Granta: a minha sala de cinema

Já está nas livrarias a revista Granta. A convite de Pedro Mexia, escrevi um texto sobre a experiência da sala de cinema. A escrever um texto teórico preferi servir-me da minha realíssima e concreta experiência e escrevi um texto autobiográfico. Deixo aqui um pequeno excerto.
Façam o favor de comprar a revista para eu não ficar mal visto…

Granta

Com excepção do cinema dos padres capuchinhos, na Missão de São Domingos, até aos dezassete anos, mais de 90% dos filmes que vi, vi-os com os olhos a fugir para o céu. Muitos na melhor das minhas salas, o cinema Miramar, o mais belo do mundo, levantado, como John Wayne levanta Natalie Wood em The Searchers, sobre as barrocas de Luanda. O Miramar, logo depois do seu jardim com as weliwítschias de longos braços estendidos atrás do pasmoso ecrã, caía a pique sobre o mar, tendo em fundo a baía, guindastes e os grandes navios conradianos do porto de Luanda, as refulgentes locomotivas do caminho-de-ferro da linha de Malange. Foi no meio dessa barriga de vida que vi, quinze anos, ainda mal o meu polegar do pé direito roçava a cinefilia, o Pierrot le Fou, de Jean-Luc, esse torcionário Godard, que tão depressa me salva de afogamentos, como me embrulha a cabeça numa toalha, enfiando-ma na água de uma banheira.

adieu to you, ladies of Spain

Borges

Senhoras da Nossa Idade é um blogue escrito pela Céu. Aqui há atrasado, como se costuma dizer, a Céu, muito simpaticamente, convidou-me, como já convidou mais de uma centena de pessoas, a responder a um inquérito. Um inquérito feito à medida de alguém que gosta de ler. Respondi e acho que, mesmo mais de um ano depois não é despropositado depositar as respostas nesta Página Negra. Agradecendo muito à Céu e às Senhoras da Nossa Idade o convite e dizendo que foi uma alegria responder e ver tudo publicado num blogue tão bem frequentado, convido-vos a irem lá fazer uma visita. Vão, estou certo, ficar clientes.

E agora o inquérito.

1. O que está a ler neste momento?

Estou a ler, por obrigação profissional e por gosto a Economia do Bem Comum, um livro de Jean Tirole, Prémio Nobel da Economia, que vou publicar já no dia 15 de Maio. Uma lição: só há serviço aos outros onde há pensamento e inteligência. Mas no fim de semana comecei também a ler, de um americano de ascendência russa, Yuri Slezkine, um livro monumental, de 1290 páginas, que se há-de vir a chamar, se for um dia traduzido para português, A Casa do Governo, A Saga da Revolução Russa. Um livro prodigioso sobre um fenómeno criado por Estaline. Estão a ver o edifício das Amoreiras? Bom, ele mandou fazer uma construção monumental desse tipo: 505 apartamentos, para as famílias bolcheviques no poder, com biblioteca, refeitório, teatro, courts de ténis, correios. Estava ali a elite e estava ali o modo de vida quotidiano comunista. Ali se beijava a boca comunista da glória e ali se caía em desgraça e se era preso por traição. Que inveja raivosa Shakespeare teria deste teatro vivo de sangue, tortura e lágrimas que faz de Hamlet e Macbeth meninos de coro.

2. O que leu antes e o que vai ler a seguir?

Li antes uma biografia de Louis B. Mayer, Merchant of Dreams, de Charles Higham, e vou ler agora, de Alain Tapié, Vanité, Mort Que Me Veux-Tu?, um livro-catálogo, lindíssimo, que acompanhou, em 2010, a exposição homónima da Fundação Bergé-Yves St. Laurent. É das Éditions de la Martinière, que tem a ousadia de editar certos livros na linha das edições de luxo da minha Guerra e Paz editores, mas com dinheiro à séria.

3. Conte-nos uma memória de infância relacionada com livros

Li um livro de Zane Gray, Ouro do Deserto, julgo, que metia uma misteriosa, doce e tensa mulher mexicana chamada Mercedes, um bandido chamado Rojas e um índio Yaqui que se fundia com as sombras, as ervas e o vento. Quis ser esse índio e é provável que ainda hoje eu ame Mercedes como jamais algum homem amou uma mulher.

