Brinca na areia

Há muito tempo que não trazia aqui a minha Bica Curta do CM. Prometo que voltarei, em breve, a este calcanhar

Com prazer é mais caro? Não! Com prazer é melhor e é mais bonito. A eufórica prova desta filosofia do prazer deu-a o Benfica, no paraíso da Luz, com a Juventus. Onze meninos vestidos de vermelho converteram o relvado num lúdico recreio. Vejam bem, os pés deles exibiam um gárrulo amor pelo esférico: acariciavam-no, beijavam-no, tocavam-no.

E acreditem, mesmo o calcanhar veio, com rubro erotismo, roçar-se, leve, pela bola e explodir, juvenil e orgástico, num dourado golo de Rafa. Chulipa, inspirada por Vénus, deusa do amor. Roger Schmidt, o alemão, terá vivido na Ilha de Luanda: fez uma equipa e deixa os meninos brincar na areia, n’areia.

Usava-se muito a palavra «proibido»

Aterrei em Lisboa, no Outono de 1973, com uma excitação conquistadora. Vinha, de Luanda, estudar Direito, mas com excepção de dois assistentes meninos, Marcelo e Jorge Miranda, aquilo cheirou-me a um agreste deserto cultural. Eu queria era poemas, canções – acabava de sair um LP com Chico e Caetano ao vivo – finos gelados no Paco, ao pé da Gulbenkian em dias do ciclo Rossellini, ou no corredor e cave da Alga, encostada à Avenida de Roma, aberta de madrugada.

Numa noite de 1973, fomos, dois rapazes e duas raparigas, ouvir Zeca Afonso. Pro­me­tia can­tar numa peque­nina sala do Cen­tro Naci­o­nal de Cul­tura, ao lado do Tea­tro São Luiz, na Rua Antó­nio Maria Car­doso, a que a sede da PIDE dava mau nome. Encontrámos uma fre­né­tica Antó­nio Maria Car­doso de jeans, mui­tos cabe­los com­pri­dos, tudo gente com per­nas e olhos cheios de bicho-carpinteiro.

Chegámos e soubemos: afinal, o Zeca não cantaria. Era estranho, porque tínhamos a ideia de que o Zeca que­ria can­tar: quanto mais escura fosse a noite, mais ele que­ria can­tar. A quem tenha esquecido lembro: Zeca fora proi­bido de cantar. Usava-se, então, muito a pala­vra «proi­bido», termo que teria caído em desuso, não fosse tê-lo resgatado o actual escol identitário, a turbamulta do género, da racialização, as vestais da ecologia, para não falar dos activistas que querem voltar a fazer da universidade um antro de obscurantismo.

Era de noite, e enchíamos a António Maria Cardoso, e como tanto era proibido Zeca cantar, como era proibido ouvi-lo, do lado sul estava já a polícia de choque. Tínhamos recuo, claro, pelo Chiado.

E eis que a peque­nina e canora mul­ti­dão se agi­tou, sol­tando os bichos-carpinteiros num bruá alarmado. Faça­nhuda, mas sobre­tudo orga­ni­za­da, a polí­cia de cho­que, com irre­pre­en­sí­vel geo­me­tria, lim­pava a rua a viseira e cas­se­tete: não tinha nada que enganar, nós, lírios do campo, íamos ser trigo limpo.

O meu amigo e eu enten­de­mos pro­te­ger as nos­sas meló­ma­nas e ino­cen­tes ami­gas e fize­mos meia-volta em direc­ção ao Chi­ado por onde tínha­mos entrado. E não é que o capi­tão dos hir­su­tos cho­ques de ferro e fogo tinha pen­sado a mesma coisa?! Quem seria o capitão? O Maltês, que eu, nos meses seguintes, encontraria na Praça do Chile, Rossio, Largo do Rato, na Alameda Universitária?

Sei é que a limpa entrada pelo Chiado era, agora, uma far­pa­dís­sima saída. Nós, cân­di­dos filhos da madru­gada, pensámos o que se pensa quando, de tão aper­ta­dís­simo, nesse sítio escuro que o sol não ilumina não cabe um fei­jão: «Filhos da puta!» Eram! Fingindo-se magnânimos, tinham deixado entrar uma car­rada de malta jovem, sonha­dora, para uma rua amena, e agora caíam-nos em cima, sem nos dar o alí­vio de uma saída.

Os choques malha­vam sem estados de alma. Avan­çá­mos, que remédio. Fosse pelo que fosse, connosco escolheram o imprevisível. Pelo berro que o meu amigo deu, pela súbita con­tra­ção que fez de mim uma formiga fora do carreiro, os cho­ques falha­ram as bas­to­na­das. Pas­sá­mos ile­sos. Os bru­tos, olhar cego ao género, acer­ta­ram em cheio nos deli­ca­dos pes­co­ços das nos­sas ami­gas. Para nossa viril ver­go­nha foi nelas que eles arri­a­ram com tudo. Nas noi­tes de vam­pi­ros, nenhum pes­coço se salva.

