O apocalipse em família

Esta é uma crónica familiar que devo à bravura ímpar da minha primeira sobrinha e à inocência, impar também, da minha segunda sobrinha.

Sim, pode. Pode morar-se no Apocalipse, digo eu que já lá morei. Havia quatro anjos a segurar os quatro ventos da Terra, para que nem uma brisa perturbasse os cavaleiros da peste, e dos pés dos anjos saíam colunas de lume e as suas bocas exalavam fogo, fumo e enxofre. E talvez eu, na minha boa-fé, estivesse confundido, talvez fossem só os Migs céleres a segurar os quatro ventos de Angola, a pequena boca de fogo do singelo monacaxito e as estrondosas crateras de enxofre e fumo dos órgãos de Estaline.

Mas essas são as minhas memórias da guerra civil de Angola, problema que eu ainda estou e morrerei com ele. Quem também lá esteve foi a minha primeira sobrinha, filha da minha irmã. Teria então três anos, se tanto, e sabia lançar-se ao solo como um comando, quando as Akás começavam a tricotar e a cantar o Kalinka, Kalinka. Oyé, mangolé.

Quando, sobrevivente a obuses e morteiros, a G3 e Kalashes, a minha primeira sobrinha retornou, blusinhas leves tropicais, todas seda e terylene, espantava as feiras, os andores dos santos e as romarias lusíadas ao lançar-se ao solo, em impecável estilo, logo que começavam a crepitar foguetes. Era o comando mais bonito que Portugal conheceu.

E falo agora da minha segunda sobrinha, filha dos meus cunhados por parte da Antónia, minha mulher, a que meio Bairro Azul insiste em chamar “menina Antónia”, o que me deixa, atendendo à minha já branca e provecta barba, na desconfortável posição de suspeito de inconfessável e tirânico rapto e abuso.

Ora não era da menina Antónia, mas sim da minha segunda sobrinha que eu queria falar, para dizer que nunca esta sobrinha, ao contrário da primeira, tinha roçado o seu pequenino ombro, nem mesmo em forma inadvertida, pelo apocalipse.

Vinha ela, seis aninhos, mão na mão com a mamã, quando, no hall de entrada mesmo ao lado dos elevadores, se lhes dirigem duas simpáticas senhoras, com aquela simpatia de ventre amargo que recusa provar o mel. Traziam na mão uns sub-reptícios folhetos e logo ali, na placidez interclassista de Benfica, lhes dizem “bom dia”, e sem parar garantem “que vem aí o Apocalipse”. E explicam, com uma brevidade que João de Patmos não se autorizou, o que é o apocalipse, esse fim do mundo em que Deus Vosso Senhor corta a direito, com fogos do inferno à mistura. “Estamos aqui para vos alertar e salvar”, juram.

Tremem as perninhas de bailarina da minha sobrinha? Não, não, nem pensar, como agora diz o meu primeiro neto. Os olhos na mãe, a minha segunda sobrinha observa cada reacção e o que vê? Uma mãe serena, impávida. Uma mãe que não morde, nem sopra. E julgo que escapou aos seis aninhos da minha sobrinha o leve trejeito irónico que aflorou os lábios dessa mãe que desmedidamente a enche todos os dias e todas as noites de beijos.

E as duas velhas senhoras, de trombetas na boca, continuam a encher de música tonitruante o átrio, mesmo ao lado dos dois elevadores: “Vem aí o apocalipse. É o fim do mundo: amanhã, se não for já hoje. Está um fim do mundo a levantar-se das campas do cemitério aqui ao lado. E nós estamos aqui para vos avisar e para vos salvar!”

Serpentes, bestas e chifres insinuam-se por Benfica, mas a minha cunhada, com recato, escapa a tudo e entra no elevador já só com a minha sobrinha pela mão, talvez um folheto na outra. A serenidade da mãe comunicou-se à filha. E, num módico de exemplar reflexão, a menininha vira-se para a mãe e diz-lhe: “Já viste, mãe, tanta gente no mundo, e estas senhoras escolheram-nos a nós para nos salvar. A sorte que nós tivemos, mãe!”

