Um comunista na Disneylândia

Queriam ver o comunistazinho. Veio Hollywood em peso. “Respeite os leitores, comece pelo principio”, exige Lúcia Crespo, minha editora, e eu travo a fundo. As primeiras coisas, primeiro.

O presidente da América, Eisenhower, convidou Nikita Khrushchev, presidente da gigantesca União Soviética, a visitar a pátria do capitalismo. O redondo Nikita não se limitou a aceitar. Queria viajar pelo país: viria por 15 dias. Siderado, Eisenhower aceitou.

E agora que a minha editora se distraiu, volto já a Hollywood. Era onde Khrushchev mais queria ir. A 20th Century Fox, o estúdio que tinha Marilyn sob contrato, convidou-o. Chegaria a L.A. e almoçaria no Café de Paris, a luxuosa cantina do estúdio. Sei do que falo: almocei lá mais vezes do que Nikita Khruschev, se não me levam a mal a bazófia.

A mim, não veio ninguém ver-me, mas para ver Nikita havia mais de mil candidatos às 400 cadeiras do Café de Paris. Spyros Skouras, o presidente, só autorizou actores e realizadores: não podiam trazer os cônjuges. Entra Nikita e a mulher. Hollywood, de pé, aplaude-os. Com mais cortesia do que veemência. A pequena Liz Taylor subiu para cima de uma cadeira para ver o “funny old guy”. Henry Fonda tem um ouvido atafulhado com um indiscreto auscultador: está o ouvir o relato do jogo de basebol entre os Dodgers e os Giants.

Frank Sinatra e Bob Hope fazem companhia à senhora Khrushchev, Nina. Ela, enternecida também com Gary Cooper, diz-lhes que gostava de visitar a Disneylândia. Dali a pouco são os discursos e um sobressaltado chefe de polícia diz ao embaixador americano que Disneylândia nem pensar! Não garante a segurança. No percurso para o Café de Paris alguém atirara um tomate à limusina do soviético. Sem acertar, embora, mas em campo aberto seria um perigo. Não há segurança, não há visita, lamenta o embaixador, o que os soviéticos ouvem e logo passam a Nikita.

Discursa o anfitrião. O grego Skouras faz o elogio da América. Chegou ali sem um chavo, suou, lutou e é hoje, graças ao sistema de mérito, presidente de uma grande companhia. Khrushchev interrompe-o: “Comecei a trabalhar mal aprendi a andar. Nas minas para capitalistas franceses e alemães, mas com a revolução sou hoje presidente da URSS!” A sala ri. Skouras não desarma: “Sim, mas como eu há milhares de presidentes na América. Quantos presidentes como o senhor tem a URSS?” Ainda a sala não parou de aplaudir, já Khrushchev responde: “Temos 15 países na URSS, cada um tem um presidente como eu. Quantos há na América?”

Vejam Marilyn Monroe deliciada. Foi a primeira vez que chegou a horas ao estúdio. Chegou, não viu ninguém, pensou que se atrasara como sempre e já se tinham ido todos embora. Ouve a conversa amena, cheia de risos e não adivinha que Khrushchev se vai zangar.

“Dizem-me agora que não podemos ir à Disneylândia, que não é seguro. Têm lá rockets nucleares? Há uma epidemia de cólera? Os gangsteres tomaram conta daquilo? Então e os vossos polícias, capazes de levantar um touro pelos cornos, não podem ir lá expulsá-los?”

O desânimo invade a sala. Nina diz a David Niven que é uma frustração: “Como explicaremos isso ao nosso povo?”. Sinatra vira-se para Niven: “David, foda-se a polícia! Diga à velha que nós dois os vamos lá levar esta tarde!”  

Khrushchev acalmou-se. “Ah, fiquei de cabeça quente. A culpa é deste amigo grego, que me picou!” E já os dois, carecas, baixinhos, gordos, dão valentes palmadas nas costas. Khrushchev, um metro e sessenta, 100 quilos, um império na mão, e se com alguma coisa sonhava era ver a Disneylândia.

Fios de prata

Gosto destas tardes. Um calor denso, horas presas por quentíssimos fios de prata. A única fuga é direitinha ao céu. Deitado na areia, andam pela minha cabeça restos de infância, a inocente motorizada NSU do meu pai a atravessar o musseque Sambizanga, eu à frente, quase ao colo dele, a minha irmã atrás, a caminho da escola da Missão de São Paulo. Eu, devagarinho e menino, a deixar de ser português, devagarinho e menino a balbuciar Luanda, Angola. Dor e prazer que sempre trago e com que morrerei, a de querer ser, ao mesmo tempo, essas impossíveis duas coisas.

