Porque é preciso virar a página

Peço imensa desculpa por uma certa alegria quase infantil. Mas estou mesmo contente com os livros que a Guerra e Paz editores publica em Janeiro. Apresento-os em duas linhas: com a objectividade que tento copiar desse certeiro mestre polaco que é Robert Lewandowski.
E desculpar-me-ão se eu der um abraço, de o levantar do chão, ao meu amigo Paulo Nogueira, portuguesíssimo brasileiro, que aceitou o meu desaustinado desafio, respondendo-me em tempo recorde, ou não fossem todos os lugares de fala. Que belo livro, Paulo!
Um desabafo. Passei, durante uns valentes anos, por muitas dificuldades para segurar viva esta editora, que a insolvência de um distribuidor pôs de rastos e de morte anunciada. Podia ter desistido. Hoje, sabe-me ao néctar dos deuses apresentar um alinhamento destes. Em Fevereiro, prometo que há mais.
Obrigado à equipa (Zé, Ilídio, Américo, Inês, Carla, Maria José e Mário) que se bate com a garra e o pulmão de um Renato Sanches.

Nas livrarias a 11 de Janeiro:

Estes já estão disponíveis

Atlas do Holocausto: A Execução dos Judeus da Europa, 1939-1945
Georges Bensoussan 
Esta é a História dos factos, dos locais, dos métodos: o Atlas de uma viagem aterradora ao coração do crime nazi, um crime sem precedentes. Texto e mapas de um genocídio.

A Pessoa e o Sagrado
Simone Weil

Cuidado, esta Simone é a Weil, com W e não com V. Morreu na II Guerra Mundial e era indomável. Em Portugal, teve uma epifania mística e este livro interroga as nossas ideias básicas de direitos humanos. 

Poemas Eróticos da Antiguidade Clássica: Grécia e Roma Antigas
Organização de Victor Correia

Os mais belos poemas da Grécia e da Roma antigas, pelos melhores tradutores, oferecem um panorama deslumbrante da sexualidade clássica. Que inveja, nestes tempos de novos puritanos!

História de Juliette ou As Prosperidades do Vício
Marquês de Sade

O melhor romance de Sade. Monumental, desbragado e subversivo. Sade transgride aqui todos os tabus e a sua heroína, Juliette, mergulha além dos limites, como se o corpo humano fosse inesgotável.

O Peso Perfeito para Si
Alexandre Fernandes

Sim, é um livro de dieta, uma dieta de 21 dias, mas é uma dieta com uma condição, a de uma revisão emocional: as suas emoções e sentimentos são a chave do êxito.

Nas livrarias a 25 de Janeiro:

Estes estão a caminho

Breve História da Filosofia Moderna: De Descartes a Wittgenstein
Roger Scruton

A tradição filosófica ainda é o que era e, com a apresentação de Roger Scruton, a tradição filosófica de Descartes a Wittgenstein ainda é melhor do que era. A grande filosofia ocidental explicada com clareza e fluidez.

Todos os Lugares São de Fala: Manifesto pela Liberdade de Expressão
Paulo Nogueira

Na era da cacofonia estridente das guerras culturais, este Manifesto quer ser um santuário da liberdade de expressão. Será hoje a liberdade de expressão um luxo em extinção? Não perca nem um capítulo deste livro irreverente e insolente. Escreveu-o com inteligência e brio o meu amigo Paulo.

Carta à Geração Que Vai Mudar Tudo
Raphaël Glucksmann

Que raiva! É tudo apocalíptico, o clima, o populismo, o mundo financeiro. É o fim do mundo e parece que ninguém pode fazer nada. Este é o grito de revolta, o apelo à geração que pode e vai mudar tudo. 

A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de Um Julgamento Sórdido
Oscar Wilde

Em tribunal, na Inglaterra vitoriana, Oscar Wilde é acusado de um crime: ser sodomita. Mais do que debater sexualidades, Wilde faz do tribunal um teatro para uma portentosa defesa da total liberdade da arte.

E, como disse o Presidente Marcelo, inspirado certamente pelo slogan da Guerra e Paz desde 2006, tudo isto porque é preciso virar a página.


