Quatro dias, quatro noites

Casa de Angola

Os Meus Dias da Independência, de Onofre dos Santos, é um diário que decorre de 11 de Novembro de 1975 a 3 de Março de 1976. Onofre viveu esses dias como militante da FNLA e integrando o governo FNLA-UNITA, formado após a independência que esses movimentos proclamaram no Ambriz e no Huambo. Sou o editor desse livro, na Guerra e Paz, eu que vivi a independência do lado oposto ao do meu autor, e recuando do Lobito para o Sumbe e do Sumbe para Luanda, face ao avanço das tropas dessa coligação apoiadas pelas tropas sul-africanas.

Escrevi para esse livro esta nota introdutória e disse as palavras que se seguem, na apresentação do livro, na Casa de Angola, em Lisboa, ontem, 11 de Novembro, 44 anos depois da independência.

As notas de editor a precederem livros dos seus autores, não sendo a regra, não são também nenhuma novidade. E a minha nota tem uma justificação substantiva: é que eu, de 11 de Novembro de 1975 a 3 de Março de 1976, estive do outro lado. Vou dizer-vos onde é que eu dormi em quatro inesquecíveis noites da minha vida.

Dormi no Lobito, no meu pequeníssimo apartamento de militância política, sem cozinha, a 10 de Novembro de 1975. A 11 de Novembro dormi no Sumbe, a antiga Novo Redondo, ao monte, num quarto de hotel que ocupámos no recuo das Fapla. A 12 de Novembro dormi numa velha pensão de Porto Amboim e a 13 de Novembro estava a dormir na casa de amigos em Luanda. Nessas quatro noites e quatro dias, andava o Onofre, entre o Ambriz e Kinshasa, a preparar-se para zarpar a Sul e vir ocupar o Lobito e o Sumbe, que nós tínhamos abandonado.

Ou seja, se aceitei escrever uma humilde prosa no livro e se hoje estou aqui, aceitando o desafio do Onofre para apresentar este seu belo livro, é apenas porque estamos a falar de memórias pessoais e a confrontar memórias pessoais.

Longe de mim a peregrina ideia de falar da independência de Angola com pretensões de historiador ou de analista político ou de geo-estratego. Esqueçam lá isso, meus irmãos ou meus camaradas.

Estou aqui para falar de sensações, da profunda alegria pessoal, dos sonhos de juventude do Onofre e dos sonhos que tantos combatentes angolanos, de Holden Roberto a Daniel Chipenda, passando por José N’Dele, testemunham neste livro, tenham ou não estado no lado certo da História se é que a filha da caixa da História tem um lado certo.

Fiz com o livro do Onofre uma coisa que raramente faço: voltei a ler o livro depois de o publicar.

Em primeiro lugar, fiquei contente com o trabalho que o meu pessoal fez. Bem sei que elogio em boca própria é vitupério, mas a mim convém-me, como patrão, passar carinhosamente a mão pela pele dos meus queridos trabalhadores: fizeram um livro que eu, como leitor, gostei de segurar na mão e seguir página a página.

Bom, adiante. Lembram-se que ainda há pouco falei da História e das manigâncias da História. Pois bem, quero, agora, fazer uma afirmação que se saísse só da minha boca seria pura demagogia, mas que o livro de Onofre dos Santos esplendidamente comprova e torna verdadeira: vale mil vezes mais a Vida do que a História. E a Vida plena, contraditória, imprevisível é a força deste livro.

Nos livros de História, surgem as grandes forças políticas, o MPLA, a FNLA, a UNITA, surgem os contextos geo-estratégicos, o bloco soviético, o apoio americano, as arrebanhadas tropas cubanas ou sul-africanas, os grandes movimentos militares, batalhas gloriosas ou verdadeiras carnificinas. Mas neste livro, com o rumor de fundo da História sempre presente, o leitor entra na intimidade dessas figuras que a História usa apenas na formalidade de um nome e da sua acção.

Aqui, em Os Meus Dias da Independência, na página 68, a 5 de Dezembro de 1975, podemos sentar-nos ao lado de Hendrick Vaal Neto e esquecer que ele era ministro das Relações Exteriores do governo FNLA-Unita da República Democrática de Angola, para o ouvirmos rir, no Cine-Atlântico, no Huambo.

Bom, pelo que o Onofre conta, é um riso que manda abaixo uma casa, os dois, Hendrick e Onofre, sentados a ver um filme do cómico mexicano Cantinflas, Às Ordens de Vossa Excelência. A História não quer saber do Cantinflas, nem do riso de Hendrick, porque ao falar da independência de Angola, converte o processo que lhe seguiu num continuum de guerra. Ao proceder assim, a História pode não estar a mentir, mas só conta metade do que se passou, omitindo uma tonelada de realidade. Mesmo nos interstícios da mais pesada e dura das guerras, há interstícios de risos, de filmes, de livros. Há mesmo quem faça amor. E, verdade se diga, faz-se amor com mais vontade, com mais urgência, talvez até com mais verdade.

