No casamento de Godard

Quem me rouba o tempo, rouba-me tudo. Andei perdido durante duas semanas e já devo algumas crónicas a esta varanda onde venho conversar com os amigos. Hoje deixo esta minha forma de dizer o quanto o cinema de Godard me exaltou e ainda exalta

o casamento


Não fui convidado para o casamento de Anna Karina com Jean-Luc Godard (JLG). Foi em Paris, Março de 1961 e, por esses dias, tão perto do ataque do 4 de Fevereiro em Luanda, saíamos em três ou quatro carrinhas do musseque, depois do jantar, para dormirmos no chão de uma casa na cidade branca, mulheres e crianças numa sala, os homens, noutra. Medo da noite tropical, sufocada de assobios, silvos e a percussão do batuque. Medo dos “turras”, sibilava-se, longe dos seis anos de idade dos meus ouvidos.
Quem me contou do casamento de JLG, foi o cineasta Jacques Demy, na alta noite em que, no Bairro Alto, bebemos aguardente do mesmo cálice. Agnès Varda, a mulher dele e realizadora, fez as fotos. Karina estava linda, de uma beleza feliz. Caminha uns passos à frente de JLG, noiva, vestido branco sobre os joelhos, que lhe deixam livres as pernas que podiam ser de Brigitte Bardot, um véu diáfano a cair não mais do que sobre os ombros, uma alegria agradecida na perfeição comovente do rosto.
A surpresa é que também JLG está bonito. Penteado, escanhoado, elegantes óculos escuros, sorriso sincero para a foto, um laço negro a ajustar-lhe a camisa branca ao pescoço, o conforto sem culpas de um bom fato burguês a acariciar-lhe o corpinho.
O que aconteceu, e alguma coisa aconteceu, a este Godard, que ali vemos cheio de amor? E lembro que esse era o JLG que amava, como talvez mais ninguém tenha amado, o cinema americano. Quem, a não ser JLG, comparando-o a Tintoreto, revelaria em Hitchcock o mais germânico dos cineastas, grávido de temas dostoievskianos?
De A Bout de Souffle a Le Mépris, passando por Une Femme est une Femme, Vivre sa Vie, Alphaville, os filmes de JLG estão cheios de um amor que, com genialidade exaltante, ele combina com iconoclastia, traição, redenção, lirismo, desespero. Até Weekend, porta dos anos Mao, mesmo se o amor de JLG e Karina era já um destroço, Godard era ainda um corpo que fazia parte de “o cinema”, até e sobretudo se uma inquieta insatisfação era o coração desse corpo.
E no Maio de 68, JLG, o enfant terrible que tanto quis filmar na América, disse esta frase: “Cinquenta anos após a Revolução de Outubro, o cinema americano reina ainda sobre o cinema mundial.” E prometeu dois ou três Vietnames ao império de Hollywood. Em nome da “fascista” Revolução de Outubro, tragédia humana que engoliu milhões de seres humanos em fome, repressão, gulags?
O que quero saber é para onde foi o amor de JLG, o amor a Anna, o amor ao cinema americano que ele transfigurou em emoção pura, rimbaudiana, em Pierrot le fou, o mais belo dos mais belos dos seus filmes.
Nos anos Mao, anos Feddayn, anos Dziga Vertov, Godard pôs o cinema de serviço a causas. Nunca mais se livrou dessa armadilha. Sauve Qui Peut, Soigne ta Droite, Nouvelle Vague, Éloge de l’Amour, mesmo Je Vous Salue Marie, filme tocado de graça, são sinfonias imperfeitas, com acordes de genialidade e o surdo rumor do ressentimento de alguém obcecado com a solidão de uma luta que cultiva o fragmentário, o hermético e a desconstrução como forma de defesa. JLG obriga-se a estar contra. Como se não fosse também esse um modo de cativeiro, do que a invisibilidade de Film Socialisme faz prova.
Na morte de Godard, a melancolia. Devo-lhe o esplendor de Pierrot le Fou, a audácia de, a vê-lo, no escuro do cinema, se me ter perdido a mão sob a saia larga (como se fosse a de Marianne?) da que seria e é minha mulher. Melancólico, sonho com os “filmes visíveis” que não quis fazer, a obra-prima de que privou o século XXI.

Pierrot le fou

Minha Guerra, minha Paz: faço livros há 42 anos

O JL-Jornal de Letras pediu-me uma espécie de autobiografia de editor: como é que eu me estatelei, livros abaixo, ao comprido, e o que me faz continuar a cirandar por esta orgia.
Há acusados, julgamento e culpados. No fim, espero a vossa absolvição.


