Morreremos como uma corveta

afonso

Numa das minhas espartanas razias pela televisão, apanhei na SIC uma bela reportagem de Aurélio Faria sobre a corveta Afonso Cerqueira. Era uma corveta cheia de História, como todas as corvetas, ou como todos nós que navegamos a vida como num oceano deslizam corvetas. Hoje, a corveta está no fundo do mar.

E vi, nessa corveta no fundo do mar, feita recife ao largo da Madeira, o meu destino. Na morte da corveta a minha morte. A sua também. A de todos os nossos amores amigos, afinal. Todos acabaremos recifes no fundo do cosmos sem fundo.  Tal como a heróica corveta Afonso Cerqueira que, seja por onde quer que se entre, oferece sempre uma segunda saída aos aquáticos visitantes, por mim, por si, pelo meio desses suspensos recifes, que estamos destinados a ser no fundo do cosmos, nadarão mergulhadores, o impertinente esquecimento, as cegas águas da eternidade, robalos e douradas galácticas, as despenteadas algas de Deus. Por onde quer que metafisicamente nos entrem, esses cósmicos visitantes encontrarão sempre a nossa segunda e oferecida saída, roído buraco, mais de olvido do que de saudade, do sono ou sonho que tenha sido a nossa remota vida. 

Se me permitem dizê-lo, é a primeira vez que a eternidade me apetece.

Longa lista dos meus gostos

Esta lista tem mais de 10 anos. Mas é que não mudo quase nada. Sem prejuízo dessas ruminações em que os velhos são tão insistentes.

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Charlize

Longa lista de gosto tanto

Permito-me fazer aqui a cândida lista das coisas de que, diletante e descomprometido, gostava muito e gostava sem vergonha. Passaram dez anos. Tenho, por vezes, de comentar à frente de alguns “gostos” – e em bold rouge –  para não encher tudo de notas de rodapé. E então, por razão nenhuma e com toda a razão, gosto:

De olhar para ti – ainda hoje, sempre;
Das “Palmeiras Bravas” de Faulkner;
Do “Ces Petits Riens” do Serge Gainsbourg;
De Deus nos seus momentos de volúpia;
De decotes;
Da “Estrutura das Revolução Científicas” de Thomas S. Kuhn;
De ficção, de Philip Roth – rip;
Da simplicidade gastronómica do Fiorde – que pena, o Senhor Armindo foi servir o Senhor;
Das pernas das raparigas quando chega a Primavera – ah, nunca mais chega;
Da “Carmen”;
De acácias e jacarandás;
Da língua portuguesa e das variações brasileiras e angolanas dela;
De Werner Heisenberg – cada vez mais;
Da Debra Winger nos anos 90 – da Charlize Teron maintenant;
De sopa da panela com carne de borrego;
Dos Estados Unidos da América – que sempre teve o seu pato Donald;
De 20 minutos à Benfica – João Félix, só tu para eu voltar a acreditar no eterno retorno;
De Anna Karina no “Pierrot le Fou”;
Do atiçador na mão de Wittgenstein;
De beijar;
De quem ama sem ressentimentos;
De Picasso, Modigliani e Matisse;
Do brilho do rio quando, entre Caxias e Paço de Arcos, reflecte a luz de inverno – já lá passo tão pouco;
Do “Für Elise”;
De caramanchões e pérgulas;
De um mundo com ricos e pobres, pretos e brancos (todos diferentes, todos diferentes) – e anda por aí so much ado about nothing;
Dos filmes de Rob Reiner – hmm, venha de lá o Manick de cada ano;
De golos de bandeira;
De ouvir cantar o “Auld Lang Syne”;
De um dry martini ao fim de tarde no Shutters on the Beach – e do tinto do Douro de cada dia.
E cada vez mais do oceano, o grande mar e o medo do mar.

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Sea Fury, foto de Edgar Laureano, com a devida vénia