Ler o futuro na penumbra da infância

«As ruas de Buenos Aires / são já as minha entranhas.» Foram estes os primeiros versos do primeiro poema do primeiro livro que Jorge Luís Borges escreveu. E logo, dois versos à frente, ele diz que essas são as ruas do seu bairro, ruas «enternecidas de penumbra e de ocaso», promessa para o solitário que ele é – prenúncio da solidão do futuro habitante da escuridão em que se converteria. Promessa, digo eu, de uma pátria de que aqueles versos quereriam erguer-se como bandeiras.

Pode um poeta, com obra des­me­su­rada como é a de Borges, adivinhar-se todo no seu pri­meiro poema? Ama­nhã pen­sa­rei tal­vez outra coisa, hoje penso que sim. Essas pequenas ruas «enter­ne­ci­das de penum­bra e ocaso», voltaremos a encontrá-las nos con­tos fan­tás­ti­cos de aven­tura, nou­tros poe­mas de maturidade de Borges. Neste primeiro poema – «As Ruas» – deste primeiro livro – «Fervor de Buenos Aires» –, está o feliz casa­mento entre o con­creto e a meta­fí­sica, que vol­tará insistente e obsessivo no des­lum­bra­mento barroco das «Fic­cões» ou na fan­tas­ma­go­ria do «Aleph». Nas ruas apá­ti­cas de um bairro dos arra­bal­des pressente-se já a refu­ta­ção do tempo, tema tão caro nos con­tos e inqui­si­ções: estas ruas soli­tá­rias e deso­la­das são úni­cas perante Deus e a eternidade. No pri­meiro poema do pri­meiro livro, Bue­nos Aires e Bor­ges fundem-se. Inú­me­ras e soli­tá­rias pala­vras que a seguir tenha escrito não fize­ram mais do que rees­cre­ver aqueles pri­mei­ros versos.

Também Jean-Luc Godard se revelou, inteiro, controverso e perplexo, no seu primeiro filme, «O Acossado». Os actores Jean-Paul Belmond e Jean Seberg, tão inocentes e já tão desesperados, desaguam na traição canalha («dégueulasse», diz Belmondo), incarnando a impossibilidade do encontro, da fidelidade e da felicidade. E não quero sequer falar da estreia no cinema de Orson Welles, desse megalómano «Citizen Kane» que é, sozinho, uma nova história do cinema.

E o que me arrisco a dizer é que talvez toda a nossa vida esteja contida num trivial episódio que a anuncia. Toda a individualidade de Churchill, inóspita e inegociável, se definiu no colégio, St. George, onde estudou. Mau aluno, salvo as boas notas em História e nas redacções, era vítima de duras punições dos colegas e de castigos físico dos professores. «Mãe, espero que me venhas ver. Que infeliz me sinto. Tento ser bom, mas são cruéis comigo…», escreveu numa carta. Tinha 9 anos e a escrita e a oratória eram já a sua linha de fuga.

Com 9 anos também, chegou Napoleão à escola militar de Brienne-le-Chateau. Vinha da Córsega, sotaque carregado, e os camaradas chamavam-lhe «o pequeno selvagem». O puto Napoleão, que tinha já o cartaginês Aníbal e o macedónio Alexandre como conquistadores-modelo, numa das brincadeiras de guerra que faziam no Inverno com fortes de neve, propôs um plano perfeito para conquistar essa fortaleza gelada e branca. Um coro de risos e desprezo – «quem pensas que és, corso?» – cortou-lhe as ilusões. O poder solitário teria de ser a sua salvação.

Termino comigo mesmo e com uma «petite histoire» que já contei. Aprendi a ler depressa. Num jornal, deixando embasbacada a mãe Alice, li: «O burromestre de Berlim». Ela sorriu, aplaudiu e logo corrigiu: «O burgomestre e não burromestre.» É certo que li o que li de um jornal, numa parede das obras, talvez uma mancha de cimento ou tinta a fazer do «g» de burgo um «r» de burro. Mas ficou ali traçado o futuro: aprender fácil e enganar-me com ligeireza. Mas enganar-me-ei por excesso de descontracção ou por fatal escolha estética?

