Uma aventura com os Beatles

Não sei se comece pelo Paul, se pelo John. Se calhar começo por The Beatles. Todos. Os píncaros da fama de 1963 já iam no zénite. O papa Paulo VI sucedera a esse poço de bondade que foi o conciliar João XXIII e as miúdas inglesas, longe do meu saudoso catolicismo desse tempo, pensavam que se tinha havido um papa John e outro Paul, seria natural e legítimo que o próximo se chamasse Ringo.

Circunlóquios à parte, estão os quatro Beatles, em 1963, dentro de uma carrinha, na escura noite do Inverno britânico. Tinham saído de um concerto – andavam nisso há seis meses – e iam sossegar a adrenalina num hotelzeco de estrada em Doncaster. De repente, a carrinha começa a guinar para a direita. Lennon endireitou os óculos e berrou ao motorista: “Ó meu, qual é a tua. Isto aqui não é o Continente. Em Inglaterra guia-se pela esquerda!”

A carrinha volta ao trilho, mas cem metros à frente, nova guinada. E daí em diante, entra em vinte minutos de um ziguezague do Marão. Ringo, mostrando o seu fundo popular e cristão, começa a cantar o Pai Nosso. Paul, que ia ao lado do motorista escreve no vidro húmido quatro letras: HELP. Até que a carrinha sai mesmo pela direita, estanca e nem mais um pio. O motorista, num acesso ecológico anti-fóssil e avant la lettre, tinha-se esquecido de meter gasolina.

Lembrem-se, não havia telemóveis. O assistente daqueles descomandados golden boys, não hesitou, meteu-se no meio da estrada, saltou, agitou as mãos e parou um camião. Os Beatles sentaram-se como puderam, e ala que se faz tarde, encostadinhos a um camionista que passou, desde aí, a acreditar em extraterrestres.

Aos pobres, minha Nossa Senhora, acontece sempre pior! A mim. Fui a New Orleans, a um mercado de televisão. Ia com o Zé Navarro, trabalhávamos juntos nos tempos dinossáuricos e mágicos da SIC. O vôo atrasou-se, perdemos ligações e ficámos sem malas. Chegámos, era meia-noite, com o estado de espírito de Sócrates na noite em que Teixeira dos Santos aceitou o resgate da troika. Saquinho de cabine na mão entrámos num táxi que nos devia levar ao, julgo eu, Royal Sonesta Hotel, mesmo à entrada do French Quarter. Apanhámos um motorista num estado de excitação de um urso na floresta a quem está a escapar a presa.

Já na auto-estrada, acende os máximos e cola-se à traseira do táxi da frente, que levava, não os Beatles, mas uns seis loiríssimos manos de uma televisão sueca. À Ringo, rezei uma catolicíssima ave-maria. O Zé, numa ousadia lennoniana, diz-lhe: “C’mon, man. Keep cool!” Mas, surdo, cego e mudo, o taxista urso não largava a presa.

Em plena auto-estrada o táxi dos suecos parou – o nosso também. E estavam ali, no meio da auto-estrada americana, à uma da matina, os dois taxistas aos gritos de fuck e motherfuck, a trocar perdigotos gordos por essas bocas que se escancaravam a dois centímetros uma da outra. Tornava-se anacrónica a velha expressão, “Ó Ilda mete os putos na barraca, que vai haver porrada no beco”: o facto é que, dois taxistas, seis suecos, dois tugas, espalhados pelo fracote alcatrão, na noite americana, e não chegou a haver porrada na auto-estrada. Tinha havido entre eles, adivinhámos, um qui pro quo na fila de espera do aeroporto e a perseguição ainda continuou até que o táxi sueco escolheu uma via alternativa. Foi o mais estupidamente perto que me lembro de ter estado de levar com um daqueles lustrosos camiões americanos e ter ido para as pastagens celestes sem ter primeiro provado os crispy camarões fritos de uma poboy sandwich, esse prodígio da cozinha cajun.

Nudez, espécie em vias de extinção

A mulher nua é um escândalo do passado. Ou talvez não. Há dias, em Paris, num restaurante, o dono barrou a entrada a duas lábeis e decotadíssimas mulheres: a fenda da Tundavala que se lhes cavava no peito era uma anacronismo de fazer estremecer o século XXI. Há, estremeço também eu, um insidioso prurido a germinar na pele do século XXI. Ou virá o século XXI a ser o século do homem nu?

