O livro tem de se casar com o futuro

estante

Comunicação feita hoje no Encontro de Escritores da
VII Bienal de Culturas Lusófonas,
organizado pela Câmara Municipal de Odivelas

A minha presença neste encontro de escritores que integra a VII Bienal de Culturas Lusófonas é um bocadinho ambígua. Diria que a minha presença, como se dizia das antigas lâminas gilette, dá para os dois lados, o lado de editor e o de escritor. Mas, é claro, se experimentarmos os dois lados da lâmina, dá mais para um lado, o lado do editor, do que para o outro, o lado do escritor. E é sobre o lado mais cortante, o de editor, que eu gostaria de vos começar a falar, escolhendo um ângulo da minha acção, o da publicação de autores angolanos.

A Guerra e Paz editora, casa editorial que dirijo, não está exclusivamente vocacionada para a publicação de autores angolanos, mas, a pouco e pouco, a fileira de livros assinados por angolanos começou a engrossar e faz já uma boa estante.

Vejamos, além da publicação de autores com carta de condução tirada há muitos anos, e que tanto podem conduzir veículos de duas rodas, como é o caso de poemas ou contos, como veículos pesados como o romance longo, eu publiquei já Manuel Rui, lançando um  inédito, O Kaputo Camionista e Eusébio, e relançando, numa edição de que me orgulho, o clássico e soberano Quem Me Dera Ser Onda.

Publiquei também a ficção de Jonuel Gonçalves, A Ilha de Martim Vaz, e um poeta, José Luis Mendonça, de cujo Angola, Me Diz Ainda, gosto muito.

De uma geração intermédia, publiquei, de Adriano Mixinge, um livro polémico e feroz, que ganhou o Prémio Sagrada Esperança, O Ocaso dos Pirilampos.

Mas dei também voz a uma nova geração, publicando, dois livros de duas mulheres. Um é o Guardados Numa Gaveta Imaginária, a poesia delicada e sensível de Tchiangui da Cruz, um nome que vos convido a guardarem. O outro, um romance, é o da muito jovem Yara Monteiro, Essa Dama Bate Bué.

Ontem mesmo, lancei um romance, Assim Escrevia Bento Kissama, da autoria de Carlos Taveira (Piri), autor de nacionalidade inclassificável, por pertencer a essa diáspora provocada pela violenta repressão que em 1977 atingiu uma vasta camada de jovens esquerdistas angolanos.

E, em breve, publicarei, de Onofre dos Santos, escritor e juiz-conselheiro jubilado do Tribunal Constitucional de Angola, um romance distópico, com laivos de Blade Runnner, Lenguluka, Crónica de um Amor a Grande Velocidade, que retrata uma Lisboa partilhada por vastas comunidades lusófonas com governos autónomos.

A essas incursões ficcionais, e porque a vida do livro vai além da literatura, contemplando a informação, as memórias, a História, o debate, junta-se um esforço na publicação de ensaios, onde se incluem livros dos jovens revus, que há uns anos José Eduardo dos Santos mandou encarcerar,  Domingos da Cruz e Sedrick Carvalho, e também os ensaios de Jonuel Gonçalves, Adriano Mixinge, Leonor Figueiredo, o embaixador Mário Augusto e Margarida de Almeida, culminando na publicação de uma Breve História de Angola, do historiador David Birmingham e, em breve, a publicação das memórias de Miguel Nzau Puna.

Este é, resumido, o meu esforço como editor, a minha forma de manter o amor a uma Angola onde cresci, desde os 5 anos, e a que devo os prodígios da minha infância e adolescência. Esse é o meu contributo para que floresçam mil vozes e vozes geracionalmente diferentes e para que, nessa pluralidade de escritores e de gerações, uma literatura se afirme.

Mas, de uma forma realista e serena, tenho de vir aqui deixar-vos um sinal de alarme. Há duas espadas, espadas de Dâmocles, que pairam sobre a cabeça dos meus autores e sobre a cabeça de todos os autores.

