Hoje, a Guerra e Paz editores comemora 20 anos de vida. Digo isto com a alegria serena desses dias em que o sol é grande e caem com a calma as aves. A Guerra e Paz foi ao longo de alguns anos «aquela cativa que me tem cativo» e já explico. Um terramoto (ou terá sido maremoto?) arrasou-nos em 2011: a insolvência do nosso então distribuidor bateu-nos de frente e pareceu mergulhar-nos um abismo irremediável. Devíamos ter desistido. Vivamente nos recomendaram que desistíssemos.
Dia a dia, mês a mês, durante 12 anos, a cada leda madrugada, às vezes lágrimas em fio, houve, umas vezes seis, outras sete ou oito obreiros da Guerra e Paz que persistiram no que um amigo meu chama, «a trincheira da luta». Batemo-nos com armas desiguais: só tínhamos sinais de fumo, machetes e catanas onde outros tinham radares, satélites e misseis. Mas voltámos, passo a passo, à vida e, hoje, com uma alegria serena, sabemos que não hipotecámos esses 12 anos. Pelo contrário, foram anos em que servimos um amor, qual «Raquel, serrana bela»: e mais serviríamos, «se não fora para tão longo amor tão curta a vida».
Hoje, a Guerra e Paz editores celebra 20 anos como eu aos meus 20 anos comemorei a liberdade. É uma empresa limpa, competitiva, com relações de amizade com todo o universo do livro, autores, outros editores, livreiros, tradutores, revisores, paginadores. Estamos a crescer muito acima do crescimento do mercado e a ganhar solidez. Hoje, a Guerra e Paz, que chegou a parecer condenada, é uma editora com apetite de futuro.
Temos um passado que não esquecemos e muito agradeço a antigos sócios, ao José Santos, co-fundador, ao Abílio Nunes – dois amigos da minha infância em Luanda – como amigos são o José António Pinto Ribeiro e o Manuel Cintra Ferreira, de quem sempre terei saudades, como agradeço aos actuais sócios, dois amigos perseverantes, António Parente e Pedro Henriques.
Hoje, a Guerra e Paz já é um pequeno grupo. Tem uma nova chancela, a euforia, que a Rita Fonseca faz voar à velocidade da Artemis II, e integrou, há 6 meses, a Gradiva Publicações, uma editora histórica, cujo alto mérito teremos de provar que merecemos. Somos 14 pessoas. Estamos aqui diariamente – há mesmo quem já esteja há 20 anos, caso do Ilídio Vasco, decano dos artífices desta casa – com um só propósito: continuar a fazer da Guerra e Paz uma editora de que os autores e os leitores gostem, servindo o livro e a leitura, e onde seja um prazer trabalhar.
Obrigado à Rita e ao Ilídio, ao José Cardoso, Américo Araújo, Maria José Batista, Luisa Pinto, Beatriz Fernandes, Andreia Pereira, Helena Rafael, Elisabete Lucas, Andreia Santos, Diana Trigo, Magda Filipe: são eles a Guerra e Paz. E obrigado à equipa da VASP, que nos distribui. Obrigado à nossa jurista, Fátima Esteves, ao nosso TOC, Rodrigo Santos, ao nosso excelente presidente da Mesa da AG, António Palma: mais do que tudo, liga-nos uma amizade sincera.
Fazemos 20 anos: com uma alegria serena, estamos já de olhos no futuro.
São os meus livros de Março, a minha forma, tão botticelliana quanto possível, de levar a Primavera a quem muito gosto ou admiro. Obrigado por terem a santa paciência de ler
Guerra e Paz luvas, coração e aconchego
Como é possível não se ser nostálgico de um tempo em que cada pedra no caminho, cada ramo na floresta, cada floração era diferente e era um signo? Eis o que talvez seja o monótono niilismo do nosso tempo: querermos que seja tudo igual. No monumental e sapientíssimo livro de Sir James George Frazer,O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião é tudo requintada e magicamente diferente. Pela primeira vez em Portugal, publica-se essa obra fundadora. Para já o primeiro volume, O Rei da Floresta, livro seminal para Freud e Jung, para escritores como Eliot, Yeats, D.H. Lawrence, para uma banda como The Doors, para um cineasta como Coppola. Um século depois, a edição portuguesa enobrece-se com este Livro Que Não Se Rende, a colecção que a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações doa às bibliotecas portuguesas. Em Abril e Maio chegam os dois volumes que fecham a trilogia.
Parece que Proust dizia que «as ideias são sucedâneas dos sofrimentos». De sofrimentos e de alegrias, de promessas e maldições é que são sucedâneos os nossos três romances de Março. Ano Zero, de João Céu e Silva, foi menção honrosa do Prémio Literário Carlos Oliveira, organizado pela Câmara Municipal de Cantanhede, e abre com uma frase bela e segura: «Se Cícero pudesse adivinhar como iria ser o ano que começara há menos de uma hora não o quereria ter vivido.» Cícero é um projeccionista ambulante e no seu caminho tanto se cruza a prodigiosa imagem da grande Amália, como a sombra escuríssima da Vanguarda Nazi.
O romance de Maria Cláudia Rodrigues, A Conta Que Deus Fez, incide sobre esse momento da vida a que chamamos infância, momento em que se confundem anjos e lágrimas. É um romance de vivas angústias, que aspira à pacificação. Descubram, se fazem o favor.
As 7 Profecias Malditas, de Fernando Rita, é o primeiro romance de um historiador militar. Não espanta que o património histórico, muralhas e conventos, seja o cenário em que surgem códigos misteriosos e profecias assustadoras: um thriller histórico, um enigma. Ou vários.