Consolámo-nos numa das sessões da meia-noite do Lauro António, no extinto Apolo 70. Na noite em que não ouvi Zeca Afonso, vi pela primeira vez «As Quatro Noites de um Sonhador» que o jansenista Robert Bresson roubou ao torturado Dostoievski. Havia no filme uma canção brasileira cantada sobre um Sena em que passava um bateau-mouche. Naquela Lisboa, o remédio era sonhar com Paris.

O que os dedos não voltam a agarrar

carro do fumo! carro do fumo! (este é do Tree of Life, do Malick)

Eis o que é a infância, um baloiço. E corrijo, antes que sentem o belo posterior no balancé: a infância é um baloiço entre a alegria e a dor. Lembrem-se, era o ano de 1962 e o mundo enfiava os acabrunhados dedos no crânio com a crise dos mísseis de Cuba. Pairava sobre as cabeças a horrenda espada da guerra atómica: as úlceras dos quem eram uma pilha de nervos pediam o bálsamo, ai, meu Deus, de um copo de leite.

Ora, na Luanda de 1962, já a morar na Vila Alice, na rua paralela à rua onde morou Luandino Vieira, eu tinha só oito anos, um estômago inabalável e uma cabeça evanescente, de onde brotavam nuvens e sonhos. A minha alegria e a minha dor não eram ainda a Guerra Fria nem o meu preclaro espírito tinha prenúncios do espectro de Putin, hidra de setes cabeças que agora nos assombra. A minha alegria era o dêdêtê – sim, o DDT, o pesticida conhecido por diclorodifeniltricloroetano – e a minha dor era a bitacaia, a pulga Tunga Penetrans, insecto sifonáptero da família dos tungídeos.

Começo pela dor. Todos queríamos ter pés de ouro, pés que rivalizassem com o perfeito e rematado pé mulato de Eusébio. Jogávamos à bola em qualquer baldio, atrás da Farmácia Luanda, ou no minúsculo terreno em frente à casa da tão bela Ana Maria, entalado entre a casa do lixivieiro e a casa onde desaguaria uma família do Porto com quem se armou, num fim de tarde de domingo, um monumental arraial de pancadaria que juntou a rua, o beco, e as pistolas dos dois polícias moradores, o sub-chefe pai de outra angélica Ana Maria que, com um gemido de pranto, o bairro viu casar-se aos 15 anos, e o sub-chefe pai da loura Bia com quem, em anos posteriores à bitacaia, descobri a inocente doçura de dançar slows, mesmo o I’ve Got Dreams to Remember.

E eu falo, enfim, da bitacaia. Era uma pulga que se enfiava na pele macia do pé, no calcanhar ou junto a uma unha. Sempre e só a insidiosa fêmea. Ia e punha um saco de ovos. O prurido irritante que aquilo dava. Se não a combatêssemos, acontecia o que acontecerá se não combatermos Putin, a necrose. Nesse remoto caldo colonial, eram as mães negras, bessanganas, que nos salvavam o pé infectado. Com um golpe de navalha abriam a pele, tiravam a bitacaia, ou matacanha, com o cuidado de não rebentar o saco de cem ovos, e depois, puxando o cigarro, que fumavam com a ponta acesa dentro da boca, deitavam cinza quente na ferida aberta.

No dia seguinte, ais e uis esquecidos na poeira das ruas, já corríamos atrás do carro do fumo, o carro do DDT, que vinha fumigar o bairro para matar essas pulgas e mais artrópodes, a prodigiosa mosquitada, o mosquedo, a mirífica e irreprimível vida dos trópicos.

Hoje, o DDT está proibido. Imputam-se ao pesticida mil tormentos e danosas consequências. Nesse tempo era um fumo salvador. Era a TIFA, uma carrinha com um depósito, que Terrence Malick, realizador americano, mostrou no filme Tree of Life. Quando a víamos, nas manhãs ou tardes ociosas dos trópicos, gritávamos “carro do fumo! carro do fumo!”, e cheirávamos fundo e forte, como, exultante, o coronel do Apocalipse Now adorava cheirar napalm pela manhã. Despíamos as camisas e mergulhávamos na nuvem daquele fumo tóxico, a encharcar-nos a cabeça e o peito, numa alegria cem por cento desinfectada, as mães aos gritos por nos verem desaparecer na cerrada vaga branca, nuvem alada de anjos de cheiro.

Entre a pequenina dor e a imensa alegria, a sub-reptícia bitacaia e a alva bola de neve do dêdêtê, forjou-se a minha infância. Como todas as infâncias: fumo que os dedos não voltam a agarrar.

fumo que não voltarei a agarrar

Nenhum livro é invisível

Estes são os meus livros de Outubro. Dez. Visíveis. Têm música, a dos primeiros Beatles, quando eram só uns miúdos geniais e uns deliciosos sacaninhas. Ora, experimentem ler…

Os meus olhos vêem mal ao longe, mas bem ao perto. Ao perto, quase apalpam, o que já não é bem deste tempo e, afinal, também não interessa, porque nenhum dos meus dez livros de Outubro é invisível.
Olhos a faiscar sobre o planeta, vemos todos as alterações climáticas, calor ardente, água escassa ou torrencial. Steven Koonin, físico, subsecretário da administração Obama, não as vê, às alterações climáticas, como nós. Escreveu A Ciência do Clima – O Que a Ciência Nos Diz, o Que não Diz e o Que Isso Interessa, livro de que Carlos Fiolhais fez a revisão científica e cuja tradução foi apoiada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Este livro, com os infatigáveis olhos da ciência, não diz o que os políticos e os jornais dizem. Os gritos, os clamores de alarme nunca ajudaram a ver bem: este livro, visível e sério, ajuda.

