É de Marx, um belo livro

Já se sabe que se é da Guerra e Paz eu publico sempre!

Em 2016, a Guerra e Paz publicou, por serem livros que serviram de bandeira ideológica a grandes movimentos nacionalistas ou internacionalistas, uma trilogia que incluiu o Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, o Mein Kampf, da Adolf Hitler, e o Pequeno Livro Vermelho, de Mao Tsé-Tung.

Os três livros foram precedidos por estudos críticos, situando historicamente o papel de cada um deles e as consequências, todas elas trágicas que os movimentos políticos, que deles se reivindicavam ou reivindicam, acabaram por gerar.

Curiosamente, essas edições críticas tiveram uma extraordinária receptividade junto dos nossos leitores, obrigando a editora a reeditá-los. É esse êxito que vamos recordar nos próximos dias, trazendo aqui excertos dos textos críticos que os enquadram, a começar pelo Manifesto Comunista.

No texto de introdução de Manuel S. Fonseca lê-se:

«Publicado originalmente em língua alemã, o Manifesto coincide com a Primavera dos Povos, fogueiras da revolta a arderem por toda a Europa, com revoluções na Alemanha, França, Itália, Império Austríaco, Hungria, Polónia, Ucrânia, Dinamarca. O Manifesto não foi o rastilho dessas revoluções, cujos agentes não o podiam ainda ter lido. O texto de Marx, participando do ar dos tempos e exprimindo a sua Angst, era um texto ilustremente desconhecido das massas  revolucionárias que protagonizaram essas insurreições, com excepção de parte dos  revolucionários e operários alemães que, esses sim, podiam ter acedido às teses de Marx, fosse na edição em livro referida, fosse nas diferentes edições do jornal Neue Rheinische Zeitung, editado por Marx. Extintos os fogos e os ímpetos revolucionários de 1848, parecia ter-se apagado a luz do Manifesto. Durante duas décadas não teve mais leitores do que o mais obscuro poema de Hölderlin. Tudo indicava que o «comunismo crítico» corria o risco de se converter numa peça política e filosófica que a História varreria para debaixo do seu obtuso tapete.

Foi outra revolução a dar gás, ou carvão (metáfora talvez mais adequada à nascente Revolução Industrial), às teses de Marx e Engels. A praxis precedeu – ou pelo menos legitimou – a teoria. Em plena Guerra Franco-Prussiana, as massas populares parisienses, sentindo-se traídas pela capitulação do Governo francês perante o exército invasor, sublevam-se, submetendo a Guarda Nacional, e instauram, a 18 de Março de 1871, o primeiro governo operário da História, a Comuna de Paris. Sonho, utopia, grito de sofrida e patriótica revolta, a Comuna de Paris teve vida curta: 62 dias que acabaram num rio de sangue e morte. As tropas francesas, feito o armistício com os alemães, assaltaram Paris, a 21 de Maio, e mataram 20 mil dos seus cidadãos, prendendo outros 40 mil, muitos dos quais viriam a ser executados, numa semana de barbárie e pesadelo.

Marx foi um incansável paladino da Comuna. Por essa altura, o filósofo era membro da Primeira Internacional, integrando o comité central, e já publicara O Capital, mas sobretudo a Contribuição para a Crítica da Economia Política, que fora um enorme êxito teórico e editorial. Com a defesa da Comuna, Marx avalizou e procurou dar corpo teórico à insurreição violenta e armada que, bandeira vermelha ao fresco vento de Paris em Março, se converteu no primeiro governo da História a declarar que exercia o poder «representando o interesse dos trabalhadores». No ano anterior, com a Guerra Franco-Prussiana em curso, Marx incitara os trabalhadores a apoiar o governo burguês republicano que, em Setembro de 1870, depusera Napoleão III. Menos de seis meses depois, a rápida evolução dos acontecimentos leva-o a dar suporte teórico à tomada revolucionária do poder. E o Manifesto voltou a ser lido.»

