Da tortura

São Paulo, Prisão de Luanda é um dos livros de mais convulsivo dramatismo que eu já publiquei. O autor, Carlos Taveira, então conhecido por Piri, relata os seus anos de prisão em Luanda, durante o regime ditatorial de Agostinho Neto, marxista-leninista, como do de Salazar se dizia que era fascista.
Deixo-vos o video de apresentação e, em baixo, um excerto. Para que não digam, como se dizia na canção brasileira, que na Página Negra, não se fala , por vezes, de flores.
O livro já está nas livrarias. O autor vem expressamente do Canadá para a apresentação, a cargo do professor Manuel Ennes Ferreia, em Lisboa, na sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglès, no dia 17 de Janeiro, às 18:30.

 

Do livro de Carlos Taveira, São Paulo, Prisão de Luanda

«Bonifácio era um dos guardas da escolta que connosco viajou no avião que nos desembarcou em Luanda. Grande e robusto, calmo, era um ser afável e simples antes da violência se desencadear. Quando estive recluso nas células de isolamento, aparecia com frequência para me acender um cigarro amistoso e comigo trocar duas palavras necessárias. Os presos chamavam-lhe familiarmente Boni e gostavam dele. Infelizmente para os presos, e para ele próprio, Boni foi utilizado como detector de mentiras. Ensinaram-lhe a linguagem da violência, que não lhe era natural. Vi-o em actuação quando o famoso Nito Alves, autor presumível da intentona do 27 de Maio, foi capturado. Para comemorar o acontecimento, resolveram os corajosos oficiais da polícia organizar um espancamento geral dos nitistas. Entravam nas celas, escolhiam à sorte uma ou várias vítimas e agrediam-nas com evidente prazer. Boni fazia parte do grupo. Desfigurado, riso bestial nos lábios, olhos esbugalhados, esbofeteou sonoramente o primeiro que encontrou, atirou outro ao chão, pontapeou, pisou…
Procurava na droga e na bebida a força para executar aquela ilustre missão. Trabalhou como detector de mentiras durante vários meses. Uma bela manhã, encontraram-no rindo-se imbecilmente, quase nu,  no pátio da prisão, lavando-se numa torneira imaginária. Não tinha sido capaz de suportar a pressão imposta pelos seus chefes. Ficou saluquinho, diziam os presos em jargão luandense…
Ao contrário de Boni, Babá* foi um voluntário. Era um dos presos da OCA, recuperados pela DISA, e tornou-se um qualificado detector de mentiras. Tinha-se notabilizado durante o assalto da cadeia pelos golpistas, lutando como preso ao lado da guarnição. Já tinha sido comando do exército português e militar do angolano. Para mostrar um alto grau de envolvimento no processo revolucionário, e para não deixar dúvidas sobre a sinceridade do seu arrependimento, empenhou-se no espancamento dos interrogados com grande convicção.
Uma das suas vítimas descreveu-me a sua técnica de acolhimento: apanhou um pequeno balanço, saltou e despachou um pontapé bem dirigido contra o estômago da vítima. Babá media mais ou menos 1,76 metros e pesava uns 80 quilos, onde não espreitavam gorduras supérfluas. Todas as torturas em que participou, fê-lo conscientemente. Voluntariamente.
Limão, outro detector de mentiras, era um tipo naturalmente violento e brigão. Ouvi-o dizer a um colega, enquanto fumava um cigarro descontraído no pátio da prisão:
– Vou abonar mais uns murros no muadié… para ele falar o resto.
De tanto uso, tinha a mão direita enrolada numa ligadura. Tornara-se amigo de Gustavo Grillo, o mercenário. Limão tinha-o, muito provavelmente, salvado da execução sumária por um soldado nitista. Grillo, reconhecido, dava-lhe lições de caraté. Todavia, o mercenário ficou de cenho franzido quando alguém lhe disse que havia golpes de artes marciais durante os interrogatórios. Limão gostava decididamente do seu trabalho. A alcunha vem da sua imagem de marca: cara sempre zangada e ameaçadora.
Osvaldo Inácio foi um caso à parte. Os antigos presos tinham-me falado dele, porque não se encontrava em São Paulo quando eu lá cheguei. Era recordado com saudades, sendo descrito como o oficial mais humano de toda a segurança. Indivíduo inteligente, levantava o moral aos presos, chegando mesmo a telefonar para casa dos familiares dos detidos para os encorajar e transmitir recados.
– Faz falta – diziam com saudade os antigos.
Um dia, Inácio voltou…
A primeira vez que o vi foi durante uma noite particularmente movimentada, havia um invulgar vaivém de presos para os interrogatórios e de lá para as celas. Voltavam em mau estado. Inácio franqueou a porta de ferro gritando como um possesso, rindo-se como um labrego, provocando os portugueses que encontrou. Os mesmos que tinham sentido saudades do homem. Baloiçava, numa das mãos, a perna de uma cadeira. Quando voltou, horas depois, agitava uns fios eléctricos, à laia de chicote. Rapidamente se tornou o terror dos detidos. Os que eram chamados por ele tremiam antes do interrogatório.
A Tacedo coube essa má sorte. Da barba rala que lhe enchia a cara, ficaram-lhe, quando voltou algumas horas depois, dezenas de feridas com sangue vivo ou coagulado. Tinham-lhe arrancado a barba com um alicate. Contudo, o ar orgulhoso e de desafio do torturado provocou em todos nós uma secreta admiração.
Inácio tinha seguido um curso de segurança em Cuba, durante o tempo em que esteve ausente. Um brasileiro que lá se encontrava detido comentou, depois ter sido posto ao corrente do desaparecido carácter amistoso de Inácio:
– O cara está perdendo o cabaço.
Os que o tinham conhecido nesse tempo não compreendiam como um homem bom podia ter-se transformado naquela besta. Anos depois, houve um pequeno inquérito interno na DISA, numa altura em que os dirigentes angolanos tentavam limpar os salpicos de sangue na máscara posta por cima do rosto. Mesmo que tenha sido um inquérito para inglês ver, alguns detectores de mentiras foram parar às celas de isolamento. Inácio foi um dos escolhidos para bode expiatório. Eu já me encontrava em liberdade, mas alguns dos meus amigos saborearam esses raros momentos e contaram-me. Coitado do homem, ficou meio louco com o isolamento, chorou, lamentou-se…»

