Os cintilantes livros de Julho

Os meus livros Guerra e Paz

Será Julho um mês orgástico? Dir-me-ão que lá venho eu com as obscenidades do costume! Pois bem, deixo só um aviso: corre um abaixo-assinado na selva para cancelar o primeiro dos meus livros de Julho.30 Milhões de Orgasmos, A Vida Sexual dos Animais, o saboroso e voluptuoso texto de Minh Tran Huy, com imagens deliciosas de Jul, actual ilustrador de Lucky Luke, corre o véu da sexualidade animal, do pénis perfurador do percevejo ao clitóris-falo da hiena, passando pelo comportamento sexual hippie do bonobo, esse primata nosso primo. O livrinho, a cores, é um deleite visual, uma tela aberta ao espanto e ao permanente sorriso. Genial.

Cleópatra, de Christian-Georges Schwentzel, é mais do que uma biografia dessa última rainha do Egipto, que subiu ao trono com 18 anos. Para quem pensa que já sabia tudo, oh, que audácias e que argúcia estratégica nos revelam as últimas descobertas arqueológicas! Será este livro, da colecção A Minha Estante, uma adaga espetada no coração do mito-Cleópatra? Lê-se depressa: duas noites com Cleópatra. Quem resiste?

Pequena História da Matéria e do Universo é um livro do maior dos astrofísicos, Hubert Reeves, com oito amigos: os amigos são Étienne Klein, Nicholas Prantzos e mais seis franceses, todos astrofísicos também. São nove dos humanos que no mundo mais sabem sobre a física de partículas, sobre a matéria escura e sobre física quântica e escreveram juntos um livrinho: 106 páginas luminosas sobre o Universo, a sua história e os seus componentes. Da colecção A Minha Estante, tudo explicado com a simplicidade de quem sabe e quer que mesmo uma criança de cinco anos fique também a saber.

Às vezes esquecemo-nos de quem somos e do bem que tantos pensaram e fizeram para chegarmos aqui. Carta de Amor de Um Imigrante ao Ocidente lembra-nos com ternura o que andamos todos os dias a esquecer. Konstantin Kisin, o autor, vem de fora, cresceu nas brumas de uma União Soviética sinistra, sem conforto, direitos ou liberdade. Comeu o pão que o sacana do diabo amassou. Vê neste nosso Ocidente a doce terra de leite e mel que os nossos olhos, tapados por uma certa abundância, não querem, de tanta jeremiada e cepticismo, aceitar que é o «melhor». Este livro vem dizer-nos ao ouvido: «Acreditem em mim – o Ocidente é o melhor!» Às vezes, é preciso ouvir quem as amargou. Para ler em Julho, mês de tanta luz que só pode ser, também, mês de amor.

A euforia e os dark sports

O Jogador Errado, C. R. Jane: O futebol americano não é bem o nosso futebol. Neste romance, mordem-se ombros e há pernas que se abrem. Não necessariamente em campo. As leitoras vão descobrir que o «dark sports romance» é um género literário bastante sacudido, valha-me Deus. É o livro de Verão da euforia, a chancela que soma bestsellers.

Os meus livros Gradiva

Na Gradiva, começo Julho pelo magnífico exercício de nostalgia e por esse pequenino ressentimento que sucede à agonia do amor longamente silenciado, a que o Nobel da Literatura Kazuo Ishiguro chamou Os Despojos do Dia. E será que, hoje, alguém consegue ler este romance, também vencedor do Booker Prize, sem sentir que se lhe vêm sentar ao colo Anthony Hopkins e Emma Thompson? Como é que se chega – como chegou Ishiguro – ao prodígio de uma escrita embalada a dúbia dignidade, desconsolo e dorida delicadeza? (e peço desculpa pela involuntária aliteração…)

Nunca nos deixaremos de interrogar sobre a arte, sobre a sua ancilar funcionalidade ou sobre a sua sublime inutilidade: é o que faz Lev Tolstoi em O Que É a Arte?, mas é também o que faz Paula Cristina Cunha em Entre a Arte e o Algoritmo – Criadores portugueses confrontam a Inteligência Artificial, à conversa com Gonçalo M. Tavares, Pedro Abrunhosa, Sam the Kid, Helena Amaral, Rita Redshoes e José Jorge Letria entre outros. Pode a máquina ter os devaneios de imaginação e sensibilidade que julgávamos um exclusivo desses bípedes que se passeiam pelo planeta como humanos. A Sociedade Portuguesa de Autores é nosso co-editor e merece a nossa vénia.

Outra arte foi a que o Mestre Wei Liao descreveu num dos grandes clássicos militares chineses, A Arte Militar, obra que roça ombros com a célebre Arte da Guerra, de Sun Tzu. A Arte Militar, de Wei Liao é o livro que o nosso primeiro-ministro bem poderia ler, tão actual é o seu sentido de organização. A versão que publico, feita a partir do inglês, francês, espanhol e italiano, bem como o respectivo enquadramento e notas, vem assinada por um tal Manuel S. Fonseca. É provável que seja eu próprio.

Qual o papel da irreverência na ciência? Nada como deixar falar o Prémio Nobel da Medicina e da Fisiologia, James Watson, no seu A Dupla Hélice, um clássico da literatura científica e da colecção Ciência Aberta. Watson tinha 24 anos quando descobriu, com outros investigadores, a estrutura em dupla hélice do ADN, a molécula que contem o código da hereditariedade. Eis o que permitiu à ciência conhecer a transmissão genética e a forma como, de geração em geração, se organiza a vida, esta nossa vida às vezes infeliz, mas tantas vezes feliz.

E é sobre a vida, a vida no cosmos, que versa o novíssimo livro da Ciência Aberta. Com prefácio de Nuno Crato, é da autoria do professor Luís M. Aires, formado em biologia, física e química. Além da Terra, a astrobiologia e a busca de um sentido cósmico para a vida interroga a possibilidade da vida «lá para cima», fora do nosso planeta. Faz perguntas simples: o que é a vida? Como surge? Como transforma mundos? As respostas fazem-nos olhar de outra maneira para o cintilante universo em que, erectos, caminhamos.

São os meus livros de Julho, prendas que para mim mesmo reservei – perto do fim do mês a Marilyn (a Monroe) talvez me cante «happy birthday» – e que partilho com os leitores da Guerra e Paz e da Gradiva.

