Zé Mário, qual é a tua, ó meu?

JMBranco

Para onde foi, para tão longe, o Zé Mário que hoje nos deixou? Estava eu sentado, em Luanda, nos meus 17 anos, e quem me mostrou o primeiro álbum dele foi o Carlos Brandão Lucas. O nosso grande patrão Carlos, o António Macedo, o Artur Neves e o Emílio Cosme tinham-me adoptado e metido no programa Equipa, da Emissora Católica de Angola. E puseram-me a ouvir, e a Luanda inteira, o “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Não era um álbum, era a recriação do meu mundo de sentimentos, de ideias, de emoções. Só queria cantar, soubesse eu cantar, a “Queixa das almas jovens censuradas” e, para que nunca mais o voltássemos a ficar, que cantássemos todos o “Perfilados de Medo”. Nesse álbum, a palavra mulher era dita, ou entoada, de uma maneira tão diferente. “Mariazinha” e “Casa comigo Marta” traziam um toque plangente ou ironicamente subversivo à figura feminina. O que nesses versos e acordes aprenderam da mulher os meus olhos e ouvidos: quem tem olhos que veja, quem tem ouvidos que ouça.

Nunca, nesses dias de remanso colonial, imaginei que viria a conhecer o Zé Mário. Mas conheci, no Teatro do Mundo, para onde me levaram. E em casa do Zé Gabriel e da Manela. Um dia, estavam lá todos, com o João Bénard também, e eu sentado no chão. Foi quando o Zé Mário disse, “queria que ouvissem uma canção que ainda não gravei”. E o que ele cantou era um rumor de tempestade, uma torrente imparável de som e fúria sacudida por um riso shakespeariano. Cantou ali o “FMI”. Nunca houve, depois de ele acabar de cantar, nenhum silêncio como aquele silêncio. Em cada um de nós havia, entre a cabeça e o peito, vulcão e lava.

Depois, já com a minha Antónia, e ele sempre com a Manela de Freitas, em todas as peças do Teatro do Mundo, em casa do Carlos do Carmo, na companhia do Zé António ou do meu saudoso Chico Grave, a jantar no Sete Mares ou a beber bicas no senhor César, em Altura, encontrar o Zé Mário era um romance. Nunca levantei com ele punhinhos no ar, nem ele mo pediria. Mas a inteligentíssima gentileza dele era o hino à humanidade a que era impossível não aderir.

Um dia, nessa aldeola que é Altura, a três passos de Espanha, vinha eu da praia, pendurado na Antónia, quando o vimos no meio das dunas, os netos ao lado. “Zé Mário, como é, de que andam aí à procura?” “Qual procura! Estamos a fazer a Volta à França!” Com os netos, caricas a fingir de ciclistas, estradas desenhadas nas dunas, estava ali, joelhos na areia, t-shirt e calção de banho, um tipo cheio de música, cantor, compositor, produtor, criador dos mais belos arranjos, essa almofada que fez o conforto de José Afonso, de Carlos do Carmo, de Camané.

Bem sei, Zé Mário, o que sempre prometeste: “Eu vou p’ra longe, p’ra muito longe.” Mas assim, ainda tão cedo? Qual é a tua ó meu?

Servidões, Herberto Helder

Texto escrito no dia 15 de Junho de 2013, poucos dias depois da saída deste penúltimo livro de Herberto Helder. A quente. Sem rede.

Servidões

 

Sem­pre houve morte na poe­sia dele, nunca tanta como em “Ser­vi­dões”. Em 10 pági­nas de inclas­si­fi­cá­vel prosa, a que se somam outras 98 com 73 poe­mas, escreve-se um homem e a sua morte.

As dez pági­nas de prosa, esses pas­sos em volta antes da con­vulsa cor­rida dos poe­mas, são insis­tente e desa­fi­a­do­ra­mente auto­bi­o­grá­fi­cas. E, não obs­tante, estão aquém e além da bio­gra­fia. “Ser­vi­dões”, o livro que Her­berto Hel­der publi­cou em Maio de 2013, dois anos antes da sua morte, começa na infân­cia, num relato de perda de ino­cên­cia que nos pre­para para a via-sacra de esta­ções em que o poeta encara, com natu­ra­li­dade, que a morte esteja agora, sobe­rana e apa­ren­te­mente sem pressa, a observá-lo. Morte fera e benigna, farta de saber que a presa não lhe fugirá. Que me lem­bre, só um resig­nado e estóico poema de Lar­kin, “Aubade”, nos tinha dado, da morte, esse tão sereno, certo e seguro olhar. Em Her­berto, como o car­teiro de Lar­kin, um arma­zém espera pelo corpo que há-de che­gar num saco um pouco maior do que o seu tamanho.

