Do Not Go Gentle Into That Good Night

dylan
Dylan e Caitlin, sua mulher

A certas horas da noite a morte seduz e assusta-nos. Mas há convites a que não se pode ceder sem uma boa luta. Mesmo que o sonoro convite seja dito em “g” de gentle, consoante que o meu Aurélio diz ser fricativa palatoalveolar quando precede a vogal “e”, como é o caso neste poema de Dylan Thomas.

Gosto do ritmo, das rimas e do trovão de érres que se repete em  “Rage, rage against the dying of the light”.

Entre a doçura e a fúria, Thomas terá escrito este poema, inundado de vogais abertas, quando o pai adoeceu gravemente. Só o publicou depois dele ter morrido.

Vale a pena ouvi-lo na pessoalíssima voz (tão teatral) do poeta galês.

 

 

Homem na Lua

Neil-Armstrong

 

Eu devia ter publicado este post no dia em que se comemoraram os 50 anos da ida do homem à Lua. Mas a história tem um final meio amargo e não quis estragar o enlevo a ninguém. Vai agora, que os festejos já passaram.

Quando Neil Armstrong pisou pela primeira vez a lua, além da famosa frase “one small step for a man, one giant leap for mankind”, o astronauta acrescentou, quase em surdina, como se falasse só para o vizinho do lado: “Good luck, Mr. Gorsky!

E estava mesmo a falar com o vizinho. Quando era miúdo, Neil ouvira Mr. Gorsky implorar à senhora Gorsky um estranho favor que a senhora rejeitou, sem apelo, com um “sexo oral? queres? só quando o miúdo aqui do lado for à lua”.

Seria glorioso, se a história tivesse acabado aqui. Mas era boa de mais para ser verdadeira. Vivi anos na crença sólida de que a história era verdadeira e que Armstrong a contara num encontro com jornalistas em Tampa Bay. Mas descobre, depois, que tudo fora magnificamente forjado, com pormenores de conferência de imprensa, datas, nomes de vizinhos e afins, por “net con-artists”, ou seja, e em razoável português, por “manipuladores da rede”. Odiei saber a verdade. Já não volto, nunca mais, a olhar para a lua com a mesma sonhadora ternura.

 

A mulher casada

Nicolas-Stael
Nicolas um ano antes do fim

Matou-se. Lançou-se de um terraço, em Antibes. Era órfão, exilado e príncipe russo. Pintor sobretudo. Do terraço fatal via-se o mar, essa oscilante antecipação da eternidade.

O suicida, Nicolas de Staël, tinha só 41 anos. Há dois anos que os americanos tinham desatado a comprar-lhe telas: a fanfarra da glória começava a tocar a seus pés, logo a ele que, entre guerras e em Paris, chupara a miséria e mastigara a fome.

Em 1953, ano em que nasci, ainda eu não sabia o que era uma mulher e muito menos uma mulher casada, Nicolas apaixonou-se pela casadíssima Jeanne Mathieu. Era morena, uma luz boa para cegar poetas e pintores, a mesma luz que fizera Staël viver um ano em Marrocos e descobrir as cores, ponta de lança da sua pintura.

Nicolas não lhe tocara com um dedo e já o invadia uma reaccionaríssima paixão: possessiva, ubíqua, omnipresente. Tal como eu vi o fulgor tropical da transcendência nas praias e mangais do km 36, entre Luanda e a Barra do Kwanza, a imagem de Jeanne foi a limalha incandescente no olho e coração de Nicolas. Queria-a, verbo que passou a conjugar com veemência sussurrante.

Mandado e recomendado pelo amicíssimo poeta René Char, seu gémeo em altura, Staël viera com mulher e filhos, passar férias à quinta onde os Mathieu criavam bichos-da-seda. Os Mathieu, pais de Jeanne, eram família patrícia, com gosto pela cultura. Recebiam Char e Albert Camus, melhor amigo de Urbain Polge, marido de Jeanne. O molho vinagrete de Jeanne salvou Camus do tédio de Sartre e salvou meia literatura.

