerra & Paz.

Todos os dias são Dia do Livro

Esta foi a Bica Curta que servi no CM, no dia 23 de Abril. Era Dia Mundial do Livro. Mas não são todos os dias, dias do livro? 

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Sophia Loren, a ler, claro.

Dia Mundial do Livro

Nasci em Vale de Madeira, aldeia ao lado de Pinhel. Menino, vivi no Sambilas, musseque de Luanda. O livro salvou-me a vida. Por ser conhecimento, o livro dá a quem o lê uma vida mais rica.  É científico: a neurobiologia atesta o efeito da leitura no cérebro. Ler romances, ler poesia dá conhecimento. E enche-nos de prazer: o livro oferece aventura, empatia humana, expande o imaginário, erotiza a vida. Ganhamos experiência, visitamos mundos que existem e mundos que ainda hão de vir. O livro faz do leitor um deus e dá-lhe delícias que rivalizam com prazeres de mesa e cama juntas. Tenha piedade do seu espírito: compre e leia livros.

Um menino de 6 anos

Outras Bicas Curtas que tinham ficado para aqui esquecidas. Acolheu-as o CM e eu, hoje, uma semana e meia depois, trago-as aqui para a conversa.

Sleeping Woman With a Cat by Władysław Ślewiński
mulher a dormir, com gato, de Władysław Ślewiński

Um menino de 6 anos

Confiança. Puxei pela memória e era essa, quando tinha 6 anos, a palavra-passe para enfrentar o mundo. Eu tinha confiança no que o meu pai me dizia. Em Maio, teremos de sair de casa com confiança, vencendo o medo, como um menino de 6 anos.

Confiança para os pais deixarem os filhos à escola e voltarem ao trabalho. Confiança num Governo que reconheça que esta primeira refrega foi um hercúleo esforço para evitar a ruptura de um SNS tão heróico como debilitado. Confiança num Governo que tenha a coragem de nos dizer que teremos de coabitar com um vírus vagabundo, a um passo da infecção, por vezes da morte, e que a isso se chama vida.

A  herança

Com 30 anos de idade, a minha filha já me está a dar uma abada: 4 a 1 em traumas. Eu, aos 20, vivi e participei na independência de Angola, o que pôs de pantanas todo um mundo e um modo de vida. Mas a minha filha já soma quatro traumas, em idade juvenil: o 11 de Setembro, que pintou os nossos dias com a sombra do terrorismo; a crise do subprime, com a sua bolha imobiliária a arrastar a banca pela rua da amargura; a crise das dívidas soberanas que pôs Portugal de joelhos; e agora este vírus vadio.

Quatro crises, tantas sombras, muitos sonhos adiados.  A geração da minha filha, dos nossos filhos, merecia ter recebido outra herança.

Coisas da China

Estas foram Bicas Curta que eu escrevi no CM há uma eternidade, quase três semanas. Já o mundo mudou todo. 

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A China engole tudo

Margrethe Vestager, vice-presidente da Comissão Europeia, soltou o grito: travem a China, não a deixem engolir empresas estratégicas. Como engoliu a ONU, digo eu.  Engoliu a agricultura e alimentação (FAO), o desenvolvimento industrial (ONUDI), as telecomunicações (UIT), a aviação (OACI), quatro agências presididas por chineses, para não falar da saúde (OMS), presidida pelo seu candidato, o etíope Tedros Ghebreyesus.

Nenhum outro país tem, na ONU, sequer um terço da influência chinesa. É muito perigosa a hegemonia de uma ditadura totalitária, com raízes históricas bem mais agressivas do que a propalada e mítica paciência chinesa.

Para trás?

Vaticínios em cima de trauma dão besteira. O coronavírus é um trauma brutal. Vamos a caminho dos 130 mil mortos. Prognóstico: o caos. Mas tivemos massacres recentes mais devastadores. Em 1957, a gripe asiática matou dois milhões. E em 1968, a gripe de Hong Kong matou um milhão de pessoas. A humanidade saiu dessas catástrofes, criando sempre um mundo mais desenvolvido, com mais ciência, mais direitos humanos, mais bem-estar. Diz o povo: para trás mija a burra. Como em 57 e 68, temos de lutar por um mundo novo: que concilie liberdade e segurança, ciência e comércio. Com muito mais democracia, a começar pelo gigante que é a China.

Adagio para Nova Iorque

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Destruir Nova Iorque é como apagar o “Cântico dos Cânticos” da Bíblia. Nova Iorque transmite ao mundo uma energia tão sublime como “os beijos da tua boca, amor melhor do que o vinho”, que o amado e a amada reciprocamente louvam no “Cântico”. Lembro-me da minha primeira vez, antes desses aviões-bomba que pulverizaram as Torres Gémeas, muito antes deste vírus que agora enterra nova-iorquinos em valas comuns.

Foi, primeiro, um toca-e-foge, em 1986. O avião bateu no JFK e eu, em trân­sito, vim espreitar a rua, cinco minu­tos de cá fora, antes de entrar nou­tro por­tão e apa­nhar o vôo para Los Angeles. Encos­ta­dos ao interminável pas­seio, esta­vam ali, num ama­relo de Van Gogh, os táxis de Nova Ior­que, o ino­cente, inso­lente e impas­sí­vel yel­low cab. Olhei e, milagre do cinema, vi que havia um oci­oso Robert Mit­chum, mesmo um ner­voso De Niro, encos­ta­dos às por­tas dos car­ros, à espera. Três meses depois, vol­tei. Estava Dezem­bro com um pé na chuva e outro na neve e fal­ta­riam três renas para o Natal, se assim se pode dizer.

Apascentava o ar a pomba, a alegria das corças que inspirou a Salomão o seu “Cântico”, e o braço direito do amor apertava os humanos contra si. E eu entrei, pela primeira vez, no yellow cab de Nova Iorque. O taxista arran­jou maneira de enfiar qua­tro estra­nhos no seu táxi. Lembro-me que, banco de trás, entrei em Nova Ior­que com a fria manta das sete e meia da manhã aos ombros, a coxa direita encos­tada à esquerda de uma morena, a esquerda à direita de uma loira – há van­ta­gens em ser-se por­tá­til e encaixarmo-nos bem na doçura e aconchego juve­nis de um táxi que invade Manhattan.

Não se entra em nenhuma cidade como se entra, pela pri­meira vez, em Nova Ior­que: fundem-se a gran­deza e o por­me­nor, a sofis­ti­ca­ção e o tri­vial, o arranha-céus e o esgoto, o céu e o fumo do chão. Em Nova Ior­que temos a cer­teza de que a rein­car­na­ção é a única expli­ca­ção para a vida humana. É a pri­meira vez e reco­nhe­ce­mos cada cara negra, branca, porto-riquenha, eslava ou chi­nesa que passa. Dizem-nos “honey” como se sempre tivéssemos fumado qualquer coisinha juntos. Já os vimos, mesmo sem saber­mos onde os vimos.  Todas as ruas por onde pas­sa­mos nos fazem sol­tar o ah! de espanto de quem, nos­tál­gico, se exalta com o regresso às ruas da sua infân­cia, mesmo que tenhamos vivido a infância num musseque de Luanda, como eu vivi a minha. Já vive­mos ali, sem saber­mos que outra vida pos­sa­mos ter vivido que não seja essa vida que lem­bra­mos, cruzando-a de táxi, espantados por a termos esquecido.

A cidade que acorda, os outros car­ros, as bici­cle­tas, as jovens mulhe­res que cor­rem, os homens agi­ta­dos parecem ser uma inven­ção da nossa mente, uma liberté de espírito, um sonho ou o filme que a nossa cabeça dirige. É o nosso olhar, olhar que espreita pelas jane­las molha­das de um táxi (há pou­cas coi­sas molha­das de que se goste tanto como das molha­das jane­las de um yellow cab!), é o nosso olhar, dizia, que inventa, cere­bral, Nova Iorque.

A Nova Iorque vivida atrás do vidro molhado de um táxi é indestrutível. No bolso, a chave (ainda havia chaves) do pri­meiro hotel de que já me esqueci do nome, em Gram­mercy Park. Talvez tenha sido só um sonho, como o do poeta inglês Coleridge, que visita o paraíso e lá colhe uma flor, mas ao acordar percebe, num sobressalto, que tem na mão a flor. Talvez Nova Iorque seja como o paraíso desse sonhador. Por via das dúvidas, enquanto escrevo, seguro na mão a chave do quarto de um hotel dessa cidade com sabor a maçãs, que nenhum terror, bombas ou vírus, há de desfazer.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

Livros ou carícias?