José Barata-Moura: As Vidas de Um Filósofo, diálogo entre José Jorge Letria e José Barata-Moura, é um novo volume da colecção «o fio da memória», parceria que mantemos há anos, com gosto e muita honra, como soe dizer-se, com a Sociedade Portuguesa de Autores. Levanto uma pontinha das páginas e vejo que lá está, de forma raramente vista, a figura de Álvaro Cunhal: «Um actor que é autor. Um autor que foi actor.»
E quero aqui fazer o louvor de Marco Neves. É um dos autores-chave do catálogo desta vossa editora: 16 livros, já. Volta, agora, com As Raízes da Língua, para uma viagem turbulenta de mistérios e decifração da língua portuguesa, através de 50 palavras. Aventura, desordem, perigos fazem de As Raízes da Língua um livro ousado, orgulhoso e romanesco, a começar pelo índice, que tem «luvas», «coração» e «aconchego».
Do Ramo de Ouro a Raízes da Língua são estes os meus livros, rituais e águas de Março
Eu prometi não voltar a falar dessa região densa de crimes e amores perversos, a que a Rita Fonseca tem dado expressão na Euforia, mas este mês a dose é diluviana: Caro Leitor, de Tate James, revela uma sociedade secreta de estranhos ritos, de festas e de relações decadentes; já Tu Mataste-me Primeiro, de Sandra May, é um thriller psicológico que começa com confissão liminar: sim, matei-o. São livros irresistíveis, tão juvenis, como escapistas. Bestsellers, portanto.
Gradiva anjos e demónios de coração leve
Março é, porventura, à conta da Primavera que nele nasce, um mês mítico. Prosaico como sou, logo o escolhi para publicar, de Eduardo Lourenço, estes dois tratados sobre a mitificação: O Labirinto da Saudade e O Fascismo Nunca Existiu. São dois livros em que a «natureza» de Portugal e a frialdade pejorativa de um conceito ideológico passam pelo crivo de um pensamento cheio de adornos e mil itálicos que nos sobressaltam, exigindo que busquemos sempre um outro sentido além do sentido aparente. As capas ficaram, como dizer… narcísicas.
O Fantasma do Rei Leopoldo, de Adam Hochschild, é a edição comemorativa dos 25 anos de uma obra que expôs, com rigor, um momento de apocalíptica crueldade colonial: a mesma que deu origem ao doloroso romance de Joseph Conrad, a história de ganância e terror com que o rei Leopoldo dos belgas estrangulou o Congo.
E deixem-me, com George Steiner, franquear as portas do encanto e desencanto da escrita. Era Borges, poeta das sombras, que dizia não estar interessado em escrever longos romances, bastando-lhe a resumida fórmula ficcional dos contos. Em Os Livros que Não Escrevi, Steiner fascina-nos com outra solução: a explanação narcísica, mas num certo e assumido sentido levemente impotente, dos sete livros que «esperava escrever, mas não escrevi». São 220 páginas de prodígio e gosto.
Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho foi o que o júri atribuiu a Como Caminhar Num Pântano, romance de Marta Pais Oliveira, escrita delicada, mas também irónica e por vezes feroz, história de uma mulher que rouba malas de mão a outras mulheres… para lhes deixar as mãos livres: «Quando a levaram para a esquadra, não teve medo.»
Com O Golpe de Estado, Ernesto Rodrigues, também autor da Guerra e Paz, regressa à Gradiva. Traz-nos um influente oligarca, cujas manobras políticas e insidiosos financiamentos podem derrubar governos. A realidade talvez esteja a passar por aqui: «foi leiloado o último conselho de ministros.»
Fios de Prumo é um livro de poemas de Jorge Gomes Miranda. Uma poesia aforística, tão contida, como sugestiva: «Atiras ao lume aparas de um tempo / altaneiro. Descem das bicicletas, as / raparigas. Enseadas. Dá-nos vontade.»
E sim, Calvin é uma peste, uma pestinha. Pobres pai e mãe: o que estará a fazer o Calvin despido, mesmo ao lado do boião dos biscoitos? São coisas que acontecem, intempestivas, neste Calvin & Hobbes: Há Monstros Debaixo da Cama, de Bill Watterson. A verdade é que tenho o mês de Março, feito Calvin, a falar-me ao ouvido: «Não vou para a cama, se não me leres primeiro uma história.»
São estes os meus livros de Março: de Eduardo Lourenço a Calvin & Hobbes, um mundo angélico e demoníaco, que tanto nos pode deixar de coração pesado como de coração leve.
Foi num daqueles cafés baratinhos e populares na Rua de Campolide. O António Lobo Antunes e eu tínhamo-nos habituado a almoçar com matemática irregularidade, e ali estávamos, o António, omisso em matéria gastronómica (e vínica, ó meu rico Baco), e eu, na conversa. À nossa frente, os pratos do que, se lhes chamasse «comida caseira», já seria uma rotunda promoção.
Falávamos muito de Angola, e tantas vezes a dele e a minha só coincidiam pelo muito e coincidente amor que um e outro lhes derramávamos em cima. Falávamos de livros: ou melhor ele falava, erguendo o José Cardoso Pires como um estandarte de glória, crucificando-me o Jorge de Sena, ao que eu me opunha peito nu oferecido às suas garras de lobo, logo nos reconciliando quando lhe saía, saberá o senhor santo Deus de que prodigiosa nuvem do seu cérebro, boca fora, uma página inteira de Agustina. Dizia o texto, de cor, num êxtase de menina, com o mais feminino sorriso que ele tão bem sabia fingir. Ou verdadeiramente sentir.
