Livro à chuva molha-se

 

3D Book Banqueiro

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 2 de Julho

Que bom é tirar o cavalinho da chuva. É tudo culpa deles. Mas eles não somos nós? Um exemplo, os governos de Sócrates, Passos Coelho, Costa são “eles” ou somos “nós”? Não fomos “nós” a dar-lhes a bica cheia do poder?

 Escrevi, há dias, que o livro está a morrer. Vieram consolar-me culpando os poderosos. Ah, caneco: “Eles!” Ora, o livro está a morrer é mesmo por “nós”. Todos. Por não lermos, por não irmos às livrarias comprá-lo. Nós mudámos e na mudança a leitura deixou de contar. Não foram “eles” que proibiram, somos “nós” que não lemos. Se achamos que perder o livro é uma catástrofe, somos “nós” que temos de parar o terramoto.

Rua ou romance?

chita

São duas mulheres. Mãe e filha, na verdade. Conversam:
«— Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?
— Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda.»
São duas mulheres. Conversam. Rua ou romance? E se é rua, é de Lisboa ou do Porto? E se é romance, é de Eça ou de Camilo?

Ouvido quente

Eyes-Wide-Shut

Das virtudes de Stanley Kubrick a menor não terá sido a sua capacidade de escolher temas musicais que desencadeavam uma turbulência emocional incontrolável. Kubrick tinha um “ouvido quente”. Ora ouçam:

Shostakovich pode agradecer a Kubrick ter-nos criado a obrigação de passarmos a ouvir com “Eyes Wide Shut” esta “Segunda Valsa” (que é o 6º andamento da Jazz Suite nº2 — Suite for Promenade Orchestra). Mesmo sem Cruise e sem a tão bela Kidman, a plenitude triunfante destes violinos é inexplicavelmente exaltante e libertadora. Paradoxo: esta suite de 8 movimentos foi composta na Rússia soviética, ou de como um violino apaixonado nos pode desembaraçar amorosamente da teia das tiranias.

 

A mesma, outra vida

Este texto não é meu. Fugiu-me da mão e constrói-se em diálogo com os leitores. Vai de vida em vida.

espiral
de erik johansson

Dou-lhe, leitor, três hipóteses.

Primeira: a vida que anda a viver já alguém a viveu antes de si.
Segunda: só vive a vida que anda a viver porque, algures, alguém, escriba sofrível que seja, a escreveu por antecipação.
Terceira: a sua vida, a que já começou e a que ainda não sabe como vai acabar, nasceu no súbito bling de uma estrela e há-de morrer na desamparada rotação de um planeta.

Olhe o leitor para o céu e deixe-me a mim começar, manso e em noite de lua nova, pelos astros. Nem convoco o magistério de astrofísicos, nem o terrífico deslumbramento de bestiário celeste. Um escritor apenas, a vida e morte de um escritor bastam. Mark Twain nasceu a 30 de Novembro de 1835. Nesse dia, na Florida em que a mãe o dava à luz, ardeu no céu a aparição do cometa Halley. Passou altíssimo o fulgurante risco luminoso e Twain entrou no mundo dos vivos.

Não tinha corrido um século e o mundo em pânico esperava nova vinda do cometa e da sua cauda de letal cianogénio. Não foi a essa histeria que Twain se rendeu, mas a uma lógica poética, a uma rima melódica. “I came in with Halley’s Comet in 1835. It is coming again next year, and I expect to go out with it.” Nem o cometa, nem Twain falharam o profético encontro. A 21 de Abril de 1910, numa irrelevante vilória de Connecticut, Twain apagava-se na terra enquanto Halley se acendia no céu.

Não lhe digo, descuidado leitor, que não viva, que não se entregue à obscena orgia que é a originalidade de cada dia, mas, peço-lhe, vigie o obscuro firmamento, a bizarra cintilação das estrelas; espreite nelas o amor, os trabalhos, cada dor, a aguda alegria da vida que leva.