Tal como Manoel de Oliveira e Agustina diziam da alma, o livro é um vício. É triste, mas digo a verdade: foi a minha mãe que me meteu no vício. No musseque Sambizanga, em Luanda, aos meus cinco anos, de um livrinho religioso de capa dura, a Alice, minha querida e devota mãe, lia-me textos de elevação moral grávidos de emoção. É preciso ter já muitos calos no coração, como os que o macaco tem no escuso sítio que não nomearei, para não sermos sensíveis à beleza que há nestas palavras: «Ave Maria cheia de graça / O Senhor é convosco, / Bendita sois Vós entre as mulheres, / E bendito é o fruto do vosso ventre.» Isto é mais do que rezar, é juntar palavras numa harmonia e num ritmo que afagam os cabelinhos do sublime. E à Avé-Maria seguiam-se histórias edificantes de pescadores que enfrentavam noites de tempestade no breu do alto mar, ou a história de um inocente atirado para a prisão por um rei ímpio e cruel, ou ainda a de um mártir, que preferia perder a vida a renunciar à sua fé e ideais.

Um miúdo de cinco anos não resiste aos efeitos psicoactivos desta poderosa droga. As leituras da minha mãe, a forma como, na folha de papel, as palavras se combinavam e entravam em combustão, tudo isso gerava em mim um estado de euforia infantil, uma certa vasodilatação, a capacidade até de andar sobre as águas se me apetecesse andar sobre as águas. O livro foi, já se vê, a minha colher de heroína.

Na adolescência, esse estado de alucinada levitação foi reforçado pelo ramo de uma árvore. No quintal da minha casa havia mamoeiros, uma bananeira, um sape-sape, uma pitangueira, uns humildes e bravos jindungueiros, mas a figura nobre era uma mangueira robusta e silenciosa. Eu era então um ágil e saudável saguim, trepava pela mangueira, saltava de galho para galho, e sentava-me a ler na confluência do mais sólido ramo com o amplo tronco dessa sábia mangueira.

Lia uns três metros acima do chão, entre a folhagem verde e o amarelo avermelhado das mangas maduras. Tinha o sol e o céu de Angola como tecto e testemunha. Dos 10 aos 15 anos, eu vivi nessa mangueira as aventuras de cem vidas. Apaixonei-me, salvei donzelas em apuros, assaltei bancos, fui um índio Yaqui de Zane Grey, fui o famoso xerife Buck Jones.

Levante-se o culpado: João Bénard

E peço que, para se juntar à minha mãe, se levante o segundo culpado: João Bénard da Costa. Já em Lisboa, na Cinemateca, para cada ciclo de cinema fazíamos, desde 1980, um catálogo. Eu era um dos servos da gleba do João Bénard: aprendi a escrever e rever textos, a maquetá-los com um gráfico. Ainda não havia Apples e muito menos Adobe In De­sign. Juntavam-se tex­tos e foto­gra­fias à mão e havia tesou­ras, papel e cola por todos os lados. Vinha depois o fim da linha de vício: entrar nas gráficas para cheirar tintas e lamber papel.

Lembro-me da primeira vez que pus o pé num desses antros. Eram ofi­ci­nas gigan­tes­cas, do tempo da glo­ri­osa revo­lu­ção indus­trial, num dos edi­fí­cios do que hoje é a LX Fac­tory. Fui com o João e a Rita Azevedo Gomes. Íamos imprimir o Alfred Hitchcock nas máqui­nas de roto­gra­vura, uma téc­nica de impres­são que per­mi­tia apli­car a tinta em quan­ti­da­des dife­ren­tes, de acordo com a pro­fun­di­dade dada a célu­las gra­va­das num cilin­dro de cobre e bronze de umas rota­ti­vas mais majes­to­sas do que o rio Tejo. Está­va­mos nos anos 80 e, no fim, tínha­mos na mão um livro que pare­cia ter che­gado de 1930. Fiquei com muita von­tade de fazer tam­bém aquilo. Quem é que não quer via­jar de cale­che no tempo?

O João deu-me, depois, carta branca – é certo que ele ou dava carta branca ou não dava carta nenhuma! Fui a Copenhaga e fiz com o artista plástico Carlos Nogueira o catálogo do Cinema Dinamarquês, com o místico Dreyer como protagonista. O que trabalhei com o tipógrafo Serrano, indefectível MRPP, e o meu amigo Luís Miguel Castro (que era, ó se era, il miglior fabbro), nos catálogos do Antonioni, do Coppola, do Cinema Soviético, que são dos livros mais bonitos em que pelo menos mais de um dedo meu por ali andou. Pequenina vaidade: todos os catálogos que fiz a solo estão esgotados e são peças de alfarrabista.