Em Janeiro, nove livros e meio, por favor

Pediu-nos, por favor! Foi 2022: veio falar com a Guerra e Paz editores e pediu-nos, por favor, um grão de erotismo que espantasse as sombras da feia pandemia. Por isso, em Janeiro, trazemos aos leitores a mais bela antologia de Poemas Eróticos da Antiguidade Clássica, que Victor Correia, formado pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino (ora bem!), subtil e lascivamente organizou. Para que não fosse um acto solitário, juntámos-lhe a obra maior do mais célebre dos presidiários, o Marquês de Sade, a majestosa e carnal Juliette ou As Prosperidades do Vício, romance de potente libido que nunca ninguém lerá de um fôlego.

Outro presidiário, outro transgressor: de Oscar Wilde, na colecção Livros Negros, vão poder ler A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de um Julgamento Sórdido. Nunca tinha sido publicado assim em Portugal. Se calhar, no mundo. Ou de como de um pântano de acusações e intrigas surge a mais esplêndida defesa da criação artística. Arte livre contra todos os servilismos.

Dois livros vibrantes, dois manifestos contemporâneos abrem também Janeiro. Um vem de Franças e Araganças e é a Carta à Geração Que Vai Mudar Tudo, de Raphaël Glucksmann, um hino à acção. O outro é de Paulo Nogueira, jornalista do finado e saudoso O Independente: Paulo, que não é de Tarso, escreveu Todos os Lugares São de Fala – Manifesto Pela Liberdade de Expressão, um intempestivo e, por vezes, hilariante Livro Vermelho, que faz braço-de-ferro com a famigerada cultura woke.

Woke ou não, por causa de inóspitas obesidades, O Peso Perfeito para Si, de Alexandre Fernandes, é o nosso livro prático do mês.

Os mortos desafiam-nos a pensar! Ressuscitámos Simone Weil, a mística Simone Weil, publicando um inédito seu em Portugal, o belíssimo A Pessoa e o Sagrado, perturbante interrogação dos direitos do Homem. Do filósofo Roger Scruton, falecido faz agora dois anos, resgatámos, em nova edição, a sua essencial Breve História da Filosofia Moderna. E há os mortos que já ninguém ressuscitará, mas que nos educam para o futuro. Atlas do Holocausto: A Execução dos Judeus da Europa, 1939‑1945, de Georges Bensoussan, é um guia insubstituível e rigoroso do Holocausto, essa devastação nazi da II Guerra Mundial.

É assim Janeiro, várias gotas lúbricas, a turbulência de manifestos, a exaltação do grande pensamento. E íamos para o décimo livro, distendidos, puxar de um charro, mas alto lá que fica para Fevereiro, deixando Janeiro com nove livros e meio, se faz favor.

O Editor
Manuel S. Fonseca

Carta ao meu neto no seu primeiro Natal

Carlos, vais estrear-te, neste ano da graça de 2021, em Natáis. É bem possível que uma malta mais céptica, e um bocadinho para o retorcido, te venha dizer que o Natal é uma chuchadeira. Eu sou o teu avô e vou este ano para o meu 68º Natal – e ainda bem que não é o Natal 69, por assuntos e mujimbos que, por ora, ainda não vale a pena estar a mencionar-te. Ora, pela experiência de 68 Natáis quero dizer-te que não dês muita atenção aos cépticos e tenhas até um bocadinho de pena deles. O Natal é um caleidoscópio de emoções, se é que tu, aí atrás desse babete bem babadinho, sabes o que quero dizer. Já vais ver que o Natal é bom e vou começar pelos cheiros e sabores.

Abre-me essas narinas, Carlos, e cheira: a casa rescende a açúcar, não é? Fritam-se sonhos, e vais ver que na boca são parecidos com os que à noite te fazem rir em pleno sono, derrete-se chocolate, faz-se a calda para as fatias douradas, a que também se chamam rabanadas. A casa tresanda a aromas densos e cálidos. Vais dizer-me que, assim, lábios, dentes e língua já estão cheios de ciúmes do nariz e narinas. Ai, é?! Então prova. Leva à boca os pastéis de bacalhau, os rissóis, os rabinhos de polvo frito, deixa deslizar na língua o leite creme ou o arroz-doce, uma finíssima fatia de perú trinchado, um camarão a nadar em maionese.

