O mundo está melhor

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Há 65 anos não bebia café. Bebia, sim, o leite do peito de minha mãe. Vi, a cada dia, o mundo ficar melhor. Hoje, 4ª feira de bica curta, sei que este é o melhor dos mundos em que já vivi.

É verdade, 10% da população vive em extrema pobreza: mas havia 37% há três décadas! Milhões de crianças sobrevivem, agora, à voraz boca de diabo da mortalidade infantil. Vivemos mais tempo e há telemóveis onde antes a comunicação era zero. Morre-se menos de morte violenta. Este mundo melhor ganhou-o a humanidade com ciência, tecnologia e trabalho. Agita-se muito o estandarte revolucionário, mas uma reforma dá dez a zero a qualquer revolução.

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Bica Curta, publicada no CM

Experimentei morrer

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Tomei a bica curta. Ia ao cinema e precavi-me, que a sala escura convida ao sono. Vi “O Correio da Droga”, de Clint Eastwood, actor e realizador a um passo dos 89 anos. Fez já uns cinco filmes a roçar a perfeição.

Se estão prontos para experiências fortes vejam “O Correio da Droga”. O filme desliza suave e irónico como a carrinha de Eastwood pelas estradas da América. Mas, a pouco e pouco, a morte, a consciência da morte, invade-nos. Saí da sala com a alma ao colo. Tenho 65 anos, sei que vou morrer, mas foi a primeira vez que experimentei morrer um bocadinho. Morrer é assim, tristeza tão bonita, um esplendor que nos faz chorar.

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Bica Curta, publicada no CM

Dois homens beijam-se

Papa e Imã

O beijo de dois homens sacudiu a Terra. Francisco, papa, e Ahmed al-Tayeb, grande imã do Egipto, beijaram-se. Lembrei-me dos beijos que dava ao meu pai. Descia um silencioso sossego sobre a casa, quando o beijava – muito menos do que, agora, gostaria de o ter beijado.

Será o beijo do Papa e do Imã uma efémera bica curta? Ou reconcilia duas fés que, de tão próximas, tanto se odeiam? No Corão, o nome de Jesus é dito 25 vezes, mais do que o de Maomé, só referido quatro. E Maria é a única mulher a quem o livro do Islão chama pelo nome, proclamando-a pura, rainha dos santos.

Pode este beijo, no futuro, parar a degola dos inocentes?

Bica Curta publicada no CM

O ponto G

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Nenhum homem heterossexual voltará a ficar sozinho. A indústria sextech está imparável. Esqueçam lá as bonecas insufláveis: a tecnologia já oferece parceiros sexuais humanóides.

Rostos perfeitos, curvas de valha-me nosso senhor. Para não falar de competências: sexo oral com base em 16 técnicas escolhidas (à mão?) do estudo dos melhores 1200 vídeos da especialidade. Há até uma robot dotada da louvável fantasia que é o ponto G.  Gemem. Bebem a bica curta. Também conversam. Tão compreensivas, tão disponíveis, há casos de paixão assolapada de homens pela sua robot sexual. Nenhum homem voltará a estar sozinho na sua imensa solidão.

Bica Curta publicada no CM

Arte ao meio-dia, lixo à meia-noite

Elmyr Welles
Orson Welles e Elmyr de Hory

Não se dá o devido valor ao arrepio na espinha, forma popular de designar o orgasmo estético. Recuemos aos anos 60 e visitemos o Fogg Museum, em Harvard. Uma tela de Matisse prende os nossos olhos. Uma chispa de prazer corre-nos pela medula com a velocidade e o estonteante drible do benfiquista Rafa: é só uma tela, um rosto de mulher, e é como se uma colher de paraíso se derramasse na ilha triste que é qualquer coração. Sai-nos boca fora, com dois pontos de exclamação, esta alegria infantil: que bonito, oh, que bonito.

Porém, uma semana depois, os jornais dizem que o quadro é falso. Pode o arrepio na espinha ser retráctil? Pode o benfiquista Rafa desfazer os dribles e correr veloz às arrecuas?

