O país cujos habitantes não têm nome

karina
Onde chora Godard…

Vejamos. Há a raiva e denúncia de mil declarações com que Godard fuzila, vai em meio século, o cinema americano narrativo, esse cinema no qual, decidiu Griffith, os filmes devem acabar bem.

Dizem que há bocas que não sabem amar sem destilar som e fúria. A boca de Godard começou por beijar o cinema americano e dizer, da sua nouvelle vague, que “aprendemos tudo com Griffith”. Mas é uma boca muito masculina: tem de fazer mal ao objecto amoroso. Deprecia-o, porém não vive sem ele.

A meio desse meio século de amor e cólera, numa entrevista, exaltante como todas as entrevistas dele, Godard explicava serem os seus filmes quase sempre uma decepção para os espectadores, ainda que, com natural e merecida vaidade, ele acrescentasse serem filmes que decepcionavam bem as pessoas. Se caiu uma gota de orgulho sobre a palavra “decepção”, caíram duas, dois pingos certeiros, um de orgulho, outro de firme convicção, sobre a palavra “bem”.

O entrevistador chamou-lhe, então, um caso à parte. Godard respondeu com murmurada vanglória: “… caso à parte. É que ganho a minha vida com filmes que não têm êxito. Isso é mesmo muito à parte.” Eis a natural curiosidade a que o entrevistador deu voz: “E como é que faz?” “Ora, isso é que não sei”, disse Godard, na sua linha de muito bem nos saber decepcionar.

A lição simples que o velho cinema americano mainstream deu ao mundo, pela boca solene de Griffith, foi a de que “tudo o que precisamos é de uma rapariga e de uma pistola”. Essa simplicidade, que funde estilo e emoção narrativa, conquistou o mundo, o que incluiu, já agora, a grande Rússia e Eisenstein.

Godard tortura-se intestinamente com o êxito americano e quer legislar contra ele. Espanta-se e pergunta qual será o segredo: “É o único país cujos habitantes não têm nome. Chamamos-lhes americanos, mas americanos são também os argentinos e os mexicanos… Penso que a força deles vem de nunca terem tido um nome… Adoramos tudo o que vem desse país cujos habitantes não têm nome.”

E Godard sabe que a força dos seus filmes, desses filmes que decepcionam tão bem, vem da negação e da flamejante denúncia, de estar contra a tradição do cinema criado nesse país cujos habitantes não têm nome. É o cinema americano, de Griffith a Spielberg, que salva e oferece a Godard uma cadeira no céu da sua história.

lillian gish
… já Griffith tinha chorado.

Dez grandes cenas do cinema: Le Mépris

Caiu a noite. Aproveitemos. Se há uma cena de Godard a que cai bem a noite, esta é uma delas. Está entre as dez cenas que eu escolho para fazer a mais rápida volta à história do cinema.

LE MÉPRIS (1963, de Jean-Luc Godar (O Desprezo)
cena de Bardot nua, em diálogo com Michel Piccoli, passando em revista cada parte do seu corpo

No começo dos anos 60, o cinema europeu ainda amava o cinema americano e a ambição de ir filmar na América era grande. É esse, aliás, o tema deste filme.Realizou-o Jean-Luc Godard que era então o enfant terrible da nouvelle vague.

“Le Mépris” foi o filme em que Godard esteve mais perto de entrar na indústria americana, mas foi também o que o pôs mais longe dela.

Brigitte Bardot, que então unia mais os europeus, do que algum dia Bruxelas há-de conseguir, era a vedeta, a estrela do elenco. Joseph E. Levine, o produtor americano, ao ver a versão final, sem um nu pelo menos de Bardot, atirou-se a Godard, exigindo-lhe nus para vender o filme. Godard resignou-se à maneira dele e filmou este plano-sequência de abertura.

 

O que vimos é o cinema em toda a sua glória. Num quarto de sombras, cruzado por uma réstia de luz e filtros a roçar uma certa decadência, está deitada e nua Brigitte Bardot. É irresistível olhar-lhe para as tão displicentes nádegas, porque ela mesmo diz ao actor com quem contracena, mas também a toda a plateia: “E as minhas nádegas, achas que são bonitas?”

