Não sabia era servir-se dele

Não tenham vergonha, entrem, por favor, na casa de banho. Bem sei que a bela actriz Tallulah Bankhead está sentada na sanita e, na porta aberta, se recorta o perfil do escritor Tennessee Williams. Não tenham vergonha, que Tallulah também não tem. Nenhuma. O que ela não gosta é de interromper conversas. E gosta de ter ali, a ouvi-la, o grande dramaturgo, enquanto cumpre sem reservas as mais humildes ou esforçadas necessidades fisiológicas, sejam elas sólidas, líquidas ou intermédias.

Só há, escreveu Williams nas suas “Memoirs”, outra mulher assim, a actriz italiana Anna Magnani, que levanta as saias, pernas longas bem à vista, mulher sem falso pudor. Tennessee diz que ambas tinham uma franqueza inabalável, inadjectivável combinação de galanteria e recusa de farisaicas convenções sociais. E agora que todos cheirámos o que Tennessee cheirou, acrescento que ele considerava a escandalosa Tallulah um dos raros gentlemen dos seus tempos de teatro americano.

Williams fez uma lista de gentlemen – aves raras num ninho de víboras, dizia ele –, e lá estava o nome do encenador e cineasta Elia Kazan. Juntou uma mulher, não porque Tallulah fosse masculina, apesar da rouca voz, mas por ver nela uma presença poderosa, que não a impedia de derramar charme e beleza.

Pois bem, os “dois gentlemen”, Kazan e Tallulah, cruzaram-se, como encenador e actriz, na peça de Thornton Wilder, A Pele dos Nossos Dentes. Se tivesse corrido bem não teríamos esta conversa, que aliás interrompo para duas digressões de baixo nível. Nossa Senhora do mundo gay de Nova Iorque dos anos 40 e 50, perguntaram à nossa Bankhead se o actor Tab Hunter era um desses gays. Ao contrário de ex-secretárias de Estado e CEOs nas comissões de inquérito da Assembleia da República, Tallulah foi peremptória: “Como querem que eu saiba? Nunca fodi com ele.” E a Walter Wanger, produtor maravilhoso, self-made man que amava o cinema de grandes emoções, Tallulah deixou-lhe, no funeral, como epitáfio o perfume desta frase: “Tinha um belo pénis, não sabia era servir-se dele”, pedindo eu desculpa pelo meu pudor pusilânime, porque o termo que a Talloh usou, juro-vos, não foi “pénis”.

A Talloh era desbocada e mostrou os dentes a Kazan, então ainda em começo de carreira, e que parecia preferir o casal Frederic e Florence March, que contracenavam com ela. A poderosa Talloh quis despedi-lo. Ouçam, Kazan e o produtor vieram à mansão dela e a actriz grita: “Não sabes dirigir uma star. Vens lá do Group Theatre e achas que os actores são todos iguais. No palco, pões aqueles actores decadentes, crianças e animais a passar à minha frente. Os espectadores vêm ver-me a mim. Como me hão de ver, com toda a gente a tapar-me?” E deixou-se cair, em morte súbita, no fofo chão da sala: a angústia era a sua adrenalina. Tiveram de a levar em braços para o sumptuoso leito. Gritaram, insultaram-se, deixaram de se falar, mas a peça foi um êxito, com a legião de fãs de Tallulah em delírio. Ah, a crítica incensou também a novidade e beleza da encenação de Kazan. E, todavia, não se falavam.

Estava Kazan, numa das noites seguintes, na suite do hotel e bateram à porta com vigor e vontade. Era a Tallulah, que entrou num ímpeto arrebatado. Deixou cair a saia e nada tinha por baixo, arrancou a camisola – oh, os belos seios – e ia atirar-se para a cama, quando lá viu uma actriz secundária. Tinha-lhe passado à frente. Ferida no seu narcisismo, nem mesmo o humor inteligentíssimo que era o seu, resistiu à afronta: voltou a vestir-se e deslargou-se louca de raiva. Fariam mais tarde as pazes.

