O cinema é um lugar perigoso

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Walter Wanger e Joan Bennett

O produtor Walter Wanger puxou da pistola e, logo ali, em pleno estúdio, espetou um balázio no agente Jennings Lang que tombou redondo, mas não morto. Um só tiro. Por honra da firma.

Perdoem-me os leitores mais sensíveis começar à bruta, mas já vão ver que vem aí teoria selecta.

Wanger, que o produtor pronunciava como se pronuncia danger, por gostar da rima viril, produziu obras-primas como “Stagecoach”, de Ford, “Scarlett Street”, de Fritz Lang, ou o “Foreign Correspondent”, de Hitchcock. Foi grande ao pé de gente grande. Levou para casa, também, uma obra-prima, a belíssima actriz e mulher que era Joan Bennett. Bennett foi de uma beleza tão nocturna como clandestina em quatro filmes de Lang, e em filmes de Renoir e Ophuls.

Era a criação de Wanger. Fora ele que a pusera morena, conferindo-lhe o mistério e a figura que a atiraram para o estrelato. Wanger fez-lhe a carreira. De repente, em 1951, aparece um finório advogado de Nova Iorque, armado em carapau de corrida, convencendo Bennett a assinar um contrato com a MCA, uma agência de actores. Wanger não foi de modas. Acusou este Lang de andar enrolado com Bennett. Foi-se a ele e resolveu a coisa a tiro. Lang sobreviveu com um tiro na coxa, o casamento de Wanger e Bennett também, por mais 25 anos, e o produtor, invocando loucura temporária, passou quatro refastelados meses na cadeia.

É esta loucura, temporária ou não, que às vezes falta à teoria. Sobre as artes em geral, e o cinema não escapa, há uma indústria da teoria que parasita as obras sem precisar delas.  Faço-me de ingénuo e digo-vos: para mim, não há cinema, o que há é filmes. E dentro dos filmes há cenas, planos, actores, um décor que nos esmaga, uma certa luz que nos arrebata. Depois, já menos ingénuo, confesso que não deixo de ter uma teoria. Em boa verdade roubada a Truffaut e ao artigo (os dele eram sempre bons)  em que disse: “O cinema é fazer coisas belas a mulheres belas.” Era o que Wanger pensava e não me venham dizer que levou as coisas longe de mais.

Sobretudo, não me venham dizer que é possível criar tamanha e tão estarrecedora beleza sem um sobressalto físico. O amor de Godard pelos tremendos olhos de Anna Karina, o de Antonioni pelos eclipses de Monica Vitti, o de David O. Selzenick pela ardente Jennifer Jones, provam que, afinal, o amador se funde sempre na coisa amada: na vida por causa do cinema.

Marlene Dietrich sou eu”, disse, sem a menor ambiguidade, Josef von Sternberg, o pequenino homem que fez do rosto da Dietrich uma combinação de angulosa beleza e perdição. Tinham, juntos, no plateau, os êxtases – lembrem-se de “Morocco” ou de “Dishonored” – que na vida Sternberg algumas vezes viu fugir, prodigalizados por Marlene a outros amores tempestuosos. Wanger teria gasto o carregador da pistola.

Onde é que se metem os narizes

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O beijo de The Flesh and the Devil

De boca fechada já tinha havido muitos. A primeira vez que os amantes abriram a boca foi em “The Flesh and the Devil”. E não foi para falar, que o filme ainda era mudo. Primeiro, um cigarro passa da boca de Greta Garbo para a boca de John Gilbert. “És lindíssima” sussurra ele num elegante cartão escrito. “E tu… tu és tão novinho”, responde ela noutro cartão, por ser assim, por escrito, que os actores falavam no cinema mudo.

O cigarro já está na boca dele, as mãos aflitas à procura do fósforo que logo acendem. Não sabemos se é a labareda do fósforo, se a do ardor deles, que os ilumina como lua alguma iluminou amantes. Ofuscada, Garbo sopra e apaga a ardente cabecinha do fósforo como quem pede um beijo. Sabe-se lá que lábios, se os dele, se os dela, se abriram primeiro! Sabemos só que foi a primeira vez que num filme americano se beijou à francesa.

Há beijos escritos, beijos pintados. E míticos: o de Pigmaleão insuflou vida em Galateia. Em contos de fadas, o beijo de uma mulher faz de um sapo um príncipe. Rodin aprisionou em mármore frio e nu o beijo infernal que Dante lhe inspirou. Em “Romeu e Julieta”, cantou-o Shakespeare, como quem reza, fazendo dos lábios “dois peregrinos ruborizados” onde talvez “blushing” seja tanto o rubor como a calorosa vergonha que o precede.

Mas foi no cinema que os lábios peregrinos encontraram o seu santuário. O cinema beija melhor do que a literatura, até mesmo do que o luxo da pintura de Klimt. O movimento, luz e sombras do cinema oferecem tudo ao beijo. Fazem-no ingénuo e carnal, romântico e canalha, mignon e descarado.

