Morreu Mécia de Sena

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Com Mécia de Sena e Maria de Lurdes Belchior à porta do 939, Randolph Road

A esta nossa tormentosa Primavera, chega a mais outonal das notícias: a do falecimento de Dona Mécia de Sena.

Bati à porta de sua casa, em Santa Barbara, Califórnia, no 939 Randolph Road, em 1986. Pela voz e santa paciência de Mécia de Sena, eu, que julgava saber uma ou duas coisas sobre Jorge de Sena, descobri dele o imenso e brilhante lado escondido da lua. Vi a sala onde, cercado de livros, ouvia música, a secretária a que trabalhava, a mesa a que comia. E descobri que Mécia de Sena, a par da feroz guardiã da obra desse homem com quem partilhou o amor e a vida, era também e sobretudo uma finíssima estudiosa e crítica de poesia e romance, senhora de uma cultura variegada e vastíssima. De tudo isso me falava, e de música, e de ópera, enquanto, diligente, fazia um jantar para 10 ou 14 pessoas, como quem passa manteiga numa torrada. O seu ócio era a actividade.

Mécia revelou-me esse arquipélago de correspondência, acções e intervenções de um Sena imparável, mesmo quando as suas dores físicas o constrangiam, mas não vergavam. De Mécia descobri a irradiante luz própria.

E descobri a alegria simples e o riso: com ela, e com Maria de Lurdes Belchior, tive o picnic da minha vida, numa Missão Espanhola, na costa californiana, a bolinhos de bacalhau e uns inesquecíveis ovos verdes, delícia lusíada degustada com os olhos no imenso oceano que é o Pacífico.

Desse encontro resultou, mais do que uma amizade e um carinho mútuos, a minha admirada devoção por Mécia de Sena, pela sua inteligente persistência, pela sua cultura e rigor, pela descoberta da sua escrita cuidada, arrebatada, fluente e discursiva. Nesse remoto 1986 organizámos juntos um livrinho, Sobre Cinema, reunindo todos os textos que sobre filmes Jorge de Sena escrevera. Depois, quando me fiz editor, Mécia confiou-me as Dedicácias, e várias Correspondências de que destaco o belíssimo carteio de Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen, exemplo de partilha e amor poético e filosófico.

Já com Isabel de Sena, filha de Mécia e de Jorge, e desde que a idade tornara impossível a Mécia continuar a ser a guardiã literária de Sena, publiquei a Correspondência com Eugénio de Andrade e, há poucos dias, a Correspondência Jorge de Sena–João Sarmento Pimentel, na qual Isabel de Sena, que a organizou, incluiu também algumas cartas assinadas por Mécia de Sena. São, essas cartas, o testemunho do seu brilho intelectual, da sua escrita viva e da sua grandeza humana. É um pequenino orgulho poder juntar-me a essa homenagem que a filha Isabel lhe prestou.

Pimentel

Morreu, no dia 28 de Março de 2020, com 100 anos, Mécia de Sena. Digo-lhe adeus certo de que sou apenas um dos que guarda dela a memória de um ser humano grande e combativo, cheio dessa graça que é a vida. Eis o que nunca se apaga.

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Na Cinemateca com Mécia de Sena e António M. Costa

O herói e os canalhas

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O pequeno herói

Agora vejam o herói. Tem um nórdico metro e cinquenta e dois e ia ganhando a guerra. Mas antes de falar deste finlandês de olhos agudos e mãos camponesas nas quais quase podemos apalpar a ternura com que o indicador direito acaricia o gatilho, deixem-me chamar aqui os canalhas.

Os canalhas são Hitler e Estaline. O nazi e o comunista já estão ao colo um do outro no abominável pacto em que se cevaram e já retalharam a Polónia, toma lá metade, dá cá metade. Cada canalha fareja o canalha que há no outro. Estaline teme que o canalha alemão dê a volta por cima e lhe entre pela porta de serventia meia escandinava que é a Finlândia. Com as boas maneiras insidiosas do antropófago, Estaline diz carinhosamente aos finlandeses que lhes vai comer 25 quilómetros de território ao longo da fronteira para protecção das suas nádegas georgianas. A rouca voz da Finlândia responde com um rotundo e já arquejante “não”. O canalha, socialista e científico, atira com 750 mil homens, uns seis mil tanques e quatro mil aviões para cima da Finlândia.

