A agilidade vagabunda de um Dois Cavalos

crónica de coisas passadas 

DoisCV
O Dois Cavalos está a arder, alguém me viu fugir, à velocidade dos vinte anos, pelo mato do Dondo, e dois dias depois já a minha mãe sabia que a FNLA, de morte matada, tinha mandado o seu anjinho encontrar-se com os anjinhos do céu. As cinzas de um 2CV ainda hoje jazem e apodrecem no pujante mato do Dondo que o abraçou, dois rapazes fugiram e talvez nunca mais as bocas das suas mães os tenham beijado, mas foi outro, e não o meu Citroen 2CV, a ser devorado pelas chamas criminosas. Juro também que esta crónica não é póstuma e o amoroso luto da minha mãe foi manifestamente exagerado.

O 2CV foi o meu primeiro carro. Comprei-o em octogésima mão. Era uma pandeireta a estremecer por todos os lados. A frágil graça das suas linhas, tão lindas como a nuca rapada de Naomi Campbell, pedia que fossemos nós a levá-lo ao colo e que ninguém fizesse a afronta de sentar as baixezas nos seus periclitantes bancos. E eis a primeira viagem: de Luanda ao Lobito, 700 quilómetros de estradas à beira da independência, uma guerra civil de mortes à traição a vir do capim ou das esquinas da cidade. Intrépido, com a vagabunda agilidade de Charlie Chaplin, o Dois Cavalos avançou para o interior até à Quibala, flectiu para os morros da Gabela, por lhe cheirar a café, e depois deixou-se deslizar à beira do Atlântico Sul, no Sumbe.

Do Sumbe ao Lobito, o perfume do mar queimava-nos de liberdade a pituitária. O 2CV fazia o que queria, ziguezagues como se a fita de alcatrão fosse só nossa, as finas quatro rodas a girar numa alegria menina. Podia-se, se assim posso dizer, mijar ao vento. E foi o que os meus vinte anos fizeram, na magnífica solidão dessa estrada, o pudico Dois Cavalos de olhos fechados, mas sem nunca parar. Eu andava então a fazer a revolução e tenho a certeza de que nem Che Guevara teve a liberdade de mijar ao vento de um 2CV em movimento.

Sempre soube que na vida se davam bolos. Nunca imaginei que um dos mais doces bolos da minha vida pudesse ser esse carro que os franceses tinham pronto quando os nazis os invadiram. E lembro: o 2CV olhou para a fronha de Hitler e negou-se a nascer. Os senhores engenheiros e os donos da Citroen, num gesto estético que faz deles os nossos heróis, destruíram os 150 protótipos. O 2CV só se fez à estrada, livre, em 1948. O meu devia ser desse ano, porque, já tínhamos passado a Canjala, a 70 quilómetros do Lobito, o chão do carro, no lugar do condutor, rasgou-se e passámos a ver a estrada. Olhava-se para cima e via-se o eterno azul do céu, olhava-se para baixo e desfilava o belo e negro alcatrão. Tínhamos assim a certeza de que era um Dois Cavalos com as rodas bem assentes no chão.

Nas lutas da independência, tive de o deixar no Lobito. Voltei para o recuperar em 1976. Mas o fogo não o poupara. A UNITA ou um sul-africano ressabiado, não reconhecendo nele a estremecida elegância de Naomi Campbell, pegou-lhe fogo. Era já e só uma carcaça queimada à porta do Chá para Dois, no Terreiro do Pó. Não se livram do fogo os Dois Cavalos da minha vida.

A praia deserta

ursula

Não, desta vez não se atrevam a espetar o dedo no peito da minha subjectividade. É estarrecedor de objectivo: tive um fim de adolescência de praia deserta. Privilégios coloniais. Das terras do fim do mundo, António Lobo Antunes escrevia cartas de amor e guerra para que eu andasse de caiaque entre os mangais, a meio caminho entre Luanda Sul e a foz do dolente Kwanza.

Antoine Doinel, o herói recalcitrante de “400 Coups”, filme de Truffaut, foge da casa de correcção e molha as calças numa correria louca pela praia de Villers-sur-Mer, na fímbria normanda da França. Antoine só não morre gelado por lhe ferver no peito o amor a Balzac.  Pouco amor é lá agora amor! Fervia-me também no peito o desalmado amor a um poema, a um filme. Enquanto me diziam que em Portugal havia filas de gente nas arribas à espera de Sebastião, eu esperava, nesse Verão colonial, que começou em 69 e acabou em 70, que Ursula Andress emergisse venusiana, com aquele empolgante bikini 007, mais castanho navajo white do que amarelo caqui.