Carlos Taveira

Quem dera que Michelle Pfeiffer estivesse morta

Foi esta a minha primeira crónica na coluna a que chamei “o cinema dá o que a vida rouba”. Passaram oito anos. Envelheceu muito? Quem não envelhece é Michelle Pfeiffer, que não se deixa encantar pela ideia de que morrem jovens os que os deuses amam.

michellepfeiffer

Não é de ódio este desejo. Move-me o amor: aos olhos, às altas maçãs do rosto francês de Michelle Pfeiffer. Insisto: quem me dera que estivesse morta.

Tenho maus pensamentos ao ver o fato de catwoman apertar-lhe os pequenos seios no “Batman Returns”. Como o sonso Daniel Day Lewis, torço olhos românticos às ancas opulentas que os vestidos vitorianos lhe emprestam em “The Age of Innocence”. Entre mim e Michelle há um superavit amoroso e só quero que, trágica, morra.

Em “Chéri”, ao amante que lhe elogia a beleza, responde: “Um bom corpo dura muito tempo”. Mas não dura sempre e o vil insecto dos dias corrompe a melhor carne. Pelas alminhas, não deixem que ela me envelheça.  

Explico-me. Só é Bento XVI quem não pode ser Jesus Cristo. Crucificado e com 33 anos, Cristo mudou o mundo. Passaram 21 séculos e as lágrimas que Maria Madalena chorou por ele ainda não secaram. De Bento XVI, se restar, será uma múmia que um fresco de Michelangelo há-de tapar.

Só é Meryl Streep quem não pode ser  Marilyn. Três anos depois dos 33 e presumindo que só tinha uma maneira de se encontrar com Jesus, Marilyn morreu, ou morreu-se, a barbitúricos. Morrer assim é nascer para a eternidade.  

É por isso que só é Clint Eastwood quem não pode ser James Dean. Jimmy espatifou um Porsche 550 e o corpo jovem num acidente caprichado. Fizera três filmes. O cinema há-de acabar e Nathalie Wood continuará a estremecer por Dean no planetário de “Rebel Without a Cause”. E haverá sempre um tipo de mais de meia idade a elanguescer com a lingerie que Marilyn guarda no frigorífico do Verão nova-iorquino de “Seven Year Itch”.   