Foi este o pão e manteiga dos dias de Elmyr de Hory, herói do filme “F de Fraude”, de Orson Welles”. Antes da manteiga, já Elmyr comera o pão que o diabo amassou. Até pode ter nascido num estábulo, na remota Hungria, sabe-se lá. O que interessa é que Elmyr substituiu essa risível realidade por ascendência aristocrática e um pai embaixador austro-húngaro. Mentia e dava gosto acreditar nele. Foi uma sopa de mentiras que deu gasolina à fuga do campo de concentração nazi onde o vazaram, por ser judeu e homossexual. Meia-verdade nazi: de judeu nada tinha, homossexual era sempre que podia.

Lixe-se a verdade e falemos do amor. Em Paris, Elmyr estudou belas artes com o cubista Fernand Léger. Quando fecho os olhos e vou à Paris dos anos 40, vejo Elmyr a vender os seus quadros, na Place du Tertre, o Sacré Coeur tão perto. Mas vejo também que Elmyr está num desassossego que poria apopléctico o Bernardo Soares de Fernando Pessoa. Lembram-se daquela coisa das ideias inatas? Paris despertou e pôs em brasa a inata vontade de luxo e volúpia de Elmyr: festas, caviar, o efervescente champagne, todo o frufru, seda ou veludo, que o corpinho humano pede. A vender os seus próprios quadros, está bem, abelha, nunca Elmyr lá chegaria.

Um dia, Elmyr desenha à Picasso, um Picasso original. Num silêncio interrogativo, põe-o na mão amiga de um art dealer inglês, que logo sobe ao céu: um Picasso, diz, e oferece uma pequena fortuna. Foi o dia da Criação para a alma de Elmyr. Pintou Picassos, a seguir Matisses, Modiglianis, Renoirs. Sempre originais. Primeiro conquistou Paris, depois Manhattan. O Texas petrolífero por fim.

Pequeno sobressalto a roçar o opróbrio: um galerista de Los Angeles, desconfiado do portfólio de originais de Elmyr, grita-lhe «a porta da rua é a serventia da casa». Na rua, humilde, Elmyr murmura: «Mas acha que os quadros não são bons?» Não são bons, são obras-primas de falsificação, festa dos olhos e dos sentidos, que o Fogg Museum não só compra como expõe. E foi aqui que o busílis chegou dos olhos ao nariz: um, dois, três especialistas viraram do avesso um Matisse de Elmyr. Verdadeiro nas duas primeiras avaliações, que maravilha; falso, à terceira, que vergonha. Já foste Elmyr: era arte ao meio-dia; é lixo à meia-noite.

No Texas, Algur H. Meadows, magnata do petróleo, fica a saber que tem a maior colecção do mundo de falsificações de Degas, Bonnard, Matisses e Picassos. Numa raiva inestética, põe o FBI à caça de Elmyr. Para escapar, o nosso herói esconde-se na Espanha de Franco e trata a clandestinidade a pata negra e botellas de Vega Sicilia. Mas o ditador Franco vai extraditá-lo – fascista! Com o sossego da uma mão cheia de comprimidos, Elmyr deixa este mundo legalista: finta a prisão e vai direito ao céu dizer a Picasso que pintava tão bem como ele.

Publicado no Jornal de Negócios

A bola é de trapos

 

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O cineasta Godard está para o cinema como Maradona para o futebol. Maradona limpava sete ingleses em fintas e reviangas e era golo. Ou, descarada batota, fazia golo com a mão de Deus. Godard foi à televisão, ofereceram-lhe livros e ele só quis um de economia. Disse: este é que conta. Até entornei a bica curta: sem economia a democracia é uma batota.

Qual é o PIB português? Não sei. Nem sei qual é a dívida pública e mal tenho ideia dos impostos que paga uma empresa sobre o salário de um trabalhador. Não sabemos e vamos a jogo, votar. Não é democracia, é alucinação: como se Maradona viesse a jogo a pensar que a bola era quadrada.

Bica Curta, publicada no CM

Apagão

Caspar David Friedrich - o Viajante sobre o mar de névoa
Caspar David Friedrich

Por razões várias que, mais do que não virem ao caso, na verdade não consigo elencar, explicar ou descortinar, deixei de vir aqui, à Página Negra.

Estou em apagão. Vou voltar devagarinho, sempre que possa. Para começar, regressa, em nova fórmula, a Bica Curta, e na fórmula já estabelecida, as Vidas em Perigo, Vidas sem Castigo, bem como Os Meus Kambas.

