Pãezinhos quentes

Estão que nem pãezinhos quentes: chegaram hoje às livrarias

Os Mortos, James Joyce

Uma novela de Dublin. O baile anual das irmãs Morkan, entre Natal e o Ano Novo. Uma noite de evocação e de elegia: emergem e caem graciosamente, como flocos de neve, os vivos e os mortos.

O Esqueleto, Camilo Castelo Branco

Nicolau, homem de 40 anos, casa com a inocente prima de 16. Antes, abandonou a amante francesa, a quem logo volta. Mas talvez Beatriz, a prima, não seja tão inocente como Nicolau pensava. Esse é o adultério. O esqueleto aparece anos depois.

Enfermaria, Ana Paula Jardim

Uma perturbadora viagem poética. Cura e doença, morte e salvação, numa evocação desassombrada de improvável beleza que habita, também, na enfermidade e na dor.

A Decadência da Arte de Mentir, Mark Twain / A Decadência da Mentira, Oscar Wilde

Neste livro, que reúne dois curtos ensaios, Mark Twain e Oscar Wilde fazem o elogio da arte de mentir e da necessidade dessa arte. Um livro irreverente e imaginativo.

Marquês de Pombal, Réu Confesso, Camilo Castelo Branco

Camilo diz-nos quem foi o Marquês de Pombal. «Um homem feroz», garante o autor de O Amor de Perdição. Uma biografia implacável, que faz de Pombal um réu confesso.

O pote de sexo

Comecei assim este ano de 2022, com vontade de ouvir as mais sinceras e convulsas confissões.

Tinha os dois pés há menos de uma hora em 2022 e vem-me do passado esta ideia: Elia Kazan gostava de confessar. Recordo os mais distraídos pelo fogo de artificio do réveillon: Kazan realizou filmes como East of Eden, Wild River e Streetcar Named Desire. Nem são bem filmes, são monumentos de paixão e criação a roçar o divino. Kazan, com mãos e olhos de Deus, inventou Marlon Brando e James Dean, que Homero, se os conhecesse, teria enfiado na sua Ilíada. Aliás, Kazan nasceu grego, em Constantinopla, a cidade que já fora Bizâncio e hoje é Istambul. Só não sei se o seu gosto pela confissão trágica vem do grego capadócio que era de nascimento ou do convicto americano em que se tornou.

Talvez a confessional Marilyn Monroe tenha alguma culpa. Vejam, vejam: Marilyn está a chorar. É um choro americano de 1951, límpidas lágrimas de uma mulher de 25 anos. Os 43 anos bem casados de Kazan acabaram de a conhecer. Estão no estúdio onde se filma uma fita de terceira categoria, em que Marilyn é actriz de quarta. Riem-se dela. Kazan veio de visita, e escuta-a. Enternece-se e convida-a para jantar. Não sei a que restaurante Kazan a levou, talvez ao Musso & Frank Grill, sei é que a ternura é já incandescente. E tornam-se amantes: Kazan começa a amar em Marilyn o genuíno talento, a candura. O ostensivo e inenarrável corpo de Marilyn exalava uma humanidade que o inspira. Talvez chorem, digo eu, de cada vez que dormem juntos.

Ainda seriam amantes, quando pela primeira vez, o Comité de Actividades Anti-Americanas interroga Kazan, acusando-o de ser comunista? Nesse primeiro interrogatório, Kazan confessa que foi militante comunista dos 23 aos 27 anos: passaram duas décadas e já não o é. E não confessa mais nada.

Terá sido então que Kazan apresentou Marilyn ao seu amigo Arthur Miller e logo assistiu ao tiro e queda que avassalou os dois? Marilyn escreveu no seu diário, a impressão do primeiro olhar para Miller: “Foi como se tivesse chocado de frente contra uma árvore!” Tenho a certeza: ao segundo interrogatório do comité de caça às bruxas, Kazan já não tinha o consolo de Marilyn. À confissão, no segundo interrogatório, juntou uma lista de oito nomes. Denunciou: passou a stool pigeon, a bufo.  Essa é inesquecível traição que a América de esquerda jamais perdoou a Kazan, se exceptuarmos o grande Scorsese.

