Minha Guerra, minha Paz: faço livros há 42 anos

O JL-Jornal de Letras pediu-me uma espécie de autobiografia de editor: como é que eu me estatelei, livros abaixo, ao comprido, e o que me faz continuar a cirandar por esta orgia.
Há acusados, julgamento e culpados. No fim, espero a vossa absolvição.


Tal como Manoel de Oliveira e Agustina diziam da alma, o livro é um vício. É triste, mas digo a verdade: foi a minha mãe que me meteu no vício. No musseque Sambizanga, em Luanda, aos meus cinco anos, de um livrinho religioso de capa dura, a Alice, minha querida e devota mãe, lia-me textos de elevação moral grávidos de emoção. É preciso ter já muitos calos no coração, como os que o macaco tem no escuso sítio que não nomearei, para não sermos sensíveis à beleza que há nestas palavras: «Ave Maria cheia de graça / O Senhor é convosco, / Bendita sois Vós entre as mulheres, / E bendito é o fruto do vosso ventre.» Isto é mais do que rezar, é juntar palavras numa harmonia e num ritmo que afagam os cabelinhos do sublime. E à Avé-Maria seguiam-se histórias edificantes de pescadores que enfrentavam noites de tempestade no breu do alto mar, ou a história de um inocente atirado para a prisão por um rei ímpio e cruel, ou ainda a de um mártir, que preferia perder a vida a renunciar à sua fé e ideais.

Um miúdo de cinco anos não resiste aos efeitos psicoactivos desta poderosa droga. As leituras da minha mãe, a forma como, na folha de papel, as palavras se combinavam e entravam em combustão, tudo isso gerava em mim um estado de euforia infantil, uma certa vasodilatação, a capacidade até de andar sobre as águas se me apetecesse andar sobre as águas. O livro foi, já se vê, a minha colher de heroína.

Na adolescência, esse estado de alucinada levitação foi reforçado pelo ramo de uma árvore. No quintal da minha casa havia mamoeiros, uma bananeira, um sape-sape, uma pitangueira, uns humildes e bravos jindungueiros, mas a figura nobre era uma mangueira robusta e silenciosa. Eu era então um ágil e saudável saguim, trepava pela mangueira, saltava de galho para galho, e sentava-me a ler na confluência do mais sólido ramo com o amplo tronco dessa sábia mangueira.

Lia uns três metros acima do chão, entre a folhagem verde e o amarelo avermelhado das mangas maduras. Tinha o sol e o céu de Angola como tecto e testemunha. Dos 10 aos 15 anos, eu vivi nessa mangueira as aventuras de cem vidas. Apaixonei-me, salvei donzelas em apuros, assaltei bancos, fui um índio Yaqui de Zane Grey, fui o famoso xerife Buck Jones.

Levante-se o culpado: João Bénard

E peço que, para se juntar à minha mãe, se levante o segundo culpado: João Bénard da Costa. Já em Lisboa, na Cinemateca, para cada ciclo de cinema fazíamos, desde 1980, um catálogo. Eu era um dos servos da gleba do João Bénard: aprendi a escrever e rever textos, a maquetá-los com um gráfico. Ainda não havia Apples e muito menos Adobe In De­sign. Juntavam-se tex­tos e foto­gra­fias à mão e havia tesou­ras, papel e cola por todos os lados. Vinha depois o fim da linha de vício: entrar nas gráficas para cheirar tintas e lamber papel.

Lembro-me da primeira vez que pus o pé num desses antros. Eram ofi­ci­nas gigan­tes­cas, do tempo da glo­ri­osa revo­lu­ção indus­trial, num dos edi­fí­cios do que hoje é a LX Fac­tory. Fui com o João e a Rita Azevedo Gomes. Íamos imprimir o Alfred Hitchcock nas máqui­nas de roto­gra­vura, uma téc­nica de impres­são que per­mi­tia apli­car a tinta em quan­ti­da­des dife­ren­tes, de acordo com a pro­fun­di­dade dada a célu­las gra­va­das num cilin­dro de cobre e bronze de umas rota­ti­vas mais majes­to­sas do que o rio Tejo. Está­va­mos nos anos 80 e, no fim, tínha­mos na mão um livro que pare­cia ter che­gado de 1930. Fiquei com muita von­tade de fazer tam­bém aquilo. Quem é que não quer via­jar de cale­che no tempo?