Ser­vi­dões” é uma auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia não for des­file de acon­te­ci­men­tos. Auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia puder ser a visu­a­li­za­ção e ver­ba­li­za­ção simul­tâ­nea do mundo e dos pro­ces­sos que um corpo usa para perceber, receber e rea­gir a esse mundo.

Na maior parte da arte con­tem­po­râ­nea o mundo é vazio. Se não o mundo, a repre­sen­ta­ção dele. O mundo da poe­sia – e da prosa – de Her­berto Hel­der é um mundo ple­tó­rico, cheio de ani­mais, medos e ale­grias pri­mi­ti­vas, as gran­des coro­las dos giras­sóis, basal­tos, mêns­truo e espumas.

Povo­a­dís­simo de coi­sas, ani­mais e pes­soas, “Ser­vi­dões”, como a “Poe­sia Toda” de mais de 50 anos que a pre­cede, é o livro de uma escrita à pro­cura da radi­cal ver­dade do humano e, como há muito tempo se dizia, da sua con­di­ção. No poema de aber­tura (ou se pre­fe­ri­rem na prosa de aber­tura) o poeta estende um porco sel­va­gem na mesa da cozi­nha, ani­mal que o poema logo reta­lha a cute­los e faca­lhões. Fecha­mos os olhos – na poe­sia de Her­berto Hel­der fecha­mos mui­tas vezes os olhos – e res­pi­ra­mos, abas das nari­nas bem aber­tas: há um odor a bar­bá­rie, um sau­doso odor a san­gue e bar­bá­rie em que nos reco­nhe­ce­mos e, por voca­ção ani­mal, nos revol­ve­mos. É um cheiro que vem da infân­cia, dessa nossa obs­cura, per­dida e funda infân­cia. Cheiro da cru­el­dade orgâ­nica de um miúdo que, sem nojo, mexe no que da vida é vis­ce­ral. Um cheiro de um entu­si­asmo des­con­tro­lado, o mesmo de uma “cri­ança de cabeça zoo­ló­gica” que des­co­bre a calei­dos­có­pica e ale­a­tó­ria magia.

É ape­nas um livro, pala­vras, a intrin­cada ari­dez da gra­má­tica, que usa explo­si­va­mente a orto­gra­fia que, agora, mangas-de-alpaca jul­gam pertencer-lhes. Só que, como desde “O Amor em Visita”, e como na melhor poe­sia que já se escre­veu, de Vil­lon a Rim­baud, de Rilke a René Char, de Yeats a Dylan Tho­mas, em “Ser­vi­dões”, a riqueza ver­bal, as sur­pre­sas semân­ti­cas, uma certa pro­di­ga­li­dade meta­fó­rica e meto­ní­mica, meta­bo­li­zam as emo­ções, rein­ven­tam e redi­men­si­o­nam o real. A pala­vra carne é mais do que a pala­vra carne e os ver­sos enchem-se de incon­ti­dos cinco litros de san­gue, dez metros de san­gue, de mães lou­cas que nunca dei­xa­ram de habi­tar a obra de Her­berto, de um orva­lho que pre­nun­cia a última manhã. A abe­ce­dá­ria poe­sia assalta o real, confundindo-se e não se con­fun­dindo com ele,.

Enquanto espera a noite, a amarga noite, que há-de vir e há-de des­fa­zer, a memó­ria con­ti­nua a fazer o seu tra­ba­lho e estende-se na cama a sau­dade da pequena puta dei­tada. E as pala­vras de Her­berto, que em pó, poeira, poa­lha ali­te­ram a morte, abrem-se à fêmea oferecendo-lhe outra, dife­rente, bila­bial ali­te­ra­ção: branca, brusca, brava, encar­nada. Só Sena e Drum­mond aflo­ra­ram assim, em abe­ce­dá­ria lín­gua por­tu­guesa, a carne tré­mula, essa carne em que “eu sei quanto depressa morro”.