A primeira, extremamente grave, é a que ameaça o livro – todos os livros – em todo o mundo e que é muito sensível em Portugal. Quero que saibam que não me venho aqui chorar e de mão estendida. O que vou dizer é apenas uma reflexão pessoal, feita com toda a serenidade. Dito de uma forma simples: hoje, a esmagadora maioria dos livros que são apresentados a um editor são economicamente inviáveis. A cadeia de valor do livro está exangue. A cadeia autor-editor-livraria-leitor quebrou-se.

A distribuição, o que inclui as livrarias, pratica descontos que esmagam a margem que deveria estar destinada ao editor que, por sua vez, não consegue recuperar os custos e remunerar o autor. Ou seja, o modelo de edição clássica, com investimento pleno do editor, é hoje impraticável, sob pena de o lançar na insolvência.

Mas, pior ainda, a jusante, o grande oceano que os leitores representavam, esse grande oceano a que todos os livros podiam ir desaguar, está bloqueado por um circo, um gabinete de admiráveis e novas atracções, que estão a criar um novo paradigma. Digital, entenda-se

Para começar um novo paradigma de entretenimento: mais rápido, de gratificação quase instantânea, e aparentemente gratuito, um paradigma que pede apenas uns instagramáveis 30 segundos do nosso tempo, três abreviadas linhas de tuíter, o flash de um vídeo. O que culmina, é claro, num novo paradigma de atenção que não contempla a necessidade de concentração e de isolamento que a leitura do livro exige.

Eu estou pessoalissimamente alarmado, se assim se pode dizer. Este cenário invade os meus sonhos e quando acordo editor, e infelizmente é a maioria dos dias em que acordo, acordo banhado em suores frios. E reparem bem, eu tenho pelo livro uma admiração de menino e uma devoção de beata. O livro é uma tecnologia de uma beleza botticelliana. O livro encaixa na mão e converte-se numa extensão do braço com a sedutora graça de uma Michelle Pfeiffer, de tal forma que os olhos pousam nele derretidos em beleza e consolação. Foi o livro e não a espada que inventou a mão e o braço humanos. Foi o livro e as suas letras e não a luz do céu que inventou a íris e o olho humanos. Eu acredito com uma vontade de Hércules que a beleza e a inteligência desta tecnologia é imperdível.

Mas para que ela persista temos de dar novos mundo ao mundo que o livro criou. A forma de editar livros, a actividade do editor e a do escritor, tudo terá de ser repensado, se quisermos ressuscitar o leitor. Podemos chorar o leitor morto como Maria e Marta choraram sobre o cadáver do irmão Lázaro. Eu não sou, neste caso, pelo irremediável luto consolador.

Quero, pelo menos neste caso, acreditar na ressurreição dos leitores mortos, mesmo os do nados-mortos, e do livro que há de vir. Temos de inventar um Cristo milagroso que faça o livro regressar, de outra forma, com outro esplendor.

Não me atrevo a dizer-vos, por falta de imaginação como casaremos o livro com o futuro, que livro será o livro do futuro, onde se encontrará, como vai ser vendido e lido, ou se o livro do futuro é gratuito. Creio que um primeiro passo é torná-lo ainda mais belo, pintando-lhe as três faces do miolo, por exemplo, como eu fiz ao meu Livro dos Grandes Insultos. Talvez seja necessário deixar que as imagens, como outrora as esplendorosas iluminuras medievas, invadam, como novos migrantes as páginas do livro, o que eu procurei fazer neste meu Revolução de Outubro. Mas será este o caminho ou este é só um paliativo?

Eis o que penso: já pensava e continuo a pensar, com a obstinação de um fanático, que a grande chave é o escritor. Hoje, temos perante nós uma proliferação de autores que pulverizam o velho edifício a que um dia chamámos literatura.