Manuel S. Fonseca, editor

chovem estrelas e contos de fadas: são livros de Junho

Épicos e contos de fadas nas noites da Guerra e Paz

Há um épico que nunca deixará de nos lamber o ouvido com a sua língua defumada e a sua luz ultramarina. Falo de Os Lusíadas. E com vontade que o comecem a ler, o poeta António Carlos Cortez reescreveu-o para que rapazes e raparigas das escolas não só o leiam, mas aprendam a delicada arte de o degustar. Por isso, Uma estória de Os Lusíadas, de António Carlos Cortez, livro de iniciação, é o primeiro dos meus dez livros de Junho. 
A poesia flui e reflui entre equinócios e solstícios. Pedro Rapoula é um poeta novo. Revela-nos Coisas que me ensinaram a calar, uma escrita que não foge a dores de infância, ao frio da casa e do afecto. É poesia, essa coisa que de nada serve por tanto lá estar tudo.
Mês de Feira do Livro, mês de prémios. O Sal e a Ferida, de Diana Teixeira, é Prémio Nacional de Literatura do Lions e mostra-nos que as feridas abertas no Andes não ficam apenas no Andes, desaguando mesmo à nossa porta, e Antologia Brutalista, do italiano Ricardo Rao, com autênticos episódios da guerra social brasileira, mereceu o Prémio de Revelação Literária UCCLA/CML. 
Aos meus leitores ofereço agora os Contos de Fadas Turcos, na mesma colecção em que já publiquei contos de fadas japoneses e chineses. Façam o favor de entrar no maravilhoso turco povoado de dervixes, pássaros cor-de-laranja, mitos xamânicos, um maravilhoso pintado a ilustrações que combinam cores e tradições persas e otomanas, alegria dos olhos e felicidade dos dedos que desatam a correr de página a página.
Ponho, agora, o meu melhor ar circunspecto. Falemos de pensamento. De René Girard, filósofo maior das últimas cinco décadas, publico uma antologia póstuma, Desejo de Tirania, cuja primeira jóia nos assombra: «É o medo de ser morto que faz do soberano um tirano. E é o nosso medo de morrer que faz com que nos deixemos tiranizar». É da colecção Os Livros Não se Rendem e os meus fabulosos parceiros, a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações encerram aqui um apoio de quatro anos, que se traduziu na doação de cerca de nove mil livros à rede nacional de bibliotecas públicas.
E há um livro, Cataclismo Atlântico: Repensar o Tráfico Atlântico de Escravos, de David Eltis, que diz coisas novas sobre a mais antiga e pungente das práticas humanas, a escravatura. Nenhum debate futuro será possível, ou pelo menos honesto, sem considerar os factos e a informação deste livro. Polémico porque verdadeiro, contra um tempo carregado de demagogia.
Figura destacada da Judiciária e do universo policial, José Lopes apresenta uma proposta sedutora: falar do sistema (mas será que é mesmo um «sistema») de organização das nossas polícias. Quantas são, o que fazem, que redundâncias? Com um prefácio diligente e reflectido de António Araújo, O Sistema Policial Português, Onde Nasceu, Como Cresceu, No Que Deu, vai incomodar algumas almas mais dadas a uma certa paz dos cemitérios, perdão, gabinetes.
O sistema policial era outro quando Carolina Loff, sereia do seu tempo, foi presa e torturada na polícia política. Eis que, frente a frente, ficaram uma comunista e um Pide. Dos antecedentes e da sua teia de espionagem e clandestinidade nos conta este emotivo A Comunista e o PIDE, de Felícia Cabrita. Não vos vou dizer que é uma história de amor, não se vá dar o paradoxo de acreditarem em mim. Ah, é verdade, a Felícia Cabrita autorizou-me a escrever um posfácio. 
Fecho com um extraterrestre chamado Cristiano Ronaldo. Um jornalista do grande L’Équipe, Régis Dupont, mergulhou na vida, mas sobretudo na prodigiosa carreira desportiva do já lendário goleador e escreveu Cristiano Ronaldo, 25 anos no topo do futebol. Para ler antes que comece um Mundial de que só queremos sair campeões.

São os meus dez livros de Junho, dez golos e ainda nem o jogo começou.

duas euforias

A minha luminosa Rita Fonseca continua a mergulhar os milhares de leitoras da sua euforia nas ínvias sombras do dark romance.  A portuguesa Inês Valadas teve arranque eufórico com Onze Minutos e Sara Cate põe as personagens de Elogia-me a fazer coisas sem sexo. Ou será com?

Os livros de Junho são estrelas que descem dos céus

São de sombras e luzes, e o mistério de buracos negros, os livros de Junho da Gradiva, a começar pela prosa cativante e tão feeling good das histórias que Edgar Valles nos conta em Sombras e Luzes do Império, a que João Soares respondeu com competente prefácio. E o mesmo império mereceu, ao investigador José Sá Carneiro, uma incursão muito bem documentada a um momento dramático da nossa história do século XX, A Descolonização e os seus Antecedentes.
Dessa raposa – não, não era um ouriço! – chamadaIsaiah Berlin, cujos conceitos de liberdade positiva e liberdade negativa marcaram o pensamento recente, vamos publicar Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade. São seis os filósofos dissecados: todos eles a roerem o pão e queijo da liberdade individual.
Peçam um romance sobre a «diferença»: Estranha Sedução, de Ian McEwan, dá logo um passo em frente. A acção decorre numa cidade sem nome e as traves da perversidade seguram o «conforto dos estranhos» que é a chave de uma história arrepiante: o clímax assusta.
Acendam velas: chegou a edição comemorativa dos 50 anos de O Gene Egoísta, de Richard Dawkins. Um livro de viragem na história da ciência e do evolucionismo darwinista: o «gene» está no centro de tudo. O prefácio é do genial Robert Trivers.
Há livros que se publicam a pedido das famílias. Esta obra meritória de Ana Paula Santana e João Filipe Queiró, Introdução à Álgebra Linear, tem um claro objectivo de apoio pedagógico. Límpido e de serviço público. 
Luís F. Rodrigues trocou a Guerra e Paz pela Gradiva e publica Gestalt da Alma: Método de Autoconhecimento Profundo pela Expressão Artística e Simbólica, com um propósito:  de que modo podemos recuperar a capacidade de escuta interior?
Do espaço interior para o cosmos, a Gradiva, fazendo justiça à sua vocação de «ciência aberta», quer provar que O Céu é o Máximo, e fá-lo com este livro de Máximo Ferreira, que nos põe a olhar lá para o alto entre as estrelas.
De outra maneira, arrebatando os mais distraídos e mesmo os mais afobados ou sôfregos, Astrofísica para Gente com Pressa, de Neil deGrasse Tyson, é uma viagem emocionante aos mistérios do cosmos.
E os pais que queiram converter os filhos à contemplação das galáxias têm, do mesmo autor, Neil deGrasse Tyson, um livrinho infantil, Olha para o Céu Comigo: uma vida entre as estrelas, que Jennifer Berne adaptou e Lorraine Nam ilustrou com delicadeza.
Fechamos este mês em que a Gradiva se passeia pelos astros com um livro do Prémio Nobel da Física, Alain Aspect, Einstein e as Revoluções Quânticas. As experiências de Aspect mostram que partículas entrelaçadas, mesmo se separadas por grandes distâncias, permanecem ligadas, comportando-se de forma idêntica. Começa aqui a física do futuro.

