O paraíso

joaquim Lopo
foto de Joaquim Lopo, com a devida vénia

Tive um vislumbre do que é o paraíso. Tinha vinte anos, uma das melhores idades para se ver o paraíso, e a primeira coisa que descobri foi que, no paraíso, Deus primava pelo absentismo. Não estava lá.

Não fui o único. Em verdade vos digo, tudo se passou numa noite de copos, antecâmara do paraíso, tanto mais que já era, nesse ano de 1975, na Luanda lagarta em metamorfose, minuciosamente difícil encontrar copos. Com argúcia científica e o faro dos predestinados, dois amigos meus tinham levado o velho Volkswagen negro de tasco clandestino em tasco clandestino, bebendo em bares sombrios os geladíssimos finos que abrem portas à fina areia da eternidade.

 A cidade de Luanda era um caos: paradisíaca e deliciosa ausência de lei a beijar os lábios da semi-anarquia. Os meus amigos a que, para salvaguarda da sua fortuna e bom nome, chamarei Simão e Mário, regressavam à Vila Alice, nosso bairro, paraíso instalado entre dois promontórios, albergando em simétrica oposição, dois figadais inimigos, o MPLA e a FNLA.

Conduzia o Simão e deixou o Mário na poética rua Eugénio de Castro. O Mário já abria o portão do quintal, quando, do nada, como só no paraíso acontece, viu emergir, à frente do velho carocha, metralhadora na mão, um jovem combatente, anjo ou semi-deus negro. “Komé Kamarada – disse ele, com os k todos, ao meu amigo Simão – tens de me levar no bairro Pica-Pau.” A metralhadora apontava, com celestial negligência, à cabeça do Simão, o que se deve entender mais como distracção do que como ameaça. Parlamentou-se. O Simão invocou mil perigos e as patrulhas na Estrada de Catete por onde teriam de passar. “E como é que o camarada se chama?”, rematou, com espírito conciliatório, a bonomia de um arcanjo bem bebido.

O camarada chamava-se Sempre Fixe, juvenilíssimo rosto resplandecente e suado, numa exaltação de quem acabou ler de uma assentada as incendiadas páginas do “Marriage of Heaven and Hell”, de William Blake. Por outras palavras, uma ganza como a minha mãe, Alice Fonseca, nunca me viu.

Já o solidário Mário voltara ao carro. Entrou para o banco traseiro, Sempre Fixe no da frente, metralhadora apontada ao condutor. E arrancam, quase três amigos, como se se conhecessem há 500 anos. “Komé Kamarada, vira só então a metralhadora para lá, pode ser?” Sempre Fixe, com calma seráfica, mete o dedo no cano e carrega no gatilho. “Não tem bala, isso não dispara já. Vamos no Pica-Pau buscar munição.”

E eis, ao longe, a primeira patrulha. “kamarada, acelera, então, não pára, não pára.” Pé no acelerador, o Simão passa pela patrulha portuguesa na 7ª esquadra, numa bisga olímpica, jamaicana. Talvez não fosse, de tão negro, um carro, terão pensado os soldados portugueses, a remoer saudades e um apropriado je m’en fiche, se esta fosse uma crónica francesa.

Nem um tiro, embrenham-se na poeira do musseque e já estão no centro do Pica-Pau, o Sempre em Fixe a saltar do carro e recomendação de mil cuidados, que no paraíso os amigos são mesmo para as ocasiões: “Vai já, camarada, vai já, aqui é perigoso. Tem cuidado.”

O salvífico Volkswagen, a respirar heroísmo, voltou a passar sem parar pela patrulha portuguesa, ainda a esfregar os olhos e Simão regressa ao paraíso doméstico, com a amada a dizer-lhe: “Onde andaste? Houve aqui duas horas de tiroteio.” Só então o meu amigo percebeu onde é que Sempre Fixe esgotara as munições. E percebeu também que escaparia sempre, incólume, a todos os tiroteios. Como se um Messias lhe dissesse: “Em verdade te digo, estarás comigo no paraíso.”

Crónica publicada no Jornal de Negócios

A religião morreu

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Bica Curta bebida no CM, na 5ª feira, dia 4 de Abril

Não tenho a arrogância de ser ateu. Aprendi a ler nos livros religiosos de minha mãe. Rezei, comunguei, confessei-me, bem antes de beber a bica curta. Hoje, admirando a ideia do amor ao próximo e do perdão das ofensas, mensagem maior de Cristo, se sou alguma coisa, sou um agnóstico que vê o catolicismo morrer.