Ah, este é um bilhete postal para a Alice, que hoje faria 96 anos. E faz, nesta minha cabeça de palmeiras e Sambizanga.

Com James Caan na mansão da Playboy

Fui à Mansão e não estava lá James Caan. A Mansão é a de Hugh Heffner e tinha tudo o que fez a tépida e insuportável felicidade de James Caan, o actor que agora morreu e lá viveu. Entrei. Uma orquestra de jazz tocava ao ar livre do alto dessa colina de Mulholland Drive. E o que vi tanto me enterneceria a mim como ao mais pálido e animalista sequaz do PAN: havia um vendaval de playmates – camonianas ninfas, claro –, mas também havia esquilos, macacos, tucanos, papagaios, pavões brancos e flamingos cor-de-rosa, ainda mais bonitos do que os meus flamingos do Lobito. Havia outras feras e centenas de coelhos, lots of rabbits.

As playmates levaram-nos depois para o celestial aconchego de uma sauna escavada na rocha. Olhei e nem James Caan, nem Jack Nicholson se escondiam nas caves pré-históricas, que a perversa mente de Heffner, pai da Playboy, construiu.

Se ainda me lembro, conheci James Caan no Regimento de Infantaria de Luanda. Não é que ele lá tenha feito a tropa. Mas havia no meio desse imenso quartel uma daquelas esplanadas-cinema tropicais – tal como havia outra na 7.ª esquadra. Numa das minhas noites adolescentes exibiu-se “Rain People”, o filme de Coppola a que a distribuição portuguesa deu um título lamechas: “Chove no Meu Coração”. Mas chovia, sim senhor. Chovia no filme, chovia na cabeça de Shirley Knight, a protagonista, e choveu em mim mal vi James Caan. Caan andava à boleia e era de uma intranscendente ingenuidade. Tinha nele toda a candura da América. Descobriríamos, depois, que o Caan desse filme jogara futebol americano na universidade e um traumatismo craniano lhe provocara um atraso mental irreversível.

Mais tarde, pela mão de Coppola, conheci outro Caan. Era já Sonny, um dos filhos de Don Corleone, no primeiro “Padrinho”. Peito peludo, embora sem atingir o estilo símio que me caracteriza, tão macho como a rapaziada da minha Vila Alice, incapaz de dirigir o pululante desejo, perplexo perante as nuances e contradições do mundo, o que lhe desencadeia fúrias honestas e unilaterais.

O que quero dizer é que James Caan, o actor que agora morreu, nunca se livrou destas duas personagens, a de “Rain People” e a de “O Padrinho”. A inocência e a fúria com palas moravam nele como cidades geminadas. Casou não sei que infinidade de vezes. Num dos divórcios ficou a morar no olho da rua, para que a vida confirmasse o que a arte de Coppola inventara em “Rain People”. O prosaico Heffner salvou-o. Pô-lo a morar na mansão da Playboy, como se pusesse um menino guloso na dispensa cheia de marmelada.

Todos o conheciam: os esquilos subiam por ele acima, e há uma foto dele com um esquilo ao ombro e a angélica playmate Dorothy Stratten risonha e espantada, ainda sem adivinhar que um ciumento namorado a assassinaria. Conheciam-no os valets que arrumavam carros e ai de quem lhe tocasse no Jaguar Roadster. Nem mais: está ele a sair da mansão e de outro carro saem Jack Nicholson e uma eléctrica e resplandecente mulher. Embrulham-se um no outro, com incontrolável vontade, tombando sobre o capot do Jaguar de Caan. Estarrecido, o valet diz-lhe: “Mr. Caan, tiro já o seu carro!” Caan, um sereno Caan de “Rain People”, diz-lhe: “Meu filho, não tentes tirar a carne da boca do leão que come. Quando acabarem, estou na cozinha.”

Um dia, o infinito e a transcendência a baterem-lhe na cabeça, Caan abandonou a Mansão. Deu uma explicação cabal. Atormentavam-no, no meio daquele oceano de delícias, impulsos suicidas: “O melhor é eu matar-me, melhor do que isto já nunca mais vou ter!”

Onde estão aqueles dois KGB?

