Ouvido quente

Eyes-Wide-Shut

Das virtudes de Stanley Kubrick a menor não terá sido a sua capacidade de escolher temas musicais que desencadeavam uma turbulência emocional incontrolável. Kubrick tinha um “ouvido quente”. Ora ouçam:

Shostakovich pode agradecer a Kubrick ter-nos criado a obrigação de passarmos a ouvir com “Eyes Wide Shut” esta “Segunda Valsa” (que é o 6º andamento da Jazz Suite nº2 — Suite for Promenade Orchestra). Mesmo sem Cruise e sem a tão bela Kidman, a plenitude triunfante destes violinos é inexplicavelmente exaltante e libertadora. Paradoxo: esta suite de 8 movimentos foi composta na Rússia soviética, ou de como um violino apaixonado nos pode desembaraçar amorosamente da teia das tiranias.

 

Eyes wide shut

avião

 

Contaram-me este conto e já se sabe que quem conta um conto…

Estou há cinco minutos de olhos fechados. Numa boca do fogão ferve a água de uma panela com batatas e uma couve. A couve lombarda demora mais a cozer e já estava ao lume dez minutos antes de ter juntado as batatas.

A casa está calada e a rua num silêncio que os vidros duplos das janelas reforçam. Mas passam aqui por cima muitos aviões e, claro, cada um que passa estilhaça a calma das sete horas da tarde. Passa agora outro e lembro-me que a couve lombarda é de cultura biológica. Digo isto, não porque seja importante ou tenha alguma relação com o avião, mas apenas para sublinhar, agora que o estrondo do avião que passa apaga a esperança de outros sons, que tenho uma panela com água a ferver ao lume. Aliás, as batatas são também de cultura biológica. Hei-de grelhar, depois, uma posta aberta de garoupa. Quando se está de olhos fechados, pensa-se em tudo e é com uma irritação fútil e descabelada que o preço do quilo da garoupa insiste em impor-se-me. O quilo da garoupa à posta está a 48€, embora seja provável que no mercado de Benfica se consiga a melhor preço.

Quando fechamos os olhos, os pensamentos ficam muito claros e distintos, embora se lhes desorganize a hierarquia. Tão depressa estamos a pensar na existência de Deus, como no gato que apareceu, intempestivo, nas escadas das traseiras durante uma semana. Primeiro não lhe liguei, mas era um gato muito jovem e deve ter caído de um dos ramos altos. Os muros, tão inóspitos, não o deixaram voltar a casa e, em poucos dias, já estava magro e trazia nos olhos uma abatida sonolência. Comecei a dar-lhe de comer. Comprei um saco de comida seca e outro com um miminho de comida húmida.

Estava a dizer que, de olhos fechados, se pensa muito na existência de Deus. Mas só por absurdo é que se consegue ir muito além da sensata conclusão de que ou Ele existe ou não existe. A tendência, sempre que, como agora passa um avião é pensar que Ele existe. Por outro lado, se há coisa de que não tenho dúvidas é da alergia que tenho a pêlo de gatos e cães. Tive de mandar vir uma organização amiga dos animais recolher o pobre do gato. Apanharam-no no terraço. Sei que há, no terraço, uma fenda que nunca se conseguiu encontrar e por onde se infiltra a água que, nos dias de muita chuva, cai, pingo a pingo, na casa de banho de serviço. Não há nada pior do que um barulho rítmico. É um som que não suporto.

Não ouço só a água em ebulição. Deixei lá dentro, na sala, o telemóvel a carregar. O nítido plim do Messenger avisa-me de que alguém me mandou um recado. Não me mexo, concentro-me e sei que deitei, ponho sempre, um fio de azeite na água em que cozo a couve e as batatas. E ainda me chega um invasivo e agreste segundo plim do Messenger antes de outro avião passar a descer para o aeroporto. Penso que se me concentrasse nos aviões como me concentro na panela de batatas, conseguiria distinguir o som de um Airbus ou de um Boeing, talvez até as subtis diferenças que há, por certo, entre os aparelhos da KLM, os da TAP e os da British Airways.