4. Que livros marcaram a sua adolescência?

O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. A Náusea, de Sartre. Tortilla Flat e A Leste do Paraíso, de John Steinbeck. Lord Jim, de Joseph Conrad. Terna é a Noite, de Fitzgerald. Os indecorosos livros proibidos do Vilhena. Alguns poemas de Fernando Pessoa ditos por João Villaret. Os Centuriões e Os Pretorianos, de Jean Lartéguy. O Canto IX de Os Lusíadas. Salambó, de Gustave Flaubert.

5. Um local público onde goste de ler

Gosto de ler nos jardins da Gulbenkian. Gostaria de poder ter lido nas calles que Jorge Luis Borges cantou no seu Fervor de Buenos Aires.

6. O seu recanto preferido de leitura (em casa)

Quando era miúdo, em Luanda, na Vila Alice, lia sentado, horas seguidas, nos ramos da mangueira do meu quintal. Não é fantasia, é mesmo verdade. Agora, com três almofadas, na vasta planície que é a minha cama.

7. Uma biblioteca importante para si

A tão bonita biblioteca do mais belos dos liceus, o Salvador Correia, onde li O Crime do Padre Amaro, joelho contra joelho de uma colega de longas pernas. A Biblioteca da Câmara Municipal de Luanda – vinha cá para fora, para o relvado sobre a Mutamba, e foi assim que li As Vinhas da Ira. Depois, a Biblioteca Nacional de Angola, dirigida pelo professor Carmo Vaz, no começo dos anos 70. Foi lá que ao ouvido me sussurraram o 25 de Abril que houvera na distante Lisboa.

8. As livrarias que costuma visitar

A minha primeira livraria fornecedora foi a livraria Goya, na Avenida dos Combatentes, em Luanda, só depois a Lello, na Baixa. Agora, em Lisboa, passo muitos fins de tarde na Bertrand Picoas-Plaza, mas a apresentar livros. Gostava da Pó dos Livros. Gosto da Livraria Francesa, devia ir lá mais vezes.

9. Uma editora de que goste particularmente

Da Guerra e Paz editores, está claro 🙂 . Mas gosto da Dom Quixote, da Quetzal, da Relógio de Água, da Porto Editora, da Presença, da Tinta da China, da Leya, da Bertrand, da Gradiva, da Antígona, da Imprensa Nacional, da Paulinas, da Sistema Solar, da Planeta e da Penguin. Gosto da diferença entre os grandes e os pequenos editores. Gosto dos editores que chamam negócio ao negócio e gosto dos editores que julgam ser sacerdotes dominicanos em defesa dos happy few. E, olhem, tenho saudades da Assírio do Hermínio Monteiro. Podiam ser insustentáveis, mas eram uns tempos deliciosos, uma espécie de kir royal de fim de tarde.

10. Que livros gostaria de reler?

Estou sempre a reler o raio de um livro que o meu professor de Filosofia Antiga e História e Filosofia das Ciências, o José Gabriel Trindade dos Santos, me deu em Novembro de 1980. É um calhamaço verde, da Emecé Editores, e tem parte da Obra Completa (1923-1972) de um poeta cego rendido «a los espejos, laberintos y espadas» e também a «el outro y el olvido». O velho volume já se vai desfazendo, soltam-se páginas, apagam-se algumas letras, mesmo um inteiro verso. Na decadência dele, a minha decadência: morreremos nos braços um do outro.

11. Que livros está a guardar para ler na velhice?

Já nada guardo, nem tão pouco a velhice. Se é para o apocalipse, apocalipse now.

12. Acessórios de leitura que não dispensa

Já dispenso muitas vezes os óculos de ver ao perto. Voltei a ler de olhos nus, sem intermediação, as piedosas pestanas a roçar a meiga página.

13. E se um livro não prende, põe-se de lado ou insiste-se?

Nada de promiscuidade, já só leio por amor.

14. Costuma ler sobre livros? Quais são as suas fontes?

Claro, claro. Na Le Point, belíssima revista francesa de centro-direita. Num filosófico agregador australiano, o Arts & Letters Daily que me selecciona o que de melhor se pode ler diária ou semanalmente no TLS, Aeon, New Yorker, Beirut Daily Star, Arion, Jerusalem Post, Cabinet, Fortnightly Review, Laphams Quarterly, Philosophy & Literature, enfim uma snobeira desatada que já me aconteceu descambar em simplicidade e beleza.