E já eu peço licença para vos falar de outra confissão. Ainda mal tinha assentado o pó desta atroz traição, e já o maravilhoso e convulso Kazan escreve à mulher. Confessa-lhe, em carta vibrante, o que todos os homens gostariam de poder confessar: que dormira com Marilyn – melhor, que a amara. E tal como não pediu desculpa por denunciar os oito camaradas, fez até um filme genial, On the Waterfront, para provar que a denúncia pode ser mandatória, Kazan não pede perdão. Confessa e garante que era impossível não se morrer de amor, tanto ela era, e leio a carta, “desamparada e em atroz sofrimento, sem esperança, com algum valor e sem ser mentirosa, sem crueldade, sem intriga, e com uma história de orfandade que era de morrer a ouvir-se. Era como se nela se tivessem juntado todas as heroínas de Charlie Chaplin.”

Tal como acusaria o comunismo de ser uma violência a tudo o que acreditava, reclama nobreza com Marilyn: “Acho que lhe dei esperança. E ela não era o pote de sexo que se publicita.” Pede à mulher que fique com ele: “Sou um homem de família, e fantástico.” Ela ficou. E eu atrevo-me a dizer, pedindo um terno aceno de concordância de Marilyn, que já não se fazem homens de família assim.

As maravilhosas mentiras do mês de Maio

as capas dos 13 livros de Maio

É que nem morto este vosso humilde editor vos mentiria. E começo, assim, com juras de amor, só para vos dizer que o primeiro livro de Maio da Guerra e Paz se chama Os Mortos. Escreveu-o, com mão elegíaca, James Joyce: uma novela que sufoca e enternece. E também não é mentira que o segundo livro do mês se chame Enfermaria, peregrinação de dor e memória da poetisa Ana Paula Jardim: e não é mentira porque só há poesia onde há verdade e verdade é o que povoa de ironia, e não menos transcendência, outra digressão poética, a do último livro de Maio, Revolver, de Sérgio Almeida.

E sim, já eu mentiria se não reconhecesse o toque de macabro que emana (palavra ligeiramente mentirosa) de O Esqueleto de Camilo Castelo Branco: é um dos grandes romances portugueses, e isso é que não é mesmo mentira. E quem à morte chamava uma mentira, negando-a, era o herói de Impressão Indelével, história de Camilo, primeiro livro publicado pela Guerra e Paz, em 2006, e que agora recuperamos, incluindo o verdadeiro e intenso prefácio de João Bénard da Costa. O Esqueleto e Impressão Indelével vestem de camilianas e macabras verdades (ou mentiras?) a colecção Clássicos Guerra e Paz.

Já o livro que se segue é todo e tudo mentira. Meia mentira de Mark Twain e outra meia [mentira] de Oscar Wilde. Se um escreveu A Decadência da Arte de Mentir, ao outro devemos A Decadência da Mentira: estão juntos, mentira contra mentira, num só livro que este vosso escriba apresenta na breve introdução Não Vou Mentir: está de volta a colecção Livros Amarelos.

Chega de mentiras. João Maurício Brás, filósofo e autor, vem inquietar-nos com o seu O Atraso Português, Modo de Ser ou Modo de Estar? Mentiria se dissesse que sei responder a essa pergunta excruciante. O livro sim, sabe!

Quem, a todas as mentiras sobre a língua portuguesa, responde letra a letra, só com verdades, é o linguista Marco Neves, no livro Português de A a Z, Armadilhas e Maravilhas da Língua. Com verdades e graça.

Agora, o que o alemão Jurek Becker nos põe nas mãos e no nosso imaginário é mesmo o triunfo maravilhoso da mentira: escreveu Jakob, o Mentiroso, romance delicado e empolgante sobre a sobrevivência num gueto que os nazis esmagam. É verdade é mais um dos nossos romances de guerra e paz.

