Jeanne Moreau

Agora que a propósito do ubíquo covid19 tanto se fala da dificuldade da Europa se unir e atordoar o vírus com uma bem orquestrada política comum, a mim só me dá para pensar em actrizes. Sonhei, pensei e deixe-me levar pelo enlevo de Jeanne Moreau, contra a qual já o impenitente covid19 nada pode.

Jeanne Moreau
O imaginário europeu precisa de ser levado ao colo

Falta à Europa um imaginário europeu. Mas o imaginário europeu, no século do cinema, foi sobretudo um vulcão sem actividade. Por vezes, uma erupção. Marlene Dietrich quando foi anjo azul. Brigitte Bardot quando Vadim, que talvez fosse Deus, a criou. As italianas. A Anna Magnani de Rossellini e Roma, Cidade Aberta; Silvana Mangano, que o meu sogro ia ver ao cinema de bairro; a Loren e a Cardinale, que gostaríamos de ter visto onde mais ninguém nos visse.

Jeanne Moreau podia, mais do que a maioria das actrizes, ter inaugurado um imaginário de modernidade. Um imaginário ao mesmo tempo transgressor e lírico. Um imaginário amoroso sem servos ou servas, sem senhores ou senhoras. Um imaginário de tensões e contradições, que tanto afirma o corpo como o espírito. Num só filme mítico, “Jules et Jim”, com uma personagem que nem entra no título, Jeanne Moreau deu-nos tudo isso como mais nenhuma mulher ou homem o terá conseguido no cinema europeu. Na boca, no olhar, nos gestos dela irrompe uma forma de amar europeia. Que o cinema que veio depois, quelle domage, não conseguiu continuar. Deixem-me lembrar esse filme, essa lição de educação sentimental a que Jeanne Moreau deu corpo. Não encontro melhor forma de a homenagear.

Ménage à trois
A mulher americana começara a tomar a pílula havia quatro anos, faltavam outros quatro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as calças a arder. Em 1964, Truffaut filmava “Jules e Jim”, história de um ménage à trois, gentil e pudico como todos os ménages à trois.

Em 1964, herdeiro mal lavado dos beatnicks Ginsberg e Kerouac, o movimento hippie começava a sua peregrinação pelos torcidos trilhos do amor livre, cultivando abundantes formas de promiscuidade física, sexual e intelectual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita contracultura. Mas o filme de Truffaut, como o próprio Truffaut, está nos antípodas dessa vaga de sexualidade exsudante, se me autorizam o transpirado qualificativo.

Truffaut gostava muito de um autor velhinho, Henri-Pierre Roché, que escrevera, aos 64 anos, os seus primeiros livros de sucesso. Um deles foi “Jules e Jim”. Trabalharam juntos na adaptação, mas aconteceu a Henri-Pierre o que acontece a todos os velhinhos: morreu. E Truffaut levou o romance para o que era a sua forma subtil de ver o mundo: estetização, elipse, refinadas sugestões, uma lírica educação sentimental.

OUçam a história: dois amigos, um francês e um alemão, ambos de fina cultura literária, livres de preconceitos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arreigados e firmes, partilham, na Belle Époque, o amor da Catherine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulheres são mais bonitas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em “Jules e Jim”, nunca houve mulher com gestos tão graciosos e suspensos. Por causa dela pensamos que devia ser normal haver apenas ménages à trois e, entre cigarros e cognacs, passarem dois homens muitas noites a discutir a mulher que partilham, descobrindo que cada um ama uma diferente parte dela.

Era o que faríamos se fôssemos franceses e amigos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defendeu o que chamou “poligamia experimental”. Estou a exagerar: talvez só a tenha praticado. Passava as amadas ao seu melhor amigo e sustentou, ao mesmo tempo, quatro lares. A tudo isso alude “Jules e Jim”. Mas, ou Truffaut não fosse Truffaut, nunca o sublinha. Terá Truffaut sido infiel ao velhinho autor que em vida amara?

Turbilhão de vida
“Jules et Jim” é o filme em que François Truffaut se deu ao único verdadeiro luxo que a vida de um homem pode ter, o de ser, ao mesmo tempo, fiel e infiel. A quem? Não interessa? Não interessa o quê, interessa, sim. Já lá vamos.

No filme, inspirado, já disse, no livro autobiográfico de Henri-Pierre Roché, uma mulher ama em simultâneo dois homens, com o sossegado e emotivo consentimento dos três. Mas em “Jules et Jim”, os dois homens, um alemão e outro francês, são só silhuetas do turbilhão que foram em vida.

