Sou invisível

Komé, meus kambas da Vila Alice dos ano 60 e 70, lembram-se quando queríamos ser invisíveis? Olha só aí a curte desses canadianos…

Bica Curta servida no Cm, 4.ª feira, dia 6 de Novembro

Era o sonho dos miúdos da minha rua: sermos invisíveis. Eu tinha um objectivo: devorar todos os bolos de chantilly de Luanda. À borla e sem bica curta. Anos depois, o meu objectivo já era inconfessável e menos público. Adiante.

No Canadá, a empresa de camuflagem militar HyperStealth realizou o sonho. Criaram um material que dá invisibilidade a quem o usa. Soldados ou tanques ficam invisíveis aos olhos dos inimigos e a sensores visuais e podem fazer acções de sabotagem sem ser vistos por câmaras ou olhos humanos. Ficam só, na areia, as pegadas de soldados que ninguém viu. Não era esta, juro, a inconfessável guerra com que sonhei.

Quatro dias, quatro noites

Casa de Angola

Os Meus Dias da Independência, de Onofre dos Santos, é um diário que decorre de 11 de Novembro de 1975 a 3 de Março de 1976. Onofre viveu esses dias como militante da FNLA e integrando o governo FNLA-UNITA, formado após a independência que esses movimentos proclamaram no Ambriz e no Huambo. Sou o editor desse livro, na Guerra e Paz, eu que vivi a independência do lado oposto ao do meu autor, e recuando do Lobito para o Sumbe e do Sumbe para Luanda, face ao avanço das tropas dessa coligação apoiadas pelas tropas sul-africanas.

Escrevi para esse livro esta nota introdutória e disse as palavras que se seguem, na apresentação do livro, na Casa de Angola, em Lisboa, ontem, 11 de Novembro, 44 anos depois da independência.

As notas de editor a precederem livros dos seus autores, não sendo a regra, não são também nenhuma novidade. E a minha nota tem uma justificação substantiva: é que eu, de 11 de Novembro de 1975 a 3 de Março de 1976, estive do outro lado. Vou dizer-vos onde é que eu dormi em quatro inesquecíveis noites da minha vida.

Dormi no Lobito, no meu pequeníssimo apartamento de militância política, sem cozinha, a 10 de Novembro de 1975. A 11 de Novembro dormi no Sumbe, a antiga Novo Redondo, ao monte, num quarto de hotel que ocupámos no recuo das Fapla. A 12 de Novembro dormi numa velha pensão de Porto Amboim e a 13 de Novembro estava a dormir na casa de amigos em Luanda. Nessas quatro noites e quatro dias, andava o Onofre, entre o Ambriz e Kinshasa, a preparar-se para zarpar a Sul e vir ocupar o Lobito e o Sumbe, que nós tínhamos abandonado.

Ou seja, se aceitei escrever uma humilde prosa no livro e se hoje estou aqui, aceitando o desafio do Onofre para apresentar este seu belo livro, é apenas porque estamos a falar de memórias pessoais e a confrontar memórias pessoais.

Longe de mim a peregrina ideia de falar da independência de Angola com pretensões de historiador ou de analista político ou de geo-estratego. Esqueçam lá isso, meus irmãos ou meus camaradas.

Estou aqui para falar de sensações, da profunda alegria pessoal, dos sonhos de juventude do Onofre e dos sonhos que tantos combatentes angolanos, de Holden Roberto a Daniel Chipenda, passando por José N’Dele, testemunham neste livro, tenham ou não estado no lado certo da História se é que a filha da caixa da História tem um lado certo.

Fiz com o livro do Onofre uma coisa que raramente faço: voltei a ler o livro depois de o publicar.

Em primeiro lugar, fiquei contente com o trabalho que o meu pessoal fez. Bem sei que elogio em boca própria é vitupério, mas a mim convém-me, como patrão, passar carinhosamente a mão pela pele dos meus queridos trabalhadores: fizeram um livro que eu, como leitor, gostei de segurar na mão e seguir página a página.

Bom, adiante. Lembram-se que ainda há pouco falei da História e das manigâncias da História. Pois bem, quero, agora, fazer uma afirmação que se saísse só da minha boca seria pura demagogia, mas que o livro de Onofre dos Santos esplendidamente comprova e torna verdadeira: vale mil vezes mais a Vida do que a História. E a Vida plena, contraditória, imprevisível é a força deste livro.

Nos livros de História, surgem as grandes forças políticas, o MPLA, a FNLA, a UNITA, surgem os contextos geo-estratégicos, o bloco soviético, o apoio americano, as arrebanhadas tropas cubanas ou sul-africanas, os grandes movimentos militares, batalhas gloriosas ou verdadeiras carnificinas. Mas neste livro, com o rumor de fundo da História sempre presente, o leitor entra na intimidade dessas figuras que a História usa apenas na formalidade de um nome e da sua acção.

Aqui, em Os Meus Dias da Independência, na página 68, a 5 de Dezembro de 1975, podemos sentar-nos ao lado de Hendrick Vaal Neto e esquecer que ele era ministro das Relações Exteriores do governo FNLA-Unita da República Democrática de Angola, para o ouvirmos rir, no Cine-Atlântico, no Huambo.

Bom, pelo que o Onofre conta, é um riso que manda abaixo uma casa, os dois, Hendrick e Onofre, sentados a ver um filme do cómico mexicano Cantinflas, Às Ordens de Vossa Excelência. A História não quer saber do Cantinflas, nem do riso de Hendrick, porque ao falar da independência de Angola, converte o processo que lhe seguiu num continuum de guerra. Ao proceder assim, a História pode não estar a mentir, mas só conta metade do que se passou, omitindo uma tonelada de realidade. Mesmo nos interstícios da mais pesada e dura das guerras, há interstícios de risos, de filmes, de livros. Há mesmo quem faça amor. E, verdade se diga, faz-se amor com mais vontade, com mais urgência, talvez até com mais verdade.

A 7 de Dezembro de 1975, Onofre está, por exemplo, no quarto 303 do Hotel Roma, no Huambo. Eu lembro-me, em 74, estava a fazer a recruta na Escola de Aplicação Militar de Angola, depois de termos feito várias revoltas no quartel, de me ter aboletado numa pensão rasca mesmo em frente a esse hotel, onde eu ia, porque um camarada meu, com mais massa, mas com os pés desfeitos pelas botas da tropa, tinha lá quarto. Não sei se era o 303.

Mas vejamos, o Onofre está no hotel e já não há água canalizada. Um obus terá rebentado o fornecimento àquela parte da cidade. E é nessa manhã Jonas Savimbi entra em rota de colisão com Daniel Chipenda. Discursa com a veemência de magnífico tribuno que era. O que Savimbi diz é, esclarece Onofre, uma declaração de guerra a Chipenda, mais uma guerra, intestina, no meio da guerra maior que opõe a FNLA-UNITA ao MPLA.

Mas há dois pormenores deliciosos que o livro de Onofre nos dá mostrando-nos a vida no meio da História, que a História nunca registará. No primeiro, vemos o próprio Onofre, sem água, a lavar os dentes com os restos da cerveja que ficara num copo na noite anterior.

Um romancista não inventaria um pormenor destes, só a vida escreve em livro episódios assim, tão caricatos que só podem ser veradeiros. Este é um detalhe inesquecível. Mas há mais e lá chegaremos.

Agora, vejam o outro pormenor. Johnny Eduardo chega ao aeroporto do Huambo nesse dia em que Savimbi anuncia que quer liquidar as tropas de Chipenda. Recebe-o José N’Dele e outros elementos da UNITA. Johnny desabafa com eles: “Assim não pode ser.”

Reparem, esta não é uma declaração política, é apenas o mais humano dos desabafos, uma confissão de desalento, prova também de que Johnny Eduardo tinha alguma forma de esperança numa coligação que juntava Holden, Savimbi e Chipenda. A História não quer praticamente saber da íntima convicção, da crença ou confiança ou desilusão das suas personagens. A História talvez nos diga que toda essa coligação foi feita por calculismo político-militar e que a coligação estava condenada desde o primeiro segundo. A Vida quer, quer saber da convicção, sentimentos e expectativas dos homens que fazem a História e caça, neste desabafo, neste quebranto, a verdade humana, a humaníssima ilusão que vai correr bem, mesmo o que nem Deus, nem o Diabo conseguirão fazer que corra bem!

É a memória dessas fatias de vida que nos enriquece e nos dá um património comum. Os Meus Dias da Independência é mais do que uma fatia, é uma suculenta refeição de Vida que oferece facetas imprescindíveis para que os angolanos recomponham o puzzle das suas memórias, reconstituindo as memórias com Vida de personagens que tanto peso tiveram na sua História.

O motivo político e histórico maior deste livro é a descrição, passo a passo, da tentativa de de construção de um governo para a República Democrática de Angola, cuja independência Holden declarara no Ambriz e Savimbi no Huambo. Escolhido por Holden, Onofre vai ser o ministro da justiça desse governo, de que serão primeiros-ministros, em regime rotativo, José N’Dele da UNITA e Johnny Eduardo da FNLA. As incidências, confrontos, bem e mal-entendidos da formação e exercício desse governo, tão ameaçado por Luanda, com a crescente pujança militar das Fapla, como dilacerado internamente pelas divisões de que o conflito entre Savimbi e Chipenda é o ponto supremo, esse é o material que abre o guloso apetite de historiadores.

Mas a par desses relatos há outros relatos. É tocante ver Onofre, a 14 de Dezembro de 1975, página 75, numa missa que o povo do Huambo enche, um povo que busca a esperança e consolo num céu que o redima da exposta vulnerabilidade que a vida na terra, a tiros, obuses e escassez, lhe traz.

E é bonito e faz-nos sorrir ver o Onofre dançar. Slows de preferência. Em pequeninas festas domésticas no Huambo. Mas também no Calema, a minha buáte do Lobito. Não me venham dizer que essa busca de afecto e ternura, que é a dança, era um pormenor indispensável. Se me disserem, levo a mal. O que eu também dancei, em 75 e 76, quando se ficava em casa até às 6 da manhã, à conta do recolher obrigatório. Dançar, por muito mal que se dance, e eu danço muito mal, mas tenho a certeza de que o Onofre é um esplêndido bailarino, dançar é uma forma que o ser humano encontra de transfigurar a realidade, de a encantar pelo contacto e harmonia de dois corpos. É uma forma de sexualizar a realidade dando-lhe vida, num tempo em que a guerra omnipotente e omnipresente parece levar-nos a todos para o fundo poço da morte.

Onofre, como leitor, gostei muito e fez-me bem vê-lo dançar em tantas páginas de Os Meus Dias da Independência. E não se preocupe que eu não vou dizer aqui os nomes das moças com quem acaloradamente dançou. Há segredos de autor que o leitor autêntico nunca revela.

Meu Caro Onofre, há no seu livro, página 92 a 95, um momento que me comoveu muito. O conflito militar entre as tropas de Savimbi e as de Chipenda suspende-se. Holden está no Huambo e encontra-se no palácio com Savimbi, com todo o governo à espera do final dessa reunião. Só os dois mais velho, lá fora ainda há tiros e morteiradas.

Estão os dois lá dentro a negociar e alguém vem dizer a Chipenda que lhe mataram o cunhado nos tiroteios. Chipenda não diz uma palavra, só as lágrimas correm, pela face, pelas barbas. Não fala, não se mexe, como se fosse um homem de aço. Só as lágrimas têm o sofrimento, a pena, a perda do menino.

Nessas lágrimas de Daniel Chipenda estão as lágrimas de todas as famílias de angolanos, do Uíge ao Lubango, famílias e famílias sentiram espetar-se-lhe na alma, nesses anos e nos anos que se seguiram, a dor que só sente quando são irmãos que nos matam irmãos.

Depois, acabada a reunião de Holden e Savimbi, juntaram-se todos, cinquenta pessoas num jantar de consoada, Chipenda ao lado de Holden, Nzau Puna ao lado Savimbi. E foi Chipenda que fez um discurso de paz. Falou e começou a cantar pedindo a todos que cantassem com ele uma canção aprendida na missão.

A História corre a esconder-se de coisas destas. A História quer vitórias e derrotas, quer o arco do Poder. Nessa canção religiosa, nesse espiritual de que o Onofre nos fala e que eu tanto gostava de ter ouvido, não há Poder, há redenção.

Nessa canção, na melodia e no ritmo dela há uma busca de beleza que nos lava a alma da dor, do sofrimento. Quando o Onofre nos conta este episódio, confere a Daniel Chipenda uma humanidade e uma grandeza que nenhuma vitória militar, que nenhum exercício do poder lhe poderiam algum dia ter dado.

 É isto o que eu lhe queria dizer, meu caro Onofre. Fui para este livro à espera de ver as intrigas políticas, as conspirações, as guerras dos meus adversários. Página a página, descobri que não há aqui adversários, apenas homens cheios de ilusões e desilusões, homens tocados pelo desespero ou cheios de esperança, sempre banhados pela convicção de que podiam fazer de Angola uma pátria una. Era esse o ideal que os movia.

Quando o Onofre bate em retirada para Ondjiva, a antiga Vila Pereira d’Eça, diz que a coluna foge e tem medo. Medo do que o MPLA lhes pudesse fazer. Eu lembro-me do nosso medo, na retirada do Lobito. Medo do que UNITA ou a FNLA nos pudessem fazer.

A maior lição deste seu livro é essa: o medo que os angolanos tiveram de outros angolanos não pode nunca mais voltar.

Hoje, dia em que Angola conquistou a dignidade da independência, 44 anos depois do 11 de Novembro de 1975, nenhum angolano deve ter ou voltar a ter medo.

Obrigado Onofre dos Santos pelo seu Os Meus Dias da Independência, um antídoto humano contra o medo.

Casa de Angola_

 

Carlos do Carmo

C_C

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 5 de Novembro

Carlos do Carmo vinha, fim de semana, à sua casa na Caparica. Eu, colega de Filosofia da querida Judite, sua mulher, chegado de dois anos de independência em Angola, andava por ali com a tão bela Antónia. E ele, grande como Brel e Sinatra, abria-nos a casa. Bebíamos a bica curta, o filho às voltas, de triciclo.

É inútil louvar a sublime voz do Carlos. Dizem-me que vai cantar o último concerto. Mentira. Conheço-lhe a inacabável generosidade, a sedução dos olhos, discurso e corpo. A voz dele, igual à sua humanidade, é torrencial e imparável. Como no poema de Rimbaud, a voz do Carlos, mar que o sol abraça e leva, respira eternidade.

C_C_

Manifesto das aspas curvas

Pode o amor pela língua, pela nossa, a língua portuguesa, ir a par com algum espírito de tolerância? Lembrei-me disso, há tempos, quando numa revista em que colaborava me pediram, com bons modos e um quilograma de cortesia, que não usasse as aspas inglesas (” “)  por ser boa prática usar as aspas latinas («»). É, de resto, a prática seguida na Guerra e Paz editores pelos nossos ferozes revisores.
O meu convívio, que eu bem gostava de ver melhorado e acrescentado, com dois autores com competências linguísticas, o Marco Neves e, agora, o Fernando Venâncio, cuja magnanimidade me impressiona, incitou-me a publicar este breve manifesto, que só a mim me implica, não sendo aqueles meus autores responsáveis pelas minhas maluqueiras e, muito menos, pelas minhas graves asneiras.
Seja como for, todas as razões são boas para vos lembrar que, na 3.ª feira, às 18:30, na sala de Âmbito Cultural, no 6.º piso do El Corte Inglès, lançamos o belo
Assim Nasceu uma Língua, com a presença do Fernando e do Marco.

CONVITE_assim nasceu

E agora divirtam-se com este texto diletante

Abaixo a discriminação. Não sei o que deu aos grandes líderes e educadores das massas ortográficas, mas isto é inaceitável. Querem acabar com as aspas curvas. Discriminar desta forma as aspas inglesas, lá por estar em curso o Brexit (em regime de marcha lenta, note-se), fere os meus mais profundos sentimentos igualitários. O que têm afinal a mais as aspas latinas? Que poder autocrático lhes reconhece superioridade sobre a curvilínea elegância das outras?  E onde é que, em nome de Deus, o angular é melhor do que o curvo?

O que farão a seguir os grandes líderes, na sua vertigem trumpo-norte-coreana? Acabar com o hífen? Não permitir que se chame cerquilha ao cardinal, negar três vezes o pé de mosca, a meia-risca, o ápice ou a chaveta? Ou obrigar-nos a todos a usar o ponto de interrogação invertido?

E se os sinais gráficos são agora sujeitos a este tratamento classista, praticamente czarista e pré-outubrista, o que acontecerá aos sinais diacríticos, ao mácron ( ¯ ) e à braquia ( ˘ ), ao gancho polaco ( ˛ ) e, sobretudo à paixão da minha vida, a querida e biunívoca diérese ( ¨ )?

É com um temor e tremor ortográfico que apelo aos nossos melhores espíritos para que, com um ponto de exclamação, contenham os seus Linguistas e Gramáticos Plenipotenciários, não digo com ponto final, mas aplicando-lhes um par de colchetes.

Abaixo a luta de classes no reino da Ortografia!

A cada um a sua dipanda

Os Meus Dias da Independencia

Sou o editor deste livro de Onofre dos Santos, versão mais acrescentada do que revista, da edição que publicou há uns bons anos, noutra editora. Escrevi, pelas razões que abaixo se elencam e tornam claras, esta nota introdutória. Amanhã, 2.ª feira, dia 11 de Novembro, na Casa de Angola, o meu autor e eu conversamos, debaixo da mulemba, à volta deste livro.  

Um quase prefácio

Estivemos, nesses dias da dipanda, de lados opostos da barricada. Eu estive do lado da independência que Agostinho Neto proclamou em Luanda. O autor deste livro, Onofre dos Santos, esteve do lado da independência que Holden Roberto e Jonas Savimbi proclamaram, no Ambriz e no Huambo.

E estivemos, Onofre e eu, quase ao alcance da mão. Os meus 22 anos, revolucionários, anarco-marxistas, tinham vindo a fugir do Lobito e refugiaram-se, nessa noite de 11 de Novembro de 1975, sob a asa das FAPLA, o exército do MPLA que os cubanos, enfim visíveis, enquadravam. No Sumbe, dois passos a sul do Cuanza.

No Ambriz, uns bons passos a norte do Cuanza, Onofre, 34 anos, chegou de avião, na madrugada tropical, a outra independência, depois de já ter sido arriada e dobrada a bandeira da pátria lusíada cansada de guerra. O que teríamos dito um ao outro se nos encontrássemos? Ter-nos-íamos tratado por tu? Teríamos sobrevivido à pergunta fatal: «És camarada ou irmão?»

A leitura deste Os Meus Dias da Independência exaltou-me e afligiu-me. Ler cada palavra, cada evocação de Onofre dos Santos, rasga ao meio a minha memória e a identidade que essa memória me confere. O que eu julgava ser a realidade daqueles anos, dos anos da Independência, duplica-se numa realidade paralela que me assombra. Explico-me. No dia 10 de Novembro de 1975, comecei, com os meus camaradas, a preparar a trouxa para fugirmos do Lobito, cidade onde eu dava aulas, a par da missão militante a que metera os meus fracos, mas então tão jovens e idealistas, ombros revolucionários. Era impossível resistir ao exército inimigo, e a ordem era retirar para o Sumbe, a antiga cidade de Novo Redondo.

Foi o que fizemos no dia que ia ser o da independência. Depois de deixarmos as mulheres e crianças de alguns de nós no Sumbe, já não sei o quê, uma réstia de loucura, fez-nos (éramos quatro) voltar atrás. Voltámos ao Lobito, as nossas metralhadoras che guevarianas ao ombro, e fomos almoçar à pensão da Dona Rosa, ao lado do imenso porto do Lobito, ao lado dos seus gigantescos e silenciosos guindastes, e comer de sobremesa os mais doces sonhos que já alguém comeu no mundo, última pincelada doméstica e colonial num mundo em vertiginosa e turbulenta mudança. Depois, uma lágrima da velhinha Dona Rosa à despedida, zarpámos para Benguela e fomos tentar convencer o comandante Kassanje, uma espécie de James Dean negro da revolução, a recuar: «Camarada, é impossível resistires, o comando das FAPLA já está no Sumbe e tu aqui só tens candengues e kotas com armas de pau!» E Kassanje, militância febril, só nos falava do regresso à mata e das teorias da resistência popular prolongada. Adivinharia a morte que o colheria nos dias seguintes?

Voltámos, mais a galope do que a trote, para o Sumbe. Na estrada, os cubanos montavam o primeiro monacaxito que os meus olhos viram, essa boca-de-fogo, míssil terra-terra, que tinha de ser capaz de atrasar o implacável avanço inimigo. Nesse 11 de Novembro, no Sumbe, atacados pelo Sul e ansiosos quanto ao que se passaria a norte, em Kifangondo, a noite africana veio, brilhos de luar a esquindivar no escuro Atlântico, as balas tracejantes a fazer inveja aos remotos e anacrónicos cometas, porque foi a tiros que festejámos, nesse tempo em que tudo se festejava a tiro.

Nesse mesmo dia, já disse, Onofre, vindo de Kinshasa, aterrava no Ambriz para fazer outra independência, e a trama do romance de esperanças, logros e sobressaltos que foi o relacionamento de Holden Roberto, Jonas Savimbi e Daniel Chipenda há-de levá-lo depressa ao Huambo e, depois, a 16 de Dezembro de 1975, ao Lobito e a Benguela.

Um mês depois de eu ter saído do Lobito, deixando para trás os dois anos mais romanticamente revolucionários da minha vida, Onofre dos Santos percorria as mesmas ruas, cheirava os mesmos aromas, encantava-se com as mesmas paisagens, banhava-se nas mesmas águas. A guerra pode, afinal, ser um surpreendente denominador comum.

E eis o que me aflige. Quando deixei o Lobito e Benguela, deixei cidades desertas. Para os meus 22 anos, e tendo-as eu abandonado, era como se objectivamente essas cidades deixassem de existir, como se a realidade congelasse e não fosse vida a vida que outros lá pudessem viver. Quem tenha lido o maravilhoso conto Rip van Winkle pode imaginar o que quero dizer. Esse herói, criado por Washington Irving, foi floresta dentro, encostou-se a uma árvore e dormiu. Acordou e, sem que soubesse como, tinham passado 20 anos, uma revolução e já a América era independente. Calculem a tremenda surpresa que o livro de Onofre dos Santos me ofereceu. Como um anti-Washington Irving, Onofre revelou‑me a vida, a prodigiosa vida que brotou da e na cidade depois de mim.
Que ninguém diga nunca: «Depois de mim, o dilúvio.»

Com uma encantada inveja, segui, parágrafo a parágrafo, os passos de Onofre dos Santos. Os meus olhos, agarrados aos pés dele, voltaram à Restinga do Lobito que uma eroticíssima kalunga paciente e acrisoladamente teceu; os meus olhos foram até ao Palácio do Governador, em Benguela; os meus olhos voltaram a entrar, deliciados, no Hotel Terminus, esse brinco de charme e tradição debruçado sobre o nocturno raio verde do mar do Lobito; mas, sobretudo – como é que o Onofre se atreveu! –, os meus olhos foram dançar na pequena pista do Calema, essa buáte meia suspeita, que não te digo nem te conto.

Mas Os Meus Dias da Independência não precisa dessa coincidência, nem das minhas memórias de soldado raso da dipanda para ser um livro precioso, necessário e único. Mais do que um privilegiado espectador, Onofre dos Santos foi, com os seus 34 anos, um actor de primeira linha da independência de Angola. Ministro da Justiça do governo que a FNLA e a UNITA formaram, Onofre roçou ombros com figuras decisivas, como Holden, Savimbi, Chipenda, Hendrick Vaal Neto, José N’Dele, Tony da Costa Fernandes. Onofre dos Santos desenhou esperanças no atribulado governo a que pertenceu e viveu ameaças e situações extremas, a sombra da morte mesmo à porta. Este livro é o rolo de pergaminho que Onofre desenrola perante os atónitos olhos da História. Estão aqui as letras fundadoras da parte que falta para que se faça História, completa, da história da independência de Angola.

Ser editor desta obra e poder escrever este texto que o meu autor me sugeriu, despertou em mim uma antiga e ferida emoção. Este livro é a grande tela em que se retrata e pinta a realidade em que mergulhou e se afogou o ideal de uma geração. Cada um à sua maneira, Onofre dos Santos e eu, vivemos esse ideal.

Muro e amok

Muro

Foi em Ber­lim. Fui lá, pri­meira vez, em 1984. Jovem crí­tico a entre­vis­tar uma jovem cine­asta. Pou­cos dias, de visita gui­ada, e era um mundo que res­pi­rava um ar — expe­ri­men­tal, artís­tico, sexual — que não exis­tia ainda nesse Por­tu­gal que se ia roçando pela Europa. Mas havia outra coisa em Berlim: um Muro. Havia sem­pre um Muro a atravessar-se. Ber­lim ocidental era uma ilha sofis­ti­ca­dís­sima e aper­ta­dís­sima, com um Muro à volta.

Não admira que lá tenha des­co­berto o amok. Acon­te­cia, em geral, ao fim de semana. Um tipo, um qual­quer tipo, passava-se e desa­tava, raivoso, a con­du­zir como um louco por cima dos pas­seios, con­tra os sinais e com gente (pare­ciam pes­soas e eram pes­soas) a voar para den­tro de pro­tec­to­ras por­tas. Pen­sei que era lenda. Até ver o amok, à frente des­tes olhos que algum dia um jacaré há-de comer. Malhas que o Muro tece. Era, tinha de ser, insuportável tanta insu­la­ri­dade murada.

Cinco anos depois, o Muro caiu. Há 30 anos que Berlim voltou a ser uma cidade una, completa, como na tarde de 13 de Agosto de 1961, quando Billy Wilder estava a filmar One, Two, Three, na porta de Brandeburgo. Descobriu, quando voltou ao cenário, na manhã de 14 de Agosto, que um muro já dividia o cenário ao meio. Hei de escrever uma crónica sobre isso.

O prodigioso peito de Jane Russell

Jane_Russell_in_The_Outlaw

Se o gordinho Arbuckle não tivesse violado a inocente Virgina Rappe, se o realizador e actor William Desmond Taylor não tivesse sido assassinado com um tiro nas costas por sabe-se lá quem, talvez o cinema americano nunca tivesse adormecido à sombra do Código Hays. Escândalos, tiros, drogas e violações atraíram as moscas da Imprensa cor-de-rosa e os mil gritos das ligas de decência sobre a Hollywood dos anos 20.

Às moscas e gritos seguiram-se as multas. Em cada estado, dependendo das boquinhas políticas e religiosas que degustavam os filmes, caíam sobre os estúdios que os produziam multas por ofensas à moral que deixavam os Mários Centenos que se ocupavam das finanças da Warner, da Metro-Goldwyn-Mayer ou da Paramount, em estado cataléptico. E eis como nasceu o Código Hays, acto de auto-regulação da indústria do cinema, pelo qual os estúdios de cinema fixaram uma lista de “Don’ts and Be Careful” elencando o que não se podia ou se devia ter cuidado a mostrar num filme. Com essa manobra, o cinema furtou-se à intervenção do Estado federal, bem como às censuras dos estados que constituem o patchwork a que chamamos América.

Um presbiteriano, que presidia à associação dos estúdios, Will H. Hays, acabou por ver o seu nome associado a esse Motion Picture Production Code, que teve uma ou duas mãozinhas jesuíticas na fabricação. Dois padres católicos, em relativo segredo com os patrões judeus da indústria, escreveram o famoso código com um imbatível e virginal ideal de pureza: “fazer os espectadores sentirem-se seguros de que o mal está errado e o bem está certo”. Logo em 1931, mal esses propósitos foram conhecidos, o contundente humor americano baixou as calças ao Código, deixando-lhe as cuecas à mostra ao defini-lo com esta sintética fórmula assassina: “O Código regula um negócio de judeus que vende a teologia católica à América protestante.”

Nos anos 30, 40 e 50 do século XX, o código Hays, além do uso profano da palavra “Deus” ou “inferno”, proibia as cenas de nudez explícita ou mesmo em silhueta, as cenas de tráfico de drogas e as cenas de que se pudesse inferir perversão sexual, o que então abrangia a homossexualidade. Com extremo cuidado, não caindo na vulgaridade ou mau gosto, poderiam filmar-se as cenas violentas e com uso de armas, as cenas de contrabando ou de violação. Os beijos não deviam incluir essa coisa de as pessoas meterem a língua na boca umas das outras; nos assaltos a bancos ou comboios, roubos de cofres não deveriam mostrar-se as técnicas, evitando que o espectador mais “moron”, ou seja, o idiota chapado, fosse tentado a repetir a proeza. Não se deveriam mostrar cenas de adultério, aborto, amores inter-raciais e, ainda menos, mostrar como matar alguém sem ser apanhado. Cenas de higiene sexual nem pensar, interditando assim Hollywood à lavagem da passarinha.

Em 1943, um tremor de terra abalou o Código, quando, com a mesma generosidade dos euros de Mario Draghi no Banco Central Europeu, a estreante Jane Russell ofereceu o seu prodigioso peito aos dois amantes que tinha em “The Outlaw”, western realizado e pago pelo ultra-milionário Howard Hughes.

Hughes inclinou, dobrou, deitou e decotou Jane de mil maneiras. “Nunca vi nada tão inaceitável como as imagens do peito desta mulher”, gritou o director do Código. Não deram o selo ao filme, mas Hughes estreou-o na mesma. “Veja as duas grandes razões para Jane Russell se tornar uma estrela” foi um dos slogans publicitários de “The Outlaw”. Multidões encheram as salas que se atreveram a exibi-lo.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Um falso inédito de Faulkner

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A título de disclaimer e para que não tombem sobre mim acusações futuras, comunico que o post  Um inédito de William Faulkner, na linha de uma tradição de fantasia literária, é pura ficção. Ah, mas que bem que soube a deambulação “canular”, como diriam os franceses.

Jorge Luis Borges, no volume IV das suas Obras Completas, reunindo prefácios que escreveu para dezenas de obras maiores e de extraordinárias obras menores, sugeriu que se publicasse um livro inteiro de  prólogos de livros apócrifos ou inexistentes e que se carregassem com a verosimilhança de citações dos inexistentes autores e de saborosos pormenores externos. O desafio, irresponsável, cativou-me. Faulkner e o tão fragmentado romance que é “Go Down Moses” pareceram-me um bom alvo. Imaginei que Faulkner tivesse agarrado em duas personagens reais, a mãe Molly e o filho Henry, e os tivesse juntado, numa tentativa de síntese do mosaico de vida que ele criou e que não pode, justamente, ter síntese.
Ou seja, and just for the record:

  1. Faulkner nunca escreveu o conto “The Prodigal Son”.
  2. A revista “Story” nunca publicou o conto que Faulkner nunca escreveu, embora tenha publicado alguns dos que ele escreveu.
  3. Os arquivos da Princeton University, Box 36 e Folder 33, contêm de facto as histórias que Faulkner publicou na “Story”, mas nenhum inédito maldito.
  4. A revista Prism existe e, a seguir ao número do “Verão de 2005”, esteve mesmo fechada durante dois anos. Seria uma assustadora surpresa para mim, se agora se descobrisse ter publicado o conto “The Prodigal Son”, que Faulkner nunca escreveu.
  5. Peço ao meu heróico kamba, que invoquei em vão, as maiores e mais “falsas” desculpas, que hei-de conseguir inventar, por tê-lo associado a um processo de falsificação histórica, que inclui a tentativa de forjar documentos. Para a impoluta actividade que exerce é uma mancha irreparável que só a generosidade dele me perdoará.
  6. As citações que constam do texto do post são “fabricação” minha com algum recurso a frases de outras obras do escritor do Mississipi.
  7. Aos amigos que misericordiosamente me comentaram no blog e no facebook, o meu obrigado.

Para tudo isto, que é sobretudo diletante (e que outra coisa é a literatura, para já não dizer a própria vida), tenho uma excelente desculpa: deu-me uma trabalheira de prazer.
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