Reticente aos astros, diz-me que prefere viver agora o que alguém escreveu antes. Acertada escolha, confesso-lhe. E não pense que está sozinho. Ainda os engenheiros não tinham pensado construir o Titanic quando um inglório romancista, Morgan Robertson, publicou “Futility – The Wreck of the Titan”. Em 1898, o autor imaginou um transatlântico que jamais iria ao fundo. Chamou-lhe Titan, e imaginou-o o maior gigante que mãos humanas pousaram no oceano. No obscuro romance de Robertson, numa noite de Abril, a 400 milhas da Terra Nova, à velocidade de 22,5 nós, o Titan embate num iceberg e a tragédia instala-se: o navio afunda-se e a escassez de salva-vidas condena os passageiros a salina agonia, o pedaço de atlântico a uma torpe mancha ensanguentada. Catorze anos depois, no que ilusoriamente alguns pensam ser a vida real, outro transatlântico, o Titanic, repetiu (sintagma a sintagma) a escassa e trémula trama desse ficcional antepassado; voltava a ser uma noite de Abril, nesse mesmo desterro dos mares situado a 400 milhas da Terra Nova, tão cerca da meia-noite como meia-noite era no romance, quando à velocidade de 25 nós, o Titanic rasgou um iceberg ferindo-se de morte. Nenhum dos 3.500 passageiros sabia estar a ser usado por uma mão que, hábil, reencenava as páginas adversas e esquecidas de uma novela do século anterior.

Aceito, avisado leitor, que a tépida literatura o canse e que não queira a sua vida fechada num diegético casulo de letras. A vida, a verdadeira vida, as aventuras de grandes homens são únicas e irrepetíveis e é com elas, isso sim, que o leitor desafia a pobre lógica deste texto descrente e fatalista. Já me convenceu: partilho uma chispa desse entusiasmo. O leitor sugere que eu me lembre, por exemplo, de John Fitzgerald Kennedy. Ich bin ein Berliner e sorri. Também eu, também eu, dinâmico leitor. Mas contam-me em surdina – a voz arrastada que tudo revela é a de Arthur Koestler, o deprimido autor de “O Zero e o Infinito” – que Kennedy, a vida dele, é um plágio trivial. Um plágio com o rigoroso intervalo de 100 anos. John Kennedy, nos passos essenciais da sua vida política repetiu humilde, porventura contrafeito, o que Abraham Lincoln já vivera. Lincoln é eleito congressista em 1846, JFK é-o 100 certos anos depois, em 1946. Presidente o primeiro em 1860, Kennedy imita-o em 1960. Ambos foram assassinados por sulistas. O de Lincoln, num teatro, acerta-lhe na nuca e foge para um armazém. Na nuca, acerta-lhe o de Kennedy, disparando de um armazém para sair a esconder-se no teatro que é cada sala de cinema. Ambos os assassinos seriam abatidos a tiros infames antes do julgamento.

Os assassinados Lincoln e Kennedy foram substituídos na presidência por dois sulistas, um chamado Johnson, outro chamado Johnson. O secretário de Lincoln, de apelido Kennedy, pediu-lhe pelas alminhas para não se expor indo ao teatro. A secretária de Kennedy, de apelido Lincoln, ralhou e implorou para que o jovem presidente não visitasse Dallas.

Chamam-lhe coincidências. Só a miopia ou um prosaísmo insípido se atreveriam a tão ignorante qualificação. Os passos de Kennedy são a rigorosa e premeditada repetição de outros passos. Nenhum retorno, Herr Nietzsche. São vidas que se replicam noutro ponto, noutra curva de uma espiral. Parecem cópias, talvez sejam simulacros. Vidas com o mesmo libreto, mas com variação na coreografia: às vezes um inovador guarda-roupa, outras um amargo falhanço nos adereços ou na iluminação, tentam disfarçar o que é apenas repetição, humilde repetição de um deus monista, copista medievo sem imaginação.

Não me desgosta também pensar que o intangível curso de cada vida é sempre a mesma música, mas outro andamento; allegro a primeira vez, quem nos dera que à segunda, a nossa vez, seja molto appassionato.