A 7 de Dezembro de 1975, Onofre está, por exemplo, no quarto 303 do Hotel Roma, no Huambo. Eu lembro-me, em 74, estava a fazer a recruta na Escola de Aplicação Militar de Angola, depois de termos feito várias revoltas no quartel, de me ter aboletado numa pensão rasca mesmo em frente a esse hotel, onde eu ia, porque um camarada meu, com mais massa, mas com os pés desfeitos pelas botas da tropa, tinha lá quarto. Não sei se era o 303.

Mas vejamos, o Onofre está no hotel e já não há água canalizada. Um obus terá rebentado o fornecimento àquela parte da cidade. E é nessa manhã Jonas Savimbi entra em rota de colisão com Daniel Chipenda. Discursa com a veemência de magnífico tribuno que era. O que Savimbi diz é, esclarece Onofre, uma declaração de guerra a Chipenda, mais uma guerra, intestina, no meio da guerra maior que opõe a FNLA-UNITA ao MPLA.

Mas há dois pormenores deliciosos que o livro de Onofre nos dá mostrando-nos a vida no meio da História, que a História nunca registará. No primeiro, vemos o próprio Onofre, sem água, a lavar os dentes com os restos da cerveja que ficara num copo na noite anterior.

Um romancista não inventaria um pormenor destes, só a vida escreve em livro episódios assim, tão caricatos que só podem ser veradeiros. Este é um detalhe inesquecível. Mas há mais e lá chegaremos.

Agora, vejam o outro pormenor. Johnny Eduardo chega ao aeroporto do Huambo nesse dia em que Savimbi anuncia que quer liquidar as tropas de Chipenda. Recebe-o José N’Dele e outros elementos da UNITA. Johnny desabafa com eles: “Assim não pode ser.”

Reparem, esta não é uma declaração política, é apenas o mais humano dos desabafos, uma confissão de desalento, prova também de que Johnny Eduardo tinha alguma forma de esperança numa coligação que juntava Holden, Savimbi e Chipenda. A História não quer praticamente saber da íntima convicção, da crença ou confiança ou desilusão das suas personagens. A História talvez nos diga que toda essa coligação foi feita por calculismo político-militar e que a coligação estava condenada desde o primeiro segundo. A Vida quer, quer saber da convicção, sentimentos e expectativas dos homens que fazem a História e caça, neste desabafo, neste quebranto, a verdade humana, a humaníssima ilusão que vai correr bem, mesmo o que nem Deus, nem o Diabo conseguirão fazer que corra bem!

É a memória dessas fatias de vida que nos enriquece e nos dá um património comum. Os Meus Dias da Independência é mais do que uma fatia, é uma suculenta refeição de Vida que oferece facetas imprescindíveis para que os angolanos recomponham o puzzle das suas memórias, reconstituindo as memórias com Vida de personagens que tanto peso tiveram na sua História.

O motivo político e histórico maior deste livro é a descrição, passo a passo, da tentativa de de construção de um governo para a República Democrática de Angola, cuja independência Holden declarara no Ambriz e Savimbi no Huambo. Escolhido por Holden, Onofre vai ser o ministro da justiça desse governo, de que serão primeiros-ministros, em regime rotativo, José N’Dele da UNITA e Johnny Eduardo da FNLA. As incidências, confrontos, bem e mal-entendidos da formação e exercício desse governo, tão ameaçado por Luanda, com a crescente pujança militar das Fapla, como dilacerado internamente pelas divisões de que o conflito entre Savimbi e Chipenda é o ponto supremo, esse é o material que abre o guloso apetite de historiadores.

Mas a par desses relatos há outros relatos. É tocante ver Onofre, a 14 de Dezembro de 1975, página 75, numa missa que o povo do Huambo enche, um povo que busca a esperança e consolo num céu que o redima da exposta vulnerabilidade que a vida na terra, a tiros, obuses e escassez, lhe traz.

E é bonito e faz-nos sorrir ver o Onofre dançar. Slows de preferência. Em pequeninas festas domésticas no Huambo. Mas também no Calema, a minha buáte do Lobito. Não me venham dizer que essa busca de afecto e ternura, que é a dança, era um pormenor indispensável. Se me disserem, levo a mal. O que eu também dancei, em 75 e 76, quando se ficava em casa até às 6 da manhã, à conta do recolher obrigatório. Dançar, por muito mal que se dance, e eu danço muito mal, mas tenho a certeza de que o Onofre é um esplêndido bailarino, dançar é uma forma que o ser humano encontra de transfigurar a realidade, de a encantar pelo contacto e harmonia de dois corpos. É uma forma de sexualizar a realidade dando-lhe vida, num tempo em que a guerra omnipotente e omnipresente parece levar-nos a todos para o fundo poço da morte.

Onofre, como leitor, gostei muito e fez-me bem vê-lo dançar em tantas páginas de Os Meus Dias da Independência. E não se preocupe que eu não vou dizer aqui os nomes das moças com quem acaloradamente dançou. Há segredos de autor que o leitor autêntico nunca revela.

Meu Caro Onofre, há no seu livro, página 92 a 95, um momento que me comoveu muito. O conflito militar entre as tropas de Savimbi e as de Chipenda suspende-se. Holden está no Huambo e encontra-se no palácio com Savimbi, com todo o governo à espera do final dessa reunião. Só os dois mais velho, lá fora ainda há tiros e morteiradas.