Perdoem que vos diga, mas a maioria desses autores cultiva as diversas facetas da chamada indústria cultural. A maioria desses livros vive a expensas de pequenas clientelas clânicas ou tribais, como lhe queiramos chamar.

Uma boa parte desses livros cavalga a episódica tendência do momento, uma boa parte desses livros é apenas muleta dita criativa para uma tendência ideológica ou identitária ou política. Nada tenho contra essa vocação ancilar, essa vocação de serviço, na qual a literatura como outras artes tenha a fraqueza ou o pretenso idealismo de cair.

Mas não foi essa a grandeza que fez a literatura, o escritor e o livro. A grande causa da literatura é a literatura. A grande tradição do livro e do escritor é a sua irremediável solidão e autonomia.

Foi dessa solidão e imperial individualismo que os grandes escritores arrancaram as obras que criaram o nosso imaginário de liberdade, de apelo cósmico, de irrealizáveis sonhos e utopias.

Não sei se seremos nós ou se estão para nascer os escritores que arrasem todas as nossas certezas e que nos encham de violentas angústias, que povoem as nossas cabeças com terras de leite e mel, inventando outras formas de epopeia, qualquer coisa que sejam as novas tragédias sofoclianas, outras formas literárias que estilhacem a velha forma do romance, a velha forma do poema, fazendo ressuscitar as lendas, os relatos, as futuras narrativas universais que exaltem os nossos filhos e os nossos netos, voltando a pôr, neste jogo de tronos que é a vida contemporânea, a coroa na cabeça da literatura.

Eis aquilo em que acredito, no valor do que é universal. Eis o que as nossas literaturas lusófonas têm de ser: universais.

E como é que se chega ao futuro? Não tenho o segredo, talvez ainda ninguém o tenha, mas para se chegar la´, é preciso caminhar pela via da humildade, confiando nessa pequenina jóia que é a palavra, fazendo depois, com essas palavras, o colar que é a frase.

Começa nessa humildade, no regresso à confiança no humaníssimo valor da palavra, o caminho que pode ressuscitar a heróica magia que fez Ilíadas e Odisseias. Só por essa amorosa humildade regressará o aroma a céu de versos como Alma minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida descontente. Com uma certeza, a certeza de que outros serão os livros, outras serão as formas, outras serão as palavras.

Que felicidade se algum de nós ou do nosso tempo for esse escritor!

Compre um livro

Multi ethnic group of pre school students in classroom

Bica Curta bebida no CM, 4ª feira, dia 24 de Abril

Amar os livros é lê-los. Os franceses, nisso, dão-nos um ganda baile. Lêem em média 21 livros por ano. Na 3ª feira, foi o Dia Mundial do Livro. Leu um romance? E acrescento, foi também Dia Mundial dos Direitos de Autor. Comprou um livro?

Comprar livros é sexy e é um acto de amor. É pôr na boca de autores, editores, livreiros, uma colher de sopa, uma bica cheia. Liguem os alarmes: o livro está a morrer. Mesmo o bestseller que vendia 150 mil exemplares, vende hoje 60 mil. As livrarias estão exangues. Os descontos das grandes cadeias sufocam os editores. O livro está de gasganete apertado. Quem o ama tem de ir a correr comprá-lo.

O chumbo e o livro

Hoje, dia mundial do livro 

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A mão. A primeira vez que tive consciência da minha mão foi quando levei um tiro que a atravessou de lado a lado. Em Luanda. Tinha 15 anos e tinha uma espingarda de chumbos, o que, mutatis mutandis, fazia de mim um herói de Mark Twain. Eu era Tom Sawyer e quem me deu o tiro foi Huckleberry Finn. Fazíamos, se bem me lembro, um jogo perigosamente adolescente: tínhamos de abrir e fechar dois dedos com uma sinuosa rapidez de cobra, em frente à espingarda de ar comprimido de quem ia disparar a seguir. E já não me lembro, mas sei que tínhamos todos a Diana 27. Lembro-me de coisas que já não sei e sei coisas de que já não me lembro, mas sei e lembro-me que passei a palma da mão esquerda em frente do cano da arma inimiga e, tiro célere e limpo, o chumbo entrou, rompeu e passou pela palma da minha mão, entre os nervos e os ossos que levam a dois dedos, o médio e o anelar. O chumbo raivoso perdeu força no impacto e ficou preso, incapaz já de sair, na pele das costas da mão. No posto médico, com um golpe de bisturi, a pele abriu-se, sangrou um pouco mais e o chumbo caiu, derrotado e som metálico, no mesmo balde onde – ai dos vencidos – tombavam agulhas, seringas e dentes cariados.