15. Uma citação inesquecível que queira dedicar às Senhoras da Nossa Idade

Se me permitem, cantar-lhes-ei uma canção:
Farewell and adieu to you, Spanish ladies
Farewell and adieu to you, ladies of Spain;
For we have received orders
For to sail to old England,
And we may ne’er see you fair ladies again.

DesertGold

Os maiores dos poetas menores

Alvin-Lee

Foram sempre uma segunda escolha, mas eram os maiores dos poetas menores. Os Ten Years After tinham Alvin Lee, o “mais rápido” dos guitarristas de qualquer banda rock. Escuso de lembrar que esmagaram Woodstock com o seu fabuloso e blueish “I’m Going Home”.

No meu estreitíssimo e serôdio imaginário entraram, em 1970, com esta canção. Em casa, na praia, nas esplanadas da Ilha, no Liceu antes dos jogos com a Escola Industrial, no carro do meu pai, onde fosse, os primeiros acordes de “Love Like a Man” vinham-me à cabeça – you rolypoly all over town — e punham-me a cabeça em fumo e fogo. When you flash those eyes to me.

A alegria epiléptica

empire
Cadil­lac of the skies

É afro­di­síaca mesmo que quem a sinta não saiba quem raio seja Afro­dite. Falo da grande ale­gria, daquela que já não cabe no corpo, dessa ale­gria que nos estre­mece, enche e esvazia os pul­mões. A ale­gria con­vulsa.

Ima­gi­nem um campo de pri­si­o­nei­ros. Jim, um miúdo inglês, cres­ceu ali, meio-protegido, meio-abusado, por dois cor­ré­cios ame­ri­ca­nos. Cres­ceu entre o des­dém e a humi­lha­ção dos guar­das japo­ne­ses.

O campo de pri­si­o­nei­ros já é o deserto de toda ale­gria. Mas o campo de pri­si­o­nei­ros que sofre o ata­que da nossa pró­pria avi­a­ção é o pan­de­mó­nio dos sen­ti­men­tos, a lágrima de san­gue que trans­borda do cálice. Só o Pai que sabe­mos tem a cru­el­dade de dar esse cálice a um Filho.

É o que acon­tece em “Empire of the Sun”, filme de Ste­ven Spi­el­berg. Há um ata­que aliado. Um Chris­tian Bale novi­nho, o actor que dá corpo a Jim, corre eufó­rico para o telhado meio-destruído de uma das cons­tru­ções do campo de con­cen­tra­ção.

Lá em cima, salta, abraça-se a si mesmo, treme de exci­ta­ção, res­pira forte para não sufocar e explode num grito e num riso epi­lép­ti­cos. O mundo suspende-se, o movi­mento quase pára para dei­xar voar a beleza fan­tás­tica de um avião de fogo e morte.

O pin­dé­rico ingle­si­nho sobre­vi­vente berra: “P-51 Cadil­lac of the skies”. Vénus quando era vir­gem, Deus nosso senhor, a ino­mi­ná­vel Beleza, não seriam sau­da­dos com mais exaltação e exul­ta­ção. Jimmy salta de cos­tas, salta de frente, enquanto as bom­bas rebentam com tudo à sua volta. “P-51 Cadil­lac of the skies”, ó ale­gria de um catano: o fogo, a morte, a des­trui­ção, sabem-lhe a vitó­ria. O avião dos seus sonhos, que os seus dedos quase tocam fisi­ca­mente, arrasa de vez o mundo em escom­bros onde sobre­vive. Tudo morre, mas tudo morre para que ele renasça.

A ale­gria con­vulsa, epi­lép­tica, é pri­vi­lé­gio de cri­ança. Tem de ser inau­gu­ral. Lembro-me da minha pri­meira vez, dos sin­to­mas e do devas­ta­dor ata­que. Conto.

mar
o infi­nito len­çol oscilante

A pri­meira vez que eu vi mesmo o mar foi já no meio do Oce­ano Atlân­tico. De Angola, o meu pai cha­mava os meus 5 anos e lá iam eles agar­ra­dos à saia da minha mãe e a toque de caixa da minha irmã. O pouca-terra, pouca-terra, numa tarde de ver­me­lhís­si­mas cerejas, trouxera-nos da Beira fria, farta e feia. Em Lis­boa, Cais da Rocha, tínha­mos entrado no Vera Cruz, então sofis­ti­cado tran­sa­tlân­tico. Des­ce­mos logo ao cama­rote e quando vol­tá­mos a subir – no dia seguinte? –cercava-nos um vasto tapete ondu­lado, de um azul inú­til e livre. Flu­tuá­va­mos num infi­nito len­çol osci­lante: Hou­dini tinha escondido a terra.