Estão os dois lá dentro a negociar e alguém vem dizer a Chipenda que lhe mataram o cunhado nos tiroteios. Chipenda não diz uma palavra, só as lágrimas correm, pela face, pelas barbas. Não fala, não se mexe, como se fosse um homem de aço. Só as lágrimas têm o sofrimento, a pena, a perda do menino.

Nessas lágrimas de Daniel Chipenda estão as lágrimas de todas as famílias de angolanos, do Uíge ao Lubango, famílias e famílias sentiram espetar-se-lhe na alma, nesses anos e nos anos que se seguiram, a dor que só sente quando são irmãos que nos matam irmãos.

Depois, acabada a reunião de Holden e Savimbi, juntaram-se todos, cinquenta pessoas num jantar de consoada, Chipenda ao lado de Holden, Nzau Puna ao lado Savimbi. E foi Chipenda que fez um discurso de paz. Falou e começou a cantar pedindo a todos que cantassem com ele uma canção aprendida na missão.

A História corre a esconder-se de coisas destas. A História quer vitórias e derrotas, quer o arco do Poder. Nessa canção religiosa, nesse espiritual de que o Onofre nos fala e que eu tanto gostava de ter ouvido, não há Poder, há redenção.

Nessa canção, na melodia e no ritmo dela há uma busca de beleza que nos lava a alma da dor, do sofrimento. Quando o Onofre nos conta este episódio, confere a Daniel Chipenda uma humanidade e uma grandeza que nenhuma vitória militar, que nenhum exercício do poder lhe poderiam algum dia ter dado.

 É isto o que eu lhe queria dizer, meu caro Onofre. Fui para este livro à espera de ver as intrigas políticas, as conspirações, as guerras dos meus adversários. Página a página, descobri que não há aqui adversários, apenas homens cheios de ilusões e desilusões, homens tocados pelo desespero ou cheios de esperança, sempre banhados pela convicção de que podiam fazer de Angola uma pátria una. Era esse o ideal que os movia.

Quando o Onofre bate em retirada para Ondjiva, a antiga Vila Pereira d’Eça, diz que a coluna foge e tem medo. Medo do que o MPLA lhes pudesse fazer. Eu lembro-me do nosso medo, na retirada do Lobito. Medo do que UNITA ou a FNLA nos pudessem fazer.

A maior lição deste seu livro é essa: o medo que os angolanos tiveram de outros angolanos não pode nunca mais voltar.

Hoje, dia em que Angola conquistou a dignidade da independência, 44 anos depois do 11 de Novembro de 1975, nenhum angolano deve ter ou voltar a ter medo.

Obrigado Onofre dos Santos pelo seu Os Meus Dias da Independência, um antídoto humano contra o medo.

Casa de Angola_

 

A cada um a sua dipanda

Os Meus Dias da Independencia

Sou o editor deste livro de Onofre dos Santos, versão mais acrescentada do que revista, da edição que publicou há uns bons anos, noutra editora. Escrevi, pelas razões que abaixo se elencam e tornam claras, esta nota introdutória. Amanhã, 2.ª feira, dia 11 de Novembro, na Casa de Angola, o meu autor e eu conversamos, debaixo da mulemba, à volta deste livro.  

Um quase prefácio

Estivemos, nesses dias da dipanda, de lados opostos da barricada. Eu estive do lado da independência que Agostinho Neto proclamou em Luanda. O autor deste livro, Onofre dos Santos, esteve do lado da independência que Holden Roberto e Jonas Savimbi proclamaram, no Ambriz e no Huambo.

E estivemos, Onofre e eu, quase ao alcance da mão. Os meus 22 anos, revolucionários, anarco-marxistas, tinham vindo a fugir do Lobito e refugiaram-se, nessa noite de 11 de Novembro de 1975, sob a asa das FAPLA, o exército do MPLA que os cubanos, enfim visíveis, enquadravam. No Sumbe, dois passos a sul do Cuanza.

No Ambriz, uns bons passos a norte do Cuanza, Onofre, 34 anos, chegou de avião, na madrugada tropical, a outra independência, depois de já ter sido arriada e dobrada a bandeira da pátria lusíada cansada de guerra. O que teríamos dito um ao outro se nos encontrássemos? Ter-nos-íamos tratado por tu? Teríamos sobrevivido à pergunta fatal: «És camarada ou irmão?»

A leitura deste Os Meus Dias da Independência exaltou-me e afligiu-me. Ler cada palavra, cada evocação de Onofre dos Santos, rasga ao meio a minha memória e a identidade que essa memória me confere. O que eu julgava ser a realidade daqueles anos, dos anos da Independência, duplica-se numa realidade paralela que me assombra. Explico-me. No dia 10 de Novembro de 1975, comecei, com os meus camaradas, a preparar a trouxa para fugirmos do Lobito, cidade onde eu dava aulas, a par da missão militante a que metera os meus fracos, mas então tão jovens e idealistas, ombros revolucionários. Era impossível resistir ao exército inimigo, e a ordem era retirar para o Sumbe, a antiga cidade de Novo Redondo.

