O meu maravilhoso funeral

bobdylan
(c) Bob Dylan

Não é uma canção. É o meu maravilhoso funeral. Nunca me imaginei ir a enterrar na voz de Bob Dylan. A cantar Murder Most Foul (A Mais Obscena das Mortes, traduzo eu), a voz de Dylan vai em marcha lenta, a singela carreta funerária à frente de milhares de passos de silenciosos corpos presentes, que vêm despedir-se.

Eu vou a enterrar em Murder Most Foul (A Mais Hedionda das Mortes, traduzo eu), Bob Dylan de coveiro, voz monocórdica, constante, repetitiva, a abrir a cova como o velho e humilde sacho do cavador de cemitério de aldeia. Em Murder Most Foul (A Mais Abominável das Mortes, traduzo eu) morre ao piano (roubado a Keith Jarrett?) e vai a enterrar em soturno violino todo o mundo que eu amei, as canções, os filmes, as velhas ruas americanas, a cabeça de John F. Kennedy. A colcha almofadada deste caixão é os anos 60, a cultura pop, tanta esquecida contracultura, que me encheu de amor as veias, e já deito a cabeça no colo dessas ruas de polícias (cops, traduzo eu), salpicadas a Woodstock e Altamont, como na salada se infiltram sal e pimenta.

Vou a enterrar na mais suave e cruel das elegias, a inesperada elegia de Dylan, tributo, aceitação e morte. Morro, morremos em Murder Most Foul (A Mais Desleal das Mortes, traduzo eu), nesta canção temperada a uma saudade venenosa e doce, intraduzível nessa língua portuguesa que tanto se vangloriava de ter a exclusividade dela. Em cada rima de Dylan há uma perda e mil adeus, adeus, The Beatles are comin’, they’re gonna hold your hand.

Esta canção entra-nos na cabeça com a delicadeza que a bala de Lee Oswald não teve ao entrar na cabeça de John F. Kennedy. Era uma questão de tempo e este é o tempo certo: Dylan, profético, cordeiro sacrificial de Deus, canta (play, traduzo eu), canta-me a mim, a nós, em cada verso lembrando os dias, as casa, os carros, a rádio, o cinema, a igreja, o que fizemos, as ausências e a nossa cabeça que tomba, como tombou a de John F. Kennedy, gota de sangue no olho, gota de sangue no ouvido.

Em 17 minutos xamânicos, Dylan entrega a memória de uma vida e de um tempo nos braços e no colo da morte e leva-nos de limusina para o infinito, inferno ou céu. Fui hoje a enterrar em Murder Most Foul (A Mais Tempestuosa das Mortes, traduzo eu). Obrigado Bob Dylan por tão gentil eutanásia.

Futuro, funerais e sonhos

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Pablo Picasso, do período azul

Estas foram as Bicas Curtas que servi no CM, corriam os dias 24, 25 e 26 de Março. Mau grado a velocidade a que anda hoje o mundo, não retiro nem uma vírgula ao que disse.

O futuro emergente

Há duas coisas abomináveis. Ou melhor, abominável é explorar este cataclismo para açambarcar e inflacionar bens essenciais. Mas, se não é abominável é, pelo menos, populista, arrancar desta catástrofe ilações ideológicas prematuras, divisionistas e culpabilizantes, seja para atacar a direita ou a esquerda.

Uma inquietação: quem será capaz de dar à humanidade que somos um farol depois da crise. A China e a sua ditadura? Uma outra América, que não a deste Trump paroquial, desconexo e abdicacionista? Conseguirá a Europa ser a referência solidária, cultural e económica que um novo tempo de desenvolvimento, ciência e bem-estar precisa?