Os finlandeses deveriam cair numa tarde, num dia. E é aqui que entra o herói. Simo Häyhä estava em sossego camponês, serviço militar cumprido, mas é mobilizado. Traz, presa aos seus 34 anos cambutas, uma velha espingarda, a Mosin-Nagant M28, com anacrónica mira de aço. Veste a imaculada farda branca e vai, sozinho, fundir-se com a floresta de neve finlandesa. Rasteja, procura buracos de raposa, com gestos delicados calca a neve onde vai apoiar a arma para que, ao disparar, não se levante uma nuvem de partículas que o denuncie, mete na boca bolas de neve para matar o bafo quente da respiração e espera, invisível. Os soviéticos hão de vir. E quando vêm, um só tiro, mata o primeiro. Matará 505.

E tenho de voltar ao canalha. Estaline também ajudou a matar estes 505 russos. Na Grande Purga, de 1934 a 1938, o canalha liquidou dois terços dos quadros comunistas e cinco mil oficiais do Exército Vermelho, entre majores e generais. Nunca ninguém matara tantos comunistas como este Führer dos comunistas. Inexperientes, os novos oficiais do exército da URSS na Finlândia aprenderam a comer o pão da guerra com a massa que o diabo amassou. De farda escura os soviéticos eram coelhos vermelhos numa paisagem branca. Simo Häyä em cem dias mata 505. Cinco por dia se acreditarmos nessa história das médias, fora o dia em que matou quarenta. Vejam bem, um tiro, um homem. Na I Grande Guerra foram precisos sete mil tiros para cada baixa. No Vietnam 25 mil.

Os soviéticos chamam a Simo a “Morte Branca”. Num dos combates, Simo e mais 33 fazem recuar 4 mil soldados vermelhos. A artilharia matraqueia a posição onde Simo possa estar. E nada. Vem a aviação fazer terra rasa. E nada. A “Morte Branca” continua a devastar as hostes russas.

E ouçam os versos que cantavam os meus amigos que foram para heróis na guerra da independência de Angola: “Eu vou, eu vou morrer em Angola / Com arma, com arma de guerra na mão / Enterro, enterro será na patrulha, / Granada, granada será meu caixão.”

 Sem saber que é isso que canta, a 6 de Março, Simo volta a avançar, rastejante, camuflado. Abate mais um inimigo e há de ser, desse dia, a última coisa de que se lembra. Um sniper soviético dá-lhe a comer do mesmo veneno. A bala estoira-lhe a bochecha e arranca-lhe a mandíbula. Os camaradas resgatam-no. Recupera a consciência no dia em que se assina a paz e há-de viver, com a sua meia cara de herói, uma vida de caçador de alces e criador de cães. Simo morreu em paz aos 96 anos.

A minha crónica semanal publicada no Jornal de Negócios

Milagres e hospitais

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foto do CM, com a devida vénia

Estas mini-crónicas, as minhas Bicas Curtas, são publicadas, 3.ª, 4.ª e 5.ª, no CM. São escritas dia a dia e são reacções imediatas à actualidade. Trago-as para aqui, duas semanas depois, com o risco de já estarem ultrapassadas-

O milagre

Agora que a maior viagem que podemos fazer é a viagem em redor do nosso quarto, incapaz de dizer sobre o coronavírus algo que não tenha já sido dito, faço uma sugestão: leiam. Fujam das visões pestíferas com um livro divertido, cheio de personagens boémias, um bando de bons vagabundos, que sabiam o que fazer com o ócio, geniais a arrancar prazer de uma fatia de pobreza e de um ou dois copos de vinho. Também há uma lareira, o doce calor humano, cães e mesmo o milagre de um santo. “O Milagre de São Francisco”, romance de John Steinbeck, reensina-nos a beleza de não fazer nada. Lê-se num fósforo e põe-nos a boca e a alma a rir.

