Mão na urna, cabeça em Hong Kong

Lusa
Foto da agência Lusa, reproduzida com a devida vénia.

Iam as minhas pernas a caminho da assembleia de voto e dou conta de que me andava a cabeça por Hong Kong. O que alguns milhões de chineses não gostariam de trocar os passos dominicais deles pelos meus. Eram 13 horas e Lisboa era uma janela aberta a uma luz fina, nítida, sem a sombra de Outono, que há de cair só quando o Sol se puser. As ruas do meu bairro cheias de plácidos transeuntes, tímidos aromas de almoço, o que me faz imaginar que ou se almoça fora ou as famílias se encostam a frescas saladas.

E já era a minha vez de votar. Lembrando-me de que só votei, em liberdade, pela primeira vez aos 24 anos, mas com a confiança de quem sabe que os portugueses votarão em quem muito bem querem e que este nosso pequeno mundo de equilíbrio e democracia não será abalado, vi a minha mão, sem hesitações ou tremura, enfiar o voto na ranhura. O que nós andámos para aqui chegar.

Karina

 

Karina De vez em quando uma mulher é uma bandeira. Ou, mesmo sem o saber, é um quadro de Renoir. Ou é mais bela do que um verso de Ronsard.

Anna Karina, que nasceu fez há dias 79 anos (79, meu Deus), foi filmada contra brancos saturados, contra paredes rugosas, no contra-luz de uma janela. De Petit Soldat a Made in USA,  em Une Femme Est Une Femme, em Pierrot le Fou. Nesses filmes, a preto e branco, em technicolor, foi a forma da nouvelle vague. Posou. Parece que se submete ao enquadramento. O resultado é Mondrian inundado de emoção.

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também se amaram

Véspera de eleições com Álvaro de Campos, engenheiro naval e poeta futurista

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Página Negra — O sen­hor engen­heiro Álvaro de Campos importa-se, sendo amanhã dia de eleições, de nos dizer como é que na Inglaterra onde vive?
Álvaro de Cam­pos – Ainda há muita gente em Inglaterra que tem no íntimo da alma a con­vicção de que uma eleição geral é uma coisa no género e da cat­e­go­ria de uma lei da natureza, e de que a “von­tade do povo” é frase que com­porta qual­quer espé­cie de sen­tido.
PN — Tem noção de que na boca de um engen­heiro essas declar­ações vão provo­car escân­dalo?
AC – O que há de mais estranho nos indi­ví­duos políti­cos é o pouco que con­seguem apren­der com a exper­iên­cia fla­grante. Metem-se-lhes na cabeça cer­tas ideias, e atrav­es­sam a vida com essas ideias, emb­ora a exper­iên­cia quo­tid­i­ana­mente as desminta.
PN – Mas a maio­ria…
AC – A maio­ria é essen­cial­mente espec­ta­dora. As próprias eleições, dada a com­plex­i­dade e o custo do maquin­ismo eleitoral, nunca podem ser ven­ci­das senão por par­tidos eleitoral­mente orga­ni­za­dos. O eleitor não escolhe o que quer; escolhe entre isto e aquilo que lhe dão, o que é difer­ente. Tudo é oligárquico na vida das sociedades. A democ­ra­cia é o mais estúpido de todos os mitos, porque nem sequer tem carác­ter mís­tico.
PN – O sen­hor engen­heiro não me vai dizer que Por­tu­gal…
AC – Por­tu­gal é uma plu­toc­ra­cia finan­ceira de espé­cie asin­ina… uma oli­gar­quia de sim­u­ladores provin­cianos, pouco indus­tri­a­dos na própria his­te­ria postiça.
PN – Des­culpe sen­hor engen­heiro, mas não se pode falar con­sigo. Digo-lhe já, há decerto out­ros engen­heiros, futur­is­tas ou não, que não pen­sam como o sen­hor.
AC – “Quem não intruja não come”; é esta a forma soci­ológ­ica dum provér­bio que o povo não sabe dizer, porque o povo nunca sabe dizer nada… As farsas não me divertem.
PN – **!!##??? Ora batatas, engenheiro Álvaro de Campos.