Teve de dar um salto

Ouçam, ouçam. E como é a voz de Jackie Kennedy, peço que se sentem primeiro. Jackie e John vieram em visita de Estado a França. Jantam com De Gaulle e com André Malraux, o ministro da cultura, nesse sumptuoso clarão que é o Chateau de Versailles. E eis o que Malraux acaba de perguntar à sedutora Kennedy: “O que fazia antes de conhecer o John?’”

Passa um fulgurante segundo, a boca colorida de Jackie abre-se: “Era virgem!” disse ela, com riso e ponto de exclamação.

Nesse fulgurante segundo de virtude, talvez Malraux tenha esquecido a fresca tragédia: poucos dias antes, ao volante de um Alfa-Romeo descapotável, tinham morrido os seus dois filhos, estraçalhando-se contra uma árvore, nas mil curvas da Côte d’Azur. O carro oferecera-o Clara Saint, menina de 23 anos, milionária de origem chilena, noiva de um dos rapazes.

Paris era, nesse fim de Primavera, começo de Verão de 1961, uma cidade invencível. Animava-a um inconcebível amor, uma doçura libertina, um talento que não escolhia pátria. Clara dissera aos irmãos Malraux: “Não vão agora, vão perder os russos do ballet Kirov.” “Viremos a tempo dos Kennedy”, protestaram eles, sem adivinhar que mentiam.

Não sabiam, nem Clara, que os Ballet Kirov trariam uma raridade de que o Ocidente ainda não soletrara o nome: Rudolf Khametovich Nureyev. Era um menino e nem era o bailarino principal, mas em Paris uma alegria vermelha e branca, hipnótica, tomou-lhe conta das coxas, do torso, dos movimentos invacilantes. Clara estava lá nessa noite. Foi com Pierre Cotte, um bailarino francês, aos bastidores. Arrebatada, talvez apaixonada, levou Nureyev para a noite de Paris. O russo escapou-se aos KGB, que vigiavam a companhia, e reconheceu essa galáxia de que lhe falara o seu jovem amante, o bailarino alemão do leste Teja Kremke. Viu as luzes vagabundas, a música sem dono dos indomesticados sons, a contente e desangustiada madrugada. Soube, então, que devia seguir o conselho do amante: ficar no Ocidente.

Nureyev saiu todas as noites e todos os dias, deixando de cara amarrada os bufos do KGB: fez coisas simples, como chorar a ver no cinema o “West Side Story”, rezou na Madeleine, sem se lembrar que era ateu. De Moscovo, vieram ordens para o despacharem: já! Mas o êxito estratosférico de cada noite em Paris recomendou prudência. O Ballet Kirov ia para Londres. No aeroporto de Bourget fariam a diversão, metendo Nureyev no Tupolev para a União Soviética, esse ligeiramente fanado Sol da Terra.

E vejam: os KGB acabam de explicar a Nureyev que Krutschev o quer numa gala especial: Londres, niet! Nureyev esboça um protesto. Reforçam: a mãe de Nureyev está mal e ele tem de a ir ver. Veio ao aeroporto, despedir-se dele, o bailarino francês amigo. Nureyev murmura-lhe um “salva-me”, e acrescenta um “vão mandar-me para a Sibéria”. Cotte telefona a Clara. A libérrima Clara vem de escantilhão. Terá falado com Malraux, que lhe explica como se faz. Os polícias franceses dispõem-se no bar. Nureyev terá de lhes pedir asilo: não podem ser eles a arrancar Nureyev à vigilância dos chuis soviéticos. Clara, a pretexto do último beijo, sussurra o esquema a Nureyev e sai de cena.

O bailarino faz, então, o pas de deux da sua vida, deixa surpreendidos os KGB, e grita, em inglês “I want to stay in France. I want to stay in France”. Franceses e KGB empurram-se, já Nureyev está isolado numa sala. Tem a solidão de um conhaque à frente e 45 minutos para pensar. Escolhe o que se sabe. E penso: aqueles dois KGB talvez nunca mais tenham voltado a uma sala de ballet.

A escandinava Greta (esta é Garbo) e a paixão por Gilbert, em três capítulos que se lêem como um fósforo

Esta é, em três fragmentos a que só por inadvertida audácia se pode chamar capítulos, a história de rejeição e paixão de John Gilbert e Greta Garbo, ídolos da América e do mundo, no final dos anos 20 e começo dos anos 30. Para os mais jovens, acrescento mais informação: eram actores de cinema. E complemento: cinema era uma arte de sombras, indulgências, tesouros e cabalas, cultivada pela calada da noite em insidiosos palácios nocturnos, invisíveis durante o dia.

