Eis o verdadeiro nome de Bruno Lage: campeão

 

bruno
Foto Record, com a devida vénia

Já sabia, com uma certeza de menino, que íamos ser campeões. Os minutos que tive de esperar pelo centésimo golo deste campeonato – rotação de cento e oitenta graus de Seferović e bola a casar, metafórica, com a rede –, foi só o sereno e atempado acerto dos ponteiros da realidade universal com o relógio ansioso da minha sonhadora subjectividade. Aliás, num gesto de indigna agiotagem, tentei criar uma bolha: convidei a família e amigos a apostar em quem marcaria o primeiro golo e adiantei logo o nome dos dois pés do goleador suíço.

Mas deixem-me voltar ao menino, à minha certeza de menino, que é de meninos e da certeza dos meninos que quero falar. Wittgenstein já não era menino quando escreveu as notas do livrinho a que se deu por título Über Gewissheit, que dito em português se traduziria por Sobre a Certeza. A filosófica certeza de Wittgenstein está nos antípodas da minha rubra certeza de menino. A certeza de Wittgenstein é céptica e epistemológica. A minha certeza é cândida e de um radioso optimismo. E é, porém, uma certeza behaviorista, decorrente da cristalina sucessão dos factos e dos comportamentos. Já falei do golo do bósnio-herzegovino Seferović. Deixem-me falar do segundo golo. O seu autor, João Félix, tal como o Tolstoi de Guerra e Paz, o Cervantes do Quixote, não sacrificou, nessa jogada, um átomo de estética, de rutilante beleza, a uma pretensa eficácia. Um tecnocrata “chuta já”, um calculista “enfia-lhe um biqueiro”, se algum anjo do mal soprou essas ignomínias ao ouvido juvenil de João Félix, foi como opor um castelinho de areia à intravável liberdade das ondas do mar. O interesseiro óbvio bem pode ulular que João Félix está, a começar pelo seu pé direito, apaixonado pela beleza. O pé direito de Félix puxou a bola como se fosse um jogo de futebol do meu bairro de Luanda, e o defesa… uatobo… aterrou na relva, buelo de perplexidade, se me perdoam a redundância luso-angolana. E logo o pé esquerdo, numa fracção einsteiniana, ilude o tempo e o espaço de outro defesa e do guarda-redes, inventando um ângulo alto, limpo, vasto por onde a bola viaja, em luxo, volúpia, clamorosa harmonia e pulcritude. Os dicionários chamam-lhe golo. O povo chama-lhe golaço, fogo, golão.

 Mas peço-vos que acreditem em mim. A minha certeza de menino não segue a canónica cronologia. A minha certeza não é de causa a efeito. A minha certeza de que seríamos campeões fundou-se no que sabia que aconteceria e aconteceu: nas lágrimas profusas, adultas, cheias de gratidão e felicidade do camisola 10, Jonas, à espera de entrar, junto à linha lateral. A minha certeza de menino decorre da íntima antecipação da alegria dos abraços, do gigante Jardel a correr aos saltinhos como uma menina de liceu, depois de passar a taça a um companheiro. A minha certeza de menino já sabia que Eliseu voltaria com estilo e banga na sua resplandecente lambreta e que Gabriel havia de segurar no ar o menino que é Rafa, pegando-lhe pelos cueiros e pela inrasgável camisola vermelha.

E peço-vos que acreditem, a minha certeza campeã, a minha certeza de menino nada tem que ver com as vitórias do passado, tem tudo que ver com a certeza das vitórias do futuro. Quando vejo e ouço Bruno Laje vejo outra vez um futebol menino, o futebol do prazer de jogar, o prazer de abraçar o adversário, o prazer de dizer o nome do adversário, o Futebol Clube do Porto, o Sporting Clube de Portugal, com a certeza de que a nossa vitória é inútil se eles não forem também grandes.

Eu sei que as certezas de menino são descartáveis como fraldas sem nome, mas hoje, a acrescentar à velocíssima beleza das pernas de Rafa, à socrática maiêutica com que Samaris aborda a batalha de meio-campo, à generosidade gigante de André Almeida, à forma como a as nossas leis fecham os olhos permitindo a presença em campo de putos de infantário como o Rúben, Ferro, Florentino, Gedson, Félix ou Jota, Bruno Laje deixou cair um pingo de História no título de campeão. Laje convidou-nos a dizer o nome do adversário. É um gesto que faz dele ainda mais campeão. Laje, hoje, engrandeceu o futebol. Restitui-o à sua condição de desporto, um divertimento cuja nobreza radica no fair-play dos seus praticantes.