Se abrisse a janela ouviria os pássaros a chilrear nas árvores das traseiras. Há ali um grande jardim de um palacete e, no começo da manhã e ao fim da tarde, as árvores enchem-se de vida. São sete da tarde e os impecáveis e impiedosos vidros duplos separam-me tanto de Deus como da música dos pássaros. Mas dei conta que arrancou agora o frigorífico. É um Smeg, quase que lhe ouço a cor vermelha. Tem um sistema de frio: estático no congelador, ventilado para o refrigerador. Em boa verdade o que me interessa é que tem quatro prateleiras e 1,51 m de altura. É quase música o som suave do seu ciclo de trabalho.

Não é que eu não goste de música e peço que não me levem a mal, mas quando fecho os olhos desligo tudo, música, rádio e  televisão. De olhos fechados, prefiro ouvir a madeira de um móvel que estala, os sapatos no andar de cima, um grito na rua. No escritório em que trabalho são as sirenes das ambulâncias e as da polícia. Um colega mais viajado diz que é a nossa little New York, mas talvez seja só ele a fazer-se interessante. Em todo o caso, é raro eu fechar lá os olhos. Há coisas que não são para ali chamadas.

Dizia eu que gosto dessa música aleatória que a casa toca quando fecho os olhos. O fogão e o telemóvel, os aviões e os pássaros, uma árvore que range, uma descarga de autoclismo se encostar os ouvidos à parede. E, quando o silêncio é denso como uma fatia de pão barrada a manteiga de amendoim, chego a ouvir a música do meu corpo, uma pequenina floresta de sons agudos dentro da cabeça, o solo de bateria do coração, os borborigmos entre o estômago e o intestino, culpa do glúten que não consigo evitar.

As batatas já devem estar cozidas. Tenho de ir espetar-lhes um garfo. E tirar do frigorífico a posta de garoupa. Hei-de deitar um fio de azeite no grelhador, flor de sal qb na carne rosada da garoupa. A alegria breve de um copo de vinho branco. E não vou comer pão. Abro os olhos, foge o silêncio, regressa o tempo e acorda a casa. Virão mais tarde os aviões da noite.

A alegria é a repetição

Ah, vou confessar-vos que o meu melhor sonho era ir aqui com os meus melhores amigos e can­tar, asso­biar, bater pal­mas com esta gente que está ali em êxtase no vídeo, enfim, soprar­mos nas mes­mas cornetas.

Espanta-me o ter­rí­vel erro em que tanta gente teima. Como é que não per­ce­be­ram que a ale­gria, a maior ale­gria, é fazer sem­pre a mesma coisa? Pode haver alguma coisa melhor do que can­tar sem­pre a mesma can­ção? Já viram o sereno aroma que se evola (ó meu Deus, eu disse mesmo evola?) dos mesmo ver­sos repe­ti­dos anos a fio, sem a angús­tia de pala­vras novas de que pode­mos não nos recordar?

Do que gosto é de saber que que­re­mos todos can­tar as mes­mas can­ções, seguir o mesmo ritual de asso­bios, aplau­sos nos pon­tos cer­tos, nos pon­tos que todos sabem, num coro que afina e desa­fina por unanimidade.

Este é um dos inenarráveis prazeres do Verão lon­drino, a Última Noite, Last Night of the Proms. Sabe bem entrar nessa mul­ti­dão unís­sona, can­tar debaixo da brisa de uma única ban­deira, que são mil bandeiras. A ale­gria é can­tar mil vezes o “Rule Bri­ta­nnia”; a ale­gria é a ausên­cia de surpresas.

As vaias

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Caricatura do Skandalkonzert de 1913

Em 1913, o espectador selecto vaiava. Duas dessas vaias ganharam as asas da lenda e do mito. Vamos à primeira.