Vai ali uma crónica de África

São os meus livros de Fevereiro
são dez e há um que é mesmo meu

Nos meus dez livros de Fevereiro, há um que ainda é mais meu do que os outros. O meu livro, mesmo meu, chama-se Crónica de África. A minha crónica de África – my way.

Nos meus dez livros de Fevereiro, cinco são romances, muito mais romances do que o meu, que, não o sendo bem, poderia dar um romance, de tanto se dizer que a minha vida dava um romance. Romance é o livro de James Joyce, Retrato do Artista quando Jovem, história de Stephen Dedalus, alter-ego do autor, adolescente debruçado sobre o seu baixo-ventre, a descobrir e libertar uma sexualidade que os jesuítas irlandeses não o deixavam apalpar.

Romance é Liliputine, livro em que Ernesto Rodrigues reinventa o romance-reportagem, fazendo a sua personagem seguir os passos dramáticos de avós e pais, desde a invasão soviética da Hungria e da primaveril Praga, até afrontar, agora, o liliputinesco ditador.

Romance é Filhas do Vento, da estreante Fátima Moura da Silva, périplo doloroso, primeiro, tão feminino, depois, que começa na Guerra Civil de Espanha e termina na busca de identidade de uma filha de cinco – são mesmo cinco – mães.

Romance é essa clamorosa e cáustica denúncia do Império Britânico que um audacioso George Orwell fez no seu primeiro romance regado a tanto gin, brandy e whisky. O romance chama-se Os Dias da Birmânia, porque uma das minhas editoras, o meu tradutor e a minha revisora não me deixaram chamar-lhe, como sempre gostei, Os Dias de Burma.

Era Uma Vez Tudo é mais do que um romance, são dez romances, os romances das dez personagens, cada uma delas a querer ser mais romancista do que a outra, a começar num intersexo ucraniano que quer emular Clarice Lispector. Ao Era Uma Vez Tudo, com uma alegria e humor que até me dá raiva não ter, escreveu-o Paulo Nogueira, o mais português dos escritores brasileiros. O meu amigo Paulo: na escrita dele há sempre alguém que entorna um martini no decote.

Meu amigo também é José Jorge Letria: em mais um livro do «fio da memória», se transcreve o vivo diálogo dele com Gabriela Canavilhas, que leva por título Gabriela Canavilhas: A Política como Palco de Decisão. É dela este livro em que se contam – e em fotografias se ilustram – as aventuras da sua vida artística e política.

E o meu livro, o meu livro? Se tivesse mapas podia ser quase um atlas, o Atlas de Luanda, do Sambilas e da Vila Alice, o mapa das jukeboxes da Ilha de Nossa Senhora do Cabo. Mas o meu livro não tem mapas. Quem mapas tem é o Atlas da Primeira Guerra Mundial: o atlas em que caem como tordos os impérios europeus, o mais tonitruante «Atlas»da nossa tão boa colecção deles.

Não é em verso o meu livro, que eu não sei rimar. Rimam sim 80 poetas portugueses, da Idade Média ao século XX, escrevendo as mais lindas obscenidades sobre a animadíssima vida, por cima e por baixo dos lençóis, de frades com freiras, freiras com padres, freiras com freiras e frades com frades. Victor Correia organizou-o e o livro chama-se Poemas Eróticos sobre Frades, Freiras e Padres nos Clássicos da Literatura Portuguesa.

Outro poeta, João Moita, traduziu, de Paul Verlaine, as Romanças sem Palavras. Como é que Verlaine, poeta tão feio, pôde encostar o ombro e passar a irónica mão por tanta beleza? Pode um livro de poemas ser uma comovente autobiografia? Pode! Foi o que se quis dizer no prefácio, que eu mesmo assino.

