Hipérbole e oração

aqui falei da Hipérbole, isso (ou aquilo?) a que, para já, só podemos chamar “the thing”. É uma pequena ou grande obra em progresso. Mas já há, nos bastidores, grandes movimentações. O Luís Jerónimo, que também é de filosofia, como eu fui e talvez ainda seja, é um dos autores que anda à volta dessa misteriosa hipérbole. Ofereceu-me este belíssimo texto, oração tão sincera. Faz sentido.

 

Luís Jerónimo
A hipérbole do sentido – uma oração a partir de Finita de Maria Gabriela Llansol

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“Se eu nunca arriscar a razão, nunca saberei. Nunca saberei pensar”

Que eu consiga desconfiar da lógica, desafie a razão ao seu limite e me deixe seduzir pela verdade.

Que a dúvida persiga o que me sustem, que o absurdo me permita compreender melhor, revele o que me faz ser.

Que o saber ocupe o seu lugar, desatine o que vejo e ilumine o meu silêncio.

Que a imaginação me deixe confiar no rumor da beleza, na inquietação da esperança, na graça do mundo.

Que eu faça justiça à madrugada das paixões, à luz dos sentidos, ao abrigo das árvores que me conhecem.

Que eu me deixe enganar pelos livros que me desassossegam, pelos versos que me tomam de assalto, pelas palavras que estão por inventar.

Que sempre escreva como quem regressa.

Que eu me faça sentido.

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LMJ
10 março 2019

Curtes, meu?

canabis

Antes a bica curta do que um charro. A velha canábis bebe água como eu gostaria de beber champanhe. Uma simples planta de marijuana sorve mais de 22 litros por dia. Seja no campo, seja nos jardins domésticos, a marijuana é um desastre ecológico. Um charro, um daqueles “Komé, meu, curtes?”, e já espetámos no ambiente com quilo e meio de dióxido de carbono. Um quilo de marijuana põe mais de quatro toneladas do mesmo veneno na atmosfera. Não é só uma pedrada, é cá uma pegada!

Haja fé, com transformações genéticas, cientistas de Berkeley produziram sofisticados canabinóides da levedura de cerveja. Não sei é se se fuma ou se se bebe.

Bica Curta publicada no CM a 13 de Março

Hipérbole

Ainda está para chegar, e para se saber o que será, “the thing” chamada Hipérbole. Vai existir e vai ser a “cena” que há-de substituir o saudoso Escrever é Triste. Mas já há quem desenhe e escreva, se bem que “the thing” possa até nem vir a ter a forma de escrita.
Pedi muitíssimo por favor à Ana Vidigal, pintora, capaz de criar usando mil artifícios, da ilustração à fotografia e à colagem. Pedi muitíssimo e ela disse-me que sim, que podia publicar a imagem e o texto abaixo, formas que encontrou para glosar o conceito de hipérbole. Para enriquecimento e glória desta Página Negra. Obrigado, Ana Vidigal. 

Hipérbole
Ana Vidigal

Ana Vidigal

“Podemos tirar a menina da hipérbole mas nunca tiramos a hipérbole da menina”
Fotografia digital, 2019

A pequena ordem do meu mundo

Capa

Não fora um centímetro a mais na largura e seria um enorme quadrado, de 33 por 33 centímetros. Assim, por um centímetro é um livro de 33×34, metamorfose do quadrado em rectângulo. Não fora um poema da portuguesa Eugénia de Vasconcellos e Like a Tree Let the Dead Leaves Drop seria um livro com a pintura da sul-africana Jacqueline Alma, tão marcada pela vivência, enquanto criança, com a proximidade aos animais selvagens da imensa África.

A Pequena Ordem do Meu Mundo, Amigo Demócrito, o poema de Eugénia de Vasconcellos, autora da Guerra e Paz, ocupa oito páginas do livro, metade na versão portuguesa, metade na versão inglesa, traduzida por Margaret Jull Costa, tradutora também de Sophia de Mello Breyner Andresen, de António Lobo Antunes e de José Saramago.