31 de Março de 1913, há pouco mais de 106 anos, na pacata Viena de Áustria, no Wiener Musikverein, cuja sala principal tem uma assombrosa acústica, Arnold Schoenberg dirigiu um concerto memorável. O programa começou com uma peça de Anton Webern. Seguiram-se outras peças, uma do próprio Schoenberg, até a orquestra atacar duas canções de Alban Berg sobre poemas de Peter Altenberg, que acabara de ser internado num asilo. O supremo vanguardismo da escolha, culminando com Berg, provocou uma realíssima sublevação na sala. Opositores e defensores de Schoenberg envolveram-se em cenas de pancadaria e destruição da sala. Levado a tribunal, o organizador do concerto,  Erhard Buschbeck, foi acusado de agressão a murro. Testemunhou por ele, Oscar Straus, que o defendeu declarando que o soco de que Buschbeck era acusado fora o mais harmonioso som do concerto. Ficou para a História como o Skandalkonzert.

Dois  meses depois, em Paris, a estreia da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, provocou um motim, com facções do público a atirarem tudo o que tinham à mão aos outros.

Lembrei-me destas vaias – que ecoam nas nossas cabeças como se lá tivéssemos estado – porque já nas nossas vidas de carne e osso as voltámos a ouvir. Foi no Carnegie Hall, a 18 de Janeiro de 1973. Era uma quinta-feira e o concerto começou às 8 da noite. O maestro Michael Tilson Thomas convidara o vanguardista Steve Reich a compor uma peça para um dos seus concertos. Reich, compositor contemporâneo minimalista (isto para andarmos depressa e não muito mal), ofereceu-lhe uma peça, Four Organs, que começa com maracas e é, depois, levada aos céus, num crescendo, por quatro orgãos amplificados. Rock ‘n roll dirão os leitores desta Página Negra. A selectíssima assistência do Carnegie Hall, que era tudo menos rock ‘n roll, estava estupefacta. Tossiram primeiro, Um uuuhh e dois búus depois, um berreiro desgraçado a seguir; uma senhora de arminho caminhou até ao palco, tirou um sapato e começou a bater com o salto na madeira; de um dos primeiros lugares mais caros, alguém gritou em desespero: “Está bem, eu confesso”. Os músicos, tão persistentes como as maracas, mal se ouviam, mas levaram aquele Four Organs até ao fim. Quando acabou, a um segundo de silêncio sucedeu-se um tumulto de enleados bravos e bús. Steve Reich, branco como a cal, saiu do palco sem se dar conta de que tinha conquistado a eternidade.

Just for the record, embora isso não interesse nada, acho estes 15 minutos fabulosos. Lindo: as variações são delicadíssimas, subtis surpresas numa só aparente planície de repetição.

Foi no Inverno e o calor da sala, espesso, era de Verão

 

Toledo_Bonfá

Deixem-me dizer-vos do que os meus ouvidos gostam. Gostam de Maria Toledo. Um dia, em Nova Ior­que, e espero que o ano de 1963 não venha por aí, desembestado, des­mentir-me, ela gra­vou a bonita, mesmo muito bonita, can­ção a que Tom Jobim e Vini­cius cha­ma­ram “Insensatez”.

Luiz Bonfá, o marido dela, acompanhou-a no vio­lão, o tenor sax que sofre deli­cado a amar-lhe a voz é de Stan Getz, o pró­prio Jobim estava ao piano. Era uma noite de Inverno, em Feve­reiro, e o calor da sala, espesso, tal era o cheiro a café, tinha essa viciosa coisa de parecer Verão.

Vem essa noite antiga e os meus ouvidos deixam-se ir. Vão beijar a voz de maria e o sax de getz. Lavam-se ouvidos na dolência de jobim, na insensatez de bonfá.

Aí o dia escureceu para mim

Tom Zé, uma das grandes figuras da música popular brasileira dos anos 60, é a prova de que o improvável não só acontece, como inunda o mundo e as nossas vidas.  Tom Zé é um superlativo absoluto simples em forma de canção – inteligentíssimo – e em forma de narrativa – engraçadíssimo.

Mas para que estarei eu a fazer-vos perder tempo em vez de estarmos já a ouvi-lo contar a Jô Soares (nesse tempo em que a televisão falava) as histórias que talvez sendo da vida dele passam logo a ser, definitivamente, histórias da nossa vida. Tom Zé é, agora, jardineiro.

