Onça, leão e loba

Deixem-me, hoje, descambar na beleza. Não me tomem por pretensioso, mas autorizem-me, como se dizia na mestiça Luanda colonial, a ficar buelo, ou seja, espantado, admirado, em estado de pura ingenuidade, a ouvir a voz do actor italiano Vittorio Gassman. Ouçam-no comigo. Sentem-se aqui, ao meu lado, sossegados e rendidos. Ouçam-no ler, no original, o Canto Primeiro da Divina Comédia. Podem, antes ou depois, ler a magnífica, soberba tradução de Vasco Graça Moura, que a Bertrand Editores publicou.

Ouçam Gassman. A meio do caminho da vida, Dante, que é o poeta e o narrador, perdeu-se numa selva escura. Quer subir, talvez à procura da luz, mas cortam-lhe o caminho, três feras ameaçadores, a onça, o leão, a loba. Resgata-o uma figura ténue e antiquíssima, que descobriremos, com Dante, ser o romano Virgílio, autor da Eneida. Tranquiliza o trémulo e inquieto Dante, propondo-se guiá-lo numa viagem ao mais fundo poço do desespero e ao mais alto monte celestial onde flanam as benditas gentes.

A que ressoa a voz de Gassman? Sombras e frouxo lume tremulam nessa voz absolutamente cativa da “parola” de Dante. Ouçam-no e vejam-no circular neste cenário tão parecido ao redondel do hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, que João César Monteiro fez cenário de Recordações da Casa Amarela. Eis onde estamos, com Dante e com Vittorio Gassman: às portas da beleza e da loucura, do Inferno e do Paraíso.

Eduardo Lourenço

Eis o livro que deveríamos ler, hoje, na morte de Eduardo Lourenço: a sua entrega, cândida, sem rodeios, nesta livro-entrevista de vida, pensamento e obra.

Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção devia ser – e é – um auto-retrato de um dos nossos maiores pensadores. Numa longa entrevista, Eduardo Lourenço fala de si, da sua vida e obra.

Mas, de uma forma irresistível, ao falar de si a José Jorge Letria que o entrevista, Eduardo Lourenço prefere ou acaba por falar sempre de Portugal, esse país «ressonhado, reinventado, quase totalmente onírico».

Este é um livro essencial para se conhecer Eduardo Lourenço e a mundividência que, com a sua morte, nos abandona. Ninguém nos voltará a pensar assim, com a serenidade estóica de Lourenço, combinando literatura, filosofia, História, psicologia e sociologia. Desse tipo de saber, enciclopédico, desse saber em passeio pelas palavras, Eduardo Lourenço era o último depositário português. Ninguém nos voltará a dar um tão heterodoxo sentido de identidade, combinando cristianismo e marxismo, Shakespeare e Camões, Dante e Fernando Pessoa, saudades e mitologias.

Deixamos aos leitores da Guerra e Paz um excerto. Eis Eduardo Lourenço a falar de Portugal e do fim do Império:

Voltámos à Europa, de onde nunca deveríamos ter saído, mas à qual pertencemos mesmo antes de ter nascido.
Agora estamos envoltos num destino comum, protegidos e desprotegidos ao mesmo tempo. Eu sou muito europeísta, de maneira que ainda confio que o destino europeu nos proteja de uma subalternidade definitiva na História que nos ponha fora da História e que a Europa recupere um pouco o papel que foi o seu durante milénios e que Portugal continue a ser o país miticamente sonhado pelos nossos grandes autores, que é fundamentalmente e será sempre o país de Camões. Um país que, diante de dificuldades que naquela altura pareciam insuperáveis, passe a ser um país ressonhado, reinventado, quase totalmente onírico, aquele que António Vieira imaginou como uma espécie de miniatura, um Portugal império universal do Cristo e depois da Mensagem, que é outra coisa, que é o sonho mais próximo de nós, um país que é uma espécie de Menino Jesus das Nações, como diria Agostinho da Silva.
E esse pequeno país é maior do que ele próprio. Nessa dimensão, quase onírica dele mesmo, fomos um país da inquisição, é que reside a sua originalidade, a sua singularidade. Nós somos um país que empiricamente se espalhou, realmente, no mundo, mas o mais interessante é isso: permanecer. É um país que se dissolveu no mundo. Mas essa famosa dissolução, dita na Mensagem, de facto é a nossa dimensão messiânica, a nossa dimensão poética. Sem essa dimensão, nós ficamos muito mais pequenos do já somos.

Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção, retrato de Portugal, é um auto-retrato de Eduardo Lourenço, que se confia às perguntas de José Jorge Letria. Um livro da Guerra e Paz, que só a ajuda e dinâmica de serviço público da Sociedade Portuguesa de Autores tornou possível. A ler agora.

Claude Chabrol

Dos realizadores estrangeiros em visita à Cinemateca, nenhum foi mais extrovertido, empático, nonchalant e bon vivant do que Claude Chabrol, Fui eu o organizador do ciclo e do catálogo e tocou-me, por isso, ser o seu “guia. Mas o Luís de Pina (nas duas fotos) e o João Bénard (na de baixo) eram, é claro, os mestres sábios. Eu seguia-os. Depois desta sessão, fomos beber copos e comer bifes para o Bacchus (acho que se chamava assim), em frente ao Teatro da Trindade

Infelizmente não tenho fotos de outro francês, o Jacques Demy, que era também, no seu estilo mais suave, uma ternura e com quem partilhei aguardentes, quando ainda se podia beber do mesmo copo. Nem tenho fotos do georgiano Paradjanov, com quem jantei, com o Manuel Costa e Silva, director de fotografia e realizador, no velho Paris, na Baixa, o mais “anos 60” dos restaurantes da baixa pombalina, desaparecido há uns bons anos.

Mas ninguém sorria e ria, contente de estar a papar a vida ao segundo, como o feliz Chabrol!

Vamos bater em Dostoievski!

Agora que todos cortamos no açúcar e no sal, eis o que vos quero dizer: a surpresa é a pimenta da vida.

Ia começar por mim, mas logo me deparei com o escândalo de dois escritores. Dostoievski tinha a excitação do espancamento. Os seus romances são vastas e abismais paisagens de injúria e humilhação, em que os actos masoquistas se multiplicam como estrelas no céu. Surpresa: só nos “Irmãos Karamazov” há setenta e cinco cenas – e atrevam-se a desmentir-me, se puderem – em que personagens se aviltam, dobrando-se, ajoelhando-se ou beijando o chão face a outras personagens. Ou seja, sofrem fisicamente e gostam de sofrer, como Dostoievski gostava de ser punido: bastava-lhe até que a castigo físico fosse mimado para ele se excitar.

E falo agora da professora de Jean-Jacques Rousseau, que nunca leu esse Dostoievski ainda por nascer. Descobriu, surpresa e assustada, que o menino Jean-Jacques adorava que ela lhe batesse. Com palmatória? Nas mãos, no filosófico posterior? Ela descobriu, diz-se, tarde de mais: Rousseau ficou adicto, um espancófilo. É ele que há de escrever “Emílio ou a Educação” propondo uma nova pedagogia ao mundo. Nas “Confissões”, o apologista do remorso que é Rousseau, anuncia candidamente que só o espancamento lhe desperta a sexualidade.

E, antes de falar de Alexandre Dumas, cravo-me eu aqui, entre escritores. Peço desculpa, mas não me dobro, ajoelho ou beijo o chão: nem tenho nenhuma confissão a fazer. Lembro-me só de uma das mais misteriosas surpresas da minha vida. Vivia no Lobito, em 1975. Na guerra da independência de Angola, tomei partido e tive de recuar – Mark Twain, com o seu gosto pelo exagero, diria fugir – quando Unita e África de Sul atacaram a cidade. Voltei, meses depois. O meu velho dois cavalitos tinha sido queimado e, no apartamento, por onde passara o caos, sobrevivia, ileso, o meu exemplar do “Pequeno Livro Vermelho”, do abominável Mao Tsé-tung. Há a lenda de que a uma explosão nuclear só as baratas resistem: aquele livrinho era o indemne insecto no meio da sala apocalíptica.

