De luvas e coração leve

São os meus livros de Março, a minha forma, tão botticelliana quanto possível, de levar a Primavera a quem muito gosto ou admiro. Obrigado por terem a santa paciência de ler

Guerra e Paz
luvas, coração e aconchego

Como é possível não se ser nostálgico de um tempo em que cada pedra no caminho, cada ramo na floresta, cada floração era diferente e era um signo? Eis o que talvez seja o monótono niilismo do nosso tempo: querermos que seja tudo igual. No monumental e sapientíssimo livro de Sir James George Frazer, O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião é tudo requintada e magicamente diferente. Pela primeira vez em Portugal, publica-se essa obra fundadora. Para já o primeiro volume, O Rei da Floresta, livro seminal para Freud e Jung, para escritores como Eliot, Yeats, D.H. Lawrence, para uma banda como The Doors, para um cineasta como Coppola. Um século depois, a edição portuguesa enobrece-se com este Livro Que Não Se Rende, a colecção que a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações doa às bibliotecas portuguesas. Em Abril e Maio chegam os dois volumes que fecham a trilogia.

Por fim, abrem-se as portas do silêncio para as histórias particulares e individuais do PREC, esse momento em que uma nova ditadura assombrou, há meio-século, este jardim à beira-mar plantado. No Terramoto de 1975 – As prisões políticas no PREC: o caso Ruy Moreira, o fundador da Molaflex que a revolução prendeu e os trabalhadores quiseram libertar, da autoria de Tomás Moreira, tem um título auto-explicativo, que o notável prefácio de Rui Ramos enquadra historicamente. Lê-se como um romance e há G3 apontadas logo a abrir.

Parece que Proust dizia que «as ideias são sucedâneas dos sofrimentos». De sofrimentos e de alegrias, de promessas e maldições é que são sucedâneos os nossos três romances de Março. Ano Zero, de João Céu e Silva, foi menção honrosa do Prémio Literário Carlos Oliveira, organizado pela Câmara Municipal de Cantanhede, e abre com uma frase bela e segura: «Se Cícero pudesse adivinhar como iria ser o ano que começara há menos de uma hora não o quereria ter vivido.» Cícero é um projeccionista ambulante e no seu caminho tanto se cruza a prodigiosa imagem da grande Amália, como a sombra escuríssima da Vanguarda Nazi.

O romance de Maria Cláudia Rodrigues, A Conta Que Deus Fez, incide sobre esse momento da vida a que chamamos infância, momento em que se confundem anjos e lágrimas. É um romance de vivas angústias, que aspira à pacificação. Descubram, se fazem o favor.

As 7 Profecias Malditas, de Fernando Rita, é o primeiro romance de um historiador militar. Não espanta que o património histórico, muralhas e conventos, seja o cenário em que surgem códigos misteriosos e profecias assustadoras: um thriller histórico, um enigma. Ou vários.

José Barata-Moura: As Vidas de Um Filósofo, diálogo entre José Jorge Letria e José Barata-Moura, é um novo volume da colecção «o fio da memória», parceria que mantemos há anos, com gosto e muita honra, como soe dizer-se, com a Sociedade Portuguesa de Autores. Levanto uma pontinha das páginas e vejo que lá está, de forma raramente vista, a figura de Álvaro Cunhal: «Um actor que é autor. Um autor que foi actor.» 

E quero aqui fazer o louvor de Marco Neves. É um dos autores-chave do catálogo desta vossa editora: 16 livros, já. Volta, agora, com As Raízes da Língua, para uma viagem turbulenta de mistérios e decifração da língua portuguesa, através de 50 palavras. Aventura, desordem, perigos fazem de As Raízes da Língua um livro ousado, orgulhoso e romanesco, a começar pelo índice, que tem «luvas», «coração» e «aconchego».

Do Ramo de Ouro a Raízes da Língua são estes os meus livros, rituais e águas de Março

Eu prometi não voltar a falar dessa região densa de crimes e amores perversos, a que a Rita Fonseca tem dado expressão na Euforia, mas este mês a dose é diluviana: Caro Leitor, de Tate James, revela uma sociedade secreta de estranhos ritos, de festas e de relações decadentes; já Tu Mataste-me Primeiro, de Sandra May, é um thriller psicológico que começa com confissão liminar: sim, matei-o. São livros irresistíveis, tão juvenis, como escapistas. Bestsellers, portanto.

Gradiva
anjos e demónios de coração leve

Março é, porventura, à conta da Primavera que nele nasce, um mês mítico. Prosaico como sou, logo o escolhi para publicar, de Eduardo Lourenço, estes dois tratados sobre a mitificação: O Labirinto da Saudade e O Fascismo Nunca Existiu. São dois livros em que a «natureza» de Portugal e a frialdade pejorativa de um conceito ideológico passam pelo crivo de um pensamento cheio de adornos e mil itálicos que nos sobressaltam, exigindo que busquemos sempre um outro sentido além do sentido aparente. As capas ficaram, como dizer… narcísicas.