O João deu-me, depois, carta branca – é certo que ele ou dava carta branca ou não dava carta nenhuma! Fui a Copenhaga e fiz com o artista plástico Carlos Nogueira o catálogo do Cinema Dinamarquês, com o místico Dreyer como protagonista. O que trabalhei com o tipógrafo Serrano, indefectível MRPP, e o meu amigo Luís Miguel Castro (que era, ó se era, il miglior fabbro), nos catálogos do Antonioni, do Coppola, do Cinema Soviético, que são dos livros mais bonitos em que pelo menos mais de um dedo meu por ali andou. Pequenina vaidade: todos os catálogos que fiz a solo estão esgotados e são peças de alfarrabista.

A culpa de duas velhas senhoras

Et pourtant eu não tinha ainda as cartas de nobreza (ups!) do editor. À minha mãe e ao João Bénard, junto agora, no banco dos réus, duas velhas senhoras, duas almas subversivas e incendiárias. Quem fez de mim editor, foram Mécia de Sena e Agustina Bessa Luís. Talvez tudo tenha começado em Santa Bárbara, na casa da Randolph Road, de Mécia. Ainda na Cinemateca, fui à Califórnia falar com Coppola e rever, com a «mulher de Jorge de Sena», como um dia orgulhosamente a ouvi dizer, um livrinho que reunia os textos dele sobre cinema. Mécia acolheu-me por uma semana. Empatia garantida, que ficaria para a vida, Mécia levou-me ao sanctum sanctorum: ali estavam os manuscritos e dactiloscritos de Sena. Mais: os inéditos, tantas cartas, as de Sophia de Mello Breyner Andresen, as fulminantes peças satíricas, as suas famosas e impublicáveis Dedicácias. Eu tinha visto e tocado o Graal.

Passaram os anos que se contam pelos dedos das mãos, quase a aca­bar o século XX, já eu levava sete anos de ganhar vida regalada e cosmopolita na SIC, deu-me o que Billy Wil­der e Marilyn Mon­roe imor­ta­li­za­ram como o seven year itch. Uma comi­chão do cara­ças: o meu amigo Francisco Pinto Bal­se­mão que me des­culpe, mas a SIC já não me bas­tava. Via­java de Los Ange­les ao Rio ou Hong-Kong e ao pequeno resort sau­dita e da máfia russa cha­mado Can­nes, e até, das duas às seis da matina, pro­gra­mava cul­tura de alto lá com ela nas «Noi­tes Lon­gas da SIC». Mas queria mais.

Com dois amigos, como talvez nunca mais venha a ter, fundei a Três Sinais editores. Um lema: a mais pequena editora do mundo. Queríamos fazer livros que fossem também uma girândola dos sentidos: grande dimensão, formatos raros, papel que desse vontade de acariciar e beijar. Um livro e meio por ano era a forma de nos roçarmos pela felicidade. E se o primeiro veio directo dos tesouros de Mécia de Sena, o segundo nasceu de uma ousadia premiada. Talvez instigado pela Antónia, minha mulher e agustiniana obsessiva, desafiei Agustina a escrever sobre Paula Rego e desafiei Paula Rego a deixar-nos usar a sua pintura nesse livro, que eu imaginava como um orgíaco sabbath. Ó se foi.

Dedicácias e As Meninas são duas preciosidades, se me perdoam a arrogância, que é assumida. Capa car­to­nada reves­tida a pano, papel Pop Set de 170 gra­mas que, mate, acei­tava muito bem a cor, repro­du­zindo com fide­li­dade as tex­tu­ras das telas de Paula Rego, uma fide­li­dade de Grá­fica de Coim­bra, que o Padre Valen­tim e o meu amigo Gân­dara garan­tiam. Pagi­ná­mos com liber­dade e libe­ra­li­dade, dando gran­deza e soberba a por­me­no­res, tanto aos da pin­tura, como mesmo a alguns dos mais ins­pi­ra­dos ou cho­can­tes afo­ris­mos com que o texto de Agus­tina nos des­lum­brava ou sufo­cava — o que é que se há-de dizer quando, como ela escrevia, «as mulhe­res cons­pi­ram, ins­pec­ci­o­nando a sua roupa de baixo».