Um belíssimo mentiroso, na mais límpida acepção do termo, era Machado de Assis. Num romance, A Mão e a Luva, vamos ver quem, dos três pretendentes da protagonista Guiomar, melhor mente ou diz a verdade. E o que é verdade ou mentira na subtil arte da pintura? Edith Wharton cria um herói incompreendido e convida-nos a segui-lo em Falso Amanhecer, novela que enrique a colecção O Admirável Mundo do Romance.

Duas biografias, essa esplêndida arte de contornar a mentira e dizer muitas verdades, enfloram este mês de Maio da Guerra e Paz editores. A primeira, a biografia de Raúl Caldeira, O Pioneiro da Gestão de Pessoal, acolhem-na a Fundação Amélia de Mello e a Nova SBE na colecção Histórias de Liderança; a segunda, escrita por Camilo Castelo Branco, indefectível romeiro da fantasia e da verdade, expõe os enganos e imposturas da falsa grandeza no seu Marquês de Pombal, Réu Confesso.

Treze livros que, de mentira em mentira, e a crer em Mark Twain e em Oscar Wilde, nos restituem a arte de procurar a verdade, não menos do que toda a verdade.

Manuel S. Fonseca, editor

O coração de Leopoldo

Na altura andava às voltas com o Solilóquio do Rei Leopoldo, de Mark Twain, e escrevi esta crónica para o meu “Negócios”. Foi em Junho do ano passado. Aqui fica para entretenimento e registo

Seriam de sombrio ouro as torneiras do palácio do rei Leopoldo II dos belgas? Diz-se que eram, sim, de indiscutível ouro, já não sei se as do palácio se as do iate do presidente Mobutu, herdeiro do sombrio Leopoldo em crueldade e horror.

E quem, vendo o porte erecto, o puro e limpo linho da sua longa barba branca, poderia dizer que via o coração de Leopoldo, monarca dos belgas, dono dos milhões de congoleses do Estado Livre ou Independente do Congo? Disse Estado Livre do Congo e estremeço: que desgrenhada e ofensiva ironia foi chamar-se isto ao vasto quintal mesquinho e bárbaro de que Leopoldo foi dono pessoal, como cada um de nós o é de um par de cuecas, umas surradas peúgas.

Arrisco. Talvez o anarquista Gennaro Rubino tinha tido um vislumbre do coração do monarca: viu o que de sevo e impiedoso corria pelas aurículas e ventrículos do rei. Atónito e espaventado, o anarca disparou contra ele três tiros. Nenhum lhe perfurou o coração, nem um pêlo da barba sequer lhe roçou.

Nessa noite de 15 de Novembro de 1902, um teatro inteiro de Bruxelas, patriótico, erguido e teso, cantou loas ao seu rei ileso. Bruxelas era então surda dos dois ouvidos: não escutava as vaias e pateadas com que a Europa já brindava o rei.

Agora olhem para este embarcadiço, regular visitante de Boma, cidade congolesa que, espreguiçando-se, já poria um pé em Angola! Chama-se Edmund Dene Morel, cidadão inglês, um bigode espanador, mas sem barbas que precisem de molho. Ao mundo, Morel relata o chicote, os suplícios, a mortandade que viu.

Volto ao coração de Leopoldo. Sonhou com um império como o holandês ou o português. Tinha um olho no Brasil, e um sobrinho casado com uma filha do imperador D. Pedro II, expansão que a república brasileira gorou. Quis comprar as Filipinas a Espanha. Quem sabe se não terá um dia feito contas a Angola?

Na Conferência de Berlim, Leopoldo fez-se presente e entrou com coração de cordeiro. Do seu colo, como do da nossa rainha Isabel, resvalaram as flores da filantropia. Prometia combater a escravatura árabe que devastava a África Central. Prometia levar ao selvagem coração negro as raízes poderosas desse capim cristão a que chamamos ama o teu próximo como a ti mesmo. Berlim, comovida, deu-lhe um território setenta vezes maior do que a Bélgica, quase duas vezes maior do que Angola. Peço aqui um daqueles silêncios estarrecedores: deram-lhe, a ele, não à Bélgica, como seu reino pessoal, seu quimbo, sua horta, esta imensidão de África.

