A mudança, os despojos

gabinete

Chegou-me ontem esta foto. É a de um gabinete em mudanças. Foi o meu gabinete nos mais de quatro anos de director de programas da SIC, de 2001 a 2005. Teve outros inquilinos, alguns amigos meus. Mas fui eu que o concebi e mandei fazer o armário ao fundo e a estante que se adivinha à esquerda, ao fundo.

Morei aqui mais de quatro anos. Já morava, antes, nessa SIC de Carnaxide, Estrada da Outurela, há mais de nove anos: alguns meses a dirigir a programação estrangeira, convidado por Maria Elisa, logo a seguir, por proposta de Emídio Rangel, 9 anos como director-adjunto de programas. Ao todo, morei aqui 13 anos e meio, e se eu gosto do número 13.

Foi uma das boas e felizes experiências da minha vida. De nada me arrependo, algumas coisas, por certo, poderia ter feito melhor, de três ou quatro, orgulho-me. Agora, a SIC mudou-se para Paço de Arcos, para um edifício mais nobre do que esta singela construção que transformou um armazém de bananas no que foi a estação de televisão mais inovadora e criativa de Portugal (eis o que penso e já sorrio de assim pensar). Olho para estes despojos, para esta mesa e prosaicas cadeiras, que já não foram as minhas, para os imprestáveis papéis, caixotes, para as lâminas quebradas da persiana da direita, e adivinho a futura solidão, silêncio, ausência de tempo e vida.

Onde estará a mesa redonda, de madeira castanha, à volta da qual se sonhou e riu, ouvi protestos e ofereci o ombro a choros de baba e ranho? Onde andará, em que recanto cósmico, tanta ambição, tanta apreensão, tanta energia, tantas unhas roídas de expectativa por profissionais experientes, por jovens mais arrebatados do que o Gene Kelly do Singin’ n the Rain, por actrizes e apresentadoras que desembarcavam na Outurela com inocências de Shirley Temple? Onde andará a minha tão heterodoxa equipa da Direcção de Programas? Onde andarão a Carmo, a Ana, a Isabel e a Luísa, o meu quarteto quotidiano, tão protector e afectivo?

Olho para esta foto e sei que fica, agora, ali, a casa abandonada, a insonora porta fechada. Tão triste a casa que se deixa. E agora sei, por que traduzi, um dia, este poema que Philip Larkin:

Tão Triste a Casa

Tão triste a casa. Fica como a deixaram,
Moldada pelo conforto dos últimos a partir,
Como se quisesse convencê-los a voltar.
Na ausência de alguém para satisfazer, murcha,
Coração incapaz de esquecer o abandono

E voltar outra vez ao que era antes,
Há muito perdida a visão alegre do que as coisas
Deveriam ser. Ainda se pode ver como era:
Basta olhar os quadros e os talheres.
No banco do piano, as músicas. Aquele vaso.

 

A Princesa Nua

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Leio os jornais, sobretudo os que escorrem sangue de paixões mal-amadas, e tenho de concordar que os portugueses raptam pouco. Rapta-se desde as Sabinas. Mesmo antes, Páris raptou Helena e deu no que deu, a homérica guerra de Tróia. O melhor rapto amoroso português é nos Lusíadas: os cansados marinheiros do Gama carregam aos ombros ninfas semi-nuas. Mas, hoje, nós, os herdeiros muito mais cansados dos marinheiros de Gama, raptamos pouco. E valha-nos Deus, por amor, há tão pouca gente que nos dê vontade arrebatada de meter lá em casa.

No cinema, sim, apetece muito. Já me explicaram que é de tudo no cinema se passar no escuro e de um tipo (pardon my french) ter as mãos nos bolsos. É escuro e os grandes planos dão-nos olhos rasgados a luz, sorrisos de um marfim mais fino do que uma lâmina e aparece-nos uma turbina no lugar do coração.

Em Luanda, uma vez, no lendário N’gola Cine, cinema ao ar livre entalado no musseque, com palco para variedades e um ecrã maior do que uma baliza de Wembley, navegavam as imagens de um peplum, como depois aprendi que se chamava a filmes que metiam túnicas, mais romanas do que gregas.