Chorar os nossos mortos

Há, na dor dessa belíssima Itália, na implacável ceifa de morte a que o vírus a submeteu, um aspecto que a todos nos choca e desanima: os mortos vão a enterrar sozinhos, sem ritual religioso ou civil. É um enterro secreto, escondido. Ninguém assiste, ninguém se despede, cônjuges, filhos, netos, amigos ou vizinhos. Não é só a cremação solitária, é o facto de ninguém fazer o luto, de ninguém poder chorar os seus mortos.

Não poderemos, em Portugal, evitar os nossos mortos, mas temos de lutar e ajudar para que, nesta peste, não cheguemos ao ponto em que nem a um funeral possamos assistir. Ficar em casa é uma forma de luta, uma boa ajuda.

Tive um sonho

Quantos sonhos destruirá o covid 19? Que alegrias adolescentes não roubou já aos nossos miúdos? Com que angústias inesperadas não assombrou já os nossos velhos? Esse é o efeito do presente. E o do futuro? Por quantos anos pesará o choque sobre as empresas e os negócios? Quanto se reduzirá o salário com que se paga o pão de cada dia?

Sonho com uma resposta mundial para a saída desta crise. Uma economia aberta, desenvolvimentista, global, sem a clausura paroquial que faria de cada país uma aldeia salazarenta. E sonho com um sistema de saúde mundial, com um investimento brutal na ciência e nos meios de ataque às próximas pandemias.

Sócrates: afecto ou amor antigo

Não sei se lhe chame afecto ou amor antigo. Mas foi por isso, por afecto ou amor antigo, que nasceu esta edição.

Quando regressei da Angola independente, cumprida a aventura anarquista que se requer aos 20 anos para que aos 40 se chegue filosoficamente a chefe de bombeiros, regressei à Universidade. A bem dizer, atravessei a rua.

Tinha frequentado, antes do 25 de Abril, a Faculdade de Direito, era Marcelo um jovem assistente. Agora, as carruagens das revoluções arrumadas na garagem da História, atravessei a alameda, em que vira – tantas tardes! – a polícia de choque a derreter dentro das carrinhas azuis, e fui matricular-me em filosofia. Foram quatro anos que combinaram uma saborosa excitação com alguma requentada e rotineira sopa académica. Do lado da excitação, dois professores, José Gabriel Trindade Santos e Manuel S. Lourenço. As aventuras que me propunham, incertas, paradoxais, de uma feliz irrupção do novo a partir de cavernas antigas, fizeram-me renascer. E deixem que me concentre na parteira que foi Trindade dos Santos. Foi, para começar, meu professor de Filosofia Antiga, mais tarde de História e Filosofia das Ciências. Ensinou-me que estudar Filosofia é ir aos textos. Lê-los, interpretá-los, discuti-los.

Este foi o primeiro de todos os textos, a Apologia de Sócrates, esse discurso de defesa de um homem de 70 anos que vai ser condenado à morte. Nesse discurso, o filho de uma parteira e de um entalhador de colunas de mármore, declinava o princípio de toda a filosofia: o não-saber, como agora me volta a ensinar o José Gabriel.

“Não julgo que sei o que não sei” e é esse todo o saber de Sócrates, saber suficiente para fazer dele o mais sábio dos homens, segundo a o oráculo de Delfos. Princípio ainda mais válido hoje que sabemos não saber ou conhecer 95% da massa do Universo.

Quis, agora, como editor, regressar a esse núcleo primordial da filosofia e quis fazer eu mesmo a peregrinação das pedras, traduzindo – de versões inglesas, francesas e espanholas – o discurso que Sócrates fez durante uma tarde, em Atenas. Traduzi e escrevi um texto inicial de enquadramento. Esta é uma versão da Apologia que não pretende ter, nem assume qualquer vocação académica. O que quero oferecer é um texto fluído e atraente, com total respeito pelo original, e um comentário que ajude a compreender o contexto histórico, político e filosófico que rodeou esse julgamento que inspirou um discurso de defesa que, num momento tão traumático como poético, transforma a morte de um homem no nascimento do pensamento livre, individual, a que chamamos filosofia.