Foi o que fizemos no dia que ia ser o da independência. Depois de deixarmos as mulheres e crianças de alguns de nós no Sumbe, já não sei o quê, uma réstia de loucura, fez-nos (éramos quatro) voltar atrás. Voltámos ao Lobito, as nossas metralhadoras che guevarianas ao ombro, e fomos almoçar à pensão da Dona Rosa, ao lado do imenso porto do Lobito, ao lado dos seus gigantescos e silenciosos guindastes, e comer de sobremesa os mais doces sonhos que já alguém comeu no mundo, última pincelada doméstica e colonial num mundo em vertiginosa e turbulenta mudança. Depois, uma lágrima da velhinha Dona Rosa à despedida, zarpámos para Benguela e fomos tentar convencer o comandante Kassanje, uma espécie de James Dean negro da revolução, a recuar: «Camarada, é impossível resistires, o comando das FAPLA já está no Sumbe e tu aqui só tens candengues e kotas com armas de pau!» E Kassanje, militância febril, só nos falava do regresso à mata e das teorias da resistência popular prolongada. Adivinharia a morte que o colheria nos dias seguintes?

Voltámos, mais a galope do que a trote, para o Sumbe. Na estrada, os cubanos montavam o primeiro monacaxito que os meus olhos viram, essa boca-de-fogo, míssil terra-terra, que tinha de ser capaz de atrasar o implacável avanço inimigo. Nesse 11 de Novembro, no Sumbe, atacados pelo Sul e ansiosos quanto ao que se passaria a norte, em Kifangondo, a noite africana veio, brilhos de luar a esquindivar no escuro Atlântico, as balas tracejantes a fazer inveja aos remotos e anacrónicos cometas, porque foi a tiros que festejámos, nesse tempo em que tudo se festejava a tiro.

Nesse mesmo dia, já disse, Onofre, vindo de Kinshasa, aterrava no Ambriz para fazer outra independência, e a trama do romance de esperanças, logros e sobressaltos que foi o relacionamento de Holden Roberto, Jonas Savimbi e Daniel Chipenda há-de levá-lo depressa ao Huambo e, depois, a 16 de Dezembro de 1975, ao Lobito e a Benguela.

Um mês depois de eu ter saído do Lobito, deixando para trás os dois anos mais romanticamente revolucionários da minha vida, Onofre dos Santos percorria as mesmas ruas, cheirava os mesmos aromas, encantava-se com as mesmas paisagens, banhava-se nas mesmas águas. A guerra pode, afinal, ser um surpreendente denominador comum.

E eis o que me aflige. Quando deixei o Lobito e Benguela, deixei cidades desertas. Para os meus 22 anos, e tendo-as eu abandonado, era como se objectivamente essas cidades deixassem de existir, como se a realidade congelasse e não fosse vida a vida que outros lá pudessem viver. Quem tenha lido o maravilhoso conto Rip van Winkle pode imaginar o que quero dizer. Esse herói, criado por Washington Irving, foi floresta dentro, encostou-se a uma árvore e dormiu. Acordou e, sem que soubesse como, tinham passado 20 anos, uma revolução e já a América era independente. Calculem a tremenda surpresa que o livro de Onofre dos Santos me ofereceu. Como um anti-Washington Irving, Onofre revelou‑me a vida, a prodigiosa vida que brotou da e na cidade depois de mim.
Que ninguém diga nunca: «Depois de mim, o dilúvio.»

Com uma encantada inveja, segui, parágrafo a parágrafo, os passos de Onofre dos Santos. Os meus olhos, agarrados aos pés dele, voltaram à Restinga do Lobito que uma eroticíssima kalunga paciente e acrisoladamente teceu; os meus olhos foram até ao Palácio do Governador, em Benguela; os meus olhos voltaram a entrar, deliciados, no Hotel Terminus, esse brinco de charme e tradição debruçado sobre o nocturno raio verde do mar do Lobito; mas, sobretudo – como é que o Onofre se atreveu! –, os meus olhos foram dançar na pequena pista do Calema, essa buáte meia suspeita, que não te digo nem te conto.

Mas Os Meus Dias da Independência não precisa dessa coincidência, nem das minhas memórias de soldado raso da dipanda para ser um livro precioso, necessário e único. Mais do que um privilegiado espectador, Onofre dos Santos foi, com os seus 34 anos, um actor de primeira linha da independência de Angola. Ministro da Justiça do governo que a FNLA e a UNITA formaram, Onofre roçou ombros com figuras decisivas, como Holden, Savimbi, Chipenda, Hendrick Vaal Neto, José N’Dele, Tony da Costa Fernandes. Onofre dos Santos desenhou esperanças no atribulado governo a que pertenceu e viveu ameaças e situações extremas, a sombra da morte mesmo à porta. Este livro é o rolo de pergaminho que Onofre desenrola perante os atónitos olhos da História. Estão aqui as letras fundadoras da parte que falta para que se faça História, completa, da história da independência de Angola.

Ser editor desta obra e poder escrever este texto que o meu autor me sugeriu, despertou em mim uma antiga e ferida emoção. Este livro é a grande tela em que se retrata e pinta a realidade em que mergulhou e se afogou o ideal de uma geração. Cada um à sua maneira, Onofre dos Santos e eu, vivemos esse ideal.

