A prodigiosa verdade da mentira

Don quijote
Desenho de Picasso

A vida não tem a mínima graça. Não me venham cantar a virtude da verdade; pelo amor da santa, não me façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias nos jornais e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue – pior, água chilra.

Quem paga bem é a mentirosa ficção; só a mentira tem imaginação para proclamar o sublime. Viajei por montes e planícies, fui aos bares mais escusos das mais escuras noites, e nada, nem um cavaleiro andante. Don Quixote e Sancho Pança sim, proclamam incansáveis, nas intermináveis páginas de um livro, em múltiplas e intraduzíveis línguas, a superioridade de um idealismo que resiste ao ridículo.

Quero lá saber da vida, os verdadeiros heróis são de papel. Ninguém, nenhuma polícia, nem mesmo o cortejo de um milhão de detectives de carne e osso, se aproximará, debilmente que seja, da rigorosa capacidade dedutiva do britânico Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot, de imprestável nacionalidade belga.

Dizem-me que há seres dúplices, camaleónicos, mas na vida topam-se à légua. Só uma imaginação poética e em transe mediúnico teria sido capaz de criar o corpo desdobrável e prodigioso que é, ao mesmo tempo, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Querem provas: leiam o livro, vejam os filmes.

E digo-vos: mesmo nos momentos mais trágicos, quando só a sobrevivência conta, a honesta e nostálgica ficção canta mais alto. Durante a II Grande Guerra, de um lado e do outro da trincheira, a mesma fabulosa mulher, Lili Marleen, assombrava os corações dos soldados alemães e dos soldados aliados. Era só um nome, duas palavras a fechar uma estrofe. Nunca ninguém a viu, essa rapariga que cantaria, imaginava-se, debaixo de um desmaiado candeeiro, mas todos, durante aquela guerra, a cantaram e perdidamente a amaram.

Não há um recanto da nossa vida, em que a ficção não se intrometa e, despudorada, triunfe. O enigmático Édipo, mete-se entre o filho que somos e os pais que temos. Lolita, a decotada ninfa, atormenta-nos a maturidade. Othello vem todas as noites instilar um obtuso ciúme na almofada em que afundamos as nossas insónias.

Donde vem este exército de fantasmas, esta legião de incorpóreas aventuras? Às vezes acredito que cada um de nós é como um rei de mil e uma noites a quem, de madrugada em madrugada, uma Scheherazade surpreende com lendas e histórias, com poemas e canções. Com tão boa ficção, que préstimo pode ter a vida?

Paul Emile Detouche Scheherazade
Paul Emile Destouches, Sheherezade

O meu passaporte

passaporte

 

Há anos que milhões de europeus podem viajar livremente de Portugal à Estónia, da Finlândia à Grécia. Schengen alastrou-se a um território de cerca de 4,4 milhões de quilómetros quadrados. Liberdade e expansão que, sem rebuço ou hesitação, saúdo.

Mas tenho no bolso, encostado ao coração, o meu passaporte e continuo a mentir-lhe, não me atrevendo a dar-lhe a notícia. Não é do pé para a mão que se liquida uma relação de décadas.

A primeira vez que pedi o passaporte, fui explicar, em Luanda, a um agente da PIDE as razões dessa minha vontade desvairada. Devo tê-lo comovido com tanta ânsia de cosmopolitismo.

A primeira vez que me carimbaram o passaporte, na única vez que, adulto, chorei ao ver uma cidade, foi em Paris, ao pôr um descuidado pezinho em França.

A primeira vez que passei a cortina de ferro e o meu passaporte teve, ali, debaixo das minhas constrangidas barbas, um despudorado affaire, dançando a valsa nas mãos do sinistro agente de uma já anémica ditadura do proletariado, foi em Budapeste, a meia dúzia de passos do Danúbio.

Olho agora com alguma tristeza para este meu velho e cansado companheiro. Vou mentir-lhe quando amanhã for a Roma, ou a seguir a Copenhaga. Jamais lhe direi que é agora expendable, à pala de um acordo feito numa parola aldeia luxemburguesa. Nem sequer o posso consolar contando-lhe as vezes em que tive gélidos arrepios só de pensar, ao dar de caras com palavrões como Alfândega, Aduana, Customs, não o ter ali, colado ao meu peito.

Mas tenho de ganhar coragem, convidá-lo para um copo, fazer com ele o luto das falecidas fronteiras, carimbos, vistos, e sobretudo, quando ele me perguntar “What about us?” recordar-lhe que apesar de tudo, “Old buddy, we’ll always have America”.

Este não é o calcanhar de Aquiles

vitoriatoque

Com a devida vénia à amada e venerada BTV,  roubei a imagem que nos deixa ver um centésimo do que, de facto, se passou no Estádio da Luz, no clássico Benfica versus FCP. Houve uma disputa e um corte que fez sair a bola, em balão, pela linha lateral. Rui Vitória, esse treinador tão contestado como Aquiles o foi nas duras batalhas de Tróia, viu o esférico vir pelo ar, deu um passo atrás e rodou, como o compacto e bailarino Gene Kelly rodaria, e tocou a redondinha, devolvendo-a ao relvado, com uma chulipa, um golpe de calcanhar como eu só vi no campo pelado de São Paulo, em Luanda, lá bem perto da igreja capuchinha de São Domingos, ou nos campos traseiros do Liceu Salvador Correia, em jogos nos quais o resultado era sumptuário e o que verdadeiramente movia corações e mentes era o perfume tropical do gesto hábil e da finta circense dos meus irmãos caluandas. Uatobo, uatobuéee, meu irmão.

