Pagou-lhe uma reconstrução dentária

Uma festa de Joan Crawford. Talvez haja mais homens do que mulheres

Ainda não se tinha inventado o telemóvel e já a actriz Joan Crawford tinha 26 telefones em casa. Ainda não se inventara o GPS, e já Joan usava sininhos nos chinelos para que os criados soubessem sempre onde estava, na sua estarrecedora mansão.

Dirão que a nostalgia faz de mim o idiota da subjectividade. Porém, lendo os jornais da época, vemos que Hollywood não era a parolice coberta a dólares que alguns chutam para canto. Nem falo dos anos em que Stravinski se cruzava com Katharine Hepburn, Edith Stilwell metia um dedo de conversa em Gregory Peck, Thomas Mann observava Cukor e Brecht não falava com ninguém porque toda a gente só tinha ouvidos para Aldous Huxley.

Era a Hollywood cheia de refugiados dos anos 30. Mas venham a 1947, ao Le Pavillon. Joan Crawford dá uma festa em honra do dramaturgo Noël Coward. Conhecera-o em Londres e dissera, tradução livre: “É uterinamente repulsivo, como uma Mary Pickford inglesa.” Adoraram-se. Tanto que a sonsa imprensa inglesa lhes inventou um romance, apesar da rutilante homossexualidade de Coward.

Veio à festa Hollywood inteira, Irene Dunne, Marlene, Barbara Stanwyck, Gene Tierney, Tallulah Bankhead. Só mulheres? Não. Havia mesmo mais homens do que mulheres porque Crawford convidara os ex-amantes e ex-maridos.

Alguém perguntou a Coward o que achava da anfitriã. “Amo-a, embora esta noite só ainda lhe tenha visto o ombro esquerdo. Está sempre virada para o tipo que sentou à sua direita.”

À direita, Crawford tinha Greg Bautzer. Era um jovem advogado e andara à pancada com um tipo a quem ouvira dizer que Joan era “carne fácil”. O tipo partiu-lhe os dentes todos, mas Joan, comovida com o angelismo de Bautzer, pagou-lhe a reconstrução dentária. Descobrira que, mais do que advogado, ele era muito bom onde ela gostava que ele fosse muito bom. Só por isso, deu-lhe um fulgurante Cadillac.

Foi a provocadora Tallulah quem apresentou o novo amante de Joan a Coward. Fez como já antes fizera a Errol Flynn: “Vocês foram feitos um para o outro. Porque não vão foder para um sítio qualquer?” O angélico Bautzer ficou de cara à banda, mas Coward bem sabia em que provocações Tallulah se metia e o metia: “Desculpa, querida, o cavalheiro tem os dentes grandes demais para o meu gosto.”

Os dois homens deram-se com a inocente intimidade de Deus com os anjos. Falaram, beberam e à despedida Coward rematou: “A despropósito, ainda continuo a achar que tem dentes a mais.”

Joan Crawford com Greg Bautzer. Terá ele dentes a mais?

Por 150 marcos

a abjecção em construção

Duas balas disparadas pelas costas desfizeram-lhe o coração. Chris Gueffroy não será nem o piloto de aviões nem o actor que sonhava ser. Jaz morto e arrefece o menino de 20 anos de sua mãe. À sua frente, indiferente e sólido, o alto muro que separa o Leste e o Ocidente, na Berlim de 5 de Fevereiro de 1989.

Quinze anos antes, num pequeno país exógeno, já a tropeçar da Europa para o Atlântico, libertaram-se de uma prisão, Caxias, os que se bateram contra a longa noite confinada e censurada do salazarismo. O que faz com que muitos desses lutadores desviem o olhar e persistam, ainda hoje, num silêncio embaraçado perante as balas e o coração desfeito de Chris Gueffroy? E sim, confirmo, alvejaram-no pelas costas. Nas mãos, Chris segurava uma escada: quereria, talvez, subir ao céu.

Chris Gueffroy era cidadão não de um país, mas de um oxímoro: a República Democrática Alemã.  Nunca o qualificativo “democrata” foi usado de forma tão fátua como vil, o que Chris aprendeu logo na terna adolescência.