Hoje escondemo-nos da morte. Penteamo-nos, inchamos o lábio, rejuvenescemos o periclitante mamilo, e era melhor morrermos. A triste medicina corrige a vida, mas mata o sonho. Só a morte confere as cores do mito, a juventude eterna. Quando confere, a quem confere.

michelle

Pfeiffer tem as formas do mito. Ia invocar-lhe a beleza, mas a beleza é a menor das suas qualidades. Em “Dangerous Liaisons” e “The Age of Innocence”, à ingenuidade carregada de desejo junta a impudica vontade de ser vítima. Em “Russia House”, à câmara, que lhe quer comer a carne, oferece inteligência terna e gentileza emocional. O pingo do sublime cai na perigosa e lábil curva que, olhe-se o seu copo donde se olhe, é a forma geométrica de a descrever em “Fabulous Baker Boys”. Isto sim, são virtudes. Faustianas, gostava eu.

Se Michelle Pfeiffer morresse agora, a doce morte iluminaria a cena em que canta Makin’ Whopee e ficaria mais vermelho o vestido, decotado em cima, decotado em baixo, com que se curva, ajoelha, rasteja e deita no estreito e imenso escândalo do tampo do piano a que se aflige e toca Jeff Bridges.

Pedir a morte de Michelle Pfeiffer é elogio e um pedido de socorro. Não queria que ela, da aparição na forma de lâmina loura em “Scarface” à deliciosa viúva de “Married to the Mob”, fosse menos do que eterna. Mas temo que os nossos dias não transijam e me venham dizer que o mito já não é deste tempo, nem este um tempo de mitos.

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Medicina tradicional

Publiquei este post há 10 anos. Retomo-o agora, sem lhe mudar uma vírgula.

kimbanda

Esta é a mais saudável das imagens que me mandaram nos últimos tempos. Com este meu primo angolano sinto-me em casa e em paz. Pela confiança que a longa lista — e se eu gosto de listas — bem atesta. Pelo desembaraço epistemológico que cruza tradição e modernidade, cirurgia e new age. Pela forma elegante como se salta da prática clínica pura e dura para esse “que-tem-qualque-problema- resolvese” herdeiro optimista do melhor freudianismo.

Mas “Chucha Grande”? Donde virá essa estética opção cirúrgica tão a contrario da galopante indução de silicone que nos avassala?

Fuga informática: Putin mandou-me os microfilmes

Está já nas bancas o Jornal de Negócios. E está lá a estreia da minha coluna, Vidas de perigo, Vidas sem castigo. Na verdade, e como podem ver, é uma página inteirinha, muito bem tratada pelo director André Veríssimo, pela minha editora, Lúcia Crespo, e pelos responsáveis gráficos. Com uma sonora ilustração de José Tiny.

negocios

Ontem, já tinha saído a minha primeira Bica Curta, no CM. O denominador comum é, está bom de ver, o meu chapéu preto.

cm

 

Gosto do meu chapéu

chapéu

Hoje, assinei no Correio da Manhã a minha primeira micro-crónica. Servi a minha primeira Bica Curta, aqui. Pus o meu chapéu e apresentei-me em 635 caracteres com espaços, debaixo deste título: Ui, quem é este? Confesso-vos: gostei muito do chapéu.

Amanhã, no Jornal de Negócios, começo outra coluna, Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo. Tenho 3500 caracteres com espaços, o suficiente para correr que nem delinquente a fugir à polícia. Mas, em boa verdade, a primeira crónica é muito mais sentada do que a fugir. Luís XIV, esse rei que, como verão, não era queixinhas, explicará melhor o que quero dizer.

A favorita do rei

Gabrielle

Gabri­elle d’Estrées era a favo­rita do rei e o rei era Hen­ri­que IV, con­ver­tido ao cato­li­cismo para que pudesse ser o pri­meiro dos Bour­bons a rei­nar em França. Gabri­elle é a figura femi­nina que vemos na pin­tura, à direita. E quem, no banho, lhe aperta a tumes­cente doçura não é a mão do rei, mas só os inó­cuos dedos (indi­ca­dor e pole­gar) da duquesa de Vil­lars, sua irmã.

A beleza das duas mulhe­res, a inti­mi­dade sáfica que emana do qua­dro, faz dele uma obra-prima. Sabe­mos, para quem se pre­o­cupe com auto­rias, que per­tence à escola de Fon­tai­ne­bleau e deverá ter sido pin­tado em 1594, o que quer dizer que sabe­mos pouco, quase nada.

