Noites de ponta e mola

faca

A morte de Abel, Tintoretto

A ponta e mola brilhou numa noite dos meus 14 anos. Voltei a vê-la em “The Outsiders” e “Rumble Fish” de Francis Coppola, filmes que depois me mostraram o espectáculo da morte a que aos 14 anos não assisti. Mas conto.

barriga
espetou-lhe na barriga uma faca darwiniana

A faca enterrou-se na carne macia e jovem. Subiu, cega e oblíqua, da bar­riga para o estô­mago. Eu morava dois quarteirões adiante e estas coisas acon­te­ce­ram em Luanda. Foi a primeira vez que a palavra morte apagou um rosto do resto dos dias da minha vida.

Como o Matt Dillon de “The Outsiders”, o V era mais velho do que eu. Dois anos, um mundo de difer­ença. Mas fazíamos junto, a pé (às vezes com o Videira, o mais célebre contínuo do liceu), o caminho do Sal­vador Cor­reia até ao Cin­ema Império, pas­sando pela Sagrada Família, o descam­pado em frente ao Hos­pi­tal Mil­i­tar, um inóspito car­reiro até ao Liceu Fem­i­nino e, à frente, atrav­es­sando a D. João II, o cin­ema Império, com a defesa civil ao lado, as mora­dias alin­hadas entre as tra­seiras do cin­ema e a Estrada de Catete.

Tudo terá acontecido para que Coppola viesse um dia a filmar, em “Outsiders”, com liberdade poética, a cena em que Johnny, quase uma criança, mata um miúdo do bando inimigo, salvando Ponyboy, o melhor amigo. Nessa noite que ainda não sabia ser a última, V andava também em bando – sem­pre em bando. Julgaram sur­preen­der um ladrão. Lará­pio só, não ladrão de colarinho e off-shores como hoje se con­hecem. Era um miúdo do musseque, ani­mado pela vontade de risco, pelo orgulho de deam­bu­lar no bairro branco. Vinha em rito de ini­ci­ação. A inútil e essencial cor­agem adolescente.

Como Ponyboy e Johnny, o miúdo do musseque, sentindo o cerco, pas­sou a acos­sado. Imag­ino que tenha ficado ani­mal encol­hido entre muro e sebe, leopardo atento, a res­pi­ração a fer­ver, mús­cu­los ten­sos até doer, pronto para ser invisível e lutar. Matar, se fosse pre­ciso. As som­bras bran­cas cor­riam, sem que nen­huma o visse. Imag­ino que V o tenha apan­hado de sur­presa, num tempo sem som, igual a uma ton­tura, o mesmo tempo insonoro que Coppola mostrou em “Rumble Fish”.

Mais apto, mais rápido, o miúdo, jovem máquina de luta de musseque, espetou-lhe na bar­riga uma facada dar­wini­ana. De baixo para cima, irremediável. E correu, flecha entre as árvores, perdendo-se na anónima meia-noite dos trópi­cos. Voltou a casa, aos seus, à adormecida mãe na esteira. Respiração a mil, mas de coração livre e sobrevivente. No chão do bairro branco ficara estendido o menino de outra mãe.

Soube no dia seguinte: mataram o V, o V morreu. No cemitério – éramos um bando, sem­pre um bando – não con­seguíamos chorar. Ríamos ner­vosa­mente. Digo, então, que a primeira vez que vi a morte me ri ner­vosa­mente, tão ner­vosa­mente como me ri quando, pela primeira vez, sangue em alvoroço, me apaixonei.