A culpa de duas velhas senhoras

Et pourtant eu não tinha ainda as cartas de nobreza (ups!) do editor. À minha mãe e ao João Bénard, junto agora, no banco dos réus, duas velhas senhoras, duas almas subversivas e incendiárias. Quem fez de mim editor, foram Mécia de Sena e Agustina Bessa Luís. Talvez tudo tenha começado em Santa Bárbara, na casa da Randolph Road, de Mécia. Ainda na Cinemateca, fui à Califórnia falar com Coppola e rever, com a «mulher de Jorge de Sena», como um dia orgulhosamente a ouvi dizer, um livrinho que reunia os textos dele sobre cinema. Mécia acolheu-me por uma semana. Empatia garantida, que ficaria para a vida, Mécia levou-me ao sanctum sanctorum: ali estavam os manuscritos e dactiloscritos de Sena. Mais: os inéditos, tantas cartas, as de Sophia de Mello Breyner Andresen, as fulminantes peças satíricas, as suas famosas e impublicáveis Dedicácias. Eu tinha visto e tocado o Graal.

Passaram os anos que se contam pelos dedos das mãos, quase a aca­bar o século XX, já eu levava sete anos de ganhar vida regalada e cosmopolita na SIC, deu-me o que Billy Wil­der e Marilyn Mon­roe imor­ta­li­za­ram como o seven year itch. Uma comi­chão do cara­ças: o meu amigo Francisco Pinto Bal­se­mão que me des­culpe, mas a SIC já não me bas­tava. Via­java de Los Ange­les ao Rio ou Hong-Kong e ao pequeno resort sau­dita e da máfia russa cha­mado Can­nes, e até, das duas às seis da matina, pro­gra­mava cul­tura de alto lá com ela nas «Noi­tes Lon­gas da SIC». Mas queria mais.

Com dois amigos, como talvez nunca mais venha a ter, fundei a Três Sinais editores. Um lema: a mais pequena editora do mundo. Queríamos fazer livros que fossem também uma girândola dos sentidos: grande dimensão, formatos raros, papel que desse vontade de acariciar e beijar. Um livro e meio por ano era a forma de nos roçarmos pela felicidade. E se o primeiro veio directo dos tesouros de Mécia de Sena, o segundo nasceu de uma ousadia premiada. Talvez instigado pela Antónia, minha mulher e agustiniana obsessiva, desafiei Agustina a escrever sobre Paula Rego e desafiei Paula Rego a deixar-nos usar a sua pintura nesse livro, que eu imaginava como um orgíaco sabbath. Ó se foi.

Dedicácias e As Meninas são duas preciosidades, se me perdoam a arrogância, que é assumida. Capa car­to­nada reves­tida a pano, papel Pop Set de 170 gra­mas que, mate, acei­tava muito bem a cor, repro­du­zindo com fide­li­dade as tex­tu­ras das telas de Paula Rego, uma fide­li­dade de Grá­fica de Coim­bra, que o Padre Valen­tim e o meu amigo Gân­dara garan­tiam. Pagi­ná­mos com liber­dade e libe­ra­li­dade, dando gran­deza e soberba a por­me­no­res, tanto aos da pin­tura, como mesmo a alguns dos mais ins­pi­ra­dos ou cho­can­tes afo­ris­mos com que o texto de Agus­tina nos des­lum­brava ou sufo­cava — o que é que se há-de dizer quando, como ela escrevia, «as mulhe­res cons­pi­ram, ins­pec­ci­o­nando a sua roupa de baixo».

Arrebatador foi ter «inventado» esse livro, As Meninas. Pensei que era isso ser editor: inventar livros. A culpa maior foi de Agustina. Não só aceitou o desafio como pediu mais. E eu reincidi. Pedi-lhe uma quase autobiografia, esse Livro de Agustina, que ela começou por chamar Retrato de Grupo. E, a seguir, voltei a desafiá-la para uma Bíblia em caixa de vidro, em que também escreveram João Miguel Fernandes Jorge, Jorge Sampaio, Manoel de Oliveira, João Bénard, Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura. A caixa de vidro (não era bem vidro, reconheço), veio da China.

Do hobby para a indústria

Da Três Sinais para a Guerra e Paz editores foi o salto do hobby para a indústria. Quando, em 2005, saí definitivamente da SIC, decidi que seria dono e senhor de mim mesmo: nem Deus, nem chefe para todo o sempre. Num clamoroso, mas delicioso erro, escolhi o livro, a edição deles, como quem julga que se vai sentar ao fim de tarde, flute de champanhe na mão, na mais radiosa pérgula do jardim.

Voltei a Agustina e a Mécia. Na sua casa do Gólgota, Agustina aceitou escrever 11 «óperas» de intriga, traição ou sedução da História de Portugal, num livro a que chamou Fama e Segredo. Mécia deu-me a correspondência de Sena e Sophia, publicação que Sophia, num jantar abençoou. Começava, assim, em 2006, a aventura da Guerra e Paz editores, que vai a caminho dos 17 anos. Fiz, com o Ilídio Vasco, meu designer ab ovo usque ad mala, livros em madeira, (e vão dois!), a única capa do mundo, para Fernando Pessoa, feita numa prancha de madeira sem cortes ou colagens, com a lombada trabalhada a laser, e fizemos a capa que, desdobrada, tem mais de um metro para O Físico Prodigioso, de Sena.