Mas na Europa ressoa a voz inarredável de Morel. As sociedades comerciais a que Leopoldo entregou o Congo têm um exército privado, a Force Publique, de uma tribo canibal, que serve o terror da alvorada ao pôr do sol. Lançaram um imposto sobre a população, submetida a um regime de trabalhos forçados, que rasa a escravatura. Os congoleses têm de produzir uma cota diária de recolha da borracha, a riqueza que gera a fortuna obscena de Leopoldo. Aos que não cumprem corta-se-lhes uma mão, ou corta-se uma mão aos filhos. As sanzalas são incendiadas, decapitam-se recalcitrantes, empalam-se cabeças: um nevoeiro de terror e nojo flui, espesso, pelo rio Congo. Joseph Conrad romanceou essa névoa em o “Coração das Trevas”, mas foi o incansável combate de Morel, as denúncias dos missionários, que abriram os ouvidos da Europa e, por fim, da Bélgica. Leopoldo, milhões de mortos depois, entregou o Congo à Bélgica e a alguma lei.

Morreu a seguir. No funeral, apuparam o cortejo. Os mesmos que, no dia dos tiros anarquistas, lhe cantaram hossanas no teatro?

E esta é a capa negra do livro que vivamente vos recomendo, em nova tradução.

Talvez um dia, para despedida

A culpa é da jornalista Fernanda Cachão. Desafiou-me. Faz boas perguntas. Tentei aguentar-me nas respostas. Foi uma entrevista comemorativa dos 16 anos da Guerra & Paz. Saiu tudo, tudinho, na revista “Domingo”. Ora vejam, leiam e critiquem.

Nenhuma criança sonha ser editor. Como é que foi consigo?

É verdade, a criança e sobretudo o adolescente que eu fui, se sonhou com livros, foi para sonhar com histórias de Adamastores, de cow-boys, de pupilas do senhor reitor ou de astérixes em aldeias gaulesas. Li essas e outras histórias no sólido ramo da minha mangueira, na minha casa, em Luanda, sem perguntar como se faziam os livros ou quem os fazia. Quem teve a culpa de me obrigar a pensar como se faziam livros foi o João Bénard da Costa, quando dirigiu a Cinemateca. Para cada ciclo fazíamos um catálogo e eu era um dos servos da gleba que teve de aprender a escrever e rever textos, a trabalhar com um gráfico, para arrumarmos, página a página, palavras e fotografias e, depois, a ir às gráficas cheirar as tintas e passar a mão pelo papel. E descobri que esse convívio íntimo não só não impedia um grande amor ao livro, como reforçava o prazer e lhe dava sentido.

Aqui há dias, escreveu a propósito do aniversário da sua editora:”Lembro-me que Abril de 2006 foi um mês em que nasceram várias editoras em Portugal. Dessas editoras de Abril de 2006, só a Guerra e Paz editores sobreviveu. Vamos em peregrinação. Deambulando como Ulisses”. O que é que dita a sobrevivência de uma editora em Portugal?

Optimismo, algum bom senso, contas certas e beijos na boca à realidade. Mas não sei se a receita serve a toda a gente. Vivi durante dois anos a guerra civil angolana, tinha então 22 e 23 anos: descobri que mesmo no meio da tormenta, quando todo o mundo que imaginámos se esboroa, se pode ainda ser feliz. Foi esse o meu mestrado de gestão.

Como é que a pandemia e agora a guerra na Europa afectam o negócio dos livros? 