Os pul­mões não me cabiam no peito de con­ten­tes; em riso e lágri­mas até pelos olhos os pul­mões me saíam. Dizem que é a ple­ni­tude. Gos­tava de me lem­brar melhor, se era igual o azul de céu e mar, se havia vento, quase nenhu­mas nuvens, e se can­ta­vam sereias ou sonhava já contigo.

Em louvor do Panteão

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The Searchers

Já me disseram que bem podemos meter o cânone de Harold Bloom no sítio que todos sabem. Virá uma tarde, àquela melancólica hora em que tomba lento no horizonte o crepúsculo dos deuses, e alguém me dirá que posso também meter no mesmo sítio os velhos filmes de Ford, a começar pelo “The Searchers”, os velhos Lubitsch, a acabar na “Ninotchka”, os velhos Hitchcock, começando e acabando no “North by Northwest”.

E Jesus me valha se eu em verdade, em verdade não vos disser, que anda alguma gentinha a confundir o cu com as calças. A confusão é velha, tem mudado muito de calças, mas pouco de cu. Os maiúsculos Grandes Livros e Grandes Filmes já não são a fonte de conhecimento necessária para este tempo, dizem. Quando eu, em Luanda, vinha a pé do Liceu Salvador Correia até casa, os quedes brancos enfiados em areais cor de acácias, já havia uns velhos corvos a crocitar a morte do saber burguês. Anunciavam o homem novo, com filosofia dicotómica e vermelha. Era uma filosofia sedutora, na sua simplicidade de bons e maus, mas mesmo quando andei de punhinho no ar e pequeno livro a substituir-me o bilhar de bolso, houve sempre um ponto inegociável: os velhos livros e filmes eram o panteão vivo a que sempre voltava.

A confusão crítica era e é a de reduzir esses grandes livros e filmes a repositórios ideológicos ou filosóficos. Ora, o cu marxizante, neo-realista, que assim os criticava, voltou agora na forma de cu ressentido, de género, etnicizante. Reduz tudo, cu e calças, a um saber ideológico, teórico-político. Escapa-lhe a humaníssima experiência estética: a ideologia nunca soube o que fazer com a ficção, com a indisciplina da emoção.

Os livros que Bloom elegeu, os filmes de Ford, Hawks, Renoir, Ozu, Dreyer, não são filosofia. São prodigiosos trabalhos de imaginação que geram emoções. Oferecem-nos acções e sentimentos que acordam em nós um músculo adormecido e rimam com as nossas vidas. Alguém nos terá amado da forma clandestina como a cunhada ama John Wayne, em “The Searchers”. Um dia partiremos, como Wayne, e enquanto desaparecemos no deserto que nos engole, uma porta há-de fechar-se, e nessa casa ficarão os que amámos e nos amaram, um velho casaco militar, a mesa a que não voltaremos. Não há cu ideológico que substitua tanta pena, saudade e dor.

Noites de ponta e mola

faca

A morte de Abel, Tintoretto

A ponta e mola brilhou numa noite dos meus 14 anos. Voltei a vê-la em “The Outsiders” e “Rumble Fish” de Francis Coppola, filmes que depois me mostraram o espectáculo da morte a que aos 14 anos não assisti. Mas conto.

barriga
espetou-lhe na barriga uma faca darwiniana

A faca enterrou-se na carne macia e jovem. Subiu, cega e oblíqua, da bar­riga para o estô­mago. Eu morava dois quarteirões adiante e estas coisas acon­te­ce­ram em Luanda. Foi a primeira vez que a palavra morte apagou um rosto do resto dos dias da minha vida.

Como o Matt Dillon de “The Outsiders”, o V era mais velho do que eu. Dois anos, um mundo de difer­ença. Mas fazíamos junto, a pé (às vezes com o Videira, o mais célebre contínuo do liceu), o caminho do Sal­vador Cor­reia até ao Cin­ema Império, pas­sando pela Sagrada Família, o descam­pado em frente ao Hos­pi­tal Mil­i­tar, um inóspito car­reiro até ao Liceu Fem­i­nino e, à frente, atrav­es­sando a D. João II, o cin­ema Império, com a defesa civil ao lado, as mora­dias alin­hadas entre as tra­seiras do cin­ema e a Estrada de Catete.