Coração gémeo

Mesmo se nunca acreditou na alma gémea, acredite, agora, no coração gémeo. A pesquisa de universidades belgas, inglesas e americanas desenvolveu um coração digital. Será um coração digital gémeo do seu e do meu. Com esse gémeo poderá monitorizar-se o coração humano e detectar problemas da função cardíaca. Levamos no peito o nosso coração e o médico pode observar no coração digital se caminhamos bem e dormirmos melhor – ainda que o coração gémeo não saiba com quem.  Agora que andamos de coração tão aflito, é um belo pingo de esperança ver nascer o coração gémeo que, mais uns anos, não deixará falhar o nosso. Ou o dos nossos filhos.

Os médicos

Uma destas noites, Portugal veio à janela aplaudir médicos, enfermeiros, assistentes, essa mulheres e homens que se esfarrapam à exaustão para salvar vidas e vencer o sórdido vírus. São ainda mais heróis, digo eu, porque se batem por uma causa humilde: arriscam-se a morrer para garantir que depois de amanhã possamos sentar os nossos filhos ao colo e dar-lhes um beijo; para termos a alegria da bica curta numa esplanada; para que venhamos rir-nos para a rua e façamos as asneiras comezinhas sem as quais o raio da vida não é vida. Médicos heróis: sofrem e lutam, hoje, para gozarmos amanhã, sem cuidados, a vida banal de todos os dias

Voltou o Escrever é Triste

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O Escrever é Triste é uma lenda. Escreviam lá 16 ou 17 autores, sei lá. E já levanto um braço para dizer que está mal, qual escreviam, qual quê, desenhavam, fotografavam, diziam poemas. Por ter acabado o Escrever é Triste é que eu criei esta cela solitária, esta monástica Página Negra.

Pois bem o Escrever é Triste voltou. Está aqui. Estar aqui e estar tão bonito já é um milagre. Mas o Ricardo Espírito Santos, que eu conheci na SIC, realizador imparável, que fez os mais belos “jornais da Noite”, que deu ao futebol um toque de delicadeza e ambrósia nos muitos jogos que realizou, fez para a RTP um programa, o Novo Mundo Digital, e fez sobre o Escrever é Triste um programa de televisão lindo. Vamos poder vê-lo no dia 4 de Abril, um sábado, às 11 horas da manhã, na RTP 1. Levantem-se dessas camas e mesmo de pijama, e antes do banho recauchutante, deixem-se levar pela câmara e pela narração do Ricardo. Que programa lindo!

Já disse e repito, o Escrever é Triste voltou. Está aqui. Estar aqui, tão vivo, juntando de novo os mesmos autores, ainda mais amigo e solidário, é um milagre anti-pestífero. Uma espécie de antídoto albert-camusiano contra o covid 19. Escrever é Triste e, todavia, tão feliz.

Este foi o video de promoção da estreia. Mas, não se esqueçam, é no sábado, dia 4 de Abril, às 11:00 da manhã, na RTP1.

O papa apóstata

Peço desculpa aos leitores da Página Negra, mas outros valores e urgências se levantaram. Espero que estejam todos com um valente saúde anti-vírica.

São Pedro

De que cor são os olhos do Papa Francisco? Apesar de já se ter derramados sobre eles a indecifrável cor da velhice, são claros como os do meu avô Brigas, que ofereceu o corpo a cargas contrabandistas, antes de ser emigrante na Argentina. Terá o avô Brigas cruzado em Buenos Aires o menino Bergoglio? Que interessa. O que eu queria dizer é que os olhos de Francisco se iluminam sempre que sorri. Ou seja, iluminam-se muitas vezes.

Os olhos de Francisco também olham algumas vezes para o céu.  Já o vi, em fotografias, olhos postos no alto horizonte e parece-me, nessas ocasiões, que afinal são quase azuis os seus olhos claros, reflexo talvez da luz celeste. Adivinho-lhe então nos olhos uma tris­teza azul – e o que esta frase ganharia escrita em inglês! Mas logo a fileira branca dos den­tes e a doçura da con­tração do rosto, a que cha­ma­mos sorriso, dão cabal des­men­tido à minha lamentável desconfiança ou a qualquer sus­peita de tristeza.