Onze livros Gradiva: a entrelaçar o fundo da história com a imensidão galáctica.

Manuel S. Fonseca, editor

milagres, dragões e sei lá se Deus: são livros

Só me apetece abraçar e fazer festinhas a quem tem a santa paciência de ler esta newsletter. Hoje, aviso que trago dragões, mas não tenham medo, nem mordem nem expelem fogo. São gentis como as páginas de um livro: eis os meus livros de Maio

Os meus livros de Maio
serão dragões chineses?

O que me havia de dar – a mim, que tenho no coração clubístico uma águia – para fazer o mais gigantesco livro (tão bonito!) sobre dragões que a edição portuguesa já viu?! Os dragões, verdes e amarelos esplendorosos, dão corpo a um pequeno monumento: 27 cm de largura por 33 de altura, capa dura, e esse monumento, em que o tamanho conta, tem por título O Dragão Chinês: Uma Enciclopédia. Uma viagem deliciosa a uma mitologia tão – mas tão – diferente dos nossos Zeus, Dionísio e Afrodite. Para guardar por 100 anos.

De capa dura, notável iconografia de revisitação da pintura, cenografia, fotografia e escultura do arquitecto e cenógrafo José Manuel Castanheira, é uma viagem de vida, a sua Pedra da Paciência. Sente-se nesta pedra e contemple. Uma romaria, inquieta, popular, religiosa, é a que Alfredo Cunha, um dos nossos mestres da fotografia, nos propõe nas fotografias do seu Mar de Fé, edição limitada.

Amadeu Lopes-Sabino reincidiu: eis o segundo romance de que me deixa ser editor. Imaginativo, controverso, o romancista impele-nos a um mergulho num futuro, O Futuro Anterior, em que o Papa transfere o Vaticano para Marte, e a China, começando pelos Açores, se apodera da Europa. Ficção científica? Sei é que é um futuro, Futuro Anterior, em que os humanos se roçam já pela imortalidade, mas a anterior angústia metafísica, o anterior desejo mimético, a parafernália do poder, resistência, ambição continuam a picar como agulha impertinente. 

Se Disser a Verdade, Estarei a Mentir-te, romance de Frederico d’Orey, outro reincidente, é uma desabrida provocação: e se no Islão houvesse imãs pedófilos? E se um casal quisesse adoptar o órfão de terroristas suicidas? A polémica, em 208 páginas infatigáveis, tem prefácio de Carlos Magno.

Não Morre Quem Ama Assim, memórias de Rui Fidalgo, tão encantadoras como ficcionadas (como memórias que se prezam), oferece-nos a excentricidade de Trás-os-Montes. Não admira que Graça Morais tenha vindo, no prefácio, deleitar-se nesta «colcha de memórias», que desperta a nostalgia e a doce lágrima que em geral escondemos.

Quem se surpreendeu, «pela finura e pela fertilidade da sua digressão poética», foi Lídia Jorge ao ler A Música do Amolador, de Miguel Duarte. E Lídia Jorge acrescenta ter encontrado na poesia de Miguel Duarte a «torrente das imagens de recorte modernista, lembrando Dylan Thomas ou o pendor narrativo evocando Álvaro de Campos.»
 
Os nossos Atlas Históricos, colecção farol da editora, têm uma novidade, o Atlas das Guerras: Época Moderna, de três autores, Olivier Aranda, Julien Guinand e Caroline Le Mao, que cobre os séculos XVI, XVII e XVII, incluindo guerras portuguesas. 


E sigo, além do Dragão, na rota de seda da China: História da China Antiga e Imperial, de Damien Chaussende, vem aumentar A Minha Estante, uma colecção que se quer fonte segura de informação. E por isso A Minha Estante lança também As Perversões Sexuais, de Gérard Bonnet, que nos mostra como dois parâmetros – um recalcamento silencioso e a vingança – balizam as perversões, do sadismo à pedofilia e ao incesto.  
 
Eu era capaz de jurar que Frei Lourenço da Ressurreição me diria, se falássemos (e talvez, por entre corredores de séculos distantes, estejamos os dois a falar), que há presença de Deus em fazer e ler livros, que houve presença de Deus quando um jovem livreiro dedicado, de que não vou dizer o nome, me incitou a publicar este Prática da Presença de Deus, não só por ser o livro favorito do actual Papa, mas sobretudo por ser um luminoso canto à vida: seremos hoje capazes de descobrir, num carro que buzina, no atacador desapertado de alguém que passa, o que Frei Lourenço chama a presença de Deus? 

Ter eu levado a bom porto a publicação da trilogia de O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião, de George James Frazer, será um sinal da presença de Deus? Sei que sem a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações e o meu amigo Luís Parreirão, não haveria mais este título de Os Livros Não se Rendem. São inescrutáveis, afinal, as manifestações da presença de Deus.  

E acabo a falar de ética e coluna vertebral. Kamel Daoud é um magnífico escritor e pensador. Nascido na Argélia, acusado de «apostata» pelo Islão, é hoje alvo de uma «fatwa». Neste pequeno livro, do tamanho de uma bala, Por Vezes é Preciso Trair, Kamel Daoud mostra onde está a maior coragem: abandonar o conforto do rebanho para se defender a liberdade de expressão e defender a verdade, mesmo com o risco de se ser acusado de traição. Querem matá-lo: não deixemos.