Nos ver­sos ou na prosa de Her­berto Hel­der cami­nha­mos entre ritos mági­cos e bár­ba­ros. Como se toda a his­tó­ria do humano fosse um poema, “Ser­vi­dões” é o cálice de uma tra­di­ção. Um cálice de sacri­fí­cio san­grento e de êxtase, de uma longa insó­nia de tabu e incesto. Saí­mos de um tor­por antro­po­ló­gico. Os poe­mas de “Ser­vi­dões” con­tam his­tó­rias. Remo­tas e actu­ais. His­tó­rias ances­trais em que as árvo­res devo­ram cadá­ve­res ou a his­tó­ria de um poeta con­tem­po­râ­neo, órfão de Rim­baud, a quem ape­nas sobra a mise­ri­cór­dia de um tiro na cabeça. Há, houve sem­pre, uma África a insinuar-se na poe­sia de Her­berto. Neste seu livro, escuta-se a lenda afro-carnívora, a soli­dão majes­tá­tica do imbon­deiro na inter­mi­ná­vel estepe. Pressente-se o elo­gio de uma certa per­sis­tên­cia vege­tal e, com a escas­sez de um haiku, as folhas de uma welwits­chia escon­dem “no deserto entre as for­na­lhas” uma japo­nesa gota de orvalho.

Ser­vi­dões” é tam­bém um livro à pro­cura da radi­cal ver­dade do poema e do poeta. Poema e poeta sabem que dis­cor­rer sobre o mundo, sobre a sua ordem, é menos do que nomear. Esse conhe­ci­mento con­fere vozes dís­pa­res e ambas se escre­vem neste livro: uma leveza his­trió­nica, uma angús­tia monás­tica. Tal­vez a alma não exista, mas esse obs­curo fré­mito que nos chega a fazer pen­sar que a alma existe, está, menos do que nome­ado, na peque­nina frac­tura ou ferida que separa o gesto cómico do mes­tre Zen que tan­tas vezes é o poema, e a reli­gada e lúcida tor­rente ver­bal, “cor­dão de san­gue à volta do pes­coço”, que sufoca poema, poeta e leitor.

A escrita de Her­berto foi sem­pre devo­ra­dora de tudo, da carne, cama e mundo. Em “Ser­vi­dões” apodera-se dela, por vezes, uma sere­ni­dade romana. Escrevem-se mais deva­gar os poe­mas. Mas as anti­gas explo­sões, a ver­ti­gem ver­bal de “A Máquina Lírica” ou “Antro­po­fa­gias” regres­sam ainda, nuas, cruas, sexu­ais, lumi­no­sas, nos 32 ver­sos que, irmãos huma­nos que depois de mim vive­reis, invo­cam Vil­lon, ou quando, na página 97 e seguin­tes, tomado por uma dor faulk­ne­ri­ana, no mais orgás­tico e xamâ­nico momento deste livro, o poema se entrega a um con­solo de antes o inferno do que nada, para se cer­rar no mais belo post scrip­tum que já se ofe­re­ceu à lín­gua por­tu­guesa: “meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcan­çado.

Este é o poeta, o que deva­gar tomou o poema em suas mãos e, dando gra­ças, o repar­tiu dizendo: tomai, e lede todos, fazei isto em memó­ria de mim.

A Morte

der Müde Tod
A Morte Cansada

Faltavas tu. Esta Página Negra tem estado à tua espera. Mais cedo ou mais tarde chegarias. Tu mesma, A Morte, a ceifeira, a senhora de branco. Pensa-se que sim, mas não, não és tu que matas. Somos nós que morremos em ti.

Não te invejo a dura sorte, a veste quimérica, a gadanha cruel, o rosto torcido, munchiano, o silêncio imperturbável. Não falas, sopras. Um sopro cansado. És, de certeza, alemã: Der Müde Tod*.

Descansa agora: deves estar esgotada. Trazes um cansaço labiríntico, de milénios.