Esta foi para mim, já disse, uma aventura amorosa, um reencontro e uma homenagem, à minha maneira, a um velho professor que continua, hoje no Brasil, a sua aventura pedagógica. Para os leitores são estas as razões e os desafios que justificam ler já este livro:

– Nesta Apologia, que Platão verteu para a escrita, estabelece-se o primado da razão como guia do pensamento humano, recusando outras formas de autoridade, sejam elas o preconceito, a tradição ou a invocação do sobrenatural;

– Sócrates mostra que a aventura do pensamento é uma exigente aventura individual, de inteira e incorruptível liberdade individual, em que o exame dos pretensos saberes que se nos apresentam é essencial, não se podendo aceitar nenhuma forma de magistério não examinado;

– Sócrates leva-nos pela mão a reconhecer que o conhecimento é a alma de uma vida autêntica.

E eu juraria que este é um livro, dois milénios e meio depois de ter sido escrito, que se lê com prazer, com sobressalto, com emoção.

Que estes excertos possam suscitar a vontade de lerem tudo:

Apologia de Sócrates

Salazar, Delgado, Henrique Galvão, personagens da Correspondência de Sena

Os Dias e os Trabalhos de um Editor
Manuel S. Fonseca

Caro leitor, não queira saber a alegria que foram os dias em que trabalhei para que este livro nascesse: Correspondência (1959-1978), Jorge de Sena – João Sarmento Pimentel. E o espanto e júbilo com que li as primeiras cartas que a Isabel de Sena, a organizadora com Rui Moreira Leite, me mandou.

Mas deixe-me, caro leitor, começar pelo princípio. Este livro junta as cartas que um escritor e ensaísta, Jorge de Sena, trocou com um capitão, João Sarmento Pimentel, o mais exilado dos exilados portugueses. Estavam ambos exilados no Brasil, em cidades diferentes e carteavam-se para fazer oposição a Salazar. Se julga que ler cartas é uma chatice com o comprimento da Ponte sobre o Tejo, é porque não leu estas cartas.

Jorge de Sena é o portento intelectual, controverso, por vezes iconoclasta e impiedoso, que já conhecemos, mas a prosa viva, coloridíssima do capitão Sarmento Pimentel, que Salazar exilou, é uma refrescante surpresa também.

Deixe-me destabilizar qualquer possível ideia feita e apimentar um bocadinho a sua perversa curiosidade:

– não lhe vou dizer, nem como tratavam Salazar, nem que petits histoires dele contam;

– Humberto Delgado e Henrique Galvão são personagens recorrentes. Está quase a fugir-me a língua para a verdade, mas não, não direi que epítetos merecem aos autores, nem as circunstâncias das lutas intestinas que retalhavam a Oposição a Salazar;

– a expressão “comuna” surge regularmente e não é para referir a Comuna de Paris;

– os opositores reunidos em Argel, Manuel Alegre incluído, têm um retrato à la minuta e mais não digo.

Que prodigioso contributo histórico aqui está sobre as vivências, dramas, grandeza e mesquinhez da luta política! Além da política, este é um livro de amor à literatura e um hino à gigantesca e desinteressada amizade que dois seres humanos. E vem-me à memória uma frase batida: lê-se como um romance.

Experimente ler estas cartas soltas.
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Os dias e os trabalhos de um editor

Vai ser quase um diário, ou seja, mais uma coisinha parecida com um comunicado de um porta-voz do comando do Movimento das Forças Armadas do Livro. Com sugestões de livros Guerra e Paz.