Na escola, em flic-flacs, parafusos ou carpadas, nas argolas ou nas barras assimétricas, Chris encantava. Por ser bom, bonito e menino. Logo, esse Estado Democrático, velando pelo bem dos seus cidadãos-crianças, o escolheu para a carreira militar: seria oficial do Exército Popular.

Vejamos: o corpo de Chris, ágil, flexível, exuberante, trazia dentro uma emoção, porventura um daimon socrático, que lhe dizia para fazer a coisa certa: disse por isso que não, tão pouco o exaltava a catequese comunista. Já antecipamos a cara desapontada, mesmo feia, desse Estado paternal. O que alguns dos presos de Caxias não nos disseram, quando juravam lutar pela liberdade, é que esse Estado, que seria o deles, retaliaria: proibiram o desabusado Chris de entrar na universidade. Mataram-lhe em vida o futuro, o direito ao conhecimento. O avião que Chris queria pilotar nunca levantaria voo.

O adolescente Chris nem temeu nem estremeceu. Foi servir à mesa no restaurante do aeroporto para que o olhar pudesse acariciar a carlinga e as turbinas dos aviões, que lhe apaixonavam corpo e espírito. E fez um amigo, Christian. Discutiam o cerco em que viviam e conversavam sobre Berlim Oeste, oásis que lhes resgatava os dias de cinzento e chumbo.

Mas a vigilante República Democrática Alemã está atenta e já os chama para o serviço militar. Chris e Christian decidem-se: planeiam a fuga, vão saltar o Muro e mergulhar, do outro lado, na liberdade. Corre o rumor, nesse país só feito de rumores e voz do dono, que agora, em 1989, os soldados já não disparam sobre os fugitivos. Veio, de visita ao camarada Honecker, mistura de Salazar vermelho e de chefe da PIDE, o primeiro-ministro sueco. Quem diabo disparará sobre os seus cidadãos, só por saltarem um Muro, durante uma visita tão sensível?

A 5 de Fevereiro, Chris e Christian escondem-se num armazém junto ao muro. Perto da meia-noite, no silêncio e no escuro que ficou depois de passar a patrulha, lançam-se para a primeira barreira. Saltam uma, duas, e correm já para o Muro. Roçaram num alarme: as sirenes tocam, os projectores acendem-se. Não param e as metralhadoras vomitam as balas da República Democrática. Uma fere Christian que fica estendido. Chris corre ainda, escada na mão, tão perto já do sonho. Podiam apanhá-lo à mão, à paulada, mas um soldado visa-o e destrói-lhe o coração. Para ganhar o prémio, 150 marcos, que a República Democrática dá ao soldado que acerte em quem fuja do paraíso. Nove meses depois o Muro caiu: foi Chris, a última vítima, quem o deitou abaixo.

Publicado no Jornal de Negócios

Teorias Cínicas – que grande leitura!

É um livro Guerra & Paz. E eu, sei lá porquê, tenho uma inclinação para esta casa editora.

Transpirando boas intenções, derramando voluntarismo salvífico, hordas de activistas declararam guerra à cultura e ao pensamento universalista. Juram que vêm salvar minorias oprimidas. Um livro, Teorias Cínicas, explica como esses activistas nos prejudicam a todos, a começar pelas minorias que clamam querer salvar.

Já todos ouvimos e já lemos parangonas tão retumbantes como estas: “Só os brancos podem ser racistas!” “Não existe sexo biológico!” “Ser obeso é saudável!” Em Teorias Cínicas, os autores, Helen Pluckrose e James Lindsay, expõem os dogmas em que assentam aqueles pressupostos absurdos, inspiradas numa débil leitura do pós-modernismo francês e refinadas agora por académicos activistas e moralizadores.

Teorias Cínicas confronta cada uma dessas investidas militantes e expõe a sua inconsistência e a sua surpreendente superficialidade: a teoria pós-colonial, a teoria queer, as teorias críticas da raça e da interseccionalidade, os estudos de género e os estudos de deficiência e de gordura. São teorias que, com manifesta desonestidade intelectual, nos pretendem impôr o músculo de uma nova Inquisição, ameaçando a democracia liberal. Pior ainda: com o seu radicalismo de neo-esquerda, estas teorias fornecem combustível à extrema-direita.