O repouso do guerreiro

os meus livros de novembro
o repouso do guerreiro

Pode entre o ex-comando de muitas batalhas e o ex-maoísta de muita retórica nascer uma amizade à primeiríssima vista? Foi o que aconteceu entre Rui de Azevedo Teixeira e este vosso escriba e editor. O que nos ligou? Por certo a aventurosa vida africana que ambos vivemos e, porventura, o gosto pela inteligência de refeições simples, mas requintadas, que a gota de um vinho sublime transfigura. O Rui brindou-me, e aos leitores portugueses, com uma trilogia de romances de acção e risco e de sagazes angústias amorosas. E se já leram O Elogio da Dureza, O Longo Braço do Passado e O Imenso, Sereno e Doce Rio, venham agora contemplar o repouso do guerreiro amoroso: em Ficções e Ensaios: Fascínios, Espelhos, Labirintos, o Rui, o meu amigo Rui, como se fosse um Borges português, põe-se a degustar outros escritores, de Manuel Alegre a Hélia Correia, de António Lobo Antunes a Clara Pinto Correia. Eis o que vos digo: corram a ver-se ao espelho, com ele, em cada um dos arrebatadores e labirínticos textos deste Ficções e Ensaios.

Outro sereno remanso é o que os leitores descobrirão em Países Estrangeiros, Memórias e Viagens, deambulação do poeta e diplomata Luís Castro Mendes: a ostracização diplomática é uma fonte de inspiração e a verdade é que todo o diplomata, na sua existência entre parêntesis, é um espião dos lugares, um espião da história, um espião da alheia vida de cada povo e cidade em que se infiltra. Leia-se.

Um extraordinário espião do «sonho chinês» é o sinólogo Claude Meyer. Escreveu A China de Xi Jinping, Uma Ameaça à Paz e à Ordem Mundial, um manancial de informação e um guia preventivo do que se pode esperar de Xi Jinping e da sua autocracia. A ambição de supremacia tecnológica e militar chinesa liga-se à obsessão do total controle colectivo e individual. Sim, o que se pode esperar de Xi não é propriamente a promessa de que «cem flores desabrochem». Isto, para que não se diga que não falámos de flores! Da colecção A Minha Estante (está tão bonita!).

Já sabíamos que o wokismo não é flor que se cheire. Mas agora, em Face ao Obscurantismo Woke, 26 professores universitários, cientistas e investigadores decidiram dissecar os efeitos do wokismo na medicina, na investigação científica, na biologia, na filosofia. E os efeitos são um retrocesso científico e uma perda de liberdade que confrangem qualquer espírito livre. Um pseudo-saber militante arroga-se o direito de intimidar, cancelar, excluir e proibir: uma nova Inquisição que queima em praça pública. Pierre Vermeren é o organizador da obra. Da colecção Os Livros Não se Rendem, que a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações sempre apoiam, oferecendo-a às 254 bibliotecas da rede pública.

Quem organizou Bicesse: O Caminho da Paz foi Sónia Neto. Dá, neste seu livro, a palavra a 22 testemunhos dos protagonistas que procuraram o Acordo entre o MPLA e a UNITA, aqui ao lado, em Bicesse, para estancar a guerra fratricida que destruiu Angola. De Cavaco e Silva a Durão Barroso, dos angolanos Lopo do Nascimento a Lukamba Gato, neste livro o que ouvimos e lemos é a História a falar.

São estes os meus cinco livros de Novembro na Guerra e Paz, a que a Euforia, a chancela de new adult, acrescenta um romance, A Fibra das Nossas Almas, de K. M. Moronova. Moronova é uma autora capaz de escrever esta frase: «Tenho 26 anos e quero morrer». E a seguir de trazer para o seu romance um par de olhos crudelíssimos e um avassalador sentido de humor mórbido. Já querem ler? Também eu.

