Um slow de sábado à noite

 

Eu tive os meus anos Steppenwolf. Eram – serão sempre – os Steppenwolf. Tinham o som único, ácido, de The Pusher ou Born To Be Wild. Mas podiam ser estranhamente líricos como é aqui o caso. Eram cantados pela voz bluish de John Kay, magnífica, cheia, que de vez em quando se chegava à boca da noite e nos cantava assim, arrastando-nos e arrastando-me para slows de oh, meu Deus, é que nem me quero lembrar.

Ardíamos tão devagar nos slows de sábado à noite.

Corrina, Corrina, em boa verdade, não era uma canção deles. Roubaram-na a Bob Dylan. Mas, de a cantarem como a cantaram, é na deles que o meu pobre corpo se lembra e ressuscita.

Corrina, Corrina,
Gal, where you been so long?
Corrina, Corrina,
Gal, where you been so long?
I been worr’in’ ’bout you, baby,
Baby, please come home.

I got a bird that whistles,
I got a bird that sings.
I got a bird that whistles,
I got a bird that sings.
But I ain’ a-got Corrina,
Life don’t mean a thing.
Corrina, Corrina,
Gal, you’re on my mind.
Corrina, Corrina,
Gal, you’re on my mind.
I’m a-thinkin’ ’bout you, baby,
I just can’t keep from crying.

Cheirei, inalei, ou eu não fosse já eu

Ah, bom Deus, a nostalgia que se me atravessou. Foi há uns quatro ou cinco anos, estava a ver o Tree of Life, do Malick, e não é que no Texas, na small town onde também o filme se passa, irrompe um magnífica carro a despejar nas ruas o DDT da minha infância. Ah, Malick de um raio, que subiste cem metros na minha já tão alta consideração. Explico tudo já a seguir. 

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Eis o bicho que deitava fumo

Eu já dizia eu. E cor­ria como o Man­tor­ras, essa nos­tál­gica gazela de Catete. Eu cor­ria, ruas de Luanda, entre a Fer­nando Pes­soa, a Alberto Cor­reia e a Almeida Gar­rett. Às vezes, a per­der o fôlego, até ao Largo Cesá­rio Verde. A topo­ní­mia é mais men­tirosa do que a lua e esses nomes euro­peus eram nomes de ruas de São Paulo da Assump­ção de Loanda, cidade afri­cana que a esqua­dra bra­si­leira de Sal­vador Cor­rêa de Sá e Bene­v­ides reti­rou à mão pirata e holan­desa para a devol­ver à restau­rada nacional­i­dade por­tuguesa, quando Angola não tinha, ou se jul­gava que não tinha, nenhuma.

Quando o eu que já era eu cor­ria, eram tam­bém out­ros os fumos do tempo, mas ainda não eram esses os que me faziam cor­rer. Não obs­tante, o já meu peque­nino eu era mesmo pelo fumo que cor­ria. Por nuvens dele como vão ver.

Aqui há atra­sado, descobriram-se 750 novos insec­tos em todo o mundo. Julgo que, naque­les ale­gres dias dos anos 60, se imag­i­nava exi­s­tirem alguns 4 mil­hões de espé­cies. É, para qual­quer espí­rito decente, uma obs­cena e múlti­pla ame­aça. Mos­cas e mos­qui­tos eram sinón­imo de doen­ças, febres altas e palúdi­cas, malá­ria, tifo, o diabo e delí­rios a qua­tro e a mato. Qua­tro mil­hões de espé­cies é muitís­sima espé­cie e, se não se podiam exter­mi­nar todas, era legí­timo exter­mi­nar algu­mas. Em Luanda, para epi­fâ­nica ale­gria do meu tão peque­nino eu, exterminava-se a mos­qui­tada com DDT. O DDT, acho que nem seria pre­ciso dizê-lo, é o napalm dos insec­tos, o cheiro a vitó­ria das man­hãs da minha infância.