E não é dessa mão que quero falar, mas só da consciência dela. Antes da passagem deste diligente projéctil, se de alguma coisa tive consciência, foi do que, dizível ou indizível, nessa mão segurei, história e elenco a que vos poupo, por a mim me querer poupar. Mas a entrapada mão esquerda acelerou, como um aguilhão, a consciência da única e útil mão direita. Se já lia muito, muito mais li durante essas semanas de braço ao peito. E tive, então, pela primeira vez, a consciência da dimensão centáurica da mão e do livro. Tinha na mão um romance de Steinbeck, outro de Caldwell, a história do Dia D, o Fio da Navalha, um Saint-Exupéry, o meu primeiro Papini, e a mão e o livro tinham, como a impenetrável harmonia do uno sempre tem, o mais completo desdém pelo múltiplo. Só tinha um problema, faltava-me sempre um dedo, o entrapado dedo, para folhear.

Donde vem essa simbiose da mão e do livro? Quando começou? Platão escreveu livros, o primeiro a Apologia de Sócrates, que é também o primeiro livro filosófico a ter-nos chegado inteiro, não fragmentado, da antiga Grécia. Mas a mão que segurava a Apologia de Sócrates não segurava um livro. Sabem todos, melhor do que eu, que segurava um rolo. Quem, em nome de Deus, nos ensinou então a folhear, a ler combinando estas improváveis coisas: a mão que segura o livro, o dedo que vira a página e os olhos que a varrem?

O livro, esse luxo sibarítico, que tantas vezes roça a maravilhosa obscenidade, ao contrário do tiro intempestivo e imediatista que em Luanda me furou a mão esquerda, nasceu devagar, pagina a página, e começou a nascer no primeiro século da nossa era. Pergaminho ou papiro dobrado e cortado em cadernos, páginas de madeira até, foram a primeira revolução. Não foi a mão que procurou o livro, foi o livro que ousou nascer para se fazer à mão. E andou séculos a namorá-la – que romance! Catorze séculos depois, Guttenberg conferiu leveza e deu início à tímida massificação que, até há poucos dias, nos permitia dizer que mal sabemos onde a mão acaba e o livro começa.

Já quase não há na minha mão esquerda, na palma e nas costas dela, vestígios da entrada e saída desse chumbo Mark Twain da minha adolescência. O recalcitrante anelar da mão canhota começa a recusar o alongamento e deixa-se ficar entrevado e curvo, submisso à aliança das bodas de prata, que em breve serão de ouro. Temo que essa minha resignada artrose seja só o humilde, porventura imperceptível, símbolo da harmonia de Brigadoon (ou de How Green Was My Valley) que mão e livro andaram séculos a entretecer. Inconsciente e cada vez mais jovem, a mão, toda articulada em volta do polegar, deixou, como o meu dedo anelar da mão esquerda, de se estender. Há um livro caído – ai dos vencidos – nesse balde onde antes tombaram agulhas, seringas, um dente cariado, o audacioso chumbo de uma Diana 27.

Karina

A paixão dos livros

Esta foi uma charla que fiz na Biblioteca Municipal de Lagos. Comemorava-se o Dia Mundial do Livro. Apetece-me relembrá-la. Em versão não corrigida, mas ligeiramente aumentada.