Jim fora, na vida real, Henri-Pierre, o escritor, amigo da vanguarda parisiense, que convenceu Gertrud Stein a comprar as primeiras telas de Picasso. Inventou, se quiserem, o cubismo, metendo dólares nas bocas dos artistas, para lhes dar músculo ao braço que pinta. Foi o primeiro francês a ler “A Interpretação dos Sonhos” de Freud e escreveu-lhe até, a contar um sonho em que a própria mãe o violava.

Tinha sido Franz Hessel, o Jules do filme, a revelar Freud a Jim. Era amigo de Walter Benjamin, com quem traduziu Proust para o alemão. Apaixonado pelos franceses, traduziu também Baudelaire e Stendhal. A estes Jules e Jim reais unia-os tanto a amorosa partilha de uma assembleia de mulheres, como a exaltada vivência da literatura e das artes. Não era lá serem cultos, era viverem aquilo: os livros, as telas, os espectáculos iam directos à veia. A actual ideia de uma cultura desvirilizada, paga por secretarias de Estado, ser-lhes-ia abominável. Neles, a cultura tinha de ser uma forma de tesão. A negrito.

“Jules et Jim” não será completamente fiel a estes magníficos carroceiros das artes. Por ser de Truffaut, só é fiel a uma mulher. Jeanne Moreau, ou melhor, a sua boca, olhos, rosto, voz e cabelos gamam o filme e tomam conta dos nossos olhos.

Truffaut soube por carta que, ao filmar assim Jeanne Moreau, fora afinal fidelíssimo. A carta assinava-a uma desconhecida Helen Hessel, cujos 75 anos eram o que restava da mulher real amada pelos já falecidos Jules e Jim. Helen correra a ver o filme e, na sala escuríssima, vira “ressuscitar o que tinha vivido cegamente”. Perguntou a Truffaut: “Que afinidade o iluminou ao ponto de revelar o essencial das nossas reacções íntimas?” Há perguntas que valem mil elogios. E, hoje mais do que nunca, é da mais inteira justiça dizer que vem de Jeanne Moreau essa luminosa afinidade.

Nariz de nariz tão perto

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Um nariz de outro nariz tão perto

Nos dias 3, 4 e 5 de Março, há semana e meia, portanto, quem tomou comigo a Bica Curta, no CM, leu estas prosas, que metem, sono, cama e mais vontade de cura do que de doença. Não há nada a fazer, é o meu feitio. 

Cheira bem, cheira!
É o que se chama matar a solidão pelo nariz. Os psicólogos da Universidade da Colúmbia Britânica fizeram um estudo de sono com 155 pessoas. Puseram-nas a dormir sozinhas, mas com uma t-shirt na almofada. Numa noite, uma t-shirt impregnada com o cheiro do parceiro com quem viviam. Na outra noite, uma t-shirt igual, sem nenhum cheiro.

Foi trigo limpo, farinha amparo: qual xanax, qual melatonina, dormir com a t-shirt a cheirar à ou ao parceiro melhorou muito o sono, limpando ansiedades e as voltas na cama. Se viajar, leve a t-shirt do seu amor e cole-a ao nariz à noite. Com cheiro de três dias, se faz favor. Ah, eu disse a t-shirt!

Activistas do alarmismo
Os activistas do alarmismo têm agora o coronavírus na boca. Verdade, o coronavírus tem o perigo da novidade e, para já, da falta de antídoto. Mas os alarmistas não querem saber da cura, querem é saber da histeria.

Um exemplo recente: o clima e o CO2. Os alarmistas nem querem ouvir falar da energia nuclear, a melhor tecnologia, mais barata, segura, para erradicar o CO2. O nuclear é melhor e mais eficiente mesmo do que as energias eólicas e solares, que são caras e intermitentes. Mas os alarmistas não querem saber de resultados, querem é ter a boca cheia de vírus, cheia de alarme e de fim do mundo. O orgasmo deles é a catástrofe.

Dá-lhe gás, bebé
Nasceram mais bebés em 2019. Mas a nossa taxa de fecundidade ainda é a mais baixa da Europa. Não é que os portugueses não se amem e não vá por aí uma valente rebaldaria. Não queremos é fazer filhos. Sim, venham os abençoados imigrantes. Mas não chega!