E perdoem-me se, falando de futebol, falando do jogo, o comparei à guerra de Tróia. Fui criado na ideia de que este é o jogo por excelência, combinação de ética e de estética. Nada o aproxima da guerra, e muito menos da cruel guerra de Tróia, como aliás bem se viu: o admirável calcanhar de Rui Vitória não tem a debilidade do calcanhar de Aquiles.

Uma foto para a eternidade

capa-avion-barcelona
A foto de Capa

“Não havia escola, nem cinema, nem teatro”. Xavier Camps e os amigos, protegidos pela impunidade dos 15 anos, acorreram aos Jardinets de Gràcia, em Barcelona, para ver o avião alemão que, abatido, se oferecia como espectáculo de bairro. Corria o ano de 1939 e a Guerra Civil, de Franco e republicanos, voara já, e em piloto automático, para o fim mítico e shakespeareno. Xavier e os amigos buscavam aventura e a palpável proximidade com as “metralhadoras, balas e bombas” que na sua imaginação enchiam a carlinga do alado monstro germânico.

Coincidiram, nesse dia, nessa hora, com a câmara do fotógrafo Robert Capa que sobre eles disparou com suavidade e discrição, ferindo-os para a eternidade. As fotos de Capa estiveram perdidas 69 dúbios anos. Guardou-as com nobre reserva o general mexicano Francisco Javier Aguilar González. Descobertas há dez anos e apresentadas pelo “NY Times” e pelo “El Periódico de Catalunya”, as imagens de Capa reencontraram-se com os fantasmáticos protagonistas que, em 39, correram pressurosos aos Jardinets de Gràcia e aos despojos que fulminados caíram do céu.

Xavier recordou, 69 anos depois, o orgulho e ousadia que, nesse dia, o fizeram avançar para uma posteridade que a estatura tímida e a deselegância de umas calças largas e de mau tecido não podiam adivinhar.

Poderia acontecer a qualquer um de nós? Poderia ter-me acontecido? Que Capa (e se fosse o local, competente e velho Quitos fotógrafo já iríamos muito bem servidos) terá fotografado o dia em que, sôfrego, vim a correr, com o RA, ao Terreiro do Pó, no Lobito, para assistir ao ataque (a metralha e granada) à delegação da Unita, por uma unidade mínima do MPLA, num só jipinho Suzuki amarelo (só quem viu sabe do que falo), comandada pelo camarada JM, que acabou atingido com um tiro na cabeça que o imobilizou por três meses? Alguém – que outro Capa? – terá em Luanda, e em 1975, fotografado a conveniente explosão do jornal “Provincia de Angola”, a que o JS e eu fomos os primeiros a chegar, já passava do recolher obrigatório, e que serviria depois, mutatis mutandis, como acusatório “incêndio do Reichstag” contra a FNLA?

Nunca ninguém nos avisa de que nem todas as livres escolhas de juventude garantem a música da eternidade.

CAPA FOTOGRAFÍAS
O menino da foto refotografado

Faulkner, o elitismo, José Mourinho e uma coda neo-realista

faulknerpic
Faulkner depois do pedido de demissão

A história está muito bem contada aqui, num das mercearias literárias onde me vou regularmente abastecer em busca de fruta fresca e boa. Mas como não quero que falte nada aos frequentadores desta Página Negra, resumo, fazendo breve uma história longa.

Eu disse fruta fresca ali atrás, mas a verdade é que esta sumarenta peça foi colhida em 1921. William Faulkner, que era então um passarão de 24 anónimos e ignorados anos, abandonou a Universidade lá no Mississipi e foi à aventura trabalhar numa livraria, que não dava para os trocos. Mas o mentor dele conseguiu-lhe emprego como chefe de uma pequena estação de correios, na mesma universidade que Faulkner abandonara.

Não há memória na História dos Correios, em qualquer século ou lugar, do Paleolítico ao aquecimento por efeito dos gases de estufa, de um carteiro tão atrabiliário, incompetente e ressentido. Faulkner era o único funcionário e abandonava o balcão para ir escrever nas traseiras, armava jogos de cartas com os kambas lá da banda dele, abria e fechava a estação às horas que lhe dava na realíssima e faulkneriana gana.

Levantou-se contra ele uma surda onda de hostilidade, artigos nos jornais de estudantes, enfim, o tipo de protestos em que os cidadãos de Manchester se têm inspirado para azucrinar a cabeça de José Mourinho.

José Faulkner, perdão, William Faulkner não era do género de vergar a mola ao primeiro pé-de-vento. Não só continuou a infringir todas as regras, como se locupletou em transgressões que já implicam uma certa vizinhança babosa com a luxúria.