E mais adiante:

«Movido por uma concepção materialista da Histó­ria, o Manifesto apresenta, e esse é um dos elementos que permanece válido hoje, uma análise que nos mete pelos olhos dentro o dinamismo das relações de produ­ção capitalistas e as suas conquistas civilizacionais. (As viagens marítimas portuguesas são uma dessas con­quistas – com referência explícita de Marx à passagem do cabo da Boa Esperança.)

Outro elemento surpreendente para o leitor actual é ver como hoje, muito mais do que em 1848, é certeira a descrição de um mercado global, com o desapare­cimento de fronteiras e com um desenvolvimento ini­maginável dos transportes e das comunicações. Marx é mais profeta e mais visionário do que os poetas, do que um Blake, por exemplo: em 1848, o profeta Marx teve uma visão perfeita da actual globalização. Parecia estar a falar do presente e estava, afinal, a descrever o futuro.

Onde é que as previsões do Manifesto falharam? Clamorosamente, na previsão de uma queda próxima do capitalismo, que Marx via exangue e à beira de uma crise que uma revolução à escala europeia se prepa­rava para varrer. Falhou, por isso, a previsão da vitó­ria inelutável de um proletariado ao que o capitalismo reservaria apenas um futuro de pauperização. Mesmo o carácter revolucionário (e redentor) do proletariado, como Marx o via, não se cumpriu e, se uma parte do proletariado engrossou as hostes dos partidos co­munistas, ao longo do século XX, largos e maioritários segmentos da classe operária fizeram escolhas refor­mistas, militando em partidos que, para usar uma ex­pressão portuguesa recente, são do «arco da governa­ção». E grande parte dos «10 mandamentos» que são as reivindicações de Marx no Manifesto foram reali­zadas, sem sangue, pelas democracias parlamentares que estes partidos reformistas criaram.»

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Livros que queremos oferecer

Diz-me o editor da Guerra e Paz que eu devo oferecer estes livros. A quem gosto, sublinha ele. Por acaso – mas só por acaso – não acho mal pensado e passo a palavra.

É que nem lhe vou falar de Natal. E como estou na dúvida, se devo falar de amor ou se devo falar de amizade, deixe-me falar de afinidades electivas, essa relação que temos, na fímbria do amor e no coração da amizade, com aquelas pessoas com quem queremos falar horas, mas com quem poderíamos estar, em silêncio, uma tarde inteira, tanta é a proximidade ou a harmonia que essa proximidade nos traz.

É com essas pessoas, com essas afinidades electivas que queremos partilhar sentimentos e emoções. Deixe-me, como editor da Guerra e Paz, sugerir-lhe que ofereça livros, e que esses livros sejam livros com sentido e gosto estético, livros que irradiam harmonia e equilíbrio.

Tem sido essa uma das linhas editoriais da Guerra e Paz: fazer livros que apelem, desde o primeiro toque, pela capa, pelo papel, pela combinação de texto e imagem, à alegria, à emoção, fazendo-nos sentir melhores.

Porque são muito bonitos, porque têm textos belíssimos, ofereça estes livros. Temos até uma hierarquia. Ora veja:

Se quer impressionar, arrancar uma exclamação, escolha a originalidade visual em meia caixa de madeira e a dimensão da edição em cinco línguas da Tabacaria, com uma colecção de fotografias contemporâneas da Baixa de Lisboa, onde Pessoa escreveu, a fingir que era Álvaro de Campos, o mais belo poema do século XX português. Ou escolha a irreverência erótica, que vai da capa ao texto e à pintura que o acompanha, de O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena.

Se quer uma prenda clássica, toda harmonia e sem sobressalto, a prenda certa é Contradança, Cartas e Poemas de Camões, reunindo as cartas do nosso maior poeta e as ilustrações do espião holandês Jan Huyghen van Linschoten. Ou então o sereníssimo pequeno livro que Vasco Graça Moura escreveu sobre Os Retratos de Camões, tão elegantemente ilustrado. E ainda, tocando uma sensível temática contemporânea, o belo Muros, livro em que José Jorge Letria, nos leva, em peregrinação aos muros que a humanidade que somos tem erguido ao longo dos séculos.