Há, no poema de Eugénia de Vasconcellos uma aceitação da vida de um sereno dramatismo, olhar tão lúcido como céptico para o fluxo dos seres e das coisas, esse rio dos dias em que a poeta e nós habitamos.  E cito:

E Eva saí de manhã
vi um lobo na varanda,
dois tigres na estrada:
fazemo-nos domésticos por amor,
fazemo-nos pequenos para seja grande
o que o nosso amor ilumina:
um filho, um homem, uma cidade,
uma ideia, uma obra, uma civilização.

Como a dádiva do Lobo ao Homem,
fê-lo dono, fê-lo amo, fez-se cão.

poema_pt

Ou, em inglês:

And I, Eve, set out early
and saw a wolf in the balcony,
and two tigers in the road:
we make ourselves domestic out of love,
we make ourselves small so that
what our love illuminates can be big:
a child, a man, a city,
na idea , a work of art, a civilization.

Like the gift the Wolf gave to Man,
made him his lord, made him his master, and made himself dog.

Poem_English

Recebi este livro e no livro um poema. Um poema bastaria a Eugénia de Vasconcellos, sobretudo este poema de conversa com o mistério do mundo. Mas não. Eugénia tem também, a “um verso de cada vez”, dois livros maiores publicados na Guerra e Paz editores, O Quotidiano a Secar em Verso e Sete Degraus sempre a Descer. Vem o terceiro a caminho.

Tigres e bambus

JADAV

Cinco dias e cinco noites, sozinho na selva, e eu estaria morto e enterrado. Nós, homens da cidade e da bica curta, já não somos senhores da natureza. Digam isso a Jadav Payeng, cidadão indiano. Aos 16 anos, voltou à ilha da sua tribo numa acção de reflorestamento. Plantaram umas árvores e ala que se faz tarde. Mas a Payeng roeu-lhe a alma ver deserta a ilha dos antepassados. Sozinho, ficou 30 anos a plantar arbustos, árvores, bambus. Criou uma floresta de 550 hectares, onde há, hoje, tigres, rinocerontes, cobras, milhares de aves. Elefantes de visita.

Não somos senhores da natureza, mas há homens que são senhores de si mesmos.

Bica Curta publicada no CM, a 12 de Março

Primavera

Matsuo Bashô

Ninguém cultiva em Portugal o haiku com o rigor e a justa medida que lhe empresta o poeta José Guardado Moreira. O haiku é, além das suas características formais, um depurado caminho para a Natureza. A chegada da Primavera justifica-o. Agradeço ao José autorizar-me a publicação.

Orvalho:
a brisa canta
a raiz dança.

( Equinócio de Primavera
20 de Março, às 21h. 58m.)

José Guardado Moreira

Quando um homem ama uma mulher

O que me dava jeito é que antes de lerem a prosa que se segue, tivessem visto o filme “A Perfect World”, realizado por Clint Eastwood. Os dois personagens da minha crónica são Butch (Kevin Costner), um bandido suave, e Buzz, um miúdo adorável, que não há-de ter nunca mais de sete anos.

A Perfect World

“Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher.

Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado.

Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.

Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo, é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hamburguers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.

Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.

“Beijaste-a porquê?” Porque sabe bem, porque um tipo se sente bem, é o que Butch tenta explicar ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, científico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch percebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não beijei?!” Num mundo perfeito só devia ser adulto quem nunca perdesse uns inocentes olhos de criança.

A linha tribal

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Acabei de ler um resumo do manifesto, se assim lhe podemos chamar, do supremacista branco Brenton Tarrant, terrorista que matou 50 muçulmanos na mesquita de Christchurch, na Nova Zelândia. Uma amálgama ideológica de que destaco o feroz traço tribal (sangue e solo), o mesmo que se encontra em tantos discursos identitários, sejam eles neofascistas, sejam revestidos a mais sofisticadas tintas ideológicas.

O supremacista branco Brenton Tarrant não esconde o ódio à democracia liberal, a Emmanuel Macron, um «capitalista igualitarista e anti-nacionalista», e a Angela Merkel, cuja morte advoga, chamando-lhe «a mãe de todos os anti-brancos».

Já ninguém pode devolver a vida às vítimas. A pequena homenagem que lhes podemos fazer é a de evitar a linha tribal, os maniqueísmo de classe, de raça, de género em que, tão facilmente, hoje derrapamos. É aí que começa o triunfo da democracia e da tolerância, cuja regra número um é «não bater, não matar».