Prometo: na newsletter de Dezembro só falaremos de presentes. Regalos. Gifts. Cadeaux. Prendas, portanto.

Manuel S. Fonseca, editor

Crónica de todas as despedidas

Quero falar-vos de despedidas. Foram já tantas as que vivi. Lembro-me de ter saboreado dois dos mais prodigiosos anos da minha vida na cidade do Lobito, no meio da afrodisíaca independência, numa Angola a ferro e fogo, e lá voltar para recolher uns móveis e cadeirões que me faziam falta em Luanda. Vinha numa carrinha, quase camião, de caixa aberta, a subir os morros da Gabela, a floresta densa, o nevoeiro era um manto sem brechas, e eu sentado no chão da carrinha, entre os móveis, a pujante natureza a roçar-se, tão erótica, pelos meus pujantes 22 anos, os primeiros raios de sol a serem rechaçados, uma lágrima de estupor a fugir-me perante tanta beleza, tanto silêncio e indiferença ao efémero humano. Soube então que a minha vida vadia, rebelde, tão escandalosamente jovem, estava a sair de mim e a esconder o rosto na imutável floresta e nos morros da Gabela. Por lá ficou e deslizará entre lianas, sol tórrido, a neblina das madrugadas.

Um dia, era ainda adolescente, aportou ao cais, em Luanda, um transatlântico italiano majestoso. No convés, vi a mulher mais bela que um adolescente pode ver. Era «a mulher», com a sua aura de mulher, cabelo de deusa, o decote de que nasceram todos os decotes. Chorava. Via-a do cais e, pese embora a minha recente miopia, juro, e jurarei para a eternidade, que ela chorava. Quem a abandonara? Que separação, despedida e dor vinham, com a insuportável doçura da tristeza, acariciar-lhe os braços – seriam morenos os seus braços italianos? – e descer por ela como um rio desce para a foz?

Não chorei muito na morte do meu pai e da minha mãe. Chorei uma só vez. Meti-me no carro e fui de Lisboa a Coimbra – e teria ido em contramão se preciso fosse – mas já não encontrei o meu pai com vida. Já não falava da última vez que o vira, mas ainda escrevera duas palavras na humilde agenda dele, que guardo. Fui ver, sem uma lágrima, o corpo dele na morgue. Já o tinham vestido. Estava tão quieto em cima da mesa. E eu tão calmo a olhar para o pai morto. Sem que previsse, uma torrente violenta fez-me estremecer e um mar de lágrimas irrompeu. Foram três, quatro, talvez cinco minutos de convulsão, choro descontrolado, respiração patética, a mais imprevisível das despedidas e eu tenho a certeza de que o meu pai estava ali. Ainda.

Da minha mãe, a morte estava anunciada. Soube e fui de carro para Coimbra, passava na minha cabeça o filme de tanta ternura, dos dias de amor irrestrito. Uma saudade tranquila. Depois da estação de serviço de Santarém, subia a Serra de Aire, o aflitivo anjo do choro, imparável, dominador, absoluto, tomou-me conta da cabeça, dos olhos e do peito. Não sei por onde o anjo entrou em mim, mas outra vez, como com o meu pai, deixei de ser dono de mim mesmo, arrebatado por essa imensa mão das lágrimas e pelo ronco atroz da dor.

Foram as minhas mais exuberantes despedidas. Fizeram-me bem porque me fundiram num abraço molhado, quase gritado, com pai e mãe, libertando-me para a solidão tão bonita de já não ter ninguém atrás de mim e ser agora eu, ao lado da Antónia, a retaguarda da minha filha e do meu neto, que um dia chorarão por nós o terramoto de três ou quatro minutos convulsos, vindo lá do fim dos tempos.