Em “Rumble Fish”, Rusty James (Matt Dillon) leva uma sova homérica num beco. Vemos o corpo separar-se do corpo. o segundo corpo, um corpo flutuante, hesita ainda, com pena do frio vulto de que saiu e jaz em terra, mas já com vontade de descobrir celestiais nuvens de aventura e desconhecido. Em “Rumble Fish” o corpo dá um pontapé à morte e volta ao corpo térreo, original. Em Luanda, em vez do apelo de lutas, namoros, farras de sábado, uma bebedeira na Ilha, o corpo flutuante de V escolheu o desconhecido. Escolheu harpas e arcanjos, ou esse rumor cósmico que é som e não é som e que torna toda a metafísica inútil.

rusty
o corpo flutuante hesita ainda

O paraíso

joaquim Lopo
foto de Joaquim Lopo, com a devida vénia

Tive um vislumbre do que é o paraíso. Tinha vinte anos, uma das melhores idades para se ver o paraíso, e a primeira coisa que descobri foi que, no paraíso, Deus primava pelo absentismo. Não estava lá.

Não fui o único. Em verdade vos digo, tudo se passou numa noite de copos, antecâmara do paraíso, tanto mais que já era, nesse ano de 1975, na Luanda lagarta em metamorfose, minuciosamente difícil encontrar copos. Com argúcia científica e o faro dos predestinados, dois amigos meus tinham levado o velho Volkswagen negro de tasco clandestino em tasco clandestino, bebendo em bares sombrios os geladíssimos finos que abrem portas à fina areia da eternidade.

 A cidade de Luanda era um caos: paradisíaca e deliciosa ausência de lei a beijar os lábios da semi-anarquia. Os meus amigos a que, para salvaguarda da sua fortuna e bom nome, chamarei Simão e Mário, regressavam à Vila Alice, nosso bairro, paraíso instalado entre dois promontórios, albergando em simétrica oposição, dois figadais inimigos, o MPLA e a FNLA.

Conduzia o Simão e deixou o Mário na poética rua Eugénio de Castro. O Mário já abria o portão do quintal, quando, do nada, como só no paraíso acontece, viu emergir, à frente do velho carocha, metralhadora na mão, um jovem combatente, anjo ou semi-deus negro. “Komé Kamarada – disse ele, com os k todos, ao meu amigo Simão – tens de me levar no bairro Pica-Pau.” A metralhadora apontava, com celestial negligência, à cabeça do Simão, o que se deve entender mais como distracção do que como ameaça. Parlamentou-se. O Simão invocou mil perigos e as patrulhas na Estrada de Catete por onde teriam de passar. “E como é que o camarada se chama?”, rematou, com espírito conciliatório, a bonomia de um arcanjo bem bebido.

O camarada chamava-se Sempre Fixe, juvenilíssimo rosto resplandecente e suado, numa exaltação de quem acabou ler de uma assentada as incendiadas páginas do “Marriage of Heaven and Hell”, de William Blake. Por outras palavras, uma ganza como a minha mãe, Alice Fonseca, nunca me viu.

Já o solidário Mário voltara ao carro. Entrou para o banco traseiro, Sempre Fixe no da frente, metralhadora apontada ao condutor. E arrancam, quase três amigos, como se se conhecessem há 500 anos. “Komé Kamarada, vira só então a metralhadora para lá, pode ser?” Sempre Fixe, com calma seráfica, mete o dedo no cano e carrega no gatilho. “Não tem bala, isso não dispara já. Vamos no Pica-Pau buscar munição.”

E eis, ao longe, a primeira patrulha. “kamarada, acelera, então, não pára, não pára.” Pé no acelerador, o Simão passa pela patrulha portuguesa na 7ª esquadra, numa bisga olímpica, jamaicana. Talvez não fosse, de tão negro, um carro, terão pensado os soldados portugueses, a remoer saudades e um apropriado je m’en fiche, se esta fosse uma crónica francesa.

Nem um tiro, embrenham-se na poeira do musseque e já estão no centro do Pica-Pau, o Sempre em Fixe a saltar do carro e recomendação de mil cuidados, que no paraíso os amigos são mesmo para as ocasiões: “Vai já, camarada, vai já, aqui é perigoso. Tem cuidado.”

