Para cortar pulsos

Isto é para se ler e ouvir de solidão em fogo. 

Não faço ideia. Talvez seja um bolero, talvez seja um blues. Sei que me cativa a electricidade da coisa. A electricidade não impede o derrame sentimental com laivos líricos. Nem impede o humor que nunca descamba na irrisão.

“No me llores mas” é o tema. O guitarrista, que agora mesmo acho o melhor do mundo, é Marc Ribot. A extraordinária banda é Los Cubanos Postizos.

E entretanto pus-me a ouvir “Aurora en Pekin” e começaram a aparecer-me cortes nos pulsos. Tem a beleza de uma lâmina.

Zé Mário, qual é a tua, ó meu?

JMBranco

Para onde foi, para tão longe, o Zé Mário que hoje nos deixou? Estava eu sentado, em Luanda, nos meus 17 anos, e quem me mostrou o primeiro álbum dele foi o Carlos Brandão Lucas. O nosso grande patrão Carlos, o António Macedo, o Artur Neves e o Emílio Cosme tinham-me adoptado e metido no programa Equipa, da Emissora Católica de Angola. E puseram-me a ouvir, e a Luanda inteira, o “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Não era um álbum, era a recriação do meu mundo de sentimentos, de ideias, de emoções. Só queria cantar, soubesse eu cantar, a “Queixa das almas jovens censuradas” e, para que nunca mais o voltássemos a ficar, que cantássemos todos o “Perfilados de Medo”. Nesse álbum, a palavra mulher era dita, ou entoada, de uma maneira tão diferente. “Mariazinha” e “Casa comigo Marta” traziam um toque plangente ou ironicamente subversivo à figura feminina. O que nesses versos e acordes aprenderam da mulher os meus olhos e ouvidos: quem tem olhos que veja, quem tem ouvidos que ouça.

Nunca, nesses dias de remanso colonial, imaginei que viria a conhecer o Zé Mário. Mas conheci, no Teatro do Mundo, para onde me levaram. E em casa do Zé Gabriel e da Manela. Um dia, estavam lá todos, com o João Bénard também, e eu sentado no chão. Foi quando o Zé Mário disse, “queria que ouvissem uma canção que ainda não gravei”. E o que ele cantou era um rumor de tempestade, uma torrente imparável de som e fúria sacudida por um riso shakespeariano. Cantou ali o “FMI”. Nunca houve, depois de ele acabar de cantar, nenhum silêncio como aquele silêncio. Em cada um de nós havia, entre a cabeça e o peito, vulcão e lava.

Depois, já com a minha Antónia, e ele sempre com a Manela de Freitas, em todas as peças do Teatro do Mundo, em casa do Carlos do Carmo, na companhia do Zé António ou do meu saudoso Chico Grave, a jantar no Sete Mares ou a beber bicas no senhor César, em Altura, encontrar o Zé Mário era um romance. Nunca levantei com ele punhinhos no ar, nem ele mo pediria. Mas a inteligentíssima gentileza dele era o hino à humanidade a que era impossível não aderir.

Um dia, nessa aldeola que é Altura, a três passos de Espanha, vinha eu da praia, pendurado na Antónia, quando o vimos no meio das dunas, os netos ao lado. “Zé Mário, como é, de que andam aí à procura?” “Qual procura! Estamos a fazer a Volta à França!” Com os netos, caricas a fingir de ciclistas, estradas desenhadas nas dunas, estava ali, joelhos na areia, t-shirt e calção de banho, um tipo cheio de música, cantor, compositor, produtor, criador dos mais belos arranjos, essa almofada que fez o conforto de José Afonso, de Carlos do Carmo, de Camané.

Bem sei, Zé Mário, o que sempre prometeste: “Eu vou p’ra longe, p’ra muito longe.” Mas assim, ainda tão cedo? Qual é a tua ó meu?