Os chorizos de Melanie

Cancelados, os aviões deixaram de alimentar de sonhos os olhos dos meninos que esquadrinhavam os céus à procura do messiânico futuro e de outros mundos longínquos. Os aeroportos são hoje uma paisagem crispada, atafulhada, tensa, de multidões furiosas: canceladas e furiosas. Eu quero pedir desculpa ao avião e ao aeroporto do meu tempo. E evoco, desse tempo, oito coi­sas singelas:

  1. Quando eu era um monan­den­gue, cal­ções pobres e sonhos de luxo, e isso foi em Angola, tinha dias em que ia para a varanda do aero­porto de Luanda ver os aviões levan­tar vôo. O baru­lho ator­do­ava e a gaso­lina chei­rava a vitória.
  2. Que­ria ter asas e voar, mas aprendi: não é Ícaro quem quer e não é qualquer um que é Jardel para voar sobre os centrais.
  3. Já ves­tia um fati­nho executivo, o pes­coço aper­tado por uma gra­vata e a cabeça ata­fu­lhada de excel e logís­tica, quando, na SIC, apoiá­mos um docu­men­tá­rio em que dois monan­den­gues moçam­bi­ca­nos, i­guai­zi­nhos (ou desiguaizinhos?) ao meu “mim” do aeroporto de Luanda, pas­sa­vam os dias no aero­porto de Maputo a ver aviões levan­tar e ater­rar. Um deles expli­cou ao outro como é que era voar de avião: “Quando o avião sobe no ar, as pes­soas des­maiam lá den­tro, então! Via­jam já des­mai­a­das e acor­dam quando o avião aterra.”
  4. A pri­meira vez que via­jei de avião – ou des­maiei, então – foi num Fri­endship da velha DTA, de Luanda ao Lubango. Des­maiei, sim: íamos no meio das nuvens de algo­dão doce, a terra era um cho­co­late cá em baixo, rios de cho­co­late líquido, uma fenda cha­mada Tun­da­vala, aberta pela colher de um menino na quen­tís­sima mousse angolana.
  5. Lembro-me, lembro-me. Foi a primeira vez que sobrevoei a outra África. A janela de um Boeing, onde eu por acaso ia, cho­rou uma lágrima a ver o nas­cer do sol sobre o Sahara. O dedo do avião lim­pou a gota que caía, com ver­go­nha que o céu visse.
  6. Já era outro Boeing. Da British Airways, de Londres para Los Angeles. Estava lá em baixo o quase Pólo Norte, a doer de branco, a tiri­tar de frio e, em aque­ci­mento glo­bal, ia ali, deitada a uma cadeira de mim, a Mela­nie Grif­fith, loura, num sos­sego e sono que um Blo­ody Mary embalara. Quando chegámos, os cães detectives snifaram-lhe coisas na mala. Os fiscais puxaram os cães para trás: “É a Melanie Griifth, disseram”, cheios de respeito e distância. E eu tenho a certeza de que – vinha ela de Espanha, de casa do Banderas – na mala eram só chorizos e manchegos, mimos e amuse-bouche andaluzes.
  7. Foi em 1967, julgo. O adolescente que eu era estava na pista do aeroporto de Luanda – nesse tempo ainda se podia ir à pista – e o avião de Lisboa trazia o Benfica. Na noite tro­pi­cal de Luanda, um bruto capa­cete de humi­dade em cima, des­cendo a escada do avião, emer­giram os astros: pri­meiro o senhor Otto Gló­ria, depois o senhor Coluna, o senhor José Augusto e, logo, os miú­dos Eusé­bio e Simões. E eu na pista, a ter agora a cer­teza de que, se há estre­las no céu, podem sem­pre des­cer à terra. O que não sabia é que as estrelas cheiravam. Antes de aterrarem, tinham ido todos perfumar-se. O aeroporto de Luanda rescendia a Guerlain, Aramis, Opium e Azzaro. Cheirava bem, cheirava a Benfica.
  8. Foi um estalo. O estalo do mundo a partir-se. Lembro-me desse dia, de 1975, desse começo de tarde, em Luanda, quando um Mig, sou capaz de jurar que mesmo por cima da Vila Alice, rom­peu a bar­reira do som. Um estalo super­só­nico e, uau, os ouvi­dos rotos de infi­nito. Como se andassem bisontes no ar, foi o estam­pido do céu e toda a gente a gri­tar em terra: “A vitó­ria é certa!”

Um comunista na Disneylândia

Queriam ver o comunistazinho. Veio Hollywood em peso. “Respeite os leitores, comece pelo principio”, exige Lúcia Crespo, minha editora, e eu travo a fundo. As primeiras coisas, primeiro.