Veio, fatal como o destino, o acidente traumático. A insolvência de um distribuidor ia sendo o golpe de mata leão no pescoço da editora. Subtraído de um ano inteiro de facturação, levei anos a dormir na mesma cama com a dívida: é uma espécie de coabitação em regime de violência doméstica, com gritos, agressões, baba e ranho e não se sai do Purgatório. Mas não falhámos uma única obrigação e renascemos.

A Absolvição

Onde está, então, a viagem de caleche no tempo? A pérgula e o champanhe? Quero dizer aos culpados disto tudo, à minha mãe, ao Bénard, a Mécia e Agustina, três mulheres e um homem, que não só os absolvo, como lhes agradeço, ajoelho e rezo. Valeu a pena. Bastava ter publicado Agustina, Sena, Sophia, o último livrinho de Vasco Graça Moura, a Estrutura das Revoluções Científicas, de Kuhn, ou o Ouriço e a Raposa, de Berlin, como em breve O Crisântemo e a Espada, de Ruth Benedict, jovens poetas como Eugénia de Vasconcellos e João Moita, ou o veterano Eugénio Lisboa, o Longo Braço do Passado, de Rui de Azevedo Teixeira. Bastava que a Guerra e Paz fosse, como é, a mais angolana das editoras portuguesas, do que é prova a monumental Antologia da Poesia Angolana, cereja a mimar o bolo. Bastava-me o Assim Nasceu uma Língua do Fernando Venâncio e a luta contra o famigerado AO90.

Os últimos cinco anos da Guerra e Paz editores, colecções de livros vermelhos, amarelos, brancos e negros, os nossos clássicos, a entrada no romance contemporâneo, a criação de uma colecção de grandes ensaios como Os Livros Não se Rendem, restituem-me ao êxtase edificante da infância, ao adolescente ramo de mangueira, três metros acima do chão, três metros mais perto do céu.

Um atraso de vida cheio de futuro

Este é o Alfa-Romeo do António Peixinho

Vou expor-me ao ridículo e jurar que a Vila Alice, meu bairro de Luanda, era afinal um bairro de Nova Ior­que. Ficaria ali, encas­trado entre o Soho e a Lit­tle Italy.

Pode pare­cer que o meu forte não é a geo­gra­fia. Enganam-se. Pisei a Cali­fór­nia e foi logo como se respirasse de novo, por todos os poros e com nari­nas boca-de-sino, o ar start-up da Angola de 1973. O mundo é enorme, é maior do que as duas ore­lhas do Dumbo, mas por ser tão grande o mundo repete-se. Há um boca­di­nho de Alfama a subir para o Sacré Coeur e havia um boca­di­nho dos anos 50 de Bronx e Newark na Luanda dos anos 60.

Na Alberto Cor­reia, a minha rua da Vila Alice, havia três mer­ce­a­rias. Mas só a mer­ce­a­ria do Senhor Manel, se pode gabar de ser o espe­lho bor­ge­si­ano das mer­ce­a­rias do “Bronx Tale”, único e gen­til filme de que Robert De Niro foi o realizador, ou dos roman­ces abu­si­va­mente auto­bi­o­grá­fi­cos de Phi­lip Roth.

Na mer­ce­a­ria do senhor Manel não se ven­diam metá­fo­ras, mas havia duas portas de entra­da de meto­ní­mica afi­ni­dade. A canó­nica, das horas legais, pre­ce­dida por três degraus que podiam, se fosse mais devoto o con­ti­nente, ser os degraus de uma cape­li­nha sete­cen­tista. Fechava à hora de almoço e, se ainda me lem­bro, fechava outra vez quando o sol se punha. Fora de horas, entrava-se na mer­ce­a­ria por uma camuflada porta late­ral que dava para o pátio, onde à noite o senhor Manel punha uma mesa guer­reira para par­ti­das de sueca que levan­ta­vam ala­ri­dos de Alju­bar­ro­ta, não adivinhando ainda o trágico Kifangondo, que viria um dia. De uma tomada interna, o senhor Manel sacava uma puxada e era à luz de uma gam­bi­arra que se batiam as car­tas. Cruzavam-se Nocais e Cucas e nós, can­den­gues, ouvía­mos da boca dos mais velhos o que nem hoje nos atre­ve­mos a repetir.

Podiam ser, se fos­sem sici­li­a­nos, mafi­o­sos do Bronx. Esta­vam ali, de gor­dos ou ossu­dos rabos enfi­a­dos nas cadei­ras, apos­tas sobre apos­tas, fumo a entrelaçar-se em fumo, até às qua­tro, cinco da matina. Um dia, um deles ten­tou pisgar-se às três da manhã. A per­der, o velho Augusto lançou-lhe um labéu capaz de gelar os tró­pi­cos: “Par­ceiro da merda, joga duas par­ti­di­nhas e dá de frosques.”