És menos cruel do que se julga. Vi-te uma noite, no sono, imóvel no meu sono. Come seeling night…**, vem, vem assim, ó noite de olhos vendados. Percebi que não és tu que matas. Morremos sim do medo frio e cinza de te ver. Um medo dos diabos planta-se no meio do sono. Um medo que nunca se teve, nunca se tem, nunca mais se voltará a ter na vida. No meio do sono, um frio antárctico, o coração arrepanhado, o corpo crispado como as ruínas de uma casa. E tu olhas, olhar apócrifo, para as frágeis paredes de carne, as veias entupidas. Olhas como quem pensa, estática, dentro de um véu de desespero, as abruptas dores do sono: the pains of sleep***.

Nunca te vi na morte dos outros. Compreendo que seria um embaraço. Por cortesia, para que ninguém se mortifique, foges da melancolia dos funerais. Vi-te a cavalo, a pé, camuflada numa lenta carroça. E o que vi, vendo-te, é o espectáculo da mais triste solidão. De uma desolada fealdade. Segue-te, como banda sonora, o ímpio urro sem remorsos. Não te invejo a sorte. E menos invejo a agonia de todos irmos morrer em ti.

Chegas agora. Vens juntar-te às delicadezas e indelicadezas que já habitam esta Página Negra. Chegas, anjo nocturno, casamento único de céu e inferno. Contigo, que outra coisa pode ser a Página Negra, que não seja uma anfitriã gentil: vai sentar-te à mesa, contar-te-á sonhos, rêveries que a tua eterna e imutável insónia nunca te permitirá ter. Uneasy lies the head that wears a crown****. É essa, uneasy, intranquilíssima, a tua cabeça, cabeça-coroa-de-espinhos, em que não cabe, nem pousa, a tiara de sono ou sonho. Sobre de ti ou de ti irradia sempre e só a pálida luz bruxuleante, azulada, infeliz.

Descansa agora Müde Tod, minha cansada morte. Esquece os túmulos, os vermes, a terra. Goza um minuto, um minuto que seja, um minuto de cristal, de tempo fora do tempo. Aceita um lindo epitáfio: so shall my walk be close to Death***** ( que eu traduzo livremente por “possam os meus passos roçar a Morte“) e deixa-te levar, não recuses o doce abraço de mármore, vem tu morrer um bocadinho em cada um de nós.

 

* A Morte Cansada, título do filme de Fritz Lang, da fase alemã.
** Shakespeare, Macbeth III, 2
*** título de poema de Samuel Taylor Coleridge
**** Shakespeare, Henry IV, Part Two, III, 1
***** Variação sobre verso de William Cowper — So shall my walk be close to God – do poema Walking with God.

A mulher casada

Nicolas-Stael
Nicolas um ano antes do fim

Matou-se. Lançou-se de um terraço, em Antibes. Era órfão, exilado e príncipe russo. Pintor sobretudo. Do terraço fatal via-se o mar, essa oscilante antecipação da eternidade.

O suicida, Nicolas de Staël, tinha só 41 anos. Há dois anos que os americanos tinham desatado a comprar-lhe telas: a fanfarra da glória começava a tocar a seus pés, logo a ele que, entre guerras e em Paris, chupara a miséria e mastigara a fome.

Em 1953, ano em que nasci, ainda eu não sabia o que era uma mulher e muito menos uma mulher casada, Nicolas apaixonou-se pela casadíssima Jeanne Mathieu. Era morena, uma luz boa para cegar poetas e pintores, a mesma luz que fizera Staël viver um ano em Marrocos e descobrir as cores, ponta de lança da sua pintura.

Nicolas não lhe tocara com um dedo e já o invadia uma reaccionaríssima paixão: possessiva, ubíqua, omnipresente. Tal como eu vi o fulgor tropical da transcendência nas praias e mangais do km 36, entre Luanda e a Barra do Kwanza, a imagem de Jeanne foi a limalha incandescente no olho e coração de Nicolas. Queria-a, verbo que passou a conjugar com veemência sussurrante.

Mandado e recomendado pelo amicíssimo poeta René Char, seu gémeo em altura, Staël viera com mulher e filhos, passar férias à quinta onde os Mathieu criavam bichos-da-seda. Os Mathieu, pais de Jeanne, eram família patrícia, com gosto pela cultura. Recebiam Char e Albert Camus, melhor amigo de Urbain Polge, marido de Jeanne. O molho vinagrete de Jeanne salvou Camus do tédio de Sartre e salvou meia literatura.