O presidente da América, Eisenhower, convidou Nikita Khrushchev, presidente da gigantesca União Soviética, a visitar a pátria do capitalismo. O redondo Nikita não se limitou a aceitar. Queria viajar pelo país: viria por 15 dias. Siderado, Eisenhower aceitou.

E agora que a minha editora se distraiu, volto já a Hollywood. Era onde Khrushchev mais queria ir. A 20th Century Fox, o estúdio que tinha Marilyn sob contrato, convidou-o. Chegaria a L.A. e almoçaria no Café de Paris, a luxuosa cantina do estúdio. Sei do que falo: almocei lá mais vezes do que Nikita Khruschev, se não me levam a mal a bazófia.

A mim, não veio ninguém ver-me, mas para ver Nikita havia mais de mil candidatos às 400 cadeiras do Café de Paris. Spyros Skouras, o presidente, só autorizou actores e realizadores: não podiam trazer os cônjuges. Entra Nikita e a mulher. Hollywood, de pé, aplaude-os. Com mais cortesia do que veemência. A pequena Liz Taylor subiu para cima de uma cadeira para ver o “funny old guy”. Henry Fonda tem um ouvido atafulhado com um indiscreto auscultador: está o ouvir o relato do jogo de basebol entre os Dodgers e os Giants.

Frank Sinatra e Bob Hope fazem companhia à senhora Khrushchev, Nina. Ela, enternecida também com Gary Cooper, diz-lhes que gostava de visitar a Disneylândia. Dali a pouco são os discursos e um sobressaltado chefe de polícia diz ao embaixador americano que Disneylândia nem pensar! Não garante a segurança. No percurso para o Café de Paris alguém atirara um tomate à limusina do soviético. Sem acertar, embora, mas em campo aberto seria um perigo. Não há segurança, não há visita, lamenta o embaixador, o que os soviéticos ouvem e logo passam a Nikita.

Discursa o anfitrião. O grego Skouras faz o elogio da América. Chegou ali sem um chavo, suou, lutou e é hoje, graças ao sistema de mérito, presidente de uma grande companhia. Khrushchev interrompe-o: “Comecei a trabalhar mal aprendi a andar. Nas minas para capitalistas franceses e alemães, mas com a revolução sou hoje presidente da URSS!” A sala ri. Skouras não desarma: “Sim, mas como eu há milhares de presidentes na América. Quantos presidentes como o senhor tem a URSS?” Ainda a sala não parou de aplaudir, já Khrushchev responde: “Temos 15 países na URSS, cada um tem um presidente como eu. Quantos há na América?”

Vejam Marilyn Monroe deliciada. Foi a primeira vez que chegou a horas ao estúdio. Chegou, não viu ninguém, pensou que se atrasara como sempre e já se tinham ido todos embora. Ouve a conversa amena, cheia de risos e não adivinha que Khrushchev se vai zangar.

“Dizem-me agora que não podemos ir à Disneylândia, que não é seguro. Têm lá rockets nucleares? Há uma epidemia de cólera? Os gangsteres tomaram conta daquilo? Então e os vossos polícias, capazes de levantar um touro pelos cornos, não podem ir lá expulsá-los?”

O desânimo invade a sala. Nina diz a David Niven que é uma frustração: “Como explicaremos isso ao nosso povo?”. Sinatra vira-se para Niven: “David, foda-se a polícia! Diga à velha que nós dois os vamos lá levar esta tarde!”  

Khrushchev acalmou-se. “Ah, fiquei de cabeça quente. A culpa é deste amigo grego, que me picou!” E já os dois, carecas, baixinhos, gordos, dão valentes palmadas nas costas. Khrushchev, um metro e sessenta, 100 quilos, um império na mão, e se com alguma coisa sonhava era ver a Disneylândia.

Fios de prata

Gosto destas tardes. Um calor denso, horas presas por quentíssimos fios de prata. A única fuga é direitinha ao céu. Deitado na areia, andam pela minha cabeça restos de infância, a inocente motorizada NSU do meu pai a atravessar o musseque Sambizanga, eu à frente, quase ao colo dele, a minha irmã atrás, a caminho da escola da Missão de São Paulo. Eu, devagarinho e menino, a deixar de ser português, devagarinho e menino a balbuciar Luanda, Angola. Dor e prazer que sempre trago e com que morrerei, a de querer ser, ao mesmo tempo, essas impossíveis duas coisas.

