Os editores são um zero à esquerda

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Zero. À esquerda. O que sabem editores, perguntaria Camilo se andasse para aqui a escrever na blogosfera. Basta fazer uma passagem aleatória pela ava­li­a­ções dos edi­to­res no momento da publi­ca­ção de ori­gi­nais.

“Lolita”, de Vladimir Nabokov, por exemplo. Reparem, foi recu­sado por vários edi­to­res que lhe deram sonoramente com os pés. Como, nou­tro tempo e por outros edi­to­res, foi recu­sado o “Pride and Pre­ju­dice” de Jane Aus­ten. Pior (ou melhor?): houve 22 edi­to­res que recu­sa­ram o “Dubli­ners” de James Joyce. Mesmo o con­sen­sual “War of the Worlds”, de H. G. Wel­les, levou uma redonda nega de um redondo edi­tor. E a editora Har­court Brace (de San Diego, Nova Ior­que e Orlando), desdenhou o “The Cat­cher in the Rye”, de J.D.Salinger, que have­ria de fazer a feli­ci­dade de outra editora, a Lit­tle, Brown, de Bos­ton e Nova Ior­que.

Digo isto e sei que exagero. É fácil ati­rar pedras aos edi­to­res, que cos­tu­mam ser pre­sos por ter cão e por não ter cão. Mas lembrem-se do vexame por que pas­sou uma pres­ti­gi­ada revista lite­rá­ria (e conto como me con­ta­ram) a que um cínico enviou um poema de e. e. cum­mings, cui­da­do­sa­mente rees­crito de trás para a frente: o comité da revista deu-lhe o pri­meiro pré­mio do seu con­curso para a elei­ção de novos talen­tos. Mal por mal e nunca fiando, antes o mau feito de uma escar­rado não.

Meus Kambas: António Eça de Queiroz

O António Eça de Queiroz, meu amigo, e grande, não me cabe nesta varanda em que se entra pela porta da cozinha. Esta varanda é um lugar informal, de kambas, mas é tão estreito que o António tem de pôr uma perna para trás das costas, se quiser entrar, sentar-se e tomar um café. Quando eu imaginariamente o conheci, nessa vasta Angola que então buscava o futuro glorioso de quem se liberta das algemas, o António podia esticar as pernas e abrir os braços, correr pela savana e mandar sinais de fumo. Era tão grande que só nos conhecemos cá, na apertada distância com que se tenta separar Lisboa e Porto. E é como se nos conhecêssemos há um século. É tudo mentira e é tudo verdade, como ele, abaixo nos explica.

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Heurística para mentirosos
António Eça de Queiroz

Definição básica desta belíssima palavra que provém do grego antigo εὑρίσκω (tal como o hēúrēka do excelente Arquimedes), roubada sem dó nem piedade algures na net: «heurística pode ser considerada um “atalho mental” do pensamento humano, que o usa para atingir resultados em assuntos complicadas de forma rápida e fácil».

Tem um pequeno senão: nem sempre funciona, ou funciona apenas em parte.

Conheci esta palavra há umas décadas através da informática, mas fui mantendo no arquivo da minha ignorância a ideia de que era matéria exclusiva desse território específico (tal como “override”, “array”, ou outra qualquer terminologia dos manuais desta ciência e respectivas aplicações).

No entretanto, os alvores da sociedade da informação global, mais acirrados pelo surdo batuque do Tempo, permitiram-me com a disponibilidade dos seus vários “motores de busca” a descoberta de que a palavra “heurística” tinha raízes anteriores e bem menos decifradas no sentido mais “humano” do termo – que foi muito publicitado no fim da 2ª Guerra Mundial pelo matemático Húngaro George Pólya, no seu pequeno mas denso estudo intitulado “A arte de resolver problemas”.

Reconheço como perfeitamente legítima a apropriação do vocábulo pela informática, já que (tal como na “investigação operacional”) esta lhe atribui no seu mapa interior a nobre função de simplificar procedimentos – o que no mínimo agiliza a programação e poupa memória.