E já me belisco a mim mesmo: o maior decote que vi, não foi no peito, foi nas costas. Era o decote de Sharon Stone. Ela estava à minha frente, oferecendo o esplendor das costas nuas, o rendilhado desenho de uma perfeita coluna vertebral, das primeiras vértebras cervicais até essas nove vértebras fundidas e finais, cinco do sacro, quatro do cóccix, essa lança sacrococcígea a que se segue o que de mais sumptuário há na anatomia humana.

Eu vi: era o decote do século XX e foi nos estúdios da Warner, em Los Angeles, nuns longínquos MTV Awards, a Madona a dois passos. Houve convívio a seguir, mas a Stone levou-a o vento ou os deuses, e eu consolei-me a comer um hamburger com Danny Glover e a lamber um gelado com Valeria Golino. Lição moral: aquela foi a visão! Mais do que a roubada e fugaz visão do infame descruzar de pernas de “Basic Instinct”, a assumida resplandecência das costas de Sharon Stone, a insinuação do rotundo estuário onde desaguam, é a visão redentora. O que Sharon mostrou nessa noite, mostrava-o porque queria, sem medo e sem equívoco. Era para ver e eu vi: o traseiro decote do século XX.

Estará extinto o escândalo da mulher nua? E onde começou? No cinema? Lembro-me que, no cinema mudo, Mack Sennett despia as mulheres. Inundava as suas comédias de bathing beauties, como depois o genial Busby Berkeley, já o cinema falava e cantava, povoou de fatos de banho cor de pele os seus delírios musicais pré andy-wharolianos.

Mas, convenhamos, há a mulher despida e há a mulher nua. Mal comparando, as mulheres despidas das comédias de Sennett e dos musicais de Berkeley estavam mais vestidas do que as adolescentes do nosso ecuménico turismo a passear no Chiado num dia de Verão. E, se queremos continuar a lembrar-nos, os pintores impressionistas já levavam duas ou três décadas de avanço ao cinema mudo: debaixo das árvores francesas, em almoços à beira-rio, já a nua nádega e a alva coxa femininas faziam, sobre as ervas, a transição do século XIX para o XX.

E se querermos mesmo ter uma conversa séria, ousemos chamar à colação as mulheres nuas, sentadas ou deitadas, do austríaco Egon Schiele, que as pintou, adolescentes ou maduras, entre 1910 e 1918, para grande horror do imperador Francisco José e dos tribunais dele. As telas de Schiele, que tanto pintou a mulher como as amantes num titilante festim de juvenília, estão, se forem a Viena, num museu, o Albertina. As mulheres de Schiele, de olhos bem abertos, levantam as saias verdes, azuis e vermelhas, expondo sem culpa o que em “Basic Instinct” terá sido roubado a Stone. Só uma mulher, num dos mais humildes desenhos de Schiele, cerra os olhos, um impertinente dedo tacteante perdido nesse pequeno bosque de prazer e angústia que Gustave Courbet crismou como origem do mundo.

Quem reinventará a nudez? Serão as mulheres do século XXI capazes de inventar um sublime homem nu, roubando-o ao gueto de Mapplethorpe ou do crucifixo cristão? Ou estará o homem nu condenado ao paroquial ponto de vista masculino? No século de normalização da pornografia, é estranho que a nudez seja supletiva. Será! Eu é que não renegarei o esplêndido decote de Sharon.

Os Beatles, um livro e uma história

Já vos disse que publiquei este livro dos Beatles? Já está no top 10 do El Corte Inglès e é um livro que recomendo! Estão aqui os Beatles como eram no início: sem dono, sem filtros, a meter os dentes à fruta proibida.

Por causa deles escrevi, hoje, no CM, esta “Bica Curta”:

Um dos Beatles

Hoje, passo ao lado dos temas do dia, até do ego ofendido de Ronaldo, mesmo dos egos a escaldar dos Costas, Carlos e António.

Por falar de egos, lembro os Beatles, maior banda de sempre. Já se tinham separado. George Harrison casou-se, entretanto, e teve um filho, Dhani. O miúdo andava na escola e, aí pelos 9 anos, veio um bando atrás dele a cantar o “Yellow Submarine”. Dhani chegou a casa esparvoado. O pai explicou-lhe que a canção era dos Beatles e que ele era da banda. “Tu és um dos Beatles! E nunca me disseste…” gemeu o puto. “Desculpa. Se calhar devia ter-te dito”, lamentou Harrison. Uma lição para egos mais exacerbados.