Há uma prenda inclassificável, porque é clássica e é turbulenta, tem humor e tem sentimento: dar os belos livros que fizemos com Agustina: a originalíssima autobiografia, repleta de fotos, que Agustina escreveu para a nossa editora, O Livro de Agustina, ou as 15 narrativas, Fama e Segredo da História de Portugal, de Afonso Henriques a Salazar, em que Agustina nos conta, à sua maneira sublime e transgressora, os segredos e mistérios da nossa História, livro que temos em formato grande e formato pequeno.

Há prendas mais ousadas? Há! Ambos com as faces do miolo pintadas à mão – a vermelho, claro – há dois livros que apertarão ainda mais a estreita relação que já tenha com essa afinidade electiva que não vamos agora nomear. Mostre que tem gosto e que tem um vigor rebelde, oferecendo O Bordel das Musas, ou as nove donzelas putas, um livro de delicado erotismo, de um poeta morto na fogueira em Paris, Claude Le Petir, e que João Cutileiro ilustrou com ainda mais delicados desenhos originais.  Ou ofereça, uma das antologias de Fernando Pessoa – a mais original que já fizemos – que tem um título simples, Minha Mulher, a Solidão, mas cujos segredos estão à mostra nos dois amplos subtítulos; Conselhos a Casadas, Malcasadas e Algumas Solteiras, com um segundo livro concupiscente de corpo nu.

Bem sei, vai dizer-me que são livros de luxo, com preços incomportáveis. Teria razão, não se desse o caso de o Américo Araújo, responsável comercial da Guerra e Paz, ter decidido, num acto radical, oferecer estes livros com 50% de desconto. O mais caro de todos fica agora a 37,5€ e há livros ao escandaloso preço de 10€, talvez até menos.

E peço desculpa, mas insisto: o maior aliciante para comprar estes livros é uma combinação que nos enriquece: são muito bonitos e são, por mérito dos seus autores, muito bons.

Assim Nasceu uma Língua

Foi esta sala cheia que recebeu o livro de Fernando Venâncio que nos obrigar a revisitar as origens da língua portuguesa. Que língua é a nossa língua, de onde vem, em que concubinagem se entreteve ao longo de séculos e aonde, agora, vai?

Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio é, arrisco dizer, eu que sou o editor e parte interessada, o livro do ano.

plateia

A mesa, sorridente, foi esta: Susana Santos na ponta direita, o autor, Fernando Venâncio a segui, ao seu lado a Professora Esperança Cardeira, que apresentou o livro com o meu outro querido autor Marco Neves, e eu aqui, na extrema esquerda, a dizer disparates.

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Com o meu autor, Fernando Venâncio, na minha mão esquerda um livro, Assim Nasceu uma Língua, que já está nas livrarias portuguesas e galegas. E tu, Espanha ingrata de que estás à espera?

Venancio

O peixinho vermelho

peixinho
o meu peixinho leitor

Bica Curta servida no CM, 4.ª, dia 28 de Agosto

Ia falar do peixinho vermelho, mas falo antes de livros. Na América, 50% dos livros são comprados online na Amazon. Os leitores desertaram da livraria. Há menos leitores e não há leitores jovens. E agora sim, falo do peixinho vermelho. Os neurobiólogos fixaram o tempo de atenção das gerações formadas pela net: é de nove segundos, mais um do que o tempo de atenção do peixinho vermelho. O livro, em papel ou digital, perdeu a batalha dessa economia da atenção.

Sem leitores, livrarias exangues, os editores caem e a indústria do livro morre. A indústria cala-se, envergonhada, mas em Portugal já é pelos livros que os sinos dobram.

Um livro vermelho (outro)

red
A singela capa do livro

Parece que os espertos do marketing dizem que quando não se consegue fazer uma coisa boa, faça-se pelo menos grande. E se não se consegue grande, faça-se vermelha. Graças a Deus. (Que, se existir, é de certeza bom, grande e vermelho, acrescento.)

Este meu lindo livro (e de vez em quando dá-me para falar deles) junta, nos seus 15,5 por 22 centímetros de envergadura, que, para o que é, não é grande, duas qualidades: é bom e é vermelho.