O salvífico Volkswagen, a respirar heroísmo, voltou a passar sem parar pela patrulha portuguesa, ainda a esfregar os olhos e Simão regressa ao paraíso doméstico, com a amada a dizer-lhe: “Onde andaste? Houve aqui duas horas de tiroteio.” Só então o meu amigo percebeu onde é que Sempre Fixe esgotara as munições. E percebeu também que escaparia sempre, incólume, a todos os tiroteios. Como se um Messias lhe dissesse: “Em verdade te digo, estarás comigo no paraíso.”

Crónica publicada no Jornal de Negócios

Isto não é um prato de búzios

búzios

Não é Magritte quem quer, mas posso jurar-vos: um prato de búzios não é um prato de búzios. Aliás, só houve, em toda a história de humanidade, um prato de búzios. Comi esse prato de búzios em 1971, em Luanda.

Era a primeira vez que comia. Reparem, não é que alguma vez tenha passado fome. Fui alimentado por pais carinhosos que, à confiança, me deixavam sair à noite, desde os 15 anos, com dois amigos mais velhos, o Abílio e o Simão. Eu era a boca que eles levavam, a quem davam um fino gelado no Polana. Tinha é de mastigar um prego no prato, ou uma fatia de pão e presunto aquecidos no voracíssimo Baleizão. Eu era, portanto, alimentado em regime doméstico e em regime ambulatório. E era alimentado graciosamente. Tinha 17 anos e nunca pagara um angolar, cinquenta centavos que fosse, por uma travessa de camarões, uma perna de churrasco, o desfastio de um feijão com óleo de palma polvilhado a farinha de mandioca.

Naqueles tempos de guerra colonial, o Abílio era um refractário, o Simão um comando, isto para dizer as coisas de modo ameno, sem entrar em pormenores. Eles eram os melhores amigos e o que interessa é que me amavam como se eu fosse o maninho mais novo. Íamos de Volkswagen preto, de tasca luandina em tasca luandina. Bebíamos filosóficos copos de cerveja mais gelados do que o Pólo Norte, mais gelados mesmo do que duas páginas de Schopenhauer, se me perdoam a trivialidade.

A entrar eramos eclécticos: tanto entrávamos onde se cantasse o fado, como onde se dançasse um tangível e escrupuloso merengue. Tenho de confessar que uma noite me sentei inesquecivelmente. Jamais alguém se sentou como me sentei, quando me sentei ao lado de Elias diá Kimuezo, o cantor de “Ressurreição”. Se quisesse poderia descrever cada nervura do tampo da cadeira, a textura das calças pretas de terylene, a forma como o meu rabo, sem que eu lhe pudesse dar ordens, se deixou ficar meio suspenso, incapaz de se afundar na inútil cadeira. Elias era a voz, a formidável solidão da canção quimbunda nos ouvidos de um branco. Diá Kimuezo tinha um fino na mão, eu outro; falou comigo e era o mesmo único e indivisível fino que bebíamos às três da manhã, num bar da estrada de Catete.

Mas volto a meter a mão onde tenho de a meter: não gastei um angolar, cinquenta centavos que fosse. O Abílio e o Simão, com uma fraternidade bêbada, pagavam tudo, os bilhetes no estádio dos Coqueiros, a ululante liberdade das praias da Ilha, copos e copos, a educação do infante – a minha.

Aos 17 anos, de bandeira, como se fosse um glorioso ponta de lança, cai-me no pé o emprego absoluto. Das 7 às 13, num hospital, com não sei quantas fisioterapeutas e um salário de brinca na areia. O primeiro que recebi – ó Luanda de um raio – convidei os meus dois irmãos velhos e, do nada, como um big bang, na sofisticada cervejaria Amazonas, nasceu e proliferou o prato de búzios. Paguei. Ah, que bonito o dinheiro cristalino, a moeda tilintante. E era o único prato de búzios da história da humanidade. Nunca mais nenhum me saberá tanto a liberdade, amor e mar.

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A jukebox

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Podem atirar setas ao peito do meu passado. Embebam, se quiserem, a ponta das setas em ironia, mesmo sarcasmo. A gozação esbarra num escudo protector: a banda sonora da minha vida tem canções à prova de bala.