A Guerra e Paz orgulha-se de ser a editora portuguesa deste livro. Queremos satisfazer a sua urgência em lê-lo: Teorias Cínicas está já em pré-venda. Aqui, no nosso site. Leve-o hoje consigo. Na compra, oferecemos-lhe ainda o Pequeno Livro das Grandes Invenções. Até dia 4 de Abril.

Estranhíssimos seres humanos

Manuela de Freitas

Faço aqui revelações sobre os meus medos e sobre o quarto escuro que pode ser um palco. Foi a minha forma de apresentar um livro, “Visita Guiada ao Ofício de Actor”, do professor António Branco. Foi na Fnac do Chiado, aqui há uns anos.

Começo com o meu muito obrigado aos amigos, alunos e leitores do professor António Branco, que vieram assistir a esta sessão e que, por tanto confiarem nele, tiveram a paciência de vir ouvir o que eu tenho para dizer, se é que tenho alguma coisa para dizer.

Quero também agradecer ao António Branco o convite que me fez, muito embora deva dizer que há umas semanas estava a rezar-lhe na pele, e eu explico. É que, por ser editor, estou habituadíssimo a convidar, mas não a ser convidado. Estou habituado, nestas sessões de apresentações de livros, a gozar as delícias de ser espectador e jamais a ser actor, que não sou, nem sei ser.

Mas há desafios que não se podem recusar e o António Branco invocou o passado e obrigou-me a ir aos confins da minha memória, quando eu ainda era jovem e ele andava pouco mais do que de bibe, e nos cruzámos numa experiência mais do que vanguardista, numa experiência radicalmente teatral e radicalmente política a que alguém chamou “Teatro do Mundo”.  

Não sei se tenho orgulho ou medo desse passado. Lembro-me, por exemplo, do senhor Adolfo Gutkin, um senhor que aparece neste livro, página sim, página não, me ter chamado para o palco do teatro da Trindade, mesmo aqui ao lado, para integrar os exercícios de aquecimento a que esses espectros a que chamam actores se entregavam. Apanhei o maior susto da minha vida, o coração à velocidade da fórmula um, as pernas a abanarem como uma bandeira negra no meio da revolução. Ora eu, só estava no Teatro do Mundo para fazer pesquisa de texto, eu só queria escrever sossegadinho e estar sentado a uma secretária, imóvel e invisível, e o raio do encenador argentino, vindo de Cuba, atira com o meu pobre e miserável eu para cima de um palco, sem rede.

E agora que confessei tudo, agora que me livrei desse terrível peso do passado, quero, afinal, agradecer ao António Branco por me ter convidado, não propriamente a mim, que sou hoje um ignorante do que seja o Teatro, mas a esse miúdo que esteve cinco minutos – um século – em cima de um palco onde estavam esses heróis ou deuses ou estranhíssimos seres humanos a que damos o substantivo nome de actores.

E vamos então ao que aqui me traz: falar deste livro. Começo pelo título: “Visita Guiada ao Ofício de Actor”. Muito bem, deixem-me dizer: sou como toda a gente, estremeço amorosamente só de pensar em actores. Se vou ao cinema, é pela presença deles. Para ver a Ingrid Bergman no “Notorious”, para ver o Marlon Brando no “Há Lodo no Cais”, a Falconetti, de cabelo rapado, na “Paixão de Joana D’Arc”.

No teatro também: tenho a mais viva lembrança de ver Peter O’Toole no palco, a uns três, quatro metros de mim, camisa aberta, a gravata quase desarmada, uma ressaca de caixão à cova, o catarro, esse homérico refluxo que um cigarro acalmava, enquanto não conseguia descobrir a bebida, o gin, que lhe limpava o apertado estreito. E era só um actor, era Peter O’Toole a fingir que era Jeffrey Bernard, o jornalista herói (ou anti-herói) da peça “Jeffrey Bernard is Unwell”, que é como quem diz “Jeffrey Bernard não está nada bem”.