Espanta-me apenas a sua pouca divulgação como mecanismo decisivo no comportamento humano, que, na generalidade, ultrapassa (ou dispensa mesmo…) o que é meramente racional. E foi por isso que decidi formular uma breve conjectura sobre heurística elementar (ou para diletantes) tendo por base a exclamação interior, silenciosa mas imperial, que relampeja pelas sinapses de cada um de nós num qualquer momento que entendemos como perigoso, crítico ou apenas urgente: “Eu acho que!…”, com a afirmação a transformar-se em acto mais ou menos imediato.

Só posso utilizar exemplos simples – e, em boa verdade, já um pouco desactualizados pelo tumulto bisbilhoteiro que os telemóveis provocaram na Humanidade. Os manuais dizem que ela (a quase secreta mas sempre elegante heurística) é inconsciente ou consciente; mas eu, que sou chato como a potassa, acho que é sempre e apenas subconsciente – embora com dois padrões visivelmente distintos (mas claro que aqui não estou a falar de assuntos demasiado complexos, que podem demorar a resolver de forma consciente, mas tão só dos que exigem solução instantânea ou perto disso…):

– Heurística instintiva: por norma quase uma acção reflexa, semelhante ao movimento de auto-defesa que faremos inevitavelmente quando nos apercebemos que algo nos vai atingir – seja uma pedra, um murro, ou qualquer outra ameaça física do momento; no entanto, e igualmente no domínio defensivo mas não elementarmente (ou exclusivamente) físico, a heurística instintiva é o mecanismo mais utilizado pelas pessoas que não sabem elaborar uma mentira eficaz e necessitam dela (da mentira) com urgência…

Cada um com as suas necessidades, e a seu tempo.

– Heurística intuitiva: apesar da informação disponível ser bastante incompleta, somos circunstancialmente obrigados a agir com rapidez; há padrões disponíveis, gostos pessoais, memórias de outros, legendas dos dias, comportamentos anteriores com a sua credibilidade solidificada, mas…, o facto é que, no final das pesagens todas feitas à pressa, “eu acho que”… E esse “achar que” passa a ser a lei dominante, inexorável, rumo à vitória ou ao desastre total!… (ou nem tanto, já que nem tudo na vida será tão dramático ou exigente, nem nós somos todos políticos profissionais aperreados na nossa própria demagogia, valham-nos os deuses mais meigos).

Do ponto de vista mais racional, a heurística intuitiva parece a mais fiável – mas sei que devo a vida a alguns movimentos de puro instinto (afinal à outra heurística mais primária e, supostamente, mais tosca, mais pobre). Faz parte dos esquemas mais fundos do raciocínio, do comportamento e do próprio conhecimento. Mas saber que a matéria existe, que é assunto de estudos vários, serve para alguma coisa?

Talvez não ou talvez sim.

Em informática tem a validade do prazo, e não há “hacker” digno desse nome que não saiba o que é; já na vida comum tudo depende apenas daquilo que cada um de nós, num determinado momento e numa situação específica, “achar” que sim ou que não. Sobre o que a análise heurística pode desvendar de um discurso, narrativa, ou mera afirmação voluntarista, ou mesmo de um acto puro e duro, isso será sempre óptima matéria para ensaios e ficções da filosofia da linguagem. Mas quase tenho a certeza de que aquela que eu caracterizo de “instintiva” é a que melhor cor e ritmo dá ao provérbio transnacional, velho e experiente de séculos, onde se reza que “é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo” (sim, em várias línguas ou outros formatos, o provérbio é sempre o mesmo).

Tome-se como exemplo uma situação extrema de classicismo elementar pré-telemóvel: um marido é acordado bruscamente pela mulher que o questiona porque chegou tão tarde a casa; ele, o marido estremunhado e ainda enevoado pelos eflúvios da noite, reconhecendo-se apanhado em falta, responde instintivamente: “Estive a jantar com um amigo, o Manuel, lembras-te dele?… e ele, enfim…, olha! embebedámo-nos a recordar velhos tempos…”

Resposta pronta da mulher: essa tem piada…, o Manuel ligou para cá às 21h30, que precisava muito de falar contigo – que estava em Lisboa mas que hoje estará cá…

Podemos dizer sem medo: fraca heurística!