Não sei se o filme era Hércules e a Rainha da Lidia ou O Filho de Spartacus. Tanto podia ser um como outro porque o herói de ambos foi Steeve Reeves, Mister Universo, montanha de músculos no tempo em que os músculos faziam de um homem um deus. A plateia africana, em que se aconchegava este rapaz branco e os amigos mulatos, uivava como um cachorro feliz, língua de fora aos cometimentos épicos.

Mas houve um momento de calma e apareceu uma princesa. Com as aias. Caminha até à fímbria do mar, um plano americano mostra-lhe as pernas nuas e peças de roupa desamparadas caem-lhe aos pés. A túnica, digo eu, e já me estou a arrepiar. No plano seguinte, por mal que conhecêssemos a gramática cinematográfica ou pelo tanto que escondiam a princesa, bem sabíamos que estava nua, um plano picado a mostrar-lhe os alvos e carnudos ombros, a cara inteira linda nos sete metros de tela e o mar a cobrir o resto, linha de água a coincidir com o nível mais baixo do ecrã. Uma perceptível, sôfrega embriaguez correu pelas cadeiras. Um mais velho, um africaníssimo kota, levantou a sua refinada sensibilidade e correu pela plateia, saltou ao palco e atirou-se contra o ecrã a tentar em urgente desespero olhar para baixo da linha de água a ver se via à princesa o redondo e macio pecado. O alívio tomou conta da plateia. Risos, gritos, bonés pelo ar: “Mais velho à toa, mais velho à toa, o mais velho é salaiko!” E ríamos nele o que, uns segundos antes, gemíamos em surdina.

Uma princesa banhava-se nua em águas mediterrânicas e uma estrepitosa plateia africana saudava o patético mas sincero raptor da nudez dela. E agora invento que só podia ser a Sylva Koscina, a Sylva Koscina de olhos em azul eastmancolor e peito generoso mas não materno. Por estranho que pareça é por causa desse azul, desses ombros e desse mar que acho que vale a pena amar o cinema. Azul, ombros e mar que fazem um “mais velho” levantar-se e, movido a adolescente fé erótica, querer que lhe dê o ecrã o que a vida lhe tira ou talvez nunca lhe tenha dado.

A rapariga loura, de olhos tão mansos e líricos

Quando eu escrevi esta crónica, ainda lá vivia José Eduardo dos Santos. Sei quem lá vive hoje, mas não sei onde vive José Eduardo dos Santos. Uma coisa é o que se sabe, outra coisa é o rumor das recordações, das velhas lembranças, a afagar o lobo temporal medial, sei lá se o hipocampo. Esta é, está bem de ver, uma crónica epicurista.

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Summer of 42

Agora vive lá José Eduardo dos Santos. Ou ali tão perto. Era uma das casas do quilómetro 14, em que me aboletava para festas e praia. Já longe de Luanda, Morro da Luz na colina à esquerda de quem ia em direcção ao sul, sol e sal. Em frente à casa, o areal e o mar imóvel, não mais do que um rumor de seda nas noites desse Verão, que fervia, tropical, de Dezembro a Abril. Não sei se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42, filme da mulher casada que ensina a um adolescente o amor adulto, salivado, terno e nu. Foi talvez em 1970 e julgo que não haveria então, no mundo, ninguém que tivesse mais de 17 anos.  

Eu não era só muito novo. Estava interiormente cheio dessa estrondosa timidez de rapaz que se sublimava em jogos de futebol, sonhos de revolução e a alarvidade juvenil de vinte imperiais numa só noite. Dancei com ela, com os 16 ou 17 anos dela, sem saber quem era. O cabelo louro podia ser de uma francesinha de Estrasburgo, os olhos tão mansos e líricos como os da miúda de calções de outro inesquecível Verão, o de Bonjour Tristesse. Não sei, aliás, se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42.

Estava habituado a dançar colado, sofregamente colado, primeiro o roço de uma contra outra perna, depois o braço a distrair-se num seio e, numa lógica afirmação das leis da natureza, logo a dar-se, irremediável, o perfeito e irrespirável encaixe de tudo o que era convexo e côncavo.

Mas ali, onde agora vive, ou tão perto, José Eduardo dos Santos, nessa noite que eu começava então a saber que era colonial, dancei-a ou dançou-me ela de outra maneira. Havia nela uma insustentável leveza loura, um delicado aroma mais metafísico do que Ambush ou Channel. Ela tocava-me só de vez em quando, como se fosse um afago de tule, embora chegasse a parecer fogo. E, coisa que eu sempre me proibira, ela falava. Eu era então muito novo e a palavra, esse mágico dom da velhice, era-me alheia.

