A biografia da solidão

Há pouco comecei a ouvir a can­sada  voz de Dolo­res Duran. Descobri que da voz e da vida dela se derrama a bio­gra­fia da solidão.

As vas­sou­ri­nhas var­rem os pra­tos e tam­bo­res da bate­ria, mas não var­rem as lágri­mas e a retó­rica mag­ní­fica do sofri­mento. Será que nós, e falo com os homens, chegamos a com­pre­en­der o que Dolo­res canta. Nos nossos des­me­di­dos deva­neios épicos de homens, a forma como Dolo­res canta as pala­vras que ela mesma escre­veu, é uma his­te­ria irreal, um ensan­guen­tado folhe­tim. É pre­ciso que uma mulher cante e outra mulher ouça. Dolo­res Duran namo­rou os homens. Não dor­miu com todos, mas dor­miu com mui­tos. Dor­miu até, por­que amou, um gar­çon de caba­ret. Mas quando que­ria que lhe ouvis­sem as novas can­ções, cantava-as às ami­gas. Foi ao tele­fone que can­tou “ai a soli­dão vai aca­bar comigo” a Maysa.

Maysa con­tou que ouviu e já não con­se­guiu vol­tar a falar. Cho­rou o dobro, o tri­plo do que os ver­sos de Dolo­res pare­ciam pedir, sufo­cada, estra­nha, ciente da infe­ri­o­ri­dade e da supe­ri­o­ri­dade de quem tem o segredo do romantismo.

Tom Jobim, Vini­cius, os homens, os artis­tas, os que “sabem o que fazem e o que dizem” che­ga­riam, mui­tas lágri­mas depois, à car­reira de Dolo­res. Que solidão.

René Char, sozinho

Sobre ou por causa de René Char (1907-1988), poeta francês. De grande porte, um metro e noventa e dois, anti-nazi e membro da Resistência, jogador de rugby. 

René Char

Andou de braço dado, e nem sei se isso é bom, com Breton e Eluard. Mas, se o imaginarmos a caminhar numa estrada, vemos bem que está sozinho. Se tem de se proteger é a uma sombra de Villon. Se tem um destino é em direcção àquele ponto em que Rimbaud dizia juntarem-se la mer e le soleil: a eternidade. Essa silhueta de furor e mistério que se recorta na bruma de um caminho tem um nome: René Char. Silhueta de solidão: “Les femmes sont amoureuses et les hommes sont solitaires. Ils se volent mutuellement la solitude et l’amour. *

René Char talvez esteja para a poesia francesa do século XX como Herberto Helder para a portuguesa. Dos poemas mais longos e poemas em prosa a poemas que são quase aforismos, Char busca a palavra breve, essencial: “Souvent je ne parle que pour toi, afin que la terre m’oublie.**

Herói da Resistência, aprendeu nesses combates durante a Ocupação alemã, diz ele, a amar ferozmente os meus semelhantes: “François exténué par cinq nuits d’alertes successives, me dit : «J’échangerais bien mon sabre contre un café !» François a vingt ans.***

Pode ler-se «Fureur et Mystère», poemas de 1938 a 44, « Les Matinaux », de 47 a 49, « La Parole en Archipel », de 52 a 60, ou « L’Éloge d’une soupçonnée», de 1973 a 87. Em todos eles, letra a letra, verso a verso, um pensamento cantado. Leia-se este, tirado de «La Fontaine Narrative», de 1947:

 Allégeance

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n’est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l’aima?

Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L’espace qu’il parcourt est ma fidélité. Il dessine l’espoir et léger l’éconduit. Il est prépondérant sans qu’il y prenne part.

Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. A son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s’inscrit son essor, ma liberté le creuse.

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n’est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l’aima et l’éclaire de loin pour qu’il ne tombe pas? ****

                                                                        ##

Traduzo à letra as várias citações acima:

* As mulheres são apaixonadas, os homens solitários. Roubam-se uns aos outros, mutuamente, a solidão e o amor.