E não sei já do que estávamos a falar. Talvez do glorioso Sport Lisboa e Benfica ou das crónicas que cada um de nós escrevia ou talvez dessa coisa estranha a que se chama «amor» – mostrávamos um ao outro fotografias, «o Manuel não deixe de amar a sua mulher», ambos seduzidos pela ideia de que se não for sufocada pela beleza, uma vida não é vida – quando, de uma das mesas, se levantou um senhor de uma certa idade com um portuguesíssimo saco plástico na mão: povo puro se é que há povo puro. Veio à nossa mesa e disse: «Senhor António, queria dar-lhe uma coisa.» Contou que estava reformado e distraía a solidão não com livros, mas com uma navalha e uma circense habilidade de mãos. Fazia peças singelas, miniaturas de carrinhos e camiões de madeira. «Estes são para o senhor António, que eu gosto muito de si.» E pôs em cima da mesa os carrinhos que a fotografia mostra.
«Gosto muito de si» disse aquele português de saco plástico, já de uma certa idade, e eu quase jurava ter ouvido o pingo da lágrima que tombou no poço fundo que se abriu no interior do ex-alferes que escrevia, das chanas de Angola, cartas de amor à mulher que amava.
«Gosto muito de si» foi também o que António Lobo Antunes me disse no último bilhete que me escreveu, já arrancado com força sobre-humana à dificuldade das suas mãos segurarem a caneta, ao contrário das mãos leves do senhor das miniaturas de madeira tosca. E despedia-se o António com um «abraço bem forte» logo reforçado, para que não sobrasse sombra de dúvida, «que isto fique bem claro, um abraço bem forte».
Eis o que tenho a dizer: nunca se gosta o suficiente de quem gosta assim. Nunca se abraça o suficiente quem nos abraça assim.
Já está nas livrarias um livro que organizei e para o qual escrevi o texto de apresentação que é, diga-se, quase metade do livro. Estou a falar do Sermão da Montanha, que publiquei na colecção Livros Brancos. É um dos mais belos e comoventes textos da História da Literatura.
Deixo-vos um bocadinho do que escrevi:
«Eu. A multidão acaba de ouvir o que, na boca do que parece ser um profeta, é uma palavra nova. É um «eu» que nunca tinha sido dito desta maneira: é um «eu» legislativo, é um «eu» que muda o horizonte divino.
Diálogo pejado de adversativas a cada evocação da Lei, o Sermão da Montanha é um triunfo exuberante do «eu» que o pronuncia. Jesus Cristo, o homem de 30 anos, reescreve e reinterpreta a Lei. Será que a nega? Com o seu insistente e sonoro «Eu, porém, vos digo», o homem de 30 anos, sentado numa colina de altura negativa, 210 metros abaixo do nível do mar, fere o mundo que o precede para inaugurar o que ele parece desejar que seja o reino radical de uma compaixão incondicional, um mundo de Amor, um mundo de Ágape.
É inútil esconder um deslumbramento – também um tremor? – que dura há séculos: o Sermão da Montanha é um cântico de utopia. Porventura irrealizável. Talvez seja mesmo essa radical impossibilidade que converte o Sermão no manifesto sublime que é. Lê-se como um texto – dos mais escandalosamente doces – da História da literatura. Emana dele uma abundante e irrecusável repercussão filosófica, comparável à que, desse improvável Homero, a Ilíada nos oferece, comparável também à que, do mais certo Hesíodo, os versos da Teogonia, de Caos a Eros, nos revelam da mítica origem do mundo. Começa aqui, neste atónito encontro de um homem e de uma multidão, qualquer coisa de novo, uma reinvenção do mundo? Sim, começa.»
E umas páginas à frente, acrescentei:
«A poética do Sermão, as suas profusas analogias, os seus «lírios do campo», as «aves do céu», a «luz do corpo», as «vestes de Salomão», bem como a vívida linguagem em que emergem «tesouros», «ladrões», «a cidade no cimo da montanha», «o reino dos céus», «lobos ferozes», «uvas e espinhos», tem um fôlego estético que, na Bíblia, talvez só se encontre nos Salmos ou no Cântico dos Cânticos.»
E desse prodigioso Sermão da Montanha, de que me atrevi a fazer a minha tradução/versão, leiam este passo, verdadeira revolução naquele tempo. (Se é que não continua a ser uma «revolução» hoje!)«Ouvistes que foi dito: “Olho por olho e dente por dente.”
Eu, porém, vos digo: não resistais a quem vos faz o mal. Em vez disso, àquele que te agride na face direita oferece-lhe também a esquerda; e àquele que te quer levar a juízo, para te arrebatar a túnica, oferece-lhe também a capa; e se alguém te forçar a acompanhá-lo por uma milha, caminha com ele duas.
Dá ao que te pede. E não voltes as costas ao que te pede emprestado.
Ouvistes que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.”
Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos, abençoai os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos desprezam e perseguem.»
Vou ser muito directo: gostava muito que fizessem o favor de ir a uma livraria e comprassem o livrinho ou o encomendassem no site da Guerra e Paz. Não é só um generoso favor que fazem a este pobre autor/editor: Arrisco dizer que lerem o Sermão da Montanha é um favor que se fazem e uma forma generosa de se tratarem bem, caros leitores.
