Também o Verão se esvai

Lullaby. Gostava que ouvissem.  O meu norueguês já teve melhores dias, mas se bem percebi este lamento de Solveig, roubado a Grieg, ao seu Peer Gynt, as palavras em português seriam aproximadamente estas:

“Passa o Inverno, desaparece a Primavera
desaparece a Primavera.
Também o Verão se esvai e o ano depois,
o ano depois.
Uma coisa sei certa, hás-de voltar
hás-de voltar.
E como te prometi, estarei à tua espera
estarei à tua espera.

Deus te ajude pelos caminhos que corres sozinha
que corres sozinha.
Deus te dê a Sua força quando ajoelhares ao seu trono
quando ajoelhares ao seu trono.
Se agora estás no céu e esperas por mim
No céu por mim
No céu nos encontraremos, meu amor, e nada nos separará
Nada nos separará!”

Não posso nem ver-te

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Cortou-a em pedaços. Com um machado. William Kemmler era atarracado e tão bêbado como pai e mãe, imigrantes alemães, a quem o pesado álcool abreviou a escassa vida. A 29 de Março de 1888, num bairro da lata de Buffalo, no estado de Nova Iorque, Kemmler acordou com aquela ressaca bolsonara e estado de espírito trumpiano de não posso nem ver-te, quanto mais ouvir-te.

Matilda Ziegler, a mulher que vivia com ele em afrontosa maridança, deve ter-lhe dito bom dia. Kemmler viu tudo em vermelho sangue à frente. Acusou-a de o andar a roubar e de planear dar de frosques com um amiguinho dos dois. Ainda o berreiro estava entre a boca dele e os ouvidos dela, já Kemmler tinha na mão um machado e ponto final parágrafo na vida de Matilda. Citando os versos que Jimmi Hendrix deixou a seu lado, quando morreu, “A história da vida é mais rápida do que um piscar de olhos, a história do amor é um olá e adeus, até ao nosso reencontro”.

Pelo crime e bárbara sangria, o estado de Nova Iorque condenou Kemmler à morte. Mas foi agraciado com um bónus: estrearia a cadeira eléctrica, nova forma asséptica e indolor de entregar ao Senhor dos Infernos os energúmenos deste mundo.

A 6 de Agosto de 1890, às cinco da manhã, os guardas acordam Kemmler. Todos nos lembramos que o germânico Kemmler é atarracado, intratável, quase incapaz de escrever e ler, dividido entre a língua inglesa e a alemã, bebida dos pais. Mas vejam a graciosa doçura com que acorda. Lava-se, põe uma gravata, ataca com apetite e maneiras o abundante pequeno-almoço.

Milagre da transfiguração, a presença da morte, da morte iminente, confere ao assassino uma calma elegíaca. A mão que manejava o brutal machado segura, agora, a mais delicada chávena de chá da prisão de Auburn. Tão límpido como o céu lá fora, Kemmler ironiza com o nervosismo dos carrascos e inclina com brandura a cabeça para que lhe façam a careca onde vão colar os eléctrodos. E caminha para a cadeira.

O real pescoço a caminho da guilhotina, Maria Antonieta pisou um pé ao seu carrasco e mesmo nós, republicanos, ainda temos nos ouvidos o seu inefável sussurro: “Pardonnez moi, monsieur!” Kemmler não foi menos do que Maria Antonieta. Às testemunhas disse as penúltimas palavras: “Gentlemen, desejo a todos muita sorte neste mundo. Penso que vou para um bom lugar. Os jornais têm badalado montes de coisas, mas não foi bem assim. É tudo o que quero dizer.”

Senta-se na cadeira eléctrica. Põe-lhe os eléctrodos na cabeça e é ele que ajuda: “mais para baixo, mais para baixo.” Com uma tesoura fazem-lhe um corte na roupa nova e atrapalham-se a pôr outro eléctrodo, o que faz renascer a Maria Antonieta que agora mora nele: “Com tempo, sem pressas, façam tudo bem, vejam se está tudo como deve ser.” Ao seu lado, o director da prisão, Charles Durston, aperta-lhe as correias sobre os braços e com a humaníssima ternura que toda a tragédia suscita, diz-lhe baixinho: “Não vai doer, vou estar contigo o tempo todo.” Kemmler diz então as verdadeiras últimas palavras: “Temos o tempo todo.”