Ah, este é um bilhete postal para a Alice, que hoje faria 96 anos. E faz, nesta minha cabeça de palmeiras e Sambizanga.

Com James Caan na mansão da Playboy

Fui à Mansão e não estava lá James Caan. A Mansão é a de Hugh Heffner e tinha tudo o que fez a tépida e insuportável felicidade de James Caan, o actor que agora morreu e lá viveu. Entrei. Uma orquestra de jazz tocava ao ar livre do alto dessa colina de Mulholland Drive. E o que vi tanto me enterneceria a mim como ao mais pálido e animalista sequaz do PAN: havia um vendaval de playmates – camonianas ninfas, claro –, mas também havia esquilos, macacos, tucanos, papagaios, pavões brancos e flamingos cor-de-rosa, ainda mais bonitos do que os meus flamingos do Lobito. Havia outras feras e centenas de coelhos, lots of rabbits.

As playmates levaram-nos depois para o celestial aconchego de uma sauna escavada na rocha. Olhei e nem James Caan, nem Jack Nicholson se escondiam nas caves pré-históricas, que a perversa mente de Heffner, pai da Playboy, construiu.

Se ainda me lembro, conheci James Caan no Regimento de Infantaria de Luanda. Não é que ele lá tenha feito a tropa. Mas havia no meio desse imenso quartel uma daquelas esplanadas-cinema tropicais – tal como havia outra na 7.ª esquadra. Numa das minhas noites adolescentes exibiu-se “Rain People”, o filme de Coppola a que a distribuição portuguesa deu um título lamechas: “Chove no Meu Coração”. Mas chovia, sim senhor. Chovia no filme, chovia na cabeça de Shirley Knight, a protagonista, e choveu em mim mal vi James Caan. Caan andava à boleia e era de uma intranscendente ingenuidade. Tinha nele toda a candura da América. Descobriríamos, depois, que o Caan desse filme jogara futebol americano na universidade e um traumatismo craniano lhe provocara um atraso mental irreversível.

Mais tarde, pela mão de Coppola, conheci outro Caan. Era já Sonny, um dos filhos de Don Corleone, no primeiro “Padrinho”. Peito peludo, embora sem atingir o estilo símio que me caracteriza, tão macho como a rapaziada da minha Vila Alice, incapaz de dirigir o pululante desejo, perplexo perante as nuances e contradições do mundo, o que lhe desencadeia fúrias honestas e unilaterais.

O que quero dizer é que James Caan, o actor que agora morreu, nunca se livrou destas duas personagens, a de “Rain People” e a de “O Padrinho”. A inocência e a fúria com palas moravam nele como cidades geminadas. Casou não sei que infinidade de vezes. Num dos divórcios ficou a morar no olho da rua, para que a vida confirmasse o que a arte de Coppola inventara em “Rain People”. O prosaico Heffner salvou-o. Pô-lo a morar na mansão da Playboy, como se pusesse um menino guloso na dispensa cheia de marmelada.

Todos o conheciam: os esquilos subiam por ele acima, e há uma foto dele com um esquilo ao ombro e a angélica playmate Dorothy Stratten risonha e espantada, ainda sem adivinhar que um ciumento namorado a assassinaria. Conheciam-no os valets que arrumavam carros e ai de quem lhe tocasse no Jaguar Roadster. Nem mais: está ele a sair da mansão e de outro carro saem Jack Nicholson e uma eléctrica e resplandecente mulher. Embrulham-se um no outro, com incontrolável vontade, tombando sobre o capot do Jaguar de Caan. Estarrecido, o valet diz-lhe: “Mr. Caan, tiro já o seu carro!” Caan, um sereno Caan de “Rain People”, diz-lhe: “Meu filho, não tentes tirar a carne da boca do leão que come. Quando acabarem, estou na cozinha.”

Um dia, o infinito e a transcendência a baterem-lhe na cabeça, Caan abandonou a Mansão. Deu uma explicação cabal. Atormentavam-no, no meio daquele oceano de delícias, impulsos suicidas: “O melhor é eu matar-me, melhor do que isto já nunca mais vou ter!”

Onde estão aqueles dois KGB?

Teve de dar um salto

Ouçam, ouçam. E como é a voz de Jackie Kennedy, peço que se sentem primeiro. Jackie e John vieram em visita de Estado a França. Jantam com De Gaulle e com André Malraux, o ministro da cultura, nesse sumptuoso clarão que é o Chateau de Versailles. E eis o que Malraux acaba de perguntar à sedutora Kennedy: “O que fazia antes de conhecer o John?’”