Livros ou carícias?
Os trabalhos e os dias de um editor

Mundial

Que aventuras nos trazem Stendhal e Conrad, o russo Tchernichevski , o americano Melville ou o inglês D. H. Lawrence?

Estes são alguns dos Clássicos Guerra e Paz, a colecção mais sólida, mais rica desta editora. Não é sequer uma colecção, por ser mais do que uma colecção, por ser uma caverna de Ali Babá em que cada livro é um tesouro. Esta colecção está, agora, neste tempo de confinamento, a bater-lhe à porta.

Faça-se ao mar com Lord Jim, mergulhe nesse oceano de sonho, que depressa se converte num mar de breu de culpa, até que no reencontro do paraíso e da inocência esse herói se redime e nós com ele.

Vá ao encontro de O Que Fazer, esse romance que marcou os revolucionários russos na viragem do século XIX para o XX. Mesma a alma tão pouco poética de Lenine, que lhe roubou o título para um dos seus livros.

Cole-se a Julien Sorel, singular e ambíguo protagonista de O Vermelho e O Negro, e oscile com ele entre as virtudes do seminário e as delícias proibidas do leito de Madame de Rênal.

E fuja já dessa cama burguesa, provinciana, direitinho aos braços de Lady Chatterley, num amor selvagem, pletórico, físico, urgente, no mais proibido dos romances, O Amante de Lady Chatterley, em sue pela primeira vez se escreveu a palava interdita, tão bonita de crua e verdadeira com que se dá nome aos actos do amor.

E volte outra vez aos perigos do oceano imenso, e enfrente esse Adamastor, que é a baleia branca a que Herman Melville chamou Moby-Dick. Nesse infinito de mar, céu, vento e noite, o ódio, a vingança, a obstinação enchem de som e fúria a natureza e alma humana.

Estas são cinco das aventuras que pode encontrar na Feira dos Clássico Guerra e Paz. Há mais quarenta. Leve-os para sua casa – por dois reis de mel coado, não é? São livros e não são livros: são máquinas que nos transportam no tempo, que nos acariciam os sentidos e o espírito. Tocam-nos da cabeça aos pés até mesmo onde está a pensar que um livro não toca.

Não são livros, são os lírios do campo

Hoje, trago-vos, cinco clássicos das literaturas de língua portuguesa. No caso, a portuguesa e a brasileira.

O que faria eu se estivesse nos sapatos dos leitores da Guerra e Paz? É simples, lia-os todos. Com garantia de divertimento e de que, em todos, encontrarão situações deliciosas. Comecem por Gil Vicente. Já todos leram o Auto da Barca do Inferno, bem sei. Mas quem leu este Pranto de Maria Parda. E quem é essa mulher que vem do século XVO, percorrendo Lisboa como nós, em confinamento, agora não a percorremos? É negra, mestiça? Sabemos só pela sua fala, pela sua voz – e que voz popular, Gil Vicente lhe emprestou! –  que precisa de beber vinho e que nenhuma tasca ou taberna lhe dá vinho fiado. Que difícil era beber vinho em Lisboa. E que riqueza há na voz sedenta de Maria Parda.

E voltem-me pelas alminhas a ler Os Lusíadas – este Os Lusíadas que Helder Guégués anotou estrofe a estrofe, tornando-o mais acessível sem mexer numa vírgula do texto integral. Vejam bem a arrumação do texto central e das anotações em coluna ao lado, sem interferir. Um belo trabalho conjunto de Guégués e do meu designer, o Ilídio Vasco. Tenham lá paciência, mas esta edição contemporânea é de uma beleza e de uma utilidade que mais nos arrastam a ir a correr pelas estrofes eróticas do celebrado canto IX do meu tempo de liceu. Li e voltei a corar até à ponta dos cabelos.