Que frio está lá fora. Peço licença para me enfiar nessa manta a que o(a) caro(a) leitor(a) se aquece. E por cima da manta vamos correr o álbum dos livros de Janeiro. Por esta ordem: Guerra e Paz, Euforia, Gradiva. Os meus livros de Janeiro
Quero lá, querem lá os meus leitores saber do frio de Janeiro quando têm à mão as edições afrodisíacas da Guerra e Paz, a começar por A Mitologia Grega de A a Z, de Luc Ferry, obra povoada de Afrodites (ou Vénus), de Eros e da embriaguez de Dionísio: a desordem e a volúpia dos deuses gregos, a companhia de sereias e musas faz deste livro e dos seus mistérios uma leitura abrasadora. De Os Livros Não se Rendem, colecção patrocinada pela gentileza e amor aos livros da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações. Agora encostem-se sem preconceitos a António Botto se querem sentir o calor do que era um escândalo para o Portugal dos anos 50: no Caderno Proibido, como lhe chamou Botto, há nudez e abraços violentos, mas também a ternura de, e cito, «foder um corpo delgado, / Seios duros, pequeninos […]/ Ancas descidas de mocinho…». Nunca publicado até hoje, este erotíssimo inédito foi organizado e prefaciado pelo professor Victor Correia. Um muito mais contemporâneo afago dos corpos, eis o que inunda as narrativas ficcionadas (ficcionadas?) que o romancista Virgílio Castelo (sim, também é actor) assina em Consumo Obrigatório. Uma viagem por boîtes, discotecas, bares bem ou mal-afamados, viagem que é a autobiografia de toda uma geração: a sua, caro leitor? Depois disto, de que outra coisa vos iria falar que não fosse de lendas e contos de fadas. Só queria que tivessem o livro na mão. É das coisas mais bonitas que já fiz na vida: chama-se Lendas e Contos de Fadas Japoneses e das suas 144 páginas, 47 são de ilustrações japonesas deslumbrantes, de cores arrebatadoras. Por este livro, Deus e os demónios perdoar-me-ão todos os desacatos que me queiram arrolar: quem não quer ler contos como «O cortador de bambu e a criança da lua» ou «O pardal com a língua cortada»? É o primeiro de uma série: a seguir vêm aí os contos de fadas chineses. Parece também um conto de fadas: um homem fala a uma multidão e declara bem-aventurados os mansos e humildes, os perseguidos e os que sofrem. O homem tem 30 anos, dá pelo nome de Jesus Cristo, e essa pequena maravilha retórica, o Sermão da Montanha, que nos instiga a amar os nossos inimigos e a oferecer a outra face a quem nos agrida, é uma das mais belas utopias já ditas e escritas por nós, os humanos. Agora, com uma apresentação que eu, Manuel S. Fonseca, assino, o Sermão da Montanha junta-se ao Cântico dos Cânticos ou à Alegoria da Caverna, na colecção Livros Brancos. O professor de filosofia Alexander Douglas dá, creio eu, eco ao Sermão, quando nos avisa contra a obsessão do eu. Leiam um dos mais lúcidos livros do ano passado no Reino Unido: Contra a Identidade, A Sabedoria de Escapar do Eu, diagnóstico de uma das grandes aflições contemporâneas. Venha de lá o passado. De um historiador medievalista, Pierre Bauduin, Os Vikings é uma magnífica e actualizadíssima apresentação de uma civilização que nos desafia. Não se esqueçam das violências e pilhagens, mas leiam-no para descobrir mil outras facetas de uma civilização pletórica. Em Janeiro, dois estudos e um sombreiro? De provérbios nada sei, mas sei que vou publicar dois estudos com mérito. Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999), é um rigoroso trabalho de fundo do historiador Alfredo Gomes Dias. Temos a honra de o publicar em parceria com a Fundação Jorge Álvares. Tal como em parceria com a Academia Militar e o Instituto Universitário Militar se publica Guerra e Disrupção, textos de dez especialistas sobre estratégia e ciência militar, com coordenação de Luís Barroso, António Paulo Duarte e Pedro Ferreira. Reservo os últimos suspiros de Janeiro para duas fortes e convictas apostas polémicas. Primeiro para o extraordinário e tocante Refém, de Eli Sharabi. Eli foi um dos judeus raptados pelo Hamas no 7 de Outubro e esteve em cativeiro 491 dias. Narra esse tormento de forma crua, directa, sem rodeios. Terão a mulher e as duas filhas sobrevivido? Um documento que dói e fere muito mais do que qualquer ficção. Ecrãs, um desastre sanitário, da neurologista Servane Mouton, é um panfleto brilhante sobre o uso dos ecrãs, dos smartphones, e sobre os terríveis efeitos detectados. Baseado nos mais recentes estudos, este livrinho, que se lê de um fôlego, com bela tradução de Miguel Graça Moura, é um vivíssimo alerta: «antes que seja tarde demais.»
Vamos e vejamos e no vai e vem chegamos à EUFORIA: A chancela que a Rita Fonseca criou ganhou a carta de alforria. Cresceu em 2025 213% em relação ao ano anterior e tem um público definido, muito específico. Passa por isso, agora, a ter uma newsletter própria, tal como terá o seu próprio site. Despeço-me, ainda assim, dizendo-vos que em Janeiro há dois romances sufocantes. Em Tóxico, de Nicole Blanchard, a heroína casa primeiro com um homem abusivo e apaixona-se, depois, por um recluso perigoso. Se há beijos intoxicantes? Bom, no mínimo. Já a autora Navessa Allen (há 52 semanas no top do NYT bestsellers) oferece-nos O Crime de São Valentim e deixa-nos uma inquietação: pode alguém ser enterrado vivo por mero acaso?