Há quem saiba transformar em doce a amarga surpresa. Alexandre Dumas, o pai, nunca foi um exemplo de fidelidade. Casara-se com Ida Ferrier atraído por um dote que lhe pagou muitas dívidas: Ida foi o seu banco bom. Uma noite de tempestade fê-lo voltar a casa. Encontrou na cama de Ida outro homem, o seu melhor amigo Roger de Beauvoir, padrinho desse casamento. Ainda houve um segundo de paralelepipédica fúria córnea, e quem sabe se Alexandre Dumas não teve até vontade de bater em Dostoievski, mas ouvindo a gelada angústia do vento e da chuva lá fora, Alexandre Dumas deixou que tombasse a pax romana naquele quarto: “Ajeitem-se, por favor, e arranjem espaço para mim!”

E deixem-me contar uma história que, por bem trovata, merecia, não o sendo, que fosse verdadeira. É a história que se conta de todas as actrizes mais mediáticas ou pulposas do que propriamente talentosas. Acreditemos, então, que Pia Zadora representava o “Diário de Anne Frank” num palco nova-iorquino. A peça arrastava-se e a Zadora daria de Anne Frank uma imagem catequista e intragável. Espectadores engoliam punhos para afogar o tédio troiano. No palco, batem à porta, Zadora esconde-se. Logo, à procura da adolescente, entram os faunescos – perdão, ciclópicos – nazis. O mais ultrajado dos espectadores, sem tempo a perder e para evitar surpresas, grita do meio da sala: “Ela está escondida no sótão!”

A verdade não tem graça nenhuma: Pia Zadora nunca representou “O Diário de Anne Frank”. Tem mais graça bater em Dostoievski.

Wim Wenders

Todas as fotos têm uma história. Esta também. O João Lopes e eu éramos ao tempo programadores da Cinemateca e críticos de cinema no Expresso. Fomos entrevistar o Wim Wenders. O Paulo Branco, é claro, tinha-o trazido, e já não sei se foi antes ou depois, filmou com ele em Lisboa. Se bem me lembro almoçámos e conversámos no terraço do Hotel Tivoli e fomos depois andar pelos telhados de Lisboa, mais concretamente pelos do cinema Éden, nos Restauradores. Tinha acabado de ser fechado o cinema, mas ainda, no nosso idealismo, pensávamos que o poderíamos salvar. Nem as asas do desejo de Wenders fizeram o milagre. O Éden tombou e foi Virgin, primeiro, e hotel depois, sabe Deus para quê, que tudo durou bem menos do que as décadas de fitas, tiros e beijos do Éden.
O João e eu aprimorámo-nos com gravatinhas. O Wim Wenders parece saído do nova-iorquina Interview e o Paulo está com um dos mais selectos penteados que algum dia lhe vi, apenas uma traiçoeira fralda a assomar por baixo do pullover.

Cinemateca: três doces sobressaltos

A Cinemateca

No princípio não era só o Verbo. Era o Verbo e era a Lata em que se enrolava, como a coleante víbora do paraíso, o nitrato ou acetato do filme. Naquele tempo, em verdade, verdade vos digo, a Lata era o Pão de que se alimentavam as nossas descuidadas bocas. No princípio, nesse verdadeiro Génesis, que foi o nascimento da Cinemateca Portuguesa – rabinato e papado que me perdoem –, a Lata, a sagrada Lata fazia o papel do Pai Celestial que provê aos biquinhos das aves do céu e faz crescer os lírios do campo. A Lata era o Verbo, a sala de cinema o seu templo.

Lembro-me de ter ouvido, não sei se há dias, se há vinte anos, uma professora com um decote deleuziano a falar da sala de cinema, espaço e tempo e coisa e tal. O decote cerzia a sala toda em rizomas, suspensão e movimento. Deixo-me morrer devagarinho nesse decote desconstrutivista e, já de olhos fechados, recordo três doces sobressaltos épicos da minha pequena vida de programador de cinemateca.

Um espectro que assombra a humanidade

De repente, com a boca a saber-me a madalenas, lembro-me do Grande Auditório da Gulbenkian na noite em que, mil e duzentas pessoas a transbordar das cadeiras, balcão e plateia em overbooking, o João Bénard subiu ao palco para apresentar, em sessão dupla, o Nosferatu de Murnau e o Nosferatu de Herzog.

Era a Cinemateca transplantada para a Gulbenkian e parecia o costume, uma sala contente de o ver e ouvir, à espera de imagens e de movimento. Veio o escuro e veio a avassaladora mudez do filme de Murnau, num tempo em que as cinematecas ainda projectavam filmes mudos sem música. A surpresa do total silêncio para uma plateia sem hábitos desse cinema, sem o hábito dos gestos desmesurados de Max Schreck o mais nosferatu, o mais vampiro que um actor algum dia se deixou filmar, fez a sala tossir, pigarrear.

