Cianeto e um tiro

Bica Curta servida no CM,  na 3ª feira, 30 de Abril

Adolf Hitler und Eva Braun auf dem Berghof

Casaram no dia anterior. Tomaram uma bica e suicidaram-se depois. Adolf Hitler e Eva Braun morreram, faz hoje, dia 30 de Abril, 74 anos. Hitler testou antes, no seu cão, o cianeto que ele e Eva engoliram depois. A si mesmo, Hitler deu ainda, por via das dúvidas, um tiro na cabeça. Deixou-nos o mais hediondo crime que a humanidade viu, a morte em massa de seres humanos em fornos crematórios. Matou por uma só razão: o ódio étnico, ódio ao judeu.

O monstro da irracionalidade atormentou nazis e comunistas no século XX. Invocou-se a raça, invocou-se a ideologia para matar sem lei. Não podemos deixar o monstro à solta no século XXI.

Não gosto da ideia de tempo com que vivemos este tempo

one-from-the-heart

Temos presente a mais e o tempo, este tempo, é um cárcere. Sou inábil e inepto para o explicar, mas sei que a seta do tempo não existe. O passado está sempre a irromper no presente e o futuro já aconteceu. Acordam-nos pela manhã os nossos mortos e já dormimos há muito tempo com o amor que ainda nem conhecemos.

Não gosto deste tempo, da ideia de tempo com que vivemos o tempo, nestes 19 anos que dizemos serem do século XXI. É um tempo sem respeito pela língua que Einstein pôs cá fora a troçar da ideia de tempo absoluto. Olho para o planeta e só vejo um tempo, o mesmo tempo em todo o lado, presente, presentíssimo, único e newtoniano. É um tempo foguete, volátil, mas é um tempo de reaccionário sentido único. Pois claro é um foguete velocíssimo, dourado, tecnológico, mas tem as mesmas palas de um burro a uma nora: só vê em frente. O Einstein que habita em cada um de nós revolta-se. Precisamos, queremos, apelamos a tempos simultâneos. Não foi para isto, para que cerrassem o mundo num só tempo, que H. G. Wells inventou a estranha máquina de nele viajar, de viajar no tempo.

E que interessa H. G. Wells? O que interessa é o cinema. Qualquer um dos meus cinefilíssimos leitores sabe isso melhor do que eu, o cinema é a mais sofisticada máquina de viajar no tempo. E devia dizer, de voar o tempo. O tempo, no cinema, são farrapos de nuvens, sofrimentos antigos, alegrias futuras, luke skywalkers e princesas leias. Beija-se no escuro o fresco cadáver de Greta Garbo, foge-nos do braço a mão que corre a acariciar as pernas botticellianas da germânica Dietrich.

Há melhor. Coppola fez um filme que é uma loja de brinquedos por ser do fundo do coração que saem todos os tempos. Numa revolução einsteiniana, acabou com o conceito de “plano” tal como a clássica gramática do cinema o definia. Acções a acontecer no mesmo ou noutro tempo, no mesmo ou noutros espaços, cruzam-se, simultâneos, acendem-se e apagam-se na mesma imagem de One From the Heart.

Tenho, confesso-vos, a vida cheia de tempos. São tempos monozigóticos, meus gémeos. Como nuvens, passam-me pela janela do presente, aventuras, amigos, amores, lágrimas e risos do passado. Vejo o futuro e, sem exagerados anúncios, está lá o rumor de alguns jovens amigos que conversam no dia da minha morte. Que sabe do tempo quem não deixou entrar-lhe na vida o filme da sua própria morte?

Coppola-One

Sexta-feira santa

Este é um post para ouvir.
Pri­meiro, uma canó­nica ver­são do coro final (“Des­can­sem em paz, per­nas aben­ço­a­das”) da Pai­xão Segundo São João, de Bach.

Depois, (“Bombé”) o encon­tro de Bach com o encan­ta­tó­rio bater de pal­mas de um ritual fúne­bre afri­cano — fusão mira­cu­losa, meu Deus Nosso Senhor.

Des­cansa sim, des­cansa esses teus ossos peri­pa­té­ti­cos. Far­taste de andar. Da Gali­leia a Jeru­sa­lém, bodas em Canaã e jejum no deserto, em bem-aventurado pas­seio à mais Alta Mon­ta­nha até sobre as águas cami­nhaste. Descansa-me esses ossos, a carne e os mús­cu­los. Deita-te na cova húmida, fecha os olhos e fala. E ensina-me tam­bém a des­can­sar. Fecha na minha cabeça as por­tas do inferno e ensina-me o ama­relo, o dou­rado cami­nho para o paraíso.

Vladimir
Jesus no túmulo, Vla­di­mir Borovikovsky

Vais dizer-me que são teus os anjos da res­sur­rei­ção, que não cho­re­mos nós por ti, por que já basta cho­ra­res tu por nós. Mas ama­nhã, bem sei, vol­ta­rás a par­tir. Deixas-nos, deixas-me, e hás-de dizer outra vez que tens na tua casa grande, a de eterna luz, um quarto e uma cama à nossa espera. Com len­çóis de uma abso­luta ale­gria, júbilo dos nos­sos olhos, feroz volú­pia dos nos­sos ouvi­dos. Não dizes, mas sabe­mos: é tão fácil che­gar lá. Basta que nos dei­xe­mos crucificar.