Heróico, viril e vil

Todo o passado é sincrético. Como sabem, John Gilbert é um actor do tempo de Homero ou Ben-Hur ou não fosse o cinema uma invenção mediterrânica. Um dos criadores desse cinema da antiguidade clássica foi Louis B. Mayer. Judeu, claro. Como Aquiles, era heróico, viril e vil. De poderoso soco. Basta vê-lo, à porta do Alexandria Hotel, aos murros a Charlie Chaplin. Foi em Los Angeles: na minha antiguidade clássica já havia América e hotéis de cinco estrelas.

Mas é de outro soco que falo. A viking Greta Garbo chegara a Hollywood. Vinha filmar “Temptress”, auto-estrada de adultérios em cadeia. Isto passou-se em 1925 e 1926, anos de lânguido aquecimento e dilatação dos corpos em Hollywood, como o provam os filmes que Mayer então produziu.

Queriam convidar John Gilbert para acasalar com a escandinava Garbo. Gilbert ainda não a vira, nem a queria ver. Tinha na cabeça outro filme e foi contar a história a Mayer, seu boss. Ouçam-no: numa idílica Inglaterra, um rapazinho decente vive com a mãe viúva, honrando-a com amor incondicional até se apaixonar por uma prostituta que o alivia da virgindade. Uma espiral de perdição arrasta o bom moço: assaltado por esses ciúmes mouros, que Shakespeare inventou, mata o amante da amante e é condenado às galés.

“Mas que disparate de filme, um rapazinho honesto com uma prostituta”, enervou-se Mayer. Gilbert agarrou-se às artes, à “Dama das Camélias”, de Dumas, à “Anna Christie”, de Eugene O’Neill: “É a mesma coisa”, disse o actor.

Mayer chamou bastard a Gilbert e juntou-lhe este mimo: “Só um depravado é que mete uma puta na história da mãe amada e do seu filhinho.” Gilbert não se conteve: “O que é que tem? A minha mãe era puta!” Já o fulminante punho de Mayer se lhe cravava no queixo, fazendo-o morder a alcatifa. “Devia cortar-te os tomates por dizeres isso.” O invencido Gilbert levantou-se. Sem punhos, mas com voz: “Mesmo sem tomates, sou melhor do que tu.” Seguraram Mayer que o queria matar. “Maçã podre… não tem amor à mãe.”

O irrestrito amor de Mayer à mãe é uma chave para a história do cinema americano. Nesses anos de Lei Seca, Mayer tinha no estúdio um tipo encarregado de arranjar bom álcool, tinha um bordel para as visitas, dois homens para apagar as malfeitorias das suas estrelas, um gabinete médico para os abortos das actrizes. Rendido às debilidades do mundo, redimia-o o homérico amor à mãe.

A indecifrável Garbo

Ilha dos Amores em Hollywood

Era tudo proibido e havia portanto toda a liberdade. Tenho estes dois olhos que a terra há-de comer apontados a Hollywood e, em Hollywood, a essa pequena porção de paraíso que era a MGM.

Lembro a tradição que começou no Natal de 1931, já Louis B. Mayer esmurrara John GiIlbert e já Gilbert conhecera a indecifrável Greta Garbo. É Natal, estamos nos estúdios da MGM e o católico Eddie Mannix deixou partir o patrão, Louis B. Mayer, ecumeníssimo judeu. Manix dá agora as suas ordens: cada um beberá o que quiser e cada um fará sexo onde quiser com quem, consentindo, queira. É de católico! E olhem, num impulso camoniano, eriçados actores, lânguidas actrizes, electricistas faíscantes, carpinteiros de poderoso martelo, as hábeis jovens de dedal e guarda-roupa transformaram o estúdio numa cantante ilha dos amores.

Não emprestarei a débil escrita aos suspiros e ais desse reaccionário convívio anti-luta de classes que foi, por alguns anos, a secreta e nua tradição natalícia da MGM. Se escrevo é para cantar a dignidade do amor do século, esse segundo em que os falecidos imortais Greta Garbo e John Gilbert se apaixonaram. Eram as estrelas de “The Flesh and the Devil” e esbarraram um no outro nos ensaios. “Hello Greta”, disse Gilbert, com uma bonomia que, frigidérrima, a sueca logo congelou: “My name is Miss Garbo”.