Normalmente, abafados pela banda sonora, no cinema não nos ouvimos. Ali, a sala ouvia-se: mexer o rabo na cadeira ouvia-se, engolir ouvia-se, bater as pestanas também. E a sala, nervosa de se ouvir, frente a um ecrã de sombras, medo e silêncio, começou a rir-se. Foram os primeiros vinte minutos de cinema mudo mais memoráveis, caóticos e irrespeitosos de que me lembro: até que o filme de Murnau, sinfonia silenciosa, raptou os risos, as gargantas e os catarros, os rabos inquietos e, dos anos 80 em que estavam, levou os espectadores para os anos 20.

Nada se compara à experiência que é o espectáculo de uma sala a render-se a um filme, uma sala a descobrir o sublime em gestos que, sem a confiança da entrega, seriam ridículos, mil e duzentas pessoas desconhecidas, odiosamente diferentes, com o sangue gelado pela nocturna silhueta de um vampiro que só pode ser vencido pela gloriosa luz da aurora. Uma sala e é a humanidade toda junta, irmanada, no canto escuro, esconjurando os mais assombrosos espectros.

Luís de Pina, fotógrafo, e eu, embevecido, a ouvir o Eng. Belmiro de Azevedo

Tinham mães que os amavam

 E saio da Gulbenkian. Chama-me à sala da Cinemateca, Luís de Pina, que por ser dela director era meu director também. Chego e vejo que a calva e resplandecente cabeça de Luis de Pina paira sobre um tormentoso mar punk. Já voltaremos à sua cabeça. Antes, deixo-vos com uma pérola de filosofia social: desiludam-se os proactivos, não cria comoções sociais quem quer e, às vezes, nem quem pode.

O João Bénard concebera um megalómano Ciclo do Cinema Musical. Sonhávamos com plateias a cantar e dançar o Singin’ in the Rain. Entre as obras-primas escolhidas para ovação e aclamação, o João deixou escorregar um filme mais recente, piscadela de olho a uma minoria juvenil, que se vestia de negro e primava pelo brilho metálico.

Era o The Great Rock and Roll Swindle e foi programado para a então única sala da Barata Salgueiro, de uns compostinhos 250 lugares. O que aconteceu foi tudo menos composto. O filme era o dos alucinantes Sex Pistols de que faziam parte o malcriadíssimo e mal-cheiroso Johnny Rotten e o negramente lendário Sid Vicious.

De repente, duas da tarde no arabizante palacete da Cinemateca, da rua emergem vagas também malcriadíssimas e mal-cheirosas. Onda a onda, iam-se acastelando miúdos e miúdas de furiosos cabelos espetados, farpas negras ou de cores néon, mil brincos a rasgar orelhas. Vestiam de negro, um negro que de luto nada tinha.

Comiam pastéis de bacalhau, arroz que a mãe de algum fizera (tinham mães que os amavam, claro), e bebiam litrosas de tinto. Punks. Estávamos, até à rua, inundados de punks. Já tínhamos visto meia-dúzia. Descobríamos que eram um exército e não cabiam no cinema.

A Cinemateca não tinha telhados de vidros, mas eram de vidro as portas da sala. A pressão das botas negras da infantaria punk fez-se sentir. O nosso porteiro teria pouco mais de metro e meio. A ele podia eu gabar-me, mas não muito, da minha altura; voluntariei-me para parlamentar à massa ululante. Observaram-me com curiosidade entomológica: um coro de arrotos e outros flatos fez-me recuar.

Com o seu amável corpanzil de Robert Mitchum, surgiu o Luis de Pina. Olhar e palavras doces, apelou à compreensão ciclónica dos punks portugueses. A um ligeiro movimento de alívio e aparente conciliação seguiram-se ultrajantes manifestações de alegria que compreendiam homéricas cuspidelas e – volto a ver aqui a calva cabeça – uma escura bota a cruzar os ares, visando o meu director. Não sei o que é que eles respiravam, mas os vidros ficaram aflitos e embaciados e o da bilheteira estalou com estrondo. A alegria punk é assim, física, corporal, sem dualismos cartesianos: o corpo é a alma. Chegou a polícia, o sossego do cassetete.