O gesto da duquesa requer, dir-se-ia, expli­ca­ções. A inter­pre­ta­ção triun­fante é de natu­reza sim­bó­lica: a insó­lita carí­cia que o qua­dro retrata seria a cele­bra­ção da mater­ni­dade de Gabri­elle. Os dedos da duquesa aper­tam o mamilo de uma grá­vida, o que a domés­tica ao fundo, a cos­tu­rar roupa de bebé, vem con­fir­mar. Rendo-me: a deli­ca­deza dos movi­men­tos e dos olha­res convida-nos, com gra­vi­dez ou sem ela, a só tocar­mos neste qua­dro com gra­vi­dade e pin­ças.

Olhando com vaga­res que o turista do Lou­vre não tem, vemos que o arti­fí­cio das tea­trais cor­ti­nas con­trasta com o rea­lismo da ilu­mi­na­ção, luz natu­ral que entra pela esquerda – mas como é que chega tão lím­pida e exte­rior a esta recôn­dita câmara em que duas mulhe­res se banham?! Seja como for, acei­tes todas as con­ven­ções de trompe l’oeil em que o qua­dro é pró­digo, há um por­me­nor des­lo­cado que me pro­voca inex­pli­cá­vel sobres­salto – não, não é o anel que, não no dedo que é deles se enfi­a­rem, Gabri­elle exibe na mão esquerda pare­cendo sossegar-nos quanto às futu­ras inten­ções de um rei que, por falar em mãos, mor­re­ria às de um faná­tico cató­lico numa rua de Paris. O des­lo­cado por­me­nor a que me refiro é o qua­dro que está em “arrière-arrière plan”, por trás da modesta costureira, sobre a lareira, e no qual uma cor­tesã exibe o poten­cial dos seus favo­res em pro­pí­cia aber­tura de coxas.

arriere

Audá­cia da mão esquerda do pin­tor a subli­nhar a ili­ci­tude que a mão direita não podia em pri­meiro plano pin­tar: Gabri­elle d’Estrées pro­me­tida rai­nha, influ­en­ciou a corte e comportou-se nela como sobe­rana, sem que nunca o tivesse che­gado a ser. Mor­re­ria, com o feto, no parto pre­ma­turo. Teve fune­ral de lapi­dar majes­tade: Hen­ri­que IV, que a amava em público e em pri­vado, ajoelhou-se e a corte com ele, num sen­tido Requiem, na Basí­lica de Saint-Dennis.

O qua­dro do banho de Gabri­elle e sua irmã foi objecto de cópias e pastiches: Este que se expõe no Museu de Belas Artes de Lyon.

pastiche

Ou o que Alain Jaquet, “pop artist” fran­cês que em NY andou pelos lados da Warhol e Lichens­tein, pin­tou, dando-nos moderna e desen­can­tada Gabri­elle d’Estrées que, com a ori­gi­nal, tem agu­das dissemelhanças.

fotografia

Paró­dica embora, a liber­dade foto­grá­fica deste extremo exem­plo ori­en­tal saúda tam­bém a gran­deza ina­tin­gí­vel dos mes­tres de Fontainebleau.

Pan Yue (Beijing)
Foto de Pan Yue

 

Vidas de perigo, vidas sem castigo

tarkovski
Tarkovski ensinou-nos que o risco é o melhor do beijo

É a humildade que faz o futuro. A ambição é quase sempre um pneu furado. O meu futuro começa agora e eu, como prometi, venho dizer. A partir de agora, passo a escrever no grupo Cofina.

Às sextas-feiras, no Jornal de Negócios, quem ler a última página do Weekend, vai encontrar uma coluna com o título “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo“. Escrevo-a eu. Prometo contar vidas, situações e episódios insólitos ou de alto risco, para não falar, porque é só disso que vou falar, de fraudes, aventuras e embustes. Actualíssimas coisas do passado que se misturam com anacrónicas coisas do presente. Uma vez por semana, sempre à 6ª feira.

Mas há mais. À 3ª, 4ª e 5ª feira, na última página do CM (sim, o Correio da Manhã), vou servir uma “Bica Curta“. Três micro-crónicas sobre um drama, um sorriso, uma fúria, um esgar de tristeza do quotidiano.

E agora, pedia a todas as pessoas que saíssem para eu poder ficar só consigo. Já saíram? Vou contar-lhe um segredo. Há muito tempo que não partia com tanto optimismo e vontade para uma nova aventura. No Negócios, oferecem-me o espaço perfeito da crónica. No CM, o desafio das micro-crónicas tem a mesma exigência que se pede, na guerra, a atiradores de elite. Coitado de mim.

