Quem ganhará estes livros em Agosto?

Os leitores da Página Negra também podem ganhar estes livros. Conheça as regras.

Já sabemos quem ganhou o Prémio de Melhor Comprador do Mês, em Julho.

Mas deixem-nos dizer quais são os livros que vamos oferecer ao Melhor Comprador do Mês, em Agosto. Um exemplar de um livro-álbum, gigante, a Fama e Segredo da História de Portugal, da autoria de Agustina. A essa maravilha, juntamos mais quatro livros: A Evolução de Deus, livro inteligente e cuidado de Robert Wright, Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, um livro amarelo que junta o Banqueiro Anarquista, de Pessoa, ao A Alma do Homem sob a Égide do Socialismo, de Oscar Wilde, e O Último Comboio de Hiroxima, de Charles Pellegrino.

Ganhará estes livros o melhor comprador do mês, estipulando as regras desta nossa oferta que a compra mínima a efectuar tem de atingir os 75€. As portas do nosso site estão abertas de par em par, as suas compras podem já começar.

Desde que começou, o Prémio foi sempre atribuído. Em Julho a vencedora foi uma leitora, que pede para referirmos apenas o seu primeiro nome, Catarina. Comprou 7 livros em Julho, no valor de 92,65€. Parabéns pelas compras. Parabéns pelo Prémio.

Recordamos que está em curso um outro Prémio, o do Melhor Comprador do Ano, para o qual reservámos uma oferta extraordinária: uma selecção de 50 livros a anunciar em Dezembro. O montante mínimo – 450€ – já foi ultrapassado por dois leitores, e mais não dizemos.

Top Guerra e Paz de Julho

Não sei se em 14 anos de Guerra e Paz já tínhamos tido um mês de Julho com tão fortes apostas editoriais. Mas a pandémica paragem de Abril e Maio mudou todas as regras e fez de Julho um mês cheio de novidades: elas aqui estão, espelhadas neste top 10 dos livros mais vendidos através do site da Guerra e Paz editores.

À cabeça um livro para organizar as poupanças familiares, o livro de Mónica Duarte. Depois, uma surpresa, o Atlas Histórico de África, com 100 mapas, dezenas de autores e uma visão da Pré-História aos nossos dias da evolução histórica desse continente tão amado e, por vezes, tão ignorado. Outras duas apostas de Julho, Esperança e Reinvenção, ideias para o Portugal do futuro, e Este Vírus que nos Enlouquece, dois livros que confrontam com audácia e polémica a crise pandémica, vêm a seguir, fechando o Padre António Vieira e o seu Sermão de Santo António aos Peixes os primeiros cinco do top.

A segunda metade do top inclui um livro que só é pena ter chegado tão tarde à língua portuguesa, O Ouriço e a Raposa, de Isaiah Berlin, o polémico Combates pela Verdade, Portugal e os Escravos, de João Pedro MarquesPorquê a Europa, livro esplêndido do sinólogo Jean-François Billeter de que Xi Jiping talvez não gostasse se o lesse, e a fechar o belo Tonalidades da Literatura Transmontana, de Norberto da Veiga e o trilingue Estamos Aqui, de Branca Clara das Neves.

Aqui entre nós, caros leitores, a Guerra & Paz orgulha-se deste top: plural e cheio de pensamento e história. Obrigado pelas vossas escolhas.

Mudou a Página Negra

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Correndo o risco de desiludir alguns dos seguidores desta página, quero dizer-vos que a Página Negra vai sofrer uma considerável mudança. Deixarei de publicar aqui as crónicas de que sou autor na imprensa portuguesa e deixarei de escrever aqui os textos mais pessoais, e de estados de alma, com que por vezes vinha atormentar a vossa paciência, fosse a propósito de uma finta, chulipa ou um golo de bandeira, fosse a propósito de uma curta saia numa tarde de Verão, ou de um soluço sufocado no escuro de um cinema.

Sou, como sabem, editor da Guerra e Paz, e tenho algum orgulho no trabalho feito nos últimos anos. Mais ainda no trabalho que fizemos (somos uma equipa, sim!) nestes sete meses de 2020. Quero concentrar-me nesse trabalho. E quero escrever, como o fiz no no estudo que precede o erótico Bordel das Musas, nas introduções ao Manifesto Comunista, Mein Kampf e Pequeno Livro Vermelho, ou nos recentíssimos textos que antecedem a Apologia de Sócrates, de Platão, e Na Farmácia do Evaristo, de Fernando Pessoa.