Contei-vos tudo isto para dizer adeus. Esta é a minha última crónica no Negócios. Por escolha minha. Fiquei com mais uma editora, a grande Gradiva. E quero, por amor aos livros da Gradiva e da Guerra e Paz, dar-lhes toda a minha energia. Aqui, no Weekend e no Negócios, fui feliz. Com os meus directores, com a Lúcia Crespo, minha editora, e, sobretudo convosco, caros leitores. Adeus.

Adeus

Despedi-me dos jornais. Esta foi a minha última crónica no CM. Jà a seguir publica a última crónica no Weekend. Reservo-me uma missão: a de traduzir, escrever e editar mais livros – se possível, melhores livros, nas agora minhas duas editoras, a Guerra e Paz editores e a Gradiva Publicações. Aqui, continuarei, enquanto estiver firme, a trazer notícias de livros e de mil e uma coisas da vidaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

Venho despedir-me dos leitores do CM, como há dias, por minha livre decisão, me despedi do Octávio Ribeiro, que, há sete anos, teve a gentileza de me convidar para o CM, e do Carlos Rodrigues, agora meu excelente director. Tal como disse a esses meus dois amigos, digo-vos, caros leitores, que me despeço com entusiasmo. Em vez de choro, alegria.

Quis o destino que, aos 72 anos, me caísse ao colo uma bela editora de livros, a Gradiva. Vou geri-la e ser dela o editor, como já o sou da Guerra e Paz. É uma missão exigente, e com o dobro da responsabilidade, para que parto como se ainda tivesse os meus longínquos 30 anos. Seria leviano não concentrar todas as forças que me sobram nesse projecto.

Quando eu era novo, acreditava que a coisa mais importante da vida era ter um ideal. Hoje, tenho a certeza. E eis do que não gosto no mundo que nos rodeia: não gosto da crispação dos discursos, não gosto da feroz polarização, não gosto da exclusão idiota, seja de quem for, por ser de direita ou por ser de esquerda.

Pode parecer risível querer alguém contrapor-se ao devastador tsunami de radicalismo que nos submerge. Haverá ainda lugar para um inocente neste mundo abrasivo? Já um parisiense cínico, um dia me avisou: é lindo ser inocente, mas convém não abusar. E, todavia, acredito que o livro é o grande contraponto ao radicalismo que nos tolhe. No livro há tempo para se pensar, no livro supera-se o imediatismo dos «sound bites», no livro cabem cambiantes e argumentos, esses argumentos que o subtil Oscar Wilde dizia detestar porque podiam ser convincentes.

Despeço-me, entre os 50 anos do 25 de Abril e os 50 anos do 25 de Novembro. Essa realidade dá-me a melhor imagem da despolarização que procuro: não é pelo PCP se armar em dono do 25 de Abril, que nos rouba a alegria desse dia de liberdade; não é pela direita radical se armar em dona do 25 de Novembro, que nos rouba a celebração desse dia de plural democracia. Num livro tudo isso fica ainda mais luminoso. Encontramo-nos na esquina dos livros. Obrigado.

Quando acabam as canções

Ali ia eu atarefado com a minha morte, as rodas da maca entoando uma música mórbida e a riscar o asfalto das áleas do hospital Curry Cabral. Era de noite e levavam-me, estrelas e lua a decorar o céu de Dezembro de 2020. Arrependo-me de não ter pensado que era à última vez que as via, às estrelas e à lua. O que me rasgava a cabeça era um cometa de ironia: nunca ter visto no cinema um tipo ser levado de maca num hospital pelo meio das árvores, entre terra e céu, os esgazeados olhos postos no cosmos.

 Estava agarrado a essa originalidade, a achar que o travelling que embala o Al Pacino, no «Carlito’s Way», do De Palma, era um menino ao pé do meu deslumbrante plano-sequência, que tomara o Scorsese, quando entrei no bloco dos cuidados intensivos.