Em vez de nacionalizar a banca, nacionalize-se a fecundidade: no ano de nascimento do primeiro filho devolva-se ao casal metade do seu IRS; reduza-se a metade os impostos dos pais de dois filhos e isentem-se para a vida os pais de três; remunere-se uma afectiva rede de avós, tios e tias que cuide da guarda das crianças para as mães poderem ir trabalhar. Dê-se gás ao vigor amoroso.

Um cadáver ainda quente

Juliette
Juliette vista por Charles Emile Callande de Champmartin.

Era o tempo em que maridos e mulheres se enganavam. Mais uns do que outros. E já estou a dar duas estaladas a mim mesmo, a ver se acordo do erro histórico. Corrijo: era o tempo em que maridos e mulheres se traíam. Mas Victor Hugo, o respeitável Victor Hugo, que eu imagino com a voz plena e sonora de um Manuel Alegre, ainda não traíra Adèle, mãe dos seus cinco filhos.

Há dez anos fora a noite de núpcias. Esqueçam lá Ilíadas e Odisseias e tudo o que a antiga musa canta. Poderoso, priápico, Hugo dera a Adèle, nessa noite, nove êxtases celestiais, teresíacos, qualificativo que o mais humilde dos leitores logo liga à mística carnalidade da santíssima Teresa de Ávila. A seguir deu-lhe cinco filhos principescos, a que se sucedeu um real vazio do tálamo.

E ouçam o que acaba de saber o grande Victor: Adèle buscou consolo no seu melhor amigo, Sainte Beuve, que, embora putativo poeta, exerce a medíocre actividade de crítico literário. Não podia haver maior opróbrio para o vate de França: ser traído por um crítico. Não sem vantagens para Adèle: Sainte Beuve teria um má formação genital hermafrodita, Adèle chamava-lhe até Charlotte, e aquilo não fazia mal nenhum à menina, como de uma pila pequenina se dizia num filme de João César Monteiro.

 Mas eis que na leitura de uma das suas peças teatrais, o recém traído Hugo encontra a actriz Juliette Drouet. Coup de foudre. Ele tinha 32, ela 26 anos e combinaram ir juntos ao baile de terça-feira de carnaval. Foi em Fevereiro de 1833 e ele foi buscá-la a casa da senhora K. É que nem chegaram a sair. Da noite de 17 para 18, ao longo das wee hours que o solitário Frank Sinatra canta aflito e de membro caído, o quartinho de Juliette ardeu de desejo, fogosa e feliz consumação. Oito horas!

Juliette tinha um conde russo que lhe pagava as generosas contas, era mais assediada do que vinte actrizes de Hollywood, tivera vários casos, mas depois dessa noite foi, só e sempre, a obstinada e obsessiva amante de Victor Hugo, deixando mesmo o teatro. Vivia num apartamento de que só saía quando ele a vinha buscar. No resto do tempo escrevia-lhe cartas, duas por dia, 20 mil ao todo.

Nunca saía? O que faz então Juliette, já passa da meia-noite, a 4 de Dezembro de 1851, correndo, em estrangulada excitação, colada às noctívagas e abandonadas ruas de Paris? Passa agora por uma barricada, pisa um cadáver ainda quente, vira outros, naquele frio medo de em algum reconhecer a cara do seu amado Hugo. Vindo do ângulo dos Grands Boulevards, um clamor entra-lhe nos ouvidos e arrasta-a pelos cabelos: vai descobrir Victor Hugo em cima das barricadas orando às massas sem a gaguez de Demóstenes. Ela grita-lhe que o golpe de Luis Napoleão Bonaparte triunfou e que ou foge ou o matam.

Fogem os dois. E volto a pedir perdão, agora pela má aritmética: fogem os três, Hugo, Adèle e Juliette. Vão viver, numa ilha britânica da Mancha, um civilizado e refinado exílio à trois. Debaixo de dois distintos tectos, que Hugo não é nenhum miserável Lenine.

Como os leitores sabem, felizmente esta coisa do amor acabou e vivemos numa sociedade asséptica e com esplêndidos expedientes jurídicos. Ninguém, com recurso a uma alimentação sem glúten e atento à pegada ambiental, passaria pelo pesadelo de escrever este pedaço de prosa mórbida, como a bela Juliette o fez a Victor Hugo: “O laço que nos liga é o que me liga à vida. Se não tivesse sido tua amante, queria ter sido tua amiga. Se me recusasses a tua amizade, pediria de joelhos para ser o teu cão, o teu escravo.” Eis o aviltante, feérico amor.