Que 2026 seja o ano de alguns prodígios e que esses prodígios sejam da nossa GRADIVA. Começa, agora, em Janeiro de 2026, a nova Gradiva, e da mão de Guilherme Valente, seu fundador, para a minha mão passa o mesmo testemunho, como se estivéssemos numa corrida de estafetas. O livro que inaugurou esta casa editora há 45 anos é o primeiro livro desta nova vida da Gradiva: Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen, de Sigmund Freud. Tal como o Guilherme, acredito no valor simbólico de um livro que exala o perfume do que Freud chamou a «cura pela sedução e pelo amor». Para começar em beleza, é este o primeiro dos oito títulos Gradiva deste mês. E agora aligeiremos: tem estado um frio de rachar. Para aplacar os lobos de Inverno pedi ajuda ao Calvin & Hobbes, de Bill Watterson. À lareira ou entre cobertores, Calvin & Hobbes, O Ataque dos Demónio da Neve resgata-nos e devolve-nos a alegria, o riso e o sorriso, desenho a desenho, em edição novinha em folha. Passam os Invernos e o nosso descontentamento não nos deslarga: tanta é a sede e fome de plenitude, a sede e fome de perfeição! E é sobre essa busca espiritual, essa busca de uma harmonia universal, que nos escreve Luís Portela, em Ser Espiritual, da Evidência à Ciência. Prometo-vos uma viagem de um prazer inebriante – e de um rigoroso desafio – do que a série da RTP, «Para Além do Cérebro», foi há pouco veículo, uma viagem que nos religa a uma outra dimensão, a da Energia Universal. Utopia? E será que viver sem utopia é viver? E por que utopia – ou só realidade – nos guia Carlos Fiolhais em A Inteligência Artificial de A a Z? Com mestria, Fiolhais, porventura o nosso melhor pedagogo, leva-nos da entrada «agentes inteligentes» à entrada «Zuckerberg», preparando-nos para o avassalador mundo de amanhã: a inteligência de Fiolhais disseca a complexa Inteligência Artificial. Um choque? Sim, enciclopédico. E há um novo livro na colecção Ciência Aberta: de Elói Figueiredoe C. Matias Ramos, A Ciência Descobre, a Engenharia Cria. O subtítulo, «uma visão em doze axiomas e meio» deixa-me tão perplexo como encantado, e o que me tranquiliza é que Carlos Fiolhais, no posfácio, me jura tratar-se de «uma magnífica introdução à engenharia». Com o apoio mecenático do dstgroup e o patrocínio da Ordem dos Engenheiros, este é o livro que nos ensina que a função da engenharia é simplificar, mas que se o risco se minimiza, tal não significa que se anule. Axiomas. Há dois livros de Janeiro que nos fazem pensar a Europa, a do passado e a do futuro. Um, O Esplendor das Amizades: A experiência portuguesa de Edgar Morin, é coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins e é um esplêndido relato do que era o Portugal da ditadura e de como os católicos do Tempo e o Modo descobriram a Europa através deEdgar Morine de como Morin descobriu, em amizade, o melhor de Portugal. Já em O Mundo de Amanhã: Uma Europa Soberana e Democrática, o austríaco Robert Menassepartilha a morna angústia do nosso tempo europeu, cheio de dúvidas, défices e conflitos, procurando, ainda assim, arrancar desse pântano um frágil módico de esperança. A fragilidade será uma arma? Onde começa e onde acaba a fragilidade em Ian McEwan? Na delicadeza das ideias ou na argúcia psicológica? Na sua narrativa tão minudente? E de onde surge, abrupto, o simbolismo quase brutal desses Cães Pretos, que dão título a este romance humano, demasiado humano? Que cães são esses? Autênticos, só cosa mentale, metafóricos? A verdade é que são vorazes e ferozes. São os livros Gradiva de Janeiro. Oito: da ciência ao cartoon, do pensamento à grande ficção.
Que alegria é esta, que alegria é a alegria que se desenha no rosto de Rita Hayworth? E quem é esta Rita, que já, contando pelos dedos, mudou oito vezes a cor do cabelo, que é agora tão ruivo como o ruivo da mais ruiva das irlandesas?
Uma coisa é certa, Rita pode não ser irlandesa, mas na camada anglicizada que lhe cobre a pele, que lhe maquilha os olhos e a boca, ninguém consegue adivinhar um grão da hispanidade em que nasceu e foi criada.
Rita Hayworth nasceu Margarita Carmen Cansino, filha de um bailarino espanhol. Morena, cabelo negro de encarapinhados caracóis, quis fazer carreira no cinema, num tempo, meados dos anos 1930, em que os marujos americanos invadiam os cinemas de Los Angeles para arrear em tudo o que fosse latino. Os marinheiros acendiam as luzes, paravam os filmes, arrancavam os pés das cadeiras e mexicano que se prezasse era espancado e atirado do balcão para a plateia, com a certeza de malévolas marés.
Hollywood não era – ó se não era! – imune ao preconceito. Margarita Cansino teve de apagar a sua latinidade: a começar pelo nome e a acabar no cabelo. O que seduziu os produtores foi ver o seu então extraordinário metro e 68 a dançar. A menina Cansino era apagadita, que Nossa Senhora lhe acuda, mas quando dançava, sobretudo os movimentos dos joelhos para cima, o seu «big bang» de ancas, a dançante e perfurante simetria das libérrimas mamas, eis o que assombrava plateias.
À volta da menina Cansino desenvolveu-se uma certa tendência para que homens de meia-idade a quisessem proteger, se é que estou a usar o termo com propriedade. Um deles Edward Johnson, 40 anos de um gordo desengraçado, crânio mais desértico do que arborizado, casou-se com os 18 anos dela. Este Eduardinho fora vendedor de automóveis; passou a ser pai, marido, professor, agente, ensinando Margarita, agora já só Rita, a vestir-se, a comer à mesa, a falar.
Rita converteu-se, então, numa estrela. Era, talvez (e ajudem-me a estrangular este talvez, tirem-me o raio desta palavra do dicionário!) a mulher mais bela do mundo. Vejam-na: hoje é dia 8 de Setembro de 1943, ontem houve uma folga nas filmagens de Cover Girl, mas filma-se de novo agora, Gene Kelly e Rita estão em cena e há qualquer coisa de diferente na cara de Rita. Que alegria é aquela, tão verdadeira e incontrolável? A boca de Rita soluça alegria, os olhos, o corpo dela cintilam. Eis o que alguém que lá estava me disse: a tanta alegria de Hayworth faz pequena, quase risível, toda a alegria que o mundo anterior a esse Setembro de 1943 já sentira.