Era um quintal de filme, podia estar nas tra­sei­ras do “Rear Win­dow”, de Hitchcock. Jogavam-se car­tas como num “film noir” e cola­dos aos cigar­ros, a um whisky com 7up, esta­vam Edward G. Robin­son e Wal­ter Bren­nan. Ria-se como se ria na pri­são do “Rio Bravo”.

Era a vida, mas não era nenhum atraso de vida. Repe­tindo o ritmo de um quin­tal mafi­oso dos anos 50 de Nova Ior­que, o pátio de mil sue­ca­das de Luanda ante­ci­pou o que depois sacu­di­ria a Amé­rica. Os car­ros dos pri­mei­ros anos 60 eram as car­ri­nhas Ford, uns Che­vro­lets e Ply­mouth, espa­das ame­ri­ca­nos. Por pouco tempo. A luz da gam­bi­arra da mer­ce­a­ria do senhor Manel ilu­mi­nou, osci­lante, a che­gada do Simca do meu pai, do Triumph da bela Mimi, do Fiat de aber­tura pela frente do amável lixi­vi­eiro, do Alfa-Romeo do largo dos Cunhas, do Volkswa­gen preto do senhor Pinto, do Citroen e do BMW da famí­lia dos enge­nhei­ros. Se em Detroit esti­ves­sem aten­tos à Vila Alice, sabe­riam, em mea­dos dos anos 60, que a indús­tria auto­mó­vel ame­ri­cana estava condenada.

Tudo o que os japo­ne­ses fize­ram depois – a bara­tís­si­mos Hon­das, Maz­das, Toyo­tas – foi só um golpe de mise­ri­cór­dia. O mundo mudou sim, mas à luz ténue da gam­bi­arra do pátio da mer­ce­a­ria do senhor Manel. Na Vila Alice, esse bairro meio-judeu, meio-italiano, de Nova Ior­que. Digo eu que, agora sei, de car­re­gada nos­tal­gia, que Alice doesn’t live here anymore. Nem voltará a viver.

A morte é uma artista

A morte tem má reputação, uma cara taciturna, diz-se. Preconceituosos, continuamos a achar que a morte é a figura insidiosa que aparece sempre ao pé de camas de madeira escura. Porém, a morte, e olhem que não é só a morte moderna, tem também ironia, sentido de oportunidade, uma multifacetada vocação que tanto é trágica como cómica.

Eu tenho um amigo que é dono de uma funerária. Tem um sentido de humor subtil, leve, com a efervescência de uma flute de Moët & Chandot, isto só para não exagerarmos nos custos desta crónica. Esse meu amigo almoça, quase todas as semanas, com outros amigos, que nasceram na mesma terra. Um deles adoeceu com gravidade. Fez biópsias, tacs, ressonâncias, o diabo a quatro, que a morte é exigente. E marcou o que se temia ser o derradeiro almoço, logo a seguir à consulta com o médico que ia ver os exames. Diagnóstico no bolso e na alma, entrou no restaurante. Os sete amigos estavam tensos, uma angústia de quem sabe o que aí vem. “Então, António?” E ele, em pé, anuncia que nada é maligno, que há tratamento e que a morte já vai longe, corrida a pontapé. Erguem-se os seis amigos, gritam besteiras, que é a forma de nós, homens, exibirmos sem vergonha uma alegria parva. Só um deles, o meu amigo da funerária, continua sentado e acabrunhado. “Porra, Joaquim, não dizes nada!”, chateiam-no os outros. E ele: “Todos para aí a festejar a saúde do António, e eu? No pobre cangalheiro ninguém pensa!”

E do restaurante da Baixa lisboeta vou directo para Santa Barbara, a cidade que, na Califórnia, Mécia de Sena me deu a conhecer. E levou-me, com Maria de Lurdes Belchior, a conhecer os restos das missões espanholas, eu um menino mimado por aquelas duas senhoras, em pic-nics de ovos verdes e bolinhos de bacalhau. Nunca fomos foi ao Lobero Theatre. Mas foi lá, no Dia das Mentiras, em 1938, a estreia de uma peça de Clifford Odets, “Golden Boy”. Em plena representação, cai, fulminado, o actor Joseph Greenwald. Não vão acreditar, mas ele tinha acabado de dizer esta linha do diálogo, a sua última réplica: “Esperei por este momento toda a minha vida.”