Vou deixar de escrever aqui, para escrever mais. Mais a sério, tentando não me levar demasiado a sério. Mas, por querer manter viva a Página Negra – ninguém tem o direito de apagar ou ignorar uma página negra! – darei aqui muito mais notícias das publicações da Guerra e Paz e dos textos, meus ou de outros autores. Vão ver que v ai valer a pena.

Para começar, deixo-vos – lá bem em cima – a imagem dos oito livros recentemente publicado pela Guerra e Paz a que o Plano Nacional de Leitura acaba de dar o seu selo. Na Guerra e Paz já são 65 os títulos aprovados pelo PNL. Entre eles, e ao lado da Correspondência de Jorge de Sena e João Sarmento Pimentel, ao lado do maravilhoso livro de Fernando Venâncio, Assim Nasceu uma Língua, está a Apologia de Sócrates, o meu pequenino Platão, que traduzi e prefaciei. É o meu último estado de alma nesta Página Negra. A partir de agora, aqui trabalha-se para defender livros e autores, pluralismo e debate.

Quem anda a comer Joyce?

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Ando a comer a “Madame Bovary”. Ora vejamos e toca a andar: não sou só eu.

Camélia, jovem francesinha de 14 anos, gosta de ler cinquenta páginas por dia. Quando entregue à devassidão da leitura, se lhe dá a fome, logo rasga bocadinhos de páginas, que mastiga com deleite, para apaziguar o ratinho que lhe rói o estômago. Mais e melhor, naqueles dias de extrema angústia adolescente, Camélia destaca cirurgicamente uma página inteira do livro e come-a com o mesmo ardor com que Aquiles incendiou a “Ilíada”. Pior, se lê uma página que não lhe agrada, come-a com voracidade canibal, o que, confessa, sempre lhe dá dores de barriga.

É provável que os pigmentos das cores, os aditivos estabilizadores e os elementos tóxicos associados ao papel e às tintas sejam ingredientes de dieta no mínimo irrecomendáveis. Mas nem isso impede Violette, outra francesa, de comer capítulos inteiros, hábito que lhe ficou de uma infância abusada, deixada em casa dias e dias com os irmãos, sem comida que se visse. Hoje, descamba na escatologia e come limpas folhas de papel higiénico.

Digam-me que é irreal e que é obsceno e eu indigno-me. Admiro os seres humanos que rivalizam com o peixinho-de-prata, parasita larvar que faz dos livros o seu menu diário. Todo o ministro da cultura devia ter a boca do peixinho-de-prata e passar o dia a comer livros, atacando-lhes a capa, perfurando em êxtase hermenêutico um túnel que levasse da página 2 à 159. Eis um programa de governo para Graça Fonseca: ser o peixinho-de-prata dos nossos livros. Aliás, o livro não é nada calórico, daí a elegância do peixinho-de-prata. Segundo os especialistas, a ingestão de 500 páginas, corresponde a meia caloria. Bem menos do que uma patanisca, arroz e feijão.

E passo de uma obscuridade a outra obscuridade: Marie Sochor, artista plástico-performativa, género muito apreciado por ministros, faz sessões públicas de ingestão de páginas da sua escrita, impressas em papel sem fermento, com tinta preta comestível. As mais apreciadas são as “pages à chier”, que me atrevo a chamar “páginas cagativas”. Não serei eu a lançar dúvidas sobre o valor laxante destes eventos.

E olhem, aí vem o livro lamber a boca subversiva do hip hop. Em delicado papel bíblia, Snoop Dogg, fez um livro para enrolar, “Rolling Words”. Capa em cânhamo, papel laminado, tinta não tóxica, tudo, mas tudo – ya, meu! – totalmente biodegradável, estas “Palavras Enroladas” são mesmo para fumar folha a folha.

Picasso não comia livros, mas deu, como Deus, a arte a comer ao seu cão salsicha, um Dachshund. Armava-lhe coelhinhos em papel, pintava-os e o Dachsund, cão esteta, chamava-lhes um figo.