A translúcida rapariga loura trouxe-me à varanda de madeira tosca, lá dentro a vaga luz do gerador, cá fora a estendida, imensa escuridão da noite, vigiada por uma tropa de estrelas – nunca vi tantas estrelas como as estrelas que vi no Morro da Luz.

Eu queria dizer-lhe “os teus olhos” ou “a tua boca” e morria-me a coragem num silêncio torpe. As palavras dela vinham devagar, sem peso, pousar em mim. Pousavam-me nos cabelos, na testa, nos ouvidos, indecifrável arrepio na pele nua dos meus braços.

“Não seriam mosquitos?”, perguntou-me depois o meu amigo Manuel Ramos, que tinha casa mais adiante, no Km 36. “Não eram, Manel.” Imobilizava-me a louca paixão de me ver assim, patético, cercado pelas palavras que a levíssima rapariga loura acendia como se fossem cigarros para queimar a noite do km 14, ali tão perto da que viria a ser a casa de José Eduardo dos Santos. E, no meu silêncio, a insustentável rapariga loura desfez-se, leve e aromática, dentro da noite que eu já sabia ser colonial.

Talvez tenha sido em 1970, e talvez eu ainda não tivesse visto no cinema o Summer of 42.

Adeus

Foi esta a minha última crónica no Expresso.
Escrevo neste jornal, que Francisco Pinto Balsemão fundou, desde 1981. Com duas interrupções, uma para escrever no extinto Semanário, a outra, para ajudar a fazer a SIC. Não há duas sem três, pensei quando voltei, há oito anos, com esta coluna a que chamei A Vida Dá o que o Cinema Tira. Não há duas sem três, digo, sem vontade, agora que saio. Escrevi com total liberdade e fiz mais um amigo, o Miguel Cadete, meu editor, de santa paciência, mas tão firme e tão apaixonado por fotografia, estranhas edições e incunábulos. Não me perdoaria se perdesse os homéricos almoços que nos irmanam.
Parto com gratidão. Como quando parti da SIC. Devo a Francisco Pinto Balsemão as oportunidades que mudaram e moldaram uma parte do que sou. Se devo muito do que que sou, e por esta ordem, ao meu liceu, ao curso de filosofia e a José Gabriel Trindade Santos, à Cinemateca e a João Bénard da Costa, o que as minhas idas a Cannes, a Berlim, luxos como Pordenone, as entrevistas que fiz a Coppola, a Anjelica Huston, a Storaro, tantos realizadores e actores, o que viajei e negociei pela SIC, dos grande estúdios de Hollywood ao Rio ou a Hong Kong, devo-o à visão de Balsemão. Deu-me na mão mundo. Obrigado, meu caro amigo, até à próxima conversa. Convido eu.

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Adeus

Nunca serei um fanático de 1976. Pelas mesmas razões – já vão ver – não posso ser um fanático de 2018.

Havia um calor feio, suado, nas salas do aeroporto de Luanda. Abri a mala, cheia de livros, nada senão livros, e o inspector, vizinho do bairro ou ex-camarada do velho Éme, fechou a cara, como quem muda de passeio para não passar à minha porta: “Komé, vais bazar?”

Não posso, não posso ser fanático desse final de 76, ano em que bazei de Angola. Ao meu lado, o meu recente amigo Mulambo, com uma tensão clandestina, na mão o passaporte, todo ele passos em volta, estava à espera que a DISA o cangasse ainda antes de pôr o pé no avião.

Sonhamos sempre que, se nos despedirmos num aeroporto, ressuscitaremos Bogart e “Casablanca”. Mas o meu amigo Mulambo, e eu pelos olhos dele, só víamos em cada farda mais um major Strasser, o chefe dos nazis. As nossas camisas de manga curta já eram feitas da ameaça que teceria a tragédia dos milhares de torturados e fuzilados a que o 27 de Maio de 77 deu licença.

Já no avião, odiei os meus livros delatores, todos os livros, Borges e as bibliotecas, na cabeça a bater-me a desdenhosa acrimónia do inimigo: “Komé, vais bazar?”