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Larvas sociais

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Barnes e Fidéle

Nasceu no bairro de má fama de Filadélfia de onde vem o Rocky dos filmes. Tinha também punhos de pugilista, que usava sem cerimónia. Distingue-o, e talvez já seja eu a fazer-me interessante, a blenorragia ter sido o eixo da sua vida. Ia falar do cão francês, mas adiante.

Albert Barnes nasceu paupérrimo. Órfão de pai, a mãe levava-o às vibrantes igrejas revivalistas negras, abrindo-lhe uma auto-estrada de sensibilidade para o gospel e para a emoção pela qual se ascende à delícia das artes.

Quando chegou o século XX, Barnes tinha o curso de medicina feito, mas aplicou o saber na indústria farmacêutica. Criou uma pomada, o Argyrol, que prevenia a então frequente cegueira de recém-nascidos, filhos de pais com blenorragia, doença tão popular quanto popularmente festiva era a fominha de sexo.

Indo directo ao que dói: Barnes fez a fortuna de cem Berardos. Um dos seus amigos era pintor. Barnes pôs-lhe na mão 20 mil dólares e mandou-o a Paris. Voltou com uma centena de telas, pintura de Renoir, Manet ou Cézanne. Barnes viajou a seguir e trouxe mais Renoirs, Picassos a 300 dólares, Modiglianis, Van Goghs e Matisses. Não quero ser cruel com De Gaulle, Miterrand e Macron, muito menos Malraux, mas o Louvre tem menos Renoirs, menos impressionistas, menos Picassos, do que Barnes na sua colecção.

Os grão-finos de Filadélfia, banqueiros, doutorados, críticos e plumitivos como eu, reagiram com horror ululante à primeira exposição de Barnes. As suas cabeças de cifrões e preconceitos desmaiavam nos nus e insultavam as paisagens.

O filho de boa mãe que havia em Barnes ofendeu-se. Fechou a colecção e só admitia visitas após pedido escrito. Respondia às cartas o seu secretário, Fidéle, cão que encontrou em França, a catar-se de pulgas. Dera-lhe comida à boca, trazendo-o de avião, em primeira classe, para a América.

Papel de carta timbrado, encimadas pela imagem de Fidéle e assinadas pela sua indelével pata, receberam respostas, em geral tortas, os grandes deste mundo. A mais curta foi a que recebeu o poeta T. S. Eliot. Uma só palavra, “nuts”, o que em português de tasca equivale a um “não tás bom da pinha”. Curtíssimo, mas em francês pós-Victor Hugo, foi o “merde” com que o cão Fidéle despachou o pedido de Le Corbusier.

carta de Fidele

 Não se pense que Barnes era misantropo: o cineasta Jean Renoir, o actor Charles Laughton, Einstein, Thomas Mann eram visitas regulares, Matisse veio pintar frescos de encomenda, e o filósofo Bertrand Russell dava aulas aos trabalhadores, muitos negros, de Barnes. Eram tanto os negros que os ricalhaços cabeças pó-de-arroz locais fizeram um abaixo-assinado a que Barnes limpou para a posteridade o seu posterior.

Eu disse “pó-de-arroz”, mas Barnes chamava-lhes “larvas sociais”. Ao dono dos automóveis Chrysler, que quis visitar a colecção, o cão Fidéle mandou dizer que o seu dono e mestre não o podia receber, de entretido que estava a engolir peixinhos dourados para bater o record mundial. À matriarca de uma família de banqueiros, armadores e fundadores de caminhos de ferro, Fidéle escreveu que o seu senhor e dono fora tratado num hospital dessa família, apanhando, em relação íntima com uma enfermeira, uma senhora blenorragia. “Essa lembrança não se desvaneceu, pelo que se vê na obrigação de vos recusar a entrada na Fundação.”

Barnes e Fidéle morreram juntos. Barnes ao volante, o carro onde iam foi colhido por um camião de dez toneladas. Hoje, a colecção Barnes está aberta ao mundo: o mais belo Matisse, o mais belo Renoir, talvez o mais belo Picasso.