Digamos que fui ali e volto logo que os deuses mandem.

O meu reino por uma galinha

Crónica publicada no Jornal de Negócios
na coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo

galinha

O meu reino por uma galinha

Levantou-se o mundo inteiro contra as galinhas de Ernie Hausen. Mesmo eu, nas galinhas depenadas de Ernie só vejo, horrorizado, os meus pintainhos. E nem sei bem se começo pelo Wisconsin que viu nascer Ernie, se pela Luanda colonial que fazia a alegria dos pintos e dos quá-quás amarelinhos que minha mãe e meu pai criavam numa capoeira multicultural em que as galinhas conviviam com patos e patas, um ganso, mesmo alguns reservados e fugidios coelhos. Também tivemos um macaco, mas esse não é desta história.

Do Wisconsin, sabia que já lá dera aulas o professor e poeta Jorge de Sena, cujos “Exorcismos” e o erótico “O Físico Prodigioso” ofereceram tanto valor calórico à minha adolescência como os ovos dessa capoeira que, acabadinhos de pôr pelas esforçadas galinhas, eu furava de um lado e de outro com um alfinete, e chupava como se estivesse para acabar o mundo ou extinguir-se o cosmos, deliciando-me com a cruíssima clara e gema, logo voltando a pôr a intacta e agora oca casca no berço de postura da ofendida poedeira.

E deixem-me sair da capoeira de Luanda para o ar livre de Spring Hill, amena comunidade da Florida. Estava, nesse dia de 1995, como sempre está na Florida, um tempo de bermudas, shorts, tops ligeiros, bons para a livre expansão dessa carne jovem perante a qual toda a transcendência estremece e mesmo a virtude de um Josemaría Escrivá falece. Mas não vos quero enganar, temos problemas na rua, a multidão de Spring Hill era tudo menos afrodisíaca. Gritava, ululava, erguia punhos, como só a multidão militante americana é capaz.

A multidão de Spring Hill de 1995 era pelos direitos dos bichos de capoeira. Queria acabar com o Campeonato Mundial de Depenagem de Galinhas, no qual, há 30 anos, os competidores se esforçavam por derrubar a imbatível herança de Ernie Hausen, herói desta crónica.

O talento humano é poliédrico: tem mais facetas do que os olhos de uma mosca. Há quem, ultrajantemente favorecido por Deus, só tenha talento para o sexo, a Einstein foi dada a sua humilde inteligência, a Donald Trump esse cabelo camaleónico, que vai do castanho ligeiro ao escuro marrom, culminando no mais recente louro suave, a bem dizer, um dourado a faiscar de verde. Ora, a Ernie Hausen, Deus pôs-lhe o ouro nas mãos. Fazia com elas o que queria. E exagero: Ernie, que se saiba, só fez com elas uma coisa, depenar galinhas.

Nascido em Fort Atkinson, de que seria o único cidadão a atingir os cumes da fama, Ernie entrou a depenar galinhas no Campeonato do Mundo de 1926 e em seis segundos, ainda nem se tinha acendido um fósforo, a galinha estava mais nua do que Deus a mandara ao mundo. O Madison Square Garden veio abaixo, apoteótico. Ora, a paixão que T. S. Eliot tinha pela poesia ou Caravaggio pela pintura, tinha-a Ernie pela sua arte: a 15 de Janeiro de 1939, desafiado para um duelo de depenagem por dois miseráveis arrivistas, Ernie depena uma galinha em 3,5 segundos, o que nem como rapidinha conta, recorde que nenhum humano ou robot até hoje arrebatou.

Picasso desenhava nem que fosse num guardanapo? Pessoa escreveu em pé, debruçado sobre uma velha cómoda, os seus heteronímicos versos? Ah, meus amigos, Ernie tanto depenava galinhas de olhos vendados como de mãos enfiadas em luvas de um só dedo. Depenava-as até com os cotovelos. Num dia, em menos de oito horas, depenou 1472 infelizes galináceos. Cometimentos gloriosos, que a humana, demasiado humana, multidão de Spring Hill, campeã dos direitos das galinhas com que se deita, aboliu e mergulhou num depenado esquecimento.

Crónica publicada no Jornal de Negócios