No fim da estada, Staël alugou uma camioneta e viajou a Itália com mulher e filhos, convidando Jeanne a vir com eles. Ela, com a liberdade patrícia de 1953, aceitou. Viagem de tormento familiar, de amor reprimido, garrote apertado no desejo. Regressam e ele despacha a família para Paris. Quer ficar sozinho para pintar, diz. Quer ficar e fica sozinho com Jeanne. Libertou-se o desejo em todas as assoalhadas, sala, cadeirões, varanda, quarto, talvez cama. Não invento: basta ver como Nicolas desatou a pintar nus. Nu de Pé, Nu Deitado, Nu Deitado Azul, Nu Jeanne, e esse Nu Deitado (Nu) que, em 2011, se leiloou por mais de sete milhões de euros.

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fabulosas cores de Nu Deitado (Nu)

Mas Nicolas, príncipe russo, alma dostoievekiana, abomina o pecado. Quer e quer e quer casar com Jeanne. Ela assusta-se e foge para o marido gentil e camusiano. Arde nos pulmões e no estômago de Nicolas um fogo do inferno. Não pode já viver sem a amada. A rejeição do casamento é um punhal que, virasse-se ele de costas, lhe veríamos cravado entre os ombros.

Despreza a glória e os cifrões americanos. Pinta, obsessivo, 254 telas e 300 desenhos. Vive a cada semana uma revolução estética, que deixa os compradores mais estupefactos do que Moisés ao ver a sarça-ardente.

Nicolas não compreende e ainda menos aceita que Jeanne fuja do desejo e do seu amor sinfónico. Está só, abandonou a família e abandonou-o o amigo, um reprovador René Char. Com quem pode Staël falar que o compreenda? Talvez Deus! Queima, então, toda a papelada, menos as cartas que recebeu de Jeanne. Vai entregar-lhas. Jeanne, vestida de medo, manda o marido à porta recebê-las. Nicolas entrega-lhas e diz: “Ganhaste!”

Volta ao apartamento de Antibes e pinta, três dias e três noites, uma tela gigantesca, de 6×3 metros, o Grande Concerto, imponente piano negro à esquerda, contrabaixo dourado à direita, fundo vermelho. O dostoievskiano Nicolas escrevera numa carta: “Preciso desta mulher para me atirar ao abismo!” Acabado o Grande Concerto, subiu ao terraço e mergulhou.

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fulgurante Grande Concerto

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Pala ku nu abesa ô muxima

Hoje, se fosse vivo, o Artur faria 97 anos. Talvez por agora o Carlos Lamartine andar pelos 73, a idade em que o Artur me deixou, lembrei-me de o ouvir. Ouço-o a cantar a mais lírica das suas canções, Pala ka nu abesa ô Muxima, lembrando o dia em que, vindo da recruta na EAMA, encontrei a casa do Bairro Popular vazia. Fui ao musseque em frente e, numa boda, a Alice e o Artur dançavam. Que música? O Jesus Dialla ua Kidi, dos Águias Reais ou este som do kota Lamartine? A Alice e o Artur tinham essa particular característica de serem minha mãe e meu pai.

Ciência ou indignação

Bica Curta servida no CM, na 5.ª, dia 8 de Agosto

nuclear

A aflição de novos e velhos com o clima é legítima e nobre. Mas ao vermos uma menina, Greta Thunberg, empurrada para o papel dos três pastorinhos, é legítimo e nobre afligirmo-nos com o halo mágico e salvífico que a santifica. Ora, só a ciência oferece armas de combate à catástrofe. Duas armas: primeiro, a energia nuclear, limpa e segura, que a França, Canadá e Suécia usam; segundo, a captura e armazenagem de carbono, sepultando-o em formações geológicas subterrâneas.

Essa tecnologia limpa em profundidade os mais sujos emissores de carbono e há centenas de unidades já na Ásia. A ciência é melhor bica curta do que a indignação.