Eis a minha certeza de menino: já sabia que íamos ser campeões, mas não sabia que, com Bruno Laje, era todo o futebol português que seria campeão com o Sport Lisboa e Benfica.

Foto paulo calado record
Foto Paulo Calado, Record, com a devida vénia

As bombas atómicas de Palomares

Paco el de la bomba
Paco el de la bomba

É que nem Deus aceitava. Francisco lembra-se. Humilde e cristão, chegou-se a Nosso Senhor com um prato de vermelhíssimos camarões de Palomares: “Aceita Senhor, Bom Deus!” E logo o poliglota patriarca das barbas, com um vozeirão que tomara Pavarotti, declinou: “Pues, Paco, hijo mio, no gracias, que te hagan buen provecho.”

Nesse 17 de Janeiro de 1966, Francisco Simó Orts, filho de Deus e de Palomares, levantara-se cedíssimo, umas não sei quantas da matina, hora de Marcelo, que às 6 já o seu barco zarpava do cais, Mediterrâneo dentro, à pesca de camarões. Levava quatro horas de faina, eram dez e meia da manhã, e Francisco dá conta de que arrastavam cadeiras no celestial firmamento – levanta, por isso, os olhos ao céu. Vê um incêndio lá no alto, a dez mil metros, já perto de um dos dedos mindinhos de Deus. São, parece-lhe, aviões a explodir, e eis que, primeiro uma pequena bala negra, depois, à medida que desce, a tétrica sombra do tamanho de dois caixões, se aproxima, apontando, sinistra, ao barco. Francisco e a tripulação manobram e o aterrador maná do céu tomba ao lado, afundando-se onde o Mediterrâneo é mais fundo.

Céu e mar regressam à sua imemorial indiferença. E, não obstante, acabara de cair à frente de Francisco e dos seus pescadores, uma bomba atómica com uma potência 17 vezes superior às de Hiroxima e Nagasaki. Não calemos a verdade: foram quatro as bombas atómicas que, naquele 17 de Janeiro, caíram sobre Palomares. Vinham num B-52, numa operação secreta da secreta Guerra Fria. O B-52 tentara a rotineira acoplagem com um avião de abastecimento, mas houve uma explosão, que logo matou sete tripulantes. Quatro aviadores do B-52 ejectaram-se e as quatro bombas atómicas soltaram-se também e desceram não activadas sobre Palomares. Três caíram em terra. Nenhuma explodiu, mas o impacto no chão provocou danos que soltaram meio quilo de plutónio, com a consequente contaminação radioactiva. A população acorreu, recolhendo os pilotos e indo ver os restos dos aviões e as bombas com a mesma inocência e alegria com que catraios comprariam algodão doce numa quermesse organizada por António Costa em São Bento.

as bombas
O povo com os destroços

Dado o alarme, a pascácia censura franquista calou tudo. Os americanos trouxeram pessoal para recolher troços e destroços, aviões, engenhos nucleares, até a terra contaminada em milhares de tambores selados. Faltava, todavia, uma bomba. Francisco, conhecido, a partir desse dia atómico, como Paco-el-de-la-bomba, disse aos americanos que sabia onde estava a faltosa e malvada. Durante 80 dias levaram-no ao mar, ele a dizer onde e os matemáticos e especialistas a apontarem noutra direcção. Até que, fazendo-lhe a vontade, enfiaram um submersível para onde o dedo de Paco apontava. Acharam, a 900 metros, intacta, a infecta e diabólica bomba.

O anátema da radioactividade caiu sobre a região. Camarões, boquerones, salmonetes, uns tomatinhos ou uma lechuga de Palomares, está bem abelha, come-os tu… Antecipando os democráticos mergulhos no Tejo de um certo presidente português, o expansivo Manuel Fraga Iribarne, ministro primaveril de Franco, e o embaixador americano vieram mergulhar naquelas águas, com sorrisos de orelha a orelha, provando que “no pasa nada”. Pelo conluio com os americanos, o ditador Franco não se livrou de ouvir de um general, Muñoz Grandes, imputado agora de crimes contra a humanidade, esta acrimónia: “Que Fraga lave a tripa em Palomares com os americanos e se diga que não há nada, falando grosso e depressa, é o mesmo que baixar as calças.”