Nos meus tempos da SIC, comprei vários shows de variedades ingleses, mas tenho agora de confessar a Francisco Balsemão que falhei este, de que vou falar. Os Variety Shows eram feitos ao vivo e para uma espectadora especial, a rainha de Inglaterra. Num dos shows, o mágico e cómico Tommy Cooper estava a fazer o seu número. Ao vivo, claro. Chamou a assistente. Ela entrou em cena. Tudo nela era exultante. O seio mais refulgente do que néon na noite escura, a perna longa como um relâmpago, e já vos poupo ao seu britânico backside. Tommy Cooper olhou para ela e caiu. Deixou-se cair, por ser esse o seu estilo, pensaram os espectadores e riram-se. Era uma sala incapaz de parar de rir. Mesmo a estremecida assistente ria com convicção. E Cooper não se levantava. O realizador, alarmado, foi para intervalo (lembram-se?). O que tombara Cooper fora um ataque cardíaco. Tentaram reanimá-lo, mas estava morto, o que o hospital confirmou.

Em Nova Iorque, só vi ópera uma vez, de Donizetti, “O Elixir de Amor”, numa passagem com o Emídio Rangel, que meteu polícias, reféns, hospitais. Mas em 1960, o barítono Leonard Warren cantou lá, no Met, a ária “Morrer, ó tremenda coisa” do “Don Carlo”. Tinha ele a ária nos lábios – Morir, tremenda cosa – e uma hemorragia cerebral calou-o para a eternidade.

Porventura desajeitada, mas vê-se que há na morte uma certa vontade de emprestar um toque artístico a cada uma das suas aparições. Volte sempre.

Os meus livros de Setembro 14 selfies para a rentrée

Tenho de fazer uma selfie com Marcelo. É indesculpável ser o único português que ainda não tem uma. Faço, para me treinar, uma com Henrique Cymerman e com os árabes, os israelitas e até o Papa, que deambulam pelo seu autobiográfico e perigoso Conversando com o Inimigo: do Porto a Abu Dhabi via Telavive, o nosso primeiro livro de Setembro. E vou, com João Céu e Silva, fazer selfies a Casablanca: Adeus, Casablanca é um belo romance de amor, com pirataria aérea, panfletos e ecos de Paul Bowles. Ficas bem na selfie, João!

António Botto Quintans faz selfies com todos os nossos velhos reis no seu cómico A Bienal da Tia Matilde: História de Portugal à la Carte II. Mas já Eugénio Lisboa se recusa a fazer a selfie com Putin: Poemas em Tempo de Guerra Suja é um vigoroso manifesto contra a invasão russa e a brutalidade de uma guerra que fere a Ucrânia e a Europa. Poesia de combate.

Bruno Vieira Amaral, sim. Em 50 selfies criou o Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, um livro que rouba criadas estranguláveis e bons malandros, mulheres-anjo e mulheres-demónio aos autores que os inventaram. E a selfie que todos queremos fazer é com Manuel. É o filho do autor, João Gomes da Silva, que nos conta, em pouco mais de cem páginas, a história verídica do nascimento deste miúdo com trissomia 21: uma selfie com a vida.

As Minhas Causas é, pode dizer-se, a recolha de todas as selfies de Vitor Ramalho em favor da paz, em Moçambique ou Angola, testemunho de acções humanitárias, ponte entre a Europa e África. Faz pendant com outro belo livro, o Atlas Mundial da Água: Defender e Proteger o Nosso Bem Comum, selfie com os rios, lagos e oceanos desta nossa casa-mãe. Desta água é que todos deveríamos beber.

Bom, e fui fazer selfies com as criancinhas. Já se sabe o que acontece a quem dá corda a miúdos, saí de lá com esta cheirosa selfie: O Grande Livro dos Puns! É um guia ilustrado da Ciência, da História e da Arte de dar puns: só peidinhos e factos. Outro facto: cuidado com uma certa rapaziada, é o aviso de Rui Teixeira da Mota no seu O Elogio da Sabujice, uma visita a uma raça, o sabujo, a quem também se chama capacho, lambe‑botas ou lambe‑cus, graxista ou mesmo chupa‑pilas. Uma sátira, está claro.

Duas selfies com empresas e empreendedorismo. Luís Parreirão, em Empresas Familiares, Famílias Empresárias, Onde Está o Substantivo? faz uma bela e substantiva selfie bilingue e ilustrada às empresas familiares. Já José Eduardo Franco e Paulo Pereira da Silva fazem ousadas e irreverentes selfies com Jesus Cristo, no seu Cristo Empreendedor, combinando as parábolas e alegorias dos Evangelhos com a prática empresarial.

Quem fez uma selfie com o imperador chinês Kangxi foi um jesuíta português, vivendo com ele 36 anos na Cidade Proibida. É esse o objecto fascinante da selfie de Tereza Sena em Tomás Pereira e o Imperador Kangxi: Um Diálogo entre a China e o Ocidente. Grande selfie.