Mas meu, meu, é mesmo esta Crónica de África, livro narcisista com foto minha, quase de bibe, na capa. É um livrinho em três actos, infância, adolescência e independência. Livro de fim de império, aqui se contam, com espanto e reverência, as coisas que desfilaram pelos meus olhos míopes: chimpanzés a beber coca-colas, indolentes caranguejos em fuga, idealistas a correr desenfreados para assistir a tiroteios. O meu amigo Pedro Norton prefaciou-o: quem, senão um amigo, aceitaria passar por tal provação?!

Entre a delinquência e a subversão

Neal Cassady e Jack Kerouac

Não sei se comece por Jack Kerouac, se por Hemingway. Tanto faz? Bom, bom… Eis o que ninguém deve arriscar dizer a dois escritores. Não há pares de escritores “tanto faz”, mesmo se estes dois comungavam de um descabelado gosto de aventura.

Kerouac tinha gosto em andar no arame, ali a namorar com a delinquência e a subversão. Podia ter sido um rapaz do meu bairro de Luanda, a mítica Vila Alice. Podemos vê-lo de braço dado com Ginsberg, o poeta do uivo, com Burroughs, esse visionário escritor que matou a mulher com um tiro na cabeça. Mas se o queremos ver é na estrada, com o amigo Neal Cassady. Vejam, aí vão eles de carro, com a mulher de Neal, que não tem mais de 16 anos, em travessias místicas da América, por esse Mississipi de mistério e ocultação, por um México de serpentes emplumadas. Têm, Neal e Jack, os corpos colados ao assento do carro, as mãos a segurar um volante, centauros, os novos centauros do pós-guerra.

Dessas aventuras loucas, prefácio da vida hippie, Kerouac vai sacar o “On The Road”, que escreve num rolo de papel de 36 metros. E eis o que me liga intimamente a Kerouac: ele não sabia guiar.

Durante três anos, de 1974 a 1976, no meio da incendiada convulsão da transição, independência e guerra civil de Angola, na Honda 300 do Da Guia, na Yamaha do Rui, motos dos meus avilos desse tempo, fiz travessias profundas de Luanda, pelo Dondo, Quibala, Alto Hama, ao Huambo. Depois, no boca de sapo do Nelinho Ramos, passando por todas as patrulhas, por cubanos espantados, fomos até ao Bié. E num Dois Cavalos a desfazer-se fiz o Cuanza Sul, Sumbe, Benguela, Lobito. O melhor pendura que qualquer motard já teve, o melhor e mais tagarela navegador que um piloto pode esperar, eu cruzei, descruzei, cerzi e flambeei o território de Angola, as pontes periclitantes, as estradas com buracos de obuses ou cortadas por uma cheia, sem saber guiar, como Kerouac, ainda mais novo do que ele. Não escreverei um “Pela Estrada Fora”: poupo-vos aos pormenores desses tonítruos três anos de trilhos e maus caminhos.

E agora vou tentar roçar um ombro pelo ombro de Hemingway. Durante a II Guerra, do Verão de 1942 ao fim de 1943, Hemingway, respondendo ao apelo do governo americano, metia-se no seu barco de pesca, a Pilar, com os seus três filhos, e ia vigiar as águas do Golfo, entre a América e Cuba. Queria surpreender submarinos alemães. Se visse um, atraia-o e, quando abrissem a escotilha, enfiaria por ali abaixo as granadas que trazia.

Hemingway não ia sozinho, levava os seus três filhos, uma ou duas metralhadoras Thompson, espécie de David pronto a enfrentar os Golias de aço e torpedos que eram os submarinos de Hitler. E ouçam o que diz Hemingway: “Fui muito feliz com as mulheres. Uma insuportável felicidade, como se estivesse doido ou bêbado. Mas nunca fui tão feliz como quando estava junto e em harmonia com os meus filhos.”

Conheci essa harmonia que só o mar e a noite oferecem. No Lobito, semanas antes da independência, em Outubro, deram-nos para a mão um navio oceanográfico. A nossa missão pouco tinha de científico: íamos vigiar o grande Atlântico para prevenir uma invasão do que então víamos como os nazis sul-africanos do apartheid.