Vejamos e tomemos nota, que pode um dia fazer-nos falta nalgum emprego mais aziago: Faulkner abria e lia as revistas que vinham para ingentes remetentes; certo correio, que lhe parecia trivial ou espúrio, atirava-o para o lixo ou para as profundezas do inferno; endereçava pedidos de envio para moradas erradas.

Na América, nesse tempo, e basta lembrar que ainda faltavam 97 anos para Trump ser aquilo que ninguém acredita que ele seja hoje, havia inspectores. E veio um inspector inspeccionar. No relatório do inspector está tudo o que eu acabo de relatar, mas em linguagem de gente e por boa ordem. Faulkner foi acusado de negligência, de permitir a presença de pessoas não-autorizadas no escritório e de com elas jogar golfe lá dentro, não atendendo quem estava ao guichet a tentar comprar um proletário selo de dois cêntimos.

O inspector, naquela irrepreensível linha protestante de raiz weberiana, ou vice-versa, tanto faz, quis dar uma oportunidade penitente ao jovem carteiro. Ele podia escrever um relatório refutando todas as acusações ou, pelo menos, uma parte e isso talvez lhe permitisse conservar o lugar e o valente salário.

Faulkner agarrou a oportunidade com umas mãos que tomara o nosso Vlachodimos Odisseas. Leia-se: «Enquanto eu viver no seio do sistema capitalista, é minha expectativa que a minha vida seja influenciada pelas exigências das pessoas cheias de dinheiro. Mas raios me partam se eu me sujeitar sentado, calado e virado para a frente, a todo o canalha itinerante que tem dois cêntimos para investir no selo para uma carta.

Aqui tem, Sir, a minha demissão.»

E depois venham dizer que o modernismo literário não é de um insufragado elitismo capaz de, com razão, enxofrar a mona a qualquer coreáceo neo-realista.

Post office
Uma estação dos correios: estará Faulkner lá dentro?

Maio de 68, o incrédulo estupor de um homem

jouissez_sans_entraves
Maio de 68, Cartier-Bresson: Jouissez Sans Entraves

A foto é de Cartier-Bresson. Maio de 68.

Um velho olha, perplexo, para um slogan utópico e inalcançável. Há quem diga que é um velho de direita, escandalizado. No taipal, uma mão escreveu a frase sem freio: «Gozai sem entraves.» Talvez seja um pouco mais do que escândalo, o que vem à mente do homem e se instala debaixo do seu chapéu. O incrédulo estupor deste homem é o mesmo que Philip Larkin, um poeta nos antípodas do Maio de 68, cantou sofregamente em “High Windows”:

When I see a couple of kids
And guess he’s fucking her and she’s
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives–
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That’ll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

Ou no meu rançoso português:

Quando vejo um casal de miúdos
E percebo que ele a anda a foder e ela
A tomar a pílula ou a usar diafragma,
Sei que é esse o paraíso

Com que todos os velhos a vida inteira sonharam –
Sentimentos e gestos arrancados para um lado
Como numa velha debulhadora
E toda a juventude deslizando para o lado

Da felicidade, sem fim. Pergunto-me se
Alguém olhou para mim, quarenta anos atrás,
E pensou, Isto é que é a vida;
Nem Deus, nem nada de suores no escuro

Por causa do inferno, ou ter de esconder
O que se pensa do padre. Ele
E todo o seu desejo vão por aí abaixo, deslizando
Livres como aves rebeldes. E imediatamente

Mais do que palavras surge a ideia de altíssimas janelas:
Vidros feitos de sol,
E mais além, o fundo ar azul, que nada
Revela, inefável, e sem fim.

Consola-me pensar que também o burguês da foto de Bresson rejeita por instantes a morte, imaginando “o fundo ar azul, que nada revela, inefável, e sem fim”.

Deixem-me ler-vos a sina

Temos um futuro inteiro à nossa frente. É da sua natureza ser desconhecido. Porém, queremos saber. Queremos adivinhá-lo, antecipá-lo, controlá-lo. É um momento patético e inocente, mas a verdade é que ninguém resiste a tentar adivinhar o futuro e sobretudo um futuro menos punitivo.

La tour

No tarot, nos búzios, no mais simples horóscopo. Somos como o cavaleiro que Georges de La Tour pintou nesta cena diurna e realista, nos antípodas da mínima luz das velas com que, noutros quadros, iluminou as mais negras noites.

Também nós, como o jovem nobre desta pintura de La Tour, nos entregamos, confiantes, à “diseuse de la bonne aventure”. Tudo, no quadro, parece tão claro. E nada poderia ser mais obscuro. Basta passar do geral ao particular.

Há olhos que vigiam.

La diseuse

Há mãos engenhosas que trabalham.

les mains

Há mãos que desenham a subtil arte de furtar

Les_Mains

Falso ou verdadeiro, discussão que entretém os especialistas, poderá um quadro de 1632 continuar a ser a parábola feroz de um futuro que, de tão vigiado, a nós mesmo roubamos?