E os olhos, Carlos! Anda pela casa uma agitação descomandada, uma histeria feliz, amarrota-se e estica-se papel de embrulho, cortam-se fitas, corre-se para apanhar as bolas e as estrelas de decoração do pinheirinho do pai Natal, atira-se alguém em vôo para não deixar cair ao chão um ai-meninojesus, um são josé ou um burrinho. Este ano, és tu o meninojesus do nosso presépio, eu o teu burrinho, a avó faz de rainha maga. A Rita e o Paulo, tua mãe e teu pai, são a tua sagrada família.

Ah, e perguntas tu, entre gói-gói-góis, então o Natal é uma festa religiosa? E lá venho eu, com os meus 68 Natáis, dizer-te que só é se tu quiseres, porque sendo-o a nada te obriga, embora seja de uma velha religião que se vivia em catacumbas que esta festa vem. E é por causa dessas catacumbas que o caleidoscópio do Natal, esse que te fez abrir as narinas, regalar a tua boca e iluminar os teus olhos lindos, faz passar um vento maravilhoso pela tua alma ou espírito ou mente, como lhe queiras chamar: é o vento da humanidade, da tremenda gentileza e da inenarrável boa-vontade que, nestes dias, parece inspirar quase toda a gente.

A ti, nessa cara tão redonda e de sorriso esplêndido, toda a gente te quer encher de beijos. Mas não te admires que neste dia do teu primeiro Natal, os beijos venham mais lambuzados e os abraços te sufoquem, e as festinhas na cabeça te ponham ainda mais carequinha. É neste dia que nos inunda a todos, como se fosse uma daquelas ondas da Nazaré, um impulso para gostar de toda a gente. O amor, essa coisinha tão rara, que vem encastrada em tão poucas conchas, avassala cada um de nós: apetece-nos abraçar os intratáveis vizinhos do lado, o carteiro, a senhora da pastelaria. O Presidente da República já não é novidade, que toda a gente o abraça todos os dias.

Sim, o amor ao outro, seja quem for o outro, por mais estrangeiro, por mais humilde ou por mais soberbo que seja o outro, é a herança desse culto das catacumbas, chamado cristianismo, que há 68 anos me adoça o palato e de que eu gostava que tu fosses fiel guardião por mais 100 anos. Não sei se virás ou não a ser cristão, eu já o fui e deixei de o ser, mas não renego o melhor que nessa religião de catacumbas bebi, o amor aos outros, conhecidos ou desconhecidos, amigos íntimos ou mesmo inimigos a quem nunca quererás que aconteça o mal. Guarda e preserva essa pequenina jóia de humanidade.

Terás, agora, a ajudar-te a tua avó, linda, de amena vaidade por ser tão bonita, sempre inquieta e de, ainda hoje, juvenil insatisfação. E terás, a levarem-te ao colo, o teu pai e a tua mãe, o Paulo que é um génio de musicais semi silêncios, mergulhado nos mistérios da intangível informática, a tua mãe, minha tão querida Rita, valente, afirmativa, sentimental quando larga lágrimas como um comovido lençol. Bem os vi, nestes meses que já levas em gloriosa vida, amarem-te com o mais puro, o mais lindamente animal e desinteressado amor do mundo.

E eu sou o teu avô, remansadamente feliz de ter esta família, deliciado a ver-te, meninojesus de baby grow, no meu presépio. Que o amor deste primeiro Natal esteja sempre contigo.

A guerra e a paz de um editor em 2021

Num tempo em que se voltaram a queimar, destruir e proibir livros, a Guerra e Paz editores fez, em 2021, um dos seus melhores anos a ler, acarinhar e publicar novos títulos. Eu sou o editor e queria contar-vos tudo ao ouvido. E desculpem se tomo a liberdade de tais e indevidas intimidades. Querem que eu ponha a máscara? Eu ponho a máscara!

Deixem-me falar já de alegrias: a minha maior alegria foi publicar, este ano, o livro Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor, a mais completa e livre Antologia de Poesia Angolana que já se fez, e que a minha querida Irene Guerra Marques e o meu amigo Carlos Ferreira (Cassé) organizaram, soberanos e generosos: um deslumbramento pintado às três faces do miolo. E que bom que o dstgroup nos tenha apoiado, mostrando que as empresas têm um papel no enriquecimento do imaginário dos portugueses.

