Uma dedicatória de Sam Fuller

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Eram os tempos gloriosos da Cinemateca. Corriam, um à frente do outro, os meses de Abril e Março de 1988. Organizávamos então um ciclo dedicado a Samuel Fuller, dito cineasta de guerra, que tem num filme carteirista o seu melhor filme, o que tudo diz das ideias feitas e dos princípios da catalogação. Tocou-me a mim organizar o ciclo, a meias com o João Bénard – ou para melhor dizer, fui eu a metade que ele usou.

Com o Luís Miguel Castro fiz este catálogo, que nunca mais estava pronto. Já o ciclo ia adiantado e catálogo viste-o! Veio Fuller à estreia, e voltou a outras sessões, e catálogo está quieto. Já éramos amigos, fizemos festas, uma em casa do actual decano do cinema português, o magnífico António da Cunha Teles. Já Fuller era da família, amigo também da Antónia e talvez lhe tenhamos dito que para o ano haveríamos de ter um filho, que por acaso é a minha filha. O catálogo é que continuava de parto adiado.

Quando o livrinho chegou, corremos a pedir-lhe o autógrafo, e ele deixou-nos esta dedicatória tão bem zangada de ainda nem lhe termos dado um exemplar desta obra renitente.

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A boca de Boris Vian

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Boris Vian arranca um sorriso genuíno a Miles Davis

Vejamos, é a boca de Boris Vian. Durante 15 dias não se lhe ouvirá um som, sequer um sussurrado ai. Morreu-lhe o pai. E agora, que já vos dei a notícia, acrescento: não morreu, mataram-no. Eis o que cala Boris Vian: o pai foi morto a tiro, por intrusos, em sua casa, a vivenda provincial da família.

Paul Vian era e não era o pai de Boris Vian. Herdeiro de uma pequena fortuna, dava festas de cem pessoas, prodigalizava aventuras. Merecia hedonicamente o dinheiro que tinha, semeando felicidade. O lendário colapso da bolsa de 1929 deixou-o descalço.

Descalço ou nu, não se encolheu: alugou a grande vivenda aos Menhuin, cujo filhinho seria o prodigioso violoncelista Yehudi Menhuin, e mudou-se para os anexos do caseiro. Poucos anos mais e voltaram as festas. Meteu tantos livros, teatro, música e boémia na cabeça de Boris, que já era o melhor amigo, o pai que, tivessem-no tido Salazar, Malcolm X ou Mao Tsé-tung, muitas chatices se teriam evitado. Eis o pai que dá lições de boémia, o pai a quem se encosta a cabeça adolescente.

Mas vejamos de novo a boca de Boris. Está colada a um trompete. Foi o pai arruinado que lho comprou numa Feira da Ladra. Por influência de Menhuin, quem sabe, Boris que estudou matemática, latim e grego, quer ser músico. Que outra coisa pode ser um miúdo com o reumatismo cardíaco que o médico lhe descobriu?

Agora olhem outra vez para a boca de Boris Vian, para o sorriso bonito, de tão gentil ironia, com que fala ao dono das Edições do Escorpião. O homem está, como eu, aflito com as contas da editora. A pandemia desse tempo fora a tropa nazi que deixara devastada a França, entretanto libertada. Vian casara com Michelle e vivia já em Paris. Tocava em hot clubes e conhecera Duke Ellington. Tivera um filho para quem escreveu uns “Contos de Fadas para Uso de Pessoas Medianas” e tinha na gaveta dois romances. “Queres um bestseller? Eu dou-te um bestseller!” disse ele ao editor escorpião.

E deu. Em dez dias, escreveu um policial, que assinou com o pseudónimo de Vernon Sullivan, para fazer justiça à trama e às personagens da cidade de Buckton, no sul dos Estados Unidos da América. O protagonista era um mestiço que, nesses anos 50, de segregação, se fazia passar por branco e se vingava, desenfreado, da morte do irmão, assassinado por ter dormido com esse tabu supremo, a mulher branca. “Cuspirei nos vossos túmulos” era o livro de cujas páginas transpirava violência com amarescente odor a sexo.

E vejam, já a boca de Boris Vian está em tribunal, acusado de ultraje aos bons costumes, por incitar adolescentes a actos de deboche e sadismo, até por o romance ter sido encontrado, aberto em página de incendiária violência, em cenário de crime, o de uma rapariga morta pelo amante num hotel de Montparnasse.

Autor do livro bandeira que é “A Espuma dos Dias”, em vida a boca de Boris não voltará a saborear mais nenhum êxito literário. A fina tristeza da morte do pai corre nele como rio subterrâneo. Afinal os assaltantes traziam a braçadeira da Resistência, parlamentaram com o pai, as mulheres da casa meteram-se pelo meio, e eles mataram-no com uma rajada. De que o acusariam?

E vejam o rictus feroz na boca de Boris Vian. Tem 39 anos e assiste ao visionamento do filme tirado de “Cuspirei sobre os vossos túmulos”. Levanta-se em cólera contra o que vê e uma síncope dá cabo do seu coração. Vai a enterrar no cemitério onde está o pai. Os coveiros estão em greve e têm de ser os amigos a baixar o caixão e a cobrir de terra o sorriso, boca e corpo de Boris Vian.