Invisível foi o que um médico muçulmano conseguiu que uma rapariga judia fosse: fez esse milagre nas barbas da Gestapo, na Berlim de Hitler, e salvou-a. A ela e a mais judeus. Ronen Steinke dá visibilidade e drama a essa história real em O Muçulmano e a Judia. Eis o que neste livro vemos: a história de judeus e muçulmanos é tudo menos maniqueísta e unilateral.

Poucos anos depois, os nazis foram vencidos e não é que Hitler parecia que se tinha tornado invisível! Os ingleses mandaram Hugh Trevor-Roper a Berlim e, em poucos meses, ele foi o primeiro a descobrir o que lhe acontecera, se tinha ou não morrido e como. Escreveu um clássico da investigação, Os Últimos Dias de Hitler. Como é que esse livro, quase um policial, e, em absoluto, fascinante, traduzido em todo o mundo, nunca foi publicado em Portugal? A minha Guerra e Paz, na colecção Os Livros Não se Rendem, torna-o, agora, visível.

Invisíveis é o que nunca são os filhos. São bem sonoros, choram, riem, e é da cacofónica algazarra deles que o médico Sérgio Neves faz a matéria do seu O Pediatra e Eu: pais aflitos encontrarão neste livrinho prático a consolação que um leitor exaltado encontra em Camões ou Shakespeare.

O que os meus leitores ainda não estão a ver bem é o que aí vem no perfeito romance a que Rita Cruz chamou A Menina Invisível. O que descobriu, cada um de nós, aos 11 anos? Alice, a heroína deste livro, descobre como se pode tornar invisível. Pode até viajar dentro dos olhos de Pedrinho, o menino que a salvou. Rita Cruz é, ainda, uma escritora invisível: com este romance, enche a literatura portuguesa de emoção, com uma naturalidade sem fanfarra, só ao alcance de uma grande e muito visível escritora. E digo isto, sabendo que, no mesmo dia, publico, de Stefan Zweig, uma novíssima tradução de Uma História de Xadrez, o romance que ele entregou ao editor na tarde que antecedeu a noite do seu suicídio, cansado de um mundo em que, pensava, iria prevalecer o nazismo, a tortura, a morte da civilização, temas visíveis nesse pequeno e soberbo romance.

A 11 de Outubro, os seis livros de que falei estarão nas livrarias. Alguns dias depois, a 25 de Outubro, vão nascer mais quatro livros da Guerra e Paz.

E começo por um romance policial, Querubim, o Filho da Puta. O autor deste thriller é António Garcia Barreto e o que sei ser invisível é o que Malvina Bleck, hospedeira de bordo, transporta na omnipresente mala preta. O que será? João dos Passos, o Querubim, também não sabe, mas apaixonou-se por ela: hão-de viver de sexo, silêncios e mistérios.

E deixem-me falar dos Beatles. Não sei se os Beatles, quando passaram por Vilamoura, vieram a Tavira, mas Cristina Baptista faz um belo retrato da cidade, em Tavira – O Porto Seguro, álbum de grande visibilidade (27 por 27 centímetros) e uma tonelada de prodigiosas fotografias: visibilidade garantida de um «beau livre». Ou livro de arte, como corrijo para que perdoem o meu francês.

Mas, afinal, o que sei dos Beatles? Sei que vou publicar o melhor livro que já se escreveu sobre eles. Jura-o John Lennon e atesta-o a indesmentível bíblia que é a Rolling Stone. Love Me Do! A Ascensão dos Beatles, de Michael Braun, é uma preciosidade: o autor viveu meses com os Beatles, acompanhou as primeiras tournées, Inglaterra, Paris, Estados Unidos: «mostrou, o que nós éramos, uns bastardos», afirmou Lennon. Ou seja, é um livro escaldante, genuíno. Visivelmente, é daí que nasce a grande ternura, digo eu, que tantas vezes chorei a ouvir Lucy in the Sky With Diamonds.

Chorei? Se chorei, acabo o mês a rir. Tenho na mão um volume invulgar. O investigador da Universidade do Minho, Abílio Almeida, atreveu-se a escrever A História do Riso. Da Antiguidade Clássica à actualidade, de Platão a Nietzsche, passando pela rádio, cinema, televisão. O riso será um pecado? Ou será um visível e sonoramente repetido prazer carnal? E Jesus Cristo, riu-se algum dia ou nunca se riu? Será o riso de Jesus Cristo invisível?

São os meus dez livros de Outubro. Olhem para as capas. Por favor, vejam-nas bem: nenhum livro deve ficar invisível.