Sentado ao lado, o meu tão recente amigo Mulambo, perseguido por ser da Revolta Activa, sussurrava estar tão certo que eles o viriam buscar ao avião, como eu estava certo disto: se dá cacho é bananeira. O Boeing no ar, Luanda agitada e nocturna sob os nossos pés, e o Mulambo resignava-se à antecipada fatalidade: “Vão mandar o avião voltar para trás.” O Mulambo a querer que o avião saísse de Angola, como o revolucionário Viktor Laszlo a querer sair de Casablanca, e eu, com o meu coração de Ingrid Bergman, a querer que congelasse ou fosse uma parede todo o espaço aéreo.

A 310 km por hora, ainda sobre a Corimba, ficavam para trás os beijos de adolescência, as aventuras humildes, meu liceu, meu bairro, minha alegria, o meu sonho pó de talco de ser angolano.

Nunca tinha dito um tão longo adeus. Hoje, digo outro. Ao Expresso, onde comecei a escrever em 1981. Saio pelo meu pé e já odeio o meu pé como odiei a mala de livros. Ao meu editor, a Balsemão, aos leitores abraço-os com oito anos de crónicas que me fizeram feliz como ao rapazinho que vê a primeira mulher nua. Digo adeus e sei: não sou um fanático de 2018, nunca serei um fanático da despedida.

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Publicado no Expresso

Hermes Baby

Estou eu a começar a sentar-me em 2019 e não é que me olha nos olhos a minha velha Hermes Baby? Tem 53 anos e está muito bem conservada, o que as fotografias não desmentem. Eis, o que me faz sentir bem, hoje. É mesmo por ter o meu passado bem conservado que mais sinto vontade de entrar em 2019. No meu passado, vejo o meu futuro.
Um excelente 2019 a todos.

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A minha Hermes Baby

Esta é a  única coisa verde de que gostei em toda a minha vida. A única coisa verde de que gostarei em toda a minha vida. Durou, durou, durou: dos meus 12 anos até surgir o milagre da informática. Eis a minha Hermes Baby.

Fez rádio no Equipa de Brandão Lucas e no catolicíssimo Água Viva, nos trópicos – já escrevia sozinha as minhas pouco mais do que adolescentes rubricas, O Rei Morreu Viva o Rei e as Crónicas do Aracnídeo. E rádio ainda foi o que fez em Portugal, muitos anos depois, com o Sena Santos, nos noticiários da RDP. 

Bateu os aeroportos de Luanda, Lisboa, Lobito, Paris, Funchal, Nova Iorque e Los Angeles, tanto fez a gare de caminho de ferro do Huambo, como a de Hendaye e a de Grenoble; palmilhou estradas de Angola e atravessou a Espanha de Franco, estavam para ser executados dois bascos. Passou os Pirinéus, deliciou-se com os Alpes. Escreveu, cinéfila e festivaleira, de Tróia, de Cannes, de Berlim, de San Sebastian. Entrevistou a Helma Sanders-Brahams com vista para o Wannsee, visitou a Cinémathèque Française e a Filmoteca Española. Começou, em San Francisco, a escrever o livro-catálogo sobre Francis Ford Coppola.

A minha Hermes Baby teve uma juvenil costela revolucionária: fez a revolução, pouco cultural, pouco canónica, em Angola — o que se gastou em stêncil, meu bom Deus. Esteve na frente de combate da dipanda, Lobito, Sumbe, Luanda. Atacou a reacção e a social-reacção. Foi a França, voltou a Portugal. Bateu Direito, em Lisboa, Direito em Luanda, aflorou Sociologia em Grenoble, para acabar a servir a Faculdade de Letras, da Universidade Clássica de Lisboa: tratou-a bem o José Gabriel e nem o M.S. Lourenço, de Filosofia Contemporânea, e muito menos o Padre Manuel Antunes, se zangaram com ela. Funcionou na Cinemateca, tantos anos; depois, emprestada aos ciclos da Gulbenkian, todo o Ciclo de Cinema Musical e a Ficção Científica, recebeu ordens de João Bénard da Costa. Internacionalizou-se nos Cahiers du Cinéma, graças ao senhor Manoel de Oliveira, e no Dictionnary of Films and Filmmakers, por intermediação do Rui Santana Brito. Proletarizou-se nas revistas do voluntarioso Duarte Ramos, aburguesou-se no Expresso de Balsemão em mil críticas de bola preta, aligeirou-se num divertido Semanário sob a asa nonchalant de Vitor Cunha Rego.