Crónica Publicada no Jornal de Negócios 

Documentos para a História

Este post vem direitinho da Guerra e Paz para a Página Negra. E eu vou já visitar a Feira do Livro que aqui nos prometem.

História Feira

Documentos para a História de Portugal, de Angola e do Mundo
FEIRA DO LIVRO

 Os que não conseguem lembrar o passado condenam-se a repeti-lo. George Santayana

Dê a mão ao passado – é uma grande forma de entrar no futuro. Fazemos-lhe um desafio: venha passear, virtualmente, nesta grande Feira do Livro, uma feira temática cheia de documentos chave para o aprofundamento da História de Portugal, da História de Angola e da História do Mundo. Temos 44 livros editados pela Guerra e Paz, que tocam aspectos particulares (como o Bunker de Hitler) ou oferecem retratos gerais de períodos históricos, caso da Revolução de Outubro ou da Breve História da Angola Moderna.

Temas candentes e polémicos como a Escravatura ou Quem é Fascista cruzam-se com documentos terrivelmente vitais como o Mein Kamp ou o Pequeno Livro Vermelho. Um livro pungente como Os Filhos dos Nazis ou um livro de Memórias escolhidas de um comunista português vão estar ao lado de ensaios sobre a natureza da História como o é A ideologia Afrocentrista à Conquista da História e essa obra que se interroga sobre o Triunfo do Ocidente. Revisitam-se aqui os dois dias 25 que marcaram a nossa democracia em Capitão de Abril, Capitão de Novembro, viajamos, em Muros, pela estranha vontade de clausura que por vezes assola a humanidade, e chegamos a essa bifurcação maior dos nossos dias, aquela que decidirá o nosso futuro e o dos nossos filhos, no ensaio inteligente e prospectivo que tem por título EUA versus China: Confronto ou Coexistência.

É uma grande Feira. Tem autênticas pechinchas, com livros que chegam a ter 40% de desconto. E, para completarmos a sua felicidade de leitor, a cada compra de dois livros oferecemos um exemplar do livro de fotografias de Picasso, do seu cão e de algumas das suas telas, belo álbum do fotógrafo americano David Douglas Duncan. Dois livros da Feira, seja qual for o preço, e o álbum com que comemorámos os 40 anos da morte de Picasso é seu.

Em louvor dos palhaços

Uns palha­ços, todos! É tão fácil, hoje, des­pe­jar os polí­ti­cos pelo cano do esgoto. Palha­ços, arlequins, jokers, encan­ta­do­res de ser­pen­tes. E eu peço ao José Tiny, admirável ilustrador destas pobres crónicas, que desenhe aqui um, demagogo, trumpiano e com um par de botas. Mas con­fesso já: não con­sigo cal­çar esse fácil par de botas. Talvez os políticos não sejam os palhaços que sempre são na conversa de café ou tasca.

E se tiver de con­fes­sar, con­fesso tam­bém: quis ser tudo na vida. Adolescente, sonhava em Luanda que, depois de vir a Por­tu­gal fazer a univer­si­dade – digres­são que ima­gi­nei como um rega­bofe boé­mio – voltaria à minha cálida colónia como can­tor de banda rock: e isto era eu, que tenho uma orelha de Van Gogh para a música, a sonhar ser can­tor. Quis ser tão aventureiro como Lord Jim, comprei uma camisa à Dr. Jivago, tive outra, de marca Regojo, igual à de Eusébio e imitei-lhe os penalties, bola para um lado guarda-redes para o outro. A pro­fes­sora pri­má­ria via-me Papa, um Jorge Ber­go­glio avant la lettre.

Só há uma coisa que nunca quis ser. Mesmo nos tem­pos de punhi­nho no ar, um pé no catolicismo pro­gres­sista, todo teologia da libertação e, logo a seguir, a espalhar-me ao comprido num maoismo com pós de Pol Pot e o sal mais snob de Sorbonne Paris VII, se andei em incen­di­a­das e africanas manifs de poder popu­lar, em verdade vos digo: nunca quis ser “um político”.

Escrita, rádio, cinema, televisão, quis tudo e quis “fazer coi­sas”, projectos, movimentos empresas, e já estive na fundação de quatro. Eis a ilusão que não me abandona: “fazer coi­sas” é o maior sinal de coragem de uma vida. Mas nunca quis ser político.

E toda­via lembro-me. Aos dez anos, estava numa aula do 1º F, minha pri­meira turma do Liceu Sal­va­dor Cor­reia, quando soube que tinham assas­si­nado John F. Ken­nedy com uma bala na cabeça. Uma peque­nina e ino­cente como­ção tocou os 20 e tal miú­dos que nós era­mos. JFK já era um homem ter­ri­vel­mente adulto aos nos­sos olhos meni­nos. Mas havia nele uma magia que o impedia de ser o velho que, para nós, seria qualquer pes­soa com a idade dele. JFK tinha uma ambí­gua juven­tude: vinha-lhe do físico, que o fazia pare­cer um júnior do Ben­fica de Luanda; vinha da fran­cesa ele­gante, quase yé-yé, quase Syl­vie Var­tan, que era a namo­rada dele. E vinha, sobre­tudo, das ideias que eram o único cha­péu dele, num tempo que odi­ava cha­péus. Nas ideias de JFK havia lai­vos do “Sgt. Pepper’s” que ainda estava para vir. Ou do “I can’t get no satis­fac­tion” que JFK nunca ouviu cantar.