Manuel S. Fonseca, editor

No casamento de Godard

Quem me rouba o tempo, rouba-me tudo. Andei perdido durante duas semanas e já devo algumas crónicas a esta varanda onde venho conversar com os amigos. Hoje deixo esta minha forma de dizer o quanto o cinema de Godard me exaltou e ainda exalta

o casamento


Não fui convidado para o casamento de Anna Karina com Jean-Luc Godard (JLG). Foi em Paris, Março de 1961 e, por esses dias, tão perto do ataque do 4 de Fevereiro em Luanda, saíamos em três ou quatro carrinhas do musseque, depois do jantar, para dormirmos no chão de uma casa na cidade branca, mulheres e crianças numa sala, os homens, noutra. Medo da noite tropical, sufocada de assobios, silvos e a percussão do batuque. Medo dos “turras”, sibilava-se, longe dos seis anos de idade dos meus ouvidos.
Quem me contou do casamento de JLG, foi o cineasta Jacques Demy, na alta noite em que, no Bairro Alto, bebemos aguardente do mesmo cálice. Agnès Varda, a mulher dele e realizadora, fez as fotos. Karina estava linda, de uma beleza feliz. Caminha uns passos à frente de JLG, noiva, vestido branco sobre os joelhos, que lhe deixam livres as pernas que podiam ser de Brigitte Bardot, um véu diáfano a cair não mais do que sobre os ombros, uma alegria agradecida na perfeição comovente do rosto.
A surpresa é que também JLG está bonito. Penteado, escanhoado, elegantes óculos escuros, sorriso sincero para a foto, um laço negro a ajustar-lhe a camisa branca ao pescoço, o conforto sem culpas de um bom fato burguês a acariciar-lhe o corpinho.
O que aconteceu, e alguma coisa aconteceu, a este Godard, que ali vemos cheio de amor? E lembro que esse era o JLG que amava, como talvez mais ninguém tenha amado, o cinema americano. Quem, a não ser JLG, comparando-o a Tintoreto, revelaria em Hitchcock o mais germânico dos cineastas, grávido de temas dostoievskianos?
De A Bout de Souffle a Le Mépris, passando por Une Femme est une Femme, Vivre sa Vie, Alphaville, os filmes de JLG estão cheios de um amor que, com genialidade exaltante, ele combina com iconoclastia, traição, redenção, lirismo, desespero. Até Weekend, porta dos anos Mao, mesmo se o amor de JLG e Karina era já um destroço, Godard era ainda um corpo que fazia parte de “o cinema”, até e sobretudo se uma inquieta insatisfação era o coração desse corpo.
E no Maio de 68, JLG, o enfant terrible que tanto quis filmar na América, disse esta frase: “Cinquenta anos após a Revolução de Outubro, o cinema americano reina ainda sobre o cinema mundial.” E prometeu dois ou três Vietnames ao império de Hollywood. Em nome da “fascista” Revolução de Outubro, tragédia humana que engoliu milhões de seres humanos em fome, repressão, gulags?
O que quero saber é para onde foi o amor de JLG, o amor a Anna, o amor ao cinema americano que ele transfigurou em emoção pura, rimbaudiana, em Pierrot le fou, o mais belo dos mais belos dos seus filmes.
Nos anos Mao, anos Feddayn, anos Dziga Vertov, Godard pôs o cinema de serviço a causas. Nunca mais se livrou dessa armadilha. Sauve Qui Peut, Soigne ta Droite, Nouvelle Vague, Éloge de l’Amour, mesmo Je Vous Salue Marie, filme tocado de graça, são sinfonias imperfeitas, com acordes de genialidade e o surdo rumor do ressentimento de alguém obcecado com a solidão de uma luta que cultiva o fragmentário, o hermético e a desconstrução como forma de defesa. JLG obriga-se a estar contra. Como se não fosse também esse um modo de cativeiro, do que a invisibilidade de Film Socialisme faz prova.
Na morte de Godard, a melancolia. Devo-lhe o esplendor de Pierrot le Fou, a audácia de, a vê-lo, no escuro do cinema, se me ter perdido a mão sob a saia larga (como se fosse a de Marianne?) da que seria e é minha mulher. Melancólico, sonho com os “filmes visíveis” que não quis fazer, a obra-prima de que privou o século XXI.

Pierrot le fou

Minha Guerra, minha Paz: faço livros há 42 anos

O JL-Jornal de Letras pediu-me uma espécie de autobiografia de editor: como é que eu me estatelei, livros abaixo, ao comprido, e o que me faz continuar a cirandar por esta orgia.
Há acusados, julgamento e culpados. No fim, espero a vossa absolvição.