Passa um fulgurante segundo, a boca colorida de Jackie abre-se: “Era virgem!” disse ela, com riso e ponto de exclamação.

Nesse fulgurante segundo de virtude, talvez Malraux tenha esquecido a fresca tragédia: poucos dias antes, ao volante de um Alfa-Romeo descapotável, tinham morrido os seus dois filhos, estraçalhando-se contra uma árvore, nas mil curvas da Côte d’Azur. O carro oferecera-o Clara Saint, menina de 23 anos, milionária de origem chilena, noiva de um dos rapazes.

Paris era, nesse fim de Primavera, começo de Verão de 1961, uma cidade invencível. Animava-a um inconcebível amor, uma doçura libertina, um talento que não escolhia pátria. Clara dissera aos irmãos Malraux: “Não vão agora, vão perder os russos do ballet Kirov.” “Viremos a tempo dos Kennedy”, protestaram eles, sem adivinhar que mentiam.

Não sabiam, nem Clara, que os Ballet Kirov trariam uma raridade de que o Ocidente ainda não soletrara o nome: Rudolf Khametovich Nureyev. Era um menino e nem era o bailarino principal, mas em Paris uma alegria vermelha e branca, hipnótica, tomou-lhe conta das coxas, do torso, dos movimentos invacilantes. Clara estava lá nessa noite. Foi com Pierre Cotte, um bailarino francês, aos bastidores. Arrebatada, talvez apaixonada, levou Nureyev para a noite de Paris. O russo escapou-se aos KGB, que vigiavam a companhia, e reconheceu essa galáxia de que lhe falara o seu jovem amante, o bailarino alemão do leste Teja Kremke. Viu as luzes vagabundas, a música sem dono dos indomesticados sons, a contente e desangustiada madrugada. Soube, então, que devia seguir o conselho do amante: ficar no Ocidente.

Nureyev saiu todas as noites e todos os dias, deixando de cara amarrada os bufos do KGB: fez coisas simples, como chorar a ver no cinema o “West Side Story”, rezou na Madeleine, sem se lembrar que era ateu. De Moscovo, vieram ordens para o despacharem: já! Mas o êxito estratosférico de cada noite em Paris recomendou prudência. O Ballet Kirov ia para Londres. No aeroporto de Bourget fariam a diversão, metendo Nureyev no Tupolev para a União Soviética, esse ligeiramente fanado Sol da Terra.

E vejam: os KGB acabam de explicar a Nureyev que Krutschev o quer numa gala especial: Londres, niet! Nureyev esboça um protesto. Reforçam: a mãe de Nureyev está mal e ele tem de a ir ver. Veio ao aeroporto, despedir-se dele, o bailarino francês amigo. Nureyev murmura-lhe um “salva-me”, e acrescenta um “vão mandar-me para a Sibéria”. Cotte telefona a Clara. A libérrima Clara vem de escantilhão. Terá falado com Malraux, que lhe explica como se faz. Os polícias franceses dispõem-se no bar. Nureyev terá de lhes pedir asilo: não podem ser eles a arrancar Nureyev à vigilância dos chuis soviéticos. Clara, a pretexto do último beijo, sussurra o esquema a Nureyev e sai de cena.

O bailarino faz, então, o pas de deux da sua vida, deixa surpreendidos os KGB, e grita, em inglês “I want to stay in France. I want to stay in France”. Franceses e KGB empurram-se, já Nureyev está isolado numa sala. Tem a solidão de um conhaque à frente e 45 minutos para pensar. Escolhe o que se sabe. E penso: aqueles dois KGB talvez nunca mais tenham voltado a uma sala de ballet.

A escandinava Greta (esta é Garbo) e a paixão por Gilbert, em três capítulos que se lêem como um fósforo

Esta é, em três fragmentos a que só por inadvertida audácia se pode chamar capítulos, a história de rejeição e paixão de John Gilbert e Greta Garbo, ídolos da América e do mundo, no final dos anos 20 e começo dos anos 30. Para os mais jovens, acrescento mais informação: eram actores de cinema. E complemento: cinema era uma arte de sombras, indulgências, tesouros e cabalas, cultivada pela calada da noite em insidiosos palácios nocturnos, invisíveis durante o dia.