 

As negras escolhas musicais: Khatia Buniatishvili

Ouço. De olhos abertos que é como se deve ouvir Kathia Buniatishvili. O que me comove é a centáurica fusão entre as emoções de Kathia e o som do piano.

O que me exalta é essa hiperbólica acção do corpo, o galope, as crinas, as amplas narinas a soltarem fogo, a alegria da rapidez, a violência, o carnal prazer da violência. A música é uma torrente de tempo ou a interrupção de todo o tempo?

A moral não toca piano

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Chucho e Bebo Valdés

A moral em arte não risca. Bebo Valdés, que, se vivo, teria hoje 100 anos, foi grande nos anos dourados da música cubana. Nas décadas de 40 e 50, Bebo tocou rumbas, danzón e mambo. De vez quando, cruzou ritmos afro-cubanos com o jazz, o que fez dele um deus no mais lendário dos cabarets, o Tropicana, que acabou por dirigir.

Bebo Valdés é neto de escravos. Aos 17 anos, veio estudar música em Havana, ganhando a vida a descascar batatas. Cantava (o que eu, para meter um toque pessoal nisto, jamais poderia ter feito) e tocava maracas (tão fácil que talvez eu pudesse ter tentado). Foi grande entre os grandes e ensinou Nat King Cole a cantar em espanhol.

Depois chegou Fidel. E vieram com ele os seus barbudos. Para Bebo o ritmo mudara. Um dia, tinha um dos seus músicos à espera, à porta de casa, com fuzil revolucionário ao ombro, explicando-lhe, em compasso binário simples, que quem não é por nós é contra nós. Bebo tinha pai, mãe, mulher e cinco filhos. Foi comprar uma caixa de fósforos ao México e nunca mais voltou a Cuba. A mulher ainda soube que ele se ia embora. Aos filhos nem disse adeus. Um pai destes não se recomenda a ninguém.

Do México viajou para Estocolmo, onde viveu três décadas. Três esquecidas décadas a tocar em hotéis. Ressuscitou nos anos 90, quando Paquito D’ Riviera lhe editou o cd “Bebo Rides Again”. Por causa desse cd, “El Caballón”, como era conhecido o seu metro e oitenta e quatro, voltou a respirar pelas mãos. E que bem que Bebo respira quando as mãos dele tocam piano. Bebo, o homem que abandonou mulher e filhos, voltou a ser uma estrela da música mundial, com direito a um documentário, “Old Man Bebo”. Mesmo sem o ter visto, considero-o já uma obra-prima (ganhou prémios nos festivais de Tribeca e Barcelona).

Chucho Valdés é filho de Bebo. Tinha 19 anos quando o pai o deixou a ele, à mãe, aos avós e aos irmãos. Acompanhara o pai para todo o lado e chegara a pianista na orquestra dele. Em 1960, ninguém disse a Chucho que o pai ia partir. Nem ao aeroporto o levaram. Quando descobriu, jurou à mãe que nunca a abandonaria. Cuidou dela e dos irmãos e converteu-se no maior pianista de Cuba.

Tocou com músicos fabulosos, nunca se envolveu em política e, sobretudo, recusou fugir da ilha cercada. Hoje convidam-no para tudo. Em Montreal, tocou na igreja da Santíssima Trindade, santuário de concertistas clássicos e de um público reservado e frio. Conta ele: “Primeiro toquei «Les Feuilles Mortes» em estilo barroco e quando acabei com um prelúdio de Bach o público pôs-se em pé e começou a gritar. Então, meti tumbaos a Debussy. Faço o que me apetece.” Dizem que é o melhor pianista do mundo. Ele diz que não, que é o pai!

São os dois, como se pode ver nestes dois registos em que tocaram juntos, antes que Bebo morresse, voltando a deixar Chucho sozinho. Bebo terá sido mau pai. Chucho foi o melhor dos filhos. Está visto: a moral não toca piano.