O DDT vinha num carro que entrava pelos dias de sol incan­des­cente, sem Valquí­rias impe­ri­ais nos alti­falantes. Um carro só, com bizarro depó­sito atrás, anun­ci­ado pelos gri­tos das sen­tinelas do bairro que nós éra­mos: “Carro do fumo, carro do fumo!” E o DDT, indis­cu­tido pes­ti­cida, saía espesso, em nuvens glo­riosas, imac­u­ladas. Enquanto as mães, já arma­das em classe média, cor­riam a fechar as chei­ro­sas casas de ale­crim e alfa­zema, nós, mais lum­pen do que peque­nino bur­gue­ses, tirá­va­mos as cami­sas e mer­gul­há­va­mos naquele algo­dão doce. Bebía­mos DDT, respirá­va­mos DDT. O Dicloro-Difenil-Tricloroetano entrava-nos pelos poros, nari­nas, robus­tos pul­mões, enquanto à nossa volta os inimi­gos, não sei quan­tas espé­cies de insec­tos voa­do­res, ras­te­jan­tes, tom­ba­vam sem remis­são. Mor­riam. Massacre.

A vitó­ria era certa. Tería­mos dado cabo deles, da mosca tsé-tsé, da barata repe­lente, do mos­quito rai­voso, se não tives­sem, claro, proi­bido o DDT, o cloroben­zeno que valeu o Pré­mio Nobel da Med­i­c­ina ao suiço que lhe desco­briu as letais qualidades.

Cada mês que passa, inven­tariam-se (ups!) 750 novos insec­tos. Calcula-se que daqui a 445 anos esteja fechada e rig­orosa­mente selada a cat­a­lo­gação de todos as espé­cies inven­tadas ou por inven­tar. Serão vários mil milhões de espé­cies e domi­na­rão o mundo. Proi­bido o DDT, nada pode deter o tri­unfo sibi­lino dos artró­po­des. Mas nem o que a con­venção de Esto­colmo proi­biu, nem tão pouco 445 anos de insen­sata cat­a­lo­gação não insec­ti­cida, me podem negar ou rou­bar o que o “eu que já era eu” exper­i­men­tou na Luanda de guer­ras pes­ti­ci­das: eu ina­lei, eu chei­rei! E tinha o suave e doce cheiro da vitória.

Tifa
A festa

O mais jovem pára-quedista do mundo

Os meus amigos de Luanda eram príncipes de sete anos cada um. Viram os primeiros pára-quedistas a flutuar no céu colonial de Angola. Os meus amigos da Vila-Alice não eram de ficar com os pés em terra.
O resto é pura aventura, pura poesia de uma Luanda, que já não se escrevia com o. 

Normandia

Quando flutuam no céu não sei se parecem anjos se, longe e pequeninos, são mais alforrecas.

Em “O Dia Mais Longo”, invade-se a Normandia. Milhares de barcos tapam o mar, a multidão de soldados de infantaria chapinha na última onda da praia fugindo à metralha alemã. Entretanto, os pára-quedistas saltam atrás das linhas inimigas.

Recordo a aldeia de St. Mère Église. Os páras tinham os boches à espera. Vinham no ar e eram ceifados sem piedade. Um ficou preso no campanário da igrejinha. Fingiu-se morto e ficou pendurado, horas, os sinos a ensurdecer-lhe os ouvidos, vendo o morticínio dos camaradas. Episódio real, o pára sobreviveu no filme e na vida.

No filme mais fácil de assobiar de que os meus lábios se lembram, “A Ponte do Rio Kway”, os páras saltam em território inimigo para sabotar a ponte que o prisioneiro Alec Guinness construiu para os japoneses. William Holden, o pára-quedista americano, salta com a alegre elasticidade moral yankee que o fez logo mais herói a meus olhos do que a sorumbática honradez do britânico Guinness.

Saí da matinée e, aos 7 anos, vi os primeiros páras saltar, num festival a que Luanda assistiu mal a guerra começou.

No ar, os velhos Nordatlas, chamados barrigas de jinguba, roncavam, preguiçosos. Abriram-se como torneiras e o azul celeste povoou-se de pontos negros caindo vertiginosos para a morte. De repente, nascia-lhes na cabeça uma salvadora e ampla cabeleira. Flutuavam, então, presos a esses alucinados lençóis de Deus.