A poesia, este ano, fez-me estremecer. A Ana Paula Jardim foi de Roupão Azul ganhar o Prémio Glória de Sant’Anna, enquanto a Eugénia de Vasconcellos, com o seu Livro da Perfeita Alegria, nos convida a um sobressaltado recolhimento, quase monástico, a cantar vésperas, culminando na fulgurante pulsão lírica de O Recreio dos Fâmulos, de Jorge Melícias. Sim, estremeci. De Angola, o Manuel Rui mandou-me um livro bilingue, Do Rio ao Mar, com traços rupestres do Ondjaki – que coisinha linda esse livro de amor à língua portuguesa, que vai e vem da boca poética portuguesa à boca poética angolana. Juntou-se-lhe a bela crise da Meaidadee de amizade, de outro angolano, o Carlos Ferreira, Cassé.

Sim, eu fiz-me ao mar. Fui com Pêro Vaz de Caminha, tanto mar, e vim de lá com a Carta do Achamento do Brasil, que o Onésimo Teotónio Almeida prefaciou, fazendo um volumezinho que é só de assombro e maravilha: nunca olhos humanos se perderam, surpreendidos, noutros olhos humanos como neste livro de inocência se perdem: descoberta, que descobrimento! Viajaram comigo, neste livro, a Câmara de Santarém e a querida Joana Emídio do jornal O Mirante. Obrigado. Ah, psiu, psiu… deixem-me dizer que a Carta é Livro Branco e da mesma colecção, branquinha, é o nosso Cântico dos Cânticos que, da inenarrável e inesquecível Agustina, tem um prefácio com um título que nos faz conjecturar e corar: Um tijolo quente na cama. E faço uma pausa para o irem a correr ler.

Agora, vamos lá ver de quem foram, em 2021, os melhores peidos – oh, desculpem, que vergonha… Juro que foram, vindos do século xviii, os de Jonathan Swift. Os seus Benefícios de Dar Peidos aromatizaram a colecção Livros Negros, a que se assoam também o escandalosamente educativo e libertário Manual de Civilidade para Meninas e o sufocante Solilóquio do Rei Leopoldo, de Mark Twain.

Já conhecem os Clássicos Guerra e Paz. Com a Clepsydra, que tem um bilhete inédito de Camilo Pessanha, que o Ilídio Vasco, organizador, desenterrou, são agora meia centena, quase todos no Plano Nacional de Leitura, com aquelas capas de multiplicação de ícones à Andy Warhol: a novidade é que os clássicos se modernizaram e já sentaram à sua mesa o F. Scott Fitzgerald, esse leviano príncipe da depressão e da turbulência: Terna é a Noite, livro de minha juvenil paixão, mas também O Grande Gatsby e O Estranho Caso de Benjamin Button.

Vamos ler? Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante foi o desafio que o nosso veteraníssimo, sábio e polémico ensaísta e poeta Eugénio Lisboa lançou a todos os portugueses: e para que menu soberbo nos convida chamando ao repasto, um a um, os 50 romances portugueses que podem fazer de um refractário um leitor. O livro de Eugénio Lisboa é dos Livros Vermelhos, como vermelho é o combativo De Raça, da «raçada» e destemida Rachel Khan, e tão mesmissimamente vermelho é ainda o Autos-de-fé, a Arte de Destruir Livros, áspera denúncia das novas inquisições, denúncia em que este editor da Guerra e Paz é solidário e acompanha um Michel Onfray, que aqui nos pede que sempre estejamos do lado da razão.

E eu dou comigo a pensar que começa a fazer medo este activismo cancelatório, que despede pessoas como Salazar despedia professores nas universidades e nas escolas, só pelo livre pensamento a que se atrevessem. Confesso: militaremos contra o obscurantismo racializado, de género, identitarista. Como?
Publicando livros como publicámos o Woke, da delirante Titania McGrath, sátira arrasadora, ou como publicámos o exemplar, didáctico e racionalíssimo Teorias Cínicas, de Helen Pluckrose e James Lindsay. Não passarão, os passarões! Mas também revisitando a História através dos Atlas Históricos, colecção a que acrescentámos três novos títulos, sobre o Império Romano, o Médio Oriente e os velhos tão novos Estados Unidos da América. Revistámos também Fernando Pessoa, e o seu olhar sobre a História do seu tempo, cercada pelo totalitarismo fascista e comunista, num livro a que chamei Que Salazar era o Salazar de Fernando Pessoa?

