Um atraso de vida cheio de futuro

Este é o Alfa-Romeo do António Peixinho

Vou expor-me ao ridículo e jurar que a Vila Alice, meu bairro de Luanda, era afinal um bairro de Nova Ior­que. Ficaria ali, encas­trado entre o Soho e a Lit­tle Italy.

Pode pare­cer que o meu forte não é a geo­gra­fia. Enganam-se. Pisei a Cali­fór­nia e foi logo como se respirasse de novo, por todos os poros e com nari­nas boca-de-sino, o ar start-up da Angola de 1973. O mundo é enorme, é maior do que as duas ore­lhas do Dumbo, mas por ser tão grande o mundo repete-se. Há um boca­di­nho de Alfama a subir para o Sacré Coeur e havia um boca­di­nho dos anos 50 de Bronx e Newark na Luanda dos anos 60.

Na Alberto Cor­reia, a minha rua da Vila Alice, havia três mer­ce­a­rias. Mas só a mer­ce­a­ria do Senhor Manel, se pode gabar de ser o espe­lho bor­ge­si­ano das mer­ce­a­rias do “Bronx Tale”, único e gen­til filme de que Robert De Niro foi o realizador, ou dos roman­ces abu­si­va­mente auto­bi­o­grá­fi­cos de Phi­lip Roth.

Na mer­ce­a­ria do senhor Manel não se ven­diam metá­fo­ras, mas havia duas portas de entra­da de meto­ní­mica afi­ni­dade. A canó­nica, das horas legais, pre­ce­dida por três degraus que podiam, se fosse mais devoto o con­ti­nente, ser os degraus de uma cape­li­nha sete­cen­tista. Fechava à hora de almoço e, se ainda me lem­bro, fechava outra vez quando o sol se punha. Fora de horas, entrava-se na mer­ce­a­ria por uma camuflada porta late­ral que dava para o pátio, onde à noite o senhor Manel punha uma mesa guer­reira para par­ti­das de sueca que levan­ta­vam ala­ri­dos de Alju­bar­ro­ta, não adivinhando ainda o trágico Kifangondo, que viria um dia. De uma tomada interna, o senhor Manel sacava uma puxada e era à luz de uma gam­bi­arra que se batiam as car­tas. Cruzavam-se Nocais e Cucas e nós, can­den­gues, ouvía­mos da boca dos mais velhos o que nem hoje nos atre­ve­mos a repetir.

Podiam ser, se fos­sem sici­li­a­nos, mafi­o­sos do Bronx. Esta­vam ali, de gor­dos ou ossu­dos rabos enfi­a­dos nas cadei­ras, apos­tas sobre apos­tas, fumo a entrelaçar-se em fumo, até às qua­tro, cinco da matina. Um dia, um deles ten­tou pisgar-se às três da manhã. A per­der, o velho Augusto lançou-lhe um labéu capaz de gelar os tró­pi­cos: “Par­ceiro da merda, joga duas par­ti­di­nhas e dá de frosques.”

Era um quintal de filme, podia estar nas tra­sei­ras do “Rear Win­dow”, de Hitchcock. Jogavam-se car­tas como num “film noir” e cola­dos aos cigar­ros, a um whisky com 7up, esta­vam Edward G. Robin­son e Wal­ter Bren­nan. Ria-se como se ria na pri­são do “Rio Bravo”.

Era a vida, mas não era nenhum atraso de vida. Repe­tindo o ritmo de um quin­tal mafi­oso dos anos 50 de Nova Ior­que, o pátio de mil sue­ca­das de Luanda ante­ci­pou o que depois sacu­di­ria a Amé­rica. Os car­ros dos pri­mei­ros anos 60 eram as car­ri­nhas Ford, uns Che­vro­lets e Ply­mouth, espa­das ame­ri­ca­nos. Por pouco tempo. A luz da gam­bi­arra da mer­ce­a­ria do senhor Manel ilu­mi­nou, osci­lante, a che­gada do Simca do meu pai, do Triumph da bela Mimi, do Fiat de aber­tura pela frente do amável lixi­vi­eiro, do Alfa-Romeo do largo dos Cunhas, do Volkswa­gen preto do senhor Pinto, do Citroen e do BMW da famí­lia dos enge­nhei­ros. Se em Detroit esti­ves­sem aten­tos à Vila Alice, sabe­riam, em mea­dos dos anos 60, que a indús­tria auto­mó­vel ame­ri­cana estava condenada.

Tudo o que os japo­ne­ses fize­ram depois – a bara­tís­si­mos Hon­das, Maz­das, Toyo­tas – foi só um golpe de mise­ri­cór­dia. O mundo mudou sim, mas à luz ténue da gam­bi­arra do pátio da mer­ce­a­ria do senhor Manel. Na Vila Alice, esse bairro meio-judeu, meio-italiano, de Nova Ior­que. Digo eu que, agora sei, de car­re­gada nos­tal­gia, que Alice doesn’t live here anymore. Nem voltará a viver.

2 thoughts on “Um atraso de vida cheio de futuro

  1. Que maravilha Manuel!
    Que bela memória é tão bem composta de sentidas -e significativas-analogias.
    Que bem sabem as tuas crónicas!
    Gd abraço!

    Enviado do meu iPhone

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  2. Acho eu que ainda bem que o bairro se chamava Vila Alice e deu um Manel de mercearia e mais um Manel livreiro e de filosofia. E mais outra gente que vamos conhecendo nestas crónicas. Pois sejam muito bem vindos.

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