A pandemia obrigou os editores a respirar fundo e a reinventar o negócio dos livros. A situação mundial é, hoje, de claro crescimento do livro em papel, atingindo valores superiores aos valores de vendas pré-pandémicos. Isso significa que nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Itália – ou seja, nos países que lêem – o livro sai como um resistente e um dos recursos preferidos pelos cidadãos para o conhecimento e para o prazer e emoção. O livro tem futuro.
Em Portugal, sentimos mais duramente os efeitos: fomos um dos raros países com uma quebra – e grande, de 17% – nas vendas de livros no primeiro ano de pandemia. Mas já recuperámos os níveis de 2019 e estamos em crescimento. Temo que, agora, a inflacção, a quebra de stocks de papel com um brutal aumento, e o aumento dos custos da energia que está a abalar as gráficas possa, pela frágil situação do livro em Portugal, ferir o sector: vai doer.
Portugal precisa de uma política do livro e não vai ser o miserabilismo orçamental do Ministério da Cultura que o vai resolver. É preciso que o Primeiro-Ministro fale com a APEL, a associação que representa 97% do sector do livro em Portugal, e se encontre um caminho que faça explodir a literacia e o recurso à leitura. Se não lermos, continuaremos a ser o país estagnado que temos sido, apesar da democracia, ao longo destes 40 anos.

Depois dos e-books fala-se agora muito de audiolivros. Uma moda passageira ou uma oportunidade de negócio?

O audiobook é uma realidade em países que já lêem muito, como a América, Inglaterra e mesmo França. Em Portugal é pura e simplesmente risível: nem é bolha, nem sequer borbulha. Mas queremos estar presentes, a pensar num futuro ainda razoavelmente distante.

A editora tem no catálogo alguns livros para ‘descabelar espíritos penteadinhos’ ou ir contra as modas do pensamento contemporâneo… É o espírito da missão de um editor?

Sim, em particular na nossa colecção de “Livros Vermelhos”, temos a pretensão de oferecer caminhos que nos resgatem de um pensamento único. Dou um exemplo, vamos publicar em breve, um livro de um físico da Universidade de Nova Iorque, que foi secretário na área da energia, no governo de Obama, sobre as questões climatéricas. O livro chama-se  “Desconsenso: O que a ciência do clima nos diz, o que não diz e o que isso interessa” e o autor, Steven Koonin, mostra-nos como muita Imprensa e mesmo as vozes dos políticos da ONU, reclamando-se do relatório do IPCC sigla em inglês do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), apregoam um apocalipse que, cientificamente, esse relatório não sustenta.

Fomos e estamos a ser ensinados a viver como carneiros?

Diria que há uma infantilização sinistra em curso, para a qual todos contribuímos. Como se tivéssemos todos de pensar de forma uniforme e as nuances, essas maravilhosas formas de recreação e de subtileza, tivessem sido abolidas.

O politicamente correcto, tal qual o praticado hoje em dia, pode ser também uma forma de ditadura?

É decididamente uma forma de pensamento único. Sobre o essencial desse movimento “correctivo” identitarista e de género, pronuncia-se com inteligência o nosso livro “Teorias Cínicas”, demonstrando que esses discursos e teorias prejudicam acima de tudo as comunidades que juram querer servir. E um outro livro, “Woke, um Guia para a Justiça Social” arrasa pelo absurdo a vocação delirante e repressiva do politicamente correcto.

Foi prefaciador dos livros de Hitler, Marx e Mao Tse-Tung. Qual destes autores o deixou menos indisposto?

Fui prefaciador do que chamei três livros malditos – o “Manifesto Comunista”, o “Mein Kampf” e o “Pequeno Livro Vermelho” – livros que, voluntária ou involuntariamente, foram bandeiras usadas em três das maiores tragédias humanas do século XX. É de justiça dizer que Marx e Engels são de uma natureza diferente dos bárbaros Hitler e Mao. Mas é preciso também dizer que não há nenhum resgate possível do ideal comunista: as ideias do “Manifesto” conduzirão sempre a uma sociedade de violência e brutal repressão. É da natureza maniqueísta do “Manifesto”: aí começa a divisão e a legitimação do massacre.