Publicada em “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” no Jornal de Negócios

Ganha o Prémio Nacional de Literatura

Desculpa, estou a falar contigo. Tu sabes bem que é contigo, não olhes para o lado. Quantas vezes já me disseste que estavas a escrever esse romance, o romance dos romances? Mil ou só cento e setenta e oito vezes? Da última vez, disseste-me que o tinhas fechado na gaveta. Quando o acabaste, tiveste medo dele e escondeste-o. Que era perturbante e que tinha de passar tempo para que não embatesse com violência nas esquinas deste tempo. Ouvi-te. Ouve-me agora: tira o romance da gaveta. Não mo queres mostrar a mim, bem sei: mostra-o ao júri do Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal.

Mas não penses que te desafio só a ti, que me tens refém há anos. O desafio é para todos os leitores da Página Negra que escrevem romances e que têm um romance inédito pronto. Ainda têm uma semana para concorrer e ganhar. Basta irem aqui ver o Regulamento e concorrer. Podem muito bem acontecer três coisas:

  1. Ser o romance que candidatarem a Obra vencedora.
  2. Ganharem, como consequência directa, o ternurento prémio pecuniário de 2500€.
  3. Verem, necessariamente, a sua Obra publicada pela Guerra e Paz

lions

Tudo isso é tão verdade como foi verdade, e a foto mostra, a presidente do Distrito Múltiplo 115 do Lions, Isabel Moreira, e o presidente da Fundação Lions de Portugal, Vítor de Melo terem assinado comigo e com a Guerra e Paz o protocolo que nos liga nos próximos anos.

Mas eis o que interessa, e já estou outra vez a falar contigo, tens até ao próximo dia 15 para candidatar o teu romance. Faz isso este fim de semana. Quero, ainda este ano, ter a capa do teu livro com o logo do Lions ao lado e com o título Vencedor do Prémio Nacional de Literatura a toda a largura do livro, tal qual a imagem que aqui está do Vidas Por fios, de José Martinho Gaspar.

vidas por fios

Felicidade e vida limpa

Eis as bicas curtas que fui servindo no CM, a 25, 26 e 27 de Fevereiro

A felicidade
Um estudo sobre a felicidade no Estados Unidos mostra uma tendência convergente entre brancos e negros, homens e mulheres. Comecemos pelas mulheres. As brancas, cuja vantagem era significativa, tiveram nas últimas décadas uma persistente queda nos seus padrões de felicidade. Exactamente o oposto das mulheres negras que melhoraram os seus índices de forma consistente e progressiva. Os homens negros melhoraram dos anos 70 aos 90 e estagnaram com Obama. Já os brancos, após a crise do subprime, tiveram um declínio a pique, baixando largamente a sua tradicional vantagem sobre os outros grupos. Começou aqui o ressentimento trumpiano?

Uma casa portuguesa
Já no fim dos meus tempos de punhinho no ar havia uma canção da Sérgio Godinho que levantava como bandeiras a paz, o pão, a habitação. Por causa da habitação, devíamos voltar a cantá-la. Não é só o equilíbrio do rosto das nossas cidades, e sobretudo de Lisboa e Porto, que está em risco, com a louca subida de preços e arrendamentos.

O fosso social começa e resolve-se na habitação. Expulsos para periferias, o casais e os jovens ficam longe dos melhores empregos, os filhos deles perdem acesso às melhores escolas. Na longa distância entre casa e emprego esvai-se a felicidade, o tempo do prazer e da partilha: começa a desigualdade.

O estigma da direita
A palavra “direita” ainda é, em política, um estigma. Todavia, se além do PS, achamos que a esquerda inclui o BE e o PCP, nada no mais razoável senso comum confere superioridade moral ou prática à esquerda. O horror que foi a PIDE e a repressão em muito pior foi também uma prática das PIDES dos regimes comunistas, ditos de esquerda. E se o que nos move é o bem-estar económico e uma vida digna dos portugueses, o melhor modelo que temos são países com governos de direita ou centristas, que o PS e PSD não enjeitariam, com prósperas economias de mercado, que geram riqueza para distribuir. Essa direita é, afinal, liberdade e progresso.