As primeiras imagens do filme mandaram a sala ao chão. O que lá dentro se berrou, lá dentro ficará para sempre, e o triunfo da escatologia que se seguiu teve de ser lavado durante uma semana. Sim, era o público entregar-se, espontâneo, a um filme! Não há doutor nem engenheiro social que invente uma comoção daquelas.

Depois do “Je Vous Salue”, fomos jantar. Mas este é outro jantar: que volta estarei eu a dar ao João Bénard?=

Ave-maria cheia de graça

E volto ao decote deleuziano. Sai dele, como a língua do Espírito Santo, Jean-Luc Godard, exemplo supremo da alta costura francesa. Filmou, da Virgem Maria, uma estranha anunciação. Chamou-lhe Je Vous Sale Marie e não há, no Portugal de 1985, distribuidor que lhe pegue. Pegou-lhe a Cinemateca que o está já a exibir. Entremos na sala.

Entrámos e veja-se: o caldo entornou-se. Um jovem católico virou-se para o chefe de polícia e disse-lhe em tom de desgarrada: “Gostava que fizessem isso à sua mãe?” Ó meu amigo, palavras não eram ditas e já o até então polidíssimo agente lhe enfiava uma gravata que, vi eu, fez o ar dos pulmões do jovem bater no tecto da sala.

Tossia ele, tossia toda a velha sala da Cinemateca. Krus Abecassis, lendário presidente da Câmara, prometera escaqueirar tudo se a Cinemateca se atrevesse a exibir o filme. Fomos perguntar ao João Bénard, que era quem mandava em nós, se nos atrevíamos. O João foi claro: “Nessas coisas sou uma senhora séria. Ora, como sabem, senhora séria não tem ouvidos.”

Preparámo-nos para o combate. Se de algum lado estava, a Graça estava do nosso lado. João Bénard era de um catolicismo doce que lhe impregnou o olhar e a escrita toda a vida, logo a ele que, tanto mudando, em nada de essencial algum dia mudou. Sentíamo-nos, por isso, legitimados para passar um filme que mostrava o desejo de gravidez e o bendito ventre cujo fruto talvez fosse Jesus.

Éramos democratas, mas não éramos parvos: armou-se um dispositivo de Aljubarrota. Vigilância da PSP e dois dos nossos projeccionistas, o Grave e o Gigante, tipos que combinavam volume de boxeur com altura de defesa-central, a filtrar entradas no rendidlhado portão da rua. Vendiam-se dois bilhetes por pessoa, o que frustrou as encantadoras virgens que quiseram comprar a lotação do cinema.

A sala era um ovo cheio. Gente no chão e no ar uma dúbia excitação, misto de primeira comunhão e noite de núpcias. Fez-se escuro: a volúpia das imagens aflorou a tela e os jovens católicos pularam em ave-marias e salve-rainhas, subindo ao palco a esbracejar contra as sombras blasfemas.

As luzes reacenderam-se iluminando um belo e poético caos. Enquanto nós gritávamos aos jovens Savonarolas que Je Vous Salue Marie era a apologia da Imaculada Conceição, um filme sobre o mistério da mulher que, entre tormento e dúvida, aceita uma violenta graça e sobre o homem, José, que se torce de ciúmes, mas por amor confia, os velhos cineclubistas, com danada nostalgia comunista, apontavam à polícia os insurrectos: “É aquele… e aquele”. Era um mundo às avessas: velhos esquerdistas bufavam à polícia e um miúdo, com vozinha de copo de leite, gritava-lhes: “Pides.” 

Num arroubo místico, um dos rapazes desmaiou. Ajoelhou-se ao lado dele uma menina de calças de xadrez. Era bonita e parecia que, segurando-lhe a mão, rezava. Com vontade de rezar com ela, ainda pensei: “Vês, meu anjo, como ser virgem é estar disponível!” Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriam Roussel no filme apóstata de Godard, repetindo prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano?

Os lençóis de Aragon

Os Aragon, Elsa e Louis

A mãe de Louis Aragon era sua avó. Sua irmã, sim, era a mãe.