E foi na II Grande Guerra que a antropóloga americana Ruth Benedict fez uma prodigiosa selfie com um povo e uma nação, o Japão. Venham ver, está em O Crisântemo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa. É um ensaio cheio de beleza e mistério, que era uma ofensa não estar ainda em língua portuguesa. É a selfie que inaugura uma nova colecção da Guerra e Paz, Os Livros Não se Rendem (título tão feliz que a minha filha me deu – hei-de fazer uma selfie com ela!). Parceria com a Fundação Manuel António da Mota, prometo aos Livros Não se Rendem uma selfie especial depois da Feira do Livro.

Menti, claro, quando disse que nunca tinha feito uma selfie com o nosso amável presidente Marcelo. Já fiz duas ou três. Mas menti logo a abrir, para dizer depois a verdade e só a verdade sobre as 14 selfies de que aqui vos falei. Em 14 selfies, o retrato de Setembro da Guerra e Paz editores.

Manuel S. Fonseca, editor

Uma esquina com alma

A foto é minha, começava eu a deslargar-me da esquina adolescente, que eu conto e canto nesta crónica despudoradamente nostálgica. (Para o Simão Sanches.)

A esquina foi a alma da minha adolescência. A esquina perfeita era a esquina da rua Alberto Correia com a Fernando Pessoa, na Vila Alice, na cidade de Luanda. Em cada esquina uma vivenda, menos nessa esquina do terreno baldio do velho Amado: só ruínas, restos de paredes da casa tombada no combate da vida, o esqueleto e os pneus furados de uma velha camioneta steinbeckiana em que os nossos calções tropicais se escondiam para fumar ou fingir que já conduziam.

E vejam o que habitava e se via da esquina do baldio que fora do velho Amado, acusado e preso por abuso de inocentes catorzinhas: vias-se um pescador que poderia ter sido um boémio do “Tortilla Flat”, há anos a pintar de azul o seu barco, e via-se o velho Austin preto, talvez do anos 40, do Ulisses, barbeiro auxiliar do senhor Mário, catedrático de cabelos e barba, meu amigo e mentor, o primeiro, nesses distantes anos de salazarismo, a dar-me a ler um Avante em papel Bíblia e uma revistinha couché de fotografias de dinamarquesas, enfermeiras, digamos assim, de irrepreensível saúde.

A essa esquina presidia a majestosa mulembeira, foi o que me jurou o meu amigo Simão Sanches, quando eu lhe disse que era um imbondeiro. Dos seus ramos dependuravam-se dezenas de silenciosos morcegos durante o dia. Mal tombava a noite logo os morcegos se largavam, como se largava o bando de adolescentes que nós éramos.

Ah, e o muro. A esquina era o muro que cercava esse baldio. Vínhamos e sentávamo-nos nesse muro, dez um dia, quinze no outro, e tanto assombrávamos a noite com o nosso riso de hienas, como a enternecíamos com as histórias e os sonhos dos nossos mansos corações de pombas.

Todo o cruzamento era armadilhado. Trazíamos carrinhos de linha preta subtraídos às caixas de costura maternas. À altura do pescoço atávamos a linha preta dos postes da electricidade e sinais de transito às árvores dos quintais. Quem passasse era apanhado, na semiobscuridade da noite luandina, por um, dois ou três fios. Pelo pescoço. Riamos e fugíamos, perseguidos pelos mais velhos irritados. Ainda gritávamos “ó careca”, se fosse o caso.

Trabalhávamos o dia seguinte: tirávamos, com uma chave de fendas, os velhos tampões das jantes dos carros, púnhamos lá dentro meia dúzia de pedrinhas burgau e voltávamos a fechar. No dia seguinte, quando os donos dos velhos Simca ou caquéticos Volkswagen arrancassem, às sete da matina, nessa cidade que despertava tão cedo, ah meu Deus, até estrilavam, num concerto stockenhausiano, que parava o trânsito e interrompia matabichos.

Por vezes, honrando o subtil legado dos mais-velhos de 20 anos, de partida para a tropa, o Simão, Abílio, Norberto, Leopoldo (ou Leopildo como sussurrávamos nas suas costas), levantávamos um carro e púnhamos tijolos que sustentavam as rodas a um centímetro do chão. O mais-velho dono entrava no carro, na manhã seguinte, sem dar por nada e quando dava à ignição as rodas ficavam a zunir no ar – uatobo! –, sem tocar no chão e o muadiê todo buelo e raivoso.

Essa era a esquina. Perfeita. Moraram nela, o vozeirão do Beto que arrancava da cama as famílias para o ouvirem cantar “receba as flores que lhe dou”; a temível estalada do Meno, só uma, one-shot como o imitaria, depois, o De Niro do “Caçador”; a suavidade do Cesarito e do Nelinho, que acabariam a pilotar Migs; o filosófico Lando; o Zé Victor dos grandes malhanços; o Da Guia de guitarra à José Feliciano; o sereno Sá.