Arrebatador foi ter «inventado» esse livro, As Meninas. Pensei que era isso ser editor: inventar livros. A culpa maior foi de Agustina. Não só aceitou o desafio como pediu mais. E eu reincidi. Pedi-lhe uma quase autobiografia, esse Livro de Agustina, que ela começou por chamar Retrato de Grupo. E, a seguir, voltei a desafiá-la para uma Bíblia em caixa de vidro, em que também escreveram João Miguel Fernandes Jorge, Jorge Sampaio, Manoel de Oliveira, João Bénard, Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura. A caixa de vidro (não era bem vidro, reconheço), veio da China.

Do hobby para a indústria

Da Três Sinais para a Guerra e Paz editores foi o salto do hobby para a indústria. Quando, em 2005, saí definitivamente da SIC, decidi que seria dono e senhor de mim mesmo: nem Deus, nem chefe para todo o sempre. Num clamoroso, mas delicioso erro, escolhi o livro, a edição deles, como quem julga que se vai sentar ao fim de tarde, flute de champanhe na mão, na mais radiosa pérgula do jardim.

Voltei a Agustina e a Mécia. Na sua casa do Gólgota, Agustina aceitou escrever 11 «óperas» de intriga, traição ou sedução da História de Portugal, num livro a que chamou Fama e Segredo. Mécia deu-me a correspondência de Sena e Sophia, publicação que Sophia, num jantar abençoou. Começava, assim, em 2006, a aventura da Guerra e Paz editores, que vai a caminho dos 17 anos. Fiz, com o Ilídio Vasco, meu designer ab ovo usque ad mala, livros em madeira, (e vão dois!), a única capa do mundo, para Fernando Pessoa, feita numa prancha de madeira sem cortes ou colagens, com a lombada trabalhada a laser, e fizemos a capa que, desdobrada, tem mais de um metro para O Físico Prodigioso, de Sena.

Veio, fatal como o destino, o acidente traumático. A insolvência de um distribuidor ia sendo o golpe de mata leão no pescoço da editora. Subtraído de um ano inteiro de facturação, levei anos a dormir na mesma cama com a dívida: é uma espécie de coabitação em regime de violência doméstica, com gritos, agressões, baba e ranho e não se sai do Purgatório. Mas não falhámos uma única obrigação e renascemos.

A Absolvição

Onde está, então, a viagem de caleche no tempo? A pérgula e o champanhe? Quero dizer aos culpados disto tudo, à minha mãe, ao Bénard, a Mécia e Agustina, três mulheres e um homem, que não só os absolvo, como lhes agradeço, ajoelho e rezo. Valeu a pena. Bastava ter publicado Agustina, Sena, Sophia, o último livrinho de Vasco Graça Moura, a Estrutura das Revoluções Científicas, de Kuhn, ou o Ouriço e a Raposa, de Berlin, como em breve O Crisântemo e a Espada, de Ruth Benedict, jovens poetas como Eugénia de Vasconcellos e João Moita, ou o veterano Eugénio Lisboa, o Longo Braço do Passado, de Rui de Azevedo Teixeira. Bastava que a Guerra e Paz fosse, como é, a mais angolana das editoras portuguesas, do que é prova a monumental Antologia da Poesia Angolana, cereja a mimar o bolo. Bastava-me o Assim Nasceu uma Língua do Fernando Venâncio e a luta contra o famigerado AO90.

Os últimos cinco anos da Guerra e Paz editores, colecções de livros vermelhos, amarelos, brancos e negros, os nossos clássicos, a entrada no romance contemporâneo, a criação de uma colecção de grandes ensaios como Os Livros Não se Rendem, restituem-me ao êxtase edificante da infância, ao adolescente ramo de mangueira, três metros acima do chão, três metros mais perto do céu.

Um atraso de vida cheio de futuro

Este é o Alfa-Romeo do António Peixinho

Vou expor-me ao ridículo e jurar que a Vila Alice, meu bairro de Luanda, era afinal um bairro de Nova Ior­que. Ficaria ali, encas­trado entre o Soho e a Lit­tle Italy.