Vi Blade Runner 2049. Não me perguntem se gostei. Sem tirar o rabo da cadeira já me piro muitas vezes dos filmes: passo leve pelas brasas como me ensinou João César Monteiro, cineasta-unicórnio. Mas eis que no meio da pretensão minimal e em cinza do novo Blade Runner aparece o velho Harrison Ford. Acordei eu e acordou toda a gente. Convidou-me para um copo – convidou também o cão dele, nocturno bebedor de whisky – e pôs música. No filme, Ford tem uma jukebox. Tropecei na minha própria inveja, quando ele a pôs a tocar. Na jukebox de Harrison Ford, quando Sinatra começa a cantar One For My Baby com a tristeza de um cachorro órfão, não só o ouvimos, como vemos um holograma dele. Um holograma. Dava uma perna, aquela de que tenho duas, para ter tido este futuro no meu passado.

A jukebox que desperta a minha maior fome nostálgica é de Luanda. Ficava na Ilha de Luanda, num africaníssimo tasco de pescadores, encostado a 1971 e à Igreja de Nossa Senhora do Cabo.

Eu descia a cidade toda para lá chegar ao fim da tarde e ao pé do mar. Na Igreja, éramos um bando de miúdos católicos a roçarem-se pelas asas da Revolução. Vínhamos alfabetizar os pescadores negros, as mulheres deles e os filhos mais velhos. Usávamos o famoso método Paulo Freire, champô pedagógico dois em um: não só ensinava a ler como dedilhava a consciência dos educandos, empurrando-os para o buraco negro a que então chamávamos «o homem novo».

Só não me arrependo, e sei que Deus me perdoa, por causa da velhíssima e decadente jukebox. Chegava uma hora mais cedo para beber cerveja, ouvir a música e o crepuscular ócio do musseque. A minha memória não me trai: a jukebox só tocava duas canções. Tocava Café, Tostao y Colao, maravilhosa rumba, salsa ou jazz (e era isso tudo) criada por Eddie Palmieri e cantada por Ismael Quintana. Ouçam-na. A canção é um lânguido espelho de torpor e preguiça, um ritmo que empresta às ancas uma volúpia de câmara lenta. Aos primeiros acordes já dançamos na imóvel cadeira, mas o que nos levanta é mesmo um trio de trompetes. Junta-se a voz, sax, timbales, congas, bongós e maracas e juro que vi a mágica dança de Cucas e Nocais, num embalo de ilusão e romance.

Tocava a seguir Moliendo Café, rumba do maestro Hugo Blanco. Cantava-a o barítono Nelson Villalba. Ia jurar que na jukebox da Ilha a voz que a cantava era a de Lucho Gatica, tanto puxava a rumba para os lençóis do bolero.

E não sei se invejo a jukebox de Harrison Ford. A minha também tinha, afinal, um holograma. Estou a vê-lo: geladíssima cerveja na mesa, os irónicos pescadores a rir com o miúdo branco, caía lânguida a tarde arrastando fundas sombras. Depois, no letargo da noite, parecia que toda a Ilha de Nossa Senhora do Cabo gemia. Talvez tocasse um vento de futuro nessa jukebox do passado.

Estrela tracejante no céu de África

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a solidão de Duvall

O cinema era o Avis. Um ano depois já se chamava Karl Marx. Juro que foi lá, à meia-noite, no Natal de 1974, que vi “Tomorrow”, adaptação de um conto de Faulkner. O artista, como ainda se dizia, era Robert Duvall, solitário agricultor que dá guarida a uma mulher tão grávida como abandonada.

Estava em Luanda, cidade em chamas, engajado no caminho das pedras da independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família fora um out of Africa que lhe dera. Nem pai, nem mãe, estava por minha conta. Sobravam, da herança colonial, uma dúzia de amigos cujas cabeças rolavam à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos pela guerra? Nem mortos, nem estropiados. Eram apenas nomes inconsoláveis que a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, que ficávamos, passavam a indesculpáveis defuntos.