Tudo terá acontecido para que Coppola viesse um dia a filmar, em “Outsiders”, com liberdade poética, a cena em que Johnny, quase uma criança, mata um miúdo do bando inimigo, salvando Ponyboy, o melhor amigo. Nessa noite que ainda não sabia ser a última, V andava também em bando – sem­pre em bando. Julgaram sur­preen­der um ladrão. Lará­pio só, não ladrão de colarinho e off-shores como hoje se con­hecem. Era um miúdo do musseque, ani­mado pela vontade de risco, pelo orgulho de deam­bu­lar no bairro branco. Vinha em rito de ini­ci­ação. A inútil e essencial cor­agem adolescente.

Como Ponyboy e Johnny, o miúdo do musseque, sentindo o cerco, pas­sou a acos­sado. Imag­ino que tenha ficado ani­mal encol­hido entre muro e sebe, leopardo atento, a res­pi­ração a fer­ver, mús­cu­los ten­sos até doer, pronto para ser invisível e lutar. Matar, se fosse pre­ciso. As som­bras bran­cas cor­riam, sem que nen­huma o visse. Imag­ino que V o tenha apan­hado de sur­presa, num tempo sem som, igual a uma ton­tura, o mesmo tempo insonoro que Coppola mostrou em “Rumble Fish”.

Mais apto, mais rápido, o miúdo, jovem máquina de luta de musseque, espetou-lhe na bar­riga uma facada dar­wini­ana. De baixo para cima, irremediável. E correu, flecha entre as árvores, perdendo-se na anónima meia-noite dos trópi­cos. Voltou a casa, aos seus, à adormecida mãe na esteira. Respiração a mil, mas de coração livre e sobrevivente. No chão do bairro branco ficara estendido o menino de outra mãe.

Soube no dia seguinte: mataram o V, o V morreu. No cemitério – éramos um bando, sem­pre um bando – não con­seguíamos chorar. Ríamos ner­vosa­mente. Digo, então, que a primeira vez que vi a morte me ri ner­vosa­mente, tão ner­vosa­mente como me ri quando, pela primeira vez, sangue em alvoroço, me apaixonei.

Em “Rumble Fish”, Rusty James (Matt Dillon) leva uma sova homérica num beco. Vemos o corpo separar-se do corpo. o segundo corpo, um corpo flutuante, hesita ainda, com pena do frio vulto de que saiu e jaz em terra, mas já com vontade de descobrir celestiais nuvens de aventura e desconhecido. Em “Rumble Fish” o corpo dá um pontapé à morte e volta ao corpo térreo, original. Em Luanda, em vez do apelo de lutas, namoros, farras de sábado, uma bebedeira na Ilha, o corpo flutuante de V escolheu o desconhecido. Escolheu harpas e arcanjos, ou esse rumor cósmico que é som e não é som e que torna toda a metafísica inútil.

rusty
o corpo flutuante hesita ainda

A agilidade vagabunda de um Dois Cavalos

crónica de coisas passadas 

DoisCV
O Dois Cavalos está a arder, alguém me viu fugir, à velocidade dos vinte anos, pelo mato do Dondo, e dois dias depois já a minha mãe sabia que a FNLA, de morte matada, tinha mandado o seu anjinho encontrar-se com os anjinhos do céu. As cinzas de um 2CV ainda hoje jazem e apodrecem no pujante mato do Dondo que o abraçou, dois rapazes fugiram e talvez nunca mais as bocas das suas mães os tenham beijado, mas foi outro, e não o meu Citroen 2CV, a ser devorado pelas chamas criminosas. Juro também que esta crónica não é póstuma e o amoroso luto da minha mãe foi manifestamente exagerado.

O 2CV foi o meu primeiro carro. Comprei-o em octogésima mão. Era uma pandeireta a estremecer por todos os lados. A frágil graça das suas linhas, tão lindas como a nuca rapada de Naomi Campbell, pedia que fossemos nós a levá-lo ao colo e que ninguém fizesse a afronta de sentar as baixezas nos seus periclitantes bancos. E eis a primeira viagem: de Luanda ao Lobito, 700 quilómetros de estradas à beira da independência, uma guerra civil de mortes à traição a vir do capim ou das esquinas da cidade. Intrépido, com a vagabunda agilidade de Charlie Chaplin, o Dois Cavalos avançou para o interior até à Quibala, flectiu para os morros da Gabela, por lhe cheirar a café, e depois deixou-se deslizar à beira do Atlântico Sul, no Sumbe.