O Fantasma do Rei Leopoldo, de Adam Hochschild, é a edição comemorativa dos 25 anos de uma obra que expôs, com rigor, um momento de apocalíptica crueldade colonial: a mesma que deu origem ao doloroso romance de Joseph Conrad, a história de ganância e terror com que o rei Leopoldo dos belgas estrangulou o Congo.

E deixem-me, com George Steiner, franquear as portas do encanto e desencanto da escrita. Era Borges, poeta das sombras, que dizia não estar interessado em escrever longos romances, bastando-lhe a resumida fórmula ficcional dos contos. Em Os Livros que Não Escrevi, Steiner fascina-nos com outra solução: a explanação narcísica, mas num certo e assumido sentido levemente impotente, dos sete livros que «esperava escrever, mas não escrevi». São 220 páginas de prodígio e gosto.

Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho foi o que o júri atribuiu a Como Caminhar Num Pântano, romance de Marta Pais Oliveira, escrita delicada, mas também irónica e por vezes feroz, história de uma mulher que rouba malas de mão a outras mulheres… para lhes deixar as mãos livres: «Quando a levaram para a esquadra, não teve medo.»

Com O Golpe de Estado, Ernesto Rodrigues, também autor da Guerra e Paz, regressa à Gradiva. Traz-nos um influente oligarca, cujas manobras políticas e insidiosos financiamentos podem derrubar governos. A realidade talvez esteja a passar por aqui: «foi leiloado o último conselho de ministros.»

Fios de Prumo é um livro de poemas de Jorge Gomes Miranda. Uma poesia aforística, tão contida, como sugestiva: «Atiras ao lume aparas de um tempo / altaneiro. Descem das bicicletas, as / raparigas. Enseadas. Dá-nos vontade.»

E sim, Calvin é uma peste, uma pestinha. Pobres pai e mãe: o que estará a fazer o Calvin despido, mesmo ao lado do boião dos biscoitos? São coisas que acontecem, intempestivas, neste Calvin & Hobbes: Há Monstros Debaixo da Cama, de Bill Watterson. A verdade é que tenho o mês de Março, feito Calvin, a falar-me ao ouvido: «Não vou para a cama, se não me leres primeiro uma história.»

São estes os meus livros de Março: de Eduardo Lourenço a Calvin & Hobbes, um mundo angélico e demoníaco, que tanto nos pode deixar de coração pesado como de coração leve.

Manuel S. Fonseca, editor

Do que e como gostava ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Foi num daqueles cafés baratinhos e populares na Rua de Campolide. O António Lobo Antunes e eu tínhamo-nos habituado a almoçar com matemática irregularidade, e ali estávamos, o António, omisso em matéria gastronómica (e vínica, ó meu rico Baco), e eu, na conversa. À nossa frente, os pratos do que, se lhes chamasse «comida caseira», já seria uma rotunda promoção.

Falávamos muito de Angola, e tantas vezes a dele e a minha só coincidiam pelo muito e coincidente amor que um e outro lhes derramávamos em cima. Falávamos de livros: ou melhor ele falava, erguendo o José Cardoso Pires como um estandarte de glória, crucificando-me o Jorge de Sena, ao que eu me opunha peito nu oferecido às suas garras de lobo, logo nos reconciliando quando lhe saía, saberá o senhor santo Deus de que prodigiosa nuvem do seu cérebro, boca fora, uma página inteira de Agustina. Dizia o texto, de cor, num êxtase de menina, com o mais feminino sorriso que ele tão bem sabia fingir. Ou verdadeiramente sentir.

E não sei já do que estávamos a falar. Talvez do glorioso Sport Lisboa e Benfica ou das crónicas que cada um de nós escrevia ou talvez dessa coisa estranha a que se chama «amor» – mostrávamos um ao outro fotografias, «o Manuel não deixe de amar a sua mulher», ambos seduzidos pela ideia de que se não for sufocada pela beleza, uma vida não é vida – quando, de uma das mesas, se levantou um senhor de uma certa idade com um portuguesíssimo saco plástico na mão: povo puro se é que há povo puro. Veio à nossa mesa e disse: «Senhor António, queria dar-lhe uma coisa.» Contou que estava reformado e distraía a solidão não com livros, mas com uma navalha e uma circense habilidade de mãos. Fazia peças singelas, miniaturas de carrinhos e camiões de madeira. «Estes são para o senhor António, que eu gosto muito de si.» E pôs em cima da mesa os carrinhos que a fotografia mostra. 

«Gosto muito de si» disse aquele português de saco plástico, já de uma certa idade, e eu quase jurava ter ouvido o pingo da lágrima que tombou no poço fundo que se abriu no interior do ex-alferes que escrevia, das chanas de Angola, cartas de amor à mulher que amava.

«Gosto muito de si» foi também o que António Lobo Antunes me disse no último bilhete que me escreveu, já arrancado com força sobre-humana à dificuldade das suas mãos segurarem a caneta, ao contrário das mãos leves do senhor das miniaturas de madeira tosca. E despedia-se o António com um «abraço bem forte» logo reforçado, para que não sobrasse sombra de dúvida, «que isto fique bem claro, um abraço bem forte».

Eis o que tenho a dizer: nunca se gosta o suficiente de quem gosta assim. Nunca se abraça o suficiente quem nos abraça assim.