«Estou a descer», pensei. Desce-se para a morte e ao passar da maca para a cama, mil tubos, o pólo norte enfiado no nariz – o gelo que é respirar-se junto à barriga da eternidade – convenci-me que estava nas caves hospitalares, o que a minha desaustinada mente via como antecâmara da definitiva e perene escuridão.

Sabia que ia morrer. Nesses dias, no mundo, e para que conste, nós humanos morríamos como tordos. Gostava de ter tido, então, a desprendida serenidade de um D. H. Lawrence, que, olhos nos olhos da morte, disse: «Penso que é hora de me darem alguma morfina!». Na minha rasteira trivialidade, de mim para mim, disse: «Que chatice!» A intranscendência de um «que chatice» precedeu a minha ingloriosa rendição. Desisti e deixei-me ir à morte. Fez-se escuro e eis o que quero dizer: a morte vem de dentro de nós. Estava uma sala asséptica, as ronronantes máquinas com apneias de pis e pis, pi e pi e pi, uma limpeza pristina de antes do big-bang, e dentro de mim só escuridão e monstros.

De onde vinham os gigantescos fantasmas com capas de Batman, de onde vinham os Polifemos voadores que pareciam ceifar-me a cabeça e furar-me os olhos, de onde vinha essa mistura de extraterrestres com titãs, essas naves voadoras incansáveis que, de repente, eu comecei a abater – que irritação com Deus, que irritação com o portentoso Além me fez empertigar e sacudir esse obscuro Hércules sem rosto que já me agarrava pelas nádegas como quem leva um presunto?

  Não sei em que ponto foi dos cinco dias e cinco noites em que a parafernália galáctica dos pesadelos me furava o peito e o ventre, me sugava as entranhas, mas sei que no meio desses mil rostos sem rosto da morte – e nenhum era a Senhora de Branco, que alguns disseram tê-los visitado – um humilde acorde musical soou.

Uma canção modesta veio de visita à minha escuridão. Não sabia cantá-la, mas como uma agulha espetou-se-me esta expressão, «o inteligente». Estavam os Darth Vaders num hipersónico coro assassino à minha volta, quando na minha cabeça se formaram os versos completos «e diz o inteligente / que acabaram as canções».

Eis a rutilante má-criação com que voltei à vida: «Acabaram, mas é o caralho.» Com a «Tourada» do Fernando Tordo, versos do Ary dos Santos, eu soube que as canções não tinham acabado. E enquanto cantava, dentro de mim, que as canções não tinham acabado, os monstros, Titãs, Polifemos, Darth Vaders, enfiavam o rabo entre as pernas, Deus e o portentoso Além batiam em retirada.

Voltei, radiante e tão fraquinho. Só então descobri que o bloco dos cuidados intensivos era num andar superior – já lá voltei a vê-lo – o que mostra que afinal só sei que nada sei sobre a morte: a morte talvez não seja um caminho a descer; a morte talvez seja sempre a subir, ascensão de que somos os persistentes alpinistas.

Publicado no Weekend, do Jornal de Negócios

Livros, luxo, calma e volúpia

Esta é a newsletter que mando a quem gosto, mas sobretudo a quem muito gosta de livros. Dedico esta newsletter ao editor Guilherme Valente, meu amigo, que me passou o testemunho, pondo sobre os meus débeis ombros a tremenda responsabilidade de dirigir, a partir de agora, a GRADIVA.

Os meus livros de Outubro

Talvez seja o mais bonito, o mais lúcido e o mais angustiado Outubro que já tive como editor.