Não foi só o escândalo da pedofilia que dura, e dura, e dura, como as célebres pilhas. Portugal perdeu o sentido do religioso. Deixámos de ver no catolicismo o sublime e o sagrado que eram o seu mistério. O papa Francisco é só um homem gentil deste mundo. Mas é o outro mundo que, na religião, queríamos desejar ou temer.

Do fundo do coração

mick

 

Bica Curta bebida no CM, na 4ª feira, dia 3 de Abril

A juventude é eterna, certeza que enfiei no sangue nos anos 60. Mick Jagger é a prova científica dessa certeza. Hoje, leio os jornais e caio de cu na calçada da desilusão. A tournée americana dos Rolling Stones foi adiada: Jagger vai ser operado ao coração.

Estranho sinal de humanidade. Jagger, com a abençoada rebeldia que lhe punha o diabo no corpo, era a negação do destino de perda e morte que nos espera. Jagger jorra vida. Da cama dele saíram oito filhos, cinco netos, uma bisneta. No palco sai-lhe, da boca às pernas, uma sexualidade eléctrica, uma insatisfação transcendente. Não nos roubem esse último sopro de rebeldia.

A mulher irretocável

robin

Tenho falado muito com jovens. O facto de eu usar chapéu facilita. No meu tempo, o chapéu preto era reaccionário, pidesco até, se ainda alguém sabe o significado destes coxos qualificativos. Havia uma excepção, o chapéu na cabeça de Bogart. A cabeça de Bogart enchia qualquer peito de admiração.

Mas dizia eu que tiro o chapéu e gera-se um atmosférico teasing geracional, ou, para pormos riqueza lexical na coisa, uma ligeira tensão dionisíaca. Os jovens de 20 a 30 anos admiram a bizarria estilística de um chapéu e entregam-se ao alegre e anacrónico convívio.

Estava a contar quem era Greta Garbo e, tentando imitar António-Pedro Vasconcelos, que usa um chapéu da idade do meu, citei. Eis a citação, que era da própria Garbo: “Sou uma mulher infiel a mais de um milhão de homens.” O rosto anti-balzaquiano da jovem de 30 anos teve uma iluminação rimbaudiana, if you pardon my French. Ela tinha uma ideia dos pés grandes da Garbo, mas saiu-lhe esta perplexidade semântica: o que é uma mulher infiel?

Com outro jovem, 25 anos a assobiar ecologia e profética antiglobalização, discutia o irreparável ímpeto do egotismo e, para não lhe dar o exemplo trivial de dois certos cronistas da nossa Imprensa (há três que vão pensar que são eles), nem cair nesse presidencial cliché que se chama Donald, atirei para a mesa tranquila com o nome de Cecil B. De Mille. Onde outros uivariam um triunfal “quem?”, o jovem foi de uma precariedade submissa: “Ainda hoje seguimos os dez mandamentos que ele escreveu.”

Eu ia indignar-me com este caos cinéfilo, mas o meu chapéu preto, e não me lembro se trazia o Emidio Tucci ou o da chapelaria Azevedo Rua, reprimiu-me a amotinada cabeça. Este é o tempo de outros heróis e heroínas, sem as lágrimas da mulher infiel. Ou sequer do homem infiel.

Vejam os filmes e séries do século XXI. Eis a mulher: a nietzschiana Jessica Chastain de “Zero Dark Thirty” ou a Claire Danes de “Homeland”. A dureza esquinada de Hilary Swank em “Million Dollar Baby”, a incontida convulsão insurreccional de Anne Hathaway de “Rachel Getting Married”. A tão sublime como criogénica Robin Wright de “House of Cards”, a líquida e incomestível Scarlet Johansson de “Under the Skin”. Diria, pedindo que não tenham medo de enfiar o dedo na polissemia da palavra: a mulher do século XXI é irretocável.

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Treze anos de Guerra e Paz

Este é o texto com que a Guerra e Paz editores, a minha editora, comemorou, hoje, o 13ª aniversário. Uma festa com um pedido realista e sensato: comprem livros.

quem ama o livro

A Guerra e Paz editores faz hoje 13 anos. O nosso mundo é o mundo dos livros, o mundo do amor aos livros, o mundo do prazer do papel, do cheiro do papel, do deslumbramento com uma capa sedutora, o divertimento (claro) com uma paginação inovadora.

O mundo dos livros é, hoje, um mundo ameaçado. Em todo o mundo. Muito ou muitíssimo em Portugal. Desaparecem livrarias, os circuitos de distribuição reduzem-se, as vendas caem, a forte rotatividade dos livros em livraria faz com que os títulos se esfumem sem que ninguém os veja, a crítica literária fecha-se em tribo, a Imprensa, ela mesma em crise, retira o espaço à divulgação do livro. O mundo virtual, com gratificação instantânea e com prazeres de meio minuto, falsamente gratuitos, oferece um modelo de entretenimento de consome e deita fora que parece dispensar a leitura.