Alguma vez esteve envolvido numa polémica por causa da autoria de uma crónica?  

Já estive envolvido em polémicas, sobretudo quando fui director de programas da SIC. E não creio que se resolvam à Will Smith.

Trabalhou na televisão. Vê televisão actualmente?

Sim, pouco, mas vejo. E vejo como hoje muita gente vê televisão. Vejo o que quero e quando quero, uma série toda seguida em duas noites longas, um filme, os jogos do SLB, passeio de telejornal em telejornal.

Há alguma diferença entre as polémicas de agora e as de outras épocas?

Lembro-me que foi célebre uma polémica na televisão americana entre Norman Mailer e Gore Vidal, dois grandes escritores. À saída do debate, a polémica prosseguiu e Mailer estendeu Vidal com um murro. Do chão, Gore Vidal ganhou a polémica com a mais admirável das respostas: “Mais uma vez, Norman, faltaram-te as palavras!”

Qual o melhor filme para se ver, quando se tem dúvidas sobre a acção de Putin sobre a Ucrânia?

Há um filme recente, The Painted Bird, que não passou em Portugal, que dá um retrato da devastação física, emocional e moral que a guerra pode causar. É um filme de um miúdo perdido, escravizado, perdido entre gente hostil: é fisicamente difícil até de ver e é essa dificuldade que nos aproxima da experiência de rasgada dor que é a guerra.

 Qual é a importância do cinema na sua vida?

Vivi até aos 19 anos em Angola, sem vir a Portugal. Nunca tinha visto até aí televisão. Isso dá uma ideia da importância que para o meu imaginário tiveram o cinema e os livros. O cinema vivi-o como uma exaltação física. Vi filmes em salas onde se gritava e atiravam, com o maior dos entusiasmos, coisas ao ecrã. Vi, portanto, filmes em estado puro.

 E com um livro, o que é que vai melhor?

Um belo copo de vinho tinto: e não estou a descobrir nada de novo, foi a beber um belo copo de tinto italiano que Marlon Brando entregou ao seu filho Al Pacino o império do mal dos Corleones no “Padrinho”, do Francis Copppola.

Por que é que não escreve um romance?

Já escrevi livros. Um sobre a “Revolução de Outubro”, outro sobre a minha relação apaixonada com os terríveis palavrões que usamos nos insultos ou quando estamos em fúria. É um livro deliciado com a força seminal, se assim posso dizer, da palavra, com esse ponto em que a palavra passa a ser uma arma de guerra. Agora um romance? Talvez um dia, para despedida, escreva um livro que seja híbrido o suficiente para ser considerado um romance. E talvez seja esse livro que decide se, a seguir, vou para o céu ou para o inferno.

Churchill, Will Smith e o Charlie Hebdo

Dois dedos de Winston e já falo da mão de Will

Ora vejamos, e gostava que mesmo Will Smith ponderasse nisto: Sir Winston Churchill está sentado na retrete. O seu chefe de gabinete, quem fosse, bate-lhe à porta com tanta urgência como a sentada urgência dele. E, para que ouça bem, grita-lhe que está ao telefone o Lord Keeper of the Privy Seal. Esclareço: esse lorde é o quinto na hierarquia dos grandes oficiais do Reino Unido, um braço ou quase uma mão da rainha. Sentado na sanita, Churchill talvez pense que é um Chris Rock em Hollywood e não resiste: “Digam-lhe que só me consigo ocupar de uma merda de cada vez.”

Anda por aí uma romaria a querer beijar a mão de Will Smith. Eu beijo a boca de Chris Rock. Ou, se ele sair da retrete, a boca de Churchill. E já a boca de Churchill discorre imparável. A bela Viscondessa de Astor, feminista e incansável anti-nazi, abespinhou-se com Churchill e tomba-lhe de bruços a compostura: “Se o senhor fosse meu marido, despejava-lhe veneno no café!” Ao que logo os cem quilos de Churchill ronronam: “Se eu fosse casado consigo, bebia-o.”