Outra situação, mas exactamente o mesmo contexto: o marido diz que tinha assistido a um acidente violento (que realmente viu de passagem), e mais diz que teve de ajudar, e que depois foi à polícia dar o nome como testemunha, e que depois, três horas mais tarde, se ofereceu para levar um dos condutores, que “miraculosamente não se ferira”, a casa, e que pelo caminho tinham parado num restaurante, e… pronto!

Como se vê, na mentira intuitiva o actor supriu-se automaticamente de vários níveis de evasivas. Ou seja não é desmentido imediatamente pelos factos como acontece na mentira instintiva.

E isto tudo só para falar de maridos mentirosos – para as mulheres penso que seria necessário um compêndio (nada de juízos apresados: ocuparia mais espaço porque elas são muito mais imaginativas e inteligentes do que o homem, toda a gente sabe disso).

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A ilha deserta

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Mussulo, foto de António Barata

O que é uma ilha? Qualquer ilha é um círculo de solidão, redonda soli­dão cer­cada de mar por todos os lados. Quando ouvi­mos a pala­vra ilha saca­mos logo do col­dre uma pis­tola que antes de dis­pa­rar ainda per­gunta “o que é que eu levava para uma ilha deserta?” Como se as tone­la­das de areia e soli­dão de uma ilha, as pal­mei­ras que o vento finta, pudes­sem ser huma­ni­za­das pela baga­gem do náu­frago meta­fí­sico, baga­gem de livros ou fil­mes, uma música favo­rita ou um oci­oso tabu­leiro de xadrez.

A ilha exerce uma suave pres­são sobre a cabeça de um homem: quando ele dá conta já não dá conta e só deseja ser um Robin­son Cru­soé. O que é que eu leria se fosse Robin­son Cru­soé? Que­re­ria ainda ler as pági­nas de culpa e reden­ção de Lord Jim? Leria con­tos de outras ilhas e de outros mares, con­tos dos mares do sul de Somer­set Maugham? Ou entretinha-me em terra, dedo a dedo e per­verso, com uma Lolita de Nabo­kov? E se eu não era – oh! se era – Robin­son para, numa sexta-feira, ler do falecido poeta a Morte sem Mes­tre!

E os fil­mes da minha ilha deserta? Eu quereria ver, ilha sobre ilha pro­jec­tada, a Saga de Ana­tahan. Revia, outra ilha, flu­vial, no Mis­sis­sipi plan­tada, a ilha do Mud, a cor­rer pela orla de uma infân­cia que fin­gi­ria ser a minha. Ou não via ilha nenhuma e enfiava-me ou fer­via (ou fer­via e enfiava-me) no apar­ta­mento de Marilyn, géi­ser da ilha de Manhat­tan em que ela morava em The Seven Year Itch. Mas como é que se pro­jec­tam fil­mes numa ilha deserta? Projecta-os de cor, frame a frame, a nossa cabeça, por­que uma ilha aperta-nos tanto o crâ­nio que a nossa cabeça escu­rece e se faz cinema.

Con­fesso: já tive a minha ilha deserta. A mais deserta das minhas filhas foi a do Mus­sulo, à frente de Luanda, quando lá vol­tei, em 86. O filme era o de uma guerra civil de silên­cio e ago­nia. No Mus­sulo, onde, com ele a mulher, filhas e amigos, me levou o meu avilo Jorge,  havia ecos da velha canção, Res­sur­rei­ção, cantada por Diá Kimu­ezo e nem uma nota de Coney Island Baby de Tom Waits. O lauto lusi­tano almoço pediu sesta e dormi na imó­vel água tépida entre o Mus­sulo e a costa — amnió­tica doçura, a de assim dei­tado, dor­mir den­tro da água do mar. Acordaram-me os pei­xes a fazer-me cóce­gas nos pés. Depois, fui sozi­nho, linha recta até ao outro lado, o do oce­ano. A sufo­cante ilha deserta, um cheiro intenso e bom, de peixe seco e man­di­oca assada. Um cheiro quente, espesso, cheiro dessa estóica huma­ni­dade que nem sabe o que epi­cu­rismo seja, dizia-me o que sem­pre soube, que em nenhuma ilha se está sozi­nho. Sentei-me com o homem sozi­nho, um velho pes­ca­dor. Com a infi­nita gen­ti­leza de um cota, meu mais velho, dizia-me, xé minino. E falá­mos. Tá mau, nem madeira, nem alca­trão, nesses anos de má guerra só tinha cola, rede e umas ras­pas com que tapava rachas da canoa de ir à pesca. Não se quei­xava nem pedia. Dizia só, xé minino, com uma sere­ni­dade de Quin­tus Hora­tius Flac­cus. Como o romano, tam­bém este ango­lano, nobre e inde­pen­dente, fora filho ou neto de escravo liberto. Estava ali sen­tado, como Horá­cio em Tibur, uma canoa a sua poe­sia, a sua casa de campo uma ilha. Uma ilha aperta-se-nos à cabeça como as deses­pe­ra­das mãos do nosso amor e, sem dar­mos conta, já somos Robin­son Crusoé.