A sobrevivência do livro passa também – e muito – por cada um de nós, leitores. Se queremos que haja autores, que haja romancistas e poetas, se queremos que haja editores que os publiquem com dignidade, se queremos que haja livrarias arejadas e espaçosas, vivas, é preciso que se comprem livros. O livro, o mundo do livro precisa que à volta dele se reúnam boas intenções, que sobre ele se pronunciem excelentes e belos discursos, mas nada disso lhe serve se o oxigénio – a compra do livro pelos leitores – lhe for cortado.

Em Portugal, compramos muito poucos livros. Uma média de 1,4 livros por habitante. Em Espanha, para darmos só um exemplo, cada espanhol compra sete vezes mais livros. Só ama o livro quem compra livros. Temos de amar mais os livros. Para ganharmos todos. Para termos um país mais rico de sensibilidade, mais forte no conhecimento, mais consciente da sua identidade, diversidade e universalidade.

A Guerra e Paz editores orgulha-se de ter, neste último ano, publicado livros de filosofia (Estudos sobre Heidegger e dois livros de Michel Serres), economia (de um Prémio Nobel, A Economia do Bem Comum), ensaio literário (sobre José Cardoso Pires), livros de vida e obra (o cientista Carlos Fiolhais, a pintora Graça Morais, o escritor Mário de Carvalho em diálogo com José Jorge Letria), livros sobre língua portuguesa (Palavras que o Português Deu ao Mundo e Dicionário de Erros Falsos, ambos de Marco Neves).

A Guerra e Paz orgulha-se de se ter aventurado no mundo da emoção poética, com um admirável livro de Eugénia de Vasconcellos (Sete Degraus sempre a Descer) e a mundivivência africana de Tchiangui Cruz (Guardados Numa Gaveta Imaginária), o lirismo sereno de Howard Altmann (Enquanto a Fina Neve Cai).

Orgulhamo-nos, enfim, das apostas no romance, em autores como Luis Rainha (Adeus.), Luís Pedro Cabral (A Cidade dos Aflitos), no tão bonito livro de Maria João Carrilho (A Solidão de Sermos Dois) ou no intrincado romance de João Nuno Azambuja (Provocadores de Naufrágios). Para não falar no intenso, poderoso e confessional “Mãe, Promete-me Que Lês”, de Luís Osório.

Estes são apenas alguns dos títulos que publicámos, exemplo das apostas em escritores portugueses, das apostas no romance ou na poesia, ou das apostas em disciplinas que vão da filosofia à economia, passando pela sociologia. É este o nosso amor ao livro. Sem a compra dos leitores é um amor não correspondido. Andamos aqui, a amar, há treze anos: dê-nos a mão.

O preço da democracia

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Bica Curta bebida no CM, na 3ª feira, dia 2 de Abril

A bica, curta ou cheia, não é famosa em Londres. É pior ainda no resto do Reino Unido. Mas, por mais palatáveis razões de queixa que tenhamos do café inglês, não os podemos acusar de falta de literacia. O Reino Unido tem um povo educado. Sabe ler bem, tem bons jornais, a progressiva BBC. Todavia, votaram o que votaram no Brexit por falta de informação. Pior: paparam desinformação como se fossem fish & chips. Votaram contra os seus interesses: não sabiam o preço a pagar.

O Brexit bem pode ser o espelho da nossa democracia: o único voto consciente é o voto de quem sabe o que vai comprar e, sobretudo, de quem sabe o preço a pagar.

Anne Wiazemsky

Wiaz

No cinema, não há memória de ninguém ter amado um burro como Anne Wiazemsky amou Balthazar. O filme, “Au Hasard, Balthazar”, realizou-o Robert Bresson, inspirando-se no “Idiota” de Dostoievsky. Balthazar, mais jumento que rei mago, passa pelas sete cruéis provações a que chamamos pecados capitais. À ascética menina e ao burro de focinho branco consola-os uma lenta e cândida ternura e o filme é um dos mais belos que os meus olhos já viram.

Do burro não sei, mas sei que todos queriam a menina. Em 1965, a adolescente Anne Wiazemsky, neta do escritor católico François Mauriac, foi escolhida por Bresson por ter um talento sublime: nunca ter representado antes. A conjugação da sua reservadíssima beleza com uma voz capaz de encher uma catedral despertou em Bresson um método possessivo e integral: durante as filmagens não lhe permitiu que saísse um segundo do seu raio de visão e forçava-a a dormir na sua cama. Anne rechaçou-o quando Bresson se propôs chegar a essa húmida abjecção chamada beijo na boca.