“Red”, escrito por Stéphanie Busuttil-César, é uma pequena jóia para os olhos. Capa dura revestida a tecido, é vermelho por todos os lados por onde se olhe. Na capa vermelha tem gravadas, em baixo relevo, as letras RED, a vermelho, e a vermelho foi pintada a superfície exterior das folhas do miolo. Não é um livro, é a perfeita capela celebratória da mais bela e convulsiva das cores.

Abre-se e tem pouco mais de 10 e convictas páginas para nos dizer o que nosso cérebro nos diz sempre que vemos uma coisa vermelha: “Agarra essa coisa, agarra-a depressa, mesmo que ainda não saibas para que serve, agarra-a porque é vermelha.” A partir daí e até à página 300, o livro é um festival de imagens reproduzidas num papel creme, de 150 gramas. Pintura, fotografias, é uma generosa e vermelha iconografia que atravessa os tempos, a geografia e os géneros.

Gosto tanto que não consigo dizer mais nada. Prefiro mostrar-vos três, apenas três das mais gloriosas expressões de que, vermelho, o vermelho é capaz.

Sandy
Esta imagem da americana Sandy Skoglund
é um portento de luxo, erotismo e teatralização.
Christo
Valley Curtain é uma soberba intervenção de Christo.
Megalómana, sumptuosa, gloriosa explosão
do vermelho no rosto da paisagem.
Claude
Claude Lêveque imaginou esta instalação.
Tem toda a razão

Livro à chuva molha-se

 

3D Book Banqueiro

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 2 de Julho

Que bom é tirar o cavalinho da chuva. É tudo culpa deles. Mas eles não somos nós? Um exemplo, os governos de Sócrates, Passos Coelho, Costa são “eles” ou somos “nós”? Não fomos “nós” a dar-lhes a bica cheia do poder?

 Escrevi, há dias, que o livro está a morrer. Vieram consolar-me culpando os poderosos. Ah, caneco: “Eles!” Ora, o livro está a morrer é mesmo por “nós”. Todos. Por não lermos, por não irmos às livrarias comprá-lo. Nós mudámos e na mudança a leitura deixou de contar. Não foram “eles” que proibiram, somos “nós” que não lemos. Se achamos que perder o livro é uma catástrofe, somos “nós” que temos de parar o terramoto.

O livro tem de se casar com o futuro

estante

Comunicação feita hoje no Encontro de Escritores da
VII Bienal de Culturas Lusófonas,
organizado pela Câmara Municipal de Odivelas

A minha presença neste encontro de escritores que integra a VII Bienal de Culturas Lusófonas é um bocadinho ambígua. Diria que a minha presença, como se dizia das antigas lâminas gilette, dá para os dois lados, o lado de editor e o de escritor. Mas, é claro, se experimentarmos os dois lados da lâmina, dá mais para um lado, o lado do editor, do que para o outro, o lado do escritor. E é sobre o lado mais cortante, o de editor, que eu gostaria de vos começar a falar, escolhendo um ângulo da minha acção, o da publicação de autores angolanos.

A Guerra e Paz editora, casa editorial que dirijo, não está exclusivamente vocacionada para a publicação de autores angolanos, mas, a pouco e pouco, a fileira de livros assinados por angolanos começou a engrossar e faz já uma boa estante.

Vejamos, além da publicação de autores com carta de condução tirada há muitos anos, e que tanto podem conduzir veículos de duas rodas, como é o caso de poemas ou contos, como veículos pesados como o romance longo, eu publiquei já Manuel Rui, lançando um  inédito, O Kaputo Camionista e Eusébio, e relançando, numa edição de que me orgulho, o clássico e soberano Quem Me Dera Ser Onda.

Publiquei também a ficção de Jonuel Gonçalves, A Ilha de Martim Vaz, e um poeta, José Luis Mendonça, de cujo Angola, Me Diz Ainda, gosto muito.

De uma geração intermédia, publiquei, de Adriano Mixinge, um livro polémico e feroz, que ganhou o Prémio Sagrada Esperança, O Ocaso dos Pirilampos.