Se chamei Deus ao parágrafo anterior, posso jurar que não o fiz em vão. Deus deu um livro a comer ao profeta Ezequiel. Está escarrapachado em Ezequiel capítulo 3, versículos 1 a 4: “Filho de ser humano, come este rolo, vai e fala aos filhos de Israel.” E disse-lhe Deus que o seu ventre ficaria saciado, o que Ezequiel confirmou: “Comi-o e na minha boca tornou-se doce como o mel.” Em verdade, em verdade vos digo, Jorge de Sena não teria sido o profeta que foi se não tivesse comido Fernando Pessoa, tal como o profeta do nosso século XXI, se o quiser ser, há de comer Pessoa e Sena.

Termino com um parágrafo heróico. O dinamarquês Theodore Reinking, em 1644, escreveu um tratado acusando os suecos da miséria da sua pátria. Foi preso e deram-lhe a escolher: ou era decapitado ou comia o manuscrito. Não hesitou: cozinhou as páginas num caldo de carne e comeu-o, salvando a vida.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

Uma dedicatória de Sam Fuller

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Eram os tempos gloriosos da Cinemateca. Corriam, um à frente do outro, os meses de Abril e Março de 1988. Organizávamos então um ciclo dedicado a Samuel Fuller, dito cineasta de guerra, que tem num filme carteirista o seu melhor filme, o que tudo diz das ideias feitas e dos princípios da catalogação. Tocou-me a mim organizar o ciclo, a meias com o João Bénard – ou para melhor dizer, fui eu a metade que ele usou.

Com o Luís Miguel Castro fiz este catálogo, que nunca mais estava pronto. Já o ciclo ia adiantado e catálogo viste-o! Veio Fuller à estreia, e voltou a outras sessões, e catálogo está quieto. Já éramos amigos, fizemos festas, uma em casa do actual decano do cinema português, o magnífico António da Cunha Teles. Já Fuller era da família, amigo também da Antónia e talvez lhe tenhamos dito que para o ano haveríamos de ter um filho, que por acaso é a minha filha. O catálogo é que continuava de parto adiado.

Quando o livrinho chegou, corremos a pedir-lhe o autógrafo, e ele deixou-nos esta dedicatória tão bem zangada de ainda nem lhe termos dado um exemplar desta obra renitente.

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A boca de Boris Vian

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Boris Vian arranca um sorriso genuíno a Miles Davis

Vejamos, é a boca de Boris Vian. Durante 15 dias não se lhe ouvirá um som, sequer um sussurrado ai. Morreu-lhe o pai. E agora, que já vos dei a notícia, acrescento: não morreu, mataram-no. Eis o que cala Boris Vian: o pai foi morto a tiro, por intrusos, em sua casa, a vivenda provincial da família.

Paul Vian era e não era o pai de Boris Vian. Herdeiro de uma pequena fortuna, dava festas de cem pessoas, prodigalizava aventuras. Merecia hedonicamente o dinheiro que tinha, semeando felicidade. O lendário colapso da bolsa de 1929 deixou-o descalço.

Descalço ou nu, não se encolheu: alugou a grande vivenda aos Menhuin, cujo filhinho seria o prodigioso violoncelista Yehudi Menhuin, e mudou-se para os anexos do caseiro. Poucos anos mais e voltaram as festas. Meteu tantos livros, teatro, música e boémia na cabeça de Boris, que já era o melhor amigo, o pai que, tivessem-no tido Salazar, Malcolm X ou Mao Tsé-tung, muitas chatices se teriam evitado. Eis o pai que dá lições de boémia, o pai a quem se encosta a cabeça adolescente.

Mas vejamos de novo a boca de Boris. Está colada a um trompete. Foi o pai arruinado que lho comprou numa Feira da Ladra. Por influência de Menhuin, quem sabe, Boris que estudou matemática, latim e grego, quer ser músico. Que outra coisa pode ser um miúdo com o reumatismo cardíaco que o médico lhe descobriu?

Agora olhem outra vez para a boca de Boris Vian, para o sorriso bonito, de tão gentil ironia, com que fala ao dono das Edições do Escorpião. O homem está, como eu, aflito com as contas da editora. A pandemia desse tempo fora a tropa nazi que deixara devastada a França, entretanto libertada. Vian casara com Michelle e vivia já em Paris. Tocava em hot clubes e conhecera Duke Ellington. Tivera um filho para quem escreveu uns “Contos de Fadas para Uso de Pessoas Medianas” e tinha na gaveta dois romances. “Queres um bestseller? Eu dou-te um bestseller!” disse ele ao editor escorpião.