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Falemos do livro. Do livro que nos apaixona, do livro que cheiramos e lemos como quem lambe, como quem beija. Do livro, podemos dizer que é como uma droga, uma pura droga. Vicia e cria dependência. Uma vez apanhados, já não conseguimos fugir-lhe. Começamos por fazer uma linha e apetece-nos logo fazer outra linha e outra linha e outra linha. Cheira-se o livro, apalpa-se o livro, agarra-se o livro e até pelos olhos nós consumimos o livro. Linha a linha.

De que é que andamos à procura quando lemos um livro? Procuramos no livro a mesma coisa que procurámos na longínqua noite de cacimbo em que decidimos fazer uma declaração de amor à miúda mais bonita lá da nossa rua, segurando-lhe a mão, mas à espera que a anatomia se baralhe toda e que, muito depressa, já nem ela, nem nós saibamos se é mão se é perna, onde acaba a boca de um e começa a boca de outro.

Com todo o respeito por outras opiniões – ou melhor, sem nenhum respeito por outras opiniões, afirmo que o grande e cósmico valor do livro está na erótica emoção que ele desencadeia em nós, no nosso corpo e no nosso espírito.

O livro é um território de alterosa e alcantilada geografia. Nessa geografia encontramos a vertiginosa Fenda da Tundavala que é o medo, o imparável rio da coragem que leva tudo à frente, o belo e húmido vale que é o amor, a impenetrável cordilheira do conflito e do ódio, o planalto da mais parva utopia. É essa a geografia do livro. O livro só é livro se for emoção e é essa gama de viciantes e exaltantes emoções que hoje estamos aqui a cantar e a celebrar.

É triste dizê-lo, mas tenho de vos dizer a verdade: foi a minha mãe que me meteu no vício e me desgraçou. No musseque Sambizanga, em Luanda, tinha eu cinco anos, a Alice, minha querida e devota mãe, de um livrinho religioso de capa dura, lia-me orações de uma beleza devastadora. É preciso ter já muitos calos no cérebro e no coração como os que o macaco tem naquele sítio que não vou dizer, para não sermos sensíveis à beleza que há, por exemplo, nestas palavras: Ave Maria cheia de graça /O Senhor é convosco, / Bendita sois Vós entre as mulheres, / E bendito é o fruto do vosso ventre. Isto é mais do que rezar, é juntar palavras numa harmonia e num ritmo cheia de graça, a roçar o manto do sublime.

A juntar à beleza destes versos, desse mesmo livro, a minha mãe lia-me histórias edificantes de pescadores que enfrentavam noites de tempestade no escuríssimo alto mar, lia-me a história de um inocente que era atirado para a prisão por um rei ímpio e cruel, ou lia-me a história de um mártir que preferia perder a vida a renunciar à sua fé e aos seus ideais.

Um miúdo de cinco anos não resiste, está claro, aos efeitos psicoactivos desta poderosa droga. As leituras da minha mãe, a forma como, na folha de papel de um livro, as palavras se combinavam e entravam em combustão, tudo isso gerava em mim um estado de euforia infantil, uma certa vasodilatação, a capacidade até de andar sobre as águas se me apetecesse andar sobre as águas. O livro foi, já viram, a minha colher de heroína.

Aos cinco anos, a minha mãe meteu-me, portanto, na droga. Aí por volta dos dez anos completou-se o meu ciclo de perdição. Dessa vez, a culpa foi de uma árvore. No meu quintal da rua Alberto Correia, na Vila Alice, outro bairro de Luanda onde vivi, havia mamoeiros, uma bananeira, um sape-sape, uma pitangueira, uns humildes e bravos jindungueiros.

Mas entre plantas e árvores a figura nobre do quintal era uma mangueira robusta e de idade madura. Eu era então um ágil e saudável saguim, trepava pela mangueira, saltava de galho para galho, e sentava-me a ler na confluência do mais sólido ramo com o amplo tronco dessa sábia mangueira.