Deixe-me, leitor, abraçá-lo e escorregar por si abaixo em chorada confissão: pobre a vida humana que não tem um filme ou romance de peito a aquecê-la! Mas mais pobre ainda é o livro lido por quem não tem uma vida a ferver-lhe nas veias.

Foi nessas praias, a que nunca chegou Ursula Andress, que livros e filmes se me entranharam na alma decotada, mas a escaldar, que então tinha. Misturavam-se com as noites de fogueiras cantadas a somos filhos da madrugada pelo bando católico progressista a que pertencia, a fresca sede de amor a fazer com que no estreito banco onde jamais caberia um, se encaixasse o desejo equilibrista de dois. Obrigado, bom Deus, pelo catolicismo tropical e por tão circenses pecados.

Fim de confissão. Recomponho-me. O que lhe queria dizer, estimado leitor, é que a emoção é o sangue da arte. Saboreie a beleza – a beleza da praia de Thomas Mann revista por Visconti; a beleza da praia em que o louco Pierrot e Anna Karina se desenterram da areia; a beleza da praia que os helicópteros de Coppola enchem de Valquírias e napalm. E tenha medo – a insubstituível experiência estética anda ameaçada. A esquerda e a direita sempre quiseram pô-la de serventia. A teoria académica, de tão correctiva, quer, sôfrega, domesticá-la.  Mil vezes a praia deserta.

O paraíso

joaquim Lopo
foto de Joaquim Lopo, com a devida vénia

Tive um vislumbre do que é o paraíso. Tinha vinte anos, uma das melhores idades para se ver o paraíso, e a primeira coisa que descobri foi que, no paraíso, Deus primava pelo absentismo. Não estava lá.

Não fui o único. Em verdade vos digo, tudo se passou numa noite de copos, antecâmara do paraíso, tanto mais que já era, nesse ano de 1975, na Luanda lagarta em metamorfose, minuciosamente difícil encontrar copos. Com argúcia científica e o faro dos predestinados, dois amigos meus tinham levado o velho Volkswagen negro de tasco clandestino em tasco clandestino, bebendo em bares sombrios os geladíssimos finos que abrem portas à fina areia da eternidade.

 A cidade de Luanda era um caos: paradisíaca e deliciosa ausência de lei a beijar os lábios da semi-anarquia. Os meus amigos a que, para salvaguarda da sua fortuna e bom nome, chamarei Simão e Mário, regressavam à Vila Alice, nosso bairro, paraíso instalado entre dois promontórios, albergando em simétrica oposição, dois figadais inimigos, o MPLA e a FNLA.

Conduzia o Simão e deixou o Mário na poética rua Eugénio de Castro. O Mário já abria o portão do quintal, quando, do nada, como só no paraíso acontece, viu emergir, à frente do velho carocha, metralhadora na mão, um jovem combatente, anjo ou semi-deus negro. “Komé Kamarada – disse ele, com os k todos, ao meu amigo Simão – tens de me levar no bairro Pica-Pau.” A metralhadora apontava, com celestial negligência, à cabeça do Simão, o que se deve entender mais como distracção do que como ameaça. Parlamentou-se. O Simão invocou mil perigos e as patrulhas na Estrada de Catete por onde teriam de passar. “E como é que o camarada se chama?”, rematou, com espírito conciliatório, a bonomia de um arcanjo bem bebido.

O camarada chamava-se Sempre Fixe, juvenilíssimo rosto resplandecente e suado, numa exaltação de quem acabou ler de uma assentada as incendiadas páginas do “Marriage of Heaven and Hell”, de William Blake. Por outras palavras, uma ganza como a minha mãe, Alice Fonseca, nunca me viu.

Já o solidário Mário voltara ao carro. Entrou para o banco traseiro, Sempre Fixe no da frente, metralhadora apontada ao condutor. E arrancam, quase três amigos, como se se conhecessem há 500 anos. “Komé Kamarada, vira só então a metralhadora para lá, pode ser?” Sempre Fixe, com calma seráfica, mete o dedo no cano e carrega no gatilho. “Não tem bala, isso não dispara já. Vamos no Pica-Pau buscar munição.”

E eis, ao longe, a primeira patrulha. “kamarada, acelera, então, não pára, não pára.” Pé no acelerador, o Simão passa pela patrulha portuguesa na 7ª esquadra, numa bisga olímpica, jamaicana. Talvez não fosse, de tão negro, um carro, terão pensado os soldados portugueses, a remoer saudades e um apropriado je m’en fiche, se esta fosse uma crónica francesa.

Nem um tiro, embrenham-se na poeira do musseque e já estão no centro do Pica-Pau, o Sempre em Fixe a saltar do carro e recomendação de mil cuidados, que no paraíso os amigos são mesmo para as ocasiões: “Vai já, camarada, vai já, aqui é perigoso. Tem cuidado.”