Ia dizer que começámos este ano a produção sistemática de ebooks e de audiobooks, na assunção de que são inescapáveis formas complementares do livro físico. Destacou-se a recepção ao Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio, que com ciência e razão tantos nos ensina sobre a história da língua portuguesa. O livro do professor Venâncio tem agora um complemento, a ousada História do Português desde o Big Bang, assinado pelo linguista Marco Neves.

E continuo a falar-vos ao ouvido, agora da nova colecção, Histórias de Liderançabiografias de gestores e gente da indústria, parceria com a Fundação Amélia de Mello e a Nova School of Business, ou da velha parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores, com o fio da memória, o último dedicado a José Pacheco Pereira. Mas falemos de romances, d’O Sonho de Amadeo, do brasileiro Leonardo Costa de Oliveira, que ganhou o Prémio UCCLA, e de Desaparecida, de Ricardo Lemos, vencedor do Prémio Lions. Quem ganhará prémios, estou certo, é o angolano Boaventura Cardoso com o seu épico Margens e Travessias. E nos corações dos leitores ganharão um lugar especial o Desamor, de Nuno Ferrão, romance que o meu amigo Dinis Machado leria com prazer, e O Salteador da Infância Perdida, digressão romanesca de José Jorge Letria à sua mais recôndita memória.

Pode a imaginação casar-se com a razão? Pode e termino com dois livros de triunfo da ciência e do pensamento: voltou a A Estrutura das Revoluções Científicas, clássico de Thomas S. Kuhn, na edição comemorativa dos seus 50 anos, e estreámo-nos com um cientista sueco, Ulf Danielsson, de quem publicámos O Mundo Como Ele É, com prefácio de Carlos Fiolhais.

Com a publicação de 90 novos títulos, resistimos ao segundo ano de pandemia, ao fecho injustificável das livrarias, que destruiu, a editores e livrarias, o primeiro trimestre de 2020, à bizarra alteração da lei do preço fixo, em que 90 % dos agentes que fazem, amam e põem oxigénio na boca do livro não foram sequer ouvidos.

Esta é, queridos leitores, a Guerra e Paz. Já temos a cabeça, corpo e alma, em 2022: prometemos começar em Março uma nova colecção, os romances de guerra e paz e uma nova e exigentíssima colecção de não-ficção, que conjugue filosofia, história, economia e ciência. Do Antigo Egipto à Guerra Fria, passando pelo Holocausto, e mesmo pelos Descobrimentos, nada do que é humano nos será estranho. Feliz Ano.
Manuel S. Fonseca

Estão abertas as candidaturas ao Prémio Literário Lions 2022

A Associação Internacional de Lions Clubes – Distrito Múltiplo 115, Fundação Lions de Portugal, e a Guerra e Paz Editores têm a honra de anunciar a abertura das candidaturas ao Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal de 2022, prémio que tem um valor monetário de dois mil e quinhentos euros, atribuído ao autor da obra premiada,

As candidaturas serão recebidas por email (e só por email), numa forma muito simplificada, que facilita a participação dos autores. As condições a que devem submeter-se as candidaturas estão expressas no Regulamento que pode encontrar nas páginas online do Lions de Portugal e no site da Guerra e Paz editores.

As candidaturas abrem no dia 15 de Dezembro do corrente ano e encerram às 23h59 do dia 25 Janeiro de 2022.

A Guerra e Paz editores publicará a obra vencedora, tal como publicou já o romance Vidas por Fios, de José Martinho Gaspar, vencedor da edição de 2019, Os Dentes do Tejo, de Evelina Gaspar, romance vencedor do Prémio de 2020 e o romance vencedor de 2021, A Desaparecida, de Ricardo Lemos.

O Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal foi criado em 2011 e destina-se a premiar a melhor novela ou romance inéditos de autores portugueses, tanto de autores estreantes como de autores já com obra publicada.

Concebido para servir a causa da leitura e para servir os autores e a literatura portuguesa, este é um prémio que se enquadra nos objectivos de ligação e divulgação da cultura que norteiam, também, a acção do Lions de Portugal.

O regulamento do Prémio Prémio Nacional de Literatura Lions 2022 pode ser consultado aqui.

