A criada e os pobres

O susto

Bica Curta servida no CM, na 5ª feira, dia 2 de Maio

Eusébia, personagem de “O Susto”, romance de Agustina, sai-se com uma boca guerrilheira: “O mal dos pobres não é serem pobres, é continuarem a sê-lo…”

Eusébia é uma criada, dedos sujos, molho de favas no avental, e quer acabar com os pobres. Mas há quem precise que os pobres sejam pobres para os desfraldar como estandarte, ao vento leste, sai lá. Bem se pode mostrar-lhes que o maior bem-estar está nas Suécias, Noruegas, Suiças, apostadas na prosaica equação de trabalho, capital, empresas, para acabar com os pobres. Querem lá saber: jamais trocarão os vistosos hinos da indignação pela chata bica quotidiana da competência.

O suor do rosto

Primeiro 1º Maio no Porto

Bica Curta servida no 1º de Maio, no CM , há duas semanas

No 1º de Maio, ergo a bica cheia à gloriosa luta dos trabalhadores anarquistas que no século XIX quis civilizar o trabalho operário. Alguns morreram na forca, inocentes.

Cresci num meio de oficinas, serrações, portos e caminhos de ferro. Gente com orgulho no labor físico, no suor do rosto, na perfeição do seu trabalho. Todos confessavam um desejo: não quero que o meu filho vergue a mola como eu! Queriam os filhos em profissões a milhas da ferrugem. Não os queriam a sujar as mãos e o rosto de terra, óleo, tinta e pó das obras. Lutaram por um mundo melhor: uma educação que livrasse os filhos da maldição do violento trabalho manual.

Cianeto e um tiro

Bica Curta servida no CM,  na 3ª feira, 30 de Abril

Adolf Hitler und Eva Braun auf dem Berghof

Casaram no dia anterior. Tomaram uma bica e suicidaram-se depois. Adolf Hitler e Eva Braun morreram, faz hoje, dia 30 de Abril, 74 anos. Hitler testou antes, no seu cão, o cianeto que ele e Eva engoliram depois. A si mesmo, Hitler deu ainda, por via das dúvidas, um tiro na cabeça. Deixou-nos o mais hediondo crime que a humanidade viu, a morte em massa de seres humanos em fornos crematórios. Matou por uma só razão: o ódio étnico, ódio ao judeu.

O monstro da irracionalidade atormentou nazis e comunistas no século XX. Invocou-se a raça, invocou-se a ideologia para matar sem lei. Não podemos deixar o monstro à solta no século XXI.

Estes carros são comunistas

dois CV

Estes são os veículos. Veículos da minha nostalgia. Atópicos. Utópicos. Sim, senhor guarda, pode mandar-me prender, estes veículos são historicamente comunistas.

Sim, camarada polícia, não tenho fotos dos próprios dos veículos. A pressa da vida não dava, naquele tempo, para selfies, os actuais soporíferos com que renunciámos  a olhar directamente para as coisas.

Veja, camarada inspector, os meus veículos ideológicos. Chegavam a dar a mítica velocidade marxista de cem à hora.

Primeiro, lá em cima, aquele móvel objecto amado, migrador, fugitivo. Comprado a mielas, por mim e pelo meu avilo Rui, em Luanda, para nos levar a fazer a revolução no Lobito e que morreria, de morte matada, no pasto do fogo carcamano. As cinzas ficaram durante meses em frente ao Chá para Dois, no Terreiro do Pó, tão perto do mercado, esse picadeiro em que desfilavam, ao domingo, as miúdas lobitangas.

Foi o meu primeiro carro. Infantil e voluptuoso.

 

Depois, regressado a Luanda, e nos braços da sagrada desesperança da independência, outra vez a mielas, com o meu kamba Jorge, comprámos um quase igual a este aqui em baixo. Era o casulo não-conformista em que, pelos restos da revolução, circulávamos nós, os últimos hippies.

MG_LUanda

Amor estendido entre a luz e a escuridão

3D Book Uma Pedra sobre a boca

A violência que perpassa nestes poemas! A poesia de João Moita não nos põe só uma pedra sobre a boca. Esta é uma poesia que drena gangrenas, incuba miasmas. Eis um novo livro de poemas e vejam que nele regressa a voz mais íntima e física que a tradição poética universal nos soube dar.

João Moita, com a publicação de “Uma Pedra sobre a Boca”, oferece-nos a sua poesia toda: os primeiros livros, agora refundidos, todos os seus últimos poemas. Esta é uma poesia em que “os cães ladram com o bafo quente / das entranhas…” Repito, esta é uma poesia que murmura violência, que se esconde da sua própria, íntima e funda violência, como o mastim que dorme com as marcas dos nossos dentes sobre o dorso. E é uma poesia dolorosa, liturgicamente sexualizada, de amor estendido entre a luz e a escuridão.

João Moita nasceu em Alpiarça e tem 35 anos. Traduziu outros poetas, Saint-John Perse, Rimbaud, Whitman, Gamoneda, mas neste “Uma Pedra sobre a Boca” quer traduzir-se a si mesmo. Traduz-se em silêncio, sangue e volição. Eis a poesia de um falso monge, com o corpo a arder de vontade. João Mota parece querer privar-se do mundo, remeter-se à sua fome, caminhar com um anjo ferido pelos passos da escrita. Essa é a sua errância, uma errância que reconhece e quer reconciliar-se com a beleza ázima do mundo. Na sua céptica e escassa alegria confessa;

«Pôs-se uma manhã limpa como o escárnio,
estou prestes a ser feliz.»