Pois está claro: mal começaram a trabalhar, duas noites depois, era tiro, queda e cama. E lembro, por ser verdade: a MGM do pudico Louis B. Mayer escondia, por tradição, os leitos transgressores das suas estrelas. Mayer sentiu que este era, agora, um mundo às avessas e escancarou a informação. Com quase anúncio público, Garbo e Gilbert passaram a viver juntos e os mirones tentavam trepar os muros da mansão para ver uma ponta de lençol, uma lasca de perna ao sol na piscina, a cama de mogno africano, misteriosa madeira que confere ao amor outra funda escuridão.

Quem revir hoje “The Flesh and the Devil” vê dois corpos apalpantes com sede um do outro, beijos de boca aberta que o cinema então não dava. A desabrida paixão de Gilbert quis casar. Garbo aceitou e marcou-se a pagã festividade. A elite da MGM a postos, só faltava chegar Garbo. Ainda hoje lá estariam à espera, não tivesse Mayer desistido. Gilbert, o abandonado Gilbert, chorava na casa de banho. O patrão foi brutal: “Não te basta comê-la? Para quê casar?” Um rebate lírico-passional levou as mãos do actor ao pescoço do patrão. Matava-o ali se o católico Mannix não o viesse salvar. Gilbert voltaria, depois, pouco depois, à cama de Garbo, antes de Garbo partir para outras camas. A Gilbert, às mãos de Gilbert que quase o estrangularam, Mayer serviria fria a vingança.

Mamoulian é o caixa de óculos à frente da Garbo

Tirar a roupa

Se a história do cinema ensina alguma coisa é que vem aí, agora, depois destes anos 20 do século XXI, uma década de libidinoso aquecimento. No século do código Hays, passagem dos anos 20 para os 30, tudo era proibido. Mesmo o beijo na boca era só uma lástima de beijo na boca.

Ora, as proibições, tal como os revolucionários, não dormem. Voltaram agora. Palpita-me, por isso, que vamos viver – já estamos a viver! – uma década de libidinosa vigília proibitiva. Antecipo as consequências: toda a proibição dilata os corpos e foi essa imparável expansão humana que, subversiva, inundou Hollywood naqueles anos pudibundos.

Poderá pensar-se que eram só os homens abusadores, pés fincados no danado poder patriarcal. E já vemos o produtor Irving Thalberg, nove da manhã, a tocar à porta da campainha da casa de um argumentista que abre espantado: era a primeira visita e a amante que Thalberg procurava morava na casa ao lado.

Mas o estado de ebulição tanto foi masculino, como feminino. Com excepção de Santa Lilian Gish, também as mulheres eram cometas, cauda em fogo, no céu de Hollywood. Até Jeanette McDonald, mais virgem na hora da morte do que quando nasceu, terá amado com clandestino e nuíssimo ardor o seu agente, recusando os avanços do patrão Mayer.

Greta Garbo fez do mundo um saco de gatos. Amou, dormiu e estraçalhou John Gilbert, o Brad Pitt daquele tempo, deixando-o pendurado no dia do casamento. Depois, fugiu seis vezes de “Susan Lenox”, filme com Clark Gable, por se ter apaixonado à primeira vista por Mercedes Acosta: iam juntas nadar nuas e, juntas, iam subir montanhas (talvez vestidas), “glorioso deus e deusa – cita a talentosa Acosta – fundidos numa só. Seis semanas pareceram seis minutos”.

Mas Garbo, em fogo nos braços de Mercedes, conheceu o realizador Rouben Mamoulian. Foi no assombroso “Queen Christina”, em que Garbo usava calças. E o que eu quero ou tenho de dizer é que entraram dois pares de calças em pecaminosa combustão. Mamoulian era um desengraçado caixa de óculos (tive uns óculos iguais), mas a Garbo apaixonou-se pela tão tacteante miopia dele. Apeou a amada Acosta e fugiu seis semanas com o realizador míope. Chegaram, crê-se, a casar, mesmo se a cerimónia foi duvidosa e se os papéis não têm valor.

Elucidativo do escaldante clima moral foi o horror de Louis B. Mayer a entrar num gabinete e ver o argumentista Ben Hecht a ditar diálogos de um guião a uma assistente em estado natural, se exceptuarmos o verniz nas unhas das mãos e dos pés. Toda a proibição sufoca. Em tempos de proibição e cancelamento, que podem os corpos fazer se não tirar a roupa? Esperem mais três, cinco anos e havemos de nos voltar a amar como Garbo amou perdidamente o olímpico Gilbert, a fogosa Mercedes e o míope Mamoulian. Talvez todos ao mesmo tempo.