Tal como Manoel de Oliveira e Agustina diziam da alma, o livro é um vício. É triste, mas digo a verdade: foi a minha mãe que me meteu no vício. No musseque Sambizanga, em Luanda, aos meus cinco anos, de um livrinho religioso de capa dura, a Alice, minha querida e devota mãe, lia-me textos de elevação moral grávidos de emoção. É preciso ter já muitos calos no coração, como os que o macaco tem no escuso sítio que não nomearei, para não sermos sensíveis à beleza que há nestas palavras: «Ave Maria cheia de graça / O Senhor é convosco, / Bendita sois Vós entre as mulheres, / E bendito é o fruto do vosso ventre.» Isto é mais do que rezar, é juntar palavras numa harmonia e num ritmo que afagam os cabelinhos do sublime. E à Avé-Maria seguiam-se histórias edificantes de pescadores que enfrentavam noites de tempestade no breu do alto mar, ou a história de um inocente atirado para a prisão por um rei ímpio e cruel, ou ainda a de um mártir, que preferia perder a vida a renunciar à sua fé e ideais.

Um miúdo de cinco anos não resiste aos efeitos psicoactivos desta poderosa droga. As leituras da minha mãe, a forma como, na folha de papel, as palavras se combinavam e entravam em combustão, tudo isso gerava em mim um estado de euforia infantil, uma certa vasodilatação, a capacidade até de andar sobre as águas se me apetecesse andar sobre as águas. O livro foi, já se vê, a minha colher de heroína.

Na adolescência, esse estado de alucinada levitação foi reforçado pelo ramo de uma árvore. No quintal da minha casa havia mamoeiros, uma bananeira, um sape-sape, uma pitangueira, uns humildes e bravos jindungueiros, mas a figura nobre era uma mangueira robusta e silenciosa. Eu era então um ágil e saudável saguim, trepava pela mangueira, saltava de galho para galho, e sentava-me a ler na confluência do mais sólido ramo com o amplo tronco dessa sábia mangueira.

Lia uns três metros acima do chão, entre a folhagem verde e o amarelo avermelhado das mangas maduras. Tinha o sol e o céu de Angola como tecto e testemunha. Dos 10 aos 15 anos, eu vivi nessa mangueira as aventuras de cem vidas. Apaixonei-me, salvei donzelas em apuros, assaltei bancos, fui um índio Yaqui de Zane Grey, fui o famoso xerife Buck Jones.

Levante-se o culpado: João Bénard

E peço que, para se juntar à minha mãe, se levante o segundo culpado: João Bénard da Costa. Já em Lisboa, na Cinemateca, para cada ciclo de cinema fazíamos, desde 1980, um catálogo. Eu era um dos servos da gleba do João Bénard: aprendi a escrever e rever textos, a maquetá-los com um gráfico. Ainda não havia Apples e muito menos Adobe In De­sign. Juntavam-se tex­tos e foto­gra­fias à mão e havia tesou­ras, papel e cola por todos os lados. Vinha depois o fim da linha de vício: entrar nas gráficas para cheirar tintas e lamber papel.

Lembro-me da primeira vez que pus o pé num desses antros. Eram ofi­ci­nas gigan­tes­cas, do tempo da glo­ri­osa revo­lu­ção indus­trial, num dos edi­fí­cios do que hoje é a LX Fac­tory. Fui com o João e a Rita Azevedo Gomes. Íamos imprimir o Alfred Hitchcock nas máqui­nas de roto­gra­vura, uma téc­nica de impres­são que per­mi­tia apli­car a tinta em quan­ti­da­des dife­ren­tes, de acordo com a pro­fun­di­dade dada a célu­las gra­va­das num cilin­dro de cobre e bronze de umas rota­ti­vas mais majes­to­sas do que o rio Tejo. Está­va­mos nos anos 80 e, no fim, tínha­mos na mão um livro que pare­cia ter che­gado de 1930. Fiquei com muita von­tade de fazer tam­bém aquilo. Quem é que não quer via­jar de cale­che no tempo?

O João deu-me, depois, carta branca – é certo que ele ou dava carta branca ou não dava carta nenhuma! Fui a Copenhaga e fiz com o artista plástico Carlos Nogueira o catálogo do Cinema Dinamarquês, com o místico Dreyer como protagonista. O que trabalhei com o tipógrafo Serrano, indefectível MRPP, e o meu amigo Luís Miguel Castro (que era, ó se era, il miglior fabbro), nos catálogos do Antonioni, do Coppola, do Cinema Soviético, que são dos livros mais bonitos em que pelo menos mais de um dedo meu por ali andou. Pequenina vaidade: todos os catálogos que fiz a solo estão esgotados e são peças de alfarrabista.

A culpa de duas velhas senhoras

Et pourtant eu não tinha ainda as cartas de nobreza (ups!) do editor. À minha mãe e ao João Bénard, junto agora, no banco dos réus, duas velhas senhoras, duas almas subversivas e incendiárias. Quem fez de mim editor, foram Mécia de Sena e Agustina Bessa Luís. Talvez tudo tenha começado em Santa Bárbara, na casa da Randolph Road, de Mécia. Ainda na Cinemateca, fui à Califórnia falar com Coppola e rever, com a «mulher de Jorge de Sena», como um dia orgulhosamente a ouvi dizer, um livrinho que reunia os textos dele sobre cinema. Mécia acolheu-me por uma semana. Empatia garantida, que ficaria para a vida, Mécia levou-me ao sanctum sanctorum: ali estavam os manuscritos e dactiloscritos de Sena. Mais: os inéditos, tantas cartas, as de Sophia de Mello Breyner Andresen, as fulminantes peças satíricas, as suas famosas e impublicáveis Dedicácias. Eu tinha visto e tocado o Graal.

Passaram os anos que se contam pelos dedos das mãos, quase a aca­bar o século XX, já eu levava sete anos de ganhar vida regalada e cosmopolita na SIC, deu-me o que Billy Wil­der e Marilyn Mon­roe imor­ta­li­za­ram como o seven year itch. Uma comi­chão do cara­ças: o meu amigo Francisco Pinto Bal­se­mão que me des­culpe, mas a SIC já não me bas­tava. Via­java de Los Ange­les ao Rio ou Hong-Kong e ao pequeno resort sau­dita e da máfia russa cha­mado Can­nes, e até, das duas às seis da matina, pro­gra­mava cul­tura de alto lá com ela nas «Noi­tes Lon­gas da SIC». Mas queria mais.

Com dois amigos, como talvez nunca mais venha a ter, fundei a Três Sinais editores. Um lema: a mais pequena editora do mundo. Queríamos fazer livros que fossem também uma girândola dos sentidos: grande dimensão, formatos raros, papel que desse vontade de acariciar e beijar. Um livro e meio por ano era a forma de nos roçarmos pela felicidade. E se o primeiro veio directo dos tesouros de Mécia de Sena, o segundo nasceu de uma ousadia premiada. Talvez instigado pela Antónia, minha mulher e agustiniana obsessiva, desafiei Agustina a escrever sobre Paula Rego e desafiei Paula Rego a deixar-nos usar a sua pintura nesse livro, que eu imaginava como um orgíaco sabbath. Ó se foi.

Dedicácias e As Meninas são duas preciosidades, se me perdoam a arrogância, que é assumida. Capa car­to­nada reves­tida a pano, papel Pop Set de 170 gra­mas que, mate, acei­tava muito bem a cor, repro­du­zindo com fide­li­dade as tex­tu­ras das telas de Paula Rego, uma fide­li­dade de Grá­fica de Coim­bra, que o Padre Valen­tim e o meu amigo Gân­dara garan­tiam. Pagi­ná­mos com liber­dade e libe­ra­li­dade, dando gran­deza e soberba a por­me­no­res, tanto aos da pin­tura, como mesmo a alguns dos mais ins­pi­ra­dos ou cho­can­tes afo­ris­mos com que o texto de Agus­tina nos des­lum­brava ou sufo­cava — o que é que se há-de dizer quando, como ela escrevia, «as mulhe­res cons­pi­ram, ins­pec­ci­o­nando a sua roupa de baixo».

Arrebatador foi ter «inventado» esse livro, As Meninas. Pensei que era isso ser editor: inventar livros. A culpa maior foi de Agustina. Não só aceitou o desafio como pediu mais. E eu reincidi. Pedi-lhe uma quase autobiografia, esse Livro de Agustina, que ela começou por chamar Retrato de Grupo. E, a seguir, voltei a desafiá-la para uma Bíblia em caixa de vidro, em que também escreveram João Miguel Fernandes Jorge, Jorge Sampaio, Manoel de Oliveira, João Bénard, Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura. A caixa de vidro (não era bem vidro, reconheço), veio da China.

Do hobby para a indústria

Da Três Sinais para a Guerra e Paz editores foi o salto do hobby para a indústria. Quando, em 2005, saí definitivamente da SIC, decidi que seria dono e senhor de mim mesmo: nem Deus, nem chefe para todo o sempre. Num clamoroso, mas delicioso erro, escolhi o livro, a edição deles, como quem julga que se vai sentar ao fim de tarde, flute de champanhe na mão, na mais radiosa pérgula do jardim.

Voltei a Agustina e a Mécia. Na sua casa do Gólgota, Agustina aceitou escrever 11 «óperas» de intriga, traição ou sedução da História de Portugal, num livro a que chamou Fama e Segredo. Mécia deu-me a correspondência de Sena e Sophia, publicação que Sophia, num jantar abençoou. Começava, assim, em 2006, a aventura da Guerra e Paz editores, que vai a caminho dos 17 anos. Fiz, com o Ilídio Vasco, meu designer ab ovo usque ad mala, livros em madeira, (e vão dois!), a única capa do mundo, para Fernando Pessoa, feita numa prancha de madeira sem cortes ou colagens, com a lombada trabalhada a laser, e fizemos a capa que, desdobrada, tem mais de um metro para O Físico Prodigioso, de Sena.

Veio, fatal como o destino, o acidente traumático. A insolvência de um distribuidor ia sendo o golpe de mata leão no pescoço da editora. Subtraído de um ano inteiro de facturação, levei anos a dormir na mesma cama com a dívida: é uma espécie de coabitação em regime de violência doméstica, com gritos, agressões, baba e ranho e não se sai do Purgatório. Mas não falhámos uma única obrigação e renascemos.

A Absolvição

Onde está, então, a viagem de caleche no tempo? A pérgula e o champanhe? Quero dizer aos culpados disto tudo, à minha mãe, ao Bénard, a Mécia e Agustina, três mulheres e um homem, que não só os absolvo, como lhes agradeço, ajoelho e rezo. Valeu a pena. Bastava ter publicado Agustina, Sena, Sophia, o último livrinho de Vasco Graça Moura, a Estrutura das Revoluções Científicas, de Kuhn, ou o Ouriço e a Raposa, de Berlin, como em breve O Crisântemo e a Espada, de Ruth Benedict, jovens poetas como Eugénia de Vasconcellos e João Moita, ou o veterano Eugénio Lisboa, o Longo Braço do Passado, de Rui de Azevedo Teixeira. Bastava que a Guerra e Paz fosse, como é, a mais angolana das editoras portuguesas, do que é prova a monumental Antologia da Poesia Angolana, cereja a mimar o bolo. Bastava-me o Assim Nasceu uma Língua do Fernando Venâncio e a luta contra o famigerado AO90.

Os últimos cinco anos da Guerra e Paz editores, colecções de livros vermelhos, amarelos, brancos e negros, os nossos clássicos, a entrada no romance contemporâneo, a criação de uma colecção de grandes ensaios como Os Livros Não se Rendem, restituem-me ao êxtase edificante da infância, ao adolescente ramo de mangueira, três metros acima do chão, três metros mais perto do céu.

Um atraso de vida cheio de futuro

Este é o Alfa-Romeo do António Peixinho

Vou expor-me ao ridículo e jurar que a Vila Alice, meu bairro de Luanda, era afinal um bairro de Nova Ior­que. Ficaria ali, encas­trado entre o Soho e a Lit­tle Italy.

Pode pare­cer que o meu forte não é a geo­gra­fia. Enganam-se. Pisei a Cali­fór­nia e foi logo como se respirasse de novo, por todos os poros e com nari­nas boca-de-sino, o ar start-up da Angola de 1973. O mundo é enorme, é maior do que as duas ore­lhas do Dumbo, mas por ser tão grande o mundo repete-se. Há um boca­di­nho de Alfama a subir para o Sacré Coeur e havia um boca­di­nho dos anos 50 de Bronx e Newark na Luanda dos anos 60.

Na Alberto Cor­reia, a minha rua da Vila Alice, havia três mer­ce­a­rias. Mas só a mer­ce­a­ria do Senhor Manel, se pode gabar de ser o espe­lho bor­ge­si­ano das mer­ce­a­rias do “Bronx Tale”, único e gen­til filme de que Robert De Niro foi o realizador, ou dos roman­ces abu­si­va­mente auto­bi­o­grá­fi­cos de Phi­lip Roth.

Na mer­ce­a­ria do senhor Manel não se ven­diam metá­fo­ras, mas havia duas portas de entra­da de meto­ní­mica afi­ni­dade. A canó­nica, das horas legais, pre­ce­dida por três degraus que podiam, se fosse mais devoto o con­ti­nente, ser os degraus de uma cape­li­nha sete­cen­tista. Fechava à hora de almoço e, se ainda me lem­bro, fechava outra vez quando o sol se punha. Fora de horas, entrava-se na mer­ce­a­ria por uma camuflada porta late­ral que dava para o pátio, onde à noite o senhor Manel punha uma mesa guer­reira para par­ti­das de sueca que levan­ta­vam ala­ri­dos de Alju­bar­ro­ta, não adivinhando ainda o trágico Kifangondo, que viria um dia. De uma tomada interna, o senhor Manel sacava uma puxada e era à luz de uma gam­bi­arra que se batiam as car­tas. Cruzavam-se Nocais e Cucas e nós, can­den­gues, ouvía­mos da boca dos mais velhos o que nem hoje nos atre­ve­mos a repetir.

Podiam ser, se fos­sem sici­li­a­nos, mafi­o­sos do Bronx. Esta­vam ali, de gor­dos ou ossu­dos rabos enfi­a­dos nas cadei­ras, apos­tas sobre apos­tas, fumo a entrelaçar-se em fumo, até às qua­tro, cinco da matina. Um dia, um deles ten­tou pisgar-se às três da manhã. A per­der, o velho Augusto lançou-lhe um labéu capaz de gelar os tró­pi­cos: “Par­ceiro da merda, joga duas par­ti­di­nhas e dá de frosques.”

Era um quintal de filme, podia estar nas tra­sei­ras do “Rear Win­dow”, de Hitchcock. Jogavam-se car­tas como num “film noir” e cola­dos aos cigar­ros, a um whisky com 7up, esta­vam Edward G. Robin­son e Wal­ter Bren­nan. Ria-se como se ria na pri­são do “Rio Bravo”.