Ao con­trá­rio do que, quei­xi­nhas e duvidosamente, can­ta­ram os Pink Floyd, precisamos de edu­ca­ção e de pro­fes­so­res que não dei­xem os kids alone, pre­ci­sa­mos de ciên­cia e de tec­no­lo­gia, de cren­ças e valo­res, mas para ter­mos mesmo um mundo novo precisamos de polí­ti­cos, pre­ci­sa­mos do san­gue, suor e lágri­mas dos Churchills, pre­ci­sa­mos dos sonhos dos Luther Kings, pre­ci­sa­mos que um tipo de fati­nho, quase um puto, cató­lico e adúl­tero, se ponha em bicos de pés e grite por cima do muro sinistro, “Ich bin ein Berliner”.

Hoje, não há nin­guém que os com­pre. Chamam-lhes palha­ços: todos uns palhaços! Mas por tudo o que vi e pas­sei, a única coisa que vou con­ti­nuar a jurar a mim mesmo é que sem palhaços não há demo­cra­cia. Por mais exan­gue que a patética demo­cra­cia pareça estar, por mais vírus que lhe queiram enfiar na boca engelhada e triste, Merkel, Costa, Passos ou Marcelo, Macron ou Boris Johnsson, mão esquerda ou direita, “fazem-lhe coisas”. A esse risco chamo coragem: nessas mãos que arriscam e mexem revejo-me.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

O Bem e o Mal

O pai morrera e ele nunca mais almoçava. O caixão era paupérrimo, uma coisa dickensiana ao lado da qual caminhava a aflita dor da mãe. O futuro Charlot, vinha atrás da urna do pai e do pranto da mãe. Para distrair a fome, ia mimando, caricatural, o sofrimento materno. Tão expressivo que o irmão soltava gargalhadas. Toda a criança é cruel, dir-se-á. O futuro diria que ele era mau como as cobras.

Há outra morte a atravessar-lhe biografia e obra. O primeiro filho de Chaplin nasceu mal-formado e morreu após três dias de angústia. Duas semanas depois, sem indulgência, Chaplin fazia testes a actores para o que seria o filme-querubim a que chamamos “The Kid”. Fê-lo como quem se cura com o próprio veneno.

Ignóbil foi também a inspiração de “The Gold Rush”. O brutal rigor de um Inverno isola um grupo de pesquisadores de ouro. Para sobreviverem comem os cadáveres dos que vão tombando. Depois de ver o que Chaplin fez com esse material, até nem me parece estranho que Cristo em Canaã tivesse transformado a água em vinho. Como se convertem tragédias em comédias, que estranha alquimia transforma a crueldade em angelical inocência? A maldade é, aposto, um ingrediente essencial. Vejamos.

“Mau como as cobras” foi o que disseram quase todas as mulheres de Chaplin. Numa altura em que as ligas puritanas marcavam Hollywood homem a homem, uma menor, Mildred Harris, clamou estar grávida dele. Sem poder arriscar o escândalo, o genial Chaplin casou-se. Estava à espera dela no registo e vendo chegar a juvenil figura não resistiu a um comentário sibilino: “Sinto um bocadinho de pena dela.” Não era caso para menos, em dois anos estavam divorciados e ela acusava-o, provavelmente com inteira verdade, de crueldade mental. Mas sem esses dois anos de tortura de Mildred será que Chaplin teria algum dia criado “City Lights”?

Reincidiu. Lembram-se da Lita Grey do “The Kid”? Tinha 12 anos. Aos 15, Chaplin chamou-a para ser a estrela de “The Gold Rush”. Ainda chegou a filmar, mas Lita descobriu-se, de repente e não por acaso, em estado interessante. Novo casamento urgente e obrigatório, nova tragédia pessoal. Chaplin abandonou-a num palácio dourado, enquanto se locupletava em infidelidades que incluíam a actriz que a substituiu e uma amiga que Lita lhe apresentara. A declaração de Lita no divórcio foi histórica: acusava Chaplin de todas as crueldades e mesmo de uma heterodoxa abordagem à relação sexual que a lei californiana condenava. Era, de frente ou de costas, mau como as cobras.

A desumanidade de Chaplin explica a humanidade da sua obra? O facto é que as tragédias, próprias ou alheias, foram o capital cómico dos seus filmes. O narcisismo, o ressentimento, a perversidade, a mesquinhez, a infidelidade geraram obras-primas. Atrevo-me: só do mal pode vir algum bem.

Uma noite no Soho

Esta foi uma crónica escrita num tempo em que se podia ir ao cinema. E em que se podia ir aos bares. Um tempo em que havia uma boémia descomandada, desregrada. Trago esta crónica de volta, amarrada, quase amordaçada, no dia em que me dizem que já se vai poder ir ao cinema. Talvez a um bar. Desde que não se vá, como faziam Francis Bacon e Lucian Freud, a cavalo.