Basta repetir bem

Pachelbel

Quando, em 1692, os soldados de Luis XIV invadiram Stuttgart (Estugarda, não é?), já Johann Pachelbel tinha composto o Canon para 3 violinos e um violoncelo que hoje tanto nos consola e obriga a falar dele. O organista Johann Pachelbel tinha 27 anos, mulher e filho, quando, para o casamento de um Bach em 1680, criou o tema que garantiria a imortalidade ao seu nome. Três anos depois, indiferente à celebridade futura, a peste ceifou-lhe a linda mulher e o querido filho. Casou segunda vez, passado um ano, com a mulher (seria linda como a primeira?) que, de Estugarda, o acompanharia na fuga aos franceses, para regressar à Nuremberga natal.

Pachelbel nascera em Nuremberga. Nasceu com o Barroco já bem maduro. Em 1653. Aprendera, dizem que fascinado, música italiana. Protestante, inspirava-o a música religiosa católica, que conhecera em Viena. Foi professor do irmão mais velho de Johann Sebastian Bach. De alguma maneira, como se costuma dizer quando nos pomos a adivinhar, terá influenciado, nem que tenha sido por essa via familiar, o Bach que nós achamos que é Bach.

O Canon não é o meu classic weepie favorito: ando a ver se decido entre o Für Elise, Adagio de Albinoni, duas ou três coisas de Bach que não digo o nome para não me envergonharem, Uma furtiva lágrima de Donizetti, a Manhãzinha ou a Canção de Solveig do Grieg no Peer Gynt e se calhar nem é nenhuma destas. Mas o Canon e Giga em Ré Maior para três violinos e violoncelo é uma bela massagem que se mete pelas vértebras e chega ao coração. E é uma lição de vida. Desprezando o nosso actual politicamente correcto, o Canon ensina-nos o valor da repetição.

Basta repetir bem, diz-nos suavemente cada um dos violinos. Repetir uma vez como faz o segundo violino, repetir a repetição na inultrapassável demonstração de humildade do terceiro violino. Cada violino se abre como janela para o violino que se segue, ao contrário da teoria das mónadas “que não têm janelas” sustentada G.W. Leibniz filósofo, matemático e contemporâneo alemão de Pachelbel. Pode ser, como sugeria Leibniz, que as substâncias simples e inextensas sejam as verdadeiras substâncias. Pois hoje, o Leibniz vai direitinho para a estante. Os repetidos acordes dos violinos de Pachelbel é que são a verdadeira substância.

Nesta interpretação, instrumentos, materiais e estilo tentam reproduzir as condições da época.

Pala ku nu abesa ô muxima

Hoje, se fosse vivo, o Artur faria 97 anos. Talvez por agora o Carlos Lamartine andar pelos 73, a idade em que o Artur me deixou, lembrei-me de o ouvir. Ouço-o a cantar a mais lírica das suas canções, Pala ka nu abesa ô Muxima, lembrando o dia em que, vindo da recruta na EAMA, encontrei a casa do Bairro Popular vazia. Fui ao musseque em frente e, numa boda, a Alice e o Artur dançavam. Que música? O Jesus Dialla ua Kidi, dos Águias Reais ou este som do kota Lamartine? A Alice e o Artur tinham essa particular característica de serem minha mãe e meu pai.

José Massano Jr.

massano

Antes de saber dizer o nome de Massano Jr, quando eu era candengue soube outros nomes. Nomes de que me lembro: Negoleiros do Ritmos. Anos 60: ensaiaram na minha rua de Luanda.

Depois, os Africa Show.  Já anos 70, não é? Mas tenho a certeza de que os mais vivos e os mais kotas já sabiam que a alma era Massano Jr., percussionista do catano,  mesmo se o som rasgativo do órgão do Tony Galvão impressionasse o povo. É mesmo. Do que não havia dúvida é que Massano era a alma criativa, casulo de imaginação e inquietação. O miúdo Massano já fora cantor de quintal no Bairro Operário, vencedor de concursos. E foi, na sua plenitude, o criador de canções como Anami.  Para ouvirmos aqui.