Éramos quanto? Cinco? Subi ao mais alto mastro, ou seja, fui à cesta a que os marinheiros das Descobertas chamavam o “caralho”. O que faríamos se víssemos os odiados carcamanos? Tínhamos metralhadoras, meia dúzia de granadas, uma grandiosa inexperiência. Mas tínhamos, sobretudo, escuridão e silêncio, a infinita harmonia que a confiança da amizade sustenta.

Publicado no Jornal de Negócios, no Weekend

O pacote de manteiga

É uma das minhas bicas curtas, daquelas que escrevo no CM. Aqui fica, solitária, como o seu tema.

Em que prostrada solidão vivia o homem cujo cadáver foi encontrado agora, em County Cork, na Irlanda? A polícia encontrou um limpo esqueleto, e crê que o cadáver esteve 20 anos deitado naquela cama. Que soturna solidão era a dessa pessoa cuja falta nenhum ser humano sentiu? E que indiferença era a da gente do bairro, que não deu conta ou se importou com uma casa muda, cega e fechada? Nenhum vizinho, olhou, uma vez que fosse, olhos nos olhos, para o rosto deste homem, cujo grau de inexistência nos apavora. Era um recluso, disse alguém à polícia, esforçando-se. Ninguém se lembrou dele, ninguém bebeu com ele uma cerveja no pub, ao lado da casa assombrada. Nem um sinal da sua passagem, a não ser, no frigorífico, um frio bloco de manteiga. De toda uma vida, um gelado pacote de manteiga de 2001.

Importas-te de levar Marilyn a casa?

Marilyn numa festa de aniversário de Elia Kazan

Na cama, Marilyn Monroe era violenta a fazer amor. Está escrito a meio das 800 páginas da autobiografia, “Uma Vida”, de Elia Kazan, realizador de “Um Eléctrico Chamado Desejo” e “A Leste do Paraíso”. É comovente e cândido o que Kazan escreve sobre essa Marilyn que amou, essa Marilyn que, com graciosidade e pureza, o trocaria por um amigo, o escritor Arthur Miller.

Mas antes de os vermos sentados, aos três, no sofá, nessa noite em que Marilyn não sabe o que escolher, lembro a tarde em que Kazan a conheceu. Marilyn chorava, há três semanas, a morte de Johnny Hyde, seu agente e seu amante. Hyde já tinha idade para ser pai dela, fosse quem fosse esse pai desconhecido.

Marilyn vinha de um casamento falhado. Aos 16 anos, para escapar a orfanatos e famílias de acolhimento, casara com um vizinho, Jim Dougherty, 21 anos, operário numa fábrica, logo a seguir marujo na Marinha Mercante. A Kazan, Marilyn confessou a árida desolação desse casamento: “E nada do que ele me fazia na cama me agradava, a não ser quando me beijava aqui”, disse Marilyn, apontando para onde já estávamos a olhar desde que começou esta crónica, para os seus seios.

O primeiro amante foi Fred Karger, músico, com boas relações nos estúdios. Ajudou-a a fazer um contrato, mas era um misógino feroz, que lhe criticava o peito desmesurado e o rabo do tamanho do de uma negra. Odiava e temia mulheres, mas era bom na cama, e é o que, deitada ao lado de Kazan, Marilyn lhe diz, “eu tinha três orgasmos de uma só vez”.

Ora, Marilyn não era movida a sexo, mas sim a um romantismo idealizado. Queria o que Fred não queria, casar. Deixou-o e ia voltar ao ponto zero, sem emprego, quando lhe apareceu a asa protectora de Johnny Hyde, agente, vice-presidente da William Morris Agency. Velho, gentil, capaz de a guiar na carreira de actriz e de estar sentado a ouvi-la. Ao fim de um ano de corte, a gentileza fez deles amantes. Hyde tinha, diz Marilyn a Kazan, “um corpo ainda jovem e um pénis pequenino”. Era um amante insistente, angustiado com a sua condição cardíaca. Foi o dinheiro dele que a atraiu, do que a família de Hyde a acusaria?