Mas dei também voz a uma nova geração, publicando, dois livros de duas mulheres. Um é o Guardados Numa Gaveta Imaginária, a poesia delicada e sensível de Tchiangui da Cruz, um nome que vos convido a guardarem. O outro, um romance, é o da muito jovem Yara Monteiro, Essa Dama Bate Bué.

Ontem mesmo, lancei um romance, Assim Escrevia Bento Kissama, da autoria de Carlos Taveira (Piri), autor de nacionalidade inclassificável, por pertencer a essa diáspora provocada pela violenta repressão que em 1977 atingiu uma vasta camada de jovens esquerdistas angolanos.

E, em breve, publicarei, de Onofre dos Santos, escritor e juiz-conselheiro jubilado do Tribunal Constitucional de Angola, um romance distópico, com laivos de Blade Runnner, Lenguluka, Crónica de um Amor a Grande Velocidade, que retrata uma Lisboa partilhada por vastas comunidades lusófonas com governos autónomos.

A essas incursões ficcionais, e porque a vida do livro vai além da literatura, contemplando a informação, as memórias, a História, o debate, junta-se um esforço na publicação de ensaios, onde se incluem livros dos jovens revus, que há uns anos José Eduardo dos Santos mandou encarcerar,  Domingos da Cruz e Sedrick Carvalho, e também os ensaios de Jonuel Gonçalves, Adriano Mixinge, Leonor Figueiredo, o embaixador Mário Augusto e Margarida de Almeida, culminando na publicação de uma Breve História de Angola, do historiador David Birmingham e, em breve, a publicação das memórias de Miguel Nzau Puna.

Este é, resumido, o meu esforço como editor, a minha forma de manter o amor a uma Angola onde cresci, desde os 5 anos, e a que devo os prodígios da minha infância e adolescência. Esse é o meu contributo para que floresçam mil vozes e vozes geracionalmente diferentes e para que, nessa pluralidade de escritores e de gerações, uma literatura se afirme.

Mas, de uma forma realista e serena, tenho de vir aqui deixar-vos um sinal de alarme. Há duas espadas, espadas de Dâmocles, que pairam sobre a cabeça dos meus autores e sobre a cabeça de todos os autores.

A primeira, extremamente grave, é a que ameaça o livro – todos os livros – em todo o mundo e que é muito sensível em Portugal. Quero que saibam que não me venho aqui chorar e de mão estendida. O que vou dizer é apenas uma reflexão pessoal, feita com toda a serenidade. Dito de uma forma simples: hoje, a esmagadora maioria dos livros que são apresentados a um editor são economicamente inviáveis. A cadeia de valor do livro está exangue. A cadeia autor-editor-livraria-leitor quebrou-se.

A distribuição, o que inclui as livrarias, pratica descontos que esmagam a margem que deveria estar destinada ao editor que, por sua vez, não consegue recuperar os custos e remunerar o autor. Ou seja, o modelo de edição clássica, com investimento pleno do editor, é hoje impraticável, sob pena de o lançar na insolvência.

Mas, pior ainda, a jusante, o grande oceano que os leitores representavam, esse grande oceano a que todos os livros podiam ir desaguar, está bloqueado por um circo, um gabinete de admiráveis e novas atracções, que estão a criar um novo paradigma. Digital, entenda-se

Para começar um novo paradigma de entretenimento: mais rápido, de gratificação quase instantânea, e aparentemente gratuito, um paradigma que pede apenas uns instagramáveis 30 segundos do nosso tempo, três abreviadas linhas de tuíter, o flash de um vídeo. O que culmina, é claro, num novo paradigma de atenção que não contempla a necessidade de concentração e de isolamento que a leitura do livro exige.

Eu estou pessoalissimamente alarmado, se assim se pode dizer. Este cenário invade os meus sonhos e quando acordo editor, e infelizmente é a maioria dos dias em que acordo, acordo banhado em suores frios. E reparem bem, eu tenho pelo livro uma admiração de menino e uma devoção de beata. O livro é uma tecnologia de uma beleza botticelliana. O livro encaixa na mão e converte-se numa extensão do braço com a sedutora graça de uma Michelle Pfeiffer, de tal forma que os olhos pousam nele derretidos em beleza e consolação. Foi o livro e não a espada que inventou a mão e o braço humanos. Foi o livro e as suas letras e não a luz do céu que inventou a íris e o olho humanos. Eu acredito com uma vontade de Hércules que a beleza e a inteligência desta tecnologia é imperdível.