Escreveu com indignação, algum idealismo, pedinchou, protestou, rejeitou, amou quase sempre, mas não me lembro que, verde de sua natureza e verde da inveja do imprestável usuário, tenha verdadeiramente odiado. De vez em quando ria-se e escrevia vermelho. Está ali, a dois passos do pc, num recolhimento verde e vivo. Já me disse: se um dia precisares… nunca se sabe.

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de vez em quando escrevia a vermelho

Estrela tracejante no céu de África

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a solidão de Duvall

O cinema era o Avis. Um ano depois já se chamava Karl Marx. Juro que foi lá, à meia-noite, no Natal de 1974, que vi “Tomorrow”, adaptação de um conto de Faulkner. O artista, como ainda se dizia, era Robert Duvall, solitário agricultor que dá guarida a uma mulher tão grávida como abandonada.

Estava em Luanda, cidade em chamas, engajado no caminho das pedras da independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família fora um out of Africa que lhe dera. Nem pai, nem mãe, estava por minha conta. Sobravam, da herança colonial, uma dúzia de amigos cujas cabeças rolavam à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos pela guerra? Nem mortos, nem estropiados. Eram apenas nomes inconsoláveis que a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, que ficávamos, passavam a indesculpáveis defuntos.

No meio desse fogo amigo e inimigo, nasceu, modesto mas abnegado, o Natal de 74, o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano. Acolheu-me uma família africana, tripulada pelo cuidado e pelo amor de um inenarrável patriarca. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos seriam seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só nas grandes sagas familiares. Eu, branca cara pálida, era só mais um filho. A geleira, como numa família lindamente mulata se chama a um frigorífico, era de todos: “Aqui não se pede, abre-se e tira-se.”

Vivíamos de esquemas, contrabandeando do Puto vinho, couves e bacalhau. Naquela Consoada tive a melhor das ceias. De vez em quando, as rajadas das AK escreviam pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. O assobio de um morteiro não bastava para parar as conversas que se enchiam de promessas, juras e choros, ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos veementes discursos. Podiam apontar-nos uma pistola à cabeça e continuaríamos a discursar, engajados numa alegria feroz, vaidosa e dramática.

Não sei se no meio dos discursos, se na solidão em que encontrei Robert Duvall no cinema Avis, dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda – quem sabe se o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela tracejante no céu vermelho de África?

Pouco me interessava a resposta, tão inquieto fiquei com a pergunta.

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outra sagrada família

Publicado no Expresso

À beira do mar em Porto Amboim

porto amboim

Todo o português é um Mark Twain, todo o português é um Rudyard Kipling. E antes que a ideia escorra a desbotar-se no parágrafo seguinte, juro ao leitor que, pelo português que já tanto sou, também mereço ser um bocadinho Twain e um bocadinho Kipling.

Falta dizer quem são ou foram estes Twain e Kipling. Twain era patrão de costa. Praticamente nascido num cesto a vogar sobre o Mississipi, o rio entrou-lhe pelos ouvidos e pelos ossos. O rumor das águas, as vozes dos escravos, a água a molhá-lo até ao fémur, colaram-lhe de amor a boca ao rio e não descansou enquanto não foi marinheiro o suficiente para ir ao leme de um barco a vapor a rasgar o fim do século XIX. Por acidente, foi também escritor.

Kipling foi, não o sendo, o último soldado do império britânico. «Um, dois, um, dois, esquerda… esquerda, direita volver», aprendeu a ser cadete e cantou o regimento que nunca teve em poemas como Gunga Din ou Mandalay. Nenhum soldado, capitão ou general os cantou ou cantará tão bem.

 Ao leme não há Adamastor que apavore a incerta mão portuguesa, e estaria aqui, estaria a falar de impérios, se não tivesse prometido que vinha só falar do incêndio dos olhos que é o prazer de viajar.

E vejam, nem agora estamos a salvo do americano Twain e do colonialíssimo britânico Kipling. Eles viajaram à volta do mundo. Viajaram além e aquém dos séculos em que viveram, mostrando-nos que no tempo é que se viaja bem. Imito-os.