Deixem que comece pela paixão: um dia, na casa californiana de Jorge de Sena, a senhora dona Mécia emprestou-me o exemplar de From Ritual to Romance, o maravilhoso ensaio antropológico de Jessie L. Weston. Nunca lhe devolvi o livro, mas hoje ofereço aos leitores portugueses a edição dessa preciosidade que aparece em filmes como Apocalypse Now ou The Doorso Mito de uma Geração. Chama-se Do Ritual ao Romance e ensina-nos que o que pensamos e fazemos vem de um tempo antiquíssimo. Somos, ensina-nos Jessie L. Weston, muito mais pagãos do que os cristianíssimos cavaleiros da Távola Redonda poderiam pensar. Querida Dona Mécia, devolvo-lhe, agora, o seu livro, finalmente publicado em Portugal, nesta edição da colecção Os Livros Não se Rendem, que a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações vão levar a toda a rede nacional de bibliotecas.

Tão bonita a Cartografia do Desejo que Alfredo Cunha, um dos nossos maiores artistas fotógrafos, quis oferecer aos leitores portugueses. Há uma edição muito limitada, em capa dura, grande formato, papel de deuses, impressão quase inefável, e há uma edição em formato mais pequeno, de se trazer junto ao coração, linda de viver. Um prefácio de Valter Hugo Mãe e os textos de Ariana Aragão entrelaçam-se com fotografias de corpos nus, corpos primordiais, corpos a consumirem-se na subtil vontade de se fundirem noutros corpos. Um livro que sem o mecenato do dstgroup não aspiraria a tanta beleza.

«Onde me encontro? Que mundo é este a que estamos confinados!?» Com esta exclamação começa um dos mais sofisticados romances que já publiquei. Amadeu Lopes-Sabino, seu autor, deu-lhe por título Azul da Prússia, e leva-nos, sempre com esse poderoso veneno que todo o azul da Prússia oculta, de Portugal ao III Reich, do Brasil à URSS, num arco de tempo temperado por um léxico mais perto do murmúrio do que do grito.

Fernando Paulouro das Neves reincidiu: escreveu agora  As Sombras do Combatente, glorificação de uma figura real, Eduardo Monteiro, um clandestino veterinário português que se bateu contra o ditador Franco e que foi irmão de armas da Resistência francesa aos nazis. E contra Salazar, claro está.

Vingança em estado puro e cru é o ingrediente que Riley Sager usa para começar este Treze Horas para Chicago, um thriller todo criminosamente tricotado no perfeito huis-clos que é um comboio. Disse que o comboio é de luxo? Está dito. Não digo é quem mata, quem sobrevive, quem salva. Não digo.

E agora, dois ensaios lúcidos. Com a serenidade e clareza que marcam a sua argumentação, João Pedro Marques escreveu Reparações e Outras Penitências Históricas, uma incursão frontal sobre temas como as reparações históricas, a escravatura e o futuro do ensino da história em Portugal. Corajoso? Arrisco dizer que é apenas verdadeiro.

Eu prometi angústias. Vamos e vejamos. António Costa Silva escreveu Angola aos Despedaços: 50 Anos Depois, Que Futuro?balanço de 50 anos da independência da terra amada em que em belos despedaços deixei a minha infância. Este é um livro de amor: uma análise rigorosa de tanto que correu mal na economia e política angolanas. Mas onde está também o que Angola fez bem. O duro livro em que se casam amor e verdade

E está feito: fechámos o projecto Três Séculos de Economia Portuguesa, que começou com o apoio da CCP, Confederação do Comércio e Serviços, e se converteu em livro com o mecenato da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações. Chegam aos leitores os dois últimos dos cinco tomos da colecção, ambos escritos pelos economistas José Félix Ribeiro e António Mazoni. Um é A Grande Transição da Economia Portuguesa: Do Império para a União Europeia, que nos faz passar pelo 25 de Abril, entrada na CEE, do euro até ao presente. O outro, O Século XXI: Portugal e as suas circunstâncias, passa pela angústia do pedido de ajuda financeira e pela proposta, com inteligência e bom-senso, de um caminho de futuro para Portugal.

Dez livros de Outono, dessa coisa, o livro, que não é mais do que «ordem e beleza. Luxo, calma e volúpia», como alguém disse, no meio do spleen de Paris.