Portanto, fica estabelecido que eu amo essa imagem do actor. Gosto dessa fusão que, a bem dizer, nem sei se é a da personagem no actor, se é a do actor na personagem. Ou seja, eu gosto quando não distingo, quando vêm dois em um: vejo John Wayne no Ethan Edwards do filme “A desaparecida”, de John Ford, e vejo que Ethan Edwards é, inteiro, o corpo, mas também a moral de John Wayne.

Por causa desse amor à imagem e à presença do actor, eu tinha uma grande vontade de abrir este livro de António Branco. O diabo foi mesmo o título. Em vez do estremecido amor, o título, essa promessa de uma “Visita Guiada ao Ofício do Actor”, fazia-me recuar a tremer. Voltou-me o medo das duas da tarde, no Teatro da Trindade com o Senhor Adolfo Gutkin. Ou seja, mais depressa andaria numa montanha russa no escuro do que quereria fazer a assombrada visita guiada ao ofício do actor. Só pensava: que seres descarnados é que vou encontrar dentro deste livro.

E pensava também esta coisa terrível: que adoráveis e acrisoladas ilusões é que eu vou perder se vir o actor por dentro? Aliás, como é que se vê o actor por dentro? Sobe-se uma escada, abre-se-lha a boca e olha-se para o escuro que está lá dentro? Quantas mulheres e quantos homens é que estão no quarto escuro, de dentro, sem janelas, da Greta Garbo? Seria por isso, por estar tão acompanhada, que ela dizia, num filme, o “Grand Hotel”, que queria ficar sozinha, aquele seu célebre “i want to be alone, i just want to be alone”?

O que eu estou a dizer é que este é, em primeiro lugar, o livro onde se levam pessoas a passear por dentro do actor. Ora, tenho para mim que se há paixão a que não se resiste é a paixão do medo. E foi a cavalgar o medo que eu fui, depois, apaixonadamente por este livro dentro. E talvez este não seja um livro, talvez seja uma oficina. É uma pequena e íntima oficina. Paradoxalmente é tão mais íntima quanto é uma oficina de grupo.

Permitam-me que salte etapas de uma forma anárquica e diga já aqui quais foram as duas mais sedutoras descobertas desta visita em que o António Branco me guiou.

O grupo foi a primeira. Esse actor que vemos gigantesco num grande plano do cinema, que vemos imponente e sozinho em cima do palco, só se descobre no grupo. O seu corpo, em primeiro lugar, define-se pelo contacto, pela fusão ou mistura com os corpos do colectivo que é o grupo.

É no grupo e nos exercícios com o grupo que o actor volta a recuperar uma consciência animal do movimento, volta a ter a fluidez e a organicidade de movimentos que todos reconhecemos, por exemplo, nos movimentos de um gato. Com o grupo, com os exercícios do grupo, brincando, brincando como uma criança, o actor redescobre a maneira do corpo pensar por si próprio, separado do controle do fluxo mental, acabando na aparência com a tirania da mente. Dou um exemplo meu, para se perceber melhor. Parece que Charles Laughton, sofisticadíssimo actor inglês, terá dito do americano e ingénuo Gary Cooper, e com toda a sinceridade, o seguinte: “Vi logo que ele tinha qualquer coisa que eu nunca teria. Aquele rapaz não tinha a mais pequena ideia de como representava bem.” Charles Laughton, que sabia mais do que nós todo, viu bem: aquele rapaz, Gary Cooper, mexia-se instintivamente, como uma criança que pensa com o corpo, com a inocência animal de um gato.

A outra magnífica descoberta que fiz neste livro de António Branco foi uma descoberta que agarrou em mim ao colo. Agarrou em mim em peso, nos meus 61 quilos, e foi sentar-me outra vez nos bancos da Faculdade de Letras de Lisboa, quando eu estava a ouvir o meu mestre de filosofia antiga, o professor José Gabriel Trindade Santos que, não certamente por acaso, é o prefaciador desta obra.