Pode pare­cer que o meu forte não é a geo­gra­fia. Enganam-se. Pisei a Cali­fór­nia e foi logo como se respirasse de novo, por todos os poros e com nari­nas boca-de-sino, o ar start-up da Angola de 1973. O mundo é enorme, é maior do que as duas ore­lhas do Dumbo, mas por ser tão grande o mundo repete-se. Há um boca­di­nho de Alfama a subir para o Sacré Coeur e havia um boca­di­nho dos anos 50 de Bronx e Newark na Luanda dos anos 60.

Na Alberto Cor­reia, a minha rua da Vila Alice, havia três mer­ce­a­rias. Mas só a mer­ce­a­ria do Senhor Manel, se pode gabar de ser o espe­lho bor­ge­si­ano das mer­ce­a­rias do “Bronx Tale”, único e gen­til filme de que Robert De Niro foi o realizador, ou dos roman­ces abu­si­va­mente auto­bi­o­grá­fi­cos de Phi­lip Roth.

Na mer­ce­a­ria do senhor Manel não se ven­diam metá­fo­ras, mas havia duas portas de entra­da de meto­ní­mica afi­ni­dade. A canó­nica, das horas legais, pre­ce­dida por três degraus que podiam, se fosse mais devoto o con­ti­nente, ser os degraus de uma cape­li­nha sete­cen­tista. Fechava à hora de almoço e, se ainda me lem­bro, fechava outra vez quando o sol se punha. Fora de horas, entrava-se na mer­ce­a­ria por uma camuflada porta late­ral que dava para o pátio, onde à noite o senhor Manel punha uma mesa guer­reira para par­ti­das de sueca que levan­ta­vam ala­ri­dos de Alju­bar­ro­ta, não adivinhando ainda o trágico Kifangondo, que viria um dia. De uma tomada interna, o senhor Manel sacava uma puxada e era à luz de uma gam­bi­arra que se batiam as car­tas. Cruzavam-se Nocais e Cucas e nós, can­den­gues, ouvía­mos da boca dos mais velhos o que nem hoje nos atre­ve­mos a repetir.

Podiam ser, se fos­sem sici­li­a­nos, mafi­o­sos do Bronx. Esta­vam ali, de gor­dos ou ossu­dos rabos enfi­a­dos nas cadei­ras, apos­tas sobre apos­tas, fumo a entrelaçar-se em fumo, até às qua­tro, cinco da matina. Um dia, um deles ten­tou pisgar-se às três da manhã. A per­der, o velho Augusto lançou-lhe um labéu capaz de gelar os tró­pi­cos: “Par­ceiro da merda, joga duas par­ti­di­nhas e dá de frosques.”

Era um quintal de filme, podia estar nas tra­sei­ras do “Rear Win­dow”, de Hitchcock. Jogavam-se car­tas como num “film noir” e cola­dos aos cigar­ros, a um whisky com 7up, esta­vam Edward G. Robin­son e Wal­ter Bren­nan. Ria-se como se ria na pri­são do “Rio Bravo”.

Era a vida, mas não era nenhum atraso de vida. Repe­tindo o ritmo de um quin­tal mafi­oso dos anos 50 de Nova Ior­que, o pátio de mil sue­ca­das de Luanda ante­ci­pou o que depois sacu­di­ria a Amé­rica. Os car­ros dos pri­mei­ros anos 60 eram as car­ri­nhas Ford, uns Che­vro­lets e Ply­mouth, espa­das ame­ri­ca­nos. Por pouco tempo. A luz da gam­bi­arra da mer­ce­a­ria do senhor Manel ilu­mi­nou, osci­lante, a che­gada do Simca do meu pai, do Triumph da bela Mimi, do Fiat de aber­tura pela frente do amável lixi­vi­eiro, do Alfa-Romeo do largo dos Cunhas, do Volkswa­gen preto do senhor Pinto, do Citroen e do BMW da famí­lia dos enge­nhei­ros. Se em Detroit esti­ves­sem aten­tos à Vila Alice, sabe­riam, em mea­dos dos anos 60, que a indús­tria auto­mó­vel ame­ri­cana estava condenada.

Tudo o que os japo­ne­ses fize­ram depois – a bara­tís­si­mos Hon­das, Maz­das, Toyo­tas – foi só um golpe de mise­ri­cór­dia. O mundo mudou sim, mas à luz ténue da gam­bi­arra do pátio da mer­ce­a­ria do senhor Manel. Na Vila Alice, esse bairro meio-judeu, meio-italiano, de Nova Ior­que. Digo eu que, agora sei, de car­re­gada nos­tal­gia, que Alice doesn’t live here anymore. Nem voltará a viver.