No meio desse fogo amigo e inimigo, nasceu, modesto mas abnegado, o Natal de 74, o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano. Acolheu-me uma família africana, tripulada pelo cuidado e pelo amor de um inenarrável patriarca. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos seriam seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só nas grandes sagas familiares. Eu, branca cara pálida, era só mais um filho. A geleira, como numa família lindamente mulata se chama a um frigorífico, era de todos: “Aqui não se pede, abre-se e tira-se.”

Vivíamos de esquemas, contrabandeando do Puto vinho, couves e bacalhau. Naquela Consoada tive a melhor das ceias. De vez em quando, as rajadas das AK escreviam pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. O assobio de um morteiro não bastava para parar as conversas que se enchiam de promessas, juras e choros, ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos veementes discursos. Podiam apontar-nos uma pistola à cabeça e continuaríamos a discursar, engajados numa alegria feroz, vaidosa e dramática.

Não sei se no meio dos discursos, se na solidão em que encontrei Robert Duvall no cinema Avis, dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda – quem sabe se o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela tracejante no céu vermelho de África?

Pouco me interessava a resposta, tão inquieto fiquei com a pergunta.

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outra sagrada família

Publicado no Expresso

o mundo já é de fusão, mestiço, mulato

O Velho é meu kamba. Apresentei-o aqui e ele presenteou-nos com prosa a preceito. Hoje, nestas voltas de rescaldo natalício, encontrei esta prosa, que escrevi e li na apresentação do livro dele, Amor(es) em Lualis. Aqui fica, nesta Página Negra, para memória futura.

AMORESEMLUA

O Fernando Machado Antunes, figura sereníssima e lúcida, que, nos tempos imemoriais de Luanda, eu e todos conhecíamos pelo carinhoso nome de Velho, teve um momento fracativo e, nesse momento fracativo, convidou-me para apresentar este seu livro de poemas, “Amores em Lualis”.

Eu bem disse ao Fernando que a minha reputação não é famosa e a minha experiência a apresentar livros de poemas é nula. Mas, agora que os dados estão lançados e a maka está instalada, vamos ter de superar a difícil situação e, no fim, peço que perdoem ao Velho, porque a culpa do que correr mal é só minha. Vamos então, virar a página e entrar nos finalmente deste livro.

A verdade é que, aberto o livro e passada a dedicatória, o leitor de “Amores em Lualis” encontra uma introdução. É só uma página, mas nessa singela página de introdução, o leitor encontra, e eu encontrei também, matéria declarativa em que logo ficamos a saber ao que o autor vem e ao que o leitor vai.

Fernando Machado Antunes declara, assertivo, que a sua vocação é narrativa – ele quer e vai contar-nos estórias. Percebemos que nessas estórias está uma vida inteira – a vida dele, a vida de poeta Fernando Machado Antunes, do poeta que é só o alter ego do meu amigo de Luanda e Lisboa, a quem todos chamamos Velho.

“Amores em Lualis” é, portanto, um livro de poemas, um livro de 60 poemas em que se espelha e se conta uma biografia. Como não vos quero induzir em erro, ao contrário do que possa ter-vos até agora sugerido, tenho de voz dizer que essa biografia não é romanesca. Ou seja, não conta, de cabo a rabo, os episódios que aconteceram. Neste livro, está uma biografia simbólica: superamos os incidentes que a espuma dos dias levou e ficamos só, nos versos do Fernando, com a essência.

Explico-me. Há lugares, mas o que neste seu livro o Fernando conserva e nos dá é o perfume dos lugares. Há acções de infância, adolescência e dessa idade adulta que já quase só é idade de memória, mas mais do que as acções o que o poeta retém é o estado de espírito, é a alma dessas acções.