O método que António Branco propõe, e a que ele submete os seus estudantes, é uma verdadeira floresta de etapas que têm a particularidade de ter nomes prodigiosos. Há o “aquecimento”, e há a “incorporação”, a “improvisação” e há a “conversa com o texto memorizado”, nomes quase neutrais, digamos, mas há depois exercícios que se chamam “O Leproso”, ou o “Trapo Queimado” ou “O Cego”, e ainda o “Demoníaco/Angélico” e este que pareceria até estar mais ligado ao comércio de retalho a que ele chama “Carga/descarga”. Estes nomes exuberantes parecem apontar para uma aventura de grande extroversão. Diria que parecem definir um percurso pedagógico que tem a intenção de fazer alguém sair de si mesmo para ser outro, para fingir um fora de si que seria o actor.  

Nada mais errado, todos os exercícios do método que António Branco defende só lhe interessam se forem um processo dialéctico de auto-conhecimento. De repente, o antiquíssimo Sócrates, o ateniense da cicuta, volta à vida e mostra ao actor deitado, ao actor convulso, ao actor enrolado no seu próprio corpo, ao actor caracterizado, ao actor naturalista, que toda a sua aprendizagem se resume à velha máxima: “Conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, em cada página que lia, misturada com as letras, com as palavras, apareciam-me sobrepostas a máscara de Sócrates e a cara trocista do meu professor Trindade Santos.

Para mim, portanto, “Visita Guiada ao Ofício do Actor” foi, em primeiro lugar, a descoberta do grupo, do colectivo, como uma fonte de identidade primária, ou primeira, em que o actor recupera o instinto do gato e o gosto pelo lúdico da criança. E foi, em segundo lugar, o reencontro do processo de auto-conhecimento com tudo o que esse “conhece-te a ti mesmo” tem de reencontro com a autenticidade, palavra chave do léxico do professor António Branco.

Bastava-me isso, para estar aqui a afogar de encómios este livro. Sucede, porém, que há outra figura a emergir destas páginas. Já mencionei o encenador Adolfo Gutkin, já referi Sócrates e o professor Trindade Santos. Podia também referir Stanislavski, Grotowski, Brecht ou Fernando Amado, mestre de tantos actores portugueses. Mas acontece que, envolvendo todos estes nomes, comendo e bebendo deles, incorporando-os, por isso, há uma figura tutelar neste livro. É a actriz Manuela de Freitas, mãe ou deusa do Teatro do Mundo. António Branco é autor deste livro, mas o olhar apaixonado dele, às vezes mesmo um olhar de pura devoção, está posto, como os olhos de Mrs. Muir no filme de Joseph Mankiewcz, no fantasma do capitão Gregg. Só que neste livro o capitão Gregg é Manuela de Freitas.

Diria que metade do livro é um périplo por um método em que, a cada passo, irrompe o exemplo de Manuela de Freitas, a sua ética de actriz, essa sua vontade de absoluto que esta citação que retirei do livro bem testemunha: “Um actor é um ser que resolve ter como profissão, conhecer-se totalmente, saber tudo o que tem, o que podia ter, o que é, o que poderia ser, do que é capaz, do que não é capaz.” E ela, a senhora De Freitas, conclui, vicentinamente: “O actor é toda a gente e ninguém.” Ou seja, o actor que Manuela de Freitas quer ser tem nela a máxima universalidade e a máxima despersonalização. Absolutos, sempre.

Na sua proposta modesta de se apresentar como “Uma Visita Guiada ao Ofício de Actor” este livro quer esconder, mas não esconde, que está marcado pela vontade de absoluto, pela feroz exigência de autenticidade de Manuela de Freitas.

E é por isso que toda a segunda parte do livro, cerca de 150 páginas, reúne textos, entrevistas e intervenções públicas da actriz. São 150 páginas turbulentas. Fisicamente turbulentas – preparem-se para a tempestade e para os poços de ar.

Em Manuela de Freitas, com Manuela de Freitas, vida e teatro, política e arte, ética e estética, corpo e alma, carne e mente, são conceitos ferrados uns aos outros à dentada. Doem. Doem por ser sagrados, inseparáveis à nascença. Quando Manuela de Freitas surge, neste livro como em cima de um palco ou num filme de João César Monteiro, sabemos que o espectáculo vai começar. Mas mudem, por favor, o azimute do conceito de espectáculo. Esse espectáculo é um ritual religioso de que ela é a sacerdotisa. Quem se quiser meter nisto, não pense que que se vai amenamente divertir. Preparem-se para ouvir um grito, mesmo se, por vezes ou quase sempre, o grito mais forte e mais profundo é um grito mudo.