O rei de França não era um queixinhas

A 4 de Janeiro do ano da graça de 2019, nasceu na Imprensa portuguesa uma coluna intitulada Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo. É fraca prosa da minha autoria e acolhe-a, magnânimo, o Jornal de Negócios, e mais especificamente, a sua separata das sextas-feiras intitulada Weekend. Publica-se agora aqui, já depois de, na passada semana, ter a referida coluna cortado orelhas a Van Gogh, Paulo Portas, Mário Centeno e António Costa. Na próxima 6ª feira, comprem o jornal se quiserem ver, em primeira mão, junto à Torre Eiffel, o encontro do arquitecto Tomás Taveira, meu amigo, com o ex-ministro Vítor Gaspar, o juiz Carlos Alexandre, que eu não tenho o prazer de conhecer, e os fragilíssimos intelectuais do Bairro Alto, alguns dos quais tanto prezo.

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Luís XIV e os instrumentos que foram usados para seu íntimo sossego 

O rei de França não era um queixinhas
Manuel S. Fonseca

Bem sei que os gilet jaunes, os «coletes amarelos», não se querem sentar, mas se quisessem, podiam. Não era o caso de Luís XIV. Ele podia, queria e dizia “o Estado sou eu”, coisa que os «coletes amarelos» dizem por portas travessas. Mas o que o rei todo-poderoso queria e não conseguia era sentar-se.

Tudo começou com uma dor, a dois dedos de profundidade, no interior do humaníssimo órgão onde o sol não entra. Vejamos: estávamos num tempo de trevas das ciências médicas, o século XVII a cavalgar desabrido para a sua última década. Quem não podia cavalgar era o rei. Diga-se, em louvor da santa verdade: o rei, ao contrário dos «coletes amarelos», era tudo menos um queixinhas e, à reverente e submissa corte, explicou o seu embaraçoso desconforto alegando que o atormentava um eufemístico tumor na coxa.

Pois está muito bem e um par de botas, mas é preciso ver que o grande povo francês, como o nobre povo português, também se guia por esta destemida divisa: «Na peida, é um descanso.» E era o que não dava descanso a Luís XIV. O rei convocou os seus físicos, esculápios, galenos, enfim os médicos do tempo, que estavam para a medicina como hoje os nossos sociólogos estão para o que chamamos ciência. Anunciou-lhes que tinha, com todas as letras e uma dor analfabeta, uma fístula anal. A dois infinitos dedos de profundidade.

O realíssimo traseiro foi analisado pelos seus cirurgiões com a mesma minúcia com que Marques Mendes, Pacheco Pereira ou João Miguel Tavares dissecam os árduos trabalhos e sofridos dias de Rui Rio. Com igual disparidade de remédios: emplastros e paninhos quentes, uma prolongada estada nas miraculosas águas termais de Unhais da Serra, perdão, de Baréges, nos Pirinéus franceses. Ora, irredimíveis dores só vão lá com audaciosas curas. Um cirurgião, Charles-François Tassy, dito Félix, inspirador nome de guerra, soltou o grito que ecoou no mais recôndito âmbito de Luís XIV: cortar a fístula, operar o cu do rei.

