Amar, Amar

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Publicado no CM, na 3.ª, dia 19 de Novembro

Quem é que, a tomar a bica curta, não jura por uma sociedade justa? Até o cínico, num momento de fraqueza, quer a sociedade justa. Mas uma coisa é querer, outra é fazer.

Quem mais grita, quem exige o paraíso já, em geral tem na boca os deserdados e famélicos da terra, mas nada tem, em boa verdade, para lhes oferecer. Prometem amor quando o que os deserdados precisam é de política económica. Foi a economia de mercado que organizou a produção de bens e de serviços a baixo custo e à mão da maioria.

A educação, a saúde, a ciência e o estado social são conquistas do mercado e da concorrência com ética. Amar é ter política económica.

Trump e Xi Jinping

USA

Bica Curta servida no CM, 3.ª, dia 30 de Julho

A economia americana está em ciclo de expansão há 121 meses. É o mais longo período de crescimento desde a segunda metade do século XIX, sólido argumento eleitoral para Trump. Se o chinês Xi Jinping precisasse de argumentos eleitorais, podia também dizer que a China já leva 30 anos sem recessão económica.

Curioso é que a fixação da teoria dos ciclos económicos é de um economista soviético, Nicolai Kondratiev. Estaline é que não esteve pelos ajustes: caminhada triunfal para o paraíso, a economia comunista não tinha cá ciclos. Ouviu Kondratiev e logo o despachou para a Sibéria. Depois, por via das dúvidas, mandou fuzilá-lo.

Costa vs Trump

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Bica Curta servida no CM, 3ª feira, dia 21 de Maio

Os resultados económicos de António Costa são quase tão bons como os de Donald Trump. É pelo menos o que leio ao beber a bica curta. No primeiro trimestre de 2019, Costa pôs-nos a crescer 1%, o que é um enorme salto comparado com o crescimento anão dos últimos 12 anos; Trump pôs os EUA nos 3,2%. Costa fechou o trimestre com o desemprego nos 10,1% – melhor só em 2011; Trump reduziu o desemprego a 3,6%. Costa criou 145 mil empregos, Trump criou 4,5 milhões desde que foi eleito. Ambos podem gritar, Costa do Cristo-Rei, Trump da Estátua da Liberdade, que melhoraram o poder de compra dos cidadãos. Será a economia cega à ideologia?

A bola é de trapos

 

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O cineasta Godard está para o cinema como Maradona para o futebol. Maradona limpava sete ingleses em fintas e reviangas e era golo. Ou, descarada batota, fazia golo com a mão de Deus. Godard foi à televisão, ofereceram-lhe livros e ele só quis um de economia. Disse: este é que conta. Até entornei a bica curta: sem economia a democracia é uma batota.

Qual é o PIB português? Não sei. Nem sei qual é a dívida pública e mal tenho ideia dos impostos que paga uma empresa sobre o salário de um trabalhador. Não sabemos e vamos a jogo, votar. Não é democracia, é alucinação: como se Maradona viesse a jogo a pensar que a bola era quadrada.

Bica Curta, publicada no CM

Descaramento

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Noutro dia, um amigo meu ficou sem travões no carro. Vinha da Estados Unidos da América em direcção a Entrecampos e não teve remédio senão ir raspando com o popó na divisória central para perder velocidade e não atropelar ninguém. Um anjo ou a própria Virgem Maria, que já por cá não aparecia desde 1917, puseram-lhe a mão por baixo e o carro acabou por parar como se desejava. O que ninguém deseja é que a economia americana trave de repente. Mas a economia americana está, dizem-me, em desaceleração e em guerra com a chinesa, que por sua vez começa a ficar toldada por um nevoeiro que se adensa.

Aqui, nesta velha Europa, as velhas e relhas receitas populistas assombram e escurecem o chuvoso reino Unido, com o malfadado Brexit, mas também a mediterrânica Itália. Em França, Macron continua encandeado pelos reflexos dos coletes amarelos, enquanto a Alemanha se auto-suspendeu politicamente, tal como o espectador de cinema (mas este por melhores razões) suspende a descrença quando entra na sala. Com estas sombras e este crescente rumor de fundo é preciso ter-se descaramento para se entrar optimista em 2019. Eu sou um desses descarados e tolos optimistas.