** Muitas vezes não falo senão para ti, só para que a terra me esqueça.

***  François extenuado por cinco noites de alertas sucessivos, diz-me: ” Trocava bem o meu sabre por um café.

**** Consolação

Vai pelas ruas da cidade o meu amor. Pouco importa aonde vá nesse tempo dividido. Já não é o meu amor, qualquer um lhe pode falar. De certo já não se lembra: quem de verdade o amava?

Busca o que se lhe parece na promessa dos olhares. O espaço por onde caminha é a minha fidelidade. Desenha a esperança e recusa-a, displicente. É preponderante e em nada se compromete.

Habito no mais fundo dele como um destroço feliz. Ele não sabe: a minha solidão é o seu tesouro. No imenso meridiano em que se lança para o seu voo, a minha liberdade esvazia-o.

Vai pela ruas da cidade o meu amor. Pouco importa aonde vá no tempo dividido. Já não é o meu amor, qualquer um lhe pode falar. De certo já não se lembra: quem de facto o amava e de longe o ilumina para que não caia?

Três, disse Frank Sinatra

Judith-Exner-Campbell

Não vos vou falar de uma precipitação qualquer. Falo-vos de uma precipitação de Frank Sinatra. Tinha Judith Campbell uns 25 anos e quem diz Judith, diz Guerra Fria, FBI, Baía dos Porcos, a garganta cortada de Fidel de Castro, como outra Judith degolou a de Holofernes.

E já me adiantei, que não era isto o que queria dizer. Sinatra e Judith já levavam um, talvez dois meses de cama juntos. Ele fugira com o rabo à seringa de um compromisso mais sério com a viúva de Bogart, Lauren Bacall. A jovem Judith andava em alegre remissão de um casamento falhado com um actor de quinta categoria. Com aquela voz de My Way, Sinatra sugere a Judith, que giro, giro, era trazerem uma outra moça para circenses acrobacias na suada cama. Três, disse Sinatra. Judith era o escaldante cruzamento de paterna ascendência alemã com materno sangue irlandês, não tinha era a mais remota inclinação para Sodomas e Gomorras. Estavam na cama e ela disse-lhe que não: um não que abalou a História Universal.

Abreviando, ela veio a Las Vegas, meses depois, vê-lo cantar e Sinatra, na ceia, apresentou-lhe John Kennedy. John era quase tão bonito como ela, o sorriso alvo que herdara do pai, um corpo natural de homem que Robert Redford e George Clooney viriam a imitar. Ainda não disse: Judith tinha os olhos violeta que o bom Deus só autorizara a Liz Taylor, umas perfeitas mamas que, mais do que as da deusa Atena, cegariam Tirésias. Cegaram Kennedy.

John e Judith, nas estimáveis costas de Jackie Kennedy, entregaram-se ao voracíssimo prazer da ilicitude. Dois anos. Dormiram no Plaza, o que talvez explique o ataque de ansiedade que lá tive uma noite, dormiram em camas onde nunca dormi, na casa de família dos Kennedy, mesmo na cama de Jackie, até numa alcova da White House, ao lado da fatal e clintoniana sala oval.

Saímos de uma cama e já nos deitamos noutra: Sinatra apresentara também a Judith um bem-disposto Sam, dito Flood, que ela descobriria ser, afinal Giancana. Sam Giancana, ao contrário do bravo Kennedy, não era propriamente um cavaleiro da távola redonda: ganhava a vida nas duras sombras do morticínio e do crime. Era um dos chefes da Mafia. Sam olhou para Judith e cegou no mesmo exacto ponto onde Kennedy cegou.