O que se passou depois quase faz da guilhotina francesa um acto de cortesia. A corrente disparou, o corpo do condenado arqueou-se e os médicos declararam-no morto até verem que não. Estava ainda vivo, um ronco subterrâneo a vir-lhe das entranhas. Duplicou-se a voltagem e grelharam-no com uma bruta descarga. Rebentaram as veias debaixo da pele e o odor a carne queimada fez desmaiar testemunhas. Oito minutos de vergonha e carnificina durou a primeira morte por cadeira eléctrica.

Publicado na minha coluna, “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Dennis Hopper em tons de azul

Hopper
O belo Hopper a saber que é belo

Dá-se o caso de Dennis Hopper já ter chorado para mim. Para mim, mim, mesmo mim. Julgo que a coisa se passou há 28 anos, por volta do dia 1 de Junho e, em letra de forma, está tudo na Revista do Expresso de 8 de Junho de 1991, pgs. 85 a 87, numa entrevista que fiz a meias com o João Lopes. (Confesso, Hopper chorou metade para mim, a outra metade para o João Lopes – ou vice-versa)

Dennis Hopper tinha vindo a Portugal, convidado pelo Festival de Tróia, e dignou-se falar connosco. Apareceu-nos fresco, cheiro de Eternity, duche tomado há menos de 10 minutos, e os mais lindos olhos azuis que a face da terra já viu. (Sei bem que estou a falar de um homem, tal como de um homem, Gary Cooper, João Bénard um dia escreveu que era o mais bonito homem que a Criação teria gerado, e eu acredito e isso sossega-me). Dennis Hopper, dizia eu, trouxe os lindos olhos azul-turquesa e fê-los acompanhar por um displicente fato de seda (ou seria seda e linho) tão azul, tão turquesa, tão brilhante como os olhos dele.

Hopper azul
o fatinho azul de linho

Esmagou-nos com amabilidade, respondeu a tudo, e era tão pouco o que by the book tínhamos para lhe perguntar. E foi quando, blá, blá, blá, bad guys para a frente e actor do Método para trás, quisemos saber como é que se sentia por ter de ir procurar dentro de si mesmo e das suas experiências íntimas o mal , o “bad”, dos bad guys que representava. Hopper olhou-nos incrédulo e desatou no mais fingido pranto que nós, crédulos entrevistadores, poderíamos esperar: “Oh, oh, oh, I feel so bad”. Segundos terríveis de espera, doce incredulidade, e os olhos azuis turquesa de Hopper, brilhando mais do que o sol de Junho da península de Setúbal, voltaram a rir-se: “C’mon, not that bad. It’s all right!

It’s all right” foi um raio de luz que vindo dos olhos de Hopper me aqueceu e iluminou. Na altura, andava eu a deslambuzar-me de Barthes e a tentar fundamentalizar-me em meia dúzia de críticos norte-americanos, do Village Voice à pesporrência da Film Comment, e vinha-me um tipo de 55 anos, e com um simples “all right, ok” resumia tudo, fazia-me compreender e aceitar.

Hopper, a seguir, disse o que lhe apeteceu. Disse, por exemplo, que o so bad Frank Booth de Veludo Azul é um papel de comédia, mesmo que David Lynch (“ele é um escuteiro-chefe, sabem”) não o consiga perceber, e que o verdadeiro e único mau que sentiu mau (“o único papel catártico da minha carreira”) foi quando foi Paris Trout, do filme homónimo, em que contracenou com Barbara Hershey e Ed Harris (eram, digo agora eu, os três soberbos, num filme convulsivo e demente). Desviou um bocadinho a conversa para nos contar que poderia muito bem ter escrito um livro com o título “Seis Drogas e como as Usar para Representar” em que narrasse a viagem de bate fundo, muito fundo, com que se entreteve durante alguns anos. Lembro-me de Hopper contar que tinha em casa, espalhadas pelo chão, telas de Warhol e outros astros da pop art e que tripavam em cima delas, até darem cabo dos quadros ou lhos roubarem.