Numa das suas entrevistas Manuela de Freitas dizia: “Ganharia muito melhor a fazer telenovelas. Já me ofereceram milhares de contos para fazer de troféu de caça e sou insultada por não ceder.

Este livro é, acima de tudo, a história dessa não cedência. É um livro sobre a integridade. Obrigado António Branco.

O começo de uma bela amizade

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É fácil, não dá milhões, mas pode muito bem ser o começo de uma bela amizade, como a editora promete, neste post que partilho.
Já sabem que sou suspeito e tenho, neste caso, conflito de interesses. Ainda bem, digo eu

A Guerra e Paz quer dar-lhe este livro. Mas queremos que este gesto seja também o começo de uma bela amizade. Para receber esta oferta, pedimos-lhe duas coisas:

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Ps – Esta oferta termina no dia 31 de Março. Os leitores que já são amigos da Guerra e Paz e inscritos na newsletter podem beneficiar já desta oferta.

Um sopro de humor

Chegou hoje às livrarias, a uma livraria perto de si. Este é o livro para quem gosta da vida, da liberdade de expressão e do riso solto que tira do sério os fanáticos dos nossos dias. Se não o ler, arrisca-se a perder o livro do ano.

Os benefícios da calacice

Um belo e improvável par

Homenagem a dois homens – dois senhores – que enriqueceram a minha vida

Já houve um mundo perfeito, um tempo em que a palavra “senhor” não saíra ainda do dicionário. E era impossível, na Cinemateca de João Bénard, pensarmos neles sem lhes juntar a então respeitável qualificação: o senhor Alberto e o senhor Gil. Eram mais unha com carne do que Jack Lemmon e Walter Matthau. Lemmon e Matthau dançaram juntos a rumba, foram jornalistas siameses em “The Front Page”, mas “buddy, buddy” foram, nas suas excelsas vidas, o senhor Alberto e o Senhor Gil.

O senhor Gil era o lisboeta genuíno, vindo da escola da função pública da outra senhora, ardiloso, nervo capaz de inventar uma finta em menos relva do que o estonteante Garrincha. O João Bénard herdou-o como motorista. Para a eternidade.

O senhor Alberto tinha vindo de Angola. Descendente da realeza de Cabinda que assinou com Portugal o incumprido tratado de Simulambuco, expressava-se num fino português de Garrett, com toques de Luandino, e era a calma de Deus descida à terra.

O senhor Gil era motorista, o senhor Alberto, responsável pela manutenção do palacete e da sala de cinema. Evocá-los é evocar a nostalgia de um admirável velho mundo, uma nostalgia de “How Green Was My Valley”, se bem se lembram. O senhor Gil e o senhor Alberto amavam-se porque partilhavam a mesma forma hábil e desprendida, activa e preguiçosa, de resolver problemas e viver a vida. Faziam tudo o que era preciso fazer, mas mal podiam, não faziam nada, o que gozavam, sem culpas ou hesitação.

Um ocioso parêntesis para lembrar a pureza em forma de telefonista, a dona Rita, gordinha e angolana também, que nos tratava por meu anjo, às vezes um “ó filhinho”, minha flor – assédio de que os descendentes dela terão um dia de pedir desculpa. A quem telefonava respondia, “Telefona mais tarde. Esses meninos são vadios, nunca estão no lugar”, para depois nos dizer: “Filhinho, já te salvei de um que te queria chatear.”

E volto a Lemmon e a Matthau, ou seja ao senhor Alberto e ao senhor Gil. Se João Bénard foi o Billy Wilder dessa risonha Cinemateca, também a eles o deve. O amor que os dois tinham à casa e ao João era um amor lânguido, em que a dedicação não excluía o deleite de uma certa calacice, mândria ou fleuma. Eram “senhores”, sublimes sobreviventes de um mundo pré-competitivo, que não mais voltará. Eram o cinema transformado em vida.