Não é entrevista, é conversa

O programa, um daqueles lugares onde se conversa muito bem, chama-se Encontros Imediatos. É a casa do João Gobern e da Margarida Pinto Correio. Passei lá duas horas. A falar e a ouvir música. Fiquei deslumbrado e, apesar de estar com uma voz cavernosa, pus-me a falar que ninguém me calava. Esta é a primeira parte da conversa.

https://www.rtp.pt/play/p4311/e582148/encontros-imediatos

Depois saímos, demos uma volta, e atirámo-nos à segunda parte.

https://www.rtp.pt/play/p4311/encontros-imediatos

Pessoa e Salazar: para acabar de vez com as dúvidas

Juntei os trapinhos com Fernando Pessoa… perdão, juntei os textos de Fernando Pessoa sobre Salazar, no livro Que Salazar era o Salazar de Fernando Pessoa? Leiam, garanto-vos que não se vão arrepender. A jornalista Fernanda Cachão entrevistou-me para o CM. É uma antecâmara do que vão encontrar no livro.

Começo por lhe fazer a pergunta que aparece na contracapa do livro: Fernando Pessoa foi alguma vez salazarista?

 Se por salazarismo entendermos os 40 anos de ditadura, o cortejo de presos políticos, torturas da PIDE, guerra colonial, que hoje podemos e devemos imputar a Salazar, Fernando Pessoa, que nada disso viveu ou conheceu, nunca foi salazarista. Morreu três anos depois de Salazar chegar a Presidente do Conselho e decretar o unipartidarismo da União Nacional e plebiscitar a Constituição de 1933. É aqui que começa o que podemos designar politicamente como salazarismo e é exactamente esse quadro que alerta Fernando Pessoa, começando então os textos de Pessoa sobre Salazar a ser ácidos, satíricos e até violentamente ofensivos para o ditador.

 Qual a razão fundamental para reunir os textos do poeta sobre o ditador?

 É uma tradição da Guerra e Paz editores organizar antologias temáticas de Pessoa, sobre viagens, sobre sexualidade, sobre Cristo. Salazar é uma das figuras maiores, inarredável em vida e inarredável depois de morto, do nosso século XX. Ter o nosso maior poeta do século a comentar com minúcia a acção e os acontecimentos políticos desses anos de revolução e ditadura é de uma enorme riqueza. Tanto mais que podemos assim assistir, a partir de um olhar privilegiado, ao nascimento da figura política de Salazar e ver a sua evolução, tantas vezes feita com base em processos manhosos (as demissões sucessivas de Salazar, por exemplo). Do berço político ao trono tirânico, está tudo neste livrinho de Fernando Pessoa sobre Salazar.

 Salazar é frequentemente considerado o espírito tacanho que governou Portugal 40 anos. No entanto, existem algumas coincidências de pensamento entre Fernando Pessoa e Salazar, quer partilhavam, por exemplo, um “profundo cepticismo quanto à capacidade intelectual da multidão”, uma visão pouco politicamente correcta para os padrões actuais? 

 Mas o que pensam hoje os grandes dirigentes políticos sobre a massa dos cidadãos? Se não fossem tão escrutinados, será que não manifestariam de forma mais ostensiva algum desdém pela turba? Pessoa e Salazar, nesse fim dos anos 20 do século passado respiravam o ar de um tempo em que as vanguardas, tanto as comunistas como as fascistas, se substituíam ao povo nas escolhas, nas decisões e nos discursos. Por outro lado, a ideia de que Salazar fosse pura e simplesmente um tacanho é errada e não nos deixará perceber as razões da sua longevidade no poder.

 No texto “trata-se de governar estas bestas”, Fernando Pessoa escreve que “o primeiro dever do patriota é ver claro o que é a sua pátria”. Qual a actualidade do pensamento político de Pessoa? 

 O pensamento político de Fernando Pessoa é o da defesa de um feroz individualismo. Se ele estivesse vivo, hoje, por certo abominaria essa amalgama do identitarismo em que se quer dissolver cada ser humano. Seria talvez um anarquista de direita. Nalgum momento poderia, com o seu espírito libertário, votar na Iniciativa Liberal. Mas o grande valor dos textos deste livro está na sua riqueza histórica, na forma como Fernando Pessoa recusou o totalitarismo, reconhecendo-o imediatamente quer no fascismo, quer no comunismo. Poucos intelectuais europeus, mesmo os muito posteriores a ele, carregadinhos de informação, foram capazes de ter essa lucidez.

