Uma escrita miudinha

relatividade

Talvez ninguém queira entrar num quarto escuro se souber que está em Jerusalém. Mas é num quarto escuro que estão, e podem ser vistas publicamente, as 46 páginas manuscritas por Albert Einstein para expor a sua teoria da relatividade, que hoje é tão nossa por muito pouco que, diga-se a verdade, a compreendamos (falo por mim), e por outro tanto que, nos gestos quotidianos, sobranceiros a ignoremos. A menos que comecemos a beijar-nos e a fazer outras carinhosas coisas a uma velocidade superior à da luz e, nesse caso, comecem na nossa apaixonada mente, a surgir dúvidas quanto a, do ponto de vista da amada boca, estarmos em absoluto repouso ou em relativo movimento. (Isto está tudo errado, já sei, sem uma palavra que seja sobre a forma como os campos gravitacionais, e são tão fortes os de dois amantes, afectam o tempo e o espaço, mas é sabida, neste blog, a minha tendência para a leviandade e fraco humor).

Para que conste, e por causa de um paper intitulado “Sobre a Electrodinâmica dos Corpos em Movimento”, fez em Março 124 anos que aquela icónica e wharoliana cabeça com língua de Mick Jaeger publicou a sua “especial teoria da relatividade”.  O que me impressiona, nas fotos que vi, é a impecável e rigorosa organização da escrita de Einstein. Alinhadinha, miúda e segura (como a de Agustina Bessa-Luís), apoiada em esboços e desenhos a roçar o perfeccionismo, o que assegura aos manuscritos um valor estético de que Einstein era particularmente orgulhoso.

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O novo PREC

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Há uns anos tive o prazer de subir esta escadaria: UCLA

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 16 de Julho

O novo PREC, Polémica Racial Em Curso, tem um mérito: pôs a nu o medo na universidade. Num artigo veemente e frontal, o sociólogo Gabriel Mithá Ribeiro acusou a universidade de ostracizar quem não pensa pela cartilha de esquerda nas chamadas ciências humanas.

Mas o medo de falar – essa velha insídia salazarista – já passou da universidade à vida social. O espectro de décadas de pensamento unidimensional, a que a esquerda se rendeu, assombra cada conversa, cada bica curta. Há uma ameaça de censura e de exclusão, que não honram a liberdade de pensamento e a vontade de saber que esquerda e direita não extremistas têm de partilhar.

Bury a friend

Hoje a minha mãe faria 93 anos, não tivesse ido a enterrar há 6 anos. Tanto se pode ir a enterrar no passado como a ir enterrar no futuro. Nesta canção vai-se a enterrar no presente. Ouvi-a esta manhã. Não sei se é belíssima, se é terrível. Passou por mim o vento de saudade de um tempo menos pesado: When we all fall asleep, where do we go?

Calcinhas

Mailer e Norris
Com Norris

Norman Mailer está nu e morto há quase 12 anos, desde Novembro de 2007. Li nestas curtíssimas férias, o livro que escreveu sobre o célebre combate de Muhammad Ali e George Foreman, em Kinshasa. Chama-se, sem mais, “O Combate”. Escrita directa, cada frase um gancho, às vezes de direita, às vezes de esquerda. Uma paixão sem freio por Ali.

Sobre Mailer, e sem punhos de renda, escreveram-se, pouco depois da sua morte, dois livros. Um é da sua mulher, Norris Church Mailer. O outro, da sua amante, Carole Mallory, que ele amou, e ela a ele, durante nove anos. “A Ticket to the Circus” chama-se um, “Loving Mailer” o outro.

Coincidem em vários pontos, relatando as lendárias antipatias do escritor, a raiva que tinha a certos advérbios e, por razões menos gramaticais, a certos contraceptivos. Tem piada, ambas lhe agradecem a forma como, mentor, as animava a escrever. Ambas se lembram da escandaleira que foi a primeira noite de sexo: “Take off your panties, I want to experience your soul” lembra-se Carole de ele lhe ter dito.

Ambas suavizam a ideia de que Mailer tenha sido – pelo menos com elas – um tipo violento, e Norris até confessa que foi ela quem lhe acertou um murro no queixo, numa discussão. Ambas tiveram outras aventuras, Norris com Bill Clinton, antes de Mailer a conhecer, Carole uma longa lista de Oscarizados, incluindo Robert De Niro,  Clint Eastwood e Warren Beatty. A chave, a verdadeira chave da paixão, confessam Norris e Carole, foi a mesma.