Heróico, viril e vil

Todo o passado é sincrético. Como sabem, John Gilbert é um actor do tempo de Homero ou Ben-Hur ou não fosse o cinema uma invenção mediterrânica. Um dos criadores desse cinema da antiguidade clássica foi Louis B. Mayer. Judeu, claro. Como Aquiles, era heróico, viril e vil. De poderoso soco. Basta vê-lo, à porta do Alexandria Hotel, aos murros a Charlie Chaplin. Foi em Los Angeles: na minha antiguidade clássica já havia América e hotéis de cinco estrelas.

Mas é de outro soco que falo. A viking Greta Garbo chegara a Hollywood. Vinha filmar “Temptress”, auto-estrada de adultérios em cadeia. Isto passou-se em 1925 e 1926, anos de lânguido aquecimento e dilatação dos corpos em Hollywood, como o provam os filmes que Mayer então produziu.

Queriam convidar John Gilbert para acasalar com a escandinava Garbo. Gilbert ainda não a vira, nem a queria ver. Tinha na cabeça outro filme e foi contar a história a Mayer, seu boss. Ouçam-no: numa idílica Inglaterra, um rapazinho decente vive com a mãe viúva, honrando-a com amor incondicional até se apaixonar por uma prostituta que o alivia da virgindade. Uma espiral de perdição arrasta o bom moço: assaltado por esses ciúmes mouros, que Shakespeare inventou, mata o amante da amante e é condenado às galés.

“Mas que disparate de filme, um rapazinho honesto com uma prostituta”, enervou-se Mayer. Gilbert agarrou-se às artes, à “Dama das Camélias”, de Dumas, à “Anna Christie”, de Eugene O’Neill: “É a mesma coisa”, disse o actor.

Mayer chamou bastard a Gilbert e juntou-lhe este mimo: “Só um depravado é que mete uma puta na história da mãe amada e do seu filhinho.” Gilbert não se conteve: “O que é que tem? A minha mãe era puta!” Já o fulminante punho de Mayer se lhe cravava no queixo, fazendo-o morder a alcatifa. “Devia cortar-te os tomates por dizeres isso.” O invencido Gilbert levantou-se. Sem punhos, mas com voz: “Mesmo sem tomates, sou melhor do que tu.” Seguraram Mayer que o queria matar. “Maçã podre… não tem amor à mãe.”

O irrestrito amor de Mayer à mãe é uma chave para a história do cinema americano. Nesses anos de Lei Seca, Mayer tinha no estúdio um tipo encarregado de arranjar bom álcool, tinha um bordel para as visitas, dois homens para apagar as malfeitorias das suas estrelas, um gabinete médico para os abortos das actrizes. Rendido às debilidades do mundo, redimia-o o homérico amor à mãe.

A indecifrável Garbo

Ilha dos Amores em Hollywood

Era tudo proibido e havia portanto toda a liberdade. Tenho estes dois olhos que a terra há-de comer apontados a Hollywood e, em Hollywood, a essa pequena porção de paraíso que era a MGM.

Lembro a tradição que começou no Natal de 1931, já Louis B. Mayer esmurrara John GiIlbert e já Gilbert conhecera a indecifrável Greta Garbo. É Natal, estamos nos estúdios da MGM e o católico Eddie Mannix deixou partir o patrão, Louis B. Mayer, ecumeníssimo judeu. Manix dá agora as suas ordens: cada um beberá o que quiser e cada um fará sexo onde quiser com quem, consentindo, queira. É de católico! E olhem, num impulso camoniano, eriçados actores, lânguidas actrizes, electricistas faíscantes, carpinteiros de poderoso martelo, as hábeis jovens de dedal e guarda-roupa transformaram o estúdio numa cantante ilha dos amores.

Não emprestarei a débil escrita aos suspiros e ais desse reaccionário convívio anti-luta de classes que foi, por alguns anos, a secreta e nua tradição natalícia da MGM. Se escrevo é para cantar a dignidade do amor do século, esse segundo em que os falecidos imortais Greta Garbo e John Gilbert se apaixonaram. Eram as estrelas de “The Flesh and the Devil” e esbarraram um no outro nos ensaios. “Hello Greta”, disse Gilbert, com uma bonomia que, frigidérrima, a sueca logo congelou: “My name is Miss Garbo”.