E não posso deixar de falar do que anda a fazer a Rita Fonseca na Euforia. Começo pela pouca santidade do Santo, de Sierra Simone, autora que já roçara o escândalo em Padre e em Pecador. Fecha agora a trilogia de muitas confissões e ainda mais proibições. Romances, portanto. Portanto? Portanto!

Navessa Allen, se no romance anterior estava Às Escuras, neste novo romance de Outubro da Euforia está De Joelhos. São títulos tão promissores como inquietantes, das mais bem-sucedidas expressões do dark romance: a autora já passou o milhão de exemplares vendidos.

Manuel S. Fonseca, editor 

O dia em que não morri

«Dê um abraço ao seu marido.» Já eu tinha a máscara de oxigénio a cobrir-me nariz e boca, foi o que o técnico do INEM disse à Antónia. Por delicadeza ele não disse «Dê o último abraço ao seu marido».

Eis o que confesso a quem me leia: mete-se em nós um silêncio de porcelana quando começamos a soletrar as cinco letras da palavra morte. Dois dias antes descobrira que tinha covid. E em 48 horas, nesse crudelíssimo mês de Dezembro de 2020, a infecção galopou. Ficou rude o meu «murmúrio vesicular»: sibilos, roncos, tosse seca atropelavam-me a respiração. Deitado, eu era uma camélia infecta e gelada. De pé, estertores crepitantes vinham do líquido túmulo que pareciam ser, então, os meus pulmões.

Já depois da Antónia e eu nos arrancarmos do assombrado e órfico abraço, de dentro do seu asséptico uniforme o homem do INEM perguntou: «Consegue caminhar pelo seu pé ou levamo-lo de maca?»

O que é prodigioso no mais humilde ser humano é o subterrâneo fascínio pelo desconhecido. Eu devia ter dito: «Consigo, mas não quero! Jamais caminharei pelo meu pé para a morte…» Porém, uma melancólica atracção pelo grande exterior, um obscuro desejo pela paisagem nocturna de branca lua seduz-nos e caminhamos dóceis, mesmo em direcção à morte, os pés tão doentes como a doente rosa de Blake.

Lembro-me que as urgências do São José pareciam a antecâmara do inferno. Doenças rutilantes sentavam-se de garras abertas ao colo da vertigem de outras doenças. Um grito, «Senhora enfermeira, tenho de ir à casa de banho», punha um acorde trivial e pícaro na obstinada música grave da crua dor daquela urgência.

Quanto éramos? A luz mortiça não deixava ver. Sentado num cadeirão, o cateter nasal a empurrar oxigénio para o meu peito relutante, o que sentia era o laborioso afã humano pela sobrevivência, cada corpo como uma centopeia ou um polvo, cem pés ou ventosas a colarem-se à húmida vida, tão escorregadia.

 Ia a madrugada a meio – as peregrinas wee hours – outra ambulância tirou-me das urgências e levou-me para o Curry Cabral. Dias depois, numa maca a correr pelas áleas que separam os blocos do hospital, outra vez à noite, como se a doença e os serviços hospitalares tivessem entrado na clandestinidade, dois maqueiros levaram-me da enfermaria para o bloco de cuidados intensivos. Via da maca as nuvens, céu, estrelas, talvez a acesa ponta da lua entre a copa das despidas árvores que antecedem o Natal.

Foi então que alguém me disse «Apresento-lhe a morte». A morte é-nos apresentado por eufemismos: pedem para despirmos a nossa roupa, para entregarmos o telemóvel. Percebi que não poderia mais ligar à Antónia, que deixaria para trás amigos e família, os livros e as salas de cinema, sem o consolo de um adeus, de uma última vez.

Entregava o meu corpo nu, como no dia em que nasci, esse dia de que nenhum de nós sabe lembrar-se, entregava o meu corpo nu, que não era já todo o meu corpo, 12 quilos roubados.

