O VAR

Guardiola
Com a devida vénia foto do Evening Standard /Reuters

Eis o que é o VAR: um tira tesão. Como hoje viu quem quis ver um grande jogo de futebol e pôs os olhos no Manchester City contra o Tottenham. Estava 4 a 3 e o City precisava de um golo para assegurar a passagem às meias finais da Champions. E marcou. Os jogadores explodiram de alegria. Encostado à linha lateral, Pep Guardiola, o treinador do City, saiu de si mesmo, arrebatado, como quem acabasse de ver a face de Deus. Correu, saltou, um rosto eléctrico, relâmpago de felicidade. E veio o VAR. E agora veja-se, e só me sai esta analogia de carácter, digamos, sexual. Nem é bem dizer que “ai, ai, ai, tira, tira, tira”. O VAR supõe, e quer forçar-nos a acreditar com pretensão científica, que  nunca esteve onde esteve o que já esteve lá dentro. É o anti-clímax, a negação da emoção, uma imposição contra-natura. 

Não me azucrinem os ouvidos com a verdade. Um cagagésimo de Aguero estava offside, num instante em que nem o avançado do City, nem os defesas do Tottenham, previam que voltasse a eles a bola que já ia para o meio do campo do City. Aquele cagagésimo de Aguero, o mais esticado dos seus pêlos púbicos, não interferiram verdadeiramente na jogada, cuja verdade, diga-se, é a beleza da coisa, a arquitectada emoção do ressalto e a combinação que se segue – quando Aguero e os defesas adversários reagem já não há o fora de jogo que tecnicamente existiu quando eles estavam fora de acção.

Qual é então a verdade?A verdade do futebol tem de ser igualzinha à verdade da poesia. Que raio de verdade é que há nestes versos, “Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. / Seus ombros beijarei, a pedra pequena/ do sorriso de um momento”? Ou nestes “April is the cruellest month, breeding / Lilacs out of the dead land”? Uma só verdade: uma danada e inexplicável emoção que resulta da fricção das palavras. A emoção do futebol é a sua fricção. O VAR é uma vaselina a posteriori. Valha-me Deus, não se negue o que, ganha a posição, perna a dobrar outra perna, carne na carne,  já esteve lá dentro.

 

A inenarrável beleza de Orpheu

Sou franco, só sei que escrevi esta prosa a roçar o indecente em 2015. Mas não sei porquê ou para quê. E nem sei se a publiquei em lugar algum. Publico-a, agora, por falar de Notre Dame de Paris. Ou melhor, de Nossa Senhora de Paris. Nem é bem o que estarão a pensar e espero que ninguém se ofenda: PIM e PUM.

Orpheu.jpg

Orpheu

O que é ou foi “Orpheu”? É preciso esclarecer o pessoal que frequenta cervejarias, é preciso esclarecer o português que anda indeciso entre o Uber e o táxi canónico. “Orpheu” era uma revista de poesia. Era uma revista e lá dentro, nas páginas (por de páginas e de papel se fazer uma revista, que é como um livro, mas mais molinho), havia textos, coisas escritas. É bom dizer isto porque muita incauta gente, apanhada distraída, pode pensar que “Orpheu” era uma ONG, uma coisa parecida com a “Abraço”, ou um partido político desasado. Mas não, “Orpheu” não é o CDS ou o PCP, que seriam, talvez, os partidos políticos que os portugueses conhecem mais próximos de um ideal poético. E, no caso de “Orpheu” ser poesia, então o Bloco de Esquerda – PUM – é a coisa mais anti-poética que pode haver: PIM! PAM! PUM!

Salazar e Cunhal foram, no século XX, os políticos mais próximos de um ideal poético. Porque, à poesia, quando lhe dá para a puta de um ideal, logo descamba para o totalitário, para palácios de inverno e noites de cristal. Mário Soares e Francisco Sá Carneiro foram os únicos políticos que tivemos que podiam ser esparramados na capa de um romance. O romance são 200 ou 800, 400 ou mil páginas de gente cheia de dúvidas, gente persistente e estraçalhada de pecadilhos, mas com uma humanidade que enternece, homens e mulheres fiéis até no ledo, doce e amoroso engano. Mas isto não interessa nada, porque “Orpheu” não é um romance, por muito que em prosa sejam certos poemas de “Orpheu”.