Fim da bica curta: e digam lá que não é uma história do caneco! Esta não está no livro, mas estão lá umas dezenas de vos fazer rir. Leiam, se faz favor.

Infância

Esta é, que eu saiba, a mais antiga fotografia que eu tenho. Ao lado da minha irmã, que está tão bonita, sou um monstrinho, creio que de quatro para cinco anos, em 1957 ou 58. Iria depois para Angola, onde fiquei pele e osso, como se pode ver na foto seguinte.

No meu livrinho, que há de chegar em Fevereiro, contam-se estas histórias. Há um capítulo inteirinho só para tratar das alegrias da infância.

Pingo de luxúria no Estádio da Luz

A chulipa é o estádio supremo da arte futebolística. Foi no Estádio da Luz. De um lado o renovado esplendor da nação benfiquista, do outro a vecchia signora, a Juve, esse insidioso casamento de raposa e lobo.

É do calcanhar que quero falar. Conheci o calcanhar em Luanda. O calcanhar, perdição embora de Aquiles, é o pedaço milionário do nosso corpo. Ainda bem que me lembrei de Homero: na epopeia que é cada jogo de futebol, há coragem viril, entradas a dois pés, pé em riste, o furioso pontapé de 30 metros, bola parada no peito, fulgurante e matador golpe de cabeça, a paradinha, o canto directo: é isto o futebol, guerra de Tróia que desce ao relvado, quase o seu clássico, mas arrebatador arroz com feijão. Mesmo a trivela, essa unção do exterior do peito do pé que gera ao esférico o improvável e inescrutável arco que deixaria Euclides perplexo, ainda é, na sua sofisticação, ironia e suspensão do tempo, parte da gramática do futebol. Só o calcanhar é sumptuário.

O calcanhar é a linha vermelha em que o futebolista excede a mestria e se entrega ao prazer mais lúdico, sem desculpas. O golo pode ser o orgasmo, mas a chulipa é o momento em que se retarda o orgasmo e se isola a vida em puro prazer: o tempo explode e dois segundos sabem a eternidade. No jogo com a Juve, o Benfica, divino mistério e deleite feito clube, pintou na relva essa linha transcendente: os calcanhares benfiquistas, culminando no calcanhar do velocíssimo Ulisses a que agora se dá o nome de Rafa, roçaram o sublime. Disse roçar e podia dizer, se quisesse ser provocador, “friccionaram suavemente”!

Conheci o calcanhar em Luanda. Explico: foi nos jogos de juniores no campo de São Paulo: os miúdos africanos tergiversavam. De repente, esqueciam o resultado, as marcações e a táctica: o prazer do calcanhar, chulipa a fazer passar a bola sobre a cabeça do adversário, era mais saboroso e picante do que o consolador muzungué depois da noite de farra bem bebida.

Outro exemplo: Marilyn Monroe. Em Quanto Mais Quente Melhor, obra-prima de Billy Wilder, Marilyn faz do seu corpo o que quer, mostra e tapa, insinua e provoca; metido num apertado vestido preto e em cima de uns saltos altos, o posterior dela faz resfolegar um comboio no mais hiperbólico jacto de vapor que o cinema já viu. Quem está na sala de cinema – aconteceu-me, aconteceu-me! – levanta-se e grita: “Pára, pára, mais não, mais não!” São gritos desvairados e deslumbrados. E chega o momento em que Marilyn beija Tony Curtis. Eis o que quero dizer: Marilyn beija de chulipa. Tony Curtis é, no filme, um milionário, e os beijos de Marylin são sumptuários, de calcanhar. Ela beija já e só o prazer de beijar e Tony Curtis confessa que sente os dedos dos pés como se estivessem num barbecue a fogo lento.

O Estádio da Luz ardeu a fogo vivo. Há um centésimo de segundo em que Grimaldo e Aursness, numa saída, num aperto irrespirável dos adversários junto à lateral, inventam a calcanhar o eclipse do esférico. Mesmo na área da Juve, o mais armadilhado e letal pedaço do campo, nasceu a chulipa siamesa, passe de calcanhar, recepção de calcanhar, como se a bola fosse uma delicada peça de porcelana de Limoges. E volto ao golo: o passe é de João Mário, a perna direita de Rafa dá um passo contranatura, adiantando-se ao corpo, enquanto a perna esquerda se deixa ficar no ar, esquecida, diletante, para que o calcanhar esquerdo, feito Marilyn, beije o redondinho e voluptuoso esférico. Nada disto era preciso: foi só puríssimo desejo, pingo de luxúria num calcanhar de veludo.