Tenho total liberdade de escrita e posso escrever com a ortografia em que aprendi a língua portuguesa. Estarei eu à altura do desafio? É a humildade que faz o futuro e eis o quero dizer: todas as condições me foram dadas, está nas minhas mãos, e só nas minhas mãos, escrever ou não o “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” e a “Bica Curta” com  emoção, lúdica inteligência e um módico de paixão. Não sei, porque não sei mesmo, se serei capaz.

cmnegócios

 

Adeus

Foi esta a minha última crónica no Expresso.
Escrevo neste jornal, que Francisco Pinto Balsemão fundou, desde 1981. Com duas interrupções, uma para escrever no extinto Semanário, a outra, para ajudar a fazer a SIC. Não há duas sem três, pensei quando voltei, há oito anos, com esta coluna a que chamei A Vida Dá o que o Cinema Tira. Não há duas sem três, digo, sem vontade, agora que saio. Escrevi com total liberdade e fiz mais um amigo, o Miguel Cadete, meu editor, de santa paciência, mas tão firme e tão apaixonado por fotografia, estranhas edições e incunábulos. Não me perdoaria se perdesse os homéricos almoços que nos irmanam.
Parto com gratidão. Como quando parti da SIC. Devo a Francisco Pinto Balsemão as oportunidades que mudaram e moldaram uma parte do que sou. Se devo muito do que que sou, e por esta ordem, ao meu liceu, ao curso de filosofia e a José Gabriel Trindade Santos, à Cinemateca e a João Bénard da Costa, o que as minhas idas a Cannes, a Berlim, luxos como Pordenone, as entrevistas que fiz a Coppola, a Anjelica Huston, a Storaro, tantos realizadores e actores, o que viajei e negociei pela SIC, dos grande estúdios de Hollywood ao Rio ou a Hong Kong, devo-o à visão de Balsemão. Deu-me na mão mundo. Obrigado, meu caro amigo, até à próxima conversa. Convido eu.

casablanca

Adeus

Nunca serei um fanático de 1976. Pelas mesmas razões – já vão ver – não posso ser um fanático de 2018.

Havia um calor feio, suado, nas salas do aeroporto de Luanda. Abri a mala, cheia de livros, nada senão livros, e o inspector, vizinho do bairro ou ex-camarada do velho Éme, fechou a cara, como quem muda de passeio para não passar à minha porta: “Komé, vais bazar?”

Não posso, não posso ser fanático desse final de 76, ano em que bazei de Angola. Ao meu lado, o meu recente amigo Mulambo, com uma tensão clandestina, na mão o passaporte, todo ele passos em volta, estava à espera que a DISA o cangasse ainda antes de pôr o pé no avião.

Sonhamos sempre que, se nos despedirmos num aeroporto, ressuscitaremos Bogart e “Casablanca”. Mas o meu amigo Mulambo, e eu pelos olhos dele, só víamos em cada farda mais um major Strasser, o chefe dos nazis. As nossas camisas de manga curta já eram feitas da ameaça que teceria a tragédia dos milhares de torturados e fuzilados a que o 27 de Maio de 77 deu licença.

Já no avião, odiei os meus livros delatores, todos os livros, Borges e as bibliotecas, na cabeça a bater-me a desdenhosa acrimónia do inimigo: “Komé, vais bazar?”

Sentado ao lado, o meu tão recente amigo Mulambo, perseguido por ser da Revolta Activa, sussurrava estar tão certo que eles o viriam buscar ao avião, como eu estava certo disto: se dá cacho é bananeira. O Boeing no ar, Luanda agitada e nocturna sob os nossos pés, e o Mulambo resignava-se à antecipada fatalidade: “Vão mandar o avião voltar para trás.” O Mulambo a querer que o avião saísse de Angola, como o revolucionário Viktor Laszlo a querer sair de Casablanca, e eu, com o meu coração de Ingrid Bergman, a querer que congelasse ou fosse uma parede todo o espaço aéreo.

A 310 km por hora, ainda sobre a Corimba, ficavam para trás os beijos de adolescência, as aventuras humildes, meu liceu, meu bairro, minha alegria, o meu sonho pó de talco de ser angolano.

Nunca tinha dito um tão longo adeus. Hoje, digo outro. Ao Expresso, onde comecei a escrever em 1981. Saio pelo meu pé e já odeio o meu pé como odiei a mala de livros. Ao meu editor, a Balsemão, aos leitores abraço-os com oito anos de crónicas que me fizeram feliz como ao rapazinho que vê a primeira mulher nua. Digo adeus e sei: não sou um fanático de 2018, nunca serei um fanático da despedida.

shooting

Publicado no Expresso