Nem vale a pena estar a responder. Bar­dot está nua, oferecendo-nos as costas, deitada na cama. Pic­coli em segundo plano, contempla-a. Pala­vra a pala­vra, pela boca de Bar­dot, com o com­pla­cente acordo de Pic­coli, é-nos dito cada cen­tí­me­tro do corpo dela. Ouvi­mos “os meus pés!” e vemos os pés dela. Ouvimos os torno­ze­los, as coxas, o rabo, os joe­lhos. Ouvi­mos o corpo de Bardot, como se ouvís­se­mos as ondas do mar, sensação que as vagas de fil­tros ver­me­lhos e azuis, uti­li­za­dos por Godard, mais refor­çam.

Ainda temos os ouvi­dos nas redon­das e tão belas nádegas e já Bar­dot nos per­gunta “o que pre­fe­res, os meus seios ou os bicos dos meus seios?” Sabe­mos lá. Sabem os nossos ouvidos é que nos seios ou nos bicos deles se roça, sublime, a música de Georges Dele­rue.

Ouvimos e sabemos que nos entra pelos olhos e pelos ouvidos uma nova forma de erotismo. Este já é um erotismo pós-Marilyn, um erotismo sem inocência, em que desagua a dúvida, a crescente perplexidade masculina europeia. A alacridade das pernas de Marilyn nada tem a ver com o rabo de Brigitte Bardot aqui posto em sossego.

Ai, Mizoguchi

Convido-vos a virem comigo ao WC feminino da Cinemateca Portuguesa

MIZOGUCHI
ai, mizoguchi

Mas afinal, onde está a arte? Projectava-se o “Je Vous Salue Marie” na Cinemateca. No gigantesco portão da rua uma multidão de integristas tentava rebentar as barras, como se lá dentro estivesse a arte cativa e fosse preciso libertá-la das garras do João Bénard y sus muchachos, banda mariachi que era o ódio de estimação do então famoso crítico Augusto M. Seabra, a quem mando um abraço. Jovens de piedosos 20 anos trepavam o íngreme gradeamento, tombando na calçada do passeio, quais figurantes eisensteinianos. No breu da sala esmurravam-se integristas imberbes, velhos comunistas e perplexos polícias, concorrendo em arte e beleza com as imagens blasfemas e basquetebolistas de Jean-Luc Godard. A sala tinha um hálito de Espírito Santo, mistura do cheiro imperial a coca-cola teenager com o bafo lusíada de militante bagacinho foice e martelo. Não era o pandemónio, era a arte.

Marie
um hálito de Espírito Santo

Mas afinal onde está a arte? Andava a Cinemateca enroladinha com a Gulbenkian a fazer um Ciclo do pasmoso Cinema Musical e, na salinha Félix Ribeiro, pensou-se exibir o salmo à fé punk que era “The Great Rock ‘n’ Roll Swindle”. Ora bem. Houve, como nunca houvera, uma multidão espontânea em Lisboa. Era uma multidão de cabelos arco-íris eriçados, roupas em variantes negras de negro, botas e metais. Era a multidão anti-portuguesa que cuspia. Só o mau vinho carrascão em garrafas de grosso vidro verde a ligavam ainda à pátria de Afonso Henriques. As paredes da Cinemateca abaularam-se, um leque de líquidas, semi-sólidas ou sonoras manifestações metabólicas escorreram por sofás e alcatifas. Obra e espectadores fundiam-se, centáuricos, num todo caótico e sublime, arte total que humilharia Wagner e os execráveis wagnerianos.

thegreatrocknrollswindle
um salmo à fé punk

 Voltei ontem à Cinemateca. Ah, chorava eu, a melancolia que desliza pelas paredes tão institucionais e académicas de hoje! E eis que, não podendo dizer quem foi, e não fui eu, alguém vem do WC do urgente sexo feminino e me segreda que, numa das escatológicas portas, delicada mão em êxtase lavrou o haiku que resgata qualquer cinzentismo, fundindo, em sublime anseio artístico, a sala, os filmes exibidos e os mais fundos desejos dos espectadores. Na porta do WC, a mulher em chamas escreveu, e eu espero que se preserve e arquive como obra de arte: “Mizoguchi lambe-me a pussy.”

Publicado no Expresso