Os irmãos fratricidas

“Deslarga-me da mão!” Acabarão assim as hercúleas amizades masculinas? Protesto: os cineastas franceses Truffaut e Godard escreviam tão bem que nunca se separariam com um rasteiro e populista “deslarga-me”.

Encontraram-se num cineclube e saíram irmanados em hossanas: queriam e fizeram um cinema novo. Ficaram gémeos inseparáveis: pareciam unha com carne, mas um era a unha, o outro, a carne.

Imaginem que era a revolução. E foi, uma revolução fofa, bem vestida, de filhos-família: era o Maio de 68. Godard e Truffaut pararam até o Festival de Cannes. Era uma revolução de classe média alta. Classes A/B, vá lá C, que as classes D e E iam era a correr à mercearia. Mas sim, nas escadarias de Cannes, os dois irmãos inseparáveis acabaram ali com o Festival de cinema, nesse Maio de 68. Godard tomou-lhe o gosto. Quis acabar com o Festival de Teatro de Avignon. Havia jovens sonhadores, calças de seda, camisas de linho, aos gritos. Na rua, a gramar aquilo tudo, os opacos polícias de choque. Truffaut disse a Godard o que a bela e sofrida Anne Wiazemsky testemunhou: “Eu nunca estarei ao lado dos filhos da burguesia!”. E apontou: os filhos do povo estavam fardados, na rua.

Estremeceu a fraternidade. E foram duas soberbas cartas que, por fim, a escavacaram. Curta, panfletária, a de Godard, chama mentiroso a Truffaut e à sua “Noite Americana”, em estreia: “Tu dizes: os filmes são grandes comboios na noite, mas quem apanha o comboio, em que classe, e quem o conduz com o ‘bufo’ da produção ao seu lado?” E, a seguir, centra-se em si mesmo, enumera as suas angústias, ataca outros cineastas e acaba a pedir 10 milhões de francos a Truffaut para a produção do seu filme, cinco, vá lá!

A resposta de Truffaut, em 20 páginas, é um documento cruel, implacável na exposição do carácter de Godard. “Comportamento de merda”, chama-lhe Truffaut: nas relações amorosas, pela forma patética como quis seduzir uma actriz apaixonada por Truffaut, dizendo-lhe que François não a amava e se deitava com outra; nas relações de gratidão, pelo abandono a que votou, no hospital, Janine Bazin, musa da nouvelle vague, despedida da televisão por uma frase de Godard; “comportamento de merda” por ter chamado “porco judeu” a Pierre Braunberger, que lhe produzira o doloroso “Vivre sa Vie”, com Anna Karina.

Mas a longa carta é também um manifesto sobre a prática artística. Truffaut despe a mentira de “Tout Va Bien”, o filme de Godard com Jane Fonda, pretensa e última verdade sobre o cinema e o sexo. Denuncia o jogo duplo de Godard que se queixa do cinema de vedetas, mas é ele a procurá-las, para depois, caso de “Weekend”, filmar nua uma dessas actrizes, como se dissesse, “esta puta quis filmar comigo e vejam bem como a trato: é que há as putas e há as jovens poéticas.” Truffaut despreza também a cena de “Vent d’Est”, que ensina a fazer um cocktail molotov, lembrando que Godard fugiu a vir para a rua distribuir com ele o jornal “La cause du Peuple”, dirigido por Sartre, que a polícia então confiscava.

Truffaut dispara sobre a imagem subversiva de Godard que se põe num pedestal e é um falso depositário da verdade sobre a revolução, a política ou o amor. Acusa-o de filmar para a “esquerda elegante” de Susan Sontag, um narcisista revolucionário tipo Ursula Andress, que aparece e desaparece em flashes, mas instala à sua volta uma tenebrosa servilidade. E Truffaut remata: atitude de merda em cima de um pedestal.

Pode o pântano produzir a flor? Pode. Tal qual do comportamento de merda emerge a genialidade e a fulgurância!