Tal­vez os olhos deste homem, tão largo e con­fi­ante é o seu sor­riso, este­jam a ver Deus. Afi­nal, se há no mundo um homem habi­li­tado a ver Deus é ele, o homem da batina branca. Che­guei a pen­sar que era de ouro e disseram-me que era de prata, a cor­rente que traz presa ao pes­coço e lhe des­liza pelo peito sus­ten­tando a Cruz Pei­to­ral. O soli­déu sin­gelo e a sotaina branca conferem-lhe uma ele­gân­cia con­for­tá­vel. Se que­re­mos ver a Deus deveríamos vestir-nos assim e calçar, como ele, uns sapa­tinhos vermelhos.

Lembrei-me, sabe Deus porquê, de um conto de Gio­vanni Papini, magnífico escritor cujo romance com o fascismo quase o apagou da história da literatura. É a his­tó­ria de um dis­si­mu­lado após­tata que é eleito Papa. Quando cami­nha para a varanda que se abre sobre a agora vazia Praça de São Pedro e sobre a mul­ti­dão que, em fé e pela fé, exulta e reza, esse novo Papa vem pronto para denunciar a fraude, a gigan­tesca impos­tura que ele pensa ser a reli­gião. Abrem-se as por­tas, ele dá o primeiro passo, dis­curso na ponta da demoníaca lín­gua ser­pen­tina, e a esperança e gáu­dio da mul­ti­dão entram nele como a luz que lavasse os olhos de um cego. O após­tata converte-se e já o habita o Pai, o Filho e o Espí­rito Santo.

E se este Francisco de quipá, per­dão, de soli­déu alvo, se este homem que é tal­vez o único que pode ver Deus, sou­besse, como mais nenhum homem sabe, que Deus não existe? Por­que mais nenhum homem sabe, como este homem sabe, que o Deus a que um milhão de fiéis se ajo­e­lha na gigan­tesca praça dessa Roma que crucificou Pedro de cabeça para baixo, esse Deus patri­ar­cal, a cor­rer de prece para prece, entre­tido a vingar-se, a acu­sar, a sal­var, cas­tigo numa mão, a mise­ri­cór­dia na outra, nem por mila­gre pode exis­tir.

Sécu­los de teo­lo­gia e Tei­lhard de Char­din dis­si­pa­ram essa nuvem, essa luz que cega Pau­los. Sécu­los de teo­lo­gia e Pierre Tei­lhard de Char­din foram um tiro na pomba. Este homem sabe e, toda­via, na tris­teza clara, quase azul, dos olhos que levanta ao céu, nesse seu sorriso que pro­mete mais regresso à vida do que a Vénus de Bot­ti­celli nos pode dar, ele acredita.

E que insus­ten­tá­vel fra­gi­li­dade! A tris­teza clara, quase azul, de um olhar e um mara­vi­lhoso sor­riso de conto de fadas sus­ten­tam uma civi­li­za­ção, uma imensa e recon­for­tante forma de ver, sen­tir e viver o mundo. Bas­tava que este homem dis­sesse uma só pala­vra. Uma pala­vra e a mul­ti­dão cor­re­ria des­vai­rada, em uivos apocalípticos…

Eis como vivemos, eis a civilização que criámos: a uma pala­vra do caos, a uma palavra de um triun­fal niilismo. Que insus­ten­tá­vel fra­gi­li­dade. Que insustentável beleza.

Crónica escrita há 15 dias, publicada há 8, na minha coluna do Jornal de Negócios. 

Matem o general Aupick!

Baudelaire

Matemos o general Aupick! Mato-o eu com um punhal florentino ou mata-o o leitor com um limpo tiro de espingarda?

Vejamos, o poeta francês Charles Baudelaire subiu às barricadas, corria a comoção revolucionária de 1848, que invadiu os povos da Europa com a galopante velocidade de um coronavírus. O povo de Paris, a que o presidente Macron não distribuíra ainda os coletes amarelos, desaguou nas praças com os seus músculos pré-lisnave, assaltou armeiros, espingardarias e arsenais e Baudelaire, sacudindo da bela melena o spleen de Paris, já levanta no ar o roubado fuzil de dois canos, uma cartucheira de couro a obliquar-lhe um peito que ferve de metáforas, perífrases e prosopopeias.