No Plaza, em Nova Iorque

Éramos dois, o Emídio Rangel e eu. Entrámos no Hotel Plaza e julgo que ainda sentimos o sopro do fantasma de John Kennedy a sair. Talvez às nossas narinas tenha mesmo aflorado uma fragrância de Judith Campbell. E não fosse o perfume dessa mulher, olhos violeta como os de Liz Taylor, eu não contaria esta história.

Já não sei que quartos nos deram no Plaza, ao Emídio e a mim. E se, inadvertidamente, algum de nós ficou no 1651? Quase 40 anos antes, foi nesse quarto que Kennedy pela primeira vez beijou e foi beijado por Judith. Apresentara-os Frank Sinatra, em Las Vegas, um mês antes.

Também nós regressávamos de Las Vegas, com paragem em Nova Iorque. Eram umas rigorosas cinco da tarde de sexta-feira e desaguámos na 5th Avenue. Surpresa: uma grossa multidão enchia a boca do metro, trânsito cortado, as sirenes de 50 carros de polícia estridulando o ar. Corremos como meninos para essa New York de filme. A irradiante simpatia de uma afro-americana de 150 quilos, toda honey, honey, explicou-nos: a polícia perseguia três bandidos que tinham feito reféns os passageiros do metro. Polícias, coletes anti-bala, metralhadoras, cães, desciam para o subterrâneo. Eu achava que já tinha visto tudo. O Emídio achou que ainda não tínhamos visto nada: “Vamos lá abaixo!” Não podíamos, ia responder. Dei por mim, já tínhamos aldrabado a segurança e estávamos na plataforma, carruagens paradas, polícias em posição de fogo atrás de cada coluna. Levado de arrasto pelo Emídio.

A montanha pariu o habitual rato. Eram três carteiristas topados em flagrante. Na perseguição, um polícia disparou sobre o próprio pé e o “officer down” fez vir a cavalaria. Além do polícia, uma bela mulher madura espetou o seu salto agulha no calcanhar e foi a primeira vez que vi um título de primeira página do NY Times, ao vivo, antes de ser publicado.

John Kennedy não disparou sobre o próprio pé. Disparou sobre o amor de Judith. Ela amou-o como ele não amou ninguém. Sabendo da amizade platónica dela com o mafioso Sam Giancana, John pediu-lhe que lhe arranjasse encontros clandestinos com esse Sam que se derretia com ela. E o mafioso Sam lançou o tapete eleitoral que deu a John a vitória nas primárias democráticas e depois na grande eleição americana. Foi um Kennedy aos tiros nos pés da democracia.

Os nossos pés levaram-nos ao Blue Note e trouxeram-nos às três da matina para o remanso do Plaza. Tive então uma taquicardia de alto lá com ela. Chamei o 911. Tudo tratado, liguei ao Emídio para o avisar. O que fui fazer! Aparece-me num flash e “vou contigo”. Não houve não que o travasse. No hospital, barraram-no. Estou eu nas amenas mãos de uma médica brasileira e entra o boss de um gangue negro, facada no ventre, dois polícias a segurá-lo, uma chuva de fucks e motherfucker a alegrar as urgências. A médica diz-me: está o gangue lá fora, uns 20. Acho que me passou a taquicardia. Já imaginava o Emídio a ser alvo do bullying de um gangue sem chefe, na madrugada de Nova Iorque. Salve o meu amigo, pedi à médica. Ela salvou-o. E o Emídio chegou-me, intocado e a contar: o boss fora esfaqueado pela namorada que descobriu andar ele a enganá-la com outra do gangue. No gangue, uns apoiavam a namorada, outros a nova amante. Entretidos com Shakespeare, nem olharam para ele.

Depois do mafioso ajudar a eleger Kennedy e o escaldante romance de Judith ter sido revelado por um comité do congresso, também os conselheiros do falecido presidente negaram ter algum dia visto Judith Campbell. “De Campbell só conheço as sopas”, disse um.

Os meus livros de Julho ou da prática ilegal da cirurgia

Talvez este seja um textinho tendencialmente vaidoso. Mas estas quatro capas dos nossos clássicos (belo trabalho, Ilídio Vasco) deixam-me a roçar ombros com uma ligeira exaltação.