É preciso que as pessoas tenham ideia de que a poesia são palavras em fogo e que palavras em fogo não são, necessariamente, a coisa mais próxima da verdade. No romance, as palavras são mais brandas e macias, e pode muito bem um brutal substantivo deixar-se ficar de beicinho caído por um subtil adjectivo. Para já não falar de advérbios ou de um pretérito mais que perfeito. E já me perdi, e já reconheço o engano, como o ouriço-cacheiro, que dizia “Qualquer um se pode enganar”, descendo, desalentado, da escova do cabelo. Sim, quando não se fode é melhor sair de cima.

Gostava também de dizer que “Orpheu” é uma coisa da língua para fora. A língua serve para tudo. Para andar por aí – ai, ai, a fazer queixas, ui, ui, a lamber botas! Falada, é portuguesa, a língua de milhões de uma malta de carne e osso que na sua esmagadora maioria nem é portuguesa. “Orpheu” para ser portuguesa foi também brasileira, porque nada é português se não for ao mesmo tempo outra coisa.

“Orpheu” nasceu em Portugal ainda havia um czar na Rússia. Nessa altura, bem esticada e indecente, pusessem os poetas de fora uma língua portuguesa, uma língua russa ou francesa, queriam e não queriam czares. Os poetas nunca sabem o que querem e isso, às vezes, pode ser mesmo muito chato. O poeta sonha com um czar onde o não haja e odeia o czar que houver. Viva o Czar, puta que pariu o Czar. O poeta é tão contraditório que tropeça nos próprios sapatos e só não tropeça nos atacadores porque o poeta de “Orpheu” não estava autorizado a usar atacadores para não se suicidar.

O poeta de “Orpheu” suicidou-se, aristocrático, em Paris. Enterrou-se no seu esoterismo e exilou-se nos salões sem janelas de uma beleza visceral, mental e palpitante, vestida a caprichos de cetim, que trazia, na cabeça, um roxo capacete de ferro.

“Orpheu” tinha sexo, o de Nossa Senhora de Paris, cheirinho a maresia. Cai-nos por ela, agora, um braço e, do lado da janela, velam pela Senhora três donzelas. Mas isto não é para meninos, nem meninas. Explodem tumultos nas ruas, assaltam-se as padarias de 1915 por causa do aumento do preço do pão e Pessoa & Campos, Mário Sá-Carneiro e Almada põem “Orpheu” de saias arregaçadas, a lavar as pernas da poeira das estradas. Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, ou não fosse “Orpheu” a nossa Ode Triunfal.

“Orpheu” acabou, “Orpheu” continua, “Orpheu” está adiado sine dia. E também eu sou dessa maravilhosa gente humana que vive com os cães. E bem vos digo: a poesia não faz sentido nenhum e é isso que faz a inenarrável, pasmosa beleza de “Orpheu”. O resto, as ceroulas de malha dos partidos, concubinos e ciganões, as munições de manguitos dos telejornais… Ora PIM, ora PUM.

Notre-Dame

NOTRE_DAME_FIRE

Este fogo do inferno queima e envelhece. Está a arder, ali, a parte de mim que é o meu muito amor a França, o meu muito amor a Paris. Já estive de olhos fechados naquela nave, hoje em fogo. Ali perto, já na margem esquerda, mesmo em frente, ensinava-se a dançar o tango num jardim – noite de cinzas, agora, nesse jardim.

Ao rei dos céus

To my brother, Victor Melo
he still prays – me too

Peço desculpa, peço desculpa, mas preciso de lavar a alma. Em canto e beleza, palmas, percussão, guitarra e voz. Confesso, com estes vilancicos desfaço-me em lágrimas: por não saber cantar.

É tão bonito este vilancico que Manuel Lombo, extraordinário cantor de flamenco, canta no altar maior da Catedral de Sevilha, na sensualíssima Andaluzia, tanto mais mística quanto mais carnal.

Estando la Virgen María
sola en su aposento 

haciendo oración.

Por la puerta se le ha entrado un ángel, 
vestido de blanco como un claro sol.
Y la saludó, y la saludó.
Porque la Reina del Cielo y la Tierra,
y madre de Cristo no la ha hecho Dios.

Vem um anjo – como um claro sol – e só nos apetece dançar com a Virgem, com Deus, com o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Vem o anjo e põe-se a noite clara, vem o anjo e logo o dia se converte em obscuro domínio.  

Peço desculpa, não quero escandalizar ninguém. Peço desculpa, muito menos me quero escandalizar a mim mesmo. Peço desculpa, mas já não me lembrava de ver nada tão profundamente religioso e tão profundamente erótico como estes vilancicos, o de cima e o de baixo, o que em cima celebra a entrega de uma mulher e o que em baixo cobre de mantillas, pañuelos, fajitas y corsés o menino meio nu. Derrama-se graça – llena de Gracia – e onde se derrama, lenta e densa a graça, ó noite buena, logo o corpo se transfigura e o corpo é o Rei da Terra e o corpo é o Rei dos Céus. Com palmas, requebros, guitarras e percussão, a voz que se tortura, as bocas femininas do coro que se abrem para não sufocar de calor e tensão, ah Virgem Maria, ai meu Deus, leva-me aos céus que eu já te dou a terra.