Do Sumbe ao Lobito, o perfume do mar queimava-nos de liberdade a pituitária. O 2CV fazia o que queria, ziguezagues como se a fita de alcatrão fosse só nossa, as finas quatro rodas a girar numa alegria menina. Podia-se, se assim posso dizer, mijar ao vento. E foi o que os meus vinte anos fizeram, na magnífica solidão dessa estrada, o pudico Dois Cavalos de olhos fechados, mas sem nunca parar. Eu andava então a fazer a revolução e tenho a certeza de que nem Che Guevara teve a liberdade de mijar ao vento de um 2CV em movimento.

Sempre soube que na vida se davam bolos. Nunca imaginei que um dos mais doces bolos da minha vida pudesse ser esse carro que os franceses tinham pronto quando os nazis os invadiram. E lembro: o 2CV olhou para a fronha de Hitler e negou-se a nascer. Os senhores engenheiros e os donos da Citroen, num gesto estético que faz deles os nossos heróis, destruíram os 150 protótipos. O 2CV só se fez à estrada, livre, em 1948. O meu devia ser desse ano, porque, já tínhamos passado a Canjala, a 70 quilómetros do Lobito, o chão do carro, no lugar do condutor, rasgou-se e passámos a ver a estrada. Olhava-se para cima e via-se o eterno azul do céu, olhava-se para baixo e desfilava o belo e negro alcatrão. Tínhamos assim a certeza de que era um Dois Cavalos com as rodas bem assentes no chão.

Nas lutas da independência, tive de o deixar no Lobito. Voltei para o recuperar em 1976. Mas o fogo não o poupara. A UNITA ou um sul-africano ressabiado, não reconhecendo nele a estremecida elegância de Naomi Campbell, pegou-lhe fogo. Era já e só uma carcaça queimada à porta do Chá para Dois, no Terreiro do Pó. Não se livram do fogo os Dois Cavalos da minha vida.

A praia deserta

ursula

Não, desta vez não se atrevam a espetar o dedo no peito da minha subjectividade. É estarrecedor de objectivo: tive um fim de adolescência de praia deserta. Privilégios coloniais. Das terras do fim do mundo, António Lobo Antunes escrevia cartas de amor e guerra para que eu andasse de caiaque entre os mangais, a meio caminho entre Luanda Sul e a foz do dolente Kwanza.

Antoine Doinel, o herói recalcitrante de “400 Coups”, filme de Truffaut, foge da casa de correcção e molha as calças numa correria louca pela praia de Villers-sur-Mer, na fímbria normanda da França. Antoine só não morre gelado por lhe ferver no peito o amor a Balzac.  Pouco amor é lá agora amor! Fervia-me também no peito o desalmado amor a um poema, a um filme. Enquanto me diziam que em Portugal havia filas de gente nas arribas à espera de Sebastião, eu esperava, nesse Verão colonial, que começou em 69 e acabou em 70, que Ursula Andress emergisse venusiana, com aquele empolgante bikini 007, mais castanho navajo white do que amarelo caqui.

Deixe-me, leitor, abraçá-lo e escorregar por si abaixo em chorada confissão: pobre a vida humana que não tem um filme ou romance de peito a aquecê-la! Mas mais pobre ainda é o livro lido por quem não tem uma vida a ferver-lhe nas veias.

Foi nessas praias, a que nunca chegou Ursula Andress, que livros e filmes se me entranharam na alma decotada, mas a escaldar, que então tinha. Misturavam-se com as noites de fogueiras cantadas a somos filhos da madrugada pelo bando católico progressista a que pertencia, a fresca sede de amor a fazer com que no estreito banco onde jamais caberia um, se encaixasse o desejo equilibrista de dois. Obrigado, bom Deus, pelo catolicismo tropical e por tão circenses pecados.

Fim de confissão. Recomponho-me. O que lhe queria dizer, estimado leitor, é que a emoção é o sangue da arte. Saboreie a beleza – a beleza da praia de Thomas Mann revista por Visconti; a beleza da praia em que o louco Pierrot e Anna Karina se desenterram da areia; a beleza da praia que os helicópteros de Coppola enchem de Valquírias e napalm. E tenha medo – a insubstituível experiência estética anda ameaçada. A esquerda e a direita sempre quiseram pô-la de serventia. A teoria académica, de tão correctiva, quer, sôfrega, domesticá-la.  Mil vezes a praia deserta.