Lia uns três ou quatro metros acima do chão, entre a verde folhagem abundante, a branca e pequenina flor, o amarelo avermelhado das mangas maduras. Tinha o sol e o céu de Angola como tecto e testemunha.

Durante cinco anos, dos 10 aos 15, eu vivi nessa mangueira as aventuras de cem vidas. Apaixonei-me, cometi crimes, salvei donzelas em apuros, assaltei bancos, ataquei índios, fui índio, fui o famoso xerife Buck Jones, só não fui o Padre Amaro, porque esse livro de Eça de Queiroz só consegui, por fim, lê-lo na linda biblioteca do mais bonito liceu do mundo, o liceu Salvador Correia. Uma leitura inesquecível: joelho contra joelho de uma colega que, só de pernas, era mais alta do que eu inteiro e de pé.

Agora que vos confessei e justifiquei a adição aos livros a que a minha mãe me converteu em Angola, tenho de vos dizer que para evitar crises de privação estão lá em casa à volta de dez mil exemplares espalhados pelas salas, quartos, cozinha, arrecadações e duas casas de banho. Em estantes, no chão, pendurados à janela, em pilhas, confesso que tenho mais livros do que comprimidos, garrafas de vinho, uísque ou cerveja juntas.

Deixem-me agora sair da infância e fazer breve uma história longa. Em 1981, comecei a escrever livros como autor e a fazer livros como editor. Foi na Cinemateca Portuguesa e aprendi com João Bénard da Costa.

O primeiro, de que fui co-autor, foi um pequeno catálogo sobre Jerry Lewis, dividido com o João Lopes, meu colega da Cinemateca. Os primeiros que escrevi sozinho, a solo como se fosse já um Jimmi Hendrix, foram dois livros de vida e obra, um dedicado a Michelangelo Antonioni, o outro sobre Francis Ford Coppola. Depois, em 1992, aliciaram-me para outras aventuras e só voltei aos livros em 1999, criando a Três Sinais, editora que se transformou, por alquimia, na Guerra e Paz em 2006, vai fazer 13 anos.

Já vos falei do meu amor pelo livro e de como privilegio a ideia do livro como aventura e emoção. Mas o livro é também um poderoso veículo de conhecimento. E é dessa área delicada, em que o livro se propõe já influenciar a gestão jurídica, económica, política e moral da nossa vida, que vos quero falar agora.

Nessa área do ensaio, nos últimos anos, na minha qualidade de editor, publiquei alguns livros de autores angolanos ou com temática angolana. Publico por nostalgia, por dívida afectiva – tanto foi o que a minha infância, adolescência e primeira idade de homem, em Angola, me deu –, mas sobretudo publico com a esperança de que o diálogo possa nascer da multiplicidade de contribuições dos meus autores, uns radicais e revolucionários, outros mais próximos do establishment.

Gostava de vos contar três episódios de vida que vieram a orientar e determinar o meu pensamento como editor. São as minhas três grandes lições angolanas, as três lições que têm estado subjacentes à edição dos livros sobre Angola.

Na noite de 4 de Fevereiro de 1961, houve em Luanda um levantamento nacionalista. Eu tinha sete anos e morava em pleno musseque Sambizanga. Na tarde do domingo seguinte, quando ia com a minha irmã, a minha mãe e o meu pai passear, assisti à fúria de uma pequena multidão de brancos, a que se juntavam também alguns africanos, que perseguiam outros africanos que tomavam por suspeitos de ser o que então se chamava “os turras”.

Esses pobres de Cristo foram espancados de forma miserável, a murro, à paulada, e não me esqueço porque não me posso esquecer, de ver a parte rija de um ramo de palmeira a escorrer sangue. Em frente à Casa Branca, tentando fugir pelas barrocas da Boavista, que desciam em direcção aos caminhos-de-ferro e ao Porto de Luanda, esses homens, rapazes ainda, escolhidos aleatoriamente pela multidão justiceira, revoltantemente burra como todas as multidões justiceiras, sangravam, eram atirados ao chão, espezinhados, e eu não sei se houve ou não mortos, porque a minha santa e aflita mãe me tirou logo dali, correndo comigo os 300 metros que nos separavam de casa.