Que estrada é esta? Será esta a estrada?

Espero que gostem de andar. Hoje, convido-vos, para uma deriva on the road.
Uma caminhada meio-filosófica, meio lúdica, com um módico de futebol pelo meio

Os meus livros de Novembro:
que estrada é esta? será esta a estrada?

Não houve pés mais transumantes do que os pés do poeta francês Jean Nicholas Arthur Rimbaud. A pé, Rimbaud foi e fugiu de Paris, a dois mil metros de altura atravessou os Alpes em gelo, traficou, pé à frente de pé, pelos inclementes desertos abissínios. Eram pés que ansiavam pelo paraíso: acabaram por levar Rimbaud ao inferno. Livro maldito de um poeta maldito, Uma Temporada no Inferno, com tradução de outro poeta inquieto, João Moita, e com introdução minha, é o meu bilhete para entrar na estrada dos meus livros de Novembro. Com Rimbaud, on the road.

Na estrada azul que é o livro de Ramiro Santos, O Algarve em Fios de Histórias, o mar e as cidades algarvias enchem-se de descobertas, encantos, amores, conquistas: são histórias da grande História deliciosamente contadas, numa bela homenagem a uma fita de terra e mar que ajudou, afinal, a mudar a geografia e a história do mundo.

Pode ainda haver uma estrada serena, de reflexão, para falarmos de Putin e da Ucrânia? Das mãos do investigador Bernardo Teles Fazendeiro, recebi este A Guerra Quente e a Paz Fria: Sobre as Origens da Guerra da Ucrânia: nele se busca uma prudência internacional que arrefeça os ímpetos dos pés e das botas da guerra na grande estrada europeia.

Desanuvio. Há um novo livro sobre as estradas portuguesas: Brisa: 50 Anos – Uma História do Futuro é um vivo passeio de Miguel Figueira de Faria pela história de uma empresa devota da inovação tecnológica, um passeio que Francisco Pinto Balsemão quis prefaciar.

On the road, numa rua de Dallas, um tiro atravessou a cabeça de John F. Kennedy: o que morreu ali? Não foi só Kennedy, foi uma parte da América e do mundo que essa bala liquidou. Do autor de que mais livros publiquei, José Jorge Letria, Tiro e Queda: Mortes que Mudaram a História é uma incursão nómada por tiros fatídicos, os que liquidaram o nosso rei D. Carlos ou Martin Luther King, os tiros que mataram Lincoln ou Lumumba, Che Guevara ou Bin Laden.

Deixem-me falar de pés angolanos. Primeiro dos coreografados pés bailarinos da Companhia de Dança Contemporânea de Angola: em textos de Ana Clara Guerra Marquese fotos arrebatadoras (é verdade!) de Rui Tavares são os pés do álbum Companhia de Dança Contemporânea de Angola: 30 Anos de Resistência. À venda em Angola e, só para happy few, no nosso site em Portugal.

Em Angola e em Portugal, Cuéle: O Pássaro Troçador leva-nos ao remoto Sudoeste angolano, terra de welwitschia. Seguimos os pés deambulantes de Jorge Arrimar: entre memória e ficção, a que os indecifráveis gritos roucos do pássaro troçador acrescentam mistérios e contradições.

Não sei se o amor é estrada larga ou carreiro ínvio e acidentado, mas sei que nenhum livro recolheu, como este, um leque tão variado de gritos de amor: são As Grandes Cartas de Amor, com organização de Elizabete Agostinho. Cartas de êxtase orgástico, de ruptura, de amor não correspondido ou de amor proibido. De Maria Barroso a Mário Soares, cartas de Balzac, de Freud, de Josefina para Napoleão, de Florbela Espanca, de Virginia Woolf ou de James Joyce.

Estrada longa, cheia de cruzamentos e bifurcações, é a que o economista e filósofo Friedrich A. Hayek nos abre em Arrogância Fatal: Os Erros do Socialismo, a novidade do mês da colecção Os Livros Não Se Rendem. Arrogância, explica-nos, é pensar que se pode moldar toda a humanidade ou toda uma sociedade a caminhar apenas numa única estrada.

E nenhum livro tem tantos pés como o livro de revelações (ou serão escândalos) de Rui Miguel Tovar, Lembrar Um Mundial para Esquecer, fruto de testemunhos de muitos dos intervenientes. Estão aqui os pés de João Pinto, os pés de António Oliveira, os pés de toda a selecção nacional de futebol que esteve no Mundial da Coreia de 2002. Foi um Mundial que, por não termos sabido tratá-lo bem com os pés, recordamos pelos motivos mais infames.