Um percalço de tamanho médio

Um festim

Eu ia falar de um pénis. Mas omito por enquanto a indelicadeza e falo do ser humano. Não basta dizer ao ser humano, «ama o teu próximo como a ti mesmo» ou ainda «honra pai e mãe». A tentação é grande e o diabo, ou o Pai da Mentira, como lhe chamava Nelson Rodrigues, ele próprio pai ou padrasto de todos os cronistas, sussurra à orelha do ser humano e morde-lhe suficientemente o excitável lóbulo.

Que outra coisa, senão o sopro do Pai da Mentira, poderia explicar o desatino de Saeed Hasmi e Jan Yadgari, donos da Pizzeria Italiana, em Roath, Cardiff, 2008, ao polvilharem o seu famoso bolo de chocolate com fezes humanas? Vinha uma multidão de noctívagos, pediam café, brandy e sempre uma fatia de bolo, e vejam ou cheirem o que Hasmi e Yadgari lhes punham no prato!

O ultraje daqueles dois celerados não melindra a glória da gastronomia, as suas sinfonias gourmet, os rondós do palato. A glória da gastronomia imita a glória da vida. Ao longo de longos mil anos, a vida foi esmurrada. Esfaqueada com sangramento abundante. Manda a razoabilidade, o funcionário público, o notário e o médico legista que a vida estivesse já no túmulo: todos os dias, porém, a vida sai do imprestável cemitério e exulta, serpentina, polvilhando o mundo de alegria, se ouso usar essa palavra anacrónica.

Na seca inutilidade da sua sabedoria o filósofo Theodor W. Adorno abriu um abismo: «Não pode haver poesia depois de Auschwitz.» O génio de Adorno é um deserto inabitável e o ser humano prefere-lhe o que Adorno diria ser o insuportável oásis. Herberto ou Larkin, Drummond, Sylvia Plath ou Borges são os oásis que desmentem o deserto de Adorno com a impronunciável palavra poesia.

Mas já me volto a sentar à mesa. Nem sei se foi em Berlim se em Munique, 1983, ainda essa Alemanha era só Ocidental, um homem comprou uma sanduíche, uma Mettbrötchen, creio. Agoniando-se, o indesmentível Times, conta-nos que, a acompanhar a carne de porco picada, salsa e cebola, vinha um polegar humano. Em 2005, encontrou-se outro dedo num frasco de mostarda – seria do mesmo homem? – e uma mulher de Los Angeles, em 1992, tropeçou num preservativo ao cortar um pão de forma. Pela mesma razão, por deparar no meio da apetitosa tarte da sobremesa com a camisinha que se diz ser de Vénus, Dalvin Stokes processou em 15 mil dólares a cafetaria Morrison’s de Winter Haven, na Florida. Comia com a mulher e o profiláctico dispositivo assombrou-lhe o prazer da mesa: ele jura que o inóspito intruso tinha o inequívoco ar de ter cumprido a sua missão protectora.

E eis o que os nosso radicais, os fascistas e os anti-fascistas, não compreendem: os incidentes não anulam a essência. Aí está o mistério e júbilo: não desistiremos nunca da mesa, do deleite de cheiros e sabores, por mais lúgubres episódios que também dela se contem. Ouvimos e logo estamos prontos para voltar à velha mesa e trinchar o peru ou servir as iscas com elas, mesmo sabendo que, em 2006, em Estocolmo, espalhava uma formosa e segura Madeleine o ketch-up nas sanduíches pelas quais marido e filhos já estavam à espera, num salivado nham-nham, quando do frasco se ergue, exagero meu, um pénis. De tamanho médio, isso sim, asseguram marido e mulher, Simon e Madeleine. Mudaram de marca de ketch-up, claro.

Os nossos extremistas sai-lhes à mão o percalço de um pénis de tamanho médio e derramam-se num clamor de quinto dos infernos: cospem o dilúvio, arrasam estátuas, exigem deportações, armam inquisições, deitam fora a água do banho da vida e vai junta a vida e o pénis dela.

Publicado no Jornal de Negócios