Mas eis que a todas as figuras de estilo, se impõe a apóstrofe! Baudelaire, com a magreza a que a sífilis o verga, uma voz que não tem um quinto do estentóreo da voz de Ary dos Santos, cavalga a barricada como se montasse o cavalo mongol de Gengis Khan e grita à tresloucada turbamulta: “Fuzilemos o general Aupick! Vamos matar o general Aupick!”

A multidão está pronta a fuzilar a abstracta burguesia, sonha com a ideia de cem banqueiros estripados, talvez dezassete padres enforcados nos cordões das próprias batinas, mas ouvir-se um nome, mesmo o nome de um general, é uma mancha ultrajantemente concreta para a grandiosa, radiosa, libertadora e utópica revolução.

E quem é o general Aupick? Eis a pergunta que já se desenha no rosto rubro da multidão. Ora Aupick é o padrasto de Baudelaire. É o comandante da escola Politécnica, virá a ser embaixador, e já não faz, por esta altura, mal a uma mosca. Mas Baudelaire, órfão de pai aos sete anos, não lhe perdoa as tentativas de o submeter a uma mais austera educação, não lhe perdoa, entendamo-nos, ter-lhe roubado o exclusivo dos mimos da mãe. Quando Baudelaire brada aos céus e à multidão “Vamos fuzilar o general Aupick!” é a literatura que afirma os seus direitos, cena shakespeariana, um rumor edipiano que o menino Sigmund Freud, então com oito anos, terá escutado em Viena.

E já vasculho no meu passado. O que gritei eu nessa revolucionária independência angolana, quando a febre anarco-maoista me encheu o coração de hipérboles? Lembro-me com carinho desses dias de fragor e fogo e a primeira coisa de que me lembro é que os elevadores deixaram de funcionar. Bem sei que a revolução, na sua voracidade igualitária, não gosta que nada suba e está cansada das coisas que descem. Mas os elevadores fizeram-se para descer e subir, e peço pelas alminhas aos futuros revolucionários que tenham este pormenor em conta: é na imobilidade dos elevadores que a revolução começa a perder o seu encanto.

Gritasse eu o que gritasse, nada do que gritei ombreia com o urro de Baudelaire, a que já voltarei. Houve, não obstante, uma palavra de ordem que ainda hoje me risca o peito de luz. Um camarada comandante, com aquele lindo sotaque Hoji Ya Henda, gritava numa interrogação retórica à multidão, “O colonialismo?” E a multidão, com este puto Manel lá no meio, respondia, musical, mozartiana: “Caiu na lama!”

Na lama da pós-revolução, Baudelaire foi dirigir um jornal republicano bem posto, no círculo de Berry, coração da França. Apresentou a amante como sua mulher. À primeira polémica despediram-no. E o ofendido presidente do jornal, um notário, recriminou-o: “Além do mais a senhora que nos apresentou como sua mulher, é afinal a sua favorita.” Foi aqui, que Baudelaire matou o general Aupick: “Senhor, a favorita de um poeta vale bem a mulher de um notário!”

Jeanne Moreau

Agora que a propósito do ubíquo covid19 tanto se fala da dificuldade da Europa se unir e atordoar o vírus com uma bem orquestrada política comum, a mim só me dá para pensar em actrizes. Sonhei, pensei e deixe-me levar pelo enlevo de Jeanne Moreau, contra a qual já o impenitente covid19 nada pode.

Jeanne Moreau
O imaginário europeu precisa de ser levado ao colo

Falta à Europa um imaginário europeu. Mas o imaginário europeu, no século do cinema, foi sobretudo um vulcão sem actividade. Por vezes, uma erupção. Marlene Dietrich quando foi anjo azul. Brigitte Bardot quando Vadim, que talvez fosse Deus, a criou. As italianas. A Anna Magnani de Rossellini e Roma, Cidade Aberta; Silvana Mangano, que o meu sogro ia ver ao cinema de bairro; a Loren e a Cardinale, que gostaríamos de ter visto onde mais ninguém nos visse.