Eis o que quero dizer aos leitores da Guerra e Paz, aos visitantes do nosso site, aos visitantes das nossas redes sociais: um editor não foi feito para ficar em casa. E um leitor também não.
Sabemos todos porque estamos em casa. Estamos em casa pela nossa saúde, pela saúde de Portugal. Mas precisamos de mensageiros e os livros são mensageiros experimentados, que vão de casa em casa há uns quase quinhentos anos.
Por uns dias foi impossível aos livros da Guerra e Paz irem à casa dos leitores. Agora já podem, de novo.
Peça os nossos livros que nós vamos entregá-los a sua casa. As condições são as que estão no nosso site. E se ocorrer alguma dificuldade informática faça o seu pedido por guerraepaz@guerraepaz.pt e os livros hão de ir bater à sua porta.
Nos próximos dias, e que longos estão a ser estes dias, vou fazer-lhe sugestões. Estou aqui a olhar para livros que tinham acabado de chegar às livrarias e agora estão lá injustamente cativos – a Correspondência de Jorge de Sena com o capitão Sarmento Pimentel, a Apologia de Sócrates, de Platão, a História de Dois Patifes, de Fialho de Almeida – e penso que juntos, nós da Guerra e Paz e o leitor voraz que me está a ler, devíamos resgatar já estes livros dessa prisão e oferecer-lhes a liberdade da sua leitura.
Ajude-me a defender o livro, porque é no livro que reside o futuro do conhecimento, da experiência e do imaginário que faz de nós mais humanos.

Um poema

Larkin

Inspirado pelo exemplo do meu amigo Paulo Nogueira, brasileiro que devíamos roubar ao Brasil e obrigar a ser só o português que ele também é, romancista que devia ser obrigado a só publicar na minha Guerra e Paz oferecendo-nos a glória, trago-vos um poema de Philip Larkin.

Nas palavras meio sofridas do Paulo: «Philip Larkin cai sempre bem. Nesta altura do campeonato, então, nem se fala.»

Eis, em aflita e velhíssima tradução minha, o poema, Aubade, que Larkin publicou, se bem sei, a 27 de Novembro de 1977, no Times Literary Suplement.

Aubade

Trabalho o dia todo e embebedo-me à noite.
Acordado às quatro da manhã, contemplo a silenciosa escuridão.
Logo mais a luz virá bordejar as margens das cortinas.
Entretanto vejo o que sempre lá esteve:
A incansável morte, um dia inteiro mais perto agora,
Tornando impossível pensar noutra coisa
Como, e onde, e quando eu próprio morrerei.
Árida interrogação: e todavia o terror
De morrer, e de estar morto,
Cintila, agulha que desperta e horroriza.
Clarão a esvaziar o espírito. Não pelo remorso
– O bem por fazer, o amor que não demos, o tempo
Desperdiçado – nem pelo desânimo de uma só
Vida levar tanto tempo a percorrer
Nunca se libertando, talvez, do seu errado começo;
Total e eterno vazio,
Essa certa extinção para que caminhamos
E em que ficaremos perdidos, sempre. Não para estar aqui,
Nem em lado nenhum,
Muito em breve: nada mais terrível, nada mais verdadeiro.

Esta é uma maneira especial de ter medo.
Nenhum truque a apaga. A religião tentou-o,
Vasto brocado musical roído pela traça
Criado para fingir que nunca morremos,
Equívoco material que diz Nenhum ser racional
Receará o que nunca vai sentir,
sem ver
Que é isso o que faz medo – não ver, não ouvir
Não tocar, saborear ou cheirar, nada para pensar,
Nada para amar ou nos ligarmos,
Anestésico de que ninguém regressa.

Fica só na finíssima margem da visão,
Pequena mancha desfocada, um frio persistente
Que trava cada impulso e convida à indecisão.
Muitas coisas podem nunca acontecer: esta acontecerá,
E a sua compreensão irrompe
Como um vulcão de medo quando nos apanha
Sem companhia ou bebida. A coragem não serve:
É apenas para não assustar os outros. Ser valente
Não deixa ninguém fora da sepultura.
Uivos de sofrimento ou sereno confronto não mudam a morte.