Há limites para o humor? Ah, a saúde e coisa e tal, o doente fragilizado e vulnerável, essa hóstia consagrada do nosso tempo é a porta que o humor não deve transpor, a essa porta se esfregando com sonasol lixivia a língua do humorista! Que São Churchill nos ajude: voltemos à suja casa dele. Vieram pedir-lhe que escrevesse uma carta de parabéns pelo 80.º aniversário a Stanley Baldwyn, que fora três vezes primeiro-ministro. Seria um gesto misericordioso. Stanley estava doente e morreria pouco depois. Churchill, esse idiossincrático anti- Will Smith, não hesitou. Disse álacre e rotundo que não: “Não desejo a Stanley nenhum mal, mas teria sido muito melhor que ele nunca tivesse nascido.”

E a religião? Não peçam ao Charlie Hebdo respeitinho e que se ponha com caladas vénias e salamaleques de omissão a Maomé e “às religiões”. Peçam antes a Maomé e “às religiões”, essas às vezes sublimes, às vezes aterradoras criações humanas, que respeitem a liberdade, mesmo a mais irreverente, que é a nossa condição. A capa do Charlie Hebdo com um amargurado Maomé, que não se reconhece nos integristas, e choroso afirma, “Que cruel é ser amado por imbecis!” é um prodígio de tolerância.

E agora que, Charlie Hebdo na mão, Churchill já saiu da casa de banho, voltemos à boca dele. Está no Parlamento britânico e trava-se de razões com Elizabeth Braddock, deputada trabalhista. A senhora Braddock poupava na beleza o que não poupava nas palavras. No fervor da tormenta, não hesita: “Winston, o senhor é um bêbado. E o pior é que é um bêbado repugnante.”  Levantou Churchill uma mão de Will Smith para a senhora Braddock? Responde-lhe antes com a doçura, ternura mesmo, destas palavras: “Minha querida, também a senhora é feia, e pior, é uma feia repulsiva. Só que amanhã eu já estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia e repulsiva.” Pedindo a Will Smith que mantenha a mão quieta, lembro ser de Oscar Wilde a melhor piada sobre órfãos: “Perder um pai pode ser visto como um infortúnio, mas perder os dois já me parece falta de cuidado.” E se Will Smith quer ainda bater a alguém, que bata ao ex-presidente Johnson, branco e macho tóxico, que de outro presidente, Gerald Ford, foi capaz de dizer: “Gerry Ford é tão burro que é incapaz de se peidar e mastigar pastilha elástica ao mesmo tempo.” Talvez Will possa esmurrar Trump: sobre a estrela dele no Walk of Fame alguém pintou uma suástica. Um acto de humor: ninguém sabe se foi um apoiante ou um opositor. Quem dera que tivesse sido Chris Rock.

16 anos de Guerra e Paz, hoje, 10 de Abril de 2022

Lembro-me que Abril de 2006 foi um mês em que nasceram vária editoras em Portugal. Dessas editoras de Abril de 2006, só a Guerra e Paz editores sobreviveu.

Vamos em peregrinação. Deambulando como Ulisses. Haverá Ítaca para um editor? E que Penélope lhe tece o sudário?

Hoje, dia 10 de Abril de 2022, a Guerra e Paz faz 16 anos. Pode um ano, um ano inteiro, ser a nossa finest hour? Tenho a certeza de que sim: 2022 vai ser o melhor ano de sempre da Guerra e Paz editores. O ano de novas colecções – romances de guerra e paz, o admirável mundo do romance, os livros não se rendem, arquipélago – de muitos novos autores, o ano dos nossos melhores livros.

A rã inchada

Já tinha saudades de trazer aqui uma das crónicas que publico todas as semanas no Weekend do Jornal de Negócios. Há quase um ano que estão a secar como o bacalhau, sem virem aqui à minha Página Negra. Esta, fresquinha e acabada de publicar na última semana, lembrou-me que há 30 anos, no dia 1 de Abril, eu entrava na SIC, no mesmo dia em que começou o José Alberto Bastos e Silva e o Jorge Marques. Fui o 11.º. Seriamos depois 300. Foi a minha viagem espacial.