Falou, claro, de Easy Rider. Mas do que se lembrava muito bem era do gosto pelo risco que desenvolveu depois. Foi à universidade, a Huston, fazer uma demonstração aos estudantes. Fez um círculo com cargas de dinamite e pôs-se em pé no exacto centro desse círculo. Explodiu as cargas sem se mexer, nem pestanejar, saindo incólume da experiência. Antes tinha-nos explicado que um cineasta era como um construtor de capelas da Renascença. O título da entrevista fazia-lhe justiça: “Um psicopata de veludo”.

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do afago de Liz Taylor é que ele não disse nada

Ecologia e astrologia

Michael_Shellenberger

Bica Curta servida no CM , 5.ª feira, dia 15 de Agosto

Michael Shellenberger é um herói ambientalista, vencedor do Green Book Award. Sem papas na língua disse o que pensa do conceito de pegada ambiental: valor científico zero, igualzinho ao da astrologia ou da ideia de que a Terra é plana. Mais, disse que muitos activistas, em que se inclui a menina sueca Greta Thurnberg, só pretendem aterrorizar e deprimir o povo com soluções que levam à pobreza. Por motivação política e ataque à economia e à economia capitalista. São mais moralistas do que ambientalistas.

Michael defende o nuclear limpo, o ataque aos problemas por meios tecnológicos e o uso sustentado da natureza. Vale a bica curta.

Uma bandeira

josé afonso

É que tenho mesmo muita pena. Mas porque é que esta canção de José Afonso não foi a bandeira da minha geração? Porque raio é que fomos atrás do Dylan e dos ventos que ele soprava. Porque é que a voz clara deste José não foi a nossa imbatível referência estética? Referência universal estética e não referência parcial e política.

Também lá estive e lembro-me das “praias do mar” em “manhãs claras”. Acendemos fogueiras e fomos, noite fora, até romper o primeiro raio da madrugada. Isso devia ter sido um programa de vida, muito mais do que um ocasional estandarte político. Bem antes de haver Abril, que esses anos, de 70 a 73, tinham só 11 meses e moiras encantadas. Esta canção, o José desta canção é mais do que um programa político. É a proclamação de um programa de vida, fusão cósmica com a natureza e com o sonho.

 

O ar que comeremos

Solar-Foods-makes-protein

Bica Curta servida no CM , 4.ª feira, dia 14 de Agosto

A boca que qualquer pai mandava ao filho recalcitrante “Ah, não estudas? E quando fores grande alimentas-te do ar, não é?” perdeu o sentido. A Solar Foods, usando tecnologia da NASA, transformou o simples ar que respiramos em comida: um pó chamado solein. Não sabe a bica curta, sabe a farinha de trigo e tem células proteicas de laboratório. O solein é CO2, água e electricidade renovável, é amicíssimo do ambiente, dispensa a agricultura. Pode produzir-se às toneladas e alimentar milhões de seres humanos. A criação é de engenheiros finlandeses e chega às lojas em 2021.

Aviso a filhos recalcitrantes: estes engenheiros estudaram!

Assaltar bancos

B&C

Bica Curta servida no CM , 3.ª feira, dia 13 de Agosto

Há 52 anos, estreou-se “Bonnie e Clyde”, filme com os ainda razoavelmente vivos Faye Dunnaway e Warren Beatty. O filme conta as aventuras de um par amoroso, belo e cruel, que assaltou bancos, nos anos 30, com uma violência, que não há cá bica curta. A lenda fez deles tão heróis e rebeldes como Che Guevara. Ela escrevia poemas suicidários e deixou filmes e fotos que fariam agora furor no Instagram.

Mataram sem piedade, mas tinham um modo de assaltar bancos, que o povo amava e temia: arriscavam o canastro de pistola na mão. O assaltante de hoje é sórdido e de gabinete: morde e branqueia pela calada. É um deslavado burocrata.