«É um segredo!» explica Rita a quem se espanta com tão incandescente felicidade. E depois confessa: «Casei ontem em segredo com Orson Welles.» Tinham-se conhecido num programa de rádio. O imenso Orson, com a sua cara de bebé depravado, teve logo ali um amoroso AVC: uma coisa era já ter visto as fotografias de Rita, como «pin-up», as longas pernas, o fato de banho a desenhar tanta fonte de desejo; outra foi olhar de frente a luz do próprio sol.
Marcaram encontro. Orson encantou-a: trouxe Shakespeare para a mesa, fê-la rir com Mark Twain, deu-lhe a beber Safo e Dante. Rita mergulhou, maravilhada, nesse mundo como nós numa viagem cósmica. Casaram.
Nos quatro anos de casados nunca ninguém foi tão feliz: Orson chamava-lhe «angel girl», «queridíssima bebé», dizia-lhe «és a minha vida, a minha verdadeira vida» ou «que o sol ande mais depressa para eu poder voltar a ver-te» quando não estavam juntos, e assinava «o teu rapaz».
Apetece ser assim, lamechas, sentimental à «outrance»; afinal é tão breve a nossa vida breve.
O Gil foi a enterrar no dia 19 de Dezembro. Escrevi este texto na manhã de sábado, dia 20. Mas quis, e o Expresso e o Miguel Cadete gentilmente aceitaram, que ele fosse publicado no jornal onde ao longo de alguns anos o Gil escreveu notáveis artigos literários. Ontem, o Expresso publicou-o. Hoje, deixo aqui aos meus amigos deste mural, esse texto de despedida. O Gil (e a Céu) é um pedaço muito grande da minha vida, da vida da Antónia, e da minha filha Rita. O Gil foi a enterrar. Um dos bocados mais ternos, mais desconcertante, mais genuíno da minha vida – e da Antónia – foi a enterrar com ele.
Gil de Carvalho: depressa e devagar
Foi agora, na tarde fria de Dezembro. Estava ali o Gil, deitado na urna, os fúnebres panejamentos alvos a combinarem com a sua tão bem aparada barba branca. Mão hesitante, afaguei-lhe a testa: um gelo antárctico onde em vida estava o fogo de um vulcão. E assim, dedos no crânio, nos despedimos.
Conhecemo-nos, em 1973, estertor da Velha Senhora à vista, na então tão bonita pastelaria São Carlos, na Rua da Beneficência. Ele 18, eu 19 anos. Foi amor à primeira vista. Eu viera de Angola estudar Direito e não parámos de falar. Eu a exorcizar o medo de Lisboa com gritadas saudades da Mutamba e da Ilha, ele a locupletar-se com esses frutos dos trópicos que eu tirava do avental, reinventando um imaginário, que a breve passagem por Luanda, com o pai em missão militar, mal lhe autorizava.
Vivíamos, nesse Verão de 1973, em silenciosos quartos alugados que só o estardalhaço de algum comboio na estação do Rego se permitia romper. Uma semana depois, com o João Carlos, filho da professora de Canto Coral do meu liceu de Luanda, alugávamos um apartamento na Padre Francisco Álvares, ao lado do Jardim Zoológico. Conquistámos assim a liberdade, o direito à boémia, o estriduloso desregulamento da ordem do dia e da noite. Estou pronto a jurar que o cheiro dos animais do Zoo nos chegava pela madrugada, talvez fosse o intenso aroma dos dejectos dos elefantes, e vínhamos à varanda gritar, «Cagaram no Mundo», como quem gritava uma palavra de ordem.
O Gil era já, e era só o que queria ser, um poeta. Mas à mitologia de escassez e reclusão da que viria a ser a fase final da sua vida, da sua vida de Gil de Carvalho, é de justiça pôr em paralelo uma outra mitologia, a que eu nunca deixarei de amar, a do Gil pletórico, guloso de vida, excessivo, por vezes truculento, a vida de Gil Abrunhosa.
Eu, um amigo, o Semedo, e o Gil, em pose descabelada. Nenhum de nós fuma, os charutos eram uma excepção festiva.
Circulávamos em bando nas finíssimas horas da madrugada, a Guida, a Vanda, o Tomã, também connosco. Entre a fumarada de morte do tabaco e a límpida ressurreição de uma aguardente cê-érre-éfe, tão depressa batíamos manilhas e asas, avançando para a destrunfa, que «este filho da puta há-de pagar-mas», como «por las 6 en punto de la tarde», se não se importam com a parvoíce da paráfrase (o que adorávamos parvoíces e paráfrases), o Gil avançava, e eu de arrasto, para as manifs contra o regime, na Praça do Chile, no Rossio, na Praça da Figueira, no Largo do Rato, até mesmo na António Maria Cardoso. Éramos só os dois, nos fins de tarde de Lisboa, entre vultos evasivos, a polícia de choque a estimular em nós os dotes de corrida de uma gazela de Catete, mas era como se, só os dois, estivéssemos, heróicos, a refundar a ordem do mundo. Éramos capazes de matar por um número da revista «Tel Quel», gritávamos de madrugada contra o fascismo versos dos «Cantos» do talvez fascista Ezra Pond.
Foi assim, nesse ano de 1973, até Março de 1974, em que vivemos juntos na Padre Francisco Álvares. Assim seria, depois, a partir de 1977, quando regressei da independência de Angola.
Alugámos uma casa, um esconso, num 5.º andar da Cidade de Liverpool, aos Anjos. Éramos três casais, o Gil e a Céu, eu e a Antónia, o Da Guia e a Catarina. Abreviando, não tínhamos um tusto e tivemos de disputar essa casa aos ratos que vinham das roídas paredes de tabique. Vencemos. Na maior parte da casa só se podia andar de gatas, tão rasteiro era o esconso. Metáfora feliz, o Gil chamou-lhe «o pombal dos Anjos». Só havia uma casa de banho e era preciso, por alma de todos santos, Emmanuel Lévinas incluído, evitar que o Gil, de manhã, fosse o primeiro a lá entrar com um livro na mão.