Jeanne Moreau podia, mais do que a maioria das actrizes, ter inaugurado um imaginário de modernidade. Um imaginário ao mesmo tempo transgressor e lírico. Um imaginário amoroso sem servos ou servas, sem senhores ou senhoras. Um imaginário de tensões e contradições, que tanto afirma o corpo como o espírito. Num só filme mítico, “Jules et Jim”, com uma personagem que nem entra no título, Jeanne Moreau deu-nos tudo isso como mais nenhuma mulher ou homem o terá conseguido no cinema europeu. Na boca, no olhar, nos gestos dela irrompe uma forma de amar europeia. Que o cinema que veio depois, quelle domage, não conseguiu continuar. Deixem-me lembrar esse filme, essa lição de educação sentimental a que Jeanne Moreau deu corpo. Não encontro melhor forma de a homenagear.

Ménage à trois
A mulher americana começara a tomar a pílula havia quatro anos, faltavam outros quatro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as calças a arder. Em 1964, Truffaut filmava “Jules e Jim”, história de um ménage à trois, gentil e pudico como todos os ménages à trois.

Em 1964, herdeiro mal lavado dos beatnicks Ginsberg e Kerouac, o movimento hippie começava a sua peregrinação pelos torcidos trilhos do amor livre, cultivando abundantes formas de promiscuidade física, sexual e intelectual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita contracultura. Mas o filme de Truffaut, como o próprio Truffaut, está nos antípodas dessa vaga de sexualidade exsudante, se me autorizam o transpirado qualificativo.

Truffaut gostava muito de um autor velhinho, Henri-Pierre Roché, que escrevera, aos 64 anos, os seus primeiros livros de sucesso. Um deles foi “Jules e Jim”. Trabalharam juntos na adaptação, mas aconteceu a Henri-Pierre o que acontece a todos os velhinhos: morreu. E Truffaut levou o romance para o que era a sua forma subtil de ver o mundo: estetização, elipse, refinadas sugestões, uma lírica educação sentimental.

OUçam a história: dois amigos, um francês e um alemão, ambos de fina cultura literária, livres de preconceitos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arreigados e firmes, partilham, na Belle Époque, o amor da Catherine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulheres são mais bonitas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em “Jules e Jim”, nunca houve mulher com gestos tão graciosos e suspensos. Por causa dela pensamos que devia ser normal haver apenas ménages à trois e, entre cigarros e cognacs, passarem dois homens muitas noites a discutir a mulher que partilham, descobrindo que cada um ama uma diferente parte dela.

Era o que faríamos se fôssemos franceses e amigos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defendeu o que chamou “poligamia experimental”. Estou a exagerar: talvez só a tenha praticado. Passava as amadas ao seu melhor amigo e sustentou, ao mesmo tempo, quatro lares. A tudo isso alude “Jules e Jim”. Mas, ou Truffaut não fosse Truffaut, nunca o sublinha. Terá Truffaut sido infiel ao velhinho autor que em vida amara?

Turbilhão de vida
“Jules et Jim” é o filme em que François Truffaut se deu ao único verdadeiro luxo que a vida de um homem pode ter, o de ser, ao mesmo tempo, fiel e infiel. A quem? Não interessa? Não interessa o quê, interessa, sim. Já lá vamos.

No filme, inspirado, já disse, no livro autobiográfico de Henri-Pierre Roché, uma mulher ama em simultâneo dois homens, com o sossegado e emotivo consentimento dos três. Mas em “Jules et Jim”, os dois homens, um alemão e outro francês, são só silhuetas do turbilhão que foram em vida.

Jim fora, na vida real, Henri-Pierre, o escritor, amigo da vanguarda parisiense, que convenceu Gertrud Stein a comprar as primeiras telas de Picasso. Inventou, se quiserem, o cubismo, metendo dólares nas bocas dos artistas, para lhes dar músculo ao braço que pinta. Foi o primeiro francês a ler “A Interpretação dos Sonhos” de Freud e escreveu-lhe até, a contar um sonho em que a própria mãe o violava.

