A agilidade vagabunda de um Dois Cavalos

crónica de coisas passadas 

DoisCV
O Dois Cavalos está a arder, alguém me viu fugir, à velocidade dos vinte anos, pelo mato do Dondo, e dois dias depois já a minha mãe sabia que a FNLA, de morte matada, tinha mandado o seu anjinho encontrar-se com os anjinhos do céu. As cinzas de um 2CV ainda hoje jazem e apodrecem no pujante mato do Dondo que o abraçou, dois rapazes fugiram e talvez nunca mais as bocas das suas mães os tenham beijado, mas foi outro, e não o meu Citroen 2CV, a ser devorado pelas chamas criminosas. Juro também que esta crónica não é póstuma e o amoroso luto da minha mãe foi manifestamente exagerado.

O 2CV foi o meu primeiro carro. Comprei-o em octogésima mão. Era uma pandeireta a estremecer por todos os lados. A frágil graça das suas linhas, tão lindas como a nuca rapada de Naomi Campbell, pedia que fossemos nós a levá-lo ao colo e que ninguém fizesse a afronta de sentar as baixezas nos seus periclitantes bancos. E eis a primeira viagem: de Luanda ao Lobito, 700 quilómetros de estradas à beira da independência, uma guerra civil de mortes à traição a vir do capim ou das esquinas da cidade. Intrépido, com a vagabunda agilidade de Charlie Chaplin, o Dois Cavalos avançou para o interior até à Quibala, flectiu para os morros da Gabela, por lhe cheirar a café, e depois deixou-se deslizar à beira do Atlântico Sul, no Sumbe.

Do Sumbe ao Lobito, o perfume do mar queimava-nos de liberdade a pituitária. O 2CV fazia o que queria, ziguezagues como se a fita de alcatrão fosse só nossa, as finas quatro rodas a girar numa alegria menina. Podia-se, se assim posso dizer, mijar ao vento. E foi o que os meus vinte anos fizeram, na magnífica solidão dessa estrada, o pudico Dois Cavalos de olhos fechados, mas sem nunca parar. Eu andava então a fazer a revolução e tenho a certeza de que nem Che Guevara teve a liberdade de mijar ao vento de um 2CV em movimento.

Sempre soube que na vida se davam bolos. Nunca imaginei que um dos mais doces bolos da minha vida pudesse ser esse carro que os franceses tinham pronto quando os nazis os invadiram. E lembro: o 2CV olhou para a fronha de Hitler e negou-se a nascer. Os senhores engenheiros e os donos da Citroen, num gesto estético que faz deles os nossos heróis, destruíram os 150 protótipos. O 2CV só se fez à estrada, livre, em 1948. O meu devia ser desse ano, porque, já tínhamos passado a Canjala, a 70 quilómetros do Lobito, o chão do carro, no lugar do condutor, rasgou-se e passámos a ver a estrada. Olhava-se para cima e via-se o eterno azul do céu, olhava-se para baixo e desfilava o belo e negro alcatrão. Tínhamos assim a certeza de que era um Dois Cavalos com as rodas bem assentes no chão.

Nas lutas da independência, tive de o deixar no Lobito. Voltei para o recuperar em 1976. Mas o fogo não o poupara. A UNITA ou um sul-africano ressabiado, não reconhecendo nele a estremecida elegância de Naomi Campbell, pegou-lhe fogo. Era já e só uma carcaça queimada à porta do Chá para Dois, no Terreiro do Pó. Não se livram do fogo os Dois Cavalos da minha vida.

2 thoughts on “A agilidade vagabunda de um Dois Cavalos”

  1. Tão lindos:

    – o seu 2CV
    – o seu amor e a sua ternura por ele
    – a sua crónica
    – a sua (dele) resistência (não era fácil ter pela frente f´nelas, unitas e s.africanos)
    – a sua (dele) luta pela liberdade (foi ele o Jan Palach angolano??)

    E há coisa mais linda do que esta geringonça ziguezagueando pelos caminhos da Liberdade??

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