Vamos então à biografia simbólica que “Amores em Lualis” nos conta. E, no princípio, vamos quase descobrir o poeta de bibe. Fernando Machado Antunes foi menino e é esse menino que primeiro nos aparece. Em seis linhas de prosa poética, Fernando faz o preâmbulo da sua meninice. Logo ali, nessas seis linhas, o poeta nos diz e mostra qual é a sua língua portuguesa. A língua portuguesa do Fernando Machado Antunes é, para minha profunda alegria, uma língua portuguesa inventiva, branca e negra, uma língua que vai do alcatrão ao musseque, uma língua que tem consciência da secular tradição de onde vem, mas que se abre, abraça e beija a novidade dos trópicos, a inventada palavra angolana.

O poeta Fernando Machado Antunes que me desculpe, mas eu sabia que aqui, na linguagem, o Velho, o meu amigo Velho ia impor a sua marca. Ao ler, como leio, nessa belíssima página 9 esta expressão: “Quando barulhávamos na ingenuidade do início do caminho”, o meu cérebro voltou a ser o atleta que era em Luanda e deu um enorme salto, à Nelson Évora.

Eh pá, Velho, essa palavra “barulhávamos” não existe, meu! Ou existe? Essa inventada palavra, palavra de candengues que brincam com a linguagem, se não existia, merece existir. É visual como um ideograma chinês, é sonora como tudo o que é infantil tem de ser sonoro.

“Barulhávamos” sim. Basta dizer “barulhávamos” e sabemos que estamos no recreio de uma escola com miúdos aos gritos, a correr e a jogar à bola – a bulhar, a fazer barulho, a baralhar o mundo. Às vezes é preciso uma palavra completamente nova para dizer com exactidão uma realidade que as velhas palavras já não conseguem descrever e nomear.

São muitas as palavras novas do poeta de “Amores em Lualis”. Há descompromissos, há quitandeiras goiabando-se no pregão. Goiabando é um gerúndio que traz um frutado perfume à nossa língua. E a língua portuguesa só pode agradecer essa ecologia, esse doce sabor africano.

Por muito mal que isto esteja a correr, devo dizer em minha defesa, que já consegui dizer duas coisas muito sinceras: em primeiro lugar que este livro é uma biografia simbólica, uma espécie de canção em que só se ouve a música instrumental, uma cavatina em que o cantor se reserva ao silêncio. E acabei agora de dizer que este livro inventa palavras, oferece novas palavras sonoras, perfumadas e frutadas à velha língua do nosso velho Camões.

Mas vamos em frente que o miúdo Fernando à página 17 já é um adolescente. Como nos aconteceu a todos, também o poeta adolescente descobre o desejo e o desejo do desejo. São 6 poemas em que o “eu” domina. O “eu”, diz ele, desliza por entre as trepadeiras do vento e veste-se de ternura. Em 6 poemas, o “eu” do poeta descobre as meninas, descobre-as de coração na garganta e confessa que tem vontade de lhes cerzir o corpo de veludo.  Quem não teve?!

São poemas de segredos adolescentes e de murmúrios adolescentes. Aviso já os leitores que tenham a minha provecta idade que esses poemas nos causam uma avassaladora saudade. Quiçá mesmo uma dolorosa saudade. A consciência de que não voltaremos a ter esse genuíno, ingénuo, inocente e vital encantamento, bate forte dentro de nós. A mim bateu! Bate cá em cima e lá em baixo e dói bué, meu.

Mas por falar em consciência, peço-vos que abram o livro na página 22 e leiam o poema que começa com este verso: “Jurámos passear o mundo…” Poema de adolescência também, é o primeiro poema em que o Fernando nos dá um sinal da sua consciência do mundo e eu acho muito curioso que ele o faça, já não usando o “eu” protagonista dos outros poemas adolescentes, mas sim dando a palavra a um “nós” que talvez seja o “nós” de um par amoroso, mas também pode ser o “nós” de um grupo, de um grupo de amigos que partilham o mesmo ideal, o mesmo sonho. E leio:

Jurámos desalgemar a inocência
libertar o verso e o silêncio
beijar o pôr-do-sol
nas nuvens.
Penugens
de asas por voar.