E meta-se aqui uma ponta de cronologia. Estamos em 1960. John era só um senador e tinha de ganhar as primárias. A formosa e não segura Judith faz a incauta ponte. Vejam, Judith está sentada na bordinha da banheira, fechada no recato da casa de banho de hotel, enquanto os dois homens fecham a translúcida negociação nos sofás do quarto. Depois, John há de pedir a Judith que leve uma mala de dinheiro a Sam. E o povo concede o inesperado voto, na Virgínia, no Illinois, ao cândido e juvenil candidato.

Já presidente, os encontros a pedido sucedem-se. Judith leva documentos. Eu já tive, como toda a gente, a vagabunda dor de burro. Ora, a Mafia tinha a pavorosa e cínica dor de Cuba. Estava-lhe atravessada no fígado. E, na ala oeste da Casa Branca, um Kennedy cheio de escrúpulos tinha uma Guerra Fria para resolver. Ou se invadia Cuba ou se pendurava Fidel pelas barbas, cevando-o.

Uma palavra velada na cama, um sub-reptício envelope na mão, Judith passeou o seu prodigioso corpo por esses bastidores da História. O meticuloso J. Edgar Hoover documentou tudo, os telefonemas, as idas à sala oval, as viagens com dinheiro e documentos. Ironia da História, quem tombou, em Dallas, foi o garboso Kennedy. Dele, Judith guardou a terna memória e, de rubis e diamantes, um broche da Tiffany.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Peito banguela

Eu não conheço esta gente de lado nenhum Tenho pena. Têm lirismo, sabem o que é harmonia e melodia. Sabem, sobretudo o que é sedução e o quanto de ironia há na melhor sedução.

Vejamos, este Peito banguela é o encontro do tão inovador Keso, que aqui troca o chapéu de rapper pelo de produtor, com esse singular prodígio que dá pelo nome de Luca Argel, brasileiro, cantautor expressamente tardio para poder ter um pé no futuro. Gostava ainda de dizer que se lhes junta, nas mãos de Frankie Baptista, uma guitarra com acordes de me rasgar ao meio (komé, parece que estou lá na banda, meu kamba). As teclas são o recreio de Sérgio Alves.

Todos juntos, os citados têm menos anos do que eu. Quem é da minha idade (ou eu quase da dele) é Aldir Blanc, letrista e compositor, que emprestou os versos. Comprei um cd dele, no Rio, já lá vão mais de 20 anos.

Antes que perguntem, “banguela” é um termo brasileiro para o qual um bom sinónimo é “desdentado”. À boca desta canção, perfeita, não lhe falta dente nenhum.

Foi no Inverno e o calor da sala, espesso, era de Verão

 

Toledo_Bonfá

Deixem-me dizer-vos do que os meus ouvidos gostam. Gostam de Maria Toledo. Um dia, em Nova Ior­que, e espero que o ano de 1963 não venha por aí, desembestado, des­mentir-me, ela gra­vou a bonita, mesmo muito bonita, can­ção a que Tom Jobim e Vini­cius cha­ma­ram “Insensatez”.

Luiz Bonfá, o marido dela, acompanhou-a no vio­lão, o tenor sax que sofre deli­cado a amar-lhe a voz é de Stan Getz, o pró­prio Jobim estava ao piano. Era uma noite de Inverno, em Feve­reiro, e o calor da sala, espesso, tal era o cheiro a café, tinha essa viciosa coisa de parecer Verão.

Vem essa noite antiga e os meus ouvidos deixam-se ir. Vão beijar a voz de maria e o sax de getz. Lavam-se ouvidos na dolência de jobim, na insensatez de bonfá.

É verdade que és virgem?

Lubitsch_troupe

Por estranho que pareça, ser alemão não o impedia de ter um sofisticadíssimo sentido de humor. Chamava-se Ernesto. Lubitsch, se quisermos falar a sério. Foi um dos realizadores que agarrou no cinema ao colo levando-o do planalto do mudo para os desfiladeiros do sonoro.