Recapitulando, o pai, que nunca o perfilhou, foi seu padrinho de baptismo. Seduzira a mãe, tinha ela 17 anos. Para salvar a honra de todos os conventos, a avó apresentou a criança ao mundo como seu filho adoptivo. Aragon viveu nessa mentira piedosa e cruel, a de ter a mãe como irmã, até aos 19 anos. Soube de tudo só e quando ia partir para as trincheiras da I Grande Guerra, a dantesca morte de boca aberta à sua espera.

Embuste e decepção, esses lençóis de infância e adolescência, hão de sempre ser a cama em que se deitará a vida de Aragon, figura tão amada como odiada das letras francesas.

E nem é preciso começar pela sua traída e traiçoeira relação com o surrealismo. Vejam-no apaixonado pelo requintado perfil e alto pescoço da libérrima Eyre de Lanux, designer vanguardista americana. Logo ela, conhecendo o futuro fascista Drieu de la Rochelle, amigo do peito do futuro comunista Aragon, deslarga este para dormir com aquele. Aragon lambe as feridas indo lamber a densa beleza e os requebros metafísicos de Denise Lévy, que depressa se casa com Pierre Naville, outro amigo de Aragon. Com amigos assim, para que precisaria Aragon de inimigos?

Já o infatigável Aragon se volta a deitar. Agora com a milionária herdeira da Cunard, glória da marinha mercante inglesa. Nancy Cunard é poeta, anarquista, e vai com sede ao pote que é a vida, e da vida ao entranhado sexo. Já com dois anos de salgado conúbio, Aragon descobre que o transatlântico Cunard pára em vários cais de Veneza. Os romances de Nancy arrebatam a cidade: um firme e anónimo moço da hotelaria, um conde italiano e, num Everest amoroso, o pianista negro Henry Crowder. A mãe de Nancy, a toda em ouro Lady Cunard, terá esta tirada de prata: “Mas a minha filha conhece um negro?”. Aragon suicida-se. E já me modero e corrijo: tenta suicidar-se.

Num bar de Paris, vem ter com ele uma exilada de luxo, a escritora russa Elsa Triolet. Queria conhecê-lo e às duas da manhã, expulsos pelo operariado hoteleiro, estão nas ruas de Paris, a lua a murmurar-lhes coisas inconfessáveis. Acabam, ou começam, no quarto de Elsa, no hotel Istria. Na manhã seguinte, com fome de brioches, chocam na rua com Maiakovski, espécie de Neymar da revolução literária soviética, mais quedas no gramado do que golos na redes. Fora com ele que a virgem Elsa se iniciara nos mistérios em que toda a vergonha se perde e todo o corpo se empolga. Mas logo ele, conhecendo a irmã mais velha de Elsa, lhe partiu o coração, abandonando-a pela outra.

Desabafo: Elsa e Louis foram depois, um ou outro petit-déjeuner ou lanche mais desavindo, o casal unânime e o par amoroso por aclamação. Antes de a conhecer, já ele era comunista, como os outros surrealistas. Todos, menos ele, deixariam de o ser. Com Elsa, e viajando à União Soviética, a paixão ideológica asfixia-o: incensa o Pacto de comunistas e nazis, vai de violino pelos telhados a cantar Estaline, com uma pulsão erótica que nem Camões a cantar Vénus. Nada o detém, nem os campos de concentração, em que vê a excelsa reeducação do homem pelo homem, sinal da grandeza de Estaline.  Quando André Gide denuncia em livro os gulags, o seu secretário, Pierre Herbart, está em Madrid, em plena Guerra Civil espanhola. Aragon telefona à embaixada soviética para que o apanhem e fuzilem. André Malraux salva-o. Herbart veio depois a casa de Aragon. O poeta poderá ter-se esquecido de muita coisa, dessa visita, jura Herbart, guardou para o resto de vida sentida memória.

Diego Maradona

É um tipo baixo, redondinho. Está de costas para o campo adversário e recebe a bola. Veste camisola azul e calção preto e ainda está no seu meio campo, a dois metros da linha divisória e do grande círculo. Recebe a bola com o pé direito e roda para ficar com ela no pé esquerdo. Nesse subtil movimento de 180 graus já deixou dois adversários para trás, dois anjinhos de camisa e calção brancos, dois anjinhos ingleses.