Vejam, quando Hyde morreu, a família proibiu-a de voltar à mansão em que viviam e, mesmo, de estar no velório. Marilyn esperou que todos saíssem e, com as chaves que conservara, entrou, noite alta, subindo ao quarto onde estava o cadáver de Hyde. Deitou-se com ele. Ficou, nessa assombrada solidão, até à primeira luz do dia, saindo antes que regressasse a família. Desse velho e carinhoso Hyde, Marilyn não retirou um cêntimo, recusando sempre o casamento que ele insistia propor-lhe.

Era Hyde que precisava de Marilyn e era Hyde que Marilyn chorava quando Kazan, no estúdio, se sentou ao lado dela. Ficou em silêncio – quem não ficaria? – a ouvi-la chorar. E foi esse silêncio que fez deles amantes, já Joe Schenck, patrão da Fox, a queria na sua cama. Schenck, de 71 anos, mostrou-lhe a mansão, os sumptuosos quartos, ofereceu casamento e promessa de herança. Marilyn disse-lhe que não. Permissão até para dormir com outros homens, desde que nunca duas vezes seguidas com o mesmo, e Marilyn, ferida no seu romantismo tardio, disse-lhe que não. Numa festa em que não podia ficar com ela, Kazan pediu a Arthur Miller que a acompanhasse. Voltou mais tarde e viu como os dois dançavam e ela olhava para o amigo. Sentaram-se os três num sofá, a festa a deslizar para o fim. Quase sozinhos, com denodo e decoro, Kazan levantou-se: “Estou tão cansado, acho que vou dormir. Art, importas-te de levar a Marilyn a casa?”   

Publicado no Jornal de Negócios, Weekend

Hemingway ressuscitou ao segundo dia

Quem manda aqui são os crocodilos. Peço desculpa, não estou a falar da nossa governação, nem das lavadas lágrimas de Costa e Medina na despedida de Pedro Nuno Santos. Crocodilos ao sol era o que, lá de cima, se via nas margens do rio ugandês, entre o Lago Victoria e o lago Albert.

Lá de cima: do Cessna monomotor em que ia Ernest Hemingway, a mulher, e um pequeno grupo inquieto. O Cessna, dizia o New York Times do mês seguinte, bateu num bando de íbis, o que teria feito as delícias de Fernando Pessoa, que fingia de íbis para os sobrinhos, se ele, no Natal de 1953, não andasse já a aborrecer-se pelo sossego do paraíso. 

O anti-pessoano piloto do Cessna, carente ainda dos conselhos sobre aviação de Pedro Nuno Santos, percebeu que tinha de aterrar de urgência. A margem do rio seria o ideal não fora o mar de crocodilos hostis e de horríveis dentes anti-humanos. Do outro lado, uma selva mais cerrada da que em Maria Teresa e no Zenza de Itombe os meus olhos viram. Pior, uma selva santuário de elefantes. Entre a boca feroz e a tromba pendente, o piloto escolheu: antes a tromba. Com a perícia que a emergência permitiu, escavacou o Cessna, mas salvou os passageiros. Dormiram com os elefantes e no dia seguinte foram salvos.

O casal Hemingway, que viera admirar as recônditas quedas de água de Murchison, foi levado para Butiaba e devidamente enfiado noutro avião. Destino, Entebbe. Também eu, em 1986, ia apanhar um avião. Tinha passado três meses em Los Angeles, essa selva de “see you later, alligator”, estada que me permitiu estudar Coppola e ouvir John Huston, esse Hemingway do cinema, já de garrafinha de oxigénio, a dizer que, a mudar alguma coisa na sua vida, teria bebido muito menos uísque e muito mais vinho tinto. No aeroporto, o Boeing que me levaria a Nova Iorque dirigiu-se para a pista e, sem aviso, as luzes apagam-se e o motor cala-se. Nem ai, nem ui, só escuro. Minutos depois, volta a energia, o piloto avisa que vai voltar à manga e verificar o problema. Tudo recomposto, de novo na pista, já em posição, motores a bumbar e, pimbas, falha toda a energia. Rebéu béu béu, pardais ao ninho, volta a acontecer tudo terceira vez e nós, humildes passageiros, como um bando de íbis, a querer sair pelas janelas se não nos abrissem a porta. Mudaram-nos de avião, como a Hemingway, e voltámos seguros e salvos para Nova Iorque.