Euforia

A Rita Fonseca acolheu, na sua euforia, o Ninho de Víboras, de K. A. Knight, onde se tecem as delícias de desejos sombrios. E junta-lhe o segundo romance de Alexandra Cruz, Rivais Apaixonados,uma colisão de amor e justiça. De vida, portanto. E euforia, claro.

Gradiva em Maio
ler, vício ainda impune

Numa crónica do tempo em que os animais ainda não falavam, Nelson Rodrigues conta como o General De Gaulle, passada a glória da Libertação, era recebido com «poucos aplausos» e «algumas vaias». Receberíamos assim Henry Kissinger? E vaiaria Trump este Diplomacia? Foi um dos livros que o Guilherme Valente, fundador desta casa, me pediu que eu resgatasse. Ei-lo, monumental, a pedir mais reflexão do que palmas ou vaias.

Agora, peço que deixem apalpar a fímbria da genialidade. É genial o ângulo que Umberto Eco escolheu para estas Reflexões sobre a Dor: a dor é uma experiência inseparável da natureza humana, uma paixão do corpo e da alma e não apenas um mal que aflige e que queremos descartar. Livro inédito que me obriga a puxar pelo qualificativo «preciosidade».

O Silêncio dos Livros é dois em um. Não só George Steiner nos empolga, mostrando que a fragilidade é a irresistível força do livro, como nele surge um texto de Michel Crépu a falar do «vício ainda impune» que é ler. Menti: há um belo prefácio de Onésimo Teotónio de Almeida, três em um, portanto.

Vamos lá desmentir a definição de Bernard Shaw que dizia ser um clássico aquele livro que todos gostariam de ter lido e ninguém quer ler. Pois bem, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial é o clássico que milhões leram e milhões querem e vão precisar de ler. Samuel P. Huntington, o autor, teve razão antes do tempo e o mundo anda, agora, às voltas com a razão que ele e este livro têm para pôr fim à desordem nunca imaginada por quem se aconchegou ao colchão do fim da história.

Fechamos a tetralogia de Luís Portela, um dos grandes autores da Gradiva. A Ser Espiritual e Da Ciência ao Amor juntam-se agora O Prazer de Ser e Serenamente. São quatro livros em busca da harmonia da mente, do corpo e do mundo. Se eu fosse a si, caro leitor, aceitava o convite para respirar fundo e meditar.

Para descomprimir: há vinganças benignas, como as de Calvin & Hobbes, A Noite da Grande Vingança, criação subtil de Bill Watterson, ou de como um herói, que é o pesadelo de qualquer pai, pode gerar torrentes de filosófico riso.

Na mão de Maio da Gradiva há quatro romances. Jardins Secretos de Lisboa, de Manuela Gonzaga, está nomeado, em França, para o Prix Européen du Roman d’Amour e é o mais íntimo mergulho numa Lisboa propícia à alegria e à dor da experiência amorosa. Uma experiência forte e libertina, de delicadeza e transgressão. E Lisboa está lá toda: nua e sigilosa. Proibida?

Volta A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos, para celebrar 20 anos e cerca de um milhão de exemplares vendidos em todo o mundo. É um romance potente – o mais einsteiniano dos seus romances –, o mais incansável na busca do sentido da vida. Com um prefácio do autor sobre a génese da obra e sobre a alma da sua escrita, a sua «fórmula divina».

Do Nobel da Literatura, Kazuo Ishiguro, regressa Nunca Me Deixes, uma digressão pungente sobre a fragilidade humana. É a edição comemorativa do 20.º aniversário, com nova introdução de Ishiguro.

Na Tua Mão, de Hélder Teixeira Aguiar, venceu o Prémio Agustina Bessa-Luís. É uma estreia ousada e perturbante. Dois jovens irmãos fogem do regime venezuelano. Espera-os a selva. Uma selva que devora e que, como o goyesco sono da razão, gera monstros e labirintos. Presença de Deus, de novo? «Se Deus estivesse assim tão connosco, tinha era mandado bilhetes, de avião, não?» A escrita de H.T. Aguiar é um pequeno milagre.

Milagres, dragões, sei lá se a presença de Deus, guerra&paz, euforia e gradiva, são estes os meus 26 (se contei bem) livros de Maio.

Manuel S. Fonseca, editor

A Guerra e Paz editores celebra 20 anos de vida

Hoje, a Guerra e Paz editores comemora 20 anos de vida. Digo isto com a alegria serena desses dias em que o sol é grande e caem com a calma as aves. A Guerra e Paz foi ao longo de alguns anos «aquela cativa que me tem cativo» e já explico. Um terramoto (ou terá sido maremoto?) arrasou-nos em 2011: a insolvência do nosso então distribuidor bateu-nos de frente e pareceu mergulhar-nos um abismo irremediável. Devíamos ter desistido. Vivamente nos recomendaram que desistíssemos.

Dia a dia, mês a mês, durante 12 anos, a cada leda madrugada, às vezes lágrimas em fio, houve, umas vezes seis, outras sete ou oito obreiros da Guerra e Paz que persistiram no que um amigo meu chama, «a trincheira da luta». Batemo-nos com armas desiguais: só tínhamos sinais de fumo, machetes e catanas onde outros tinham radares, satélites e misseis. Mas voltámos, passo a passo, à vida e, hoje, com uma alegria serena, sabemos que não hipotecámos esses 12 anos. Pelo contrário, foram anos em que servimos um amor, qual «Raquel, serrana bela»: e mais serviríamos, «se não fora para tão longo amor tão curta a vida».

Hoje, a Guerra e Paz editores celebra 20 anos como eu aos meus 20 anos comemorei a liberdade. É uma empresa limpa, competitiva, com relações de amizade com todo o universo do livro, autores, outros editores, livreiros, tradutores, revisores, paginadores. Estamos a crescer muito acima do crescimento do mercado e a ganhar solidez. Hoje, a Guerra e Paz, que chegou a parecer condenada, é uma editora com apetite de futuro.

Temos um passado que não esquecemos e muito agradeço a antigos sócios, ao José Santos, co-fundador, ao Abílio Nunes – dois amigos da minha infância em Luanda – como amigos são o José António Pinto Ribeiro e o Manuel Cintra Ferreira, de quem sempre terei saudades, como agradeço aos actuais sócios, dois amigos perseverantes, António Parente e Pedro Henriques.

Hoje, a Guerra e Paz já é um pequeno grupo. Tem uma nova chancela, a euforia, que a Rita Fonseca faz voar à velocidade da Artemis II, e integrou, há 6 meses, a Gradiva Publicações, uma editora histórica, cujo alto mérito teremos de provar que merecemos. Somos 14 pessoas. Estamos aqui diariamente – há mesmo quem já esteja há 20 anos, caso do Ilídio Vasco, decano dos artífices desta casa – com um só propósito: continuar a fazer da Guerra e Paz uma editora de que os autores e os leitores gostem, servindo o livro e a leitura, e onde seja um prazer trabalhar.

Obrigado à Rita e ao Ilídio, ao José Cardoso, Américo Araújo, Maria José Batista, Luisa Pinto, Beatriz Fernandes, Andreia Pereira, Helena Rafael, Elisabete Lucas, Andreia Santos, Diana Trigo, Magda Filipe: são eles a Guerra e Paz. E obrigado à equipa da VASP, que nos distribui. Obrigado à nossa jurista, Fátima Esteves, ao nosso TOC, Rodrigo Santos, ao nosso excelente presidente da Mesa da AG, António Palma: mais do que tudo, liga-nos uma amizade sincera.

Fazemos 20 anos: com uma alegria serena, estamos já de olhos no futuro.

Manuel S. Fonseca, editor

De luvas e coração leve

São os meus livros de Março, a minha forma, tão botticelliana quanto possível, de levar a Primavera a quem muito gosto ou admiro. Obrigado por terem a santa paciência de ler

Guerra e Paz
luvas, coração e aconchego

Como é possível não se ser nostálgico de um tempo em que cada pedra no caminho, cada ramo na floresta, cada floração era diferente e era um signo? Eis o que talvez seja o monótono niilismo do nosso tempo: querermos que seja tudo igual. No monumental e sapientíssimo livro de Sir James George Frazer, O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião é tudo requintada e magicamente diferente. Pela primeira vez em Portugal, publica-se essa obra fundadora. Para já o primeiro volume, O Rei da Floresta, livro seminal para Freud e Jung, para escritores como Eliot, Yeats, D.H. Lawrence, para uma banda como The Doors, para um cineasta como Coppola. Um século depois, a edição portuguesa enobrece-se com este Livro Que Não Se Rende, a colecção que a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações doa às bibliotecas portuguesas. Em Abril e Maio chegam os dois volumes que fecham a trilogia.

Por fim, abrem-se as portas do silêncio para as histórias particulares e individuais do PREC, esse momento em que uma nova ditadura assombrou, há meio-século, este jardim à beira-mar plantado. No Terramoto de 1975 – As prisões políticas no PREC: o caso Ruy Moreira, o fundador da Molaflex que a revolução prendeu e os trabalhadores quiseram libertar, da autoria de Tomás Moreira, tem um título auto-explicativo, que o notável prefácio de Rui Ramos enquadra historicamente. Lê-se como um romance e há G3 apontadas logo a abrir.

Parece que Proust dizia que «as ideias são sucedâneas dos sofrimentos». De sofrimentos e de alegrias, de promessas e maldições é que são sucedâneos os nossos três romances de Março. Ano Zero, de João Céu e Silva, foi menção honrosa do Prémio Literário Carlos Oliveira, organizado pela Câmara Municipal de Cantanhede, e abre com uma frase bela e segura: «Se Cícero pudesse adivinhar como iria ser o ano que começara há menos de uma hora não o quereria ter vivido.» Cícero é um projeccionista ambulante e no seu caminho tanto se cruza a prodigiosa imagem da grande Amália, como a sombra escuríssima da Vanguarda Nazi.

O romance de Maria Cláudia Rodrigues, A Conta Que Deus Fez, incide sobre esse momento da vida a que chamamos infância, momento em que se confundem anjos e lágrimas. É um romance de vivas angústias, que aspira à pacificação. Descubram, se fazem o favor.

As 7 Profecias Malditas, de Fernando Rita, é o primeiro romance de um historiador militar. Não espanta que o património histórico, muralhas e conventos, seja o cenário em que surgem códigos misteriosos e profecias assustadoras: um thriller histórico, um enigma. Ou vários.

José Barata-Moura: As Vidas de Um Filósofo, diálogo entre José Jorge Letria e José Barata-Moura, é um novo volume da colecção «o fio da memória», parceria que mantemos há anos, com gosto e muita honra, como soe dizer-se, com a Sociedade Portuguesa de Autores. Levanto uma pontinha das páginas e vejo que lá está, de forma raramente vista, a figura de Álvaro Cunhal: «Um actor que é autor. Um autor que foi actor.» 

E quero aqui fazer o louvor de Marco Neves. É um dos autores-chave do catálogo desta vossa editora: 16 livros, já. Volta, agora, com As Raízes da Língua, para uma viagem turbulenta de mistérios e decifração da língua portuguesa, através de 50 palavras. Aventura, desordem, perigos fazem de As Raízes da Língua um livro ousado, orgulhoso e romanesco, a começar pelo índice, que tem «luvas», «coração» e «aconchego».

Do Ramo de Ouro a Raízes da Língua são estes os meus livros, rituais e águas de Março

Eu prometi não voltar a falar dessa região densa de crimes e amores perversos, a que a Rita Fonseca tem dado expressão na Euforia, mas este mês a dose é diluviana: Caro Leitor, de Tate James, revela uma sociedade secreta de estranhos ritos, de festas e de relações decadentes; já Tu Mataste-me Primeiro, de Sandra May, é um thriller psicológico que começa com confissão liminar: sim, matei-o. São livros irresistíveis, tão juvenis, como escapistas. Bestsellers, portanto.

Gradiva
anjos e demónios de coração leve

Março é, porventura, à conta da Primavera que nele nasce, um mês mítico. Prosaico como sou, logo o escolhi para publicar, de Eduardo Lourenço, estes dois tratados sobre a mitificação: O Labirinto da Saudade e O Fascismo Nunca Existiu. São dois livros em que a «natureza» de Portugal e a frialdade pejorativa de um conceito ideológico passam pelo crivo de um pensamento cheio de adornos e mil itálicos que nos sobressaltam, exigindo que busquemos sempre um outro sentido além do sentido aparente. As capas ficaram, como dizer… narcísicas.

O Fantasma do Rei Leopoldo, de Adam Hochschild, é a edição comemorativa dos 25 anos de uma obra que expôs, com rigor, um momento de apocalíptica crueldade colonial: a mesma que deu origem ao doloroso romance de Joseph Conrad, a história de ganância e terror com que o rei Leopoldo dos belgas estrangulou o Congo.

E deixem-me, com George Steiner, franquear as portas do encanto e desencanto da escrita. Era Borges, poeta das sombras, que dizia não estar interessado em escrever longos romances, bastando-lhe a resumida fórmula ficcional dos contos. Em Os Livros que Não Escrevi, Steiner fascina-nos com outra solução: a explanação narcísica, mas num certo e assumido sentido levemente impotente, dos sete livros que «esperava escrever, mas não escrevi». São 220 páginas de prodígio e gosto.

Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho foi o que o júri atribuiu a Como Caminhar Num Pântano, romance de Marta Pais Oliveira, escrita delicada, mas também irónica e por vezes feroz, história de uma mulher que rouba malas de mão a outras mulheres… para lhes deixar as mãos livres: «Quando a levaram para a esquadra, não teve medo.»

Com O Golpe de Estado, Ernesto Rodrigues, também autor da Guerra e Paz, regressa à Gradiva. Traz-nos um influente oligarca, cujas manobras políticas e insidiosos financiamentos podem derrubar governos. A realidade talvez esteja a passar por aqui: «foi leiloado o último conselho de ministros.»

Fios de Prumo é um livro de poemas de Jorge Gomes Miranda. Uma poesia aforística, tão contida, como sugestiva: «Atiras ao lume aparas de um tempo / altaneiro. Descem das bicicletas, as / raparigas. Enseadas. Dá-nos vontade.»

E sim, Calvin é uma peste, uma pestinha. Pobres pai e mãe: o que estará a fazer o Calvin despido, mesmo ao lado do boião dos biscoitos? São coisas que acontecem, intempestivas, neste Calvin & Hobbes: Há Monstros Debaixo da Cama, de Bill Watterson. A verdade é que tenho o mês de Março, feito Calvin, a falar-me ao ouvido: «Não vou para a cama, se não me leres primeiro uma história.»

São estes os meus livros de Março: de Eduardo Lourenço a Calvin & Hobbes, um mundo angélico e demoníaco, que tanto nos pode deixar de coração pesado como de coração leve.

Manuel S. Fonseca, editor

Do que e como gostava ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Foi num daqueles cafés baratinhos e populares na Rua de Campolide. O António Lobo Antunes e eu tínhamo-nos habituado a almoçar com matemática irregularidade, e ali estávamos, o António, omisso em matéria gastronómica (e vínica, ó meu rico Baco), e eu, na conversa. À nossa frente, os pratos do que, se lhes chamasse «comida caseira», já seria uma rotunda promoção.

Falávamos muito de Angola, e tantas vezes a dele e a minha só coincidiam pelo muito e coincidente amor que um e outro lhes derramávamos em cima. Falávamos de livros: ou melhor ele falava, erguendo o José Cardoso Pires como um estandarte de glória, crucificando-me o Jorge de Sena, ao que eu me opunha peito nu oferecido às suas garras de lobo, logo nos reconciliando quando lhe saía, saberá o senhor santo Deus de que prodigiosa nuvem do seu cérebro, boca fora, uma página inteira de Agustina. Dizia o texto, de cor, num êxtase de menina, com o mais feminino sorriso que ele tão bem sabia fingir. Ou verdadeiramente sentir.

E não sei já do que estávamos a falar. Talvez do glorioso Sport Lisboa e Benfica ou das crónicas que cada um de nós escrevia ou talvez dessa coisa estranha a que se chama «amor» – mostrávamos um ao outro fotografias, «o Manuel não deixe de amar a sua mulher», ambos seduzidos pela ideia de que se não for sufocada pela beleza, uma vida não é vida – quando, de uma das mesas, se levantou um senhor de uma certa idade com um portuguesíssimo saco plástico na mão: povo puro se é que há povo puro. Veio à nossa mesa e disse: «Senhor António, queria dar-lhe uma coisa.» Contou que estava reformado e distraía a solidão não com livros, mas com uma navalha e uma circense habilidade de mãos. Fazia peças singelas, miniaturas de carrinhos e camiões de madeira. «Estes são para o senhor António, que eu gosto muito de si.» E pôs em cima da mesa os carrinhos que a fotografia mostra. 

«Gosto muito de si» disse aquele português de saco plástico, já de uma certa idade, e eu quase jurava ter ouvido o pingo da lágrima que tombou no poço fundo que se abriu no interior do ex-alferes que escrevia, das chanas de Angola, cartas de amor à mulher que amava.

«Gosto muito de si» foi também o que António Lobo Antunes me disse no último bilhete que me escreveu, já arrancado com força sobre-humana à dificuldade das suas mãos segurarem a caneta, ao contrário das mãos leves do senhor das miniaturas de madeira tosca. E despedia-se o António com um «abraço bem forte» logo reforçado, para que não sobrasse sombra de dúvida, «que isto fique bem claro, um abraço bem forte».

Eis o que tenho a dizer: nunca se gosta o suficiente de quem gosta assim. Nunca se abraça o suficiente quem nos abraça assim.

Sermão da Montanha

Já está nas livrarias um livro que organizei e para o qual escrevi o texto de apresentação que é, diga-se, quase metade do livro. Estou a falar do Sermão da Montanha, que publiquei na colecção Livros Brancos. É um dos mais belos e comoventes textos da História da Literatura.

Deixo-vos um bocadinho do que escrevi:

«Eu. A multidão acaba de ouvir o que, na boca do que parece ser um profeta, é uma palavra nova. É um «eu» que nunca tinha sido dito desta maneira: é um «eu» legislativo, é um «eu» que muda o horizonte divino.

