Porque hoje é sábado. De ressurreição

vinicius-de-moraes

Não  nos deixemos entalar. Nem encavalar. O mundo está, sempre esteve, perigoso. O mundo é, sempre foi, injusto. A bela democracia grega tinha escravos dentro de casa. Não se deixem impressionar com a contabilidade do passado e com a promessa de amanhãs que cantam. Ninguém tem de ter o Universo às costas. A felicidade é para hoje, é mesmo para agora.

Os piores Pides são os Pides da felicidade. Andam por aí a caçar risos. Andam por aí a a medir prazeres. Trazem debaixo do sovaco causas circunspectas e fracturantes, angústias que fazem da humanidade passada um rolo de carne de maldade e crime. É mentira.

Não se deixem amarrar com o que a boca deles diz, mas os olhos deles nunca viram. Não é preciso adiar nada para ajudarmos o mundo a ficar melhor. Beijem. cantem, bebam, amem. O mundo agradece. E depois trabalhem. Façam o melhor que conseguem fazer. Criem. Riqueza também. Não explorem os miseráveis fazendo deles bandeira. O que ajuda os pobres, desfavorecidos, desiguais, não é o angustiado enlevo das boquinhas em forma de cu. É a riqueza que pode ser repartida.

Porque hoje é sábado, como dizia Vinicius. E é de ressurreição.

Sexta-feira santa

Este é um post para ouvir.
Pri­meiro, uma canó­nica ver­são do coro final (“Des­can­sem em paz, per­nas aben­ço­a­das”) da Pai­xão Segundo São João, de Bach.

Depois, (“Bombé”) o encon­tro de Bach com o encan­ta­tó­rio bater de pal­mas de um ritual fúne­bre afri­cano — fusão mira­cu­losa, meu Deus Nosso Senhor.

Des­cansa sim, des­cansa esses teus ossos peri­pa­té­ti­cos. Far­taste de andar. Da Gali­leia a Jeru­sa­lém, bodas em Canaã e jejum no deserto, em bem-aventurado pas­seio à mais Alta Mon­ta­nha até sobre as águas cami­nhaste. Descansa-me esses ossos, a carne e os mús­cu­los. Deita-te na cova húmida, fecha os olhos e fala. E ensina-me tam­bém a des­can­sar. Fecha na minha cabeça as por­tas do inferno e ensina-me o ama­relo, o dou­rado cami­nho para o paraíso.

Vladimir
Jesus no túmulo, Vla­di­mir Borovikovsky

Vais dizer-me que são teus os anjos da res­sur­rei­ção, que não cho­re­mos nós por ti, por que já basta cho­ra­res tu por nós. Mas ama­nhã, bem sei, vol­ta­rás a par­tir. Deixas-nos, deixas-me, e hás-de dizer outra vez que tens na tua casa grande, a de eterna luz, um quarto e uma cama à nossa espera. Com len­çóis de uma abso­luta ale­gria, júbilo dos nos­sos olhos, feroz volú­pia dos nos­sos ouvi­dos. Não dizes, mas sabe­mos: é tão fácil che­gar lá. Basta que nos dei­xe­mos crucificar.

E agora ouçam o Mon­te­verdi Choir e os English Baro­que Soloists, diri­gi­dos por John Eliot Gardiner

Comam alfaces

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 foto de Greta Dominaityte

Bica curta servida no CM, 4ª feira, dia 11

Por muito que goste de vinho é a água que vai atormentar o meu já curto futuro. Em 2040, a falta de água em Portugal será aflitiva e há a vaga hipótese de eu ainda estar vivo. Tentar ir a águas a Espanha e Marrocos não ajuda: estarão pior do que nós. Voltaremos a matar-nos à sacholada por um copo de água?

O site waterfootprint.org indica os alimentos cuja produção bebe mais água. Um quilo de chocolate gasta 24 mil litros! O quilo de bife sorve 15500, o de queijo 5000, a carne de porco e as azeitonas vêm a seguir. Bebam cerveja, vinho e comam alfaces: gastam pouca água. A bica curta também, o que é um descanso. Melhor só o chá.

Lotação esgotada

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Bica Curta servida no CM, 3ª 10 de Abril

Restam dois bilhetes e estão a leilão por 1500 dólares: mais do que uma bica. Os 3000 lugares do Centro de Artes de Toronto esgotaram e não é para ver Beyoncé ou Madonna. No dia 19 de Abril, os espectadores vão assistir a uma luta de titãs. A menos que haja uma inenarrável surpresa, não é uma luta de murros, é só de palavras. Dois pensadores, o canadiano Jordan Peterson e o esloveno Slavoj Zizek, vão esmifrar-se em argumentos para provar a 3000 pessoas onde é que está a felicidade, se no capitalismo, se no marxismo.

Três mil pessoas querem ver dois homens raciocinar em voz alta. Haja Deus: acreditam na força do pensamento.

ps – Na verdade, atendendo à diferença horária, o debate deve estar, no momento em que publico este post, no seu pico de intensidade.