Por duas das janelas ia-se para o telhado e sentávamo-nos à noite, gatos vadios a ver as luzes de Lisboa. Nos dias de canícula, regávamos as alcantiladas telhas à mangueira para cortar o que lá dentro era um irrespirável calor equatorial. E o que quero dizer é que «o pombal dos Anjos» era uma vergonhosa mancha de felicidade e de permanente e epifânica alegria, com música, gritos, festa, futebol, saltos e pedaços de tecto a caírem sobre as camas dos vizinhos de baixo.
Essa ruidosa alegria e espalhafato extravasava o «pombal». Em plena Almirante Reis, a meio de uma tarde, numa rocambolesca discussão sobre guerra ultramarina, para vergonha da Céu e da Antónia, o Gil e eu abrimos as camisas e lançámo-nos ao chão, rastejando à comando pelo alcatrão, aos gritos de «até à Portugália, até à Portugália».
Já a minha filha tinha nascido, cada casal com casa própria, deu-nos, ao Gil e a mim, um bizarro sopro de saudade: «Há quanto tempo não nos metemos no cacilheiro até à outra banda? Vamos mostrar à Rita o cacilheiro, o rio, a neblina de Outono.» Fomos. A Rita, os cinco anos a darem-lhe um imparável balanço às pernas, ia pontapeando o passageiro à nossa frente, um «velho» que se deslargou em resmungos e impropérios. O Gil, que adorava a Rita, afrontou-o, «Queres ver que este tem de ir borda fora?», fazendo desandar o cavalheiro e dando total liberdade ao trote nervoso das perninhas da minha filha.
Em Lagos, em Salema e em Altura partilhámos as casas de férias, com discussões homéricas sobre a organização dos dias, almoços e jantares, e sobre as limpezas – «estes riscos no chão não são meus. Só limpo até aqui!» – ou sobre política (nós, os deserdados do maoísmo) ou sobre as falésias de Ernst Jünger ou sobre René Girard, que tanto nos iluminou sobre as coisas escondidas desde a fundação do mundo.
Puxávamos de pistolas quando tínhamos de discutir romances e filmes ou o autêntico sentido do termo «clinamen», eu sempre a lembrar-me da navalha ponto e mola com que, aos 18 anos, o Gil saía certas noites, sei lá se para clandestinos encontros políticos ou amorosos. E se, nesse distante Neanderthal de 1973, éramos simpatizantes do «Ousar Lutar, Ousar Vencer», o que mais nos uniu sempre foi a rejeição à visão do mundo e dos costumes do partido do camarada Barreirinhas.
Se evoquei tudo isto não foi para opor este lado da vida do Gil à imagem a que, por certo e por ser da ordem escolar de alguns círculos e seitas, lhe quererão enfeudar a obra de mais de uma dezena de livros de poemas, contos ou relatos, alguns tão breves como fulgurantes ensaios.
A poesia de Gil de Carvalho, que começou por assinar Gil Abrunhosa numa plaquete colectiva, «Asterisco», passando a Gil Nozes de Carvalho em «Alba» e «Aboiz», só depois se fixando em Gil de Carvalho, a poesia dele, dizia eu, é uma soberba intelectualização dos «materiais da vida»: há Poço do Borratém e Almirante Reis a desaguarem no sofisticadíssimo léxico do poeta. Há versos de raparigas «ao ataque», «joviais putinhas», e garanto que as ervas dispersas que roem o passeio de um largo meio deserto, em «A Cidade de Cobre», pisou-as o Gil em Xabregas. Vulvas e dedos, esperma e «coitus cantabile», gritos e estrangulamentos, nomes que atravessam os seus poemas, são traços fumegantes de uma vida vivida.
Não me «delicadizem», por favor, a poesia do Gil. A sua sensibilidade alimenta-se também da esplêndida crueldade animal. Muita da reclusão do Gil deve-se à forma tão especial como se roçava pela natureza, sem temer o sangue, o mênstruo, as garras ferozes e a caça, o focinho e o «cu do bicho».
Aos 18 e 19 anos, nada faria calar em nós o espanto e o fascínio pelas exclamativas «l’élégance, la science, la violence» de Rimbaud, como nada sufocaria o «riverurn», nosso riocorrente, que eram as juvenis laudas que dedicávamos ao «cunnilingus» e ao decantado botão-de-rosa, «portmanteaux» do nosso imaginário antifascista, esse sim, se o fascismo era o cinzento imaginário sexual que então oficialmente vigorava. Desse fetichista pedaço das nossas vidas é memória um verso iconoclasta de «Tarantela & Viagens»: «Na tua posição sexual favorita. Lambida por trás e / Fodida na raia pela frente.» Ou ainda: «Acende a prece / nas palhetas da vulva sobre o ânus.».
Sim, fecho os olhos e volto a ver a boca gulosa do Gil a devorar a vida, excessivo, esfomeado, num período deslumbrado com a marginalidade, das putas ao chuleco, do lustroso vígaro ao pequeno delinquente, um ano depois transferindo essa devoção obsessiva para o estudo dos coleópteros. E depois para a China e depois para o judaísmo.
Excessivo no amor, excessivo nos ódios, que nele eram também ódios obsessivos: aos carros em cima do passeio, aos políticos, esses frankensteins, à americanização, aos costumes em mudança, recusando aprender a manejar um computador, recusando o telemóvel que eu lhe dei quando trabalhou nas minhas editoras, a Três Sinais, de que o Da Guia e eu o fizemos sócio, e a Guerra e Paz, mas de que é exemplo de altar, e não tecnológico, a desolação face à púbis rapada, que também aflora e se exibe nos seus poemas.