O salvífico Volkswagen, a respirar heroísmo, voltou a passar sem parar pela patrulha portuguesa, ainda a esfregar os olhos e Simão regressa ao paraíso doméstico, com a amada a dizer-lhe: “Onde andaste? Houve aqui duas horas de tiroteio.” Só então o meu amigo percebeu onde é que Sempre Fixe esgotara as munições. E percebeu também que escaparia sempre, incólume, a todos os tiroteios. Como se um Messias lhe dissesse: “Em verdade te digo, estarás comigo no paraíso.”

Crónica publicada no Jornal de Negócios

Xé, minino

De vez em quando, há memórias a que voltamos. Dito de outro modo, há memórias a que não podemos fugir. Há uma ilha. É uma ilha dentro nós. De mim. É lá que eu vivo. Lá morrerei.

mussulo

Ouvimos a palavra “ilha” e sacamos logo da pistola que dispara a velha pergunta: “O que levavas para uma ilha deserta?”. Como se as toneladas de areia e solidão de uma ilha, as palmeiras que o vento finta, pudessem ser humanizadas pela bagagem de livros ou filmes, um disco, o ocioso tabuleiro de xadrez do náufrago metafísico. E Trump? Levaria Melania? Feito Robinson Crusoé, sozinho e a água de coco, Trump deixaria entrar na ilha um Sexta-Feira refugiado?

O que leria eu se fosse Robinson Crusoé? Quereria ainda ler as páginas de culpa e redenção de “Lord Jim”? Leria contos de outras ilhas e de outros mares, contos dos mares do Sul de Somerset Maugham? Ou entretinha-me em terra, dedo a dedo e perverso, a virar páginas à “Lolita” de Nabokov? Sim, Marcelo ou Soares levariam cem livros, mas que livro levariam Theresa May, Macron ou Merkel?

E os meus filmes de ilha deserta? Ilha sobre ilha projectada veria a “Saga de Anatahan”? Revia a ilha de “Mud”, fluvial, no Mississípi plantada, ou, no ardente mês de Agosto, fervia e enfiava-me no apartamento de “Seven Year Itch” em que morava Marilyn, esse géiser da ilha de Manhattan, se Manhattan fosse mesmo uma ilha? E Putin? Roubaria Marilyn aos americanos ou preferia, como o velho Estaline, um filme de Tarzan?

A mais deserta das minhas ilhas foi a do Mussulo, à frente de Luanda, quando lá regressei, em 86. Angola vivia um filme de Fuller, uma guerra civil de silêncio e agonia. O almoço pediu sesta. Dormi na imóvel água tépida entre o Mussulo e a costa – amniótica doçura, a de assim deitado, dormir dentro da quieta água do mar. Depois, fui sozinho ao lado do oceano. Ninguém, apenas a infernal solidão do paraíso. Até encontrar o homem só, um velho pescador. Com a infinita gentileza de um kota, meu mais velho, dizia-me, xé, minino. E falámos. Tá mau, nem madeira, nem alcatrão, só tinha cola, rede e umas raspas com que tapava rachas da canoa de ir à pesca. Não se queixava nem pedia. Dizia só, xé, minino, com uma serenidade de Quinto Horácio Flaco.

Como o romano, também este angolano, nobre e independente, fora filho de escravo liberto. Estava ali sentado, estóico como Horácio na velhice, uma canoa a sua poesia, o seu filme uma ilha. Uma ilha aperta-se-nos à cabeça com as solitárias mãos do nosso desamor e, sem darmos conta, já somos Robinson Crusoé. Um livro e um filme, cada homem é uma ilha.

A paixão dos livros

Esta foi uma charla que fiz na Biblioteca Municipal de Lagos. Comemorava-se o Dia Mundial do Livro. Apetece-me relembrá-la. Em versão não corrigida, mas ligeiramente aumentada.

african reading

Falemos do livro. Do livro que nos apaixona, do livro que cheiramos e lemos como quem lambe, como quem beija. Do livro, podemos dizer que é como uma droga, uma pura droga. Vicia e cria dependência. Uma vez apanhados, já não conseguimos fugir-lhe. Começamos por fazer uma linha e apetece-nos logo fazer outra linha e outra linha e outra linha. Cheira-se o livro, apalpa-se o livro, agarra-se o livro e até pelos olhos nós consumimos o livro. Linha a linha.

De que é que andamos à procura quando lemos um livro? Procuramos no livro a mesma coisa que procurámos na longínqua noite de cacimbo em que decidimos fazer uma declaração de amor à miúda mais bonita lá da nossa rua, segurando-lhe a mão, mas à espera que a anatomia se baralhe toda e que, muito depressa, já nem ela, nem nós saibamos se é mão se é perna, onde acaba a boca de um e começa a boca de outro.