O VAR

Guardiola
Com a devida vénia foto do Evening Standard /Reuters

Eis o que é o VAR: um tira tesão. Como hoje viu quem quis ver um grande jogo de futebol e pôs os olhos no Manchester City contra o Tottenham. Estava 4 a 3 e o City precisava de um golo para assegurar a passagem às meias finais da Champions. E marcou. Os jogadores explodiram de alegria. Encostado à linha lateral, Pep Guardiola, o treinador do City, saiu de si mesmo, arrebatado, como quem acabasse de ver a face de Deus. Correu, saltou, um rosto eléctrico, relâmpago de felicidade. E veio o VAR. E agora veja-se, e só me sai esta analogia de carácter, digamos, sexual. Nem é bem dizer que “ai, ai, ai, tira, tira, tira”. O VAR supõe, e quer forçar-nos a acreditar com pretensão científica, que  nunca esteve onde esteve o que já esteve lá dentro. É o anti-clímax, a negação da emoção, uma imposição contra-natura. 

Não me azucrinem os ouvidos com a verdade. Um cagagésimo de Aguero estava offside, num instante em que nem o avançado do City, nem os defesas do Tottenham, previam que voltasse a eles a bola que já ia para o meio do campo do City. Aquele cagagésimo de Aguero, o mais esticado dos seus pêlos púbicos, não interferiram verdadeiramente na jogada, cuja verdade, diga-se, é a beleza da coisa, a arquitectada emoção do ressalto e a combinação que se segue – quando Aguero e os defesas adversários reagem já não há o fora de jogo que tecnicamente existiu quando eles estavam fora de acção.

Qual é então a verdade?A verdade do futebol tem de ser igualzinha à verdade da poesia. Que raio de verdade é que há nestes versos, “Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. / Seus ombros beijarei, a pedra pequena/ do sorriso de um momento”? Ou nestes “April is the cruellest month, breeding / Lilacs out of the dead land”? Uma só verdade: uma danada e inexplicável emoção que resulta da fricção das palavras. A emoção do futebol é a sua fricção. O VAR é uma vaselina a posteriori. Valha-me Deus, não se negue o que, ganha a posição, perna a dobrar outra perna, carne na carne,  já esteve lá dentro.

 

A inenarrável beleza de Orpheu

Sou franco, só sei que escrevi esta prosa a roçar o indecente em 2015. Mas não sei porquê ou para quê. E nem sei se a publiquei em lugar algum. Publico-a, agora, por falar de Notre Dame de Paris. Ou melhor, de Nossa Senhora de Paris. Nem é bem o que estarão a pensar e espero que ninguém se ofenda: PIM e PUM.

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Orpheu

O que é ou foi “Orpheu”? É preciso esclarecer o pessoal que frequenta cervejarias, é preciso esclarecer o português que anda indeciso entre o Uber e o táxi canónico. “Orpheu” era uma revista de poesia. Era uma revista e lá dentro, nas páginas (por de páginas e de papel se fazer uma revista, que é como um livro, mas mais molinho), havia textos, coisas escritas. É bom dizer isto porque muita incauta gente, apanhada distraída, pode pensar que “Orpheu” era uma ONG, uma coisa parecida com a “Abraço”, ou um partido político desasado. Mas não, “Orpheu” não é o CDS ou o PCP, que seriam, talvez, os partidos políticos que os portugueses conhecem mais próximos de um ideal poético. E, no caso de “Orpheu” ser poesia, então o Bloco de Esquerda – PUM – é a coisa mais anti-poética que pode haver: PIM! PAM! PUM!

Salazar e Cunhal foram, no século XX, os políticos mais próximos de um ideal poético. Porque, à poesia, quando lhe dá para a puta de um ideal, logo descamba para o totalitário, para palácios de inverno e noites de cristal. Mário Soares e Francisco Sá Carneiro foram os únicos políticos que tivemos que podiam ser esparramados na capa de um romance. O romance são 200 ou 800, 400 ou mil páginas de gente cheia de dúvidas, gente persistente e estraçalhada de pecadilhos, mas com uma humanidade que enternece, homens e mulheres fiéis até no ledo, doce e amoroso engano. Mas isto não interessa nada, porque “Orpheu” não é um romance, por muito que em prosa sejam certos poemas de “Orpheu”.

É preciso que as pessoas tenham ideia de que a poesia são palavras em fogo e que palavras em fogo não são, necessariamente, a coisa mais próxima da verdade. No romance, as palavras são mais brandas e macias, e pode muito bem um brutal substantivo deixar-se ficar de beicinho caído por um subtil adjectivo. Para já não falar de advérbios ou de um pretérito mais que perfeito. E já me perdi, e já reconheço o engano, como o ouriço-cacheiro, que dizia “Qualquer um se pode enganar”, descendo, desalentado, da escova do cabelo. Sim, quando não se fode é melhor sair de cima.