A arte nem pode, nem anti-pode

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Marilyn desreprimiu o baixo-ventre do cinema

A fúria com que, em “Red River”, Montgomery Clift e John Wayne esmurram as ventas um do outro não é de esquerda nem de direita. Os murros deles não são políticos. Nem é político o rabo de Marilyn Monroe, que em curtas cenas de 20 segundos, desreprimiu o recalcado baixo-ventre do cinema, a cores em “Gentlemen Prefer Blondes” e a preto e branco em “Some Like It Hot”, por obra e graça do bom olho de Hawks e de Wilder.

Filmes, poemas, romances, pintura, mesmo a do comunista Picasso, não são políticos. Não me venham dizer que a poesia é anti-poder ou pró-poder. O poeta pode ser fascista ou comunista. Maiakovski ou o dúbio Aragon eram comunistas, Ezra Pound era fascista e T. S. Eliot talvez andasse lá perto; o pluralíssimo Pessoa, se alguma coisa fosse, era de direita, e o queixinhas Ginsberg uivava parvamente à realidade. Mas se ainda os lemos como poetas é porque a poesia deles continua a transfigurar a modesta realidade política que na vida os entretinha.

Camões cantou o Gama em “Os Lusíadas”, mas um só olho de Camões criou em dez cantos um herói que o real e cruel Vasco da Gama, ocupado com a canela e a pimenta, não reconheceria. Como não reconheceria o Gama que Robert De Niro teria sido se algum desmiolado estúdio americano tivesse decidido pagar a Samuel Fuller o filme com que o cineasta americano queria incensar o navegador português.

Poemas, filmes e romances seriam muito pequeninos se reduzidos à deslavada ideia de serem anti-poder. Nem há mal intrínseco em haver poder, afinal uma humaníssima e necessária realidade. E os males que escorram do exercício do poder são para se lavar na cama real da política. Mas as traições e as conspirações de Shakespeare, as bruxas de Macbeth e o fantasma de Hamlet, o arrebatado discurso de Marlon Brando com o cadáver de Júlio César aos seus pés, já são da matéria dos sonhos.

A beleza de poemas e filmes, de canções e pintura está na sua esplendorosa inutilidade. A grandeza das artes está na individualíssima convulsão que precisam de nos provocar se quiserem ser arte: uma convulsão íntima, vergonhosamente espiritual e libidinosa. Os nossos melhores cantores de intervenção, no PREC, quiseram servir uma forma dita utópica de poder. “E se eles ganharem?” perguntou um amigo meu a um desses cantautores, que era genuíno e grande. “Bom – disse ele –, temos de ser os primeiros a fugir.”

A Winchester de John Wayne, a voz e a guitarra da canção não são armas de serventia. Seja do poder, seja do antipoder.

Um bando de terroristas

Agora que toda a equipa de redactores e críticos dos Cahiers du Cinéma se demitiu, em protesto contra os novos accionistas, lembro-me dos tempos míticos dessa revista, quando tinha as capas amarelas e quando nela escreviam os mais sublimes e iconoclastas dos críticos.

Cahiers

Era um bando de terroristas. Trabalhavam na clandestinidade e no negro escuro do cinema. Incendiaram redacções e mulheres de grandes olhos apaixonaram-se por eles.

Falo de cinco rapazes franceses, tantos como os dedos de uma mão: Truffaut, Godard, Rohmer, Rivette e Chabrol.

Nos anos 50, converteram uma revista amarela numa lenda e num escândalo. Nos Cahiers du Cinéma foram devotos do cinema americano mais do que a irmã Lúcia da Senhora de Fátima. A intelectualidade europeia lia então por uma cartilha neo-realista, uma espécie de enteado estético do comunismo soviético. Redimindo alguns cineastas comprometidos, a fina flor literária via nos filmes americanos um lixo industrial escapista com que infelizmente o povo se emocionava e divertia.

Os cinco terroristas desataram a escrever blasfémias. Escreviam como quem sonha. Em westerns e filmes de gangsters descobriram equivalentes de Ilíadas e Odisseias.

Não se pode escrever sobre cinema, poesia ou pintura, sem se arrancar vibração ao baixo-ventre, sem pôr uma sala em pé e fúria. Como quem junta gasolina e cinco fósforos, o bando juntava sublevação, anarquia e alta cultura.

Quem se lembraria de proclamar a genialidade de Chaplin invocando como prova três passagens do Evangelho de São Mateus? O agnóstico Truffaut, pois claro.