A morte é uma artista

A morte tem má reputação, uma cara taciturna, diz-se. Preconceituosos, continuamos a achar que a morte é a figura insidiosa que aparece sempre ao pé de camas de madeira escura. Porém, a morte, e olhem que não é só a morte moderna, tem também ironia, sentido de oportunidade, uma multifacetada vocação que tanto é trágica como cómica.

Eu tenho um amigo que é dono de uma funerária. Tem um sentido de humor subtil, leve, com a efervescência de uma flute de Moët & Chandot, isto só para não exagerarmos nos custos desta crónica. Esse meu amigo almoça, quase todas as semanas, com outros amigos, que nasceram na mesma terra. Um deles adoeceu com gravidade. Fez biópsias, tacs, ressonâncias, o diabo a quatro, que a morte é exigente. E marcou o que se temia ser o derradeiro almoço, logo a seguir à consulta com o médico que ia ver os exames. Diagnóstico no bolso e na alma, entrou no restaurante. Os sete amigos estavam tensos, uma angústia de quem sabe o que aí vem. “Então, António?” E ele, em pé, anuncia que nada é maligno, que há tratamento e que a morte já vai longe, corrida a pontapé. Erguem-se os seis amigos, gritam besteiras, que é a forma de nós, homens, exibirmos sem vergonha uma alegria parva. Só um deles, o meu amigo da funerária, continua sentado e acabrunhado. “Porra, Joaquim, não dizes nada!”, chateiam-no os outros. E ele: “Todos para aí a festejar a saúde do António, e eu? No pobre cangalheiro ninguém pensa!”

E do restaurante da Baixa lisboeta vou directo para Santa Barbara, a cidade que, na Califórnia, Mécia de Sena me deu a conhecer. E levou-me, com Maria de Lurdes Belchior, a conhecer os restos das missões espanholas, eu um menino mimado por aquelas duas senhoras, em pic-nics de ovos verdes e bolinhos de bacalhau. Nunca fomos foi ao Lobero Theatre. Mas foi lá, no Dia das Mentiras, em 1938, a estreia de uma peça de Clifford Odets, “Golden Boy”. Em plena representação, cai, fulminado, o actor Joseph Greenwald. Não vão acreditar, mas ele tinha acabado de dizer esta linha do diálogo, a sua última réplica: “Esperei por este momento toda a minha vida.”

Nos meus tempos da SIC, comprei vários shows de variedades ingleses, mas tenho agora de confessar a Francisco Balsemão que falhei este, de que vou falar. Os Variety Shows eram feitos ao vivo e para uma espectadora especial, a rainha de Inglaterra. Num dos shows, o mágico e cómico Tommy Cooper estava a fazer o seu número. Ao vivo, claro. Chamou a assistente. Ela entrou em cena. Tudo nela era exultante. O seio mais refulgente do que néon na noite escura, a perna longa como um relâmpago, e já vos poupo ao seu britânico backside. Tommy Cooper olhou para ela e caiu. Deixou-se cair, por ser esse o seu estilo, pensaram os espectadores e riram-se. Era uma sala incapaz de parar de rir. Mesmo a estremecida assistente ria com convicção. E Cooper não se levantava. O realizador, alarmado, foi para intervalo (lembram-se?). O que tombara Cooper fora um ataque cardíaco. Tentaram reanimá-lo, mas estava morto, o que o hospital confirmou.

Em Nova Iorque, só vi ópera uma vez, de Donizetti, “O Elixir de Amor”, numa passagem com o Emídio Rangel, que meteu polícias, reféns, hospitais. Mas em 1960, o barítono Leonard Warren cantou lá, no Met, a ária “Morrer, ó tremenda coisa” do “Don Carlo”. Tinha ele a ária nos lábios – Morir, tremenda cosa – e uma hemorragia cerebral calou-o para a eternidade.

Porventura desajeitada, mas vê-se que há na morte uma certa vontade de emprestar um toque artístico a cada uma das suas aparições. Volte sempre.