 No texto, escrito em 1933, “Não há opressão em Portugal”, Pessoa classifica a ditadura como liberal e menospreza, por exemplo, a censura na imprensa, mas em 1935, no ano em que morre, dois anos após Salazar ter assumido a liderança do governo, lamenta, por exemplo, “a venda a retalho da alma portuguesa” e escreve o poema ‘António Oliveira Salazar’ (“Bebe a verdade /E a liberdade, /E com tal agrado/ Que já começam / A escassear no mercado”). O poeta antecipa rapidamente o que está por vir?  

Fernando Pessoa, durante quatro anos, de 1928 a 1932, como milhões de portugueses, saudou o ministro das finanças que Salazar foi, como um ministro competente e com resultados que ele percebia como bons, como a imprensa internacional, em particular a inglesa, os saudou também. Mas foi sempre reticente quanto à passagem do “contabilista” a estadista. Diria que a percepção da tirania, que Salazar torna transparente com o partido único e com a montagem do aparelho autoritário, amargurou o último ano de vida de Pessoa – são de uma grande desolação os seus últimos textos – e precipitou a sua morte. Cereja em cima do bolo, se assim se pode dizer, a forma como Salazar concebe o papel da literatura, e de toda a criação artista, fazendo dela um instrumento servil do Poder e da sua moral, revoltou e tirou forças a Pessoa, que decidiu não mais escrever, por não querer escrever num quadro a que ele chamou “sovietismo de direita”.

 A “desilusão”, precipitou a morte do poeta, como diz, ou a doença associada ao consumo de álcool?

 Não sou um conhecedor profundo da biografia clínica de Pessoa, mas sabemos hoje como os traumas afectivos assombram e têm consequências somáticas. Que Pessoa rejeitou, pessoal e vivencialmente, o crescimento e densificação do autoritarismo de Salazar, nas roupas cada vez mais sinistras do Estado Novo, não tenho dúvidas. O artigo que ele escreveu a contestar o ataque e proibição da maçonaria é a sua última resposta vigorosa. Depois, segue-se a queda, ele já não vai à entrega do Prémio ao seu livro “Mensagem”. Adivinhava porventura o discurso que Salazar ali ia fazer e no qual, seguindo a “regra soviética”, como lhe chama Pessoa, Salazar praticamente determina o que um escritor “deve escrever”. Daí em diante, Pessoa fecha-se num casulo de amargura.

 O texto ‘Chamamos-lhe por vezes jesuíta’ fala precisamente do papel da literatura e antecipa de uma forma absolutamente lúcida questões como quem o poderá substituir e quem o poderá derrubar. O pensamento de Fernando Pessoa reflecte de alguma forma o de alguma elite da altura?

 Sim, Pessoa sonha, em 1935, com o derrube de Salazar e aponta até as forças que o podem fazer: “um movimento revolucionário das esquerdas”. Não sou historiador, mas creio que, nesse tempo, entre as elites, mesmo as elites económicas, que acusavam Salazar de “bolchevismo branco”, a ideia de derrubar Salazar seria, pelo menos na teoria, apetecível: ainda não estava distante a memória dos golpes e contragolpes que infestaram a história da República.

  Pessoa e Salazar não poderiam ser maiores antónimos…

 Sim, basta compararmos a obra de cada um. Do lado de Salazar, a construção de uma sociedade fechada, monopartidária, em que o seu ascetismo asperge todas os aspectos da vida, do lar à literatura devota, do trabalho às relações sociais. A criação de Salazar é devota. Do outro lado, Fernando Pessoa constrói uma obra plural, em que florescem personalidades tão distintas como Álvaro de Campos ou Alberto Caeiro, cruzando o lúdico com o dramático e por vezes épico ou trágico. A criação de Pessoa é lúdica, impregnada de prazer.   

O que é que mais o surpreendeu nestes textos políticos de Pessoa?

Eu sou um leitor de Pessoa que privilegia nele um lado lúdico. Magistral e dramática que seja, a construção da heteronímia releva também do gosto de Pessoa por brincar como o menino que em muitos aspectos nunca terá deixado de ser. A família diz isso mesmo, que ele divertia os sobrinhos a fingir-se bêbado, a fazer de pássaro pousado numa só pata. O que acho extraordinário na sequência destes textos sobre Salazar é ver apagar-se em Fernando Pessoa o menino e inundarem-se os textos de uma lucidez crítica que caminha do vigor dos anos 20 para o desânimo de 1935.