Mas para que ela persista temos de dar novos mundo ao mundo que o livro criou. A forma de editar livros, a actividade do editor e a do escritor, tudo terá de ser repensado, se quisermos ressuscitar o leitor. Podemos chorar o leitor morto como Maria e Marta choraram sobre o cadáver do irmão Lázaro. Eu não sou, neste caso, pelo irremediável luto consolador.

Quero, pelo menos neste caso, acreditar na ressurreição dos leitores mortos, mesmo os do nados-mortos, e do livro que há de vir. Temos de inventar um Cristo milagroso que faça o livro regressar, de outra forma, com outro esplendor.

Não me atrevo a dizer-vos, por falta de imaginação como casaremos o livro com o futuro, que livro será o livro do futuro, onde se encontrará, como vai ser vendido e lido, ou se o livro do futuro é gratuito. Creio que um primeiro passo é torná-lo ainda mais belo, pintando-lhe as três faces do miolo, por exemplo, como eu fiz ao meu Livro dos Grandes Insultos. Talvez seja necessário deixar que as imagens, como outrora as esplendorosas iluminuras medievas, invadam, como novos migrantes as páginas do livro, o que eu procurei fazer neste meu Revolução de Outubro. Mas será este o caminho ou este é só um paliativo?

Eis o que penso: já pensava e continuo a pensar, com a obstinação de um fanático, que a grande chave é o escritor. Hoje, temos perante nós uma proliferação de autores que pulverizam o velho edifício a que um dia chamámos literatura.

Perdoem que vos diga, mas a maioria desses autores cultiva as diversas facetas da chamada indústria cultural. A maioria desses livros vive a expensas de pequenas clientelas clânicas ou tribais, como lhe queiramos chamar.

Uma boa parte desses livros cavalga a episódica tendência do momento, uma boa parte desses livros é apenas muleta dita criativa para uma tendência ideológica ou identitária ou política. Nada tenho contra essa vocação ancilar, essa vocação de serviço, na qual a literatura como outras artes tenha a fraqueza ou o pretenso idealismo de cair.

Mas não foi essa a grandeza que fez a literatura, o escritor e o livro. A grande causa da literatura é a literatura. A grande tradição do livro e do escritor é a sua irremediável solidão e autonomia.

Foi dessa solidão e imperial individualismo que os grandes escritores arrancaram as obras que criaram o nosso imaginário de liberdade, de apelo cósmico, de irrealizáveis sonhos e utopias.

Não sei se seremos nós ou se estão para nascer os escritores que arrasem todas as nossas certezas e que nos encham de violentas angústias, que povoem as nossas cabeças com terras de leite e mel, inventando outras formas de epopeia, qualquer coisa que sejam as novas tragédias sofoclianas, outras formas literárias que estilhacem a velha forma do romance, a velha forma do poema, fazendo ressuscitar as lendas, os relatos, as futuras narrativas universais que exaltem os nossos filhos e os nossos netos, voltando a pôr, neste jogo de tronos que é a vida contemporânea, a coroa na cabeça da literatura.

Eis aquilo em que acredito, no valor do que é universal. Eis o que as nossas literaturas lusófonas têm de ser: universais.

E como é que se chega ao futuro? Não tenho o segredo, talvez ainda ninguém o tenha, mas para se chegar la´, é preciso caminhar pela via da humildade, confiando nessa pequenina jóia que é a palavra, fazendo depois, com essas palavras, o colar que é a frase.

Começa nessa humildade, no regresso à confiança no humaníssimo valor da palavra, o caminho que pode ressuscitar a heróica magia que fez Ilíadas e Odisseias. Só por essa amorosa humildade regressará o aroma a céu de versos como Alma minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida descontente. Com uma certeza, a certeza de que outros serão os livros, outras serão as formas, outras serão as palavras.

Que felicidade se algum de nós ou do nosso tempo for esse escritor!