Três amigos, sete anos como eu, extasiaram. A imaginação exigiu-lhes igual cabeleira. Cortaram plásticos, novelos de fio grosso. Procuraram local propício: uma obra em construção. Subiram a um andar. No chão, dois montes da amarela areia do Bengo garantiam queda macia.

O resto é pura epopeia. Um amarrou ao pescoço o científico e improvisado pára-quedas. Os outros, em rígida continência, tributavam-lhe a coragem. Saltou.  O plástico reagiu com eficácia newtoniana e abriu-se. Numa imparável cadeia de efeitos, a corda esticou e, ai meu Deus, o pescoço do mais jovem boina verde do mundo viu-se apertado. Faltou-lhe o ar e os olhos (mania que os olhos têm) esbugalharam-se, aflitos, para o mundo. Tentava gritar roucos sons intraduzíveis.

Os amigos foram amigos. Correram escadas, saltaram andaimes, trovejando “tem calma! tem calma!”, “já aterras! já aterras!

Corriam desenfreados e pairava o herói em histérica majestade. Aterraram juntos: os dois maratonistas de andaimes esfolando-se no cimento, o atónito pára-quedista na areia dourada. Cinema puro: terminava com um fio de sangue, suor tropical e sem lágrimas a aventura militar de um trio empreendedor e aberto à experimentação científica.

Muito estremeceu depois o céu de Angola, mas já não com a valente inocência de uns principezinhos sem asas.

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Uma foto para a eternidade

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A foto de Capa

“Não havia escola, nem cinema, nem teatro”. Xavier Camps e os amigos, protegidos pela impunidade dos 15 anos, acorreram aos Jardinets de Gràcia, em Barcelona, para ver o avião alemão que, abatido, se oferecia como espectáculo de bairro. Corria o ano de 1939 e a Guerra Civil, de Franco e republicanos, voara já, e em piloto automático, para o fim mítico e shakespeareno. Xavier e os amigos buscavam aventura e a palpável proximidade com as “metralhadoras, balas e bombas” que na sua imaginação enchiam a carlinga do alado monstro germânico.

Coincidiram, nesse dia, nessa hora, com a câmara do fotógrafo Robert Capa que sobre eles disparou com suavidade e discrição, ferindo-os para a eternidade. As fotos de Capa estiveram perdidas 69 dúbios anos. Guardou-as com nobre reserva o general mexicano Francisco Javier Aguilar González. Descobertas há dez anos e apresentadas pelo “NY Times” e pelo “El Periódico de Catalunya”, as imagens de Capa reencontraram-se com os fantasmáticos protagonistas que, em 39, correram pressurosos aos Jardinets de Gràcia e aos despojos que fulminados caíram do céu.

Xavier recordou, 69 anos depois, o orgulho e ousadia que, nesse dia, o fizeram avançar para uma posteridade que a estatura tímida e a deselegância de umas calças largas e de mau tecido não podiam adivinhar.

Poderia acontecer a qualquer um de nós? Poderia ter-me acontecido? Que Capa (e se fosse o local, competente e velho Quitos fotógrafo já iríamos muito bem servidos) terá fotografado o dia em que, sôfrego, vim a correr, com o RA, ao Terreiro do Pó, no Lobito, para assistir ao ataque (a metralha e granada) à delegação da Unita, por uma unidade mínima do MPLA, num só jipinho Suzuki amarelo (só quem viu sabe do que falo), comandada pelo camarada JM, que acabou atingido com um tiro na cabeça que o imobilizou por três meses? Alguém – que outro Capa? – terá em Luanda, e em 1975, fotografado a conveniente explosão do jornal “Provincia de Angola”, a que o JS e eu fomos os primeiros a chegar, já passava do recolher obrigatório, e que serviria depois, mutatis mutandis, como acusatório “incêndio do Reichstag” contra a FNLA?

Nunca ninguém nos avisa de que nem todas as livres escolhas de juventude garantem a música da eternidade.

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O menino da foto refotografado

Charles Aznavour

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Foi Jean-Luc que teve a culpa. Eu já amava desarvoradamente as canções de Charles Aznavour. Calções de 12 anos, ainda dar a mão a uma miúda me deixava em estado de temor e tremor, e já as canções dele me faziam estremecer de uma escondida emoção, por recear que pudesse ser um bocadinho mariquinhas.