Galga vinte, mais de trinta metros e há outro homem que lhe vem fazer a cobertura, mas um ligeiro desvio de bola com o pé esquerdo do homem de azul logo o tira do caminho, para não dizer do tempo e do espaço. E o baixinho e redondo rapaz de azul já está à entrada da área inimiga. Os defesas ingleses estão em linha, impecavelmente como sempre os defesas ingleses estão, e um dos centrais vai ao homem. Mete o pé esquerdo, mas o seu pobre pé esquerdo – pé esquerdo de back – não se compara à subtileza e arte do pé esquerdo do homem de azul e negro que controla a bola. Com o mais argentino dos toques, num milésimo de segundo, já o veloz fugitivo lhe dá um metro de avanço.

O imparável homem baixo, redondo, de coxas cheias, está agora dentro da grande área. O defesa esquerdo, o outro central e o guarda-redes adversários fecham-se num garfo que o tenta crivar com três dentes. E ele, o homem tão gordinho como um jovem merceeiro, tão gordinho como um empregado de restaurante que se vê que gosta de comer suculentos contra-filé e achurras, só com o pé esquerdo, sempre com o pé esquerdo, adorna a bola para a direita, evitando o guarda-redes, suporta a entrada do lateral esquerdo já atrasado e não deixa que o central sonhe sequer ser parte interessada. E, com a nostalgia de uma bailarina de Degas, a bola despede-se do pé esquerdo do homenzinho de azul e negro para ir beijar na boca as redes da baliza inglesa de um estádio mexicano. O homem gordinho tomba, mais eufórico do que esgotado, nessa relva posta e regada para nela se sonharem os mais olímpicos dos sonhos.

Esta é a relva. E o slalom divino e o pé esquerdo de que tenho estado a falar são de Maradona. De Diego Armando Maradona. Juraria, aliás, que, depois dele ter recebido a bola, só o seu pé esquerdo conduziu, tocou, fintou, desviou e rematou o que eu julgo ser o mais belo golo de sempre da história do futebol. Descrevi-o e na minha descrição ele fintou, iludiu, ultrapassou, venceu gloriosamente seis adversários e é mentira, que eu bem sei que foram sete. Só que não há forma de as palavras puderem descrever a jogada e caber ainda o sétimo inglês tirado da fotografia – aquilo sim, foi um Brexit e god save the queen.

E agora vejam, Maradona já se levantou, corre e exulta ao longo da linha final. Vai direito à bandeirola vermelha espetada na marca de canto, à espera que cheguem  os companheiros para festejarem e levarem a inocente e pura alegria ao povo que está nas bancadas. Há de haver ali advogados e engenheiros, talvez operários e empregados de escritório, um doce casal burguês de Buenos Aires e dois amigos das Pampas, malta que dança tango, um ou dois leitores de Borges. Há ricos e pobres e Maradona, a alegria gordinha e aos saltos de Maradona, une-os a todos.

E eu, ecuménico que sou, diria mais, a alegria, o prazer descarado quase obsceno de Maradona, une o estádio inteiro, os argentinos vencedores e os ingleses vencidos. Une-os o prazer do futebol. Pouco antes, nesse mesmo jogo, Maradona, rebelde, irreverente, impulsivo, genuíno, marcara um golo com a mão – com a mão de Deus, ironizou ele, nesse tempo em que o futebol era superior e por isso se autorizava e deliciava com a ironia. Sem esse golo a mitologia do futebol seria mais pobre – abençoado árbitro que se enganou e deu ao mundo, durante semanas e semanas, a possibilidade de sorrirmos. O que esse golo e essa mão serviram de cerveja e conversa em pubs ingleses.

Foi assim que eu aprendi a ver futebol. E sei que estou a enganar-me nas palavras: o que eu quero dizer é que foi assim que Maradona ensinou o mundo a ver futebol. Um futebol tão enérgico como a prosa em fiesta de Hemingway, tão labiríntico como as ficciones de Jorge Luis Borges, tão erótico como el toro soy yo de Picasso. Morreu hoje, do futebol, o seu melhor demiurgo. Agora, Maradona, o demiurgo, vai a enterrar. Com Maradona é a arte e a alegria que ficam também debaixo de sete palmos de terra:

Ahora está muerto y con él
Cuanta memória se apaga
De aquele Palermo perdido
Del baldio y de la daga.

Uma ficção. Escrita por Diego Armando Maradona