Pala ku nu abesa ô muxima

Hoje, se fosse vivo, o Artur faria 97 anos. Talvez por agora o Carlos Lamartine andar pelos 73, a idade em que o Artur me deixou, lembrei-me de o ouvir. Ouço-o a cantar a mais lírica das suas canções, Pala ka nu abesa ô Muxima, lembrando o dia em que, vindo da recruta na EAMA, encontrei a casa do Bairro Popular vazia. Fui ao musseque em frente e, numa boda, a Alice e o Artur dançavam. Que música? O Jesus Dialla ua Kidi, dos Águias Reais ou este som do kota Lamartine? A Alice e o Artur tinham essa particular característica de serem minha mãe e meu pai.

José Massano Jr.

massano

Antes de saber dizer o nome de Massano Jr, quando eu era candengue soube outros nomes. Nomes de que me lembro: Negoleiros do Ritmos. Anos 60: ensaiaram na minha rua de Luanda.

Depois, os Africa Show.  Já anos 70, não é? Mas tenho a certeza de que os mais vivos e os mais kotas já sabiam que a alma era Massano Jr., percussionista do catano,  mesmo se o som rasgativo do órgão do Tony Galvão impressionasse o povo. É mesmo. Do que não havia dúvida é que Massano era a alma criativa, casulo de imaginação e inquietação. O miúdo Massano já fora cantor de quintal no Bairro Operário, vencedor de concursos. E foi, na sua plenitude, o criador de canções como Anami.  Para ouvirmos aqui.

Mas ainda mais litúrgico e comovente, têm de o ouvir em Ai ué mamã. Este é Massano Jr, percussionista, cujos cotovelos, mãos, pés, dizem-me que até a cabeça, conviviam com as tumbas, bongós, caixa. Rei dos tambores, cantor de Papá Vá Fva, a elegíaca Minga ou a trepidante Sunga, Sunga, Teresinha, este é Massano!

E vêm aí mais canções da minha infância.

 

Angola em Guerra e Paz no Pavilhão D 48

Cartelas-3

No Pavilhão D 48, lá em cima, no topo da Feira do Livro, a Guerra e Paz não tem propriamente dias temáticos. Ou seja, hoje, no Pavilhão D 48, não é propriamente o Dia de Angola, mas, às 17:30, virá assinar autógrafos o nosso autor, Carlos Taveira (Piri), de quem publicámos agora mesmo um romance, ASSIM ESCREVIA BENTO KISSAMA, com personagens que têm duas coisas para nos nos dizer e a quem nós gostaríamos também de dizer duas ou três coisas, o que inclui todas as nossas angústias com a Guerra Civil, com os jovens mortos em combate, com os racismos (todos), com a desilusão da política, a desilusão do amor, a ilusão até do sexo. Tomemos então a parte pelo todo e faça-se desta sexta-feira, o Dia de Angola, no Pavilhão D 48, que tem a cartela da foto que está lá em cima como uma das suas mais bonitas decorações.

A paixão dos livros

Esta foi uma charla que fiz na Biblioteca Municipal de Lagos. Comemorava-se o Dia Mundial do Livro. Apetece-me relembrá-la. Em versão não corrigida, mas ligeiramente aumentada.

african reading

Falemos do livro. Do livro que nos apaixona, do livro que cheiramos e lemos como quem lambe, como quem beija. Do livro, podemos dizer que é como uma droga, uma pura droga. Vicia e cria dependência. Uma vez apanhados, já não conseguimos fugir-lhe. Começamos por fazer uma linha e apetece-nos logo fazer outra linha e outra linha e outra linha. Cheira-se o livro, apalpa-se o livro, agarra-se o livro e até pelos olhos nós consumimos o livro. Linha a linha.

De que é que andamos à procura quando lemos um livro? Procuramos no livro a mesma coisa que procurámos na longínqua noite de cacimbo em que decidimos fazer uma declaração de amor à miúda mais bonita lá da nossa rua, segurando-lhe a mão, mas à espera que a anatomia se baralhe toda e que, muito depressa, já nem ela, nem nós saibamos se é mão se é perna, onde acaba a boca de um e começa a boca de outro.

Com todo o respeito por outras opiniões – ou melhor, sem nenhum respeito por outras opiniões, afirmo que o grande e cósmico valor do livro está na erótica emoção que ele desencadeia em nós, no nosso corpo e no nosso espírito.

O livro é um território de alterosa e alcantilada geografia. Nessa geografia encontramos a vertiginosa Fenda da Tundavala que é o medo, o imparável rio da coragem que leva tudo à frente, o belo e húmido vale que é o amor, a impenetrável cordilheira do conflito e do ódio, o planalto da mais parva utopia. É essa a geografia do livro. O livro só é livro se for emoção e é essa gama de viciantes e exaltantes emoções que hoje estamos aqui a cantar e a celebrar.

É triste dizê-lo, mas tenho de vos dizer a verdade: foi a minha mãe que me meteu no vício e me desgraçou. No musseque Sambizanga, em Luanda, tinha eu cinco anos, a Alice, minha querida e devota mãe, de um livrinho religioso de capa dura, lia-me orações de uma beleza devastadora. É preciso ter já muitos calos no cérebro e no coração como os que o macaco tem naquele sítio que não vou dizer, para não sermos sensíveis à beleza que há, por exemplo, nestas palavras: Ave Maria cheia de graça /O Senhor é convosco, / Bendita sois Vós entre as mulheres, / E bendito é o fruto do vosso ventre. Isto é mais do que rezar, é juntar palavras numa harmonia e num ritmo cheia de graça, a roçar o manto do sublime.