Lentamente a luz cresce e o quarto ganha forma.
Entra-nos pelos olhos, básico como um armário, o que sabemos,
O que sempre soubemos, que nunca escaparemos,
Ainda que não o aceitemos. A esse encontro, não faltaremos.
Entretanto os telefones encolhem-se, prestes a tocar
Em escritórios cerrados, e um mundo insensível
Intrincado e efémero começa a despertar.
Um céu de branco sujo, sem sol.
O trabalho tem de ser feito.
Os carteiros como os médicos vão de casa em casa.

E agora no límpido e sonoro original:

Aubade
I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what’s really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
– The good not done, the love not given, time
Torn off unused – nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast, moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear – no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can’t escape,
Yet can’t accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

Mon Cas, O Meu Caso do senhor Manoel de Oliveira

Escrevi este texto na e para a Cinemateca Portuguesa, num dos ciclos que se dedicou a Manoel de Oliveira. No final dos anos 80, há mais de 30 anos.
Por norma, sobre Manoel de Oliveira escrevia João Bénard da Costa. E minto, o que este texto atesta, para não falar do que o João me deixou escrever sobre a Francisca ou os que pediu a outros meus camaradas programadores.
Se fosse hoje, e neste pestífero tempo de sofrimento, ter-me ia alongado mais sobre o “Livro de Job” que, a certo momento, arrebata o filme.

mon-cas
O divertissement de Bulle Ogier

 

Mon Cas
tal como o viu Manuel S. Fonseca

  1. À primeira vista, Mon Casé o mais ligeiro dos filmes, o “divertissement” de um Oliveira triunfante. Quase nada, salvo o quantum continuum que é o teatro, parece associar este filme ao opus magnum que era Soulier de Satin, filme de 1985, imediatamente anterior a este. É verdade que há ainda planos muito longos e que cada personagem tem o seu monólogo, mas o estatismo hierático da câmara e dos actores, bem como a sucessão de “recitativos” dos personagens do Soulier, são substituídos por uma surpreendente leveza que nos faz pensar no teatro de boulevard e nas comédias do cinema mudo.

    Convém todavia estar atento à metodologia de Oliveira. Em Mon Cas o cineasta procede como um arquitecto. A ligeireza não é senão um primeiro diagrama, correspondendo ao “plano de terra”. Oliveira levantará depois a pirâmide visual do “alçado” e só a combinação desses dois conjuntos, desses dois diagramas, nos permite obter a imagem em perspectiva, a unidade perfeita da tremenda inocência e da tremenda crueldade que Mon Cas encerra. Compreende-se então que, na sua aparente diversidade, Mon Cas nos conduz ao eterno centro da obra de Oliveira, à culpa, ao pecado e à justiça, às relações, enfim, entre o humano e o divino.