Com todo o respeito por outras opiniões – ou melhor, sem nenhum respeito por outras opiniões, afirmo que o grande e cósmico valor do livro está na erótica emoção que ele desencadeia em nós, no nosso corpo e no nosso espírito.

O livro é um território de alterosa e alcantilada geografia. Nessa geografia encontramos a vertiginosa Fenda da Tundavala que é o medo, o imparável rio da coragem que leva tudo à frente, o belo e húmido vale que é o amor, a impenetrável cordilheira do conflito e do ódio, o planalto da mais parva utopia. É essa a geografia do livro. O livro só é livro se for emoção e é essa gama de viciantes e exaltantes emoções que hoje estamos aqui a cantar e a celebrar.

É triste dizê-lo, mas tenho de vos dizer a verdade: foi a minha mãe que me meteu no vício e me desgraçou. No musseque Sambizanga, em Luanda, tinha eu cinco anos, a Alice, minha querida e devota mãe, de um livrinho religioso de capa dura, lia-me orações de uma beleza devastadora. É preciso ter já muitos calos no cérebro e no coração como os que o macaco tem naquele sítio que não vou dizer, para não sermos sensíveis à beleza que há, por exemplo, nestas palavras: Ave Maria cheia de graça /O Senhor é convosco, / Bendita sois Vós entre as mulheres, / E bendito é o fruto do vosso ventre. Isto é mais do que rezar, é juntar palavras numa harmonia e num ritmo cheia de graça, a roçar o manto do sublime.

A juntar à beleza destes versos, desse mesmo livro, a minha mãe lia-me histórias edificantes de pescadores que enfrentavam noites de tempestade no escuríssimo alto mar, lia-me a história de um inocente que era atirado para a prisão por um rei ímpio e cruel, ou lia-me a história de um mártir que preferia perder a vida a renunciar à sua fé e aos seus ideais.

Um miúdo de cinco anos não resiste, está claro, aos efeitos psicoactivos desta poderosa droga. As leituras da minha mãe, a forma como, na folha de papel de um livro, as palavras se combinavam e entravam em combustão, tudo isso gerava em mim um estado de euforia infantil, uma certa vasodilatação, a capacidade até de andar sobre as águas se me apetecesse andar sobre as águas. O livro foi, já viram, a minha colher de heroína.

Aos cinco anos, a minha mãe meteu-me, portanto, na droga. Aí por volta dos dez anos completou-se o meu ciclo de perdição. Dessa vez, a culpa foi de uma árvore. No meu quintal da rua Alberto Correia, na Vila Alice, outro bairro de Luanda onde vivi, havia mamoeiros, uma bananeira, um sape-sape, uma pitangueira, uns humildes e bravos jindungueiros.

Mas entre plantas e árvores a figura nobre do quintal era uma mangueira robusta e de idade madura. Eu era então um ágil e saudável saguim, trepava pela mangueira, saltava de galho para galho, e sentava-me a ler na confluência do mais sólido ramo com o amplo tronco dessa sábia mangueira.

Lia uns três ou quatro metros acima do chão, entre a verde folhagem abundante, a branca e pequenina flor, o amarelo avermelhado das mangas maduras. Tinha o sol e o céu de Angola como tecto e testemunha.

Durante cinco anos, dos 10 aos 15, eu vivi nessa mangueira as aventuras de cem vidas. Apaixonei-me, cometi crimes, salvei donzelas em apuros, assaltei bancos, ataquei índios, fui índio, fui o famoso xerife Buck Jones, só não fui o Padre Amaro, porque esse livro de Eça de Queiroz só consegui, por fim, lê-lo na linda biblioteca do mais bonito liceu do mundo, o liceu Salvador Correia. Uma leitura inesquecível: joelho contra joelho de uma colega que, só de pernas, era mais alta do que eu inteiro e de pé.

Agora que vos confessei e justifiquei a adição aos livros a que a minha mãe me converteu em Angola, tenho de vos dizer que para evitar crises de privação estão lá em casa à volta de dez mil exemplares espalhados pelas salas, quartos, cozinha, arrecadações e duas casas de banho. Em estantes, no chão, pendurados à janela, em pilhas, confesso que tenho mais livros do que comprimidos, garrafas de vinho, uísque ou cerveja juntas.

Deixem-me agora sair da infância e fazer breve uma história longa. Em 1981, comecei a escrever livros como autor e a fazer livros como editor. Foi na Cinemateca Portuguesa e aprendi com João Bénard da Costa.