Qualquer um pode inchar, desculpar-se-á a rã de La Fontaine. E ainda antes de passar ao astronauta que inchou, lembro-me que, nesse tempo em que os animais delicadamente falavam e eu fui director de programas da SIC, me auto-louvei pública e clamorosamente por ter, num dado mês, recuperado a liderança das audiências que tínhamos perdido um ano antes para a TVI. José Eduardo Moniz, meu concorrente na TVI e a quem hoje estimo e me deve, ou eu a ele, um almoço, com a fina ironia de quem não gosta de perder, disse então que, se me tocassem com um alfinete, eu rebentaria. 

Ou seja, eu era, em Carnaxide, a rã inchada de La Fontaine. Agora vejam, e se a rã fosse um astronauta? Tudo se passou num tempo em que não só os animais falavam, como os humanos cacarejavam. Eram os anos 60 e não me esqueço que, nesses ténues e longínquos anos, os soviéticos pareciam estar sempre um passo à frente dos yankees na corrida cósmica. O russo Gagarine fora o primeiro humano a sair da então encantadora atmosfera terrestre. E agora, em 1965, a nave Voskhod 2, preparava-se, a 18 de Março, para deixar a Terra e ser palco de um cometimento mais circense do que caminhar no arame entre dois prédios da 5.ª Avenida.

 Dois astronautas tripulavam a Voskhod 2 e um deles, Aleksei Leonov, seria o primeiro humano a sair de uma nave e a pairar, caminhar, levitar, enfim, o que se queira dizer, no espaço. Adiante: a Voskhod 2 já está lá em cima, por onde andarão os invisíveis extra-terrestres, anjos e demónios. É então que, com um fato espacial imponente, Aleksei sai por uma das escotilhas e, pela primeira vez na história da sofrida humanidade, se não contarmos com Ícaro que queimou as asas ao aproximar-se do sol, um homem caminha ou deambula no espaço… neste caso o homem soviético deixando o homem yankee a chuchar em qualquer coisa, talvez no dedo.

Sucede que, cercado pela hiperbólica imensidão, soprado quiçá pelo imensurável silêncio galáctico, Aleksei Leonov começou a inchar. Em doze minutos, Aleksei era já a inchada representação da rã de La Fontaine no espaço cósmico. Uma excessiva pressurização do fato espacial, dirão depois os especialistas soviéticos. O problema é que Aleksei, para voltar à nave, não cabia já na escotilha por onde saíra.

Diz o povo que “com o animal não lutes e o alheio não furtes”, mas também é verdade que o povo diz tudo e o seu contrário. O soviético Aleksei, durante 15 minutos aflitivos, tendo já furtado ao alheio espaço a sua solidão, não quis saber do que diz o povo e lutou mesmo contra a rã que lhe enchia o fato. Conseguiu, em acção arriscada, despressurizar em parte o escafandro, e entrou ao contrário, cabeça para a frente, na escotilha de acesso à nave, onde depois, com herculana valentia, teve de dar uma impossível volta sobre si mesmo para conseguir fechar a escotilha aberta para o vazio cósmico e poder regressar à uterina nave de onde saíra.

Aleksei, com o recato dos heróis, não soltou um queixume. Os técnicos soviéticos, na Terra, perceberam as dificuldades e a angústia. Tinha na boca uma cápsula de veneno que deveria morder e engolir se ficasse preso no espaço, para evitar uma morte lenta e horrível.

O regresso à Terra ia matando os dois pilotos que aterraram a quase 400 quilómetros do lugar previsto, na Sibéria, com 30 graus abaixo de zero, entre ursos e lobos cheios de apetite, a quem não cairia mal uma rã inchada. E, ainda assim, da sua boca só o ouviram, depois, dizer: “Creio que nunca soube o que significava a palavra ‘redondo’ antes de ver a Terra do espaço!”