Os meus livros de Setembro 14 selfies para a rentrée

Tenho de fazer uma selfie com Marcelo. É indesculpável ser o único português que ainda não tem uma. Faço, para me treinar, uma com Henrique Cymerman e com os árabes, os israelitas e até o Papa, que deambulam pelo seu autobiográfico e perigoso Conversando com o Inimigo: do Porto a Abu Dhabi via Telavive, o nosso primeiro livro de Setembro. E vou, com João Céu e Silva, fazer selfies a Casablanca: Adeus, Casablanca é um belo romance de amor, com pirataria aérea, panfletos e ecos de Paul Bowles. Ficas bem na selfie, João!

António Botto Quintans faz selfies com todos os nossos velhos reis no seu cómico A Bienal da Tia Matilde: História de Portugal à la Carte II. Mas já Eugénio Lisboa se recusa a fazer a selfie com Putin: Poemas em Tempo de Guerra Suja é um vigoroso manifesto contra a invasão russa e a brutalidade de uma guerra que fere a Ucrânia e a Europa. Poesia de combate.

Bruno Vieira Amaral, sim. Em 50 selfies criou o Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, um livro que rouba criadas estranguláveis e bons malandros, mulheres-anjo e mulheres-demónio aos autores que os inventaram. E a selfie que todos queremos fazer é com Manuel. É o filho do autor, João Gomes da Silva, que nos conta, em pouco mais de cem páginas, a história verídica do nascimento deste miúdo com trissomia 21: uma selfie com a vida.

As Minhas Causas é, pode dizer-se, a recolha de todas as selfies de Vitor Ramalho em favor da paz, em Moçambique ou Angola, testemunho de acções humanitárias, ponte entre a Europa e África. Faz pendant com outro belo livro, o Atlas Mundial da Água: Defender e Proteger o Nosso Bem Comum, selfie com os rios, lagos e oceanos desta nossa casa-mãe. Desta água é que todos deveríamos beber.

Bom, e fui fazer selfies com as criancinhas. Já se sabe o que acontece a quem dá corda a miúdos, saí de lá com esta cheirosa selfie: O Grande Livro dos Puns! É um guia ilustrado da Ciência, da História e da Arte de dar puns: só peidinhos e factos. Outro facto: cuidado com uma certa rapaziada, é o aviso de Rui Teixeira da Mota no seu O Elogio da Sabujice, uma visita a uma raça, o sabujo, a quem também se chama capacho, lambe‑botas ou lambe‑cus, graxista ou mesmo chupa‑pilas. Uma sátira, está claro.

Duas selfies com empresas e empreendedorismo. Luís Parreirão, em Empresas Familiares, Famílias Empresárias, Onde Está o Substantivo? faz uma bela e substantiva selfie bilingue e ilustrada às empresas familiares. Já José Eduardo Franco e Paulo Pereira da Silva fazem ousadas e irreverentes selfies com Jesus Cristo, no seu Cristo Empreendedor, combinando as parábolas e alegorias dos Evangelhos com a prática empresarial.

Quem fez uma selfie com o imperador chinês Kangxi foi um jesuíta português, vivendo com ele 36 anos na Cidade Proibida. É esse o objecto fascinante da selfie de Tereza Sena em Tomás Pereira e o Imperador Kangxi: Um Diálogo entre a China e o Ocidente. Grande selfie.

E foi na II Grande Guerra que a antropóloga americana Ruth Benedict fez uma prodigiosa selfie com um povo e uma nação, o Japão. Venham ver, está em O Crisântemo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa. É um ensaio cheio de beleza e mistério, que era uma ofensa não estar ainda em língua portuguesa. É a selfie que inaugura uma nova colecção da Guerra e Paz, Os Livros Não se Rendem (título tão feliz que a minha filha me deu – hei-de fazer uma selfie com ela!). Parceria com a Fundação Manuel António da Mota, prometo aos Livros Não se Rendem uma selfie especial depois da Feira do Livro.

Menti, claro, quando disse que nunca tinha feito uma selfie com o nosso amável presidente Marcelo. Já fiz duas ou três. Mas menti logo a abrir, para dizer depois a verdade e só a verdade sobre as 14 selfies de que aqui vos falei. Em 14 selfies, o retrato de Setembro da Guerra e Paz editores.

Manuel S. Fonseca, editor