Norris fala do peito peludo dele que lhe servia de almofada, mas sobretudo do “splendid cock” que ele possuía.

Para Carole, Mailer parecia o Humpty Dumpty, quase ridículo, mas com um trunfo apreciável: “if his penis weren’t so beautiful, I would have left.”

Nenhuma o deixou o que não é certamente a pior homenagem que se pode prestar a um escritor.

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Com Carole

 

 

Eu seja ceguinho

Camões
Um olho per­dido na Bas­ti­lha… mas este é Sade ou é Camões?

Agora que os meus olhos, que nunca foram grande coisa, já não são o que eram e ame­a­çam ficar pio­res, lembrei-me de que as artes e as letras até não se dão mal com a cegueira. O diabo é a exi­gên­cia de um talento des­me­dido. Que é que que­rem, não se pode ter tudo… mas posso, ao menos, e para não can­sar a vista, ir bus­car esta velha lista de cegui­nhos. E não lhe acres­cento, injusto, Antó­nio Feli­ci­ano de Castilho.

***

Se Camões não tivesse per­dido um olho teria escrito a exacta obra que nos deixou? E a Homero, quem o cegou? A lança de um troiano?

Jorge Luis Bor­ges, poeta de ouro e tigres, era cego e via­jante impe­ni­tente. Via­jou muito, de cidade em cidade. Há ima­gens dele de Paris, Cairo, Roma, Creta, Istam­bul, Fila­del­fia, Gene­bra ou Bue­nos Aires. Quero acre­di­tar que haverá uma de Lis­boa. São ima­gens para­do­xais das via­gens de um escri­tor cego que nelas se obs­ti­nava em cum­prir o impe­ra­tivo do acaso. Diz Maria Kodama, com­pa­nheira do poeta, que esco­lhiam os des­ti­nos das suas via­gens abrindo o atlas e dei­xando que “las yemas de los dedos adi­vi­na­ran lo impo­si­ble: la aspe­reza de las mon­tañas, la tesura del mar o la mágica pro­tec­ción de las islas”.

Por impro­vá­vel que a asso­ci­a­ção pareça, cegueira e escri­to­res são estre­las que cin­ti­lam jun­tas, há sécu­los, em noi­tes de tor­menta. Para além de Bor­ges, que escre­veu parte subs­tan­cial da sua obra, “pri­si­o­nero de un tiempo soño­li­entò / Que no marca su aurora ni su ocaso”, evoco a empo­bre­cida visão de Wordsworth que, na matura idade, não con­se­guia ler mais do que 15 minu­tos de cada vez:

Though absent long,
These forms of beauty have not been to me,
As is a lands­cape to a blind man’s eye

Do divino e sádico Marquês diz-se que, como o luso poeta, terá per­dido um olho quando esteve na cadeia – e que importava, naquela Bas­ti­lha, perder-se um olho guardando-se a alma, a quem tão bem sabia que toda a feli­ci­dade reside na imaginação.

Tam­bém os olhos rus­sos de Dos­toi­veski, mais cas­ti­gado um do que outro, sofre­ram com os ata­ques de epi­lep­sia que não o pou­pa­ram desde os 20 anos.

Um ata­que de glau­coma obri­gou Joyce à tor­tura de suces­si­vas ope­ra­ções que expli­cam a pala que usava sobre o olho esquerdo. Nem por isso amou menos a Nora, escrevendo-lhe car­tas que dão vista a qual­quer cego.

Aos 46 anos, Mil­ton, já cego, escre­veu Para­dise Lost com a ajuda das suas três filhas.

Aldous Hux­ley só não seguiu a car­reira cien­tí­fica (não lhe teria ficado mal) por ter ficado vir­tu­al­mente cego e (o que me terá dado para jun­tar os dois!) Gabri­elle d’ Annun­zio per­deu o aven­tu­reiro olho esquerdo quando foi atin­gido por bala ini­miga, num voo durante a Pri­meira Grande Guerra,

Não conto nem falo dos que, no fim da vida, como Jean-Paul Sar­tre, tom­ba­ram no poço de tre­vas que rouba as for­mas dos ros­tos e das rosas, ficando obri­ga­dos a só escre­ver ditando.

Defi­ni­ti­va­mente a escrita não é uma arte da visão, mas só cosa men­tale de per­so­na­gens berkeleyanos.

“… and your eyes more bright
Than stars that twin­kle in a winter’s night.”
John Dry­den (1631−1700) The Con­quest of Granada.