Diálogo pejado de adversativas a cada evocação da Lei, o Sermão da Montanha é um triunfo exuberante do «eu» que o pronuncia. Jesus Cristo, o homem de 30 anos, reescreve e reinterpreta a Lei. Será que a nega? Com o seu insistente e sonoro «Eu, porém, vos digo», o homem de 30 anos, sentado numa colina de altura negativa, 210 metros abaixo do nível do mar, fere o mundo que o precede para inaugurar o que ele parece desejar que seja o reino radical de uma compaixão incondicional, um mundo de Amor, um mundo de Ágape.

É inútil esconder um deslumbramento – também um tremor? – que dura há séculos: o Sermão da Montanha é um cântico de utopia. Porventura irrealizável. Talvez seja mesmo essa radical impossibilidade que converte o Sermão no manifesto sublime que é. Lê-se como um texto – dos mais escandalosamente doces – da História da literatura. Emana dele uma abundante e irrecusável repercussão filosófica, comparável à que, desse improvável Homero, a Ilíada nos oferece, comparável também à que, do mais certo Hesíodo, os versos da Teogonia, de Caos a Eros, nos revelam da mítica origem do mundo. Começa aqui, neste atónito encontro de um homem e de uma multidão, qualquer coisa de novo, uma reinvenção do mundo? Sim, começa.»

E umas páginas à frente, acrescentei:

«A poética do Sermão, as suas profusas analogias, os seus «lírios do campo», as «aves do céu», a «luz do corpo», as «vestes de Salomão», bem como a vívida linguagem em que emergem «tesouros», «ladrões», «a cidade no cimo da montanha», «o reino dos céus», «lobos ferozes», «uvas e espinhos», tem um fôlego estético que, na Bíblia, talvez só se encontre nos Salmos ou no Cântico dos Cânticos

E desse prodigioso Sermão da Montanha, de que me atrevi a fazer a minha tradução/versão, leiam este passo, verdadeira revolução naquele tempo. (Se é que não continua a ser uma «revolução» hoje!)«Ouvistes que foi dito: “Olho por olho e dente por dente.”

Eu, porém, vos digo: não resistais a quem vos faz o mal. Em vez disso, àquele que te agride na face direita oferece-lhe também a esquerda; e àquele que te quer levar a juízo, para te arrebatar a túnica, oferece-lhe também a capa; e se alguém te forçar a acompanhá-lo por uma milha, caminha com ele duas.

Dá ao que te pede. E não voltes as costas ao que te pede emprestado.

Ouvistes que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.

Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos, abençoai os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos desprezam e perseguem.»

Vou ser muito directo: gostava muito que fizessem o favor de ir a uma livraria e comprassem o livrinho ou o encomendassem no site da Guerra e Paz. Não é só um generoso favor que fazem a este pobre autor/editor: Arrisco dizer que lerem o Sermão da Montanha é um favor que se fazem e uma forma generosa de se tratarem bem, caros leitores.

Os livros são como uma manta

Que frio está lá fora. Peço licença para me enfiar nessa manta a que o(a) caro(a) leitor(a) se aquece. E por cima da manta vamos correr o álbum dos livros de Janeiro.
Por esta ordem: Guerra e Paz, Euforia, Gradiva.
Os meus livros de Janeiro

Quero lá, querem lá os meus leitores saber do frio de Janeiro quando têm à mão as edições afrodisíacas da Guerra e Paz, a começar por A Mitologia Grega de A a Z, de Luc Ferry, obra povoada de Afrodites (ou Vénus), de Eros e da embriaguez de Dionísio: a desordem e a volúpia dos deuses gregos, a companhia de sereias e musas faz deste livro e dos seus mistérios uma leitura abrasadora. De Os Livros Não se Rendem, colecção patrocinada pela gentileza e amor aos livros da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações.
Agora encostem-se sem preconceitos a António Botto se querem sentir o calor do que era um escândalo para o Portugal dos anos 50: no Caderno Proibido, como lhe chamou Botto, há nudez e abraços violentos, mas também a ternura de, e cito, «foder um corpo delgado, / Seios duros, pequeninos […]/ Ancas descidas de mocinho…». Nunca publicado até hoje, este erotíssimo inédito foi organizado e prefaciado pelo professor Victor Correia.
Um muito mais contemporâneo afago dos corpos, eis o que inunda as narrativas ficcionadas (ficcionadas?) que o romancista Virgílio Castelo (sim, também é actor) assina em Consumo Obrigatório. Uma viagem por boîtes, discotecas, bares bem ou mal-afamados, viagem que é a autobiografia de toda uma geração: a sua, caro leitor?
Depois disto, de que outra coisa vos iria falar que não fosse de lendas e contos de fadas. Só queria que tivessem o livro na mão. É das coisas mais bonitas que já fiz na vida: chama-se Lendas e Contos de Fadas Japoneses e das suas 144 páginas, 47 são de ilustrações japonesas deslumbrantes, de cores arrebatadoras. Por este livro, Deus e os demónios perdoar-me-ão todos os desacatos que me queiram arrolar: quem não quer ler contos como «O cortador de bambu e a criança da lua» ou «O pardal com a língua cortada»? É o primeiro de uma série: a seguir vêm aí os contos de fadas chineses.
Parece também um conto de fadas: um homem fala a uma multidão e declara bem-aventurados os mansos e humildes, os perseguidos e os que sofrem. O homem tem 30 anos, dá pelo nome de Jesus Cristo, e essa pequena maravilha retórica, o Sermão da Montanha, que nos instiga a amar os nossos inimigos e a oferecer a outra face a quem nos agrida, é uma das mais belas utopias já ditas e escritas por nós, os humanos. Agora, com uma apresentação que eu, Manuel S. Fonseca, assino, o Sermão da Montanha junta-se ao Cântico dos Cânticos ou à Alegoria da Caverna, na colecção Livros Brancos.
O professor de filosofia Alexander Douglas dá, creio eu, eco ao Sermão, quando nos avisa contra a obsessão do eu. Leiam um dos mais lúcidos livros do ano passado no Reino Unido: Contra a Identidade, A Sabedoria de Escapar do Eu, diagnóstico de uma das grandes aflições contemporâneas.
Venha de lá o passado. De um historiador medievalista, Pierre Bauduin, Os Vikings é uma magnífica e actualizadíssima apresentação de uma civilização que nos desafia. Não se esqueçam das violências e pilhagens, mas leiam-no para descobrir mil outras facetas de uma civilização pletórica.
Em Janeiro, dois estudos e um sombreiro? De provérbios nada sei, mas sei que vou publicar dois estudos com mérito. Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999), é um rigoroso trabalho de fundo do historiador Alfredo Gomes Dias. Temos a honra de o publicar em parceria com a Fundação Jorge Álvares.
Tal como em parceria com a Academia Militar e o Instituto Universitário Militar se publica Guerra e Disrupção, textos de dez especialistas sobre estratégia e ciência militar, com coordenação de Luís Barroso, António Paulo Duarte e Pedro Ferreira.
Reservo os últimos suspiros de Janeiro para duas fortes e convictas apostas polémicas. Primeiro para o extraordinário e tocante Refém, de Eli Sharabi. Eli foi um dos judeus raptados pelo Hamas no 7 de Outubro e esteve em cativeiro 491 dias. Narra esse tormento de forma crua, directa, sem rodeios. Terão a mulher e as duas filhas sobrevivido? Um documento que dói e fere muito mais do que qualquer ficção.
Ecrãs, um desastre sanitário, da neurologista Servane Mouton, é um panfleto brilhante sobre o uso dos ecrãs, dos smartphones, e sobre os terríveis efeitos detectados. Baseado nos mais recentes estudos, este livrinho, que se lê de um fôlego, com bela tradução de Miguel Graça Moura, é um vivíssimo alerta: «antes que seja tarde demais.»