Ora, não foi o que aconteceu a Hemingway e era isso, o imparável perigo e a desmedida aventura, que fazia o grande escritor dos anos 50. Entram, a Mary com o seu Ernest, o Ernest com a sua Mary, no avião que os veio resgatar. O avião manda-se com todo o músculo à pista, deslarga-se do chão, vai de bico apontado ao céu, estremece, vem do céu um bang, as chamas tomam conta do aparelho, que se vem esmagar no chão.

Podia ter sido o caixão de Hemingway. Alguns jornais, julgo que mesmo a Associated Press, anunciaram a morte desse escritor que, com “O Velho e o Mar”, ganhara em Maio o Prémio Pulitzer. Dos tascos de Paris às bodeguitas de Cuba, o mundo, mesmo os que nunca o leram, chorou-o comovido.

Mas se o morteiro austríaco que lhe deixou 237 estilhaços no corpo não o matou em 1918, na Grande Guerra, não eram duas quedas de avião que o iam abalar. Dado como morto durante um dia, Hemingway ressuscitou ao segundo dia. Ele e Mary, ambos muito feridos e mal tratados foram levados para Nairobi e um terceiro avião trouxe-o a Nova Iorque. “A minha sorte – disse Hemingway – não podia estar a correr melhor!” Nesse ano, em Outubro, deram-lhe – só podia – o Prémio Nobel.

Eu pecador me confesso

Feliz 2023

Eis o que é imperdoável na catequese contemporânea, a rasteira miséria da linguagem. A multiculturalistas, identitários, trans e outros bandos falta-lhes o prazer dos cambiantes, a argúcia da elipse, a liberdade polissémica da palavra.

Eu, por exemplo, e para dar um mau exemplo. Eu fui um miúdo católico. Vejam, vejam-me, ali vou eu com 10 anos e já me ajoelho no confessionário da Missão de São Paulo, em Luanda; do outro lado, na semiobscuridade, o padre Miguel ou o padre Luís, dois capuchinhos italianos. E começo: “Perdoe-me, senhor padre, porque pequei!” E o meu bom padre: “Então, meu figlio, qué fizeste?” E ali estou eu, pecador, a murmurar, “Invoquei o nome de Deus em vão”.

Que beleza de pecado! Apetece repetir mil vezes o verbo e ligá-lo a esse adjectivo que é sinónimo de frívolo ou fútil. Eis o que é o pecado: “invocar”, que tanto pode ser “implorar” e “suplicar”, como “chamar à discussão”, o nome de Deus (não o seu rosto ou corpo, mas tão só o seu nome) “em vão”, ou seja sem fundamento, sem realidade substancial, de forma jactante ou fátua.

Acho que foi outro católico, o escritor G. K. Chesterton, que, num arrebatamento épico, disse: “Há alguma coisa de errado com um homem que não queira quebrar pelo menos um dos Dez Mandamentos!” Conscientes desse indisputável ardor humano, já os meus padres capuchinhos me perguntam: “E outros pecatos, minino?” E eu confesso: “Pequei, meu padre, por palavras, pensamentos, actos e omissões!” Há um brilho vaidoso nesta enumeração. Reconheça-se, “omissões” é o gran finale: com esse termo, um miúdo de 10 anos proclama, ao ouvido do seu padre, a dissipação da memória, o triunfo do oblívio, da postergação e do truncamento.

A catequese católica era rica no léxico, oferecendo vias, umas rápidas, outras subtis e mesmo irónicas, de plurissignificação. O mundo do pecado abria-se, vasto: um católico tem sempre impudentes planícies de palavras e pensamentos para vaguear e pequenas ruelas teologais, patrísticas e escolásticas para recuos e clandestinidades a que, actos ou omissões, o obriguem a recorrer.