Aconteceu tudo na primeira esquina dos anos 30, já quase lá vão cem anos. Foi nessa altura que se pediu aos actores que, como os antiquíssimos animais, começassem a falar. Hollywood exigia-lhes até que cantassem. Foi assim que Lubitsch catrapiscou uma encaracoladíssima loura, altas maçãs do rosto, olhos rasgados, cara de saúde, boca boa, uma alegria juvenil, transparente. Soprano, cantava na Broadway. Jeannette MacDonald era a americana da porta ao lado, genuína, vital, virgem. Dos três qualificativos só este último está sujeito a especulação ou, como se dizia em Luanda, a mujimbos.

Entrem comigo no plateau de Love Parade, o primeiro filme que os juntou. O alemão Lubitsch era um perfeccionista e um tirano. Os actores faziam o pino se ele mandasse, até Maurice Chevalier, a outra estrela da companhia. Menos essa Jeannette, americana, saudável e impertinente. Despeitado, Lubitsch pregou-lhe uma partida. Ela abominava que a chamassem pelo diminutivo Mac. Uma noite, Lubitsch mandou que apagassem o nome dela da sua cadeira de actriz, deixando apenas esse execrável diminutivo. Às nove da manhã, Jeannette entrou no estúdio. Lubitsch olhava-a à distância, à espera da explosão de fúria. Ela percebeu tudo e fez vista grossa. Ele foi-se aproximando, «Olá Jeannette, temos de esperar, não te queres sentar?» Ela disse que sim e sentou-se sem olhar para o raio da cadeira, para funda decepção do antepassado de Angela Merkel.

No dia seguinte, Miss MacDonald serviu a vingança quente. Quando Lubitsch chegou à sua cadeira, o nome, Mr. Lubitsch, estava ligeiramente alterado. Em letras mínimas, lia-se Mr. Lu e depois, separada, em maiúsculas, a palavra BITSCH.

Lu foi como ela o passou a chamar. Mesmo no dia em que no camarim ele a provocou: «É verdade que és virgem?» «Quem quer provar o contrário?» desafiou-o ela. Ele encolheu-se e ela: «E a tua mulher, era virgem quando casaste com ela?»

Ficaram unha com carne e faziam vítimas. Um dia, num jantar em casa de Lubitsch, veio Greta Garbo. O realizador apresentou-a. «Como é o nome?» gritou Jeannette, do outro lado da mesa, fingindo-se surda. «Garbo», berrou Lubitsch. «Oh, Garvin», disse ela, deixando a diva sueca de boca aberta. Mesmo assim, Garbo foi educada: «Prazer em conhecê-la, como tem passado?» «Oh, adoro ir ao mercado», respondeu Jeannette. «Eu disse passado», corrigiu-a a Garbo. Já Jeannete olhava espantada para o prato: «Assado? Pensava que era grelhado». Lubitsch apontou discretamente para a orelha e Garbo disse-lhe em surdina: «Pobre mulher, como é que ela consegue cantar, se não ouve.» Para germânico delírio de Lubitsch, do lado de lá da mesa, Jeannette, com rasgado sorriso, murmurou também: «Bom é assim, vou abrindo a boca…» Greta Garbo nunca lhe perdoou.

Domar o bicho

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 6 de Junho

Agustina

A cultura. Já foi um termo deslumbrante, hoje é um termo conformista. Por exemplo, agora, na morte de Agustina, vemos a comunidade, um joelho no chão, prestar-lhe tributo. E isso é bom, como disse o velho Deus, bica curta na mão, olhos postos na sua Criação. Mas reduzir Agustina à cultura é expurgá-la da sua natureza, apagar o fogo, domar o bicho. O génio de Agustina está na cruel animalidade das mulheres e homens dos seus romances, na vitalidade das suas ambições e mesquinhez.

A cultura não pode ser uma reserva de índios enfatuados. Precisa de correr riscos, da luz da inocência ao breu da maldade, se quer voltar a ser vida.