Vamos e vejamos e no vai e vem chegamos à EUFORIA:   A chancela que a Rita Fonseca criou ganhou a carta de alforria. Cresceu em 2025 213% em relação ao ano anterior e tem um público definido, muito específico. Passa por isso, agora, a ter uma newsletter própria, tal como terá o seu próprio site.
Despeço-me, ainda assim, dizendo-vos que em Janeiro há dois romances sufocantes. Em Tóxico, de Nicole Blanchard, a heroína casa primeiro com um homem abusivo e apaixona-se, depois, por um recluso perigoso. Se há beijos intoxicantes? Bom, no mínimo.
Já a autora Navessa Allen (há 52 semanas no top do NYT bestsellers) oferece-nos O Crime de São Valentim e deixa-nos uma inquietação: pode alguém ser enterrado vivo por mero acaso?

Que 2026 seja o ano de alguns prodígios e que esses prodígios sejam da nossa GRADIVA.
Começa, agora, em Janeiro de 2026, a nova Gradiva, e da mão de Guilherme Valente, seu fundador, para a minha mão passa o mesmo testemunho, como se estivéssemos numa corrida de estafetas. O livro que inaugurou esta casa editora há 45 anos é o primeiro livro desta nova vida da Gradiva: Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen, de Sigmund Freud. Tal como o Guilherme, acredito no valor simbólico de um livro que exala o perfume do que Freud chamou a «cura pela sedução e pelo amor». Para começar em beleza, é este o primeiro dos oito títulos Gradiva deste mês.
E agora aligeiremos: tem estado um frio de rachar. Para aplacar os lobos de Inverno pedi ajuda ao Calvin & Hobbes, de Bill Watterson. À lareira ou entre cobertores, Calvin & Hobbes, O Ataque dos Demónio da Neve resgata-nos e devolve-nos a alegria, o riso e o sorriso, desenho a desenho, em edição novinha em folha.
Passam os Invernos e o nosso descontentamento não nos deslarga: tanta é a sede e fome de plenitude, a sede e fome de perfeição! E é sobre essa busca espiritual, essa busca de uma harmonia universal, que nos escreve Luís Portela, em Ser Espiritual, da Evidência à Ciência. Prometo-vos uma viagem de um prazer inebriante – e de um rigoroso desafio – do que a série da RTP, «Para Além do Cérebro», foi há pouco veículo, uma viagem que nos religa a uma outra dimensão, a da Energia Universal. Utopia? E será que viver sem utopia é viver?
E por que utopia – ou só realidade – nos guia Carlos Fiolhais em A Inteligência Artificial de A a Z? Com mestria, Fiolhais, porventura o nosso melhor pedagogo, leva-nos da entrada «agentes inteligentes» à entrada «Zuckerberg», preparando-nos para o avassalador mundo de amanhã: a inteligência de Fiolhais disseca a complexa Inteligência Artificial. Um choque? Sim, enciclopédico.
E há um novo livro na colecção Ciência Aberta: de Elói Figueiredo e C. Matias Ramos, A Ciência Descobre, a Engenharia Cria. O subtítulo, «uma visão em doze axiomas e meio» deixa-me tão perplexo como encantado, e o que me tranquiliza é que Carlos Fiolhais, no posfácio, me jura tratar-se de «uma magnífica introdução à engenharia». Com o apoio mecenático do dstgroup e o patrocínio da Ordem dos Engenheiros, este é o livro que nos ensina que a função da engenharia é simplificar, mas que se o risco se minimiza, tal não significa que se anule. Axiomas.
Há dois livros de Janeiro que nos fazem pensar a Europa, a do passado e a do futuro. Um, O Esplendor das Amizades: A experiência portuguesa de Edgar Morin, é coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins e é um esplêndido relato do que era o Portugal da ditadura e de como os católicos do Tempo e o Modo descobriram a Europa através de Edgar Morin e de como Morin descobriu, em amizade, o melhor de Portugal. 
Já em O Mundo de Amanhã: Uma Europa Soberana e Democrática, o austríaco Robert Menasse partilha a morna angústia do nosso tempo europeu, cheio de dúvidas, défices e conflitos, procurando, ainda assim, arrancar desse pântano um frágil módico de esperança. A fragilidade será uma arma?
Onde começa e onde acaba a fragilidade em Ian McEwan? Na delicadeza das ideias ou na argúcia psicológica? Na sua narrativa tão minudente? E de onde surge, abrupto, o simbolismo quase brutal desses Cães Pretos, que dão título a este romance humano, demasiado humano? Que cães são esses? Autênticos, só cosa mentale, metafóricos? A verdade é que são vorazes e ferozes. 
São os livros Gradiva de Janeiro. Oito: da ciência ao cartoon, do pensamento à grande ficção.

Manuel S. Fonseca, editor