Nesse quentíssimo domingo à tarde, soube, visceralmente, na minha cabeça, coração e estômago, que nunca deveria estar do lado da multidão justiceira. A multidão justiceira é cobarde, é burra e é cega. A multidão justiceira envergonha a humanidade que há em nós.

Catorze anos depois, eu era vagamente maoista, um independente sem facção, militante do MPLA, no Lobito, de onde as Fapla tinham expulsado a Unita. Mas a Unita trouxe o exército sul-africano e as ordens foram para retirar. Um jovem comandante apenas, o comandante Kassange, radical e maoista, decidiu ficar. No dia 10 de Novembro de 1975, tinha eu 22 anos, com um ex-capitão do exército português e mais dois amigos fomos a Benguela convencer Kassange a retirar e vir connosco.

Em frente à modesta sede que então o MPLA tinha, Kassange, belo, poético e mítico como um Che Guevara angolano, os obuses a rebentar para o lado do aeroporto, disse-nos que ficaria e que, sozinho, com meia dúzia de velhos e adolescentes, se meteria à mata para fazer de novo a guerrilha, a guerra popular prolongada. Era um gesto quixotesco, sem valor prático, ditado pela obsessão ideológica. Kassange não sobreviveu e ainda hoje essa morte é matéria de especulação. O ânimo e a inteligência de um Kassange vivo fazem muito mais falta ao povo angolano do que que a inglória saudade de um pequeno mito morto.

Nessa tarde de 10 de Novembro (ou foi mesmo a 11?), a olhar para o belo rosto convicto de Kassange tive a segunda grande lição da minha vida, a de que a convicção ideológica, quando se extrema e nega a realidade, na sua gloriosa radicalidade, gera apenas dor e sofrimento.

Não sei em que noite foi, mas foi no final de Setembro de 1976, o MPLA no poder e a Guerra Civil no auge, numa casa de um selecto bairro de Luanda, num convívio com altos quadros do MPLA no poder, um piloto militar angolano contou, e eu ouvi, como bombardeara um aldeamento da Unita com napalm, fechando com a frase: “Arrasámos tudo. Deixámos aquilo mais liso do que um campo de futebol”. Os inimigos que acabara de exterminar eram angolanos como ele.

Fechava-se, naquele bombardeamento de napalm um ciclo começado com o bombardeamento que o colonialismo português fizera na baixa do Cassange e com o uso de napalm pela força aérea portuguesa no tempo do General Costa Gomes. A minha terceira lição angolana é a lição amarga de que, opressores ou libertadores, em nenhum consigo encontrar qualquer forma de superioridade moral.

Foi também por causa destas três lições angolanas e porque quis ir às raízes dos conflitos que se viveram em Angola de 1974 até ao Maio de 1977, mas que se viveram e ainda hoje fazem eco também em Portugal, que eu escrevi Revolução de Outubro, cronologia utopia e crime, sobre a revolução russa.

Julgo que foi o meu primeiro e provavelmente último livro político. Escrevi-o para tornar claro na minha cabeça que a forma populista como os bolcheviques fizeram a revolução – ou, no meu entender, a contra-revolução – criou a matriz que veio a infectar e moldar o modelo revolucionário, que foi totalitário e não-democrático em todo o mundo, e que uma parte do cortejo de debilidade estrutural económica, sofrimento e atraso de Angola vem também da matriz marxista que esses revolucionários angolanos vieram beber a Portugal e à Europa nos anos 50.