Estes são os meus dez livros de Novembro. Poesia, romance e ensaio: com estes pés me faço à estrada. Gostava que viessem comigo.

Manuel S. Fonseca, editor

A bassula e a dignidade

Já vou falar da bassula, mas deixem que abra a boca de espanto – mesmo à hora da minha morte, ainda hei de estar a abrir a boca em buelos e expletivos ualalás! A maka que estamos com ela é esta, como é que Jean- Paul Sartre conseguia subir aos ramos da mangueira do meu quintal, em Luanda? A artrite reumatóide já o apertaria por essa altura, e trepar, diga o que disser Simone de Beauvoir, nunca foi o seu forte. Mas subia e lá estava, três metros acima do chão, ao meu colo, a deliciar-se com os aromas das inflorescências paniculadas, que é como se chama ao que não chegam a ser flores numa mangueira. Eu tinha uns promíscuos 14 anos e, além de Sartre, comecei a ter ao colo também o refinadíssimo Somerset Maugham e o todo-o-terreno John Steinbeck. Precocidades taradas, portanto.

Ora, não é dessa forma eléctrica de sexo a que se chama literatura que eu quero falar. Quero falar da infantil onda negra de 1967, que invadia a minha rua, às cinco en punto de la tarde. Os candengues deslargavam-se da escola primária, na João de Deus, e desciam a minha Alberto Correia em direcção aos musseques Marçal e Rangel. Era uma nuvem de futuro, de pele preta e batas brancas, uma irreprimível alegria, a irrespeitosa gritaria a que se chama felicidade.

E se eu era feliz na minha mangueira, eles também queriam ser. Sobretudo quando as inflorescências paniculadas já se tinham convertido em sedutoras mangas de casca pincelada a amarelo e a vermelho. Tínhamos uma entente cordiale: era-me concedido o direito a dar-lhes berrida! Eles subiam à mangueira, encostada ao portão da rua, e eu vinha a zunir, dois minutos depois, num quintal de 20 metros, o que lhes permitia bazar com dignidade e alguns dulcíssimos despojos. Gritavam, “olhó muadiê!”, “foge, é o dono!”, e também “pula” ou “biaco”, mimos que enxovalhavam os brancos caras-pálidas como eu, por mais moreno que o Verão tropical nos tivesse pintado, mimos contrapontísticos a esse pejorativo “bumbo”, faca afiada para insultar os de pele preta.

E o que quero dizer, antes da bassula, é que, depois, ficávamos ali, eles na rua, a rir, “eh, dá-me já uma manga, tens muinnntas”, e eu, atrás do portão, “estão verdes”, logo desmentido a muxoxos, “hmm, aquela ali já está madura”.

Até ao dia da bassula. O candengue tinha oito anos. Quando eu apareci, com a minha virgem velocidade catorzinha, o candengue falhou a mão no ramo e despenhou-se dos três metros por onde se tinham passeado Sartre e Steinbeck. Cá em baixo, esperava-o a civilização de 1967, o contador da água canalizada. Teria caído direito, bate-cu limpinho no chão de terra, mas o contador, esse intruso civilizacional fiscalizador, apanhou-o, traiçoeiro, pelo cóccix, subjugado à insuportável dor.

A dor dele era minha dor: o miúdo estava lavado em lágrimas e eu pedia-lhe que não se mexesse, que se deixasse estar, sem que os meus 14 anos soubessem, na verdade, o que fazer. Mas ele não queria ficar e, hoje, pergunto-me se as lágrimas dele eram da dor física, se da humilhante frustração de ter visto o irreverente e subversivo ataque à mangueira e, sobretudo, de ver-me, a mim, o alvo dessa sua pequenina rebelião, a levantá-lo e a ajudá-lo.   Também Sartre, Maugham, Steinbeck cairiam, um a um, da mangueira encostada ao portão do meu quintal, copa majestosa a invadir a rua. Ninguém caiu dessa mangueira, nem eu, com a honorabilidade deste candengue caluanda, senhor e dono da sua fatalidade, dando sozinho a volta por cima, sem submissão à piedade alheia. Foi a bassula de maior dignidade que vi na vida.