Ler Livros em Noites de Lua Cheia

Fernando Pessoa apontou uma falha ao professor Salazar: disse que ele não tinha cultura literária e que isso o transformava num «cadáver emotivo». É essa a transcendência dos livros: romances, poemas, contos transbordam de emoção e dão-nos inteligência afectiva, fazendo-nos crescer em sensibilidade e humanidade.

Eis o que a Feira do Livro de Lisboa pretende ser, uma festa emotiva, plena de dramas e epopeias, de comédia também, porque nada há de mais humano do que o riso. E a Guerra e Paz editores é parte dessa festa. Nos pavilhões A 50, 52 e 54 oferecemos aos nossos leitores cerca de 50 clássicos, do humor de Dom Casmurro, de Machado de Assis, à anti-epopeia que é a Moby Dick, de Herman Melville. Venha ler connosco Conrad, Eça, Camilo, Oscar Wilde, Flaubert ou Jane Austen.

Oferecemos-lhe também as nossas colecções às cores, os Livros Brancos, com a Carta do Achamento do Brasil, os Livros Negros, com O Solilóquio do Rei Leopoldo, de Mark Twain, os Livros Amarelos, colecção que junta autores, e os Livros Vermelhos, com uma novidade nesta Feira, o livro De Raça, de Rachel Khan, autora francesa, filha de um negro e de uma branca: vítima das armadilhas activistas, a autora pergunta de que raça é, jurando que «somos todos crioulos».

Que Salazar é o Salazar de Fernando Pessoa é outra das nossas novidades, o livro em que Pessoa acompanha, de 1926 a 1935, cada passo de Salazar, escrevendo sobre ele e sobre cada um dos seus actos políticos. São textos de uma inteligência política e psicológica admiráveis.


Os Números da Guerra de África, do tenente-coronel Pedro Marquês de Sousa, é um manancial de informação que vem preencher uma lacuna: pela primeira vez estão reunidos todos os números dos três ramos das Forças Armadas, nas três frentes, Guiné, Angola e Moçambique. Um livro de referência para o futuro.

O Atlas Histórico do Médio Oriente é outra novidade nesta Feira. O caos e crise a que assistimos no Afeganistão só veio reforçar a necessidade de visitarmos a História e reconhecermos as raízes profundas dos conflitos desse centro nevrálgico da tensão mundial. Indispensável.

Desaparecida, romance do estreante Ricardo Lemos, vencedor do Prémio Nacional de Literatura do Lions de Portugal, vai ser apresentado na Feira. Desparecida é também o nome de uma aldeia, ou talvez seja, mais do que uma aldeia, talvez seja um Portugal imaginário, que descobrimos pela força das narrativas, lendas e sonhos. Um primeiro grande romance.

Outra revelação romanesca é O Sonho de Amadeo, do romancista brasileiro estreante Leonardo Costa de Oliveira. Venceu o Prémio Literário da UCCLA-CM Lisboa, história de um homem que acorda sobressaltado depois de ter sonhado que foi assassinado com um tiro no peito. Mas quem, se é que alguém, o assassinou?

E o nosso livro do ano, nesta Feira, é Entre a Lua, o Caos, o Silêncio, a Flor, a mais completa antologia da poesia angolana já feita: livre, abrangente, da poesia oral das línguas angolanas aos poetas contemporâneos. Um monumento de 700 páginas oferecido às gerações futuras.


Da nossa colecção de poesia, a Roupão Azul, de Ana Paula Jardim, vencedor do Prémio de Poesia Glória de Sant’Ana, junta-se o Livro da Perfeita Alegria, terceiro livro de Eugénia de Vasconcellos na Guerra e Paz.

E por fim, viajamos à Lua. Vamos à lua com a cientista francesa Fatoumata Kebe, que esperamos ver em breve na tripulação de uma das viagens da Agência Espacial Europeia. Kebe escreveu A Lua é um Romance um livro apaixonado, em que a ciência nos dá a conhecer todos os segredos e faces escondidas da Lua, revisitando todos os mitos, narrativas e efabulações de séculos sobre a Lua. Um livro sedutor para ler em noites de Lua Cheia.


Guerra e Paz editores, Feira do Livro de Lisboa, 2021