Os dez livros de Julho

Um editor que publique o Bartleby, de Herman Melville, um editor que publique As Caves do Vaticano, de André Gide, está na fronteira do crime e pode ser acusado de prática ilegal da cirurgia. Melville e Gide são dois afiados bisturis capazes de gerar incisões profundas na imaginação e na memória dos leitores.

A minha pequena e frágil Guerra e Paz – é uma adolescente insegura, bem sei –, ao Bartleby, o Escrivão: Uma História de Wall Street, essa narrativa que Borges acusou amorosamente de «cândido niilismo», e à aventura gideana de um papa raptado nas Caves do Vaticano (o que fariam as mãos de Gide, hoje, com o Papa Francisco?), acrescenta a monumental cabeça emotiva de Jane Austen, que oferece aos leitores, em Persuasão, o seu derradeiro romance, a ilusão da segunda oportunidade. Poderia juntar ao título, Persuasão, o qualificativo «obra-prima», mas quem, nestes dias agrestes, tem ainda paciência para redundâncias? Austen, a senhora Austen, é sim o triunfo do instinto.

Já volto a esse indisciplinado exercício a que chamamos literatura. Deixem-me, antes, dar um passo de dança. Com Olga Roriz. E minto: quem dançou com ela foi José Jorge Letria. Na colecção «o fio da memória», feliz parceria que temos com a Sociedade Portuguesa de Autores, Letria conversa com Roriz sobre a sua vida e a sua arte, no 22.º livro de uma colecção em que o leitor pode também falar com Eduardo Lourenço, Cruzeiro Seixas, Lídia Jorge ou Mário Cláudio. Olga Roriz: A Vida num Corpo Inquieto é, agora, o nosso último devaneio, a nossa mais recente inquietação.

Já dançaram? Chamem agora as crianças. É raro, mas retomando uma série que publicámos há uns bons cinco anos, temos um livro de indisfarçado, puro e bárbaro riso e entretenimento. Chama-se O Teu Livro de SuperPiadas. Chamem as crianças.

Das parvas (por pequeninas, por pequeninas…) anedotas infantis, volto ao assombroso e atribulado exercício da literatura. De Angola, Jacques Arlindo dos Santos mandou-me República de Santa Bárbara (Relato Particular sobre a Cidade Capital). É uma digressão atemporal sobre a memória e a angústia angolanas e sobre o orgulho atraiçoado da independência, «caleidoscópio de vidas apanhadas pela história» leio eu e copio da contracapa. Já de Cuba, reforçando a diversidade da colecção «romances de guerra e paz», Emerio Medina escreveu Os Fantasmas de Ferro: que escrita tão elegante, tão plástica! Que história, a de três amigos de infância, tão sensual e taciturna, reveladora de uma traição e de uma vingança gémeas na desonra. Eis a cirurgia de Emerio Medina: insere no nosso imaginário a beleza da desolação, a insustentável excitação da tristeza.

Se o leitor é de esquerda, se se embriagou com o Maio de 68, se sempre, e bem, foi anti-racista, mas sente que o mundo lhe está a escapar e, face a certos delírios contemporâneos, um «não estou a perceber» lhe sai amargo e murmurado dos lábios, O Vidente de Étampes, de Abel Quentin, é o romance que chama, urgente, sonoro, por si. Não o vai ler sozinho: há leitores franceses, italianos, espanhóis e etc. a lê-lo ao mesmo tempo. O narrador, que podia ser cada um de nós, escreveu um ensaio sobre um belo poeta negro, em França, que morre como Camus, estampando-se contra uma árvore. Publica e, quando dá conta, a barbárie das redes sociais espeta-lhe mil facas no corpo e na alma.

Vai longa a viagem. Mas ainda vos levo ao México. Nos «Clássicos Guerra e Paz», e do mais clássico dos modernistas espanhóis, Ramon Valle-Inclán, publico a Sonata de Estio., romance em que o narrador, ou talvez o autor, se quer esquecer de uns amores desgraçados, e leio: «Aquela mulher tem na história da minha vida uma recordação galante, cruel e gloriosa…» Sim, é o incêndio de uma jovem crioula que arde nesse Verão mexicano.

De cinzas se faz De Profundis, de Oscar Wilde, o último dos «Clássicos da Guerra e Paz». Paixão fria, agónica, servida na longa e belíssima carta que, da prisão, onde passou dois anos a trabalhos forçados, Wilde escreve ao amante, para lhe dizer como, vaidade extinta e sufocada, se passou a identificar com Jesus Cristo, e no Cristo descobre, romântico e individualista, o artista. Das cinzas frias, emerge um módico de gentileza e serenidade, condição da desejada alegria.