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Bacon e Freud

Hoje não vou ao cinema. Iria, se me prometessem que lá estavam Francis Bacon e Lucian Freud. Digo-vos quem são. São dois tipos que se revoltaram contra o futuro. Haverá quem diga que são ou eram dois pintores e eu, com a arrogância dos ignorantes, insisto: eram dois tipos sentados pantagruelicamente no presente. Comiam o presente, embebedavam-no e fodiam-no como quem respira, desvairado. Jogavam nas corridas, andavam à porrada, mergulhavam em champagne e caía-lhes o corpo exausto nas cavalariças, ao lado dos cavalos que tanto amavam.

Se eram amantes? Se isso não meter sexo, eram. Bacon, descendente do filósofo homónimo e empirista, era homossexual dia e noite, com vincada preferência por homens mais velhos que lhe arriassem forte e feio. Freud, neto do seu psicanalítico avô, era mais novo treze anos e preferia afundar-se na primordial e perlada fonte feminina. Caroline Blackwood, mulher de Freud durante parte dos anos de vida louca com Bacon, dizia: “Jantei quase todas as noites do meu casamento com Bacon. Ah, e também almocei.”

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Bacon, por Freud

Sim, gostavam de jogar nos cavalos, de se atirar sem rede para os bares do Soho e frequentar vigaristas, ladrões, putas, chulos e mais gente prendada, mas o cimento dessa vida gelatinosa era a paixão pela pintura figurativa que cultivaram como flor de preço.

Ora lembrem-se: aquele tempo era um tempo que prometia arte abstracta para toda a santa e imóvel eternidade. E Bacon, primeiro, e Freud com ele, sentaram-se no presente, com o passado entre as pernas, pintando retratos de pessoas, nus com chapéu, papas aos gritos, meninas com cão branco, a carcaça de um boi no talho. Tenho de dizer: estilhaçaram o raio do futuro. Ainda há dias, seis anos, que interessa, o “Três Estudos de Lucian Freud”, em que Bacon pintou o amigo num delicado equilíbrio de luz e ouro, atingiu o francamente estúpido recorde de 120 milhões de euros, o que, a meu ver, já é mesmo gozar e humilhar o futuro.

Na arte e nas noites do Soho, e ai de quem veja alguma diferença entre uma coisa e outra, o que os uniu foi um paradoxal optimismo niilista. Tinham os músculos carregados de energia, de uma força nietzschiana, amoralíssima. Queriam, por junto, luxo e luxúria: pintavam, comiam, bebiam, esmurravam e eram esmurrados como quem faz amor. E eu, hoje, afinal, já nem preciso de ir ao cinema.

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Freud, por Bacon

Vaidade e presunção, e não me arrependo. Entrevista de um editor

A revista Fluir, revista digital de literatura e artes, entrevistou-me, na minha lamentável condição de editor, para o seu número 5. A revista, que é dirigida por José Pacheco, já existe desde Setembro de 2018 e tem colaborações admiráveis. Quem me entrevistou foi a Ana Cristina Marques. Deixou-me de cara à banda quando me disse que Arturo Pérez-Reverte, num dos seus romances, fala em Lisboa com um editor português chamado Manuel Fonseca, cuja maior virtude, interpreto eu, é a sua bela e álacre mulher.  Eis a única coincidência. Seguem-se sete respostas a sete perguntas.

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O editor em animada e hilariante actividade. Na foto, além do editor rouge, Pedro Norton, Fernando Alvim, Pedro Bidarra e Henrique Monteiro

  1. A edição em Portugal compensa, ou é um esforço vão, ou obriga a mentir-se a si mesmo?

Compensou a Ulisses ter ido a Tróia, ter sido cativo dos Ciclopes, amarrar-se a um mastro para escutar a voz Teresa Salgueiro das sereias? Eis a razão pela qual ando nisto, voltar de consciência tranquila a reencontrar Penélope todas as noites e ganhar um dia a improvável imortalidade. É o que se leva da caverna editorial, que dividendos, viste-os – em 14 anos, zerinho, zero euros!

  1. Se pudesse escolher, teria preferido ser um editor no estrangeiro, ou continuaria a sê-lo entre nós?

Mal deixei de gatinhar, tinha eu cinco aninhos, deslarguei-me deste jardim à beira Atlântico plantado. Quis ser um Europeu errante em África. Voltei, com o rabo entre as pernas e um queixume brando. Seria ingrato negar agora, como Pedro três vezes a Cristo, a Pátria que me voltou a abrir os braços. Até porque houve um erro em que nunca laborei: nunca desertei da língua portuguesa em que edito.  Essa língua é o fio de Teseu, e um bocadinho de tesão, que me leva por este borgesiano labirinto de falas, escritas, livros, babélicas estantes, unindo o miúdo que gatinhava a esta terceira idade em que agora moro. Não saberia estar de pé em nenhuma outra língua

  1. E o que se faz é sobretudo apostar no que garantido, ou é possível dar a conhecer obras novas?

Mais do que apostar, quis inventar. No melhorzinho que porventura tenha feito estão alguns livros que inventei. Inventar um livro para Agustina juntando-a a Paula Rego, inventar com a Dona Mécia um livro de um Sena de escárnio e mal dizer involuntariamente ilustrado pelo próprio, atribuir a Pessoa o seu As Flores do Mal, inventar nos Livros Amarelos a rara, ou talvez única, colecção comparativa do mundo. E se os deuses deixarem que eu tenha descoberto um poeta – peço-vos que leiam Eugénia de Vasconcellos e logo João Moita – um filósofo, um romancista, aí está o que me poria de debruçado Narciso sobre o primeiro charco de água num primaveril dia de chuva.