Pobre da adolescência que não teve uma esquina e um muro. O Fellini de “I Vitelonni” grita-me, do cemitério, o seu risonho acordo.

Feira do Livro, making of

Vou dizer-vos isto ao ouvido: façam as vossas listas! Vai ser uma Feira do Livro quase tão esplendorosa como a Vénus de Botticelli, quase tão intrigante como a Gioconda de Da Vinci.

Ponto de encontro: estes três pavilhões, A46, 48, 50. São os da Guerra e Paz. Para mim, que sou imparcialíssimo, os mais bonitos da feira. E isto é só o making of. Até 5.ª feira.

Vamos fazer grandes coisas juntos

A cativa de Picasso: Marie-Thérèse

Ela foi a cativa que Picasso manteve cativa. Mas deixem-me começar por ser exacto: naquele tempo não havia em Paris quem não conhecesse as Galerias Lafayette. Nem toda a gente, porém, conhecia Picasso. Era um dia de Inverno, o dia 8 de Janeiro de 1926, e Picasso viu, atrás das grandes janelas das famosas galerias, um rosto. Foi como se toda a Paris, num átimo, se eclipsasse: já só havia esse rosto de menina a pairar no ar, a encher o céu gelado, o crepúsculo a derreter-se sobre a cidade.

Picasso interpelou a muito jovem mulher, mal ela pôs a sola do sapato na rua: “Mademoiselle, tem uma cara tão invulgar. Deixe-me pintar a sua cara.” E disse quem era: “Sou Picasso.” Os 17 aninhos de Marie-Thérèse Walter ignoravam olimpicamente o que fosse ou quem fosse esse Picasso de 45 anos, taurino. Ele mostrou-lhe um livro japonês; na capa, a fotografia dele. E marcou encontro para as 11 horas, da 2.ª feira seguinte, na estação do metro de Saint-Lazare. A cara oval e luminosa de Marie-Thérèse acenou que sim e Picasso rematou: “Tenho a certeza de que vamos fazer grandes coisas juntos.”

Fizeram. E o que eu queria dizer, antecipando a colossal e silenciosa história de amor deles, é que muito mais tarde, quando se separaram, Marie-Thérèse lhe havia de escrever uma carta por dia até ao dia da morte de Picasso. Quem escreve, hoje, uma carta de amor por dia?

Quase nada sei de Marie-Thérèse. Sei só que Picasso lhe dedicou o que hoje seria um amor pedófilo. Picasso tinha já um filho, Pablo, e era casado com uma também bela bailarina ucraniana, Olga Khokhlova. O que Olga tinha de impulsivo e de ansioso, Marie-Thérèse tinha de doçura, passividade e submissão. Foram logo amantes, ela e Picasso, e mantiveram a luxúria e o desejo na incendiada prisão do amor deles, sem janelas nem portas para a rua. E o que eu quis dizer é que ninguém sabia desse amor que duraria até ao dia, sombrio, em que Marie-Thérèse descobriu a nova amante de Picasso.

Picasso pintou, retratou, esculpiu muitas mulheres. Nenhuma foi, na pintura dele, tão solar, de rosto e corpo tão luminosos, como a Marie-Thérèse que hoje podemos ver em telas tão célebres como O Sonho, ou O Retrato de Marie-Thérèse com Boina Vermelha. São célebres, valem fortunas, mas o que logo nos desatina, enerva e seduz é que neles, a pintura de Picasso se deixa impregnar por um desejo clássico de beleza, em que a deformação se ajoelha e reza aos pés de um doce lirismo.

E Marie-Thérèse engravidou. Foi em 1935, tinha ela 26 e ele 54 anos, o dia mais feliz da vida de Picasso. Quis divorciar-se da bailarina Olga, mãe do seu Pablo. Olga recusou o fustigante estatuto de divorciada: talvez revoltada com a forma perversa como, durante 9 anos, Picasso tivera Marie-Thérèse a viver em apartamentos quase ao lado ou em frente à casa do casal legítimo.

O obstinado ego de Picasso não desistiu. Divórcio impossível na Espanha franquista, conseguiu a separação e foi viver com Marie-Thérèse. Lenda ou não, pintava ele a Guernica, Marie-Thérèse descobre no estúdio a fotógrafa de vanguarda Dora Maar. Logo percebe as faíscas desse desejo que dilata os corpos. A submissa Marie-Thérèse, que confessou oferecer-se às mais escuras fantasias de Picasso, recusou o triângulo. Separaram-se. Marie-Thérèse teve sempre ao seu lado, como se guardasse as relíquias de um mártir, os cabelos de Picasso, as unhas que lhe tinha cortado, e escreveu-lhe uma carta, dia após dia, ao longo de 30 anos. Picasso morreu. Quatro anos depois, inconsolável, Marie-Thérèse suicidou-se.

Publicado no Jornal de Negócios, Weekend