São estes os meus livros de Julho, matéria de sonho para ferir a memória e retalhar o imaginário. Confirma-se: a actividade editorial é uma actividade perigosa, prática ilegal da cirurgia.

Manuel S. Fonseca, editor

Um avião para Luanda

Essa era então a Lua a que eu ia voltar

Não tínhamos papéis e fomos à aventura. Atravessámos Espanha, ainda Franco fuzilava anarquistas. Eu ia com o meu amigo Tony. Carregávamos ambos a nossa africaníssima pós-adolescência dos vinte anos. Em Hendaye, como duas personagens dos “Passos em Volta”, de Herberto, fomos por uma cerveja nocturna na barra do mais solitário e frio bar daquelas ruas bascas e francesas. Depois, voltámos à estação e dormimos no chão, ao lado dos imigrantes magrebinos.

Esperávamos o comboio que nos levaria a Grenoble. Íamos, nómadas, entalar-nos entre o alcantilado frio dos Alpes e o desejo de saber, que um curso de sociologia nos poderia dar. Acolheram-nos dois angolanos, o Juju e o Chinho. Juntos, éramos, apesar do nosso revolucionário independentismo, o raio do velho e colonialíssimo selo de povoamento, preto, mulato e dois pulas, bizarro grupo naquele mar negro francófono que era, então, a universidade de Grenoble, a Patrice Lumumba de França, como o nosso irreversível anti-sovietismo ironizava.

Não tínhamos papéis, o Toni e eu, e ficámos a morar, clandestinos, nos quartos que os nossos amigos tinham na residência universitária. Gelávamos as garrafas de cerveja, pendurando-as numa toalha do lado de fora da janela. Fatiávamos fraternalmente a festa de um frango, lamentando que em Grenoble não soubessem fazer churrasco, e tivessem a mais transcendente ignorância do que fosse o jindungo.

Veio de passagem o Abílio, cunhado do Juju: trazia sonoras notícias de Luanda. Dos combates na cidade, da embriaguez da mudança. Eu tinha então uma sensibilidade muito estremecida. E pensei: o que fazem os meus 21 anos aqui, nesta Grenoble absurda, em que se gelam cervejas, em 15 minutos, numa toalha do lado de fora da janela?

Vim à boleia com o Abílio até Zurique. Comprei o bilhete para Lisboa. Gastei os últimos francos num cachorro-quente com mostarda de Dijon. E eis o dilema que eu estava com ele, dinheiro para comprar o bilhete para Luanda: onde é que vais sacar o kumbu, meu?

Havia em curso uma ponte aérea. Centenas de aviões: vinham cheios e voltavam vazios. Fui à Força Aérea em Monsanto. Declarei-me indigente e pedi aos militares que me levassem à boleia para Luanda, num desses desolados vôos. No rosto deles desenhou-se o primeiro frémito de perplexidade que vi na vida. Da perplexidade ao paródico nonsense vai um passo irreflectido. Só se eu assinasse uma declaração, assumindo que ia como “povoador” para Angola. Nessa noite, estava num Boeing, único passageiro, a sobrevoar África, o futuro aeroporto 4 de Fevereiro como destino.  

Não sei se pensei ou não excitadamente em Deus, mas eram quase seis da manhã quando aterrei na parte militar do aeroporto. Desci para a pista, ao ombro, a guerreira mochila, que guardara da tropa inacabada; na mão, a minha enternecida Hermes Baby, a mais suave e doce máquina de escrever que conheci. Saí por um portão manhoso, nem alfândega, nem passaportes, e fui, povoador e apeado, por esse caloroso bafo matinal de Luanda, até à casa dos amigos que ainda sabia lá estarem e ocupavam a casa do muadiê Abílio, perto do aeroporto. Bati. Abriram. Um surpreendido odor da muita liamba da noite perguntou-me: “Pôôô, meu, komé ke tás aki?”

  Escrevo esta crónica para a Alice e o Artur, meus pais. Foi um choque, saberem-me de novo no olho do furacão angolano. Mas agora, na calma eternidade a que se recolheram, gostava que sorrissem com esta modesta história, prova irrefutável de como a encantadora imaginação da vida quis cumular com um módico de transumante aventura este vosso filho.  

Publicado no Jornal de Negócios

E o eu que eu era, está à esquerda da linda menina de chapéu, óculos escuros, caracóis e de mãos postas, como quem reza