  1. Considera-se um escritor que, paralelamente edita, ou um editor que, por vezes, também se quer dedicar à escrita?

Eu desconsidero-me. Já se viu pelas respostas anteriores que deambulo como gado transumante pela pastagem editorial. A escrita é uma leveza nefelibata, que um livro de devoção, tantas vezes lido em voz alta pela minha mãe, Alice Amália, ainda hoje me inspira. Eu sou um caso perdido de derrame melodramático, empolgam-me histórias de mártires, de barcos arrebatados pelas gigantescas ondas de homéricas tempestades, de náufragos seminus em ilhas tropicais. E que saudades tenho do herói que nos dias de adolescência prometia a mim mesmo ser. Já se vê, que sou um caso óbvio de incumprimento.

  1. O que o levou a tornar-se editor? Trace-nos em algumas palavras a aventura que terá sido a génese da Guerra e Paz.

Aprendi a fazer livros com João Bénard da Costa, na Cinemateca. Quando deixei a SIC, num acordo que os deuses inspiraram a Francisco Pinto Balsemão, decidi que já tinha uma linda idade para fazer da minha tão proveitosa vida o que bem entendesse. Juntei um mais um e deu dois, eu e a Guerra e Paz. Cá estamos. Foi vaidade, presunção e muita amizade. Os meus primeiros sócios foram os meus amigos de infância.

  1. Há um romance (O Franco-Atirador Paciente, de Arturo Pérez-Reverte) em que o autor o transforma numa personagem. Como se sente ao ver-se representado nas páginas de um livro? Essa personagem revela alguma coisa do homem Manuel Fonseca e da sua circunstância, ou é uma mentira? E se alguém se propusesse passar a obra para cinema, aceitaria fazer o papel?

Quem é esse editor de que Arturo Pérez- Reverte fala? “O” editor, em sentido abstracto? Eu mesmo, Manuel, o que muito me honraria por não conhecer Arturo, nem ele me conhecer a mim, o que suporia uma maravilhosa intriga, na qual Trump e Putin teriam de estar certamente envolvidos? Seja como for, eu, como actor, só entrarei num filme realizado pela vossa colaboradora Joana Pontes, a única a quem confiaria o supino talento dramatúrgico que ainda ninguém descobriu em mim.

  1. O que tem a Guerra e Paz na manga?

Gostava de anunciar um romance de António Lobo Antunes, mas a editora dele era capaz de levar a mal. Anuncio a Fotobiografia de Jorge de Sena. E, muitíssimo a sério, anuncio um livro político e filosófico essencial: vou publicar um livro de um sinólogo, Porquê a Europa, Reflexões de um Sinólogo, que tem tudo que ver com o mundo em que um vírus nos fez entrar: se o mundo que aí vem vai ser liderado pela China, o que é verdadeiramente a China? Que violência intestina é a sua, que feridas e guerras arrasta do passado? É um livro a que fiquei preso como a uma inescapável tragédia ficaria também.

A bélica, delinquente e sagrada sala de cinema

Escrevi, o ano passado, este texto para a revista Granta, a pedido de Pedro Mexia. Foi com uma alegria infantil que voltei às salas de cinema da minha infância e adolescência. Agora, mais de meio-ano depois, e acabada de publicar uma nova Granta, trago o meu mini-ensaio para esta Página Negra. É um texto longo, aviso – é preciso uma chávena de paciência e uma colherinha de vontade para se ler até ao fim.

Miramar

A bélica, delinquente e sagrada sala de cinema
Manuel S. Fonseca

Padre, polícia, sargento. Sargento, polícia, padre. Foi esta a litania que encafuou a minha vida na bélica, delinquente e sagrada sala de cinema.

Explico-me louvando-me na inescapável biografia. Até aos cinco anos de idade, tanto como a electricidade, a imagem era-me estranha, sendo ambas, electricidade e imagem, práticas ou técnicas que pressentia inumanas. O meu primeiro choque com esse bestiário civilizacional foi em Lisboa, numa qualquer agência que preparava, em 1959, as famílias lusíadas para a colonização do ardente império onde António de Oliveira Salazar nunca pôs a mansa pantufa. A mão camponesa de minha mãe, com o seu doce aroma a bravo esmolfe, levantou-me a lavada meia manga da camisa para que um enfermeiro me agraciasse com a tripla vacina tropical – febre-amarela, varíola, cólera – e, ia eu começar a fungar, apagam-se as luzes e vi, pela primeira vez, a imagem.

Irrompem da parede branca uns luminosos pretinhos, os primeiros pretinhos da minha vida, ranhosamente sorridentes, seminus. Corriam na parede de luz, saltavam, fugiam às mães, sem nunca saírem do rectângulo que fulgurava no escuro da sala. Eu já tinha visto um lobo, duas raposas, já andara de burro e mula, vira o vertiginoso Inverno feito água em fúria na curva do Coa que fica mais perto de Vale de Madeira, Pinhel, mas só agora via, por fim, a unicórnia imagem e o esplendor explosivo, porventura mentiroso ou pelo menos fingido, dessa luz branca aureolada a sombras, coisa que por eu não saber dizer então, logo ali me cegou e engasgou, em ledo engano me embalando para sempre. Esta era a imagem que em verdade, em verdade me disse: abre os olhos e vê.