Harlem 1958

Harlem 1958

Eram 10 horas de uma manhã do Verão de 1958. Tipos que nunca tinham visto a luz do sol e que há quatro décadas enchiam de música, fumo, lendas, as noites e as wee hours de Harlem, começaram a aparecer de todo o lado.

A ideia nasceu na revista Esquire, cujo editor era Robert Benton, futuro realizador de cinema, que se lembrou de celebrar o que ele achava ser a golden age of jazz com uma fotografia de grupo. A encomenda caiu em cima do mais improvável executor, Art Kane, que nem fotógrafo profissional era, mas a quem Benton reconhecia talento e paixão pelo jazz.

Kane era pouco mais do que um miúdo e nunca tinha feito uma fotografia profissional. Miserável, não tinha nada, nem agência, e muito menos um estúdio. Caçou com gato: decidiu fazer uma foto de rua, no certíssimo cenário, uma rua de Harlem, casa e escadaria típicas do bairro. Conta a lenda, deve ser verdade, que andou a passar palavra entre os músicos para que aparecessem a uma hora que muitos nem sabiam que existia.

Vieram 58 músicos, com todos os estilos: bebop, swing, hard-bop, big band, dixieland. Alguns deles são dos criadores mais geniais do século XX: Dizzy Gillespie, Lester Young, Thelonius Monk, Sonny Rollins, Horace Silver, Art Farmer, Art Blakey, Charlie Mingus, Gerry Mulligan, Count Basie. Arrumaram-se como agora os vemos, Count Basie sentadinho ao lado da fila de miúdos do bairro que vieram assistir à festa, Gillespie o último à direita. Mas podem saber quem é quem nesta visita guiada.

E às 10 horas da manhã, Kane, mais nervoso do que noiva virgem em noite de deixar de sê-lo, disse olha o passarinho e clicou para a posteridade. Não deu conta que Willie “the lion” Smith, pianista virtuoso, mas cansado, se tinha sentado nos degraus da porta seguinte e ficado fora do enquadramento. Com 58 soberbos músicos, menos um, Art Kane acabava de fabricar “Harlem, 1958” um dos prodígios (tão simples) da iconografia do jazz.

Testemunho de um fantasma

elva zona
Elva e o marido, em cima. Muito jovem, em baixo

Elva Zona nasceu no Greenbrier County, situado no meio das montanhas Allegheny, em West Viginia. Cara redonda, nariz fino e direitinho, maçãs do rosto bem definidas, boca carnuda e uma franja a cair-lhe sobre a testa, que ela compunha de risco ao meio, não admira que tenha tido um filho aos 22 anos, em 1895. Para desassossego materno e da comunidade, sem que ninguém soubesse quem era o pai.

Um anos depois, chegou ao County um jovem vindo de nenhures, à deriva e sem passado. Erasmus (ou Edward Shue) foi trabalhar com o ferreiro local. Fazendo curta uma história curta, em Outubro de 1896 conheceram-se, apaixonaram-se e logo casaram. Contra a vontade de Mary Jane Robinson Heaster, a mãe de Zona.

A 23 de Janeiro de 1897, Erasmus, ocupadíssimo na oficina situada no cruzamento de caminhos acidentados bons para o negócio, pediu a um miúdo, Andy Jones, que lhe levasse, “se não te importas de me fazer esse favor”, um recado à mulher. Com uma confiança de século XIX, Andy foi e ao abrir a porta da casa viu, ao fundo das escadas, o corpo inanimado de Elva, as pernas bem juntinhas, braço esquerdo sobre o ventre, o direito estendido ao lado da cobiçada anca. Os abertos olhos de lua cheia a contemplar a longínqua eternidade.