Mas ainda mais litúrgico e comovente, têm de o ouvir em Ai ué mamã. Este é Massano Jr, percussionista, cujos cotovelos, mãos, pés, dizem-me que até a cabeça, conviviam com as tumbas, bongós, caixa. Rei dos tambores, cantor de Papá Vá Fva, a elegíaca Minga ou a trepidante Sunga, Sunga, Teresinha, este é Massano!

E vêm aí mais canções da minha infância.

 

Ouvido quente

Eyes-Wide-Shut

Das virtudes de Stanley Kubrick a menor não terá sido a sua capacidade de escolher temas musicais que desencadeavam uma turbulência emocional incontrolável. Kubrick tinha um “ouvido quente”. Ora ouçam:

Shostakovich pode agradecer a Kubrick ter-nos criado a obrigação de passarmos a ouvir com “Eyes Wide Shut” esta “Segunda Valsa” (que é o 6º andamento da Jazz Suite nº2 — Suite for Promenade Orchestra). Mesmo sem Cruise e sem a tão bela Kidman, a plenitude triunfante destes violinos é inexplicavelmente exaltante e libertadora. Paradoxo: esta suite de 8 movimentos foi composta na Rússia soviética, ou de como um violino apaixonado nos pode desembaraçar amorosamente da teia das tiranias.

 

Eyes wide shut

avião

 

Contaram-me este conto e já se sabe que quem conta um conto…

Estou há cinco minutos de olhos fechados. Numa boca do fogão ferve a água de uma panela com batatas e uma couve. A couve lombarda demora mais a cozer e já estava ao lume dez minutos antes de ter juntado as batatas.

A casa está calada e a rua num silêncio que os vidros duplos das janelas reforçam. Mas passam aqui por cima muitos aviões e, claro, cada um que passa estilhaça a calma das sete horas da tarde. Passa agora outro e lembro-me que a couve lombarda é de cultura biológica. Digo isto, não porque seja importante ou tenha alguma relação com o avião, mas apenas para sublinhar, agora que o estrondo do avião que passa apaga a esperança de outros sons, que tenho uma panela com água a ferver ao lume. Aliás, as batatas são também de cultura biológica. Hei-de grelhar, depois, uma posta aberta de garoupa. Quando se está de olhos fechados, pensa-se em tudo e é com uma irritação fútil e descabelada que o preço do quilo da garoupa insiste em impor-se-me. O quilo da garoupa à posta está a 48€, embora seja provável que no mercado de Benfica se consiga a melhor preço.

Quando fechamos os olhos, os pensamentos ficam muito claros e distintos, embora se lhes desorganize a hierarquia. Tão depressa estamos a pensar na existência de Deus, como no gato que apareceu, intempestivo, nas escadas das traseiras durante uma semana. Primeiro não lhe liguei, mas era um gato muito jovem e deve ter caído de um dos ramos altos. Os muros, tão inóspitos, não o deixaram voltar a casa e, em poucos dias, já estava magro e trazia nos olhos uma abatida sonolência. Comecei a dar-lhe de comer. Comprei um saco de comida seca e outro com um miminho de comida húmida.

Estava a dizer que, de olhos fechados, se pensa muito na existência de Deus. Mas só por absurdo é que se consegue ir muito além da sensata conclusão de que ou Ele existe ou não existe. A tendência, sempre que, como agora passa um avião é pensar que Ele existe. Por outro lado, se há coisa de que não tenho dúvidas é da alergia que tenho a pêlo de gatos e cães. Tive de mandar vir uma organização amiga dos animais recolher o pobre do gato. Apanharam-no no terraço. Sei que há, no terraço, uma fenda que nunca se conseguiu encontrar e por onde se infiltra a água que, nos dias de muita chuva, cai, pingo a pingo, na casa de banho de serviço. Não há nada pior do que um barulho rítmico. É um som que não suporto.