O primeiro, de que fui co-autor, foi um pequeno catálogo sobre Jerry Lewis, dividido com o João Lopes, meu colega da Cinemateca. Os primeiros que escrevi sozinho, a solo como se fosse já um Jimmi Hendrix, foram dois livros de vida e obra, um dedicado a Michelangelo Antonioni, o outro sobre Francis Ford Coppola. Depois, em 1992, aliciaram-me para outras aventuras e só voltei aos livros em 1999, criando a Três Sinais, editora que se transformou, por alquimia, na Guerra e Paz em 2006, vai fazer 13 anos.

Já vos falei do meu amor pelo livro e de como privilegio a ideia do livro como aventura e emoção. Mas o livro é também um poderoso veículo de conhecimento. E é dessa área delicada, em que o livro se propõe já influenciar a gestão jurídica, económica, política e moral da nossa vida, que vos quero falar agora.

Nessa área do ensaio, nos últimos anos, na minha qualidade de editor, publiquei alguns livros de autores angolanos ou com temática angolana. Publico por nostalgia, por dívida afectiva – tanto foi o que a minha infância, adolescência e primeira idade de homem, em Angola, me deu –, mas sobretudo publico com a esperança de que o diálogo possa nascer da multiplicidade de contribuições dos meus autores, uns radicais e revolucionários, outros mais próximos do establishment.

Gostava de vos contar três episódios de vida que vieram a orientar e determinar o meu pensamento como editor. São as minhas três grandes lições angolanas, as três lições que têm estado subjacentes à edição dos livros sobre Angola.

Na noite de 4 de Fevereiro de 1961, houve em Luanda um levantamento nacionalista. Eu tinha sete anos e morava em pleno musseque Sambizanga. Na tarde do domingo seguinte, quando ia com a minha irmã, a minha mãe e o meu pai passear, assisti à fúria de uma pequena multidão de brancos, a que se juntavam também alguns africanos, que perseguiam outros africanos que tomavam por suspeitos de ser o que então se chamava “os turras”.

Esses pobres de Cristo foram espancados de forma miserável, a murro, à paulada, e não me esqueço porque não me posso esquecer, de ver a parte rija de um ramo de palmeira a escorrer sangue. Em frente à Casa Branca, tentando fugir pelas barrocas da Boavista, que desciam em direcção aos caminhos-de-ferro e ao Porto de Luanda, esses homens, rapazes ainda, escolhidos aleatoriamente pela multidão justiceira, revoltantemente burra como todas as multidões justiceiras, sangravam, eram atirados ao chão, espezinhados, e eu não sei se houve ou não mortos, porque a minha santa e aflita mãe me tirou logo dali, correndo comigo os 300 metros que nos separavam de casa.

Nesse quentíssimo domingo à tarde, soube, visceralmente, na minha cabeça, coração e estômago, que nunca deveria estar do lado da multidão justiceira. A multidão justiceira é cobarde, é burra e é cega. A multidão justiceira envergonha a humanidade que há em nós.

Catorze anos depois, eu era vagamente maoista, um independente sem facção, militante do MPLA, no Lobito, de onde as Fapla tinham expulsado a Unita. Mas a Unita trouxe o exército sul-africano e as ordens foram para retirar. Um jovem comandante apenas, o comandante Kassange, radical e maoista, decidiu ficar. No dia 10 de Novembro de 1975, tinha eu 22 anos, com um ex-capitão do exército português e mais dois amigos fomos a Benguela convencer Kassange a retirar e vir connosco.

Em frente à modesta sede que então o MPLA tinha, Kassange, belo, poético e mítico como um Che Guevara angolano, os obuses a rebentar para o lado do aeroporto, disse-nos que ficaria e que, sozinho, com meia dúzia de velhos e adolescentes, se meteria à mata para fazer de novo a guerrilha, a guerra popular prolongada. Era um gesto quixotesco, sem valor prático, ditado pela obsessão ideológica. Kassange não sobreviveu e ainda hoje essa morte é matéria de especulação. O ânimo e a inteligência de um Kassange vivo fazem muito mais falta ao povo angolano do que que a inglória saudade de um pequeno mito morto.

Nessa tarde de 10 de Novembro (ou foi mesmo a 11?), a olhar para o belo rosto convicto de Kassange tive a segunda grande lição da minha vida, a de que a convicção ideológica, quando se extrema e nega a realidade, na sua gloriosa radicalidade, gera apenas dor e sofrimento.

Não sei em que noite foi, mas foi no final de Setembro de 1976, o MPLA no poder e a Guerra Civil no auge, numa casa de um selecto bairro de Luanda, num convívio com altos quadros do MPLA no poder, um piloto militar angolano contou, e eu ouvi, como bombardeara um aldeamento da Unita com napalm, fechando com a frase: “Arrasámos tudo. Deixámos aquilo mais liso do que um campo de futebol”. Os inimigos que acabara de exterminar eram angolanos como ele.