Pois está claro: mal começaram a trabalhar, duas noites depois, era tiro, queda e cama. E lembro, por ser verdade: a MGM do pudico Louis B. Mayer escondia, por tradição, os leitos transgressores das suas estrelas. Mayer sentiu que este era, agora, um mundo às avessas e escancarou a informação. Com quase anúncio público, Garbo e Gilbert passaram a viver juntos e os mirones tentavam trepar os muros da mansão para ver uma ponta de lençol, uma lasca de perna ao sol na piscina, a cama de mogno africano, misteriosa madeira que confere ao amor outra funda escuridão.

Quem revir hoje “The Flesh and the Devil” vê dois corpos apalpantes com sede um do outro, beijos de boca aberta que o cinema então não dava. A desabrida paixão de Gilbert quis casar. Garbo aceitou e marcou-se a pagã festividade. A elite da MGM a postos, só faltava chegar Garbo. Ainda hoje lá estariam à espera, não tivesse Mayer desistido. Gilbert, o abandonado Gilbert, chorava na casa de banho. O patrão foi brutal: “Não te basta comê-la? Para quê casar?” Um rebate lírico-passional levou as mãos do actor ao pescoço do patrão. Matava-o ali se o católico Mannix não o viesse salvar. Gilbert voltaria, depois, pouco depois, à cama de Garbo, antes de Garbo partir para outras camas. A Gilbert, às mãos de Gilbert que quase o estrangularam, Mayer serviria fria a vingança.

Mamoulian é o caixa de óculos à frente da Garbo

Tirar a roupa

Se a história do cinema ensina alguma coisa é que vem aí, agora, depois destes anos 20 do século XXI, uma década de libidinoso aquecimento. No século do código Hays, passagem dos anos 20 para os 30, tudo era proibido. Mesmo o beijo na boca era só uma lástima de beijo na boca.

Ora, as proibições, tal como os revolucionários, não dormem. Voltaram agora. Palpita-me, por isso, que vamos viver – já estamos a viver! – uma década de libidinosa vigília proibitiva. Antecipo as consequências: toda a proibição dilata os corpos e foi essa imparável expansão humana que, subversiva, inundou Hollywood naqueles anos pudibundos.

Poderá pensar-se que eram só os homens abusadores, pés fincados no danado poder patriarcal. E já vemos o produtor Irving Thalberg, nove da manhã, a tocar à porta da campainha da casa de um argumentista que abre espantado: era a primeira visita e a amante que Thalberg procurava morava na casa ao lado.

Mas o estado de ebulição tanto foi masculino, como feminino. Com excepção de Santa Lilian Gish, também as mulheres eram cometas, cauda em fogo, no céu de Hollywood. Até Jeanette McDonald, mais virgem na hora da morte do que quando nasceu, terá amado com clandestino e nuíssimo ardor o seu agente, recusando os avanços do patrão Mayer.

Greta Garbo fez do mundo um saco de gatos. Amou, dormiu e estraçalhou John Gilbert, o Brad Pitt daquele tempo, deixando-o pendurado no dia do casamento. Depois, fugiu seis vezes de “Susan Lenox”, filme com Clark Gable, por se ter apaixonado à primeira vista por Mercedes Acosta: iam juntas nadar nuas e, juntas, iam subir montanhas (talvez vestidas), “glorioso deus e deusa – cita a talentosa Acosta – fundidos numa só. Seis semanas pareceram seis minutos”.

Mas Garbo, em fogo nos braços de Mercedes, conheceu o realizador Rouben Mamoulian. Foi no assombroso “Queen Christina”, em que Garbo usava calças. E o que eu quero ou tenho de dizer é que entraram dois pares de calças em pecaminosa combustão. Mamoulian era um desengraçado caixa de óculos (tive uns óculos iguais), mas a Garbo apaixonou-se pela tão tacteante miopia dele. Apeou a amada Acosta e fugiu seis semanas com o realizador míope. Chegaram, crê-se, a casar, mesmo se a cerimónia foi duvidosa e se os papéis não têm valor.

Elucidativo do escaldante clima moral foi o horror de Louis B. Mayer a entrar num gabinete e ver o argumentista Ben Hecht a ditar diálogos de um guião a uma assistente em estado natural, se exceptuarmos o verniz nas unhas das mãos e dos pés. Toda a proibição sufoca. Em tempos de proibição e cancelamento, que podem os corpos fazer se não tirar a roupa? Esperem mais três, cinco anos e havemos de nos voltar a amar como Garbo amou perdidamente o olímpico Gilbert, a fogosa Mercedes e o míope Mamoulian. Talvez todos ao mesmo tempo.