No fim da estada, Staël alugou uma camioneta e viajou a Itália com mulher e filhos, convidando Jeanne a vir com eles. Ela, com a liberdade patrícia de 1953, aceitou. Viagem de tormento familiar, de amor reprimido, garrote apertado no desejo. Regressam e ele despacha a família para Paris. Quer ficar sozinho para pintar, diz. Quer ficar e fica sozinho com Jeanne. Libertou-se o desejo em todas as assoalhadas, sala, cadeirões, varanda, quarto, talvez cama. Não invento: basta ver como Nicolas desatou a pintar nus. Nu de Pé, Nu Deitado, Nu Deitado Azul, Nu Jeanne, e esse Nu Deitado (Nu) que, em 2011, se leiloou por mais de sete milhões de euros.

nu_couche
fabulosas cores de Nu Deitado (Nu)

Mas Nicolas, príncipe russo, alma dostoievekiana, abomina o pecado. Quer e quer e quer casar com Jeanne. Ela assusta-se e foge para o marido gentil e camusiano. Arde nos pulmões e no estômago de Nicolas um fogo do inferno. Não pode já viver sem a amada. A rejeição do casamento é um punhal que, virasse-se ele de costas, lhe veríamos cravado entre os ombros.

Despreza a glória e os cifrões americanos. Pinta, obsessivo, 254 telas e 300 desenhos. Vive a cada semana uma revolução estética, que deixa os compradores mais estupefactos do que Moisés ao ver a sarça-ardente.

Nicolas não compreende e ainda menos aceita que Jeanne fuja do desejo e do seu amor sinfónico. Está só, abandonou a família e abandonou-o o amigo, um reprovador René Char. Com quem pode Staël falar que o compreenda? Talvez Deus! Queima, então, toda a papelada, menos as cartas que recebeu de Jeanne. Vai entregar-lhas. Jeanne, vestida de medo, manda o marido à porta recebê-las. Nicolas entrega-lhas e diz: “Ganhaste!”

Volta ao apartamento de Antibes e pinta, três dias e três noites, uma tela gigantesca, de 6×3 metros, o Grande Concerto, imponente piano negro à esquerda, contrabaixo dourado à direita, fundo vermelho. O dostoievskiano Nicolas escrevera numa carta: “Preciso desta mulher para me atirar ao abismo!” Acabado o Grande Concerto, subiu ao terraço e mergulhou.

nicolas-de-stael-le-grand-concert
fulgurante Grande Concerto

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Morreremos como uma corveta

afonso

Numa das minhas espartanas razias pela televisão, apanhei na SIC uma bela reportagem de Aurélio Faria sobre a corveta Afonso Cerqueira. Era uma corveta cheia de História, como todas as corvetas, ou como todos nós que navegamos a vida como num oceano deslizam corvetas. Hoje, a corveta está no fundo do mar.

E vi, nessa corveta no fundo do mar, feita recife ao largo da Madeira, o meu destino. Na morte da corveta a minha morte. A sua também. A de todos os nossos amores amigos, afinal. Todos acabaremos recifes no fundo do cosmos sem fundo.  Tal como a heróica corveta Afonso Cerqueira que, seja por onde quer que se entre, oferece sempre uma segunda saída aos aquáticos visitantes, por mim, por si, pelo meio desses suspensos recifes, que estamos destinados a ser no fundo do cosmos, nadarão mergulhadores, o impertinente esquecimento, as cegas águas da eternidade, robalos e douradas galácticas, as despenteadas algas de Deus. Por onde quer que metafisicamente nos entrem, esses cósmicos visitantes encontrarão sempre a nossa segunda e oferecida saída, roído buraco, mais de olvido do que de saudade, do sono ou sonho que tenha sido a nossa remota vida. 

Se me permitem dizê-lo, é a primeira vez que a eternidade me apetece.

Bury a friend

Hoje a minha mãe faria 93 anos, não tivesse ido a enterrar há 6 anos. Tanto se pode ir a enterrar no passado como a ir enterrar no futuro. Nesta canção vai-se a enterrar no presente. Ouvi-a esta manhã. Não sei se é belíssima, se é terrível. Passou por mim o vento de saudade de um tempo menos pesado: When we all fall asleep, where do we go?