Matisse
O mais belo Matisse: le Bonheur de Vivre

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

 

 

 

A conversão de Girolamo

Girolamo

Chegara no dia anterior. Na segunda noite, Girolamo foi à Igreja. Era conhecido o seu gosto pelo debate e recomendaram-lhe o sermão de um frade agostinho. Sentou-se. O frade aproximou-se do púlpito. A voz veio sobre ele como um sinal de fogo. Sacudido pela pedra do pecado e pelo punhal da vingança, Girolamo tombou morto aos próprios pés.

O frade em chamas incendiou o pecado, o adultério, a prostituição, a doutrina de Balaão, a imoderação gulosa das carnes ímpias sacrificadas aos ídolos. O cadáver de Girolamo girou duas vezes sobre si mesmo e pôs-se de pé.

Converte-te, pois! Do contrário, virei logo contra ti, para combatê-los com a espada da minha boca* gritava o frade alado, voando negro e rente à cúpula da catedral. Da sua terrível boca de anjo saíam visões proféticas: relâmpagos e trovões reduziam a cinzas a imoralidade do clero, uma tempestade de granizo tombou sobre os blasfemos, os ventos da ira gelaram os pagãos e o vício. Girolamo viu entao a Besta que subia do mar e viu que era esse o seu novo corpo: dez chifres e sete cabeças, a Besta com mandíbulas de Leão.

Viera a Faenza para uma curta viagem. Saíra de Ferrara, homem jovem de 22 anos, com doçuras de filósofo, mãos com dons de médico, no riso e na personalidade a bênção de tantos talentos. Era Girolamo, filho de família. De quem a vida e os prazeres dela gostavam.

A voz do frade — se alguém tem ouvidos, ouça – calou-se. Girolamo, imolado à perigosa perseverança e fé dos santos, levantou-se. Escorria-lhe no corpo o suor acre da salvação. Entrou na noite de breu, pronto para lançar o grande lagar do furor de Deus sobre a cidade, o mundo, os livros, as mulheres e os homens.

Em Faenza, depois da prédica de um frade agostinho, morrera Girolamo, nascia Savonarola.

Um inexplicável minuto de vento polar cruzou o luxo da voluptuosa e distante Florença.

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*Do “Apocalipse” donde, aliás, são pilhadas as imagens que povoam o texto.

As piedosas intenções

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Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 26 de Setembro

Antes de abrir a mão para pegar na bica curta, quanto punhinho no ar maoista não ergui ao céu? E quantas palavras de ordem não gritei, a começar pelo meu favorito, “o colonialismo caiu na lama”! Tudo o que me motivava, a pura ideia de justiça, a generosa felicidade derramada sobre os mais carentes, era bonito e ético. O pior é que nenhuma das soluções que propunha era boa. A minha motivação estava do lado do bem, as minhas soluções estavam do lado do erro, e aí começa o mal.

Olho para o vendaval sentimental dos meninos e meninas ecológicos e regressa o velho espelho: tão puros ideais, tão duvidosa ciência, tão ruinosas soluções.

Lista de maridos: Ava Gardner

Já andava com vontade de uma lista parva. Esta é de maridos. 

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Frank e Ava, Ava e Frank

Impressiona tanto a brevidade da lista, como a escassa duração da soma dos anos de casamento.

Ava Gardner, linda como era, nasceu e foi criada na arcana platitude do algodão. Nasceu numa quinta, no cruzamento de duas estradas, na noite de Natal. Uma estrela, portanto, mas descalça e de língua afiada: não tinha problemas com palavras, umas vezes mais redondas, outras mais compridas, como fuck, dick ou cunt. Disse, o que não me desmente: “When I lose my temper, honey, you can’t find it any place.”

Casou, a primeira vez, aos 19 anos, com Mickey Rooney. Casaram de 10 de Janeiro de 42 a 21 de Maio de 43. Não durou um ano e meio. Quando se casou com ele, era virgem e só tinha lido dois livros: um, a Bíblia, o outro, o Gone With the Wind. Imaturos os dois – Rooney tinha 21 – há quem diga que foi essa “falta de leituras” que matou o casamento. Ou talvez não. Ava confessa ter-lhe ficado a dever uma coisa: foi com ele que descobriu que gostava de sexo. E quanto.