Para onde teriam ido esses 12 quilos, quase 20% roubados ao meu identitário eu? Iriam à frente, pelo seu pé, a caminho do lençol escuro da eternidade? Nu, o pobre pénis encolhido, zézinho convertido numa minúscula couve de Bruxelas, nessa nudez e incomunicação, sem um sopro de ar no peito, soube que ia morrer.

Não morri. Hei de contar porquê. Talvez para a semana. Voltei do vale das sombras de mil mortos e saí, minha segunda natividade, a 24 de Dezembro, para uma noite de Consoada só com a Antónia, obrigado a 20 dias de quarentena, mas vestido, o modesto pénis a querer assobiar, rosto oferecido à nova vida: vou agora fazer cinco anos.

Publicado no Jornal de Negócios

Tiros em espelho

O primeiro tiro à Kennedy foi o rei português Dom Carlos quem o experimentou. Disparou-o, antecipando-se umas boas décadas a Lee Oswald, a Winchester modelo 1907, de Manuel Buiça. Era, o Buiça, um atirador exímio; joelho no chão, o tiro saiu-lhe certeiro ao pescoço real, dando ao Senhor Dom Carlos, dizem, morte imediata. Os outros dois tiros que vararam o rei foram sumptuários.

Há nessa cena um lirismo e um heroísmo muito portugueses. Vejam bem: a rainha Dona Amélia tenta afastar os matadores assestando-lhes nas ventas com um singelo ramo de flores; quem a ouviu garante que ela, enquanto esbracejava, ia gritando, «Infames, infames». Ao lado da rainha-mãe, o príncipe herdeiro respondeu de pistola em punho, sendo o seu improficiente heroísmo logo abatido por um balázio da Winchester, que lhe atravessou a face e saiu pela nuca, espelho do tiro que, mais de meio-século depois, iria entrar pela cervical de Kennedy e sair-lhe pela laringe.

É melhor perecer com as vestes carmim da tragédia ou sobreviver pelo ridículo? Falemos do rei inglês Eduardo VII, que um parque de Lisboa celebra. Ainda ele era só Príncipe de Gales, sentou-se no comboio que o ia levar de Bruxelas à Dinamarca, em 1900, quando um anarquista, Jean-Baptiste Sipido, na verdade um puto de 15 anos incendiado pela matanças da Guerra dos Bóeres, saltou para o estribo e disparou dois fogachos que passaram a dedos da cabeça de Eduardo. O príncipe vai em vôo picado, asas abertas com um pato, e sai-lhe este desabafo: «Foda-se que já levei com uma bala!»

E não. Não levara com bala alguma, razão pela qual o tribunal considerou o puto Jean-Baptiste «incapaz de dolo», tanto era o seu indiscernimento, se assim lhe posso chamar. Teve, porém, o discernimento e o bom gosto de fugir para Paris, antes que o pusessem num reformatório. A gloriosa França acolheu-o com o estatuto de refugiado político.

Podia falar do atentado a tiro contra Lenine. Mas não, falo da sua segunda morte. Havia um frequentador da Cinemateca, que era a pálida cara chapada do primeiro ditador soviético. Tão doce como pálido, viveria com uma sopa por dia e a pobreza de um Bartleby, um obsessivo amor pelo cinema. Chamávamos-lhe Lenine, e um dia, como alguém dirá de nós outro dia, olha, morreu. A Antónia, minha augusta mulher, entra a chorar no gabinete do João Bénard: «Morreu o Lenine.» O João, sabedor das inóspitas inclinações políticas da Antónia, espanta-se: «Ó Antónia, o Lenine já morreu há um século.» E logo a Antónia, em choro convulso: «Não é esse. Morreu o nosso Lenine.» Não há tiros no silêncio do cinema.

Publicado há umas semanas valentes no Jornal de Negócios, no Weekend