E deu. Em dez dias, escreveu um policial, que assinou com o pseudónimo de Vernon Sullivan, para fazer justiça à trama e às personagens da cidade de Buckton, no sul dos Estados Unidos da América. O protagonista era um mestiço que, nesses anos 50, de segregação, se fazia passar por branco e se vingava, desenfreado, da morte do irmão, assassinado por ter dormido com esse tabu supremo, a mulher branca. “Cuspirei nos vossos túmulos” era o livro de cujas páginas transpirava violência com amarescente odor a sexo.

E vejam, já a boca de Boris Vian está em tribunal, acusado de ultraje aos bons costumes, por incitar adolescentes a actos de deboche e sadismo, até por o romance ter sido encontrado, aberto em página de incendiária violência, em cenário de crime, o de uma rapariga morta pelo amante num hotel de Montparnasse.

Autor do livro bandeira que é “A Espuma dos Dias”, em vida a boca de Boris não voltará a saborear mais nenhum êxito literário. A fina tristeza da morte do pai corre nele como rio subterrâneo. Afinal os assaltantes traziam a braçadeira da Resistência, parlamentaram com o pai, as mulheres da casa meteram-se pelo meio, e eles mataram-no com uma rajada. De que o acusariam?

E vejam o rictus feroz na boca de Boris Vian. Tem 39 anos e assiste ao visionamento do filme tirado de “Cuspirei sobre os vossos túmulos”. Levanta-se em cólera contra o que vê e uma síncope dá cabo do seu coração. Vai a enterrar no cemitério onde está o pai. Os coveiros estão em greve e têm de ser os amigos a baixar o caixão e a cobrir de terra o sorriso, boca e corpo de Boris Vian.

Crónica Publicada no Jornal de Negócios 

Documentos para a História

Este post vem direitinho da Guerra e Paz para a Página Negra. E eu vou já visitar a Feira do Livro que aqui nos prometem.

História Feira

Documentos para a História de Portugal, de Angola e do Mundo
FEIRA DO LIVRO

 Os que não conseguem lembrar o passado condenam-se a repeti-lo. George Santayana

Dê a mão ao passado – é uma grande forma de entrar no futuro. Fazemos-lhe um desafio: venha passear, virtualmente, nesta grande Feira do Livro, uma feira temática cheia de documentos chave para o aprofundamento da História de Portugal, da História de Angola e da História do Mundo. Temos 44 livros editados pela Guerra e Paz, que tocam aspectos particulares (como o Bunker de Hitler) ou oferecem retratos gerais de períodos históricos, caso da Revolução de Outubro ou da Breve História da Angola Moderna.

Temas candentes e polémicos como a Escravatura ou Quem é Fascista cruzam-se com documentos terrivelmente vitais como o Mein Kamp ou o Pequeno Livro Vermelho. Um livro pungente como Os Filhos dos Nazis ou um livro de Memórias escolhidas de um comunista português vão estar ao lado de ensaios sobre a natureza da História como o é A ideologia Afrocentrista à Conquista da História e essa obra que se interroga sobre o Triunfo do Ocidente. Revisitam-se aqui os dois dias 25 que marcaram a nossa democracia em Capitão de Abril, Capitão de Novembro, viajamos, em Muros, pela estranha vontade de clausura que por vezes assola a humanidade, e chegamos a essa bifurcação maior dos nossos dias, aquela que decidirá o nosso futuro e o dos nossos filhos, no ensaio inteligente e prospectivo que tem por título EUA versus China: Confronto ou Coexistência.

É uma grande Feira. Tem autênticas pechinchas, com livros que chegam a ter 40% de desconto. E, para completarmos a sua felicidade de leitor, a cada compra de dois livros oferecemos um exemplar do livro de fotografias de Picasso, do seu cão e de algumas das suas telas, belo álbum do fotógrafo americano David Douglas Duncan. Dois livros da Feira, seja qual for o preço, e o álbum com que comemorámos os 40 anos da morte de Picasso é seu.

Em louvor dos palhaços

Uns palha­ços, todos! É tão fácil, hoje, des­pe­jar os polí­ti­cos pelo cano do esgoto. Palha­ços, arlequins, jokers, encan­ta­do­res de ser­pen­tes. E eu peço ao José Tiny, admirável ilustrador destas pobres crónicas, que desenhe aqui um, demagogo, trumpiano e com um par de botas. Mas con­fesso já: não con­sigo cal­çar esse fácil par de botas. Talvez os políticos não sejam os palhaços que sempre são na conversa de café ou tasca.