A juntar à beleza destes versos, desse mesmo livro, a minha mãe lia-me histórias edificantes de pescadores que enfrentavam noites de tempestade no escuríssimo alto mar, lia-me a história de um inocente que era atirado para a prisão por um rei ímpio e cruel, ou lia-me a história de um mártir que preferia perder a vida a renunciar à sua fé e aos seus ideais.

Um miúdo de cinco anos não resiste, está claro, aos efeitos psicoactivos desta poderosa droga. As leituras da minha mãe, a forma como, na folha de papel de um livro, as palavras se combinavam e entravam em combustão, tudo isso gerava em mim um estado de euforia infantil, uma certa vasodilatação, a capacidade até de andar sobre as águas se me apetecesse andar sobre as águas. O livro foi, já viram, a minha colher de heroína.

Aos cinco anos, a minha mãe meteu-me, portanto, na droga. Aí por volta dos dez anos completou-se o meu ciclo de perdição. Dessa vez, a culpa foi de uma árvore. No meu quintal da rua Alberto Correia, na Vila Alice, outro bairro de Luanda onde vivi, havia mamoeiros, uma bananeira, um sape-sape, uma pitangueira, uns humildes e bravos jindungueiros.

Mas entre plantas e árvores a figura nobre do quintal era uma mangueira robusta e de idade madura. Eu era então um ágil e saudável saguim, trepava pela mangueira, saltava de galho para galho, e sentava-me a ler na confluência do mais sólido ramo com o amplo tronco dessa sábia mangueira.

Lia uns três ou quatro metros acima do chão, entre a verde folhagem abundante, a branca e pequenina flor, o amarelo avermelhado das mangas maduras. Tinha o sol e o céu de Angola como tecto e testemunha.

Durante cinco anos, dos 10 aos 15, eu vivi nessa mangueira as aventuras de cem vidas. Apaixonei-me, cometi crimes, salvei donzelas em apuros, assaltei bancos, ataquei índios, fui índio, fui o famoso xerife Buck Jones, só não fui o Padre Amaro, porque esse livro de Eça de Queiroz só consegui, por fim, lê-lo na linda biblioteca do mais bonito liceu do mundo, o liceu Salvador Correia. Uma leitura inesquecível: joelho contra joelho de uma colega que, só de pernas, era mais alta do que eu inteiro e de pé.

Agora que vos confessei e justifiquei a adição aos livros a que a minha mãe me converteu em Angola, tenho de vos dizer que para evitar crises de privação estão lá em casa à volta de dez mil exemplares espalhados pelas salas, quartos, cozinha, arrecadações e duas casas de banho. Em estantes, no chão, pendurados à janela, em pilhas, confesso que tenho mais livros do que comprimidos, garrafas de vinho, uísque ou cerveja juntas.

Deixem-me agora sair da infância e fazer breve uma história longa. Em 1981, comecei a escrever livros como autor e a fazer livros como editor. Foi na Cinemateca Portuguesa e aprendi com João Bénard da Costa.

O primeiro, de que fui co-autor, foi um pequeno catálogo sobre Jerry Lewis, dividido com o João Lopes, meu colega da Cinemateca. Os primeiros que escrevi sozinho, a solo como se fosse já um Jimmi Hendrix, foram dois livros de vida e obra, um dedicado a Michelangelo Antonioni, o outro sobre Francis Ford Coppola. Depois, em 1992, aliciaram-me para outras aventuras e só voltei aos livros em 1999, criando a Três Sinais, editora que se transformou, por alquimia, na Guerra e Paz em 2006, vai fazer 13 anos.

Já vos falei do meu amor pelo livro e de como privilegio a ideia do livro como aventura e emoção. Mas o livro é também um poderoso veículo de conhecimento. E é dessa área delicada, em que o livro se propõe já influenciar a gestão jurídica, económica, política e moral da nossa vida, que vos quero falar agora.

Nessa área do ensaio, nos últimos anos, na minha qualidade de editor, publiquei alguns livros de autores angolanos ou com temática angolana. Publico por nostalgia, por dívida afectiva – tanto foi o que a minha infância, adolescência e primeira idade de homem, em Angola, me deu –, mas sobretudo publico com a esperança de que o diálogo possa nascer da multiplicidade de contribuições dos meus autores, uns radicais e revolucionários, outros mais próximos do establishment.

Gostava de vos contar três episódios de vida que vieram a orientar e determinar o meu pensamento como editor. São as minhas três grandes lições angolanas, as três lições que têm estado subjacentes à edição dos livros sobre Angola.

Na noite de 4 de Fevereiro de 1961, houve em Luanda um levantamento nacionalista. Eu tinha sete anos e morava em pleno musseque Sambizanga. Na tarde do domingo seguinte, quando ia com a minha irmã, a minha mãe e o meu pai passear, assisti à fúria de uma pequena multidão de brancos, a que se juntavam também alguns africanos, que perseguiam outros africanos que tomavam por suspeitos de ser o que então se chamava “os turras”.