         Se as asas do poeta aqui ainda são de penugem, a verdade é que já estão firmes à página 25, quando ele nos apresenta ao tempo de entrada na idade adulta, período a que ele chama “Pelos tempos e contratempos dos amores e das paixões”. Os poemas desse ciclo são poemas de fruição, os mais físicos de todo o livro, carnais, ao ponto de o poeta evocar anoiteceres que gemiam melodia. E leio-vos, para não estarem a pensar que vos minto:

Fizemos anoitecer
gemendo melodia
de acontecer.
E acontecia
o que um e outro
queria…

         “Amor casado a dois” é o conjunto de poemas que se segue. Conta-nos a que, hoje em dia, é a meu ver a mais subversiva das experiências, a do amor casado, legítimo, o amor da rotina e repetição infindável dos dias. Fernando Machado Antunes canta o casamento como uma viagem e um bom porto. Mas é com ternura e lucidez, com um estoicismo romano, que ele identifica também os perigos, o risco de uma sonolenta banalidade:

Sei, meu amor, que me inquietam os dias
ficando palavras por dizer
e que das tranquilas sonolências das poesias
não nascem melodias
poéticas
de amor e bemdizer…

Sei meu amor, que me desassossegam as horas
ficando gestos por aparecer
e que de olhos perdidos em lonjuras
não nascem auroras

         É já um poeta em plena maturidade, seguro da sua linguagem, seguro dos seus amores, seguro da sua visão do mundo, que depois vai ao reencontro do seu passado. Primeiro ao encontro dos seus amigos, depois em revisitação a Luanda, Coimbra e Lisboa, esses lugares chave da sua biografia. O poeta entra, como ele mesmo confessa, “nos mambos da amizade”. Amizade a pessoas que vêm com mãos de dar, reconhecimento das ruas de Luanda, “lugar da minha vida”, “terra de cheiros, tons e sons e chão”, Luanda mil vezes cantada, mil vezes traída e Lisboa, cidade “toda menina, toda moça”.

         O poeta Fernando Machado Antunes tudo isto canta, poética e sinceramente. Mas, de repente, o Velho, o meu amigo Velho dos tempos imemoriais de Luanda, volta a tomar conta deste seu primeiro livro de poemas. E faz irromper a utopia. O mundo que viveu é tão rico que não o quer perder. Reinventa, por isso, esse mundo de memórias, esse mundo em que sonhar a invenção de um mundo novo fazia sentido e era permitido. E surge o ciclo de poemas que encerra o livro. Chama-se “Em Lualis”. Em cinco poemas e uma coda, o poeta, que já para a infância e adolescência inventara palavras novas, inventa agora uma cidade virtual, uma cidade utópica, cidade mestiça, fusão lindamente mulata de Luanda e Lisboa. 

Leio-vos uma estrofe:

Queria imaginar uma avenida
de porto a porto, mestiça de voar
mil desejos e um olhar
vinda dos caminhos de ontem
aos amanhãs da vida…

         Será ingénuo o desejo de Fernando Machado Antunes? Nem é preciso ser muito céptico para se dizer que sim, que a vida não é assim, que isto é conversa de poeta e que essa cidade nunca há-de existir. Se querem que vos diga, não estou tão certo. Existe o que existe nas nossas cabeças e até eu, de vez em quando, já vejo essas ruas mestiças, já na minha pituitária se cruzam cheiros, regressam ao meu palato o sabor nostálgico da paracuca ou do calulu.

Fecho este “Amores em Lualis” com a quase certeza de que este livro e o seu autor estão certos. Não há vencedores, nem vencidos: no mundo que o Velho, poeta de Lualis, quer, cai champagne dos céus.

E o mundo vai dar-lhe razão. O mundo que está à nossa frente ou é um mundo de amores ou não será mundo. O mundo que está à nossa frente ou é de fusão, mestiço, mulato, ou não será mundo. Obrigado, Velho, pela lição.