E convido-vos a reflectirem com Camilo sobre O Que Fazem Mulheres. Esta história de um equívoco – só um? – além da trama e exuberância camiliana tem, neste livro um tratamento gráfico único na história da edição portuguesa. Camilo inventou um capítulo que o leitor pode pôr onde quer. A Guerra e Paz fez-lhe a vontade. Camilo escreveu cinco páginas que o leitor não deve ler, pois nós escondemos essas cinco páginas. Não há outro livro assim com um capítulo nómada e um cinco páginas clandestinas. Descubra com os seus próprios olhos.

Os dois livros brasileiros são de Machado de Assis, príncipe da nossa língua e da narrativa romances. As Memórias Póstumas de Brás Cubas, um oásis de ironia cáustica, é talvez o primeiro romance a ser narrado por um morto. Machado antecipou-se largamente a Hollywood e ao maravilhoso Sunset Boulevard de Billy Wilder.

E, por fim, leiam O Alienista e conheçam o Dr. Bacamarte, que casa com Dona Evarista, nem bela, nem gentil, para que lhe dê filhos vigorosos, musculados e com a inteligente vivacidade de um Einstein. Vai dar-se bem? Leiam, mas façam-me um favor, não o convidem a visitar-nos nestes tempos de reclusão. Descubram o que ele fez ao povo de Itaguaí e digam-me se nós merecemos tal sorte.

São cinco livros, por dois tostões de mel coado cada um: correm por eles os nossos olhos como a corça por prado verdejante.

Dia Mundial do Livro: não deixem o vírus matar Camões

Em defesa do livro: não deixem o vírus matar Camões

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Hoje, Dia Mundial do Livro, autores, editores e livreiros estão em perigo. Tolstói ou Dostoievski, Shakespeare e Camões, Camilo ou Eça vivem, como Portugal, como o mundo, a situação calamitosa que afecta dramaticamente a nossa forma de vida, as pessoas e as empresas. Sim, os grandes romances, os grandes ensaios, os livros de ciência ou de filosofia, tal como os editores e livreiros que são a sua casa, acabam de sofrer um violento abalo. Fragilizados pelas crises económicas de 2008 e de 2011, editores e livreiros são agora, como resultado directo desta pandemia, confrontados com a mais dura ameaça que o livro já experimentou em Portugal. A espada de Dâmocles, que é a insolvência de editores e o fecho definitivo de muitas livrarias, paira sobre as nossas cabeças, sobre a cabeça dos grandes livros e dos grandes autores, o que o empobrecimento salarial dos leitores, já de si uma minoria da população, mais reforça.

E esqueçam os choradinhos e peditório economicista, por mais legítimo que ele seja. Não vos estou a falar só de uma actividade económica. Ao falar do livro, estamos a falar de um sector estratégico para o futuro de Portugal, de um sector fundador para todas as outras actividades económicas. Como as neurociências cada vez mais atestam, o livro, a leitura de livros, é imprescindível para a obtenção e solidificação do conhecimento.

Se o futuro de Portugal passa, como todos acreditamos, pelo conhecimento, pela ciência, pela matemática, pelo avanço tecnológico, então o livro é a pedra basilar desse edifício. É a mais avançada ciência do mapeamento do cérebro humano que o afirma, garantindo que esse livro a que os cientistas se referem não é apenas o livro escolar ou técnico, de pura aprendizagem. São todos os outros livros, a literatura, poesia e romance, o Dom Quixote e As Mil e Uma Noites, Fernando Pessoa e Walt Whitman, que alimentam a inteligência emocional dos leitores, oferecendo-lhes uma cultura e uma experiência que, só pela vida, seria impossível colher e que lhes dá empatia humana, vacinando-os contra autoritarismos e contra a arrogância do imediatismo de tuítes e redes sociais.

O livro – os livros de António Lobo Antunes, de Jorge de Sena, Agustina, Sophia – é vital para conferir a Portugal o conhecimento de que o nosso futuro precisa e é crucial para a expansão do imaginário e da identidade emocional da comunidade que somos, identidade essencial à construção de um desígnio comum. Por alguma razão, afinal, o Dia de Portugal tem como patrono um poeta e a sua obra, denominador comum para os portugueses. Essa escolha não pode, apenas, ser uma flor de retórica. E quem ama a literatura junta-lhe, num gesto ecuménico, as novas gerações de escritores de língua portuguesa, de África, das Américas e da Ásia, vencedores alguns do Prémio Camões, signo do ideal de universalidade a que aspiramos e que nos empolga.