Gostava também de dizer que “Orpheu” é uma coisa da língua para fora. A língua serve para tudo. Para andar por aí – ai, ai, a fazer queixas, ui, ui, a lamber botas! Falada, é portuguesa, a língua de milhões de uma malta de carne e osso que na sua esmagadora maioria nem é portuguesa. “Orpheu” para ser portuguesa foi também brasileira, porque nada é português se não for ao mesmo tempo outra coisa.

“Orpheu” nasceu em Portugal ainda havia um czar na Rússia. Nessa altura, bem esticada e indecente, pusessem os poetas de fora uma língua portuguesa, uma língua russa ou francesa, queriam e não queriam czares. Os poetas nunca sabem o que querem e isso, às vezes, pode ser mesmo muito chato. O poeta sonha com um czar onde o não haja e odeia o czar que houver. Viva o Czar, puta que pariu o Czar. O poeta é tão contraditório que tropeça nos próprios sapatos e só não tropeça nos atacadores porque o poeta de “Orpheu” não estava autorizado a usar atacadores para não se suicidar.

O poeta de “Orpheu” suicidou-se, aristocrático, em Paris. Enterrou-se no seu esoterismo e exilou-se nos salões sem janelas de uma beleza visceral, mental e palpitante, vestida a caprichos de cetim, que trazia, na cabeça, um roxo capacete de ferro.

“Orpheu” tinha sexo, o de Nossa Senhora de Paris, cheirinho a maresia. Cai-nos por ela, agora, um braço e, do lado da janela, velam pela Senhora três donzelas. Mas isto não é para meninos, nem meninas. Explodem tumultos nas ruas, assaltam-se as padarias de 1915 por causa do aumento do preço do pão e Pessoa & Campos, Mário Sá-Carneiro e Almada põem “Orpheu” de saias arregaçadas, a lavar as pernas da poeira das estradas. Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, ou não fosse “Orpheu” a nossa Ode Triunfal.

“Orpheu” acabou, “Orpheu” continua, “Orpheu” está adiado sine dia. E também eu sou dessa maravilhosa gente humana que vive com os cães. E bem vos digo: a poesia não faz sentido nenhum e é isso que faz a inenarrável, pasmosa beleza de “Orpheu”. O resto, as ceroulas de malha dos partidos, concubinos e ciganões, as munições de manguitos dos telejornais… Ora PIM, ora PUM.

Notre-Dame

NOTRE_DAME_FIRE

Este fogo do inferno queima e envelhece. Está a arder, ali, a parte de mim que é o meu muito amor a França, o meu muito amor a Paris. Já estive de olhos fechados naquela nave, hoje em fogo. Ali perto, já na margem esquerda, mesmo em frente, ensinava-se a dançar o tango num jardim – noite de cinzas, agora, nesse jardim.

Ao rei dos céus

To my brother, Victor Melo
he still prays – me too

Peço desculpa, peço desculpa, mas preciso de lavar a alma. Em canto e beleza, palmas, percussão, guitarra e voz. Confesso, com estes vilancicos desfaço-me em lágrimas: por não saber cantar.

É tão bonito este vilancico que Manuel Lombo, extraordinário cantor de flamenco, canta no altar maior da Catedral de Sevilha, na sensualíssima Andaluzia, tanto mais mística quanto mais carnal.

Estando la Virgen María
sola en su aposento 

haciendo oración.

Por la puerta se le ha entrado un ángel, 
vestido de blanco como un claro sol.
Y la saludó, y la saludó.
Porque la Reina del Cielo y la Tierra,
y madre de Cristo no la ha hecho Dios.

Vem um anjo – como um claro sol – e só nos apetece dançar com a Virgem, com Deus, com o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Vem o anjo e põe-se a noite clara, vem o anjo e logo o dia se converte em obscuro domínio.  

Peço desculpa, não quero escandalizar ninguém. Peço desculpa, muito menos me quero escandalizar a mim mesmo. Peço desculpa, mas já não me lembrava de ver nada tão profundamente religioso e tão profundamente erótico como estes vilancicos, o de cima e o de baixo, o que em cima celebra a entrega de uma mulher e o que em baixo cobre de mantillas, pañuelos, fajitas y corsés o menino meio nu. Derrama-se graça – llena de Gracia – e onde se derrama, lenta e densa a graça, ó noite buena, logo o corpo se transfigura e o corpo é o Rei da Terra e o corpo é o Rei dos Céus. Com palmas, requebros, guitarras e percussão, a voz que se tortura, as bocas femininas do coro que se abrem para não sufocar de calor e tensão, ah Virgem Maria, ai meu Deus, leva-me aos céus que eu já te dou a terra.

Ya le llevan al Rey de los cielos
Mantillas, pañuelos, fajitas y corsés
Porque vienen los fríos de enero
Y está en medio cuero
El niño Manuel

Também eu farei contigo o que queira Deus. Ah, e e um dia destes há de ser Natal.

P.S. – Como é que não percebemos que a melhor tradição católica – pintura, canto, poesia – é sublime por ser  pan-erótica?