Morreu o homem que raptava mulheres

OSCARS, LOS ANGELES, USA

Morreu hoje o homem que raptava mulhe­res. Rap­tou sete num dos mais mus­cu­la­dos musi­cais do cinema clás­sico americano.

Stan­ley Donen, coreó­grafo e rea­li­za­dor, é um nome que a his­tó­ria do cinema tende a var­rer para debaixo do genial tapete chamado Gene Kelly. Jun­tos con­ce­be­ram e rea­li­za­ram “On the Town”, “Sin­gin’ in the Rain” e “It’s Always Fair Weather”, eufó­rica e exal­tante tri­lo­gia em que a vozes e pés se exprime a inte­li­gên­cia e a emo­ção huma­nas. São fil­mes ini­ma­gi­ná­veis sem a pre­sença atlé­tica, sau­dá­vel, sor­ri­dente, genial, de Gene Kelly. Mas a rea­li­za­ção de Donen existe, está lá.

seven brides

Sozi­nho, Donen rea­li­zou as “Sete Noi­vas para Sete Irmãos” de que estava a falar quando come­cei a escre­ver, antes de me atra­pa­lhar e meter os pés pelas mãos. Sozi­nho, já sem Kelly, Stan­ley Donen repe­tiu a geni­a­li­dade dos núme­ros musi­cais, a mesma eufo­ria, um con­ten­ta­mento que irra­dia dos cor­pos, a mesma forma de pés, sal­tos, que­das, objec­tos, bra­ços con­ta­rem melhor e mais lite­ral­mente uma his­tó­ria do que se fosse con­tada por pala­vras. Vê-se “Seven Bri­des for Seven Brothers” e vê-se que Donen está lá, “he shows up!”

Quando lhe deram um Oscar hono­rá­rio, Donen subiu ao palco. Mal dis­cur­sou e fez, ainda assim, um dos melho­res “spe­e­ches” que em cima de um palco se pode fazer. Por uma razão sim­ples: este homem sabia o que era a feli­ci­dade. Rap­tava mulhe­res e sabia fil­mar a felicidade.

Tenho razão, não tenho? As saudades que vamos ter de Stanley Donen.

Experimentei morrer

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Tomei a bica curta. Ia ao cinema e precavi-me, que a sala escura convida ao sono. Vi “O Correio da Droga”, de Clint Eastwood, actor e realizador a um passo dos 89 anos. Fez já uns cinco filmes a roçar a perfeição.

Se estão prontos para experiências fortes vejam “O Correio da Droga”. O filme desliza suave e irónico como a carrinha de Eastwood pelas estradas da América. Mas, a pouco e pouco, a morte, a consciência da morte, invade-nos. Saí da sala com a alma ao colo. Tenho 65 anos, sei que vou morrer, mas foi a primeira vez que experimentei morrer um bocadinho. Morrer é assim, tristeza tão bonita, um esplendor que nos faz chorar.

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Bica Curta, publicada no CM

Chorem, toquem tambores

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Um cemitério de John Ford

Nas últimas décadas, desenvolvemos uma cultura que visa naturalizar a morte. Sim, procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de «pessoas civilizadas» já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a mulher tão amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão os pêsames, com ar ligeiramente mais grave, e a seguir juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas, as convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.

Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nietzschiana não nos diz outra coisa e a morte sai à rua num dia assim. Ou num dia assado.

Da Ilíada ao Hamlet, Homero e Shakespeare, com as suas narrativas de violência e morte, se de alguma coisa foram cantores foi desse triunfo da natureza, conflito e crueldade. E o cinema seguiu os passos desse Homero, desse Shakespeare. No mais árido e estéril dos westerns, de John Ford a Anthony Mann, das personagens de Clint Eastwood e Morgan Freeman do Unforgiven, à personagem de Leonardo Di Caprio em The Revenant, o ritual da violência ou o ritual da morte, o campo de batalha ou o cemitério, o morto exposto, o caixão aberto, a conversa do marido com a campa da mulher morta, são o espectáculo do triunfo da natureza ou o da humana aceitação dela.

Deixem-me abrir um sorriso e dizer: é difícil fugir aos clássicos. Mesmo no crime trivial, no pequeno ou mais exuberante assaltante, há ainda um eco homérico; há um pouco de Ulisses no Al Pacino de Dog Day Afternoon. E quem no seu mais íntimo sonho não pensa, como um contemporâneo Agamémnon, que é possível roubar e dormir com a bela Briseida, escrava ou prémio de Aquiles?

Vão-nos morrendo pais e irmãos, os amigos, um esquecido amor de infância. Deixemos que nos rasgue o peito um grito, um choro de baba e ranho, a angústia de quem, fetal, regressa ao caos e trevas de antes de haver mundo.

unforgiven
o caixão de Freeman /Eastwood

do not go gentle into that good night

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A certas horas da noite a morte seduz e assusta-nos. Mas há convites a que não se pode ceder sem uma boa luta. Mesmo que o sonoro convite seja dito em “g” de gentle, consoante que o meu Aurélio diz ser fricativa palatoalveolar quando precede a vogal “e”, como é o caso neste poema de Dylan Thomas.

Gosto do ritmo, das rimas e do trovão de érres que se repete em  “Rage, rage against the dying of the light”.

Entre a doçura e a fúria, Thomas terá escrito este poema, inundado de vogais abertas, quando o pai adoeceu gravemente. Só o publicou depois dele ter morrido.

Vale a pena ouvi-lo na pessoalíssima voz (tão teatral) do poeta galês.