Uns ovinhos de perdiz

venda informal

Tinha os olhos postos na minha pilinha. Olhava-a com uma inquietação de oito anos de idade. Ali estávamos, ela de olhar mais cego, a interrogarmo-nos um ao outro: estaria a façanha, na sua complexa articulação e intrincado encadeamento, ao nosso alcance?

Quando vi o filme Stand by Me gritei de inveja: também queria, como aquele bando de miúdos, ter descoberto um cadáver numa mata, para o lado do aeroporto de Luanda, onde íamos caçar pássaros. O cadáver dos meus oito anos foi uma calçadeira. Deixemos, para já, a calçadeira ao pé do que era então o meu único par de sapatos.

Da escola da Missão de São Paulo, eu vinha de frescas sandálias ou de imaculados quedes em dias de ginástica. Bando negro com miúdo branco, atirávamo-nos, com uma convicção de Garrinchas, Matateus e Iaúcas, a trumunos de sarjeta. Ou seja, a sarjeta era a baliza e o objectivo era, quem estivesse na posse da bola – uma lata, caixa, um bom caroço de manga – enfiá-la no buraco. Fazíamos da caminhada ramerranesca uma jornada de glórias e humilhações pessoais e uma afronta à manutenção dos esgotos camarários.

Íamos deixando os colegas moradores no musseque Rangel onde desaguava a Avenida dos Combatentes, e sobrávamos dois. Vila Alice à vista, sentávamo-nos com um vendedor de kitaba, paracuca e quifufutila. Largávamos um angolar e a língua deliciava-se entre o picante e o doce, enquanto oferecíamos os ouvidos ao nosso mestre vendedor. Era um mais velho ainda novo, nada de kota, mas sabia já o que nós não sabíamos e queríamos saber: aquilo.

Fazia render as revelações, do manso farfalho a tirar as cuequinhas, até que um dia contou o que sonhávamos que nos contasse. Era assim: corpos nus, abria-se o que é de sua natureza abrir-se e penetrava o que para isso é cilíndrico e de inflada ponta. Depois, obtido o perfeito encaixe, com uma calçadeira, eis que se enfiavam os redondos complementos do impante membro. Os meus dois ovinhos de perdiz também entrariam, portanto, na festa.

Acreditámos. E a calçadeira assombrou tanto a minha infância, como o espectro que Marx dizia assombrar a Europa no revolucionário século XIX. Só havia uma calçadeira em casa e seria perverso tocar-lhe. Com que cara e dinheiro iria eu, oito anos, comprar uma? E diga cá – já os estava a ouvir –, para que quer o menino a calçadeira?

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Publicado no Expresso

o simca aronde

Simca
O que gos­tava de ter tido um Simca Aronde ver­me­lhi­nho como este

O Simca Aronde, segunda mão, em que o meu pai me levava, era igual a este, mas azul e branco. Passámo-lo a cin­zento meta­li­zado, logo que a Direc­ção de Via­ção deu licença, nesse tempo de pedir licença. Andá­va­mos pelas ruas de Luanda, asfalto e terra ver­me­lha, Vila Alice, igreja de São Domin­gos ou Sagrada Famí­lia. E íamos até às praias, para sul, quase até à foz do Kuanza, pic-nic no Morro dos Veados.

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deixá-lo ao ape­tite voraz do mato africano

A última vez, com as vál­vu­las à beira do colapso, a cam­bota em sur­dos lamen­tos, os pis­tões a ame­a­çar greve, fomos way East, ao Dondo, pas­sando por Catete, Maria Teresa, Zenza. Depois, uma subida a pique, até Cam­bambe. Fomos nós – o meu pai e a minha mãe, irmã e eu, can­den­gue – que o levá­mos pela mão, ao Simca, já tão lacri­moso e ainda muito fran­cês. Não o dei­xá­mos, mas se calhar devía­mos tê-lo dei­xado mor­rer no meio do mato afri­cano que tem o ape­tite voraz que as mães gos­tam de ver nos filhos.