Joyce
 A epi­lep­sia de Dos­toi­evski ou o tor­tu­rado olho de Joyce? É que cada vez estou a ver pior.

 

 

Se ainda têm um coração

Ferdinand_Waldo_Demara
Ferdinand, o homem dos mil ofícios

Se ainda bate um coração no peito dos leitores do Jornal de Negócios, bebam-me estas lágrimas. São as lágrimas da mãe de Joseph Cyr. É um dia de Outono de 1951 e que mãe não choraria ao ver o nome do seu filho desenhado num jornal, a letras generosas, contando como ele, Joseph Cyr, cirurgião, na insidiosa guerra da Coreia, a bordo de um destroyer canadiano, em pleno deck e o céu por testemunha, operara três norte-coreanos, um deles com uma bala a tricotar-lhe o coração, salvando-os da nefanda morte. Essa é a mais franciscana das nobrezas: salvar o próprio inimigo.

 E eis que uma das lágrimas volta atrás e logo o olho maternal a engole. Um sobressalto exaspera a mãe de Cyr. O filho é cirurgião num hospital de Grand Falls. Que ela saiba o filho não tem o dom da ubiquidade, o que um urgente telefonema confirma. O Estado Maior canadiano alarma-se: tem um impostor a bordo. O comandante do destroyer recebe o telegrama acusatório: lê-o, amarfanha-o, deita-o para o lixo. Que repugnante mentira!

Joseph Cyr, mal che­gara ao destroyer, tivera de extrair um dente cari­ado ao coman­dante, o que fez com perdulária dose de anes­té­sico e a con­tento da autoridade máxima. Fica­ram ami­gos. Dis­creto embora, o dou­tor Cyr era admi­rado por todos. Dava larga margem de mano­bra à equipa de enfer­ma­gem no tratamento dos feri­men­tos ligei­ros, usava com liberalidade a peni­ci­lina se a complicação era mais funda e de tromba feia. Não seria por ele que o imperialista destroyer canadiano não nave­ga­ria, a atazanar o vermelho social-fascismo emergente na costa asiá­tica.

É ver­dade: des­cia aos seus dig­nos apo­sen­tos e fechava-se, por suados e sufocados minu­tos, antes das cirurgias mais bárbaras. Assim fora com a cárie do almi­rante, assim foi com os estripados guer­ri­lhei­ros core­a­nos que ten­taram assal­tar o navio. A tripula­ção, na descida do cirur­gião aos seus infernos, via uma angustiazinha de Deus, impe­ri­osa neces­si­dade de concentração.

A realidade é como a mais crua das troikas e revelou haver em Cyr um insustentável déficit de verdade: o Dr. Cyr nem era doutor, nem era Joseph Cyr. Revestido de uma não excessiva e por isso simpática gordura, Fer­di­nand Waldo Demara era um adorável impostor e roubara as suas credenciais ao verdadeiro Dr. Cyr, tão vigilantemente amado por sua mãe.

W. Demara não tinha estudos médicos, mas tinha a mesma vocação heteronímica de Fernando Pessoa, fingindo deveras o que na verdade quisesse sentir. Fora, por umas semanas, var­re­dor num hos­pi­tal ame­ri­cano, vira o que vira: era esse o seu cur­ri­cu­lum. Confiou na peni­ci­lina, na juven­tude e apti­dão física dos pacientes e na pasmosa capa­ci­dade da sua memória visual, que era o que o levava a des­cer ao cama­rote para ler à velo­ci­dade de Usain Bolt os manuais clínicos de que se munira para a aven­tura. Depois valeu-lhe a audá­cia e uma divina dose de sorte.

A vida do impostor Demara é um rosá­rio infindável de máscaras: era capaz de ser engenheiro como Álvaro de Campos, empregado de escritório como Bernardo Soares. Nasceu em 1921, foi várias vezes monge – tra­pista, uma vez, bene­di­tino a outra –, psi­có­logo, enge­nheiro civil, adjunto de xerife, advogado, edi­tor, desa­pa­re­cido em com­bate, sui­cida com êxito, inves­ti­ga­dor do can­cro. Tudo isto fingiu, tudo fez com mil nomes e cre­den­ci­ais forjadas, mas irre­pre­en­sí­veis. Sempre que o descobriam e ia preso, corriam lágrimas. Deixava atrás de si amigos, admiradores convictos, pela competência e maravilhosos resultados com que exercera os cargos. Faltam-nos impostores com esta excelência.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios