As mentiras de Abril

Dez capas para as águas de Abril

Agora, digam-me lá, o que é o romance senão a mentira convertida em virtude? O que esperamos de um romance que não seja o triunfo transbordante da imaginação? O que queremos de um romance que não seja a vida, toda a vida, a magnífica vida com a sua explosão de alegrias e de acabrunhantes tristezas, a vida repleta de dramas, nascimentos e mortes, tragédias e epopeias, refeita, reconstruída e narrada pela filigrana das palavras, pela sugestão de hipérboles, elipses, metáforas, a mais fina ironia?

São esses os romances que, numa ampla frente de combate, enchem a carteira de títulos da Guerra e Paz editores em Abril. Romances do mundo, da colecção romances de guerra e paz, como o do angolano José Luís Mendonça, o tão bem escrito As Metamorfoses do Elefante, ou o do neerlandês Gerrit Komrij, Um Almoço de Negócios em Sintra, com tradução de Fernando Venâncio a roçar o sublime. Mais romances, romances que inauguram a colecção Admirável Mundo do Romance, a nossa nova colecção de clássicos recentes, e são dois: o controverso Maggie, uma Rapariga das Ruas, do genial Stephen Crane, e a obra-prima Ethan Frome, da sublime Edith Wharton. E na velha colecção Clássicos Guerra e Paz, publicamos, de Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico, o livro que Camilo preferia a todos os seus livros, o que lhe foi sempre mais querido: «Estava ao meu lado um coração que eu ia desenhando naquela Leonor…» diz ele, já a convidar-nos para a leitura.

Bem sei que do romance à poesia vai um passo arriscado, mas José Jorge Letria ajuda, mesmo os mais desconfiados, a dar esse passo. Em A Poesia Explicada aos Jovens e aos Outros, Letria faz esse trabalho de que se falava n’O Principezinho: cativa-nos. Este é um belo livro sobre o mais encantatório dos ofícios. E já em pleno ofício e pleno mistério, leiam, do poeta de cerração e trevas que é João Moita, o seu ferocíssimo e inquietante Que Túmulo em que Talhão, que integra a nossa mais nobre colecção Poesia Guerra & Paz.

E ainda queria falar-vos de três livros singulares que nem são romance, nem poesia. Primeiro, de um incrível álbum de fotografias que comemora os 40 anos do Grupo de Operações Especiais, a nossa polícia de elite. GOE, 40 Anos ao Serviço de Portugal é uma viagem por essa instituição, com mais de 200 fotografias espectaculares, num livro de capa dura, ao baixo: daqueles que se guarda e revisita. É uma co-edição com os Serviços Sociais da PSP e o GOE.

Depois, na nossa colecção Histórias de Liderança, em co-edição com a Fundação Amélia de Mello e a Nova SBE, publicamos Frederico da Cunha, Gestor Empático e Próximo das Equipas, o excelente retrato de um gestor que foi fundamental na revelação da verdade que fez cair o BES.
E, por fim, para este ano em que voltaremos a ter férias dignas e livres, vamos lá cuidar da nossa forma e apresentar-nos em beleza: a Guerra e Paz contribui com este bestseller de Jeannette Hyde, A Dieta das 10 Horas, que promete deixar-nos comer o que gostamos e perder o peso de que não gostamos.

São dez novos títulos da Guerra e Paz, a editora que tem por lema «É preciso virar a página».

Manuel S. Fonseca, editor

O Editor em Pantufas, quase um diário

Faraós, Wilde e as pantufas

Em Dezembro de 2020, o vírus petulante que toda a gente sabe arrastou-me para os cuidados intensivos do Curry Cabral. Tive sequelas? Tive: agora, mesmo na editora, tiro os sapatos e calço pantufas. Eis ao que passei a dar valor na vida, a uns pés quentes e mais leves do que os de Ulisses.

Oscar Wilde e os faraós do Egipto – são eles que estão aos meus pés – haviam de gostar. Rói-me uma agonia: não terem os meus pés sido suficientemente leves e ligeiros para ter já nas livrarias o Atlas da Guerra Fria que está ainda, às voltas, a ser digerido pelas máquinas da gráfica. Raio das pantufas!

Já deambulam pelas livrarias

Desde o dia 8 de Março que estes livros andam a fazer a sua peregrinação pelas livrarias de Portugal.

100 Anos do PCP: do Sol da Terra ao Congresso de Loures,
Domingos Lopes

Uma viagem ao interior do PCP por quem o viveu. Pode o ideal comunista ser ainda reconfigurado e resgatado da sua história trágica no século XX?

(In)justiça Social. Porque estão erradas muitas respostas populares a importantes questões de raça, género e identidade – e como saber o que está certo,
Helen Pluckrose e James Lindsay

Já ouviu dizer que a ciência é sexista, que não existe sexo biológico e que ser obeso é saudável? Um livro que afronta os disparates dos activismos totalitários. Para quem tem 30 anos e tem pressa.

E Foi Assim! Biografia de João Salgueiro e a História da Diapasão,
Fernando Grencho

De Rui Veloso a Gimba, é também a história de 30 anos de música portuguesa que se revelam na história deste homem e desta empresa.

O Sorriso Contagiante dos Croissants,
Camille Andrea

Este romance é preciso lê-lo, oferecê-lo, emprestá-lo, doá-lo. Se estão conectados com a vida, se têm vontade de sorrir, de rir, comprem este livro. Um livro feliz.

Entre os demónios e o romance

os meus doze livros de Março

Eu pensava já não voltar a sentir o sabor de Guerra Fria, que causticou a minha infância. E eis que, 32 anos depois de ver cair o Muro de Berlim, a Europa volta a mortificar-se com o medo da guerra atómica e com a raivosa invasão da Ucrânia. Um editor tem a obrigação de responder: este mês, publico Atlas da Guerra Fria– 1947-1990: Um Conflito Global e Multiforme. Para conhecermos a História e não a repetirmos.

E peço aos leitores da Guerra e Paz editores que leiam o nosso Nietzsche: o Combate com o Demónio, biografia escrita por Stefan Zweig: vêm de longe os demónios a pairar sobre a Europa. Mais demónios: sobre os que atormentam os militantes comunistas portugueses, escreve Domingos Lopes neste seu 100 Anos do PCP: do Sol da Terra ao Congresso de Loures. E dos demónios de guerras africanas, coloniais e pós-coloniais, testemunha o angolano José Severino em Batalhas, Peripécias e Economia num Recanto de Angola.

Há sempre uma réstia de esperança. Vejam este livro, com centenas de fotos e memórias pungentes de médicos, enfermeiros e doentes que viveram a experiência da pandemia: Imagens do Cuidar: o CHULC e a covid-19. Para não esquecermos esse vendaval de dor: uma memória, muitos retratos.

E nestes tempos woke, de tanto activismo, tempo para lermos (In)justiça Social: Porque estão erradas muitas respostas populares a importantes questões de raça, género e identidade – e como saber o que está certo – o título é quase tão grande como o livro – é também tempo de escapismo: O Sorriso Contagiante dos Croissants, de Camille Andrea, é um romance feliz, ou pelo menos em busca da felicidade, cujo segredo está num café de um milhão de dólares.

Há música nos livros de Março: Foi Assim! Biografia de João Salgueiro e a História da Diapasão, história afinal de muita da música portuguesa dos anos 70 aos anos 2000. Há também tempo para deambular pelos clássicos: da Bola de Sebo, de Maupassant, uma obra-prima da novela francesa, à poesia de Paul Verlaine, em Festas Galantes, numa edição de arte, com a Calouste Gulbenkian.
Guardei para o fim a criação de uma colecção de romances contemporâneos, os romances de guerra e paz. Os dois primeiros romances, Mãe para Jantar, do americano Shalom Auslander, e Esta Ferida Cheia de Peixes, da colombiana Lorena Salazar Masso, são dois prodígios. De riso e humor negro, o primeiro, de lirismo tenso e talvez trágico, o segundo. Nunca a ficção literária da Guerra e Paz foi tão saborosa e comovente.

Entre os demónios e o romance, doze livros para começar a Primavera.

Nem é só fumo, nem são só beijos: são os livros de Fevereiro

É fumo ou perfume o que se deslarga dos livros? Há um cheirinho a fumo e vem dos anos 50. Um bizarro americano, Howard S. Becker, viu, fumou, inalou e presenteou o mundo com o primeiro olhar sociológico sobre a canábis. É com esta viagem inédita, a Fumar Marijuana por Prazer, que começamos o mês de Fevereiro. Vamos acabá-lo na companhia do excelso Fernando Venâncio, a beijar bocas brasileiras: o inquieto e provocador Venâncio escreveu O Português à Descoberta do Brasileiro. São beijos à língua portuguesa, que mostram como cada língua, a dos portugueses e a dos brasileiros, morde, lambe e saliva a língua portuguesa de modo cada vez mais diferente. Um livro que se ri do malfadado AO90. Com beijos e uma pergunta à doce língua: «Mi àmará ela?»

Sabemos que há muito mais de mil jovens em busca da sua vocação: para eles, pais e professores, publicamos O Coaching Não Faz Milagres. Tu É Que Fazes!. Um pequeno milagre é o Canto de Mim Mesmo, vertiginosa tempestade poética, fusão cósmica do mundo, corpos, almas e «eu» do abençoado Walt Whitman. Eu juraria que Whitman não se daria mal entre faraós e pirâmides, uma barca que descesse o rio Nilo. Levem, caros leitores, para essa descida, o nosso Atlas do Antigo Egipto: tem todos os mapas dessa civilização de segredos e labirintos.

E quem labirintos não tem? Tinha-os Miguel Torga, como o nosso autor Norberto Veiga atesta em O Labirinto Literário de Miguel Torga. Por outros labirintos, policiais e de espionagem, nos guia pela mão o historiador José Barreto. Ressuscitou e escreveu Frei Manuel de S. José, O Duende de Madrid, mas não pensem que é obra de devoção. O fradinho português pôs a cabeça da corte espanhola em ebulição e pode dizer-se que foi o inventor do jornalismo satírico. Vai ser preso? Vai! Vai conseguir fugir? Vai!

Há duas outras biografias de que não queremos fugir. A de José Miguel Leal da Silva: Entre Química e Minas, um engenheiro português inventivo e imparável. E a cereja, entre os bons fumos deste mês, é Eunice Muñoz. Venham espreitar a sua vida, todo o seu teatro, cinema e televisão em centenas de fotos. Com a sua bênção de actriz maior, fizemos para si, num formato grande, 21 por 28 centímetros, Eunice Muñoz: Fotobiografia: os livros não se medem aos palmos, mas a grandeza ajuda quando queremos ver bem.

São estes os livros de Fevereiro da Guerra e Paz editores, os livros de quem quer ver e quer ver bem.
Manuel S. Fonseca, editor 

Porque é preciso virar a página

Peço imensa desculpa por uma certa alegria quase infantil. Mas estou mesmo contente com os livros que a Guerra e Paz editores publica em Janeiro. Apresento-os em duas linhas: com a objectividade que tento copiar desse certeiro mestre polaco que é Robert Lewandowski.
E desculpar-me-ão se eu der um abraço, de o levantar do chão, ao meu amigo Paulo Nogueira, portuguesíssimo brasileiro, que aceitou o meu desaustinado desafio, respondendo-me em tempo recorde, ou não fossem todos os lugares de fala. Que belo livro, Paulo!
Um desabafo. Passei, durante uns valentes anos, por muitas dificuldades para segurar viva esta editora, que a insolvência de um distribuidor pôs de rastos e de morte anunciada. Podia ter desistido. Hoje, sabe-me ao néctar dos deuses apresentar um alinhamento destes. Em Fevereiro, prometo que há mais.
Obrigado à equipa (Zé, Ilídio, Américo, Inês, Carla, Maria José e Mário) que se bate com a garra e o pulmão de um Renato Sanches.

Nas livrarias a 11 de Janeiro:

Estes já estão disponíveis

Atlas do Holocausto: A Execução dos Judeus da Europa, 1939-1945
Georges Bensoussan 
Esta é a História dos factos, dos locais, dos métodos: o Atlas de uma viagem aterradora ao coração do crime nazi, um crime sem precedentes. Texto e mapas de um genocídio.

A Pessoa e o Sagrado
Simone Weil

Cuidado, esta Simone é a Weil, com W e não com V. Morreu na II Guerra Mundial e era indomável. Em Portugal, teve uma epifania mística e este livro interroga as nossas ideias básicas de direitos humanos. 

Poemas Eróticos da Antiguidade Clássica: Grécia e Roma Antigas
Organização de Victor Correia

Os mais belos poemas da Grécia e da Roma antigas, pelos melhores tradutores, oferecem um panorama deslumbrante da sexualidade clássica. Que inveja, nestes tempos de novos puritanos!

História de Juliette ou As Prosperidades do Vício
Marquês de Sade

O melhor romance de Sade. Monumental, desbragado e subversivo. Sade transgride aqui todos os tabus e a sua heroína, Juliette, mergulha além dos limites, como se o corpo humano fosse inesgotável.

O Peso Perfeito para Si
Alexandre Fernandes

Sim, é um livro de dieta, uma dieta de 21 dias, mas é uma dieta com uma condição, a de uma revisão emocional: as suas emoções e sentimentos são a chave do êxito.

Nas livrarias a 25 de Janeiro:

Estes estão a caminho

Breve História da Filosofia Moderna: De Descartes a Wittgenstein
Roger Scruton

A tradição filosófica ainda é o que era e, com a apresentação de Roger Scruton, a tradição filosófica de Descartes a Wittgenstein ainda é melhor do que era. A grande filosofia ocidental explicada com clareza e fluidez.

Todos os Lugares São de Fala: Manifesto pela Liberdade de Expressão
Paulo Nogueira

Na era da cacofonia estridente das guerras culturais, este Manifesto quer ser um santuário da liberdade de expressão. Será hoje a liberdade de expressão um luxo em extinção? Não perca nem um capítulo deste livro irreverente e insolente. Escreveu-o com inteligência e brio o meu amigo Paulo.

Carta à Geração Que Vai Mudar Tudo
Raphaël Glucksmann

Que raiva! É tudo apocalíptico, o clima, o populismo, o mundo financeiro. É o fim do mundo e parece que ninguém pode fazer nada. Este é o grito de revolta, o apelo à geração que pode e vai mudar tudo. 

A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de Um Julgamento Sórdido
Oscar Wilde

Em tribunal, na Inglaterra vitoriana, Oscar Wilde é acusado de um crime: ser sodomita. Mais do que debater sexualidades, Wilde faz do tribunal um teatro para uma portentosa defesa da total liberdade da arte.

E, como disse o Presidente Marcelo, inspirado certamente pelo slogan da Guerra e Paz desde 2006, tudo isto porque é preciso virar a página.


Em Janeiro, nove livros e meio, por favor

Pediu-nos, por favor! Foi 2022: veio falar com a Guerra e Paz editores e pediu-nos, por favor, um grão de erotismo que espantasse as sombras da feia pandemia. Por isso, em Janeiro, trazemos aos leitores a mais bela antologia de Poemas Eróticos da Antiguidade Clássica, que Victor Correia, formado pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino (ora bem!), subtil e lascivamente organizou. Para que não fosse um acto solitário, juntámos-lhe a obra maior do mais célebre dos presidiários, o Marquês de Sade, a majestosa e carnal Juliette ou As Prosperidades do Vício, romance de potente libido que nunca ninguém lerá de um fôlego.

Outro presidiário, outro transgressor: de Oscar Wilde, na colecção Livros Negros, vão poder ler A Intransigente Defesa da Arte: Transcrição de um Julgamento Sórdido. Nunca tinha sido publicado assim em Portugal. Se calhar, no mundo. Ou de como de um pântano de acusações e intrigas surge a mais esplêndida defesa da criação artística. Arte livre contra todos os servilismos.

Dois livros vibrantes, dois manifestos contemporâneos abrem também Janeiro. Um vem de Franças e Araganças e é a Carta à Geração Que Vai Mudar Tudo, de Raphaël Glucksmann, um hino à acção. O outro é de Paulo Nogueira, jornalista do finado e saudoso O Independente: Paulo, que não é de Tarso, escreveu Todos os Lugares São de Fala – Manifesto Pela Liberdade de Expressão, um intempestivo e, por vezes, hilariante Livro Vermelho, que faz braço-de-ferro com a famigerada cultura woke.

Woke ou não, por causa de inóspitas obesidades, O Peso Perfeito para Si, de Alexandre Fernandes, é o nosso livro prático do mês.

Os mortos desafiam-nos a pensar! Ressuscitámos Simone Weil, a mística Simone Weil, publicando um inédito seu em Portugal, o belíssimo A Pessoa e o Sagrado, perturbante interrogação dos direitos do Homem. Do filósofo Roger Scruton, falecido faz agora dois anos, resgatámos, em nova edição, a sua essencial Breve História da Filosofia Moderna. E há os mortos que já ninguém ressuscitará, mas que nos educam para o futuro. Atlas do Holocausto: A Execução dos Judeus da Europa, 1939‑1945, de Georges Bensoussan, é um guia insubstituível e rigoroso do Holocausto, essa devastação nazi da II Guerra Mundial.

É assim Janeiro, várias gotas lúbricas, a turbulência de manifestos, a exaltação do grande pensamento. E íamos para o décimo livro, distendidos, puxar de um charro, mas alto lá que fica para Fevereiro, deixando Janeiro com nove livros e meio, se faz favor.

O Editor
Manuel S. Fonseca

Carta ao meu neto no seu primeiro Natal

Carlos, vais estrear-te, neste ano da graça de 2021, em Natáis. É bem possível que uma malta mais céptica, e um bocadinho para o retorcido, te venha dizer que o Natal é uma chuchadeira. Eu sou o teu avô e vou este ano para o meu 68º Natal – e ainda bem que não é o Natal 69, por assuntos e mujimbos que, por ora, ainda não vale a pena estar a mencionar-te. Ora, pela experiência de 68 Natáis quero dizer-te que não dês muita atenção aos cépticos e tenhas até um bocadinho de pena deles. O Natal é um caleidoscópio de emoções, se é que tu, aí atrás desse babete bem babadinho, sabes o que quero dizer. Já vais ver que o Natal é bom e vou começar pelos cheiros e sabores.

Abre-me essas narinas, Carlos, e cheira: a casa rescende a açúcar, não é? Fritam-se sonhos, e vais ver que na boca são parecidos com os que à noite te fazem rir em pleno sono, derrete-se chocolate, faz-se a calda para as fatias douradas, a que também se chamam rabanadas. A casa tresanda a aromas densos e cálidos. Vais dizer-me que, assim, lábios, dentes e língua já estão cheios de ciúmes do nariz e narinas. Ai, é?! Então prova. Leva à boca os pastéis de bacalhau, os rissóis, os rabinhos de polvo frito, deixa deslizar na língua o leite creme ou o arroz-doce, uma finíssima fatia de perú trinchado, um camarão a nadar em maionese.

E os olhos, Carlos! Anda pela casa uma agitação descomandada, uma histeria feliz, amarrota-se e estica-se papel de embrulho, cortam-se fitas, corre-se para apanhar as bolas e as estrelas de decoração do pinheirinho do pai Natal, atira-se alguém em vôo para não deixar cair ao chão um ai-meninojesus, um são josé ou um burrinho. Este ano, és tu o meninojesus do nosso presépio, eu o teu burrinho, a avó faz de rainha maga. A Rita e o Paulo, tua mãe e teu pai, são a tua sagrada família.

Ah, e perguntas tu, entre gói-gói-góis, então o Natal é uma festa religiosa? E lá venho eu, com os meus 68 Natáis, dizer-te que só é se tu quiseres, porque sendo-o a nada te obriga, embora seja de uma velha religião que se vivia em catacumbas que esta festa vem. E é por causa dessas catacumbas que o caleidoscópio do Natal, esse que te fez abrir as narinas, regalar a tua boca e iluminar os teus olhos lindos, faz passar um vento maravilhoso pela tua alma ou espírito ou mente, como lhe queiras chamar: é o vento da humanidade, da tremenda gentileza e da inenarrável boa-vontade que, nestes dias, parece inspirar quase toda a gente.

A ti, nessa cara tão redonda e de sorriso esplêndido, toda a gente te quer encher de beijos. Mas não te admires que neste dia do teu primeiro Natal, os beijos venham mais lambuzados e os abraços te sufoquem, e as festinhas na cabeça te ponham ainda mais carequinha. É neste dia que nos inunda a todos, como se fosse uma daquelas ondas da Nazaré, um impulso para gostar de toda a gente. O amor, essa coisinha tão rara, que vem encastrada em tão poucas conchas, avassala cada um de nós: apetece-nos abraçar os intratáveis vizinhos do lado, o carteiro, a senhora da pastelaria. O Presidente da República já não é novidade, que toda a gente o abraça todos os dias.

Sim, o amor ao outro, seja quem for o outro, por mais estrangeiro, por mais humilde ou por mais soberbo que seja o outro, é a herança desse culto das catacumbas, chamado cristianismo, que há 68 anos me adoça o palato e de que eu gostava que tu fosses fiel guardião por mais 100 anos. Não sei se virás ou não a ser cristão, eu já o fui e deixei de o ser, mas não renego o melhor que nessa religião de catacumbas bebi, o amor aos outros, conhecidos ou desconhecidos, amigos íntimos ou mesmo inimigos a quem nunca quererás que aconteça o mal. Guarda e preserva essa pequenina jóia de humanidade.

Terás, agora, a ajudar-te a tua avó, linda, de amena vaidade por ser tão bonita, sempre inquieta e de, ainda hoje, juvenil insatisfação. E terás, a levarem-te ao colo, o teu pai e a tua mãe, o Paulo que é um génio de musicais semi silêncios, mergulhado nos mistérios da intangível informática, a tua mãe, minha tão querida Rita, valente, afirmativa, sentimental quando larga lágrimas como um comovido lençol. Bem os vi, nestes meses que já levas em gloriosa vida, amarem-te com o mais puro, o mais lindamente animal e desinteressado amor do mundo.

E eu sou o teu avô, remansadamente feliz de ter esta família, deliciado a ver-te, meninojesus de baby grow, no meu presépio. Que o amor deste primeiro Natal esteja sempre contigo.