Ya le llevan al Rey de los cielos
Mantillas, pañuelos, fajitas y corsés
Porque vienen los fríos de enero
Y está en medio cuero
El niño Manuel

Também eu farei contigo o que queira Deus. Ah, e e um dia destes há de ser Natal.

P.S. – Como é que não percebemos que a melhor tradição católica – pintura, canto, poesia – é sublime por ser  pan-erótica?

O paraíso

joaquim Lopo
foto de Joaquim Lopo, com a devida vénia

Tive um vislumbre do que é o paraíso. Tinha vinte anos, uma das melhores idades para se ver o paraíso, e a primeira coisa que descobri foi que, no paraíso, Deus primava pelo absentismo. Não estava lá.

Não fui o único. Em verdade vos digo, tudo se passou numa noite de copos, antecâmara do paraíso, tanto mais que já era, nesse ano de 1975, na Luanda lagarta em metamorfose, minuciosamente difícil encontrar copos. Com argúcia científica e o faro dos predestinados, dois amigos meus tinham levado o velho Volkswagen negro de tasco clandestino em tasco clandestino, bebendo em bares sombrios os geladíssimos finos que abrem portas à fina areia da eternidade.

 A cidade de Luanda era um caos: paradisíaca e deliciosa ausência de lei a beijar os lábios da semi-anarquia. Os meus amigos a que, para salvaguarda da sua fortuna e bom nome, chamarei Simão e Mário, regressavam à Vila Alice, nosso bairro, paraíso instalado entre dois promontórios, albergando em simétrica oposição, dois figadais inimigos, o MPLA e a FNLA.

Conduzia o Simão e deixou o Mário na poética rua Eugénio de Castro. O Mário já abria o portão do quintal, quando, do nada, como só no paraíso acontece, viu emergir, à frente do velho carocha, metralhadora na mão, um jovem combatente, anjo ou semi-deus negro. “Komé Kamarada – disse ele, com os k todos, ao meu amigo Simão – tens de me levar no bairro Pica-Pau.” A metralhadora apontava, com celestial negligência, à cabeça do Simão, o que se deve entender mais como distracção do que como ameaça. Parlamentou-se. O Simão invocou mil perigos e as patrulhas na Estrada de Catete por onde teriam de passar. “E como é que o camarada se chama?”, rematou, com espírito conciliatório, a bonomia de um arcanjo bem bebido.

O camarada chamava-se Sempre Fixe, juvenilíssimo rosto resplandecente e suado, numa exaltação de quem acabou ler de uma assentada as incendiadas páginas do “Marriage of Heaven and Hell”, de William Blake. Por outras palavras, uma ganza como a minha mãe, Alice Fonseca, nunca me viu.

Já o solidário Mário voltara ao carro. Entrou para o banco traseiro, Sempre Fixe no da frente, metralhadora apontada ao condutor. E arrancam, quase três amigos, como se se conhecessem há 500 anos. “Komé Kamarada, vira só então a metralhadora para lá, pode ser?” Sempre Fixe, com calma seráfica, mete o dedo no cano e carrega no gatilho. “Não tem bala, isso não dispara já. Vamos no Pica-Pau buscar munição.”

E eis, ao longe, a primeira patrulha. “kamarada, acelera, então, não pára, não pára.” Pé no acelerador, o Simão passa pela patrulha portuguesa na 7ª esquadra, numa bisga olímpica, jamaicana. Talvez não fosse, de tão negro, um carro, terão pensado os soldados portugueses, a remoer saudades e um apropriado je m’en fiche, se esta fosse uma crónica francesa.

Nem um tiro, embrenham-se na poeira do musseque e já estão no centro do Pica-Pau, o Sempre em Fixe a saltar do carro e recomendação de mil cuidados, que no paraíso os amigos são mesmo para as ocasiões: “Vai já, camarada, vai já, aqui é perigoso. Tem cuidado.”

O salvífico Volkswagen, a respirar heroísmo, voltou a passar sem parar pela patrulha portuguesa, ainda a esfregar os olhos e Simão regressa ao paraíso doméstico, com a amada a dizer-lhe: “Onde andaste? Houve aqui duas horas de tiroteio.” Só então o meu amigo percebeu onde é que Sempre Fixe esgotara as munições. E percebeu também que escaparia sempre, incólume, a todos os tiroteios. Como se um Messias lhe dissesse: “Em verdade te digo, estarás comigo no paraíso.”