Tinha sido Franz Hessel, o Jules do filme, a revelar Freud a Jim. Era amigo de Walter Benjamin, com quem traduziu Proust para o alemão. Apaixonado pelos franceses, traduziu também Baudelaire e Stendhal. A estes Jules e Jim reais unia-os tanto a amorosa partilha de uma assembleia de mulheres, como a exaltada vivência da literatura e das artes. Não era lá serem cultos, era viverem aquilo: os livros, as telas, os espectáculos iam directos à veia. A actual ideia de uma cultura desvirilizada, paga por secretarias de Estado, ser-lhes-ia abominável. Neles, a cultura tinha de ser uma forma de tesão. A negrito.

“Jules et Jim” não será completamente fiel a estes magníficos carroceiros das artes. Por ser de Truffaut, só é fiel a uma mulher. Jeanne Moreau, ou melhor, a sua boca, olhos, rosto, voz e cabelos gamam o filme e tomam conta dos nossos olhos.

Truffaut soube por carta que, ao filmar assim Jeanne Moreau, fora afinal fidelíssimo. A carta assinava-a uma desconhecida Helen Hessel, cujos 75 anos eram o que restava da mulher real amada pelos já falecidos Jules e Jim. Helen correra a ver o filme e, na sala escuríssima, vira “ressuscitar o que tinha vivido cegamente”. Perguntou a Truffaut: “Que afinidade o iluminou ao ponto de revelar o essencial das nossas reacções íntimas?” Há perguntas que valem mil elogios. E, hoje mais do que nunca, é da mais inteira justiça dizer que vem de Jeanne Moreau essa luminosa afinidade.

Nariz de nariz tão perto

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Um nariz de outro nariz tão perto

Nos dias 3, 4 e 5 de Março, há semana e meia, portanto, quem tomou comigo a Bica Curta, no CM, leu estas prosas, que metem, sono, cama e mais vontade de cura do que de doença. Não há nada a fazer, é o meu feitio. 

Cheira bem, cheira!
É o que se chama matar a solidão pelo nariz. Os psicólogos da Universidade da Colúmbia Britânica fizeram um estudo de sono com 155 pessoas. Puseram-nas a dormir sozinhas, mas com uma t-shirt na almofada. Numa noite, uma t-shirt impregnada com o cheiro do parceiro com quem viviam. Na outra noite, uma t-shirt igual, sem nenhum cheiro.

Foi trigo limpo, farinha amparo: qual xanax, qual melatonina, dormir com a t-shirt a cheirar à ou ao parceiro melhorou muito o sono, limpando ansiedades e as voltas na cama. Se viajar, leve a t-shirt do seu amor e cole-a ao nariz à noite. Com cheiro de três dias, se faz favor. Ah, eu disse a t-shirt!

Activistas do alarmismo
Os activistas do alarmismo têm agora o coronavírus na boca. Verdade, o coronavírus tem o perigo da novidade e, para já, da falta de antídoto. Mas os alarmistas não querem saber da cura, querem é saber da histeria.

Um exemplo recente: o clima e o CO2. Os alarmistas nem querem ouvir falar da energia nuclear, a melhor tecnologia, mais barata, segura, para erradicar o CO2. O nuclear é melhor e mais eficiente mesmo do que as energias eólicas e solares, que são caras e intermitentes. Mas os alarmistas não querem saber de resultados, querem é ter a boca cheia de vírus, cheia de alarme e de fim do mundo. O orgasmo deles é a catástrofe.

Dá-lhe gás, bebé
Nasceram mais bebés em 2019. Mas a nossa taxa de fecundidade ainda é a mais baixa da Europa. Não é que os portugueses não se amem e não vá por aí uma valente rebaldaria. Não queremos é fazer filhos. Sim, venham os abençoados imigrantes. Mas não chega!

Em vez de nacionalizar a banca, nacionalize-se a fecundidade: no ano de nascimento do primeiro filho devolva-se ao casal metade do seu IRS; reduza-se a metade os impostos dos pais de dois filhos e isentem-se para a vida os pais de três; remunere-se uma afectiva rede de avós, tios e tias que cuide da guarda das crianças para as mães poderem ir trabalhar. Dê-se gás ao vigor amoroso.