  1. Mon Cas é a adaptação da peça de José Régio. Dir-se-ia que Manoel de Oliveira se apropria duplamente do texto de Régio. Em primeiro lugar, encena-o segundo convenções teatrais, afirmadas de modo evidente e inequívoco através da presença ritualizada da cortina, de definição de um espaço e tempo cénicos que os cenários nunca iludem e que as “entradas” dos actores reforçam. Mas se Oliveira é o encenador de Régio, ele é, num segundo tempo, o realizador do filme que regista a sua própria encenação, fiel de resto a um dos princípios teóricos que comandou a sua obra dos anos 80, segundo o qual o cinema mais não é do que o registo audiovisual do teatro, forma subtil de dizer que o teatro é o “caminho mais curto” para se chegar ao cinema.
  1. É curioso verificar que aquela dupla apropriação não significa que tenha havido da parte do cineasta uma irrepreensível fidelidade ao espírito da peça de Régio. Na adaptação de Oliveira sente-se que há um deslocamento do nó temático. O conflito entre a ilusão da representação e o drama da condição humana, presente ainda nos diálogos e monólogos dos personagens, só acessoriamente parece motivar Oliveira. Mon Cas é um filme em que se pressente uma ilimitada confiança na representação, quase se admitindo que não há um exterior da representação. Se o problema da peça era, a meu ver, de tipo ético, o do filme é estético “tout court”: o que é a geometria cinematográfica, como chegar à “costruzione legittima”?
  1. Por isso se diz que Oliveira procede em Mon Cas como um arquitecto. É um filme sobre a perspectiva, sobre a unidade de dois planos – horizontal e vertical. A explicitação desses dois planos é evidente e múltipla ao longo de todo o filme. É um filme ligeiro e grave, já se disse. Da explanação linear do texto de Régio que constitui a primeira repetição, passa-se a modelos contrastantes, escasso o da segunda repetição, marcada pela ausência da voz e da cor; excessivo o da terceira repetição, com o caos da voz (conseguindo pela sua inversão simples) e o barroco da cor. A esse contraste no interior das “repetições” sucede-se a violenta variação de tom (para alguns, e à primeira vista, passará por ser um desequilíbrio) da quarta parte. A adaptação dos extractos do “Livro de Job”, muda o registo meio artesanal, meio hollywoodiano (foi Bulle Ogier quem, numa entrevista, o disse: «o que é curioso é que em Oliveira tudo é artesanal, mas de repente também é como Hollywood»), para um registo que se aproxima do cinema de Werner Schroeter.
  1. Mas então, onde é que está a unidade, em que ponto é que os dois planos, os dois diagramas se combinam para formar a imagem em perspectiva? É quando a unidade parece já impossível, que os dois diagramas convergem para o ponto de fuga de Mon Cas. Sem o “Livro de Job”, o filme de Oliveira seria o “divertissement” que alguns encontram nas três repetições, compadecendo-se da gravidade da quarta. O ponto de fuga de Mon Cas é Deus, perfeita unidade de que emanam o som (o potente trovão da Sua voz) e a luz (a claridade súbita do Seu raio). Talvez seja curto dizer isto, mas Deus, no filme de Oliveira é o cinema na mais essencial nudez. Ou então, para dizer de outro modo, o cinema não é senão a descoberta de Deus, a Sua revelação.
  1. Será Mon Casa alegórica exposição do caso de Oliveira? Será Mon Cas o mais explicitamente autobiográfico dos seus filmes? Seríamos tentados a pensar assim, se isolássemos cada um dos dois “planos” do filme. À exposição dos “casos” da peça de Régio, seguir-se-ia a exposição do “caso de Oliveira” implícito na alegoria de Job. Mas a unidade dos dois “planos”, a visão dos dois planos numa imagem em perspectiva, torna irrisória essa tentação de leitura do filme pelo lado autobiográfico. Torna-a ao menos desinteressante. O problema do filme, já se disse, não é ético, é estético. E se alguma tensão há, ela é de ordem teológica, fazendo de Deus a justificação última de toda a história. Da mesma forma que Oliveira ironiza cruelmente sobre os “casos” da peça de Régio, tornando-se inaudíveis ou incompreensíveis (parafraseando o texto de Beckett, Oliveira não permite na segunda a terceira repetição que nenhum dos personagens volte a dizer “eu”), também Job, na quarta parte, não pode ser um “caso”, porque “nenhum homem poderia ser justo contra Deus”.
  1. Mon Casé uma portentosa exibição da vertente do cinema que Oliveira nunca deixou de explorar (e no Soulier de Satin há abundantes exemplos), mas que talvez nunca tivesse explorado, até este filme, com tanta inocência. Seria fastidioso acumular exemplos, bastará ver a segunda repetição, um dos momentos soberanos do cinema em Oliveira, com uma prodigiosa découpage (acrescente-se que a ideia de “repetição” é um “trompe l’oeil”, uma vez que neste filme uno, todos os elementos são diversos e nenhuma acção é igual à anterior).