Noites de ponta e mola

faca

A morte de Abel, Tintoretto

A ponta e mola brilhou numa noite dos meus 14 anos. Voltei a vê-la em “The Outsiders” e “Rumble Fish” de Francis Coppola, filmes que depois me mostraram o espectáculo da morte a que aos 14 anos não assisti. Mas conto.

barriga
espetou-lhe na barriga uma faca darwiniana

A faca enterrou-se na carne macia e jovem. Subiu, cega e oblíqua, da bar­riga para o estô­mago. Eu morava dois quarteirões adiante e estas coisas acon­te­ce­ram em Luanda. Foi a primeira vez que a palavra morte apagou um rosto do resto dos dias da minha vida.

Como o Matt Dillon de “The Outsiders”, o V era mais velho do que eu. Dois anos, um mundo de difer­ença. Mas fazíamos junto, a pé (às vezes com o Videira, o mais célebre contínuo do liceu), o caminho do Sal­vador Cor­reia até ao Cin­ema Império, pas­sando pela Sagrada Família, o descam­pado em frente ao Hos­pi­tal Mil­i­tar, um inóspito car­reiro até ao Liceu Fem­i­nino e, à frente, atrav­es­sando a D. João II, o cin­ema Império, com a defesa civil ao lado, as mora­dias alin­hadas entre as tra­seiras do cin­ema e a Estrada de Catete.

Tudo terá acontecido para que Coppola viesse um dia a filmar, em “Outsiders”, com liberdade poética, a cena em que Johnny, quase uma criança, mata um miúdo do bando inimigo, salvando Ponyboy, o melhor amigo. Nessa noite que ainda não sabia ser a última, V andava também em bando – sem­pre em bando. Julgaram sur­preen­der um ladrão. Lará­pio só, não ladrão de colarinho e off-shores como hoje se con­hecem. Era um miúdo do musseque, ani­mado pela vontade de risco, pelo orgulho de deam­bu­lar no bairro branco. Vinha em rito de ini­ci­ação. A inútil e essencial cor­agem adolescente.

Como Ponyboy e Johnny, o miúdo do musseque, sentindo o cerco, pas­sou a acos­sado. Imag­ino que tenha ficado ani­mal encol­hido entre muro e sebe, leopardo atento, a res­pi­ração a fer­ver, mús­cu­los ten­sos até doer, pronto para ser invisível e lutar. Matar, se fosse pre­ciso. As som­bras bran­cas cor­riam, sem que nen­huma o visse. Imag­ino que V o tenha apan­hado de sur­presa, num tempo sem som, igual a uma ton­tura, o mesmo tempo insonoro que Coppola mostrou em “Rumble Fish”.

Mais apto, mais rápido, o miúdo, jovem máquina de luta de musseque, espetou-lhe na bar­riga uma facada dar­wini­ana. De baixo para cima, irremediável. E correu, flecha entre as árvores, perdendo-se na anónima meia-noite dos trópi­cos. Voltou a casa, aos seus, à adormecida mãe na esteira. Respiração a mil, mas de coração livre e sobrevivente. No chão do bairro branco ficara estendido o menino de outra mãe.

Soube no dia seguinte: mataram o V, o V morreu. No cemitério – éramos um bando, sem­pre um bando – não con­seguíamos chorar. Ríamos ner­vosa­mente. Digo, então, que a primeira vez que vi a morte me ri ner­vosa­mente, tão ner­vosa­mente como me ri quando, pela primeira vez, sangue em alvoroço, me apaixonei.

Em “Rumble Fish”, Rusty James (Matt Dillon) leva uma sova homérica num beco. Vemos o corpo separar-se do corpo. o segundo corpo, um corpo flutuante, hesita ainda, com pena do frio vulto de que saiu e jaz em terra, mas já com vontade de descobrir celestiais nuvens de aventura e desconhecido. Em “Rumble Fish” o corpo dá um pontapé à morte e volta ao corpo térreo, original. Em Luanda, em vez do apelo de lutas, namoros, farras de sábado, uma bebedeira na Ilha, o corpo flutuante de V escolheu o desconhecido. Escolheu harpas e arcanjos, ou esse rumor cósmico que é som e não é som e que torna toda a metafísica inútil.

rusty
o corpo flutuante hesita ainda