Poupo os leitores à viagem transatlântica no paquete Vera Cruz até Luanda. Os meus pais eram muito ricos, não tendo, como as pessoas verdadeiramente ricas, mesmo dinheiro nenhum. Fui, por isso, morar num musseque, o mais livre, acre e lendário dos musseques, o Sambizanga, um bom meio quilómetro para o interior, a contar da Casa Branca, território do tamanho de Dante, se é que eu não queria mesmo dizer, da Divina Comédia, tão labirínticos eram os seus círculos concêntricos.

Ainda não voltara a ver a imagem, e veio o 4 de Fevereiro de 1961. Camuflados nas silenciosas barbas da noite, nacionalistas angolanos assaltaram prisões, o forte colonial. Os tiros correram pela madrugada como boémios desgarrados. Eu ainda não tinha ouvidos para ouvir e não ouvi esses independentes tiros da rebelião, mas lembro-me, apesar de ser a céu aberto em plena rua, e lembro-me como de mais nenhuma imagem, desse primeiro domingo a seguir ao 4 de Fevereiro. Foi o meu encontro com a angustiante vida real. Corriam outra vez os pretinhos e perseguiam-nos bandos de famílias brancas – e outros negros e cabo-verdianos, diga-se –, atacando-os a golpes de paus e pedras, o lombo pesado do ramo da palmeira, e não havia essa imóvel parede de aureoladas sombras e mecânica luz para onde os meus desvalidos e sacrificiais anti-heróis pudessem fugir e fingir ser mentira a dor e o sangue que deveras sentiam. Em verdade, em verdade vos digo, esta era a imagem que qualquer um veria mesmo de olhos fechados e só quem não tem olhos para ver atirará a primeira pedra.

 O padre

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Tinha eu, portanto, sete anos e duas imagens, a imagem explicativa de Lisboa e a imagem implicativa de Luanda. Ambas eram verosímeis, qual delas a verdadeira? De uma e de outra salvou-me o padre anti-hitchcockiano.

O episódio de Sir Alfred é conhecido. O carro que lhe levava o peso ofegante por uma estrada nas montanhas suíças passou por um cura e um rapazinho, a mão do padre no ombro do moço. Ecoou pelas colinas a católica suspeição do grito de Hitchcock: “Run for your life, boy.”

Já o meu padre nunca quis saber do meu ombro, só dos meus olhos. De hábito franciscano, a chicote, que era o cordão do piedoso burel marron, punha em ordem a vagabundosa fila de miúdos negros e esparsos infiltrados brancos a que eu me juntava, impaciente por entrar numa suposta caverna e ver o mistério que se ia oficiar. Íamos ver o rapaz, íamos ver o artista.

Paguei o quê? Um angolar? Era uma sala de bancos corridos, sem costas, por serem costas os joelhos dos da fila de trás. Janelas altas, depressa tapadas por umas corridas cortinas negras. Preso à parede do fundo, um esticadíssimo lençol. Fez-se um escuro de alcatrão e uma violenta e luminosa realidade entrou na transparência da minha vida e dos meus sete anos. A sala escura encheu-se de cores americanas, iguaizinhas às que em Marrocos levaram Nicolas de Staël à pintura e depois ao leniente suicídio. As cores americanas vinham a cavalo, verdes e magentas num bosque ou ribeiro, o amarelo-torrado de um fero, seco e estéril monte, o luzidio negro de um colt a cuspir vermelho e som. Era um western e não era coisíssima nenhuma que não fosse o paraíso, ou céu, como então eu chamava ao paraíso.

Esta já não era a imagem explicativa de Lisboa, pequeno rectângulo a preto e branco, pedagógico, transparente e sem esquinas; esta também não era a imagem real, fixa, e por isso assustadora, dos vizinhos perseguidos e perseguidores do 4 de Fevereiro, do inapagável sangue que fica na casca do ramo de palmeira. Esta nova imagem era a imagem de um conluio americano com os meus padres capuchinhos italianos e redimia, em glória e artifício, a imagem explicativa e a imagem implicativa. Por aquela imagem, pela imagem do cinema sem nome da Missão de São Domingos podia fugir-se, e já corrijo, podia subir-se à montanha das bem-aventuranças. Cinema de cavalos, saloons, espadachins, trirremes, ben-hures e espártacos, beijos roubados, céus em azul cião.

  Ia dizer que a sala do cinema sem nome tinha, no seu negrume capuchinho, a cara tisnada da inocência, mas minto. Tinha era o corpo inquieto e a voz aguda e vibrante da inocência. A inocência era o corpo em labaredas de uns cem candengues, cem miúdos, que lambiam o esticadíssimo lençol branco, numa apoplexia de bom-dia à felicidade, que nunca mais voltarei a soletrar assim. Gritava-se, apostrofava-se, ululava-se, aplaudia-se. Ah, a insustentável e cósmica dilatação do esticadíssimo lençol, que ficava muito maior do que mundo e vida! Sim, a ameaçadora tela engolia-nos e nós, para avisar o artista, atirávamos-lhe tudo o que tínhamos à mão, por fim os sapatos. Esta foi a imagem que o meu padre me deu, a do cinema onde entrávamos calçados e, cheios de um amor franciscano, saíamos descalços.