Veio então Godard às filmagens. Apaixonaram-se. Anne tinha 19 anos e queria estudar filosofia em Paris. Ele tinha 37, acabadinho de se separar de Anna Karina. Era um romance impróprio. Anne contou ao avô. Em Paris, nesse tempo, exibiam-se todo o tempo todos os filmes. Mauriac e a neta foram ver “A Bout de Souffle”. Mauriac achou o filme admirável e disse à neta que seria uma honra ter Godard como neto. Ela contou-lhe e ele, comovido e com aquela generosidade que um ego inflamado municia, disse, com originalidade, que era uma honra ter Mauriac como avô. Na única nota de rodapé da sua vida, Wiazemsky sublinha: Godard gostava sempre de ter a última palavra.

Godard filmou “La Chinoise” e deu a Wiazemsky a personagem de uma militante maoista, antecipando o Maio de 68 que logo chegou. Anne aborreceu de morte ler Marx, Engels e o velho Mao. Mas doeu-lhe mais que Godard, militante furioso, quisesse que todos os gaullistas, o que incluía o avô, fossem fuzilados – entre aspas, disse ela – enquanto Mauriac, magnânimo, achava que os arroubos de Godard eram só pecados desse resto de juventude que aflige quem chega ao fim dos trinta anos. Não admira que, os olhos num e os olhos noutro, Wiazemsky tenha acabado por escolher os livros contra os filmes. Desistiu dos dois, a 5 de Outubro de 2017, mudando-se para um celestial  universo paralelo.

Xé, minino

De vez em quando, há memórias a que voltamos. Dito de outro modo, há memórias a que não podemos fugir. Há uma ilha. É uma ilha dentro nós. De mim. É lá que eu vivo. Lá morrerei.

mussulo

Ouvimos a palavra “ilha” e sacamos logo da pistola que dispara a velha pergunta: “O que levavas para uma ilha deserta?”. Como se as toneladas de areia e solidão de uma ilha, as palmeiras que o vento finta, pudessem ser humanizadas pela bagagem de livros ou filmes, um disco, o ocioso tabuleiro de xadrez do náufrago metafísico. E Trump? Levaria Melania? Feito Robinson Crusoé, sozinho e a água de coco, Trump deixaria entrar na ilha um Sexta-Feira refugiado?

O que leria eu se fosse Robinson Crusoé? Quereria ainda ler as páginas de culpa e redenção de “Lord Jim”? Leria contos de outras ilhas e de outros mares, contos dos mares do Sul de Somerset Maugham? Ou entretinha-me em terra, dedo a dedo e perverso, a virar páginas à “Lolita” de Nabokov? Sim, Marcelo ou Soares levariam cem livros, mas que livro levariam Theresa May, Macron ou Merkel?

E os meus filmes de ilha deserta? Ilha sobre ilha projectada veria a “Saga de Anatahan”? Revia a ilha de “Mud”, fluvial, no Mississípi plantada, ou, no ardente mês de Agosto, fervia e enfiava-me no apartamento de “Seven Year Itch” em que morava Marilyn, esse géiser da ilha de Manhattan, se Manhattan fosse mesmo uma ilha? E Putin? Roubaria Marilyn aos americanos ou preferia, como o velho Estaline, um filme de Tarzan?

A mais deserta das minhas ilhas foi a do Mussulo, à frente de Luanda, quando lá regressei, em 86. Angola vivia um filme de Fuller, uma guerra civil de silêncio e agonia. O almoço pediu sesta. Dormi na imóvel água tépida entre o Mussulo e a costa – amniótica doçura, a de assim deitado, dormir dentro da quieta água do mar. Depois, fui sozinho ao lado do oceano. Ninguém, apenas a infernal solidão do paraíso. Até encontrar o homem só, um velho pescador. Com a infinita gentileza de um kota, meu mais velho, dizia-me, xé, minino. E falámos. Tá mau, nem madeira, nem alcatrão, só tinha cola, rede e umas raspas com que tapava rachas da canoa de ir à pesca. Não se queixava nem pedia. Dizia só, xé, minino, com uma serenidade de Quinto Horácio Flaco.

Como o romano, também este angolano, nobre e independente, fora filho de escravo liberto. Estava ali sentado, estóico como Horácio na velhice, uma canoa a sua poesia, o seu filme uma ilha. Uma ilha aperta-se-nos à cabeça com as solitárias mãos do nosso desamor e, sem darmos conta, já somos Robinson Crusoé. Um livro e um filme, cada homem é uma ilha.