Mas eis que Jean-Luc Godard… ah, perdão, e já me estou a espalhar na cronologia. Eis que, aos 15 anos, leio na revista Notícia, em que escrevia Herberto Helder, que Aznavour cantava em Luanda e ia com ele uma loura que era a loura, síntese, epítome, ideia platónica de todas as louras. Fora entrevistá-lo Carlos Brandão Lucas, o homem da rádio da minha vida, voz, charme, allure, que tomara a França inteira, meu futuro patrão, com que ganhei uma fortuna, sem que ele me tenha algum dia pago um angolar que fosse. E não é que, um ou dois olhares louros, que sei eu, nem eu quero saber do que não sei, envolvem-se os dois aos empurrões, um soco tropical, que o Carlos, não o Charles, jamais me quis contar. E eu percebi que aquilo eram canções de amor rijo, uma gentileza e cortesia que são a forma de disfarçadamente dizer o que não se podia, por reserva, dizer: tesão, nudez, cama, beijos húmidos, húmidos outros beijos.

Seria? Mas eis que Jean-Luc Godard – e agora sim, a cronologia está certa – saca de uma juke-box e, em Une Femme Est Une Femme, arma, com a inderramável beleza de Anna Karina e a insolência masculina de Jean-Paul Belmondo, uma longa cena de mímica, insinuações, silêncios, olhares para cima e olhares para baixo, só para se ouvir, inteirinha uma canção de Aznavour. “Tu t’laisses aller” é uma canção de amorosa recriminação, quase um apostrófico ataque à perda do desejo, ou melhor, à perda dessa auto-estima que faz com que queiramos ser belos e desejáveis aos olhos de quem queremos que nos ame. Com Godard e com esse filme de Godard, mais do que com o amado Truffaut, que também o meteu nas bandas sonoras dele, Aznavour ascendeu, aos meus olhos para-adultos, ao estatuto modernista de um James Joyce, os seus versos de café e erotismo de costureirinha a rivalizarem com os de Eliot ou Pond. Mesmo que falassem de free-jazz, música atonal, o que fosse, eu podia falar de Charles Aznavour e dessa canção que o autor-mestre do jump-cut, inquieto filósofo da montage mon beau souci, legitimara aos meus olhos míopes.

Isto bastava para justificar uma vida. Mas eis que vou um dia a casa de uma amiga parisiense, a um quarteirão de distância de Pigalle, entrada por um pátio comum, diz-me ela, num sussurro, aqui (e já não sei se, apontando, ela disse, ali) mora Charles Aznavour. Não sei se o que me ceifou a cabeça foi a memória do Emmenez-moi au bout de la terre, emmenez moi au pays des merveilles, se o vertiginoso perfume de um J’en déduis que je t’aime.

Eu já tinha isto tudo, chansons d’or, mas os deuses ou só a boémia – et pourtant – quiseram cumular-me com a graça burguesa do espectáculo. Foi o Pedro Bandeira Freire que comprou os bilhetes.Éramos quatro, a Antónia e eu, a balançarmo-nos com essa leveza de quem ama a tristeza de Veneza e de quem nada esqueceu, e fomos ver Aznavou cantar em Lisboa, sabendo que era a última vez que o veríamos. Ficou-me essa memória, Pedro, plus bleu que tes yeux, e tão azuis que os teus eram, Pedro.

Repito, o que disse um dia. Por mais estima que eu tenha pela canção francesa, e tenho muita, do que eu gosto mesmo é de Charles Aznavour. Gosto muito mais de Aznavour do que de Gilbert… oh, mas que é que isso interessa. Gosto muito mais do Charles do que de Yves… oh, deixa lá isso. Gosto muito mais dele do que do Serge …. oh,  poupa-me.

Do muito que gosto de Aznavour é de ele se ter metido na minha vida. Aznavour está por cima, agora muito lá por cima, em plenitude. Já nem precisa de ser muito bom. Basta-lhe ser gentil e sem remorsos. Certo na melodia. Infalível no tempo. Assim o hei de lembrar, enquanto eu possa lembrar.