    Mon Cas é também, para quem tenha “problemas” com a representação dos actores nos filmes de Oliveira – questão absurda, mas que alguns têm como óbvia e pertinente – uma surpresa incómoda. Uma direcção de actores espantosa em que o trabalho de Alex Bougosslavsky domina, comovente e sublime, como sublime é o plano em que Luís Miguel Cintra (Job) se levanta para responder à interpelação de Bildad: «Je dirais a Dieu: ne me condamne pas.»

  1. Este é Mon Cas de Manoel de Oliveira, a sua cidade ideal, a impossível Jerusalém terrestre, o mais geométrico dos seus filmes. E é, como as visões de Brunelleschi, de Alberti, de Piero della Francesca e de Leonardo da Vinci, uma visão através de algo. A sua “costruzione legittima”.
Mon Cas
O portentoso Luís Miguel Cintra

 

Morreu Mécia de Sena

9

Com Mécia de Sena e Maria de Lurdes Belchior à porta do 939, Randolph Road

A esta nossa tormentosa Primavera, chega a mais outonal das notícias: a do falecimento de Dona Mécia de Sena.

Bati à porta de sua casa, em Santa Barbara, Califórnia, no 939 Randolph Road, em 1986. Pela voz e santa paciência de Mécia de Sena, eu, que julgava saber uma ou duas coisas sobre Jorge de Sena, descobri dele o imenso e brilhante lado escondido da lua. Vi a sala onde, cercado de livros, ouvia música, a secretária a que trabalhava, a mesa a que comia. E descobri que Mécia de Sena, a par da feroz guardiã da obra desse homem com quem partilhou o amor e a vida, era também e sobretudo uma finíssima estudiosa e crítica de poesia e romance, senhora de uma cultura variegada e vastíssima. De tudo isso me falava, e de música, e de ópera, enquanto, diligente, fazia um jantar para 10 ou 14 pessoas, como quem passa manteiga numa torrada. O seu ócio era a actividade.

Mécia revelou-me esse arquipélago de correspondência, acções e intervenções de um Sena imparável, mesmo quando as suas dores físicas o constrangiam, mas não vergavam. De Mécia descobri a irradiante luz própria.

E descobri a alegria simples e o riso: com ela, e com Maria de Lurdes Belchior, tive o picnic da minha vida, numa Missão Espanhola, na costa californiana, a bolinhos de bacalhau e uns inesquecíveis ovos verdes, delícia lusíada degustada com os olhos no imenso oceano que é o Pacífico.

Desse encontro resultou, mais do que uma amizade e um carinho mútuos, a minha admirada devoção por Mécia de Sena, pela sua inteligente persistência, pela sua cultura e rigor, pela descoberta da sua escrita cuidada, arrebatada, fluente e discursiva. Nesse remoto 1986 organizámos juntos um livrinho, Sobre Cinema, reunindo todos os textos que sobre filmes Jorge de Sena escrevera. Depois, quando me fiz editor, Mécia confiou-me as Dedicácias, e várias Correspondências de que destaco o belíssimo carteio de Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen, exemplo de partilha e amor poético e filosófico.

Já com Isabel de Sena, filha de Mécia e de Jorge, e desde que a idade tornara impossível a Mécia continuar a ser a guardiã literária de Sena, publiquei a Correspondência com Eugénio de Andrade e, há poucos dias, a Correspondência Jorge de Sena–João Sarmento Pimentel, na qual Isabel de Sena, que a organizou, incluiu também algumas cartas assinadas por Mécia de Sena. São, essas cartas, o testemunho do seu brilho intelectual, da sua escrita viva e da sua grandeza humana. É um pequenino orgulho poder juntar-me a essa homenagem que a filha Isabel lhe prestou.

Pimentel

Morreu, no dia 28 de Março de 2020, com 100 anos, Mécia de Sena. Digo-lhe adeus certo de que sou apenas um dos que guarda dela a memória de um ser humano grande e combativo, cheio dessa graça que é a vida. Eis o que nunca se apaga.

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Na Cinemateca com Mécia de Sena e António M. Costa