O miúdo correu e todo o vale soube da morte de Elva. Edward foi o primeiro a chegar. Sozinho levou o corpo para o quarto e sozinho fez todos os preparativos – lavar, escolher roupa e voltar a vestir – para que Elva pudesse ser dignamente enterrada. Quando o Dr. Knapp chegou para examinar o cadáver, Edward (já ninguém lhe chamava então Erasmus) manteve-se firme, choroso, apaixonado, ao lado da mulher. Contou o Dr. Knapp, não sei se numa das tabernas do County, que Edward gritou furiosamente quando ele tentou observar o pescoço da falecida. Mas a morte foi declarada natural, presumindo-se relação com alegada gravidez. A voz discordante da mãe voltou a fazer-se ouvir: “Foi o diabo que a matou.”

Durante a vigília, a devoção de Edward a todos espantou, vinte quatro horas ao lado do silêncio de Elva, a aconchegar-lhe a cabeça com mais almofadas, “era assim que ela gostava de dormir”. Até que, num caixão inacabado, providenciado pelo Handley Undertaking Establishment, o funeral se fez.

Funeral feito, dúvidas não desfeitas. Pelo menos para Mrs. Heaster, a mãe. Estranhou que Edward tivesse recusado o lençol da vigília e estranhou um cheiro peculiar. Lavou-o e do lençol branco correu para a água uma cor vermelha de sangue *. A  seguir, o lençol branco ficou vermelho e a água outra vez limpa. A mãe viu no bizarro acontecimento o sinal que confirmava as suas amantíssimas suspeitas. Rezou, todas as noites rezou, para que o Senhor lhe desse um sinal. À quarta noite, Elva, irradiando luz e justiça, apareceu à mãe e revelou-lhe toda a verdade.

Armada deste novo poder, Mrs. Heaster moveu céus e terra o que incluiu, é claro, o procurador local. Ciente de provável negligência, o procurador determinou a exumação do cadáver e adequada autópsia. Edward opôs à determinação todo os seus músculos de ferreiro. Inútil. O exame fez-se e o que o luminoso fantasma de Elva tinha dito à mãe foi confirmado pelo corpo corrupto: “broken neck”, disseram os médicos, apontando para a cabeça que Edward amorosamente acomodara entre almofadas.

No julgamento, a acusação preparou a mãe para nunca falar do fantasma da filha. Mas a defesa julgou que seria boa estratégia invocar o assunto, descredibilizando assim a testemunha. Mrs. Heaster juntou argúcia à sua sinceridade de mãe e a defesa apercebeu-se da armadilha e recuou. Tarde demais, o fantasma de Elva já estava de pleno direito na sala e de nada valeram as recomendações do juiz para que os jurados não considerassem ter ouvido o que de facto tinham acabado de ouvir. Dez deles declararam Edward culpado e condenaram-no à forca, os restantes a prisão perpétua.

Se agora, passados 122 anos sobre a sua morte, alguém passar pelo County, perto do cemitério onde está sepultada Elva Zona Heaster, encontrará um marco alusivo com uma inscrição simples:

 “Enterrada no cemitério ao lado está Zona Heaster Shue. A sua morte em 1897 foi considerada natural até o seu espírito aparecer à sua mãe descrevendo como tinha sido morta pelo marido, Edward. A autópsia ao corpo exumado confirmou o relato da aparição. Edward, considerado culpado de assassínio, foi condenado a prisão do estado. É o único caso em que o testemunho de um fantasma condenou um assassino.”

Moral da história: não há fuga, rejeição, elegante assassínio que liberte do amor. Amor que é amor nunca acaba. Nem com morte danada. Toda a mulher amada  é um fantasma.

* O precipitado vermelho que Mrs. Heaster viu no lençol era o resultado da reacção dos ácidos de ferro (com que trabalhavam os ferreiros) com o hidróxido de sódio dos sabões com que se lavavam. O estranho odor tem que ver com o ácido muriático usado na formação dos ácidos de ferro. Estes dados foram decisivos para a acusação do procurador.

Slow dancing

JohnMayer

Porque já passa da meia-noite e porque hoje é sábado:

This is the deep and dyin breath of
this love that we’ve been working wrong on

é o que em cima de um palco de L.A. diz este miúdo cheio da energia e do feeling dos velhos blues-rockers.
Porque hoje é sábado.