Fechava-se, naquele bombardeamento de napalm um ciclo começado com o bombardeamento que o colonialismo português fizera na baixa do Cassange e com o uso de napalm pela força aérea portuguesa no tempo do General Costa Gomes. A minha terceira lição angolana é a lição amarga de que, opressores ou libertadores, em nenhum consigo encontrar qualquer forma de superioridade moral.

Foi também por causa destas três lições angolanas e porque quis ir às raízes dos conflitos que se viveram em Angola de 1974 até ao Maio de 1977, mas que se viveram e ainda hoje fazem eco também em Portugal, que eu escrevi Revolução de Outubro, cronologia utopia e crime, sobre a revolução russa.

Julgo que foi o meu primeiro e provavelmente último livro político. Escrevi-o para tornar claro na minha cabeça que a forma populista como os bolcheviques fizeram a revolução – ou, no meu entender, a contra-revolução – criou a matriz que veio a infectar e moldar o modelo revolucionário, que foi totalitário e não-democrático em todo o mundo, e que uma parte do cortejo de debilidade estrutural económica, sofrimento e atraso de Angola vem também da matriz marxista que esses revolucionários angolanos vieram beber a Portugal e à Europa nos anos 50.

Ou seja, é uma tremenda e infeliz ironia que, do vasto património cultural europeu, da filosofia, da ciência, da literatura, das artes e do nosso humanismo, por razões várias, por causa de uma conjuntura maniqueísta, os revolucionários independentistas se tenham cristalizado numa ideologia ligado a um pensamento dito crítico que é, afinal, incapaz de agregar os povos, construir riqueza e desenvolver as nações.

Essa ideia revolucionária, que vem de Outubro de 1917, é fortemente atractiva porque parece muito funcional e lógica. Divide o mundo de forma maniqueísta em bons e maus, em classes antagonistas que, por um fatalismo pretensamente científico, se têm de confrontar até que uma seja exterminada. Foi a pior herança que o Ocidente podia ter proporcionado aos povos que legitimamente ansiavam pela sua liberdade. Eu julgo que, a par de outros passos mais imediatos e concretos, um passo refundador que os angolanos também terão de dar é o de revisitar a herança da colonização com instrumentos que não sejam apenas os desse velho e embotado maniqueísmo.

Foi também esse debate que pretendi suscitar ao escrever o meu livro, é esse o debate que pretendo prosseguir com a publicação de livros de autores angolanos ou com temáticas angolanas.

Mas acima de tudo espero que as novas gerações angolanas, os miúdos que agora crescem a ler nas mangueiras de Luanda, do Lobito ou do Cunene, me venham bater à porta com livros escritos por eles, livros que sejam a redenção desse nosso mundo de ideais que desembocaram, para nossa amarga desilusão, no totalitarismo, na tortura e num sangrento morticínio.

E não posso, nem quero, ser injusto com os mais-velhos. Há hoje, com a presidência de João Lourenço, ou por causa dela, uma vaga de mais-velhos que podem ou querem voltar a falar e que trazem experiências e reflexões ditadas por uma experiência.

Espero que, cumprindo a vocação mais nobre do livro, os livros de todas as gerações de angolanos nos restituam o que um dia ouvi da boca da minha mãe: ritmo e harmonia das palavras, invenção de sentidos, o gigantesco prazer de criar personagens, aventuras e um céu e terra de liberdade.

Isto não é um prato de búzios

búzios

Não é Magritte quem quer, mas posso jurar-vos: um prato de búzios não é um prato de búzios. Aliás, só houve, em toda a história de humanidade, um prato de búzios. Comi esse prato de búzios em 1971, em Luanda.

Era a primeira vez que comia. Reparem, não é que alguma vez tenha passado fome. Fui alimentado por pais carinhosos que, à confiança, me deixavam sair à noite, desde os 15 anos, com dois amigos mais velhos, o Abílio e o Simão. Eu era a boca que eles levavam, a quem davam um fino gelado no Polana. Tinha é de mastigar um prego no prato, ou uma fatia de pão e presunto aquecidos no voracíssimo Baleizão. Eu era, portanto, alimentado em regime doméstico e em regime ambulatório. E era alimentado graciosamente. Tinha 17 anos e nunca pagara um angolar, cinquenta centavos que fosse, por uma travessa de camarões, uma perna de churrasco, o desfastio de um feijão com óleo de palma polvilhado a farinha de mandioca.