Era a vida, mas não era nenhum atraso de vida. Repe­tindo o ritmo de um quin­tal mafi­oso dos anos 50 de Nova Ior­que, o pátio de mil sue­ca­das de Luanda ante­ci­pou o que depois sacu­di­ria a Amé­rica. Os car­ros dos pri­mei­ros anos 60 eram as car­ri­nhas Ford, uns Che­vro­lets e Ply­mouth, espa­das ame­ri­ca­nos. Por pouco tempo. A luz da gam­bi­arra da mer­ce­a­ria do senhor Manel ilu­mi­nou, osci­lante, a che­gada do Simca do meu pai, do Triumph da bela Mimi, do Fiat de aber­tura pela frente do amável lixi­vi­eiro, do Alfa-Romeo do largo dos Cunhas, do Volkswa­gen preto do senhor Pinto, do Citroen e do BMW da famí­lia dos enge­nhei­ros. Se em Detroit esti­ves­sem aten­tos à Vila Alice, sabe­riam, em mea­dos dos anos 60, que a indús­tria auto­mó­vel ame­ri­cana estava condenada.

Tudo o que os japo­ne­ses fize­ram depois – a bara­tís­si­mos Hon­das, Maz­das, Toyo­tas – foi só um golpe de mise­ri­cór­dia. O mundo mudou sim, mas à luz ténue da gam­bi­arra do pátio da mer­ce­a­ria do senhor Manel. Na Vila Alice, esse bairro meio-judeu, meio-italiano, de Nova Ior­que. Digo eu que, agora sei, de car­re­gada nos­tal­gia, que Alice doesn’t live here anymore. Nem voltará a viver.

A morte é uma artista

A morte tem má reputação, uma cara taciturna, diz-se. Preconceituosos, continuamos a achar que a morte é a figura insidiosa que aparece sempre ao pé de camas de madeira escura. Porém, a morte, e olhem que não é só a morte moderna, tem também ironia, sentido de oportunidade, uma multifacetada vocação que tanto é trágica como cómica.

Eu tenho um amigo que é dono de uma funerária. Tem um sentido de humor subtil, leve, com a efervescência de uma flute de Moët & Chandot, isto só para não exagerarmos nos custos desta crónica. Esse meu amigo almoça, quase todas as semanas, com outros amigos, que nasceram na mesma terra. Um deles adoeceu com gravidade. Fez biópsias, tacs, ressonâncias, o diabo a quatro, que a morte é exigente. E marcou o que se temia ser o derradeiro almoço, logo a seguir à consulta com o médico que ia ver os exames. Diagnóstico no bolso e na alma, entrou no restaurante. Os sete amigos estavam tensos, uma angústia de quem sabe o que aí vem. “Então, António?” E ele, em pé, anuncia que nada é maligno, que há tratamento e que a morte já vai longe, corrida a pontapé. Erguem-se os seis amigos, gritam besteiras, que é a forma de nós, homens, exibirmos sem vergonha uma alegria parva. Só um deles, o meu amigo da funerária, continua sentado e acabrunhado. “Porra, Joaquim, não dizes nada!”, chateiam-no os outros. E ele: “Todos para aí a festejar a saúde do António, e eu? No pobre cangalheiro ninguém pensa!”

E do restaurante da Baixa lisboeta vou directo para Santa Barbara, a cidade que, na Califórnia, Mécia de Sena me deu a conhecer. E levou-me, com Maria de Lurdes Belchior, a conhecer os restos das missões espanholas, eu um menino mimado por aquelas duas senhoras, em pic-nics de ovos verdes e bolinhos de bacalhau. Nunca fomos foi ao Lobero Theatre. Mas foi lá, no Dia das Mentiras, em 1938, a estreia de uma peça de Clifford Odets, “Golden Boy”. Em plena representação, cai, fulminado, o actor Joseph Greenwald. Não vão acreditar, mas ele tinha acabado de dizer esta linha do diálogo, a sua última réplica: “Esperei por este momento toda a minha vida.”

Nos meus tempos da SIC, comprei vários shows de variedades ingleses, mas tenho agora de confessar a Francisco Balsemão que falhei este, de que vou falar. Os Variety Shows eram feitos ao vivo e para uma espectadora especial, a rainha de Inglaterra. Num dos shows, o mágico e cómico Tommy Cooper estava a fazer o seu número. Ao vivo, claro. Chamou a assistente. Ela entrou em cena. Tudo nela era exultante. O seio mais refulgente do que néon na noite escura, a perna longa como um relâmpago, e já vos poupo ao seu britânico backside. Tommy Cooper olhou para ela e caiu. Deixou-se cair, por ser esse o seu estilo, pensaram os espectadores e riram-se. Era uma sala incapaz de parar de rir. Mesmo a estremecida assistente ria com convicção. E Cooper não se levantava. O realizador, alarmado, foi para intervalo (lembram-se?). O que tombara Cooper fora um ataque cardíaco. Tentaram reanimá-lo, mas estava morto, o que o hospital confirmou.

Em Nova Iorque, só vi ópera uma vez, de Donizetti, “O Elixir de Amor”, numa passagem com o Emídio Rangel, que meteu polícias, reféns, hospitais. Mas em 1960, o barítono Leonard Warren cantou lá, no Met, a ária “Morrer, ó tremenda coisa” do “Don Carlo”. Tinha ele a ária nos lábios – Morir, tremenda cosa – e uma hemorragia cerebral calou-o para a eternidade.

Porventura desajeitada, mas vê-se que há na morte uma certa vontade de emprestar um toque artístico a cada uma das suas aparições. Volte sempre.