E agora ouçam o Mon­te­verdi Choir e os English Baro­que Soloists, diri­gi­dos por John Eliot Gardiner

Morreu o homem que raptava mulheres

OSCARS, LOS ANGELES, USA

Morreu hoje o homem que raptava mulhe­res. Rap­tou sete num dos mais mus­cu­la­dos musi­cais do cinema clás­sico americano.

Stan­ley Donen, coreó­grafo e rea­li­za­dor, é um nome que a his­tó­ria do cinema tende a var­rer para debaixo do genial tapete chamado Gene Kelly. Jun­tos con­ce­be­ram e rea­li­za­ram “On the Town”, “Sin­gin’ in the Rain” e “It’s Always Fair Weather”, eufó­rica e exal­tante tri­lo­gia em que a vozes e pés se exprime a inte­li­gên­cia e a emo­ção huma­nas. São fil­mes ini­ma­gi­ná­veis sem a pre­sença atlé­tica, sau­dá­vel, sor­ri­dente, genial, de Gene Kelly. Mas a rea­li­za­ção de Donen existe, está lá.

seven brides

Sozi­nho, Donen rea­li­zou as “Sete Noi­vas para Sete Irmãos” de que estava a falar quando come­cei a escre­ver, antes de me atra­pa­lhar e meter os pés pelas mãos. Sozi­nho, já sem Kelly, Stan­ley Donen repe­tiu a geni­a­li­dade dos núme­ros musi­cais, a mesma eufo­ria, um con­ten­ta­mento que irra­dia dos cor­pos, a mesma forma de pés, sal­tos, que­das, objec­tos, bra­ços con­ta­rem melhor e mais lite­ral­mente uma his­tó­ria do que se fosse con­tada por pala­vras. Vê-se “Seven Bri­des for Seven Brothers” e vê-se que Donen está lá, “he shows up!”

Quando lhe deram um Oscar hono­rá­rio, Donen subiu ao palco. Mal dis­cur­sou e fez, ainda assim, um dos melho­res “spe­e­ches” que em cima de um palco se pode fazer. Por uma razão sim­ples: este homem sabia o que era a feli­ci­dade. Rap­tava mulhe­res e sabia fil­mar a felicidade.

Tenho razão, não tenho? As saudades que vamos ter de Stanley Donen.

Experimentei morrer

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Tomei a bica curta. Ia ao cinema e precavi-me, que a sala escura convida ao sono. Vi “O Correio da Droga”, de Clint Eastwood, actor e realizador a um passo dos 89 anos. Fez já uns cinco filmes a roçar a perfeição.

Se estão prontos para experiências fortes vejam “O Correio da Droga”. O filme desliza suave e irónico como a carrinha de Eastwood pelas estradas da América. Mas, a pouco e pouco, a morte, a consciência da morte, invade-nos. Saí da sala com a alma ao colo. Tenho 65 anos, sei que vou morrer, mas foi a primeira vez que experimentei morrer um bocadinho. Morrer é assim, tristeza tão bonita, um esplendor que nos faz chorar.

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Bica Curta, publicada no CM

Chorem, toquem tambores

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Um cemitério de John Ford

Nas últimas décadas, desenvolvemos uma cultura que visa naturalizar a morte. Sim, procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de «pessoas civilizadas» já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a mulher tão amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão os pêsames, com ar ligeiramente mais grave, e a seguir juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas, as convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.

Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nietzschiana não nos diz outra coisa e a morte sai à rua num dia assim. Ou num dia assado.

Da Ilíada ao Hamlet, Homero e Shakespeare, com as suas narrativas de violência e morte, se de alguma coisa foram cantores foi desse triunfo da natureza, conflito e crueldade. E o cinema seguiu os passos desse Homero, desse Shakespeare. No mais árido e estéril dos westerns, de John Ford a Anthony Mann, das personagens de Clint Eastwood e Morgan Freeman do Unforgiven, à personagem de Leonardo Di Caprio em The Revenant, o ritual da violência ou o ritual da morte, o campo de batalha ou o cemitério, o morto exposto, o caixão aberto, a conversa do marido com a campa da mulher morta, são o espectáculo do triunfo da natureza ou o da humana aceitação dela.

Deixem-me abrir um sorriso e dizer: é difícil fugir aos clássicos. Mesmo no crime trivial, no pequeno ou mais exuberante assaltante, há ainda um eco homérico; há um pouco de Ulisses no Al Pacino de Dog Day Afternoon. E quem no seu mais íntimo sonho não pensa, como um contemporâneo Agamémnon, que é possível roubar e dormir com a bela Briseida, escrava ou prémio de Aquiles?

Vão-nos morrendo pais e irmãos, os amigos, um esquecido amor de infância. Deixemos que nos rasgue o peito um grito, um choro de baba e ranho, a angústia de quem, fetal, regressa ao caos e trevas de antes de haver mundo.

unforgiven
o caixão de Freeman /Eastwood

do not go gentle into that good night

thomas_portrait

A certas horas da noite a morte seduz e assusta-nos. Mas há convites a que não se pode ceder sem uma boa luta. Mesmo que o sonoro convite seja dito em “g” de gentle, consoante que o meu Aurélio diz ser fricativa palatoalveolar quando precede a vogal “e”, como é o caso neste poema de Dylan Thomas.

Gosto do ritmo, das rimas e do trovão de érres que se repete em  “Rage, rage against the dying of the light”.

Entre a doçura e a fúria, Thomas terá escrito este poema, inundado de vogais abertas, quando o pai adoeceu gravemente. Só o publicou depois dele ter morrido.

Vale a pena ouvi-lo na pessoalíssima voz (tão teatral) do poeta galês.