Este de que vos falei não é, esclareço, «o meu Gil», este era o Gil. E sem se chamar esse Gil à pedra, mal se compreenderá como a sensibilidade e subtileza, quase intimista, dos seus poemas é abalroada por súbitas explosões de imaginação e espontâneas inovações e invenções lexicais.
De onde vêm as elipses, as rupturas e as intermitências que travam o que, às vezes, nos seus poemas e nos seus contos-relatos parece ser um desejo de discursividade, quase uma promessa de narrativa? O que afoga a tentação da linearidade, de que ele tinha o domínio, é a onda violenta, o maremoto que era a vida dentro do Gil. A expressão desse vulcão, o Gil só pôde fazê-la fluir literariamente pela mais elevada ironia, uma ironia que o sarcasmo vem uma ou outra vez lamber com um trágico desencanto, nunca o Gil prescindindo de um princípio que foi a sua fé: a soberania do acto poético.
Fogoso, pletórico, guloso da alegria e da vitalidade na sua própria vida, a poesia de Gil de Carvalho exige vagar, muito e tão devagar. E exige despojamento espiritual.
Não sou eu que o recomendo. Foi o Gil que deixou o aviso nestes versos, em que adivinho um distante eco de Dylan Thomas: «… recomendou / aos inimigos que não fossem / com dedos frios abrir / a rápida porta, / na noite.» Leiam-no e aqueçam nele os vossos dedos. Devagar.
Uma festa em minha casa. Além do Gil, ao fundo, estão também o Dinis Machado, o Cintra Ferreira, e o grande cirurgião António Setúbal. E estão, lindas e ambas de cabelo curto à frente, a Antónia e a Céu, nossas ditas caras-metade.
Que interessa o fim e o começo se o Novo Ano não for ano de mudança? E o que é a mudança se não mudarmos por dentro, se não mudarmos nós próprios? Temos, porém, horror à mudança. Medo, muito. É sobre a mudança e o medo dela que esta crónica me fala. A todos, um excelente 2026 e até para o ano.
«O povo já está a ficar…» E interrompo o que o Dr. Jerónimo Elavoko Wanga, ilustre militante da UNITA, ministro do governo de transição de Angola, em 1975, me vai já dizer, para antes confessar que nunca mais me esqueci, e cada vez mais me lembro, da frase lapidar com que então, a poucos meses da independência da terra amada que não me viu nascer, ele me escandalizou.
Depressa veremos o que é que «o povo já está a ficar», mas preciso que me dêem a mão e viajem comigo. Venham. Eu era um rapaz de Luanda que desaguara revolucionariamente no Lobito: professor de literatura no liceu, fazia comícios, anunciava o homem novo e, em plena terra do galo negro, o sonoro símbolo kwacha de Jonas Savimbi, proclamava a primordial pureza do seu inimigo figadal, o movimento do retornado poeta de um verso profético: «às nossas casas, às nossas lavras, havemos de voltar.» Voltámos todos.
Seja como for, no Lobito, Savimbi hospedava-se do outro lado da rua onde eu morava: se eu saltasse, do meu 5.º andar, cair-lhe-ia ao colo, e, eis o problema que estávamos com ele, eu andava a fazer uma insustentável algazarra e a arrastar a juventude.
E o que o Dr. Wanga, que os meus olhos então viram com o ar eriçado de uma hiena e agora vêem como um bom homem… repito, o que Jerónimo Wanga me disse foi: «O povo já está a ficar fodido convosco.»
Eu era um revolucionário rutilante: em boa verdade, só eu, sozinho, era uma flotilha a navegar mediterrâneos de utopia. Do alto da colossal e resplandecente sabedoria dos meus 21 anos proclamava o poder popular, a violência revolucionária, um mundo de que se varreria a abjecção da desigualdade, o ópio alienante de todo o passado canalha. Ai ué Nzambi, o futuro do vento leste, esse limpo e lavado sopro proletário-camponês, esse mundo de cantado amanhã, perfeito e imóvel para sempre, forever e forever de nunca acabar… eis o que o pesado coração e a leve cabeça me instigavam a proclamar.
Estou para aqui a deixar a minha crónica falar, mas não é bem isso que quero que ela diga. Vou corrigi-la. Nesses dias e tantos meses de 1975 (quantos foram?), uma faca trazia-me retalhada a alma. Da boca para fora, saíam-me as grandes parangonas revolucionárias, mas no tumular silêncio do meu coração recolhiam-se, protegidos e clandestinos, canções e poemas, filmes e livros. Disfarçado, metia-me por nocturníssimas vielas, para deixar tocar dentro de mim os adolescentes Beatles; o Keith Jarrett em Köln; um fado de «coração por aí por onde vais» até; uma carta da remota Pinhel com as tão deliciosas reaccionárias saudades de mãe, pai e irmã; o desperdício de versos burgueses de colher na boca e amor em visita.
Se era essa a metade da alma que eu queria, o que fazia, então, de mim o refém dos sórdidos túneis da revolução, que tentava enfiar pela garganta sem espinhas do povo? Que flotilha de presunção, sem água benta, me fazia esconder o intrincado e complexo mundo de milhões de pensamentos, afectos, dilemas, intenções e dúvidas – que eu sabia existirem! – agarrando-me a uma cartilha tão tansa como astuciosa?
Vaidade e medo, diria hoje, eis os ingredientes do mais feroz revolucionário. A vaidade de ser único, de ser guia e «educador», de arrastar um cortejo de condenados. E o que, quando se apercebe da armadilha, faz o revolucionário persistir é o medo de ser excluído por tantos companheiros, camaradas, amigos, palhaços.
Aos que têm medo de deixar cantar as dúvidas, os poemas, o tão antigo e sábio passado, o raio dessas coisas a que chamamos conforto, carinho e saudade, talvez não seja mau que ouçam a frase imortal que o ministro Wanga disse, em Luanda, terra amada em que já não irei morrer.