Da segunda vez casou com o, se não me engano, clarinetista e big band leader, Artie Shaw. Uma coisa com sabor a sentença judicial: um ano e pouco mais de um dia, de 17 de Outubro de 45 a 25 de Outubro de 46. A que se deve acrescentar, ainda a título penal, dois anos de analista pagos pelo famoso músico. Shaw era um male chauvinist, segundo ela, que a intelectualizou q.b., proibindo-lhe os bestsellers e os discos de Sinatra. Ironia do destino, Shaw, depois do divórcio, casou-se com a autora do Forever Amber, romance que lhe tirara à bruta das mãos, e Ava com quem já se vai saber.

Casamentos curtos e sucessivos, menos por inconstância da apaixonada Ava do que pela cabeça no ar dos maridos que a estatística atesta. Rooney e Shaw fartaram-se de casar e descasar: juntos, somam 16 mais ou menos felizes enlaces.

Sinatra foi o terceiro marido de Ava e – desta sim – só pode ter sido por amor. O rouxinol de blue eyes estava então nas lonas, no ponto mais baixo da carreira. Puxava pelos bolsos das calças e nem um chavo lhe saía para comprar brinquedos aos filhos de casamento anterior. Ainda menos para pagar o bilhete de avião para África, onde Ava iria filmar Mogambo com John Ford. Ava pagou-lhe com gosto as contas, depois de terem casado a 7 de Novembro de 51. Quando se divorciaram, a 5 de Julho de 57, já Sinatra voltara aos sucessos e à fortuna dourada. Foram quase 6 anos. Devem ter-se gostado muito, o que mais se pode ver em pequeninas coisas: Frank só lhe chamava o que todos gostaríamos de lhe sussurrar, angel; Sinatra, durante o namoro, deu-lhe um cão, um Corgi galês, e Ava teve sempre com ela para o resto da vida um Corgi galês; ao fim de um ano e meio de intimidades começaram a separar-se e a reconciliar-se – ou, como explicou Ava: “Casei-me 3 vezes e divorciei-me 5” (o que é mesmo verdade porque, tanta era a pressa que de Shaw se divorciou primeiro no México e depois nos EUA; e de Sinatra no Nevada, depois na Califórnia).

Depois de Sinatra, nunca mais. 33 anos sem casamento. Nesses anos, mas já nos anteriores de casamentos ou entre eles, preencheu a sua solidão dormindo com tipos cheios de dinheiro, toureiros e desconhecidos que encontrasse num bom bar, ou seja pretty much everyone else, mas nunca com Marlon Brando, como fez questão de lhe dizer ao telefone, quando leu uma entrevista dele que o insinuava: “Marlon, if you believe we’ve been lovers your brain had gone soft”. “Unfortunateley not only my brains, darling”, desculpou-se o actor. Ava perdoou-lhe, claro.

Lista de maridos de Ava Gardner

Mickey Rooney – 1 ano e 5 meses
Artie Shaw – 1 ano e alguns dias
Frank Sinatra – quase 6 anos

Detergente islâmico

 

Rachida

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 25 de Setembro

Rachida Hamdan toma a bica curta em Saint-Denis, em Paris. É islâmica e anda de cabelos ao vento, saia dois dedos acima do joelho. Os fundamentalistas gritam-lhe “demónio, demónio”, mas Rachida não abdica da igualdade e da sua associação de mulheres islâmicas. Bem precisa. Em dez anos, os islâmicos, em França, radicalizaram-se mais. Eram 60% os que achavam boa a proibição do véu integral em público, hoje só 31%. E há 37% que querem a lei da república francesa vergada à charia, a lei religiosa.

Rachida contesta: “É lavagem ao cérebro com detergente islâmico. Reclamar direitos com base na cor da pele ou da religião é puro racismo.”