Ou seja, é uma tremenda e infeliz ironia que, do vasto património cultural europeu, da filosofia, da ciência, da literatura, das artes e do nosso humanismo, por razões várias, por causa de uma conjuntura maniqueísta, os revolucionários independentistas se tenham cristalizado numa ideologia ligado a um pensamento dito crítico que é, afinal, incapaz de agregar os povos, construir riqueza e desenvolver as nações.

Essa ideia revolucionária, que vem de Outubro de 1917, é fortemente atractiva porque parece muito funcional e lógica. Divide o mundo de forma maniqueísta em bons e maus, em classes antagonistas que, por um fatalismo pretensamente científico, se têm de confrontar até que uma seja exterminada. Foi a pior herança que o Ocidente podia ter proporcionado aos povos que legitimamente ansiavam pela sua liberdade. Eu julgo que, a par de outros passos mais imediatos e concretos, um passo refundador que os angolanos também terão de dar é o de revisitar a herança da colonização com instrumentos que não sejam apenas os desse velho e embotado maniqueísmo.

Foi também esse debate que pretendi suscitar ao escrever o meu livro, é esse o debate que pretendo prosseguir com a publicação de livros de autores angolanos ou com temáticas angolanas.

Mas acima de tudo espero que as novas gerações angolanas, os miúdos que agora crescem a ler nas mangueiras de Luanda, do Lobito ou do Cunene, me venham bater à porta com livros escritos por eles, livros que sejam a redenção desse nosso mundo de ideais que desembocaram, para nossa amarga desilusão, no totalitarismo, na tortura e num sangrento morticínio.

E não posso, nem quero, ser injusto com os mais-velhos. Há hoje, com a presidência de João Lourenço, ou por causa dela, uma vaga de mais-velhos que podem ou querem voltar a falar e que trazem experiências e reflexões ditadas por uma experiência.

Espero que, cumprindo a vocação mais nobre do livro, os livros de todas as gerações de angolanos nos restituam o que um dia ouvi da boca da minha mãe: ritmo e harmonia das palavras, invenção de sentidos, o gigantesco prazer de criar personagens, aventuras e um céu e terra de liberdade.

Prova Oral, pois claro

alvim

Já tinha feito alguns exuberantes programas com o Fernando Alvim. Dois lançamentos de livros meus foram objecto de emissões em directo da Prova Oral e tenho deles muito boa memória. Mas nunca tinha ido ao local do crime. Desta vez, para falarmos do Pequeno Livro dos Grandes Insultos, visitei a Caverna de Ali Babá do Alvim (acompanhado pela Catarina Mourão), e o resultado foi o que podem ver e ouvir aqui. Ou, se não quiserem ver, e só usar como música de fundo, também está aqui, no podcast da Antena 3.

Não se aconselha almas mais sensíveis.

 

Natalie, vens à Fnac?

O meu amigo Emílio Guilherme, que para mim será sempre Emílio Cosme, seu nome de pena nos programas Equipa, na Emissora Católica de Luanda, chamou-me a atenção para esta catolicíssima imagem de Natalie Wood. Catolicíssima de tão universal e bela, está claro. (Que calcanhar tão bonito, Natalie!)

Natalie

Quem me dera que Natalie Wood pudesse vir assistir amanhã, 2ª feira, às 18:30, na Fnac Chiado, em Lisboa, à conversa sobre um livro de insultos. A conversa vai ser brejeira, cheia de palavrões torpes de tasca, mas vai, tenho a certeza, estar cheia de alegria, de surpresas, de jogos de palavras, trocadilhos e de lengalengas como o célebre “O amor é uma cobiça, que entra pelos olhos e sai pela piça”.

Dois professores que dominam tudo da língua portuguesa, um poeta de raiz angolana, e um jornalista e autor – aliás, autores são todos – vão oferecer-nos a mais libérrima sessão de apresentação que um livro pode desejar. A língua portuguesa vai andar ali, de boca em boca, num desvario sem tabus. Venham. Convidam-se os participantes a insultar o editor, o autor e mesmo os apresentadores. Vens, Natalie?

convite