Não ouço só a água em ebulição. Deixei lá dentro, na sala, o telemóvel a carregar. O nítido plim do Messenger avisa-me de que alguém me mandou um recado. Não me mexo, concentro-me e sei que deitei, ponho sempre, um fio de azeite na água em que cozo a couve e as batatas. E ainda me chega um invasivo e agreste segundo plim do Messenger antes de outro avião passar a descer para o aeroporto. Penso que se me concentrasse nos aviões como me concentro na panela de batatas, conseguiria distinguir o som de um Airbus ou de um Boeing, talvez até as subtis diferenças que há, por certo, entre os aparelhos da KLM, os da TAP e os da British Airways.

Se abrisse a janela ouviria os pássaros a chilrear nas árvores das traseiras. Há ali um grande jardim de um palacete e, no começo da manhã e ao fim da tarde, as árvores enchem-se de vida. São sete da tarde e os impecáveis e impiedosos vidros duplos separam-me tanto de Deus como da música dos pássaros. Mas dei conta que arrancou agora o frigorífico. É um Smeg, quase que lhe ouço a cor vermelha. Tem um sistema de frio: estático no congelador, ventilado para o refrigerador. Em boa verdade o que me interessa é que tem quatro prateleiras e 1,51 m de altura. É quase música o som suave do seu ciclo de trabalho.

Não é que eu não goste de música e peço que não me levem a mal, mas quando fecho os olhos desligo tudo, música, rádio e  televisão. De olhos fechados, prefiro ouvir a madeira de um móvel que estala, os sapatos no andar de cima, um grito na rua. No escritório em que trabalho são as sirenes das ambulâncias e as da polícia. Um colega mais viajado diz que é a nossa little New York, mas talvez seja só ele a fazer-se interessante. Em todo o caso, é raro eu fechar lá os olhos. Há coisas que não são para ali chamadas.

Dizia eu que gosto dessa música aleatória que a casa toca quando fecho os olhos. O fogão e o telemóvel, os aviões e os pássaros, uma árvore que range, uma descarga de autoclismo se encostar os ouvidos à parede. E, quando o silêncio é denso como uma fatia de pão barrada a manteiga de amendoim, chego a ouvir a música do meu corpo, uma pequenina floresta de sons agudos dentro da cabeça, o solo de bateria do coração, os borborigmos entre o estômago e o intestino, culpa do glúten que não consigo evitar.

As batatas já devem estar cozidas. Tenho de ir espetar-lhes um garfo. E tirar do frigorífico a posta de garoupa. Hei-de deitar um fio de azeite no grelhador, flor de sal qb na carne rosada da garoupa. A alegria breve de um copo de vinho branco. E não vou comer pão. Abro os olhos, foge o silêncio, regressa o tempo e acorda a casa. Virão mais tarde os aviões da noite.

A alegria é a repetição

Ah, vou confessar-vos que o meu melhor sonho era ir aqui com os meus melhores amigos e can­tar, asso­biar, bater pal­mas com esta gente que está ali em êxtase no vídeo, enfim, soprar­mos nas mes­mas cornetas.

Espanta-me o ter­rí­vel erro em que tanta gente teima. Como é que não per­ce­be­ram que a ale­gria, a maior ale­gria, é fazer sem­pre a mesma coisa? Pode haver alguma coisa melhor do que can­tar sem­pre a mesma can­ção? Já viram o sereno aroma que se evola (ó meu Deus, eu disse mesmo evola?) dos mesmo ver­sos repe­ti­dos anos a fio, sem a angús­tia de pala­vras novas de que pode­mos não nos recordar?

Do que gosto é de saber que que­re­mos todos can­tar as mes­mas can­ções, seguir o mesmo ritual de asso­bios, aplau­sos nos pon­tos cer­tos, nos pon­tos que todos sabem, num coro que afina e desa­fina por unanimidade.

Este é um dos inenarráveis prazeres do Verão lon­drino, a Última Noite, Last Night of the Proms. Sabe bem entrar nessa mul­ti­dão unís­sona, can­tar debaixo da brisa de uma única ban­deira, que são mil bandeiras. A ale­gria é can­tar mil vezes o “Rule Bri­ta­nnia”; a ale­gria é a ausên­cia de surpresas.