São Paulo da Assumpção de Luanda

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Hoje, neste falso Outono de 2018, hoje que Lisboa e Portugal são o acrisolado destino da Europa e do Mundo, eis que a África, a minha ideia de África e as minhas memórias de África vêm e voltam, como uma espécie de náusea feliz e dionisíaca, matizar o apolíneo cortejo de pompa e circunstância com que os “media” nos brindam. A nostalgia, na sua preguiçosa forma tropical, mordeu-me e eu deixei, deixo, deixarei sempre.

Lembro-me de que cheguei a Luanda a 29 de Junho de 1959. Dia de São Pedro. Do belo convés do Vera Cruz, e ainda antes de ver o meu pai, ausente há dois anos, a primeira coisa que me fascinou foram as barrocas vermelhas, erguendo-se contra o mar, desafiando a baía, tão selvagens como Monument Valley, que só muito mais tarde os filmes de John Ford me fariam descobrir. Nunca mais conseguirei ser de uma cidade como fui da cidade de São Paulo da Assumpção de Loanda.

Lembro-me de que a vida era doce e quente, tão genuína como o espectáculo da projecção de filmes no cinema dos padres capuchinhos, em que os espectadores tentavam alterar o curso dos westerns atirando sapatos aos “bandidos” para salvar o “rapaz” ou gritavam e assobiavam em desvairada apoteose sempre que um beijo em grande plano enchia o écran.

Lembro-me que as Bessanganas, as Senhoras do Sambizanga varriam o chão de terra em frente à sua cubata deixando-a irreprensível de limpa, numa higiene natural que só a honesta mão humana oferece. A pobreza, quando usa a vassoura, confere, ó se confere, um brilho ético ao mundo.

Lembro-me da música tão física e lembro-me – eu que construí laboriosamente a lenda de que os N’Gola Ritmos ensaiavam na minha rua, mas eram só os Ngoleiros do Ritmo – de uma noite ter bebido copos até o sol nascer num grupo em que estava o Elias Diá Kimuezo.

E lembro-me, no Liceu Nacional Salvador Correia, de beber livremente Coca-Cola pelas garrafas que depois imortalizariam Andy Warhol e de ter lido dezenas de livros proibidos porque o pai de um dos meus melhores amigos era inspector da Pide e dava a ler ao filho, e ele a mim, os livros que eram proibidos aos outros.

Prezo tanto mais estas memórias quanto elas não têm já qualquer substância. São Paulo da Assumpção de Loanda é hoje outra cidade e aquela África outra África. Como nas ficções labirínticas de Borges, quem sabe se essa África não foi apenas um sonho (pesadelo para outros) e nesse sonho eu fui só coisa sonhada.

As Noites do La Chunga

Já aqui dancei. Com cândidas e vitais playmates roubadas a Hugh Heffner, com a maravilhosa gente da ex-indústria televisiva, que se finge fútil para não lhe dizer o que vai na alma. Já aqui bebi copos. Não sei se me confessei ou não e talvez me tenham feito confissões, que a mim mesmo me proíbo de lembrar. Mas sei, sobretudo, que fiz aqui um amigo.

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No hay tablao” no La Chunga, mesmo em frente ao Hotel Martinez, em Cannes, a cidade do festival de cinema, a cidade dos mercados de televisão.

Piano-bar depois da meia-noite (antes dessa redonda hora é restaurante para factícios príncipes e putativas cinderelas), com música variada e frequência unilateralmente suspeita, “no hay tablao” nem é preciso, porque nas cadeiras ou nas mesas – em todo o lado, menos no chão – jovens mulheres e homens de matura idade dançam enérgica e livremente, sempre bem acima do nível do mar.

Não me lembro de quem canta e do que se canta! Minto, minto: lembro-me da Katty Blue a cantar na materna língua francesa, e também em fluente inglês (naquelas nocturnas horas em que todo o inglês que se ouve parece saltar de Lady Macbeth para o Paraíso Perdido) e ainda (volare, volare!) num macarrónico mas doce italiano. Morena, quase um metro e setenta, olhos negros, nascida, julgo, em St.Tropez.