Crónica publicada no Jornal de Negócios

A religião morreu

blach_hole

Bica Curta bebida no CM, na 5ª feira, dia 4 de Abril

Não tenho a arrogância de ser ateu. Aprendi a ler nos livros religiosos de minha mãe. Rezei, comunguei, confessei-me, bem antes de beber a bica curta. Hoje, admirando a ideia do amor ao próximo e do perdão das ofensas, mensagem maior de Cristo, se sou alguma coisa, sou um agnóstico que vê o catolicismo morrer.

Não foi só o escândalo da pedofilia que dura, e dura, e dura, como as célebres pilhas. Portugal perdeu o sentido do religioso. Deixámos de ver no catolicismo o sublime e o sagrado que eram o seu mistério. O papa Francisco é só um homem gentil deste mundo. Mas é o outro mundo que, na religião, queríamos desejar ou temer.

Do fundo do coração

mick

 

Bica Curta bebida no CM, na 4ª feira, dia 3 de Abril

A juventude é eterna, certeza que enfiei no sangue nos anos 60. Mick Jagger é a prova científica dessa certeza. Hoje, leio os jornais e caio de cu na calçada da desilusão. A tournée americana dos Rolling Stones foi adiada: Jagger vai ser operado ao coração.

Estranho sinal de humanidade. Jagger, com a abençoada rebeldia que lhe punha o diabo no corpo, era a negação do destino de perda e morte que nos espera. Jagger jorra vida. Da cama dele saíram oito filhos, cinco netos, uma bisneta. No palco sai-lhe, da boca às pernas, uma sexualidade eléctrica, uma insatisfação transcendente. Não nos roubem esse último sopro de rebeldia.

A mulher irretocável

robin

Tenho falado muito com jovens. O facto de eu usar chapéu facilita. No meu tempo, o chapéu preto era reaccionário, pidesco até, se ainda alguém sabe o significado destes coxos qualificativos. Havia uma excepção, o chapéu na cabeça de Bogart. A cabeça de Bogart enchia qualquer peito de admiração.

Mas dizia eu que tiro o chapéu e gera-se um atmosférico teasing geracional, ou, para pormos riqueza lexical na coisa, uma ligeira tensão dionisíaca. Os jovens de 20 a 30 anos admiram a bizarria estilística de um chapéu e entregam-se ao alegre e anacrónico convívio.

Estava a contar quem era Greta Garbo e, tentando imitar António-Pedro Vasconcelos, que usa um chapéu da idade do meu, citei. Eis a citação, que era da própria Garbo: “Sou uma mulher infiel a mais de um milhão de homens.” O rosto anti-balzaquiano da jovem de 30 anos teve uma iluminação rimbaudiana, if you pardon my French. Ela tinha uma ideia dos pés grandes da Garbo, mas saiu-lhe esta perplexidade semântica: o que é uma mulher infiel?

Com outro jovem, 25 anos a assobiar ecologia e profética antiglobalização, discutia o irreparável ímpeto do egotismo e, para não lhe dar o exemplo trivial de dois certos cronistas da nossa Imprensa (há três que vão pensar que são eles), nem cair nesse presidencial cliché que se chama Donald, atirei para a mesa tranquila com o nome de Cecil B. De Mille. Onde outros uivariam um triunfal “quem?”, o jovem foi de uma precariedade submissa: “Ainda hoje seguimos os dez mandamentos que ele escreveu.”

Eu ia indignar-me com este caos cinéfilo, mas o meu chapéu preto, e não me lembro se trazia o Emidio Tucci ou o da chapelaria Azevedo Rua, reprimiu-me a amotinada cabeça. Este é o tempo de outros heróis e heroínas, sem as lágrimas da mulher infiel. Ou sequer do homem infiel.

Vejam os filmes e séries do século XXI. Eis a mulher: a nietzschiana Jessica Chastain de “Zero Dark Thirty” ou a Claire Danes de “Homeland”. A dureza esquinada de Hilary Swank em “Million Dollar Baby”, a incontida convulsão insurreccional de Anne Hathaway de “Rachel Getting Married”. A tão sublime como criogénica Robin Wright de “House of Cards”, a líquida e incomestível Scarlet Johansson de “Under the Skin”. Diria, pedindo que não tenham medo de enfiar o dedo na polissemia da palavra: a mulher do século XXI é irretocável.

Jessica-Chastain_actress_Zero-Dark-Thirty