 O polícia

La violetera

À Sétima Esquadra da PSP de Luanda acariciava-a a brisa mítica que os westerns emprestam a taxa de juros zero ao Sétimo de Cavalaria. Alvo dos nacionalistas rebeldes do 4 de Fevereiro, a esquadra ocupava uma posição estratégica no enquadramento do fim da cidade do asfalto com os musseques a sudoeste e a estrada de Catete, via de saída de Luanda para o interior de Angola. A cruel mistura de lenda, heroísmo e estratégia fê-la crescer, convertendo-a num forte a que, como condecoração, se deu um cinema. Havia, para os polícias e famílias, uma boa sala de cinema, a céu aberto, na Sétima Esquadra. Chefes e subchefes no balcão, agentes na plateia.

Sem que Salazar soubesse, confirmando assim o que os nossos pais diziam da putativa corrupção dos ministros dele, nós, os miúdos do bairro, furávamos o regime corporativo e vínhamos, mini-foras-de-lei e em incipiente delinquência nos intestinos da lei e ordem, ver as matinés de Marisol e Joselito, La Violetera de Sarita Montiel, Cantinflas e outras obscenas amenidades para maiores de 6 anos. Como depois, quando crescemos para a idade dos heróis de Stand by me (esses macaquinhos de imitação do que, muito antes, os meus amigos e eu vivemos), viemos à procura de outra imagem, a dos filmes draculianos e exorcizantes, de que saíamos aterrorizados, dez minutos até casa numa nocturna caminhada tropicalmente gelada por cada fantasma cintilante, por cada reflexo bizarro, pelo assobio da viração do vento nas árvores, pela fugidia sombra num quintal, mil demónios e cazumbis a morderem-nos o cáqui dos calções e as nossas pernas lisinhas, um medo bruxo, de caixões e nosferatu, a bombear-nos o coração.

Eis a dupla imagem que, depois do meu padre, o meu polícia me deu. Primeiro, a imagem da frivolidade, da alimentar, desopilante e formativa frivolidade. Por causa das prendadas filhas, as mais bem vestidinhas dos chefes e subchefes, sereias mudinhas que nos obrigavam a virar o pescoço volúvel e dúctil para o balcão, o meu polícia fez prevalecer a sala de cinema sobre o filme, sofrida, amarga e mesquinha traição, que os meus amigos e eu fingíamos não ver ou sentir e escondíamos uns dos outros.

O meu polícia deu-me, depois, a experiência do oculto e do sobrenatural e desse foguetão afectivo que a acompanha, o sentimento apaixonante chamado medo. Saí da Sétima Esquadra armado, dois coldres à ilharga, num a deliciosa frivolidade, no outro, o nocturno estrado do medo.

 O sargento

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Era um quartel. Do outro lado da Estrada de Catete para quem vinha da Vila Alice, passado o Colégio dos Maristas e o Seminário, na estrada de areia dos quartéis, o RIL, Regimento de Infantaria de Luanda, tinha um cinema a que o nosso pós-infantil e desgovernado ideal de heroísmo militar chamava, com desdém, o cinema dos sargentos. Esplanada ao ar livre, ecrã gigante, uma plateia férrea e geometricamente hierarquizada em oficiais, sargentos e praças, foi nesse cinema, com o Cruzeiro do Sul por testemunha, que descobri a mulher adulta, casada e autónoma.

E tenho antes de dizer que, sentado na fila da frente, a minha mão quase a tocar a locomotiva que Buster Keaton conduzia, já lá descobrira o silencioso segundo riso, que, pelas alminhas, não deve ser confundido com o reactivo anti-riso contemporâneo, a que talvez o impiedoso Nietzsche chamasse humor de escravo. Keaton apareceu-me num fim de tarde de domingo, o filme chamava-se The General, mas a tradução portuguesa, Pamplinas Maquinista, mais reforçava a festiva euforia do que hoje seria o quim barreirismo da matinée infantil. Andava já de adolescência inquieta e começava a fazer fine bouche (se assim posso dizer) à gargalhada de boca, rapidinha e esquecível. Ora, cada gag de Keaton era depois da gargalhada que se agarrava ao palato. Peço desculpa e a mais benigna compreensão do leitor para o que vou dizer: Keaton traficava uma imagem que, sendo já de boa boca, tinha um fim de garganta funda, como se diz, entendamo-nos, que só os vinhos de Bordeaux têm. O humor dele era, descendo em espiral, riso depois do riso, segundo riso, um riso de peito e alma.

E já salto do comboio de Keaton para voltar à mulher. A mulher casada deu-ma a descobrir o meu sargento, mostrando-me Shirley Knight, ao volante de uma station, a deixar a sua casa numa plácida smalltown que, tivesse Angola auto-estradas, podia ser de Angola. Eu vi-a, de uma das minhas noites de cacimbo dos dezassete anos, saía ela de casa numa manhã de Inverno. A chuva pequenina, cambutinha, prima do cacimbo angolano, espalhava poças pelas ruas de Chattanooga, no Tennessee, onde Francis Ford Coppola filmou esta mulher grávida que, sem destino, deixa mansamente o marido e se mete à interminável estrada.