Esses pobres de Cristo foram espancados de forma miserável, a murro, à paulada, e não me esqueço porque não me posso esquecer, de ver a parte rija de um ramo de palmeira a escorrer sangue. Em frente à Casa Branca, tentando fugir pelas barrocas da Boavista, que desciam em direcção aos caminhos-de-ferro e ao Porto de Luanda, esses homens, rapazes ainda, escolhidos aleatoriamente pela multidão justiceira, revoltantemente burra como todas as multidões justiceiras, sangravam, eram atirados ao chão, espezinhados, e eu não sei se houve ou não mortos, porque a minha santa e aflita mãe me tirou logo dali, correndo comigo os 300 metros que nos separavam de casa.

Nesse quentíssimo domingo à tarde, soube, visceralmente, na minha cabeça, coração e estômago, que nunca deveria estar do lado da multidão justiceira. A multidão justiceira é cobarde, é burra e é cega. A multidão justiceira envergonha a humanidade que há em nós.

Catorze anos depois, eu era vagamente maoista, um independente sem facção, militante do MPLA, no Lobito, de onde as Fapla tinham expulsado a Unita. Mas a Unita trouxe o exército sul-africano e as ordens foram para retirar. Um jovem comandante apenas, o comandante Kassange, radical e maoista, decidiu ficar. No dia 10 de Novembro de 1975, tinha eu 22 anos, com um ex-capitão do exército português e mais dois amigos fomos a Benguela convencer Kassange a retirar e vir connosco.

Em frente à modesta sede que então o MPLA tinha, Kassange, belo, poético e mítico como um Che Guevara angolano, os obuses a rebentar para o lado do aeroporto, disse-nos que ficaria e que, sozinho, com meia dúzia de velhos e adolescentes, se meteria à mata para fazer de novo a guerrilha, a guerra popular prolongada. Era um gesto quixotesco, sem valor prático, ditado pela obsessão ideológica. Kassange não sobreviveu e ainda hoje essa morte é matéria de especulação. O ânimo e a inteligência de um Kassange vivo fazem muito mais falta ao povo angolano do que que a inglória saudade de um pequeno mito morto.

Nessa tarde de 10 de Novembro (ou foi mesmo a 11?), a olhar para o belo rosto convicto de Kassange tive a segunda grande lição da minha vida, a de que a convicção ideológica, quando se extrema e nega a realidade, na sua gloriosa radicalidade, gera apenas dor e sofrimento.

Não sei em que noite foi, mas foi no final de Setembro de 1976, o MPLA no poder e a Guerra Civil no auge, numa casa de um selecto bairro de Luanda, num convívio com altos quadros do MPLA no poder, um piloto militar angolano contou, e eu ouvi, como bombardeara um aldeamento da Unita com napalm, fechando com a frase: “Arrasámos tudo. Deixámos aquilo mais liso do que um campo de futebol”. Os inimigos que acabara de exterminar eram angolanos como ele.

Fechava-se, naquele bombardeamento de napalm um ciclo começado com o bombardeamento que o colonialismo português fizera na baixa do Cassange e com o uso de napalm pela força aérea portuguesa no tempo do General Costa Gomes. A minha terceira lição angolana é a lição amarga de que, opressores ou libertadores, em nenhum consigo encontrar qualquer forma de superioridade moral.

Foi também por causa destas três lições angolanas e porque quis ir às raízes dos conflitos que se viveram em Angola de 1974 até ao Maio de 1977, mas que se viveram e ainda hoje fazem eco também em Portugal, que eu escrevi Revolução de Outubro, cronologia utopia e crime, sobre a revolução russa.

Julgo que foi o meu primeiro e provavelmente último livro político. Escrevi-o para tornar claro na minha cabeça que a forma populista como os bolcheviques fizeram a revolução – ou, no meu entender, a contra-revolução – criou a matriz que veio a infectar e moldar o modelo revolucionário, que foi totalitário e não-democrático em todo o mundo, e que uma parte do cortejo de debilidade estrutural económica, sofrimento e atraso de Angola vem também da matriz marxista que esses revolucionários angolanos vieram beber a Portugal e à Europa nos anos 50.

Ou seja, é uma tremenda e infeliz ironia que, do vasto património cultural europeu, da filosofia, da ciência, da literatura, das artes e do nosso humanismo, por razões várias, por causa de uma conjuntura maniqueísta, os revolucionários independentistas se tenham cristalizado numa ideologia ligado a um pensamento dito crítico que é, afinal, incapaz de agregar os povos, construir riqueza e desenvolver as nações.

Essa ideia revolucionária, que vem de Outubro de 1917, é fortemente atractiva porque parece muito funcional e lógica. Divide o mundo de forma maniqueísta em bons e maus, em classes antagonistas que, por um fatalismo pretensamente científico, se têm de confrontar até que uma seja exterminada. Foi a pior herança que o Ocidente podia ter proporcionado aos povos que legitimamente ansiavam pela sua liberdade. Eu julgo que, a par de outros passos mais imediatos e concretos, um passo refundador que os angolanos também terão de dar é o de revisitar a herança da colonização com instrumentos que não sejam apenas os desse velho e embotado maniqueísmo.