Não, não me lembro: invento! Ao ponto de me atrever a jurar que Katty Blue tinha a elegância ainda não anoréxica dos 60 quilos!

No La Chunga, até às 5 da manhã, dança-se. Em homenagem, creio, a Micaela Flores Amaya, cigana andaluza, bailarina, que os pais fizeram nascer em Marselha e, de Picasso a Ava Gardner, conquistou os grandes do mundo, conhecida e amada como La Chunga. Essa, ela, cujos “pies descalzos” – tendo abandonado aos 21 anos o flamenco por ter casado e sido mãe – mais tarde “volvieron a pisar anoche el tablao del Café de Chinitas”.

Gostaria de pensar que o La Chunga foi dela, ou foi criado por amor a ela. E gostaria ainda de acreditar que a homónima peça de Vargas Llosa, protagonizada pela proprietária de um bar no Perú, se inspirou na andaluza bailarina e nesta sexy espelunca do 24 da rue Latour-Maubourg que, perpendicular, desagua na Croisette.

A verdadeira bailarina e a fictícia peça de Llosa são porventura coincidências. Ou são apenas reflexo de um (meu) desiderato descabelado e optimista. Pouco importa. Das minhas noites no La Chunga guardo a inocência dum prazer em primeiro grau. Não precisam – aquelas cendradas noites – de caução. Basta-lhes essa intensa e infantil alegria de, cantando mal e dançando pior, terem firmado electivas afinidades.

No La Chunga, mesmo quando é de pinguins que se fala, nas cadeiras ou em cima das mesas, dança-se sempre, limpidamente, acima do nível do mar.

Batendo nos fins de tarde

Deviam, as memórias, ser cada vez mais ténues. Mas vêm, em gigantesco assombro, rasando as manhãs, batendo nos fins de tarde, forte caudal de águas lunares, reflexos luminosos a rasgar as trevas. O passado é o sangue do presente, agitado, de uma feroz e persistente presença. Tenho a velhice cheia de gritos juvenis. Hoje, como há oito anos quando escrevi esta nota, volto a ter 20 anos, volto a embarcar nesse camião fervente, de corpos na busca utópica de um destino. 

multidão
a multidão

Podia escre­ver um livro: bastava-me dizer tudo o que não sei.

Em 1975, na cidade do Lobito. Gos­tava de me ter visto. E se me visse agora, veria exac­ta­mente o quê?

Era uma coluna de camiões a atra­ves­sar a cidade sur­pre­en­dida. Milha­res de umbun­dos. Vinham do mato, dos kim­bos. Vinham de bair­ros que os bran­cos nem sus­pei­ta­vam. Nenhum daque­les homens era só um homem: che­ga­vam e entra­vam como uma mul­ti­dão, uma epi­de­mia que desa­guava no san­gue da cidade. Podia escre­ver um livro com o que já então não sabia sobre essa mul­ti­dão umbunda do éme pé lá. Pequena mul­ti­dão com­pa­rada com a gigan­tesca, her­cú­lea multidão, que a Unita nes­ses dias havia de juntar.

Num dos camiões iam os meus vinte anos. Eu ia sozi­nho. O vírus branco no meio da mul­ti­dão bantu. O rapa­zi­nho de Luanda no meio dos umbun­dos, rapa­zi­nho de óculos e barba mal feita. O meu camião negro, que o MPLA tra­zia para se mani­fes­tar con­tra o galo negro de Savimbi, can­tava em umbundo con­tra o chi­co­ro­nho, o colono, o branco que tinha de se ir embora. O camião negro em que eu ia olhava-me com um misto de iro­nia e com­pai­xão enquanto can­tava em umbundo: branco, colono, vai-te embora.

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O que é que eu veria se, agora, no meio dos camiões mili­tan­tes, inde­pen­den­tis­tas, ango­la­nos, negros, visse os cabe­los sol­tos, hip­pies, de um espú­rio rapa­zi­nho branco… Podia escre­ver um livro com esta ideia: a inde­pen­dên­cia era a única forma de expe­ri­men­tar a minha soli­dão branca.

Podia escre­ver um livro se Miles Davis, a trom­pete e soli­dão, não o tivesse escrito já.