Recordo os mais distraídos e muitos ingratos que António Arnauth ainda não nascera e que o Serviço Nacional de Saúde nem uma peregrina ideia era, então, nas plebeias ou reais cabeças francesas. A palavra tecnologia era impronunciável e o dito Félix, para chegar onde o rei lhe pedia que chegasse, tinha de inventar os necessários instrumentos. Pior ainda, tinha de os experimentar. Procuraram-se todos os fistulados mendigos e indigentes de França. O penetrante bisturi recurvo, do qual saía um estilete e as grosseiras pinças (ou tenazes?) – pensem no filme Eduardo Mãos de Tesoura – foram afinados nos lamentáveis e mal tratados fundos das costas desses deserdados da sorte – no meu tempo de rapazola cruel e socialmente insensível, deles diria que eram «pobres pra chuchu». Foram quase cem os operados, morreram às carradas e às escondidas, mas a medicina, pé firme sobre os seus cadáveres, deu um passo de gigante e Félix estava pronto a abrir o até então intocado tabu de Luís XIV.

Deitado de barriga no principesco leito, um travesseiro a expor as nádegas lunares do Rei Sol, a mão na mão de Madame de Maintenon, perceptora dos seus filhos, Luís XIV, sem anestesia, suportou, estóico, a talhante intervenção. Durante três horas, vigiado pelos outros cépticos físicos da corte, Félix fez do posterior real o fundo pátio do seu recreio.

Foi um êxito. Tão grande que a aristocracia francesa, macaquinha de imitação, desatou a baixar as calças: proliferaram fístulas, o bisturi de Félix não parava, expuseram-se à luz do dia os mais nobres cus de França.

Publicado no Jornal de Negócios

A água tudo lava

Já não sei há quantos séculos escrevi este texto. Nele se conjugava o meu amor pela forma de filmar de John Ford, esse intratável e inclassificável americano de sangue irlandês, e o meu concupiscente amor pelo rastejante rabo de Gene Tierney. Deve dizer-se que o rabo de Gene Tierney nunca foi verdadeiramente chamado para o cinema, toda a sua carreira tendo sido fundada no seu tão belo e sublime rosto. Foi preciso o sacana de um irlandês, católico arrevesado, para a tirar dos vestidos de cetim e casacos de arminho e, já o cinema todo se esfregava em technicolor, vesti-la de trapos, atirá-la para um chão de poeira e fazer dela uma rattlesnake papa nabos. (Se virem o filme, saberão o que quero dizer.)
Na imagem abaixo, as pernas dela são as mesma pernas que, depois, fim da década de 50, o anarquista (logo católico e ateu) Luis Buñuel, usaria na rapariga menor de idade de que ele, abusadamente, fez a protagonista desse filme que, de tão dúbio, teve dois títulos, La Joven e The Young One. 

gene tierney

Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.

A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.

A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao glamour calculado ou à complexidade psicológica de femme fatale que a quero ir raptar.

Roubo-a a “Tobacco Road, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.

Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.

Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto gourmet. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma sexualidade predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.

É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.

O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man cujo beijo Spielberg replicou em “E.T., costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidadose “La Joven, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.

No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.

Não há nada que a água não lave.

Descaramento

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Noutro dia, um amigo meu ficou sem travões no carro. Vinha da Estados Unidos da América em direcção a Entrecampos e não teve remédio senão ir raspando com o popó na divisória central para perder velocidade e não atropelar ninguém. Um anjo ou a própria Virgem Maria, que já por cá não aparecia desde 1917, puseram-lhe a mão por baixo e o carro acabou por parar como se desejava. O que ninguém deseja é que a economia americana trave de repente. Mas a economia americana está, dizem-me, em desaceleração e em guerra com a chinesa, que por sua vez começa a ficar toldada por um nevoeiro que se adensa.

Aqui, nesta velha Europa, as velhas e relhas receitas populistas assombram e escurecem o chuvoso reino Unido, com o malfadado Brexit, mas também a mediterrânica Itália. Em França, Macron continua encandeado pelos reflexos dos coletes amarelos, enquanto a Alemanha se auto-suspendeu politicamente, tal como o espectador de cinema (mas este por melhores razões) suspende a descrença quando entra na sala. Com estas sombras e este crescente rumor de fundo é preciso ter-se descaramento para se entrar optimista em 2019. Eu sou um desses descarados e tolos optimistas.

Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso

Gostava muito que viessem. Há neste livro, carregado de fantasmas e de sofrimento, um sinal de redenção. Venham, a sessão de lançamento não será soturna e crua. Na próxima 5ª feira, nas salas de Âmbito Cultural do El Corte Inglês, às 18:30 de Lisboa, há-de haver amor, esperança e uma réstia da velha utopia, desse desejo de empatia com a humanidade que moveu a minha geração quando tínhamos 20 anos.
Venham ouvir o Manuel Ennes Ferreira e venham ouvir o meu autor, Carlos Taveira, que eu conheci candengue, no Lobito de 1975, e que hoje tem mais do que a minha idade, tanto viveu ou o obrigaram a viver.  

Venham. Apresenta-se um livro de prisão. Dessas prisões que não queremos para os nossos filhos, nem para os filhos dos outros. Está tudo num livro que se lê como um romance: com sentimento, angústia por vezes, um triste sorriso redentor outras vezes. É preciso ter-se sofrido muito para se poder ter tanta humanidade, eis o que vos quero dizer. 
E que capa tão bonita, tão simples, o Ilídio Vasco deu ao livro do Biri. Abram-no e virem a página, porque é preciso virar a página, como podem ler na página desse livro que, editor deste livro, abaixo vos deixo.

convite

Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso
Carlos Taveira (Biri)

Excerto de “São Paulo, Prisão de Luanda”

Do Zezinho das Pilhas tenho menos referências, aparecia ocasionalmente, era discreto, não gostava de se mostrar. Vem-me à memória a figura de um individuo taciturno, com cara de poucos amigos.

Aliás, não os devia ter. Era mais especializado e não utilizava os fios eléctricos como chicote, à maneira de Inácio. Dava-lhes a utilização para a qual tinham sido concebidos: ligava uma das extremidades a uma caixa alimentada por tomada de corrente eléctrica e conectava a outra a um preso. Espero que tenha o sono povoado de pesadelos…

Foram centenas os infelizes a sofrer nas mãos dessa gente imprestável. Muitos deles conservarão para sempre as cicatrizes dos cigarros apagados no corpo, dos nomes gravados a cacos de garrafa, das queimaduras dos eléctrodos, das chicotadas a fio eléctrico.

Vários foram os métodos empregados para brutalizar os presos. Para lá dos referidos acima, quem passou pelo nguelelo nunca o esquecerá: duas hastes de madeira sólida, uma de cada lado da cabeça, atadas nas extremidades de maneira a encerrá-la (a cabeça) num torno. À medida que os nós eram cerrados, a pressão craniana acentuava-se.

Outra prática prezada pelos detectores de mentiras consistia em amarrar os braços com cordas molhadas. Iam apertando o abraço à medida que secavam. Uma variante consistia em passar essas amarras à volta da cabeça, à altura dos maxilares.

Alguém com espírito de iniciativa, e fazendo prova de originalidade, enroscou uma pesada mola nos cabelos da vítima – que utilizava aquele tipo de penteado afro conhecido nos anos 70 como «à Jimmy» – e puxou-a violentamente, arrancando cabelos e pedaços de pele do couro cabeludo.

Enfim, em qualquer bom livro da especialidade, encontrarão outras técnicas. Foram quase todas utilizadas pela DISA.

As noites eram regularmente apunhaladas pelos gritos dos torturados. Lembro-me de um desses infelizes gritando a plenos pulmões:
– Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso.

Não sei o que lhe faziam, não consigo nem quero imaginar, mas vimo-lo no dia seguinte deitado no corredor. Atirado ao deus-dará, como um fardo, corpo coberto de chagas, escorria-lhe sangue dos olhos. Quando a minha mórbida curiosidade me levou a espreitar pelo postigo, vi uma agente baixar-se, levantar-lhe uma perna e deixá-la cair, inerte, soltando uma gargalhada divertida. O torturado nem um gemido soltou, parecia ter passado o limiar da dor. Nunca soube o seu nome, nunca mais o vi.