No dia 11 de Novembro de 1975, por aventurosas razões políticas que interessam tanto como um fiscal de linha num jogo de futebol, eu estava no Sumbe cercado pela UNITA e sul-africanos de que era inimigo. Tinha de fugir para Luanda que, por sua vez, estava cercada pela FNLA e os seus soldados de fortuna. Ali, naquela praia do século XX, só havia barcos a vapor de Mark Twain. “Go West”, gritava-me do século XIX a voz do escravo de Huckleberry Finn. Ainda hoje, essa viagem num barco de cabotagem é a mais epicurista das minhas memórias. Viagem de Angola ao Brasil, Atlântico dentro, eu ao leme a gritar ao Mostrengo: «Aqui ao leme sou mais do que eu / Sou um povo que quer o mar que é teu.» Viajei, glorioso, num barco que nunca saiu do cais.

No dia seguinte, já Angola independente, troquei Twain por Kipling. Vim dormir a Porto Amboim e na manhã de 13 de Novembro, antes de recuar para Luanda, vi o farol lá em cima do morro, na praia, as pedras do velho forte, e uma rapariga africana num silêncio sem desculpas a olhar o mar. Era, vinda de Kipling e de Mandalay, a minha rapariga birmanesa. Ter-me-á visto? E se me viu, terá ela pensado, no futuro que veio a ter, se algum futuro teve, que um dia evocaria a fugaz imagem de um perdido rapaz português, excrescência do império e de Kipling, à beira do mar em Porto Amboim?

By the old Moulmein Pagoda, lookin’ lazy at the sea,
There’s a Burma girl a-settin’, and I know she thinks o’ me

Uns ovinhos de perdiz

venda informal

Tinha os olhos postos na minha pilinha. Olhava-a com uma inquietação de oito anos de idade. Ali estávamos, ela de olhar mais cego, a interrogarmo-nos um ao outro: estaria a façanha, na sua complexa articulação e intrincado encadeamento, ao nosso alcance?

Quando vi o filme Stand by Me gritei de inveja: também queria, como aquele bando de miúdos, ter descoberto um cadáver numa mata, para o lado do aeroporto de Luanda, onde íamos caçar pássaros. O cadáver dos meus oito anos foi uma calçadeira. Deixemos, para já, a calçadeira ao pé do que era então o meu único par de sapatos.

Da escola da Missão de São Paulo, eu vinha de frescas sandálias ou de imaculados quedes em dias de ginástica. Bando negro com miúdo branco, atirávamo-nos, com uma convicção de Garrinchas, Matateus e Iaúcas, a trumunos de sarjeta. Ou seja, a sarjeta era a baliza e o objectivo era, quem estivesse na posse da bola – uma lata, caixa, um bom caroço de manga – enfiá-la no buraco. Fazíamos da caminhada ramerranesca uma jornada de glórias e humilhações pessoais e uma afronta à manutenção dos esgotos camarários.

Íamos deixando os colegas moradores no musseque Rangel onde desaguava a Avenida dos Combatentes, e sobrávamos dois. Vila Alice à vista, sentávamo-nos com um vendedor de kitaba, paracuca e quifufutila. Largávamos um angolar e a língua deliciava-se entre o picante e o doce, enquanto oferecíamos os ouvidos ao nosso mestre vendedor. Era um mais velho ainda novo, nada de kota, mas sabia já o que nós não sabíamos e queríamos saber: aquilo.

Fazia render as revelações, do manso farfalho a tirar as cuequinhas, até que um dia contou o que sonhávamos que nos contasse. Era assim: corpos nus, abria-se o que é de sua natureza abrir-se e penetrava o que para isso é cilíndrico e de inflada ponta. Depois, obtido o perfeito encaixe, com uma calçadeira, eis que se enfiavam os redondos complementos do impante membro. Os meus dois ovinhos de perdiz também entrariam, portanto, na festa.

Acreditámos. E a calçadeira assombrou tanto a minha infância, como o espectro que Marx dizia assombrar a Europa no revolucionário século XIX. Só havia uma calçadeira em casa e seria perverso tocar-lhe. Com que cara e dinheiro iria eu, oito anos, comprar uma? E diga cá – já os estava a ouvir –, para que quer o menino a calçadeira?

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Publicado no Expresso