E se tiver de con­fes­sar, con­fesso tam­bém: quis ser tudo na vida. Adolescente, sonhava em Luanda que, depois de vir a Por­tu­gal fazer a univer­si­dade – digres­são que ima­gi­nei como um rega­bofe boé­mio – voltaria à minha cálida colónia como can­tor de banda rock: e isto era eu, que tenho uma orelha de Van Gogh para a música, a sonhar ser can­tor. Quis ser tão aventureiro como Lord Jim, comprei uma camisa à Dr. Jivago, tive outra, de marca Regojo, igual à de Eusébio e imitei-lhe os penalties, bola para um lado guarda-redes para o outro. A pro­fes­sora pri­má­ria via-me Papa, um Jorge Ber­go­glio avant la lettre.

Só há uma coisa que nunca quis ser. Mesmo nos tem­pos de punhi­nho no ar, um pé no catolicismo pro­gres­sista, todo teologia da libertação e, logo a seguir, a espalhar-me ao comprido num maoismo com pós de Pol Pot e o sal mais snob de Sorbonne Paris VII, se andei em incen­di­a­das e africanas manifs de poder popu­lar, em verdade vos digo: nunca quis ser “um político”.

Escrita, rádio, cinema, televisão, quis tudo e quis “fazer coi­sas”, projectos, movimentos empresas, e já estive na fundação de quatro. Eis a ilusão que não me abandona: “fazer coi­sas” é o maior sinal de coragem de uma vida. Mas nunca quis ser político.

E toda­via lembro-me. Aos dez anos, estava numa aula do 1º F, minha pri­meira turma do Liceu Sal­va­dor Cor­reia, quando soube que tinham assas­si­nado John F. Ken­nedy com uma bala na cabeça. Uma peque­nina e ino­cente como­ção tocou os 20 e tal miú­dos que nós era­mos. JFK já era um homem ter­ri­vel­mente adulto aos nos­sos olhos meni­nos. Mas havia nele uma magia que o impedia de ser o velho que, para nós, seria qualquer pes­soa com a idade dele. JFK tinha uma ambí­gua juven­tude: vinha-lhe do físico, que o fazia pare­cer um júnior do Ben­fica de Luanda; vinha da fran­cesa ele­gante, quase yé-yé, quase Syl­vie Var­tan, que era a namo­rada dele. E vinha, sobre­tudo, das ideias que eram o único cha­péu dele, num tempo que odi­ava cha­péus. Nas ideias de JFK havia lai­vos do “Sgt. Pepper’s” que ainda estava para vir. Ou do “I can’t get no satis­fac­tion” que JFK nunca ouviu cantar.

Ao con­trá­rio do que, quei­xi­nhas e duvidosamente, can­ta­ram os Pink Floyd, precisamos de edu­ca­ção e de pro­fes­so­res que não dei­xem os kids alone, pre­ci­sa­mos de ciên­cia e de tec­no­lo­gia, de cren­ças e valo­res, mas para ter­mos mesmo um mundo novo precisamos de polí­ti­cos, pre­ci­sa­mos do san­gue, suor e lágri­mas dos Churchills, pre­ci­sa­mos dos sonhos dos Luther Kings, pre­ci­sa­mos que um tipo de fati­nho, quase um puto, cató­lico e adúl­tero, se ponha em bicos de pés e grite por cima do muro sinistro, “Ich bin ein Berliner”.

Hoje, não há nin­guém que os com­pre. Chamam-lhes palha­ços: todos uns palhaços! Mas por tudo o que vi e pas­sei, a única coisa que vou con­ti­nuar a jurar a mim mesmo é que sem palhaços não há demo­cra­cia. Por mais exan­gue que a patética demo­cra­cia pareça estar, por mais vírus que lhe queiram enfiar na boca engelhada e triste, Merkel, Costa, Passos ou Marcelo, Macron ou Boris Johnsson, mão esquerda ou direita, “fazem-lhe coisas”. A esse risco chamo coragem: nessas mãos que arriscam e mexem revejo-me.

Crónica publicada no Jornal de Negócios