Naqueles tempos de guerra colonial, o Abílio era um refractário, o Simão um comando, isto para dizer as coisas de modo ameno, sem entrar em pormenores. Eles eram os melhores amigos e o que interessa é que me amavam como se eu fosse o maninho mais novo. Íamos de Volkswagen preto, de tasca luandina em tasca luandina. Bebíamos filosóficos copos de cerveja mais gelados do que o Pólo Norte, mais gelados mesmo do que duas páginas de Schopenhauer, se me perdoam a trivialidade.

A entrar eramos eclécticos: tanto entrávamos onde se cantasse o fado, como onde se dançasse um tangível e escrupuloso merengue. Tenho de confessar que uma noite me sentei inesquecivelmente. Jamais alguém se sentou como me sentei, quando me sentei ao lado de Elias diá Kimuezo, o cantor de “Ressurreição”. Se quisesse poderia descrever cada nervura do tampo da cadeira, a textura das calças pretas de terylene, a forma como o meu rabo, sem que eu lhe pudesse dar ordens, se deixou ficar meio suspenso, incapaz de se afundar na inútil cadeira. Elias era a voz, a formidável solidão da canção quimbunda nos ouvidos de um branco. Diá Kimuezo tinha um fino na mão, eu outro; falou comigo e era o mesmo único e indivisível fino que bebíamos às três da manhã, num bar da estrada de Catete.

Mas volto a meter a mão onde tenho de a meter: não gastei um angolar, cinquenta centavos que fosse. O Abílio e o Simão, com uma fraternidade bêbada, pagavam tudo, os bilhetes no estádio dos Coqueiros, a ululante liberdade das praias da Ilha, copos e copos, a educação do infante – a minha.

Aos 17 anos, de bandeira, como se fosse um glorioso ponta de lança, cai-me no pé o emprego absoluto. Das 7 às 13, num hospital, com não sei quantas fisioterapeutas e um salário de brinca na areia. O primeiro que recebi – ó Luanda de um raio – convidei os meus dois irmãos velhos e, do nada, como um big bang, na sofisticada cervejaria Amazonas, nasceu e proliferou o prato de búzios. Paguei. Ah, que bonito o dinheiro cristalino, a moeda tilintante. E era o único prato de búzios da história da humanidade. Nunca mais nenhum me saberá tanto a liberdade, amor e mar.

Amazonas _Luanda

A jukebox

Jukebox.jpg

Podem atirar setas ao peito do meu passado. Embebam, se quiserem, a ponta das setas em ironia, mesmo sarcasmo. A gozação esbarra num escudo protector: a banda sonora da minha vida tem canções à prova de bala.

Vi Blade Runner 2049. Não me perguntem se gostei. Sem tirar o rabo da cadeira já me piro muitas vezes dos filmes: passo leve pelas brasas como me ensinou João César Monteiro, cineasta-unicórnio. Mas eis que no meio da pretensão minimal e em cinza do novo Blade Runner aparece o velho Harrison Ford. Acordei eu e acordou toda a gente. Convidou-me para um copo – convidou também o cão dele, nocturno bebedor de whisky – e pôs música. No filme, Ford tem uma jukebox. Tropecei na minha própria inveja, quando ele a pôs a tocar. Na jukebox de Harrison Ford, quando Sinatra começa a cantar One For My Baby com a tristeza de um cachorro órfão, não só o ouvimos, como vemos um holograma dele. Um holograma. Dava uma perna, aquela de que tenho duas, para ter tido este futuro no meu passado.

A jukebox que desperta a minha maior fome nostálgica é de Luanda. Ficava na Ilha de Luanda, num africaníssimo tasco de pescadores, encostado a 1971 e à Igreja de Nossa Senhora do Cabo.

Eu descia a cidade toda para lá chegar ao fim da tarde e ao pé do mar. Na Igreja, éramos um bando de miúdos católicos a roçarem-se pelas asas da Revolução. Vínhamos alfabetizar os pescadores negros, as mulheres deles e os filhos mais velhos. Usávamos o famoso método Paulo Freire, champô pedagógico dois em um: não só ensinava a ler como dedilhava a consciência dos educandos, empurrando-os para o buraco negro a que então chamávamos «o homem novo».

Só não me arrependo, e sei que Deus me perdoa, por causa da velhíssima e decadente jukebox. Chegava uma hora mais cedo para beber cerveja, ouvir a música e o crepuscular ócio do musseque. A minha memória não me trai: a jukebox só tocava duas canções. Tocava Café, Tostao y Colao, maravilhosa rumba, salsa ou jazz (e era isso tudo) criada por Eddie Palmieri e cantada por Ismael Quintana. Ouçam-na. A canção é um lânguido espelho de torpor e preguiça, um ritmo que empresta às ancas uma volúpia de câmara lenta. Aos primeiros acordes já dançamos na imóvel cadeira, mas o que nos levanta é mesmo um trio de trompetes. Junta-se a voz, sax, timbales, congas, bongós e maracas e juro que vi a mágica dança de Cucas e Nocais, num embalo de ilusão e romance.