Foi também esse debate que pretendi suscitar ao escrever o meu livro, é esse o debate que pretendo prosseguir com a publicação de livros de autores angolanos ou com temáticas angolanas.

Mas acima de tudo espero que as novas gerações angolanas, os miúdos que agora crescem a ler nas mangueiras de Luanda, do Lobito ou do Cunene, me venham bater à porta com livros escritos por eles, livros que sejam a redenção desse nosso mundo de ideais que desembocaram, para nossa amarga desilusão, no totalitarismo, na tortura e num sangrento morticínio.

E não posso, nem quero, ser injusto com os mais-velhos. Há hoje, com a presidência de João Lourenço, ou por causa dela, uma vaga de mais-velhos que podem ou querem voltar a falar e que trazem experiências e reflexões ditadas por uma experiência.

Espero que, cumprindo a vocação mais nobre do livro, os livros de todas as gerações de angolanos nos restituam o que um dia ouvi da boca da minha mãe: ritmo e harmonia das palavras, invenção de sentidos, o gigantesco prazer de criar personagens, aventuras e um céu e terra de liberdade.

Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso

Gostava muito que viessem. Há neste livro, carregado de fantasmas e de sofrimento, um sinal de redenção. Venham, a sessão de lançamento não será soturna e crua. Na próxima 5ª feira, nas salas de Âmbito Cultural do El Corte Inglês, às 18:30 de Lisboa, há-de haver amor, esperança e uma réstia da velha utopia, desse desejo de empatia com a humanidade que moveu a minha geração quando tínhamos 20 anos.
Venham ouvir o Manuel Ennes Ferreira e venham ouvir o meu autor, Carlos Taveira, que eu conheci candengue, no Lobito de 1975, e que hoje tem mais do que a minha idade, tanto viveu ou o obrigaram a viver.  

Venham. Apresenta-se um livro de prisão. Dessas prisões que não queremos para os nossos filhos, nem para os filhos dos outros. Está tudo num livro que se lê como um romance: com sentimento, angústia por vezes, um triste sorriso redentor outras vezes. É preciso ter-se sofrido muito para se poder ter tanta humanidade, eis o que vos quero dizer. 
E que capa tão bonita, tão simples, o Ilídio Vasco deu ao livro do Piri. Abram-no e virem a página, porque é preciso virar a página, como podem ler na página desse livro que, editor deste livro, abaixo vos deixo.

convite

Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso
Carlos Taveira (Piri)

Excerto de “São Paulo, Prisão de Luanda”

Do Zezinho das Pilhas tenho menos referências, aparecia ocasionalmente, era discreto, não gostava de se mostrar. Vem-me à memória a figura de um individuo taciturno, com cara de poucos amigos.

Aliás, não os devia ter. Era mais especializado e não utilizava os fios eléctricos como chicote, à maneira de Inácio. Dava-lhes a utilização para a qual tinham sido concebidos: ligava uma das extremidades a uma caixa alimentada por tomada de corrente eléctrica e conectava a outra a um preso. Espero que tenha o sono povoado de pesadelos…

Foram centenas os infelizes a sofrer nas mãos dessa gente imprestável. Muitos deles conservarão para sempre as cicatrizes dos cigarros apagados no corpo, dos nomes gravados a cacos de garrafa, das queimaduras dos eléctrodos, das chicotadas a fio eléctrico.

Vários foram os métodos empregados para brutalizar os presos. Para lá dos referidos acima, quem passou pelo nguelelo nunca o esquecerá: duas hastes de madeira sólida, uma de cada lado da cabeça, atadas nas extremidades de maneira a encerrá-la (a cabeça) num torno. À medida que os nós eram cerrados, a pressão craniana acentuava-se.

Outra prática prezada pelos detectores de mentiras consistia em amarrar os braços com cordas molhadas. Iam apertando o abraço à medida que secavam. Uma variante consistia em passar essas amarras à volta da cabeça, à altura dos maxilares.

Alguém com espírito de iniciativa, e fazendo prova de originalidade, enroscou uma pesada mola nos cabelos da vítima – que utilizava aquele tipo de penteado afro conhecido nos anos 70 como «à Jimmy» – e puxou-a violentamente, arrancando cabelos e pedaços de pele do couro cabeludo.

Enfim, em qualquer bom livro da especialidade, encontrarão outras técnicas. Foram quase todas utilizadas pela DISA.

As noites eram regularmente apunhaladas pelos gritos dos torturados. Lembro-me de um desses infelizes gritando a plenos pulmões:
– Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso.

Não sei o que lhe faziam, não consigo nem quero imaginar, mas vimo-lo no dia seguinte deitado no corredor. Atirado ao deus-dará, como um fardo, corpo coberto de chagas, escorria-lhe sangue dos olhos. Quando a minha mórbida curiosidade me levou a espreitar pelo postigo, vi uma agente baixar-se, levantar-lhe uma perna e deixá-la cair, inerte, soltando uma gargalhada divertida. O torturado nem um gemido soltou, parecia ter passado o limiar da dor. Nunca soube o seu nome, nunca mais o vi.