Fraga y el americano
Fraga e o americano

Publicado em Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Faça dos meus os seus poetas

Esta é a nossa colecção de poesia. Capas de uma beleza despojada. O que eu gostava que os lessem.

poesia_collection

 

As capas são de uma beleza franciscana. Mas abrem -se as capas e entra-se num revolto e negro mar de Adamastor. O poema é uma fala e as palavras de um poeta são as palavras que andam nas bocas do mundo, mas no poema, e só assim o poema se faz poema, a palavra ganha esse mesmo fogo rutilante que arde na cauda de um cometa, a mesma luz desse inquieto espasmo ou cintilação das estrelas.

É essa a luz que ilumina estes versos de Tanta Luz, poema de Eugénia de Vasconcellos:

Na hora mais madura do sol,
tanta luz, e na curva da duna
nem uma nesga de sombra
onde guardar a saudade:
o tempo passou.

a mesma que se incendeia no poema de João Moita:

Os campos extasiados de luz,
um verde ferino.
O calor de um sol em zénite
pousa ao de leve sobre a pele,
mas refracta-se no solo:
é a armadura do Outono
à superfície da terra.

Deixe-me dizer, meu caro leitor, que razões há para ler estes cinco livros de poesia. São cinco, como os dedos da mão, e não queira saber o toque de veludo que a polpa dos seus dedos reconhecerá nas capas destes livros. E há, depois, o inenarrável prazer da surpresa e da incontida carga de emotividade: há neles a beleza das coisas naturais. E há, por fim, o insustentável peso do coração, da aprendizagem, alegria e perda do amor.

Estes são os meus poetas. Gostava que os lesse. O que eles nos trazem de fulgurante inspiração merece ser pago. É com a leitura que se paga aos poetas a alegria primordial que nos dão.

quem ama o livro

Um branco par de cuecas

lucky

“O realismo existe. É uma coisa.” É o que Harry Dean Stanton assevera – que é mais do que dizer – em “Lucky”, o mais belo filme de 2017, garantem os meus olhos, coração e alma, se o velho Harry Dean não me convencesse de que a alma, ao contrário do realismo, não é uma coisa, logo não existe. Qual escola de Frankfurt, qual caneco, se posso também eu asseverar, este filme existe e é uma coisa.

Se esperam filosofia, não se prendam, que só vou falar de velhice e da linha de horizonte. Lembram-se do paleio de escola primária sobre conteúdo e forma? Conteúdo e forma fundem-se como um centauro em “Lucky”. O filme é essa coisa, com corpo cavalar e pernas de velhice montadas pela periclitante humanidade de um velho de 90 anos a roçar-se na imortalidade. A velhice de “Lucky” está em tudo, na paisagem do deserto, na indecifrável imobilidade dos cactos, no silêncio das ruas da vilória sem nome, fundada no mesmo ano em que Platão fundou a sua caverna: passam por esta vila do Arizona as mesmas fugazes e iluminadas sombras desse grego inaugural que foi, como sabem, o inventor do cinema.

Numa cena, vemos um branco par de cuecas e alva camisola interior a regar, de mangueira na mão, um jardim. O escanzelado corpo que sustenta cuecas, camisola interior e mangueira é o corpo da velhice. Chapéus e botas, parece um corpo agreste, que hesita entre estar zangado consigo mesmo ou zangado com os outros. Mas à medida que deambula pelas cavernas da vila – a casa de Platão, perdão, de Harry “Lucky” Dean, um café-restaurante bom para fazer palavras-cruzadas, uma vaga mercearia mexicana, um nocturno barzeco onde não se pode fumar –, o que vemos é uma velhice socrática, que interroga e se interroga, com a serenidade e aceitação a que a realidade dos cenários empresta mais graça do que densidade. Assim Platão o queira, hei-de morrer a achar mais graça à graça do que à densidade.

“Lucky” é um filme de alegorias. Uma sobre uma tartaruga; a outra sobre o mais belo dos sorrisos. Tartaruga e sorriso – e é outro centauro – fundem-se no final de um filme em que a linha de horizonte me fez pensar em John Ford, num Ford que o realizador de “Lucky” tivesse ido buscar à imensa nostalgia de um certo filme de Peter Bogdanovich. Tudo velho, velho como o cinema, essa coisa que existe e é linda.