Quando penso nisto, confesso, chego a ser tentado a reconverter-me agora ao catolicismo, como se converteram Graham Greene ou Paul Verlaine, Svetlana, a filha de Estaline, Afonso I, esclavagista rei do Congo, o impudente Oscar Wilde, e dizem que mesmo Hemingway, por influência da segunda mulher, Pauline. Mas também está bem viver-se no fio da navalha, como o fazia a fonte de escândalo e pecado que era a actriz Mae West. Natalícia, disse um dia: “Pai Natal, querido, venha, venha, e enfeite a minha árvore.” E nem sei se estou a traduzir bem, se foi mesmo árvore ou arbusto que Mae disse.

Não era católica, mas ia muitas vezes à missa com o seu catolicíssimo manager, o irlandês Jim Timony, beato de alto coturno e missa diária. Mae West despejava, aliás, toneladas do que ganhava nas obras sociais católicas. Num dos seus filmes, She Done Him Wrong, Mae é cantora num cabaret de má fama. Um agente federal undercover, Cary Grant, prende-a e quer pôr-lhe algemas. Ela olha desdenhosa e diz: “Não nasci com essas coisas.” “Se tivesse nascido com elas, muitos homens – diz Grant – teriam estado a salvo.” E logo Mae West: “Não sei, as mãos não são tudo o que tenho.” Impressionado com a promiscuidade dela, Grant ainda lhe diz: “Mas nunca encontrou um homem que a fizesse feliz?” Sincera, Mae responde: “Oh, montes de vezes!

Sem o pecado, sem a prodigiosa, dupla e dúplice linguagem cristã, sem a polissemia dessa velha catequese, nunca teríamos tido este humor redentor. Eis o que reprovo aos secos e literais puritanos contemporâneos.

Pelé

Na morte de Pelé nem uma lágrima. Um sorriso, um tremor apenas. Rola-me pela face um grão de nostalgia, julgo que a nostalgia de 1965, se é que lhe consigo dar uma data. Havia um cineminha num pequeno clube de Luanda, o Vila Clotilde, o Vilinha. Ou seja, havia uma tela e projectavam-se lá filmes. E, antes dos filmes, nessa Angola colonial, que nunca soube o que era televisão, exibiam-se imagens de actualidades. Eis o que vi, um URSS-Brasil. E não juro que tenha sido o que, nesse ano, se jogou na pátria dos sovietes, se o que se jogou no Maracanã.

Sei que era o “futebol científico” contra a imparável rebeldia do samba e bossa nova. E olhem, Pelé está à entrada do meio campo da URSS e metem-lhe a bola. Cai-lhe pela direita um russo e Pelé passa-lhe a bola em arco sobre a cabeça. Mas logo, pela esquerda, lhe tomba outro russo em cima. Sem deixar cair a bola que vem do primeiro arco, Pelé faz novo arco, em sentido contrário – ualálá – e o russo passa, perdido, como um comboio descarrilado, sem saber onde vai parar.

Esses dois movimentos estão gravados na minha cabeça nostálgica como dois arcos de uma capela perfeita. Já me esqueci de certos romances de Faulkner, de alguns contos de Borges, de um ou outro filme de Hawks. Do que fez o pé divino de Pelé, nessa jogada inútil, desinteressada, de pura ars gratia artis, há em mim um menino exaltado, eufórico, guloso, que nunca se esquecerá.

Nunca vi Pelé num estádio – ao contrário desse príncipe chamado Eusébio – mas soube, nessa matinée cheia de miúdos e miúdas de 12, 13 e 14 anos, que estava, num cinema de Luanda, a ver um rei.

Nem uma lágrima hoje, rei Pelé. Um grão de nostalgia, sim. A mais bela nostalgia, a nostalgia de 1965.

Sua Majestade, até já.