O inimigo acusou de declínio senil os filmes americanos de Jean Renoir. De cima da Torre Eiffel, Rohmer retalia e responde aos gritos a esses acusadores, provando que nenhum génio autêntico declina no fim da vida: tal como as últimas obras de Ticiano, Rembrandt e Beethoven, o último filme do genial Renoir é, só pode ser, uma obra-prima, o mais belo dos seus filmes.

Escreviam como quem sonha. Puseram leitores em êxtase ao obrigarem Deus a ter ciúmes da metafísica de Hitchcock. E de roxos ciúmes ficou o Diabo quando disseram que o Man of the West de Anthony Mann “reinventara o western com o lápis de Matisse, o traço de Piero della Francesca”.

Os terroristas geralmente estão contra o poder. Contra o pequeno poder que era o modo comunista de ver a arte nas redacções dos jornais dos anos 50, este bando dos cinco foi o exército aliado do poder do cinema americano. Dispararam a sua artilharia estética fazendo subir aos céus o imaginário universal de Hawks e Nicholas Ray, musicais, melodramas, suspense e cinemascope. Dizendo “isto é o cinema!” aliaram Ford, Wilder, Hitchcock a Bergman, Dreyer e Rosselini. Aliaram a Europa e a América: foi a última vez.

Repudiando a vulgaridade ordinária dos críticos, Godard, esse Átila infantil, provou que Griffith inventara o cinema com as mesmas ideias com que Shakespeare inventara o teatro e que o cinema lavou os olhos do século XX reabrindo-os à pintura do Quattrocento a Picasso, ressuscitando o lascivo desejo de narrativa de Homero a Joyce, desflorando ouvidos para sonoridades sublimes de Bach a Stravinski.

Terroristas, ensinaram-nos que, com o cinema, a América devolveu à Europa em sonho o que a Europa lhe emprestara em vida.

Bamboleiem-se

Não acreditem em mim, mas afianço-vos que o email foi inventado em 1913. Tinha a forma de memorando interno e a Universal Pictures fazia com eles um verdadeiro fogo de barragem entre os escritórios de Nova Iorque e Los Angeles.

De L.A. chegou a NY um memo. Pedia para irem cheirar um espectáculo com um tal Charlie Caplin. Bem se esfalfaram, mas Caplin não havia nenhum. Será Chaplin, perguntaram dez dias depois, o tempo que demorava, então, um email. Mais sete dias e tinham um “Yes” de volta.

O olheiro, uma semana depois, disse: “Cómico excêntrico. Melhor nos sketches com diálogo do que nos gags visuais. Mas não vale o custo da viagem para ensaios em L.A.” Só que Laemmle, o patrão da Universal, andava de candeias às avessas com a sua vedeta, esse Jesus Cristo da comédia que dava pelo nome de Buster Keaton, que mesmo no Natal tinha um ar de Páscoa. Se contratassem o tal Chaplin, poderiam atestar o pontapé onde se sabe em Keaton? NY diz que não, que a pantomima de Chaplin é fracativa, o tipo só é bom a falar e ainda não se inventara o sonoro. Quinze dias e Laemmle, manda-os fazer um ensaio, “mas não gastem mais do que 300 dólares”.

O ensaio, reza o memo, nem foi mau, e o câmara, o montador e o projeccionista partiram a coco a rir. Chega o ensaio a L.A. e acham aquilo uma pessegada. Mesmo assim mandam vir Chaplin. Por um dinheirão: bilhete de comboio, 5 dólares por dia e um quartinho esconso para não ficar ao relento. Já os sábios tinham virado do avesso o ensaio de NY e proclamado a sua justiça. Era preciso que ele trocasse o chapéu de coco, talvez por um barrete escocês. Tinha de rapar o bigode e mudar de nome para não ser confundido com Charlie Chase. Aliás, Chaplin era um nome judeu e isso é que não. Devia ainda abandonar o andar bamboleante para não ofender coxos e cambaios. Já agora, evitar as caretas. Chaplin primeiro mandou-os… prontos, mandou-os! Depois fez o ensaio, aceitando todas as instruções. Resultado, chora o memo: “Estilo muito mole. Nenhuma personalidade.” Respondem de NY: “Bem vos disse que era fraco nos gags visuais e que não valia o dinheiro da viagem.”

Vida e cinema juntos fizeram de Chaplin, chapéu de coco, bigode, andar bamboleante, o génio que sabemos. Que a ousada sombra desse génio vos cubra nestes anos 20: não se resignem, bamboleiem-se.