Tocava a seguir Moliendo Café, rumba do maestro Hugo Blanco. Cantava-a o barítono Nelson Villalba. Ia jurar que na jukebox da Ilha a voz que a cantava era a de Lucho Gatica, tanto puxava a rumba para os lençóis do bolero.

E não sei se invejo a jukebox de Harrison Ford. A minha também tinha, afinal, um holograma. Estou a vê-lo: geladíssima cerveja na mesa, os irónicos pescadores a rir com o miúdo branco, caía lânguida a tarde arrastando fundas sombras. Depois, no letargo da noite, parecia que toda a Ilha de Nossa Senhora do Cabo gemia. Talvez tocasse um vento de futuro nessa jukebox do passado.

Navegar é preciso

Já não tenho 20 anos, nem em cada perna. Mas vem-me, de vez em quando, sei lá a que perna, o vigor ou a saudade dos 20 anos. E volto a ver tudo rubro, umas cores do caneco, cheiros de pólvora, rasgões de aurora, líquidas noites de fogo.

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Com a devida vénia, foto do maior fotógrafo que o Lobito já teve, o pai Quitos. E um abraço ao filho, meu amigo desses tempos distantes

Navegar é preciso

Nem toda a convulsão extravagante que nos agita o corpo é sexo. Eu, por exemplo, se navegar é fugir, queria fugir. Tinha 20 anos e estivera, pela primeira vez, alguns meses em Portugal. Antes, a minha vida resumira-se à colonial Angola é nossa. Angola e Luanda tinham sido minha mãe, meu pai. Mas por muita muxima ué que me incendiasse a alma, agora, aos 20 anos, mais do que para a desejada independência de Angola, o 25 de Abril empurrava-me para a fuga.

Caía o cacimbo de 1974 e eu queria era ser independente sozinho, independente de tudo, da família, da antiga pátria, da nova pátria, pátria que pariu, eu queria era a aventura de um barco, navegar é preciso, um lugar do mundo fora do meu mundo. Não sei o que se chama a este ardor – parece que estás parvo, era a efusiva reacção dos amigos inimigos. Só queria, clandestino, fugir dali.

Foi no Lobito, o maior porto da costa ocidental de África. Havia barcos americanos e barcos jugoslavos, navios de carga, cargueiros de Lord Jim. E havia tascas sórdidas com suavíssimas putas rouxinol e as árduas putas urubu. Os meus 20 anos rondavam desagradecidos. Era o 25 de Abril e eu, em vez da utopia, queria a atopia, uma ilha dos mares do sul, um quarto lírico numas águas furtadas em Montmartre.

Não sei o que foi. O que primeiro me mudou de regime talvez tenham sido os sonhos servidos à sobremesa na pensão da Dona Rosa, encostada à entrada norte do cais. Tivesse Marcel Proust metido à boca um destes sonhos húmidos – molhados, se o rigor ainda tiver valor literário – e a Recherche teria catorze e não sete volumes. A cada dentada – três por sonho – eu lembrava-me da casa paterna de Luanda, dos amigos e amores da Vila Alice. Prendeu-se-me uma perna e cada vez fugia menos.

Ou talvez tenha sido a paixão da educação. Pediram-me para dar aulas de literatura no liceu. Havia uma vaga – tantas vagas houve naquela altura e é tão bom ir de vaga em vaga. As aulas, alunas quase da minha idade e, cantigas de amigo, cantigas de amor, versos de monangambé, prendeu-se-me a outra perna e deixei de querer fugir.

Lembro-me, e não é das piores coisas de que me lembro: dentro do meu corpo a convulsão extravagante sublimou-se em Revolução. Fiz comícios, estive à beira de levar a maior carga de porrada da minha vida no glamour pequeno-burguês do Chá Para Dois, promovi a insurreição estudantil, voltei ao Chá para Dois para rastejar escapando ao fogo cruzado, tiros e granadas, entre o éme e o galo negro, fiz noites de vigia no mar alto num barco de investigação oceanográfica.

Trinta por uma linha, tantas ou tão poucas fiz, que um transitório ministro angolano, farto de que uns putos brancos lhe gritassem o que nunca o ouvido do toucinho escutará da língua de Maomé, me chamou para me dizer rigorosamente isto: “Vocês só vieram cá fazer merda. O povo já está a ficar fodido convosco. Pago-te as malas e expulso-te para o Puto.”

Logo quando que eu já não queria fugir. E o povo? Estava ou não estava o que disse o ministro?

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20 anos ou o ponto de fuga