Cartas na mesa: sem o livro, todas as actividades económicas se empobrecerão. Sem o livro, o futuro das nossas ciências e da nossa tecnologia perde competitividade. Se não escolher a defesa vigorosa do livro, Portugal perde voz no concerto das nações. E esse é o Portugal resignado e sem ambição que todos recusamos.

Salvar o livro deve ser, pois, desígnio dos portugueses, dos cidadãos, do Estado, dos sectores do conhecimento – e de todos os sectores económicos, que, com esse salvamento, estarão a proteger-se e a enriquecer-se. O livro tem de merecer um tratamento de excepção. Não deixemos que, com esta água do banho, se deitem fora esses embriões do conhecimento e do imaginário que são os livros, todos os livros.

Há duas acções imperiosas a desenvolver. Uma a montante, restaurando, junto das novas gerações, o hábito da leitura e o tremendo e poderoso prazer que nela se ganha. Cabe ao sistema educativo repensar métodos de atracção e sedução, cabe aos pais a descoberta do poder lúdico do livro para reforço dos laços afectivos familiares. Cabe ao sistema educativo reparar a catástrofe de tantas opções facilitistas que afastaram as novas gerações do livro. Essa é uma acção a médio e longo prazo.

Mas para que ela possa ser bem-sucedida há uma acção imediata, a jusante, que tem de ser já concretizada: é preciso salvar as edições d’Os Lusíadas, de Hamlet, d’O Principezinho, de Amor de Perdição, que estão nas estantes. É preciso salvar os editores e livreiros portugueses, única forma de garantir a preservação do livro. Salvando-os, salvam-se milhares de autores, de tradutores, de revisores, de tipografias. E salva-se a diversidade, liberdade e independência do livro, contra hegemonias privadas ou estatais indesejáveis.

Consciente de que para tempos excepcionais são necessárias medidas excepcionais, há acções urgentes que precisamos de fazer como quem faz respiração boca-a-boca em emergência crítica. Dou cinco exemplos:

  1. Injecção de volume de vendas com a criação de um cheque-livro familiar, adoptando esta forma simplificada: permitir que cada contribuinte, após a finalização do IRS, possa ainda, e além das deduções já existentes na lei, fazer a dedução integral de 100 €, contra a apresentação de facturas de compra de livros em livrarias. Esta medida tem a vantagem de deixar na mão dos leitores a decisão de compra dos livros, sem dirigismos e sem desvirtuar regras de concorrência.
  2. Aplicação excepcional ao livro (físico ou digital), após a retoma da actividade, da redução a 0 % do IVA, até 31 de Dezembro de 2020, o que permitiria capitalizar livreiros e editores.
  3. Amplo programa de extensão da Feira do Livro às capitais de distrito, envolvendo as autarquias e com a participação activa de livreiros locais.
  4. Alargamento da Lei do Preço Fixo, de 18 para 24 meses, estabelecendo o percentual de 5 % como desconto máximo a praticar por todos os agentes do mercado durante aquele período, evitando assim perdas irreparáveis na cadeia de valor do livro.
  5. Reforço do papel de diálogo, que é o do livro, no universo de língua portuguesa, dando Portugal o primeiro passo ao propor, no seio da CPLP e por período a estudar, a suspensão dos direitos alfandegários aplicados à importação de livros, defendendo a sua livre circulação entre Estados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Estas são acções fortes e necessárias para garantir que as novas gerações, com as ferramentas que só o livro e a leitura lhes põem nas mãos, dominem o pensamento e a linguagem, criando a ciência, o saber, a beleza, os valores e a democracia que farão de Portugal um país com futuro. É esta a missão a que todos os autores, editores e livreiros querem entregar-se. Vamos salvar Camões, Eça, Hemingway, Kant, Wittgenstein, Virginia Woolf ou Clarice Lispector do vírus fatal. Salvando-os, projectamos Portugal para um caminho de conhecimento, ciência e riqueza emocional. Hoje, dia 23 de Abril de 2020, Dia Mundial do Livro, não deixem o vírus matar Camões.