O grande ataque de tosse do finzinho da primeira parte

Em vez de vir aqui, à varanda com porta para a cozinha a que dei o nome de Meus Kambas, a Eugénia de Vasconcellos foi à Gulbenkian. Deu-lhe a tosse. A ela e a meia sala. Está a Brufens.
O Meus Kambas é que não perde pele demora. Depois da visita do Pedro Correia, daqui a poucos dias tem a visita do António Eça de Queiroz. Preparem-se.

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igor levit, foto de gregor hohenberg

Quem vai ao mar perde o lugar
Eugénia de Vasconcellos

Gulbenkian. Igor Levit. Eu como o diabo gosta. Entupida de antibióticos, mais Symbicort, Brufen, enfim, de um tudo: a alegria das farmácias. Sala quase cheia. E isto é um mistério gulbenkiano: são mil as vezes em que não se consegue um raio de um bilhete, dois lugares consecutivos então… é coisa da ordem dos milagres ou de uma previdência incompatível com o mundo, mas aceitamos, e entre milagres e previdências, vamos. E chegamos e zás, lugares vagos. E não é um nem são dois.

De quem são aquelas cadeiras? Vendem-nas? Licitam-nas? Posso ficar com uma e pregar-lhe uma tabuleta nos costados a dizer Eugénia de Vasconcellos?

Na verdade, isto até seria em benefício da própria Gulbenkian: daqui a um monte de anos, quando eu estiver a escrever noutro multiverso qualquer, neste, um diligente funcionário desta bela instituição poderia dizer: esta era a cadeira de EV, poeta tão extraordinária que para ser perfeita só lhe faltava a modéstia; é que não nos deslargava, nem durante a semana nem no dia do Senhor: era café, era Almedina, era jardim, era piano, orquestra, violino, ópera… vá, ao menos nas conferências era um calhar, quer dizer, vinha quando lhe calhava ao gosto e sentava-se onde calhava que só era esquisita no Grande Auditório – toda a gente sabe que os guias falam exactamente comme ça.

Quando era pequena e até ser grande, tudo se passava no cinema que era teatro. Lá, ia para a frisa. Era um descanso. Bem. Havia as precedências: tias velhas, primos mais velhos e depois, ao fim, os mais novos. Nunca havia dramas salvo quando havia ópera e não se dava a multiplicação das cadeiras que eram seis nem das sessões que em regra eram duas. Só nervos! Mas desperdício de cadeiras, não.

Hoje a sala portou-se malzinho. Telemóveis a tocar, três. Dois na primeira parte, um, na segunda. Tossicava-se aqui  e respondia uma tosse cavernosa ali. É Janeiro. Uma senhora foi tão mas tão mal olhada e ssshhh  ssssh durante um ataque de tosse que se levantou e saiu a meio da primeira parte. Se tivessem pedras… Regressou na segunda.

Confesso, também tossi. Só uma vez. O grande ataque de tosse do finzinho da primeira parte, fui eu. Azarucho, não conseguia respirar. Não saí. Paciência que eu também a tive e durante duas horas ininterruptas. Sim. Até no intervalo.

O senhor catarrento nas minhas costas, comentou tudo em directo. Tudo. Tossia. Comentava. Mas era um tossidor transazonal-fumador o que, como toda a gente sabe, é outro estatuto – permite insultar senhoras tossidoras sazonais não fumadoras, por exemplo. Não se calou. O tempo todo que o raio do homem gostava de se ouvir e, pior, já era um bom bocado surdo. Olha para isto, com a mão esquerda quando isto foi transcrito para as duas mãos por laialailai e ontem no Mezzo, sim porque eu é Mezzo e Bravo e laialailai. E mais do mesmo, que vergonha, não tem vergonha, nem têm vergonha, trazem gente desta que escolhe isto com tanta peça bonita que Schumann tem e laialailai. Sssssh… esta devia ir tossir lá para fora.

– Não fui eu, ó comentador tússico do inferno, cala-te lá bicho do ouvido que foi o meu alter ego que está sentado nesta cadeira vazia aqui ao lado!

gulbenkian
nem uma cadeira vazia