A luz, meu Deus e meus amigos! Tão fina e filtrada a luz, luz do sudeste americano a arrancar brilhos e reflexos ao asfalto, uma renda de humidade, a imarescível humidade que a insatisfeita melancolia, se autêntica, não ousa dispensar. Shirley Knight encosta e acolhe a essa melancolia dois homens, James Caan e Robert Duvall. E Shirley devia ter-me acolhido a mim: eles não a amaram e incompreenderam mais do que eu.

Tudo nessa Shirley Knight é gentil, salvo o que é inexplicável ou insondável, que é praticamente tudo. As suas indizíveis razões, a sua inegociável solidão, a sua seguríssima incerteza comoveram a minha adolescência e eu, no cinema do meu sargento, que já me tinha dado a imagem do desumilhante e nietzschiano segundo riso, tomei de assalto a imagem independente e impossuível da mulher. Numa esplanada de ancas oferecidas à lua, ao cacimbo e às estrelas, o mouco rumor da guerra colonial que a plateia de soldados insinuava, conheci e entrou-me na pele a imagem da grave e errática liberdade da mulher casada. Quero que conste no meu cadastro: The Rain People chamava-se o filme de que Chove no Meu Coração foi o piedoso título português.

A sala e o telhado

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Com excepção do cinema dos padres capuchinhos, na Missão de São Domingos, até aos dezassete anos, mais de 90% dos filmes que vi, vi-os com os olhos a fugir para o céu. Muitos na melhor das minhas salas, o cinema Miramar, o mais belo do mundo, levantado, como John Wayne levanta Natalie Wood em The Searchers, sobre as barrocas de Luanda. O Miramar, logo depois do seu jardim com as weliwítschias de longos braços estendidos atrás do pasmoso ecrã, caía a pique sobre o mar, tendo em fundo a baía, guindastes e os grandes navios conradianos do porto de Luanda, as refulgentes locomotivas do caminho-de-ferro da linha de Malange. Foi no meio dessa barriga de vida que vi, quinze anos, ainda mal o meu polegar do pé direito roçava a cinefilia, o Pierrot le Fou, de Jean-Luc, esse torcionário Godard, que tão depressa me salva de afogamentos, como me embrulha a cabeça numa toalha, enfiando-ma na água de uma banheira.

Sei, contaram-me, da teoria uterina da sala de cinema. O útero dos meus filmes tinha a escuridão da noite original, primeva, tinha nuvens e ventos, estrelas e lua, às vezes o lampejo líquido, um clair de mar. E que não se tenha o impudor de confundir este meu mergulho, de prazer visceral, com a deriva tubo de escape do drive-in. Vi filmes cercado de cosmos por todo o lado, menos por um: o istmo que me aproximava umbilicalmente da clássica sala de cinema era a plateia cheia. Nas minhas esplanadas, a tropical céu aberto, o meu pequeno eu sentava-se lado a lado, à frente e atrás, com uma alienada massa de zombies enfeitiçados, olhos, esqueleto e almas entregues à mais genuína, total e torrencial crença. O meu espanto de alma, o meu pequenino fervilhar do baixo-ventre, a ânsia do meu coração pateta, o êmbolo irrespirável que me devastava os pulmões nunca estiveram sozinhos. Juntos, como na gruta de Lascaux, éramos uma plateia farfalhante, sentados em cima do mesmo medo, do mesmo desejo, da mesma alegria. Estremecíamos, sufocávamos, ríamos, chorávamos pré-historicamente em conjunto. Repare-se, estávamos ali sentados, ligeira inclinação para o ecrã, posição fetal, em pleno parto, nascendo de novo a 24 imagens por segundo. E connosco, novos adões, novas evas, renascia em nós, por nós e para nós, o raio da nua humanidade inteira, nova Gaia, novo Eros, saídos de um escuro e espesso caos.

Tremo só de pensar no rasto de pecado da minha adolescência fílmica. E talvez deva antes dizer, da minha adolescente obscenidade fílmica. Elizabeth Taylor, Gina Lollobrigida, Stella Stevens, Natalie Wood, Brigitte Bardot, Virna Lisi, Ursulla Andress, Raquel Welch, Sophia Loren, Barbarella, ou Jane Fonda sei lá, Julie Christie, com os seus três metros se estivessem de pé, dez metros se bem deitadas, vinham espetar-se-me directamente na veia, num consentimento fulvo e mamífero. O cinema consente.

Hipertrofia da vida, o cinema oferece rostos, ramagem de olhos, nariz e lábios, franja de sexo, como se fossem áscuas de ouro. O cinema esfaqueia, estrangula, assassina e logo, fade out, fade in, a nova imagem, a imagem seguinte tudo lava e redime. Bigger than life, já me juraram e não me mentiram. E é por isso que o cinema hipersensibiliza. Massaja, espanca de luz e bang, bang as nossas glândulas estéticas, arrastando-as para inconfessáveis devaneios psíquicos. Se a este mistério, se a este sombrio ritual se pode chamar uma educação, essa foi a minha educação. Nos anos 60, em Luanda, África Ocidental Portuguesa, futura República de Angola.

Confesso. Eu sou do mais escuro dos séculos, o século XX. Sou do século em que o amor irrompia como um jacto de luz sem beliscar a cósmica escuridão. Jamais desmentiria quem a isto chamasse cinema.

Miramar