“Uma Pedra sobre a Boca”, de João Moita, chegou hoje às livrarias portuguesas. Livro e autor juntam-se a uma colecção inaugurada por Eugénia de Vasconcellos (O Quotidiano a Secar em Verso e Sete Degraus sempre a Descer) e continuada pelo romeno Dinu Flamand (Sombras e Falésias) e por Tchiangui Cruz (Guardados numa Gaveta Imaginária).

A ler, com urgência. A tanto nos incita este poema que aqui vos deixo:

«Estou curado da minha juventude. Uma longa agonia precedeu uma repentina
convalescença. Receitaram-me doses cavalares de cinismo, fui aconselhado a
tomar exemplo nos cobardes, a aproveitar o estatismo da inquietação, a modorra
da desistência, a ebriedade do dever. Nada disso foi preciso. Sou autodidacta da
madurez: caio da árvore pelo meu próprio pé, e a árvore abate-se sobre mim.»

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Um puto vadio

Bica Curta servida no CM (mesmo ao pé do Estádio da Luaz, na 5ª feira, dia 25 de Abril

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O pé direito de João Félix é ainda do século XX: nasceu no fim de 1999. É esse pé, do século de Pelé, Maradona e Eusébio, que faz o génio de Félix. O futebol do século XXI, todo tiki taka, é geométrico e táctico. Menos João, que é um vadio. Lá vai Jesus Cristo, onde estão os discípulos? Também João, peregrino, aparece por milagre onde ninguém o espera. Bebe a bica, multiplica os pães: e é cá cada pão! Mesmo a bola, certinha com os outros jogadores, ao cheirar o pé dele logo se converte, romântica, numa Maria vai com o Félix.

Há um puto vadio no estádio: faz o que gosta, chora, ri e saca tempo para dar beijinhos ao irmão.

Frank Zappa

zappa

Do que eu gostava em Frank Zappa, além da música – e o que prezo e estimo os meus velhos vinis do The Grand Wazoo e do Waka Jawacca – era das afirmações cabais.

Desta sobre o comunismo:

O comunismo não funciona porque as pessoas gostam de ter coisas.

Desta sobre a América:

Os Estados Unidos é uma nação de leis: mal escritas  e aplicadas ao acaso.

Estas duas frases copiei-as de um livro, W. C. Privy’s Original Bathroom Companion (2003) de Jack Mingo and Erin Barrett. As frases cintilam como estrelas. A música era cósmica. Separei-me de muita coisa. Nunca do inteligente caos de Cletus Awreetus-Awrightus.

 

A starlet

Gosto de starlets. Negá-las, seria negar a minha adolescência. E o cinema precisou tanto delas. O que seria de Botticelli sem Vénus, essa starlet do Olimpo? Peço desculpa aos  cinéfilos mais fundamentalistas, mas de vez em quando faz-me falta um fim-de-semana com Elke Sommer, fazendo notar que esta prosa foi redigida em tempos que menos prezavam a elegância política da  Senhora Merkel .

Elke Sommer

Agora, a alemã Merkel já parece sexy mesmo à esquerda fracturante. Ora eu lembro-me que, grossos lábios pré-botox, grandes olhos de malícia infantil, nascida em Berlim quando pelo bigodinho do suástico Adolf passava o desvairado sopro da expansão, houve outra alemã que, anos 60, trouxe esse thrill que põe um calor húmido na escusa respiração de uma sala de cinema.

Chama-se Elke Sommer. Fotografa com a descarada ingenuidade que a perfeição do corpo, todinho em 3D, mais acentua. Via-a, agora, em “Deadlier Than the Male”, hospedeira em avião privado, a levantar a saia para tirar um charuto, que uma liga lhe prende à abençoada perna. Dá-o a um passageiro especial e acende-lho. O homem puxa uma passa com o celerado prazer com que Boris Johnson apoiou o Brexit. Puxa a segunda passa e uma bala, que o charuto esconde, dispara-se, abrindo-lhe um insidioso furinho na nuca. Está, digamos, morto. De pára-quedas à James Bond e já de fato de banho, Elke salta. O avião armadilhado explode atrás dela. O que Elke mata, nesse filme…

Se esta fosse uma crónica séria, com o decoro de um vago respaldo académico, diria que Elke Sommer foi o epítome da starlet. Dito à maneira do miúdo que fui, e que com ela privou no escuro do cinema e na intimidade couché das edições vintage da Playboy de 1964 e 1967, direi que Elke, filha de pastor luterano, foi uma alegria praticante para os meus olhos católicos.

Numas férias com a mãe, elegeram-na Miss Turista, em Viareggio, com foto no jornal. Viram-na outros olhos católicos, os do Signor Bertelli, que lhe bateu à porta da pensão, convidando-a a filmar “O Amigo do Jaguar”. Viu-a, depois, Vittorio De Sica: atirou-a para as estrelas, ou seja, para a América.

Filmou com Paul Newman, Peter Sellers, Glenn Ford e James Garner, mas o incidente que a ressuscitou nos jornais foi ter pespegado com um processo a Zsa Zsa Gabor, outra starlet. Foram as duas domar bichos no Circo das Estrelas e Gabor disse a jornais alemães que Sommer estava na miséria, vivia de vender roupa e parecia uma avó careca de cem anos. Tudo mentira e Gabor foi condenada a pagar três milhões de dólares. Pior, a última palavra foi a da ingénua Elke: “Tiveram de vir quatro homens pôr Zsa Zsa em cima de um cavalo, tão pesado tem o imenso rabo.” Por mais que a visada Zsa diga acomodar o posterior numas calças juvenis, a imagem dos homens a levantá-la em peso já é um número de circo.

Se isto não parece um James Bond vou ali e já volto