O fósforo fatal

nusrat

Bica Curta servida no CM, 5ª feira, dia 8 de Maio

Não tomarei a bica com Nusrat Jahan Rafi. Ela entrou, 19 anos, no gabinete do reitor da madrassa, a sua escola islâmica. A jovem não adivinhou a tragédia. O reitor atacou-a sexualmente. Nusrat fugiu e queixou-se à polícia. O reitor foi preso, mas a polícia vazou tudo nas redes sociais pondo-a em perigo. Voltou à madrassa e os colegas ulularam para que desistisse da queixa. Recusou. Regaram-na com querosene, acenderam o fósforo fatal e Nusrat ardeu e morreu.

Foi em Abril, no Bangladesh. Com o inaceitável silêncio das mais sonoras plataformas feministas e da esquerda regressiva: o abuso das mulheres por islâmicos é o seu nó cego.

Cortem as alusões intelectuais

dead end
a inocente namorada da adolescência

Nem a mãe gostava dele. Em “Dead End”, um filme de William Wyler, Bogart é um assassino impiedoso. Acompanhado por um dos seus facínoras, regressa ao bairro onde cresceu, na busca nostálgica de um pingo perdido de afecto. Vai ter com a mãe e a mãe diz-lhe, com asco e fel, o que as raras folhas do deserto terão dito aos cascos dos cavalos de Átila. Bogart ainda tenta encontrar a inocente namorada de adolescência – tropeça, porém, num trapo sifilítico, que o trottoir desgastou e atribulou. Ora, embora quase ninguém saiba, nem um gangster é de ferro, e Bogart corre a extinguir o fogo daquela amargura no primeiro bar de porta aberta. Leva a tiracolo o pistoleiro de segunda classe que o ajuda. Pedem dois gins. O barman serve-os, deixa a garrafa, vai a virar-se e volta atrás. Tira detrás da orelha um lápis contabilístico e risca forte e grosso, marcando o nível do gin na garrafa.

O produtor Samuel Goldwyn deu um salto da cadeira. “Isto é para cortar!” Visionava a montagem final do filme com Wyler. O realizador estava já de nervos em franja, tantas as tesouradas com que Sam lhe queria despedaçar o filme. Não admira que tenha desatado aos gritos: “Sam, és maluco, isto é a chave do filme. Estes dois gajos são tão assustadores, que até o barman lhes adivinha a maldade.” Goldwyn não desarmou: “É o tipo de cena que faz fugir o público e eu não ando a deitar dinheiro à rua. É uma alusão intelectual, nenhum espectador decente a vai perceber.” Wyler deixou-se cair no cadeirão e disse, sem saber que antecipava a mesma resignada incompreensão de um Passos Coelho: “Sam, mais límpido não há, até um miúdo de 10 anos compreende isto.”

Mandado pelos deuses de Hollywood, irrompeu na sala o filho de Goldwyn. Já tinha doze anos, mas de pés descalços e Coca-Cola na mão, era como se tivesse dez. Goldwyn exultou: “Anda cá, Sammy, senta-te aqui ao pé de nós e vem ver uma coisa.”

O projeccionista apagou as luzes e passou a cena. Logo Goldwyn: “Então, filho, percebeste tudo?” “Claro, pai, o barman dá-lhes a bebida, vê que os dois homens têm ar de bandidos, desconfia e marca a garrafa para ter a certeza do que eles bebem.” Goldwyn rompeu o silêncio irónico e reprovador da sala com o seu melhor sorriso: “Ah, estes miúdos de hoje, até parece que já nascem ensinados.”

Houve um tempo em que a cena deambulava aqui pelo you tube, Deu-lhe um ar e foi-se. Só mesmo vendo o filme.

Regresso à caverna

pre-historia

Bica Curta bebida no CM, 4ª feira, dia 8 de Maio

A minha geração, entre Maio de 68 e o amor livre hippie, era toda contra a sociedade de consumo. Abaixo, abaixo, vergonha, vergonha. Acabámos a comprar Porsches, um fatinho Armani a tapar-nos as misérias da idade.

Hoje, o planeta está como está e uma frondosa fila de meninas e meninos juram por uma vida saudável num lírico planeta limpo. Fora, gritam, fora este modelo económico e o seu crescimento! Deus, na sua duvidosa bondade, os ouça. Mas conseguirão renunciar às viagens de avião, ao carro, máquina de lavar louça e roupa, banho diário e bica curta? Estão prontos a comer só o que der a horta e a regressar em massa às aldeias?