Pensando que inventara o beijo, o cinema fez-lhe até a pedagogia. Em “For Whom the Bell Tolls”, a loura e sueca Ingrid Bergman, na cena em que mais celestes lhe vi os olhos, é uma improvável espanhola, uma improvável camponesa e a mais improvável Maria. Apaixonou-se por Gary Cooper, americano e combatente na Guerra Civil ao lado dos republicanos. Quer, mas não sabe como beijá-lo: “Onde é que se metem os narizes. Sempre me intrigou para onde é que vão os narizes,” diz, a escaldar de coqueterie. Senhor de um nariz que não se mete onde não é chamado, Cooper roça os lábios pelos lábios dela. “Afinal não se atravessam no caminho, pois não,” e já é ela que o beija, uma, duas vezes. À americana.

À americana, Hawks mostra em “To Have and Have Not”, as vantagens do trabalho de equipa. Bacall beija um impávido Bogart para lhe provar o sabor. Deve ter gostado porque o cântaro volta à fonte e já não me lembro se é logo, ou à terceira que o lento Bogart dá ordens à boca dele para reagir à dela: “É ainda melhor quando tu ajudas!”

À americana ou à francesa, boca mais fechada ou aberta, são precisos dois para o beijo. Nem mesmo tu, ó orgulhosa e fresca boca de Keira Knightley, beijas sozinha.

Henry Fonda não é o pai de Jane Fonda

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Henry Fonda não é o pai de Jane Fonda. Ou seja, é. Mas como se verá, ser ou não ser nem sempre é a questão.

Conheci primeiro Jane Fonda, colorida brilhante, plástica. Trocámos olhares lúbricos e ter-lhe-ei roubado algumas carícias. Não a aqueci nem a arrefeci e, “Barbarella” esquecida, passou-me. Coisas de adolescente. Eu não melhorei com a idade, ela muito.

Henry Fonda, conheci-o mais tarde. Apresentou-mo o João Bénard numa sessão da Gulbenkian. A mim e a mais 1.500 pessoas, em sala cheia, inquieta, emocionada.

É traumático conhecer pessoas em auditórios escuros como breu. Ainda por cima, Henry Fonda entrou na sala com os 35 anos de 1940, desenhado por um chiaroscuro que logo nos abria os olhos para a honestidade magoada do olhar dele. “The Grapes of Wrath” era o filme e, como o livro original de Steinbeck, em português “As Vinhas da Ira”

Nesse dia, Henry Fonda chamava-se Tom Joad e, apesar da ira que tutelava o filme, transpirava a decência dos justos. Via-se nele uma beleza inclassificável. Nem apolínea, nem dionisíaca. Os deuses, mesmo os gregos, não eram para ali chamados. Henry Fonda oferecia uma beleza humana, modesta, um modo de erguer o corpo na vertical, sem arrogância ou pose.

O corpo direito, a barba de dois dias a cobrir-lhe o rosto, sem disfarçar a cicatriz numa das faces, uns olhos divididos entre a angústia e a esperança, Henry Fonda era Tom Joad e não era apenas Tom Joad. Era o povo.

Eu julgava que já conhecia o povo. Descobri que o tinha visto, sim, mas conhecê-lo foi ali. “The Grapes of Wrath” retrata tempos de crise. Mostra uma família rural que perdeu a quinta para o Banco e, com os bens decrépitos atulhados numa camioneta miserável, segue estrada fora em busca de trabalho e da Califórnia redentora.

Tom Joad, Henry Fonda, é o filho, neto e sobrinho dessa família. Acossados, humilhados, roubados de tudo por Bancos, impostos, polícias, só lhes resta a razão última da sua dignidade. Na mais escura das noites, Tom despede-se da mãe prometendo-lhe “I’ll be all around in the dark, I’ll be everywhere”, e é nessas sombras que mergulha para, bem-aventurado e sedento de justiça, estar em todo o lado.

Nos olhos de Henry Fonda, na sua voz calma e de uma vibração segura, a mãe, Ma Joad, descobre a força e a razão para não voltar a ter medo, “co’s we’re the people”, porque somos o povo que vive.

E hoje, em qualquer parte do mundo, se vejo uma família que atafulha os bens decrépitos numa camioneta de pneus furados, em cada grito zangado, no medo de cada mãe perplexa, no riso de cada miúdo que ignora o futuro hipotecado, volto a ouvir a voz de Tom Joad, volto a ver o olhar claro, a fé de Henry Fonda.

Henry Fonda é mais do que o pai dos seus filhos. Nesse filme de John Ford, Henry Fonda é o povo que se vê all around, em todo o lado. Pode o povo copiar-lhe a voz firme e, ao olhar, roubar-lhe uma razão da esperança para esse mundo desolado que os próximos tempos anunciam?

Sessenta e nove

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Elegy, adaptação do romance de Philip Roth

Numero as crónicas que escrevo para esta página. Esta é, categórica, a 69. O número tem a impudica alegria de tudo o que é dúbio. Lembro um jantar de amigos. Louvávamos ao Raul Solnado o talento humorístico, mas ele chutou para canto, jurando pelas alminhas que humor espontâneo e repentista tinha o actor Armando Cortez. E logo, rolando palavras como cerejas, contou uma história carregada de virtude. Saía o Armando, apressadíssimo, do falecido café Monte Carlo e uma muito madura senhora cai-lhe em cima a perguntar se era por ali o Banco Nacional Ultramarino. “É sim, minha senhora, no 69.” A despistada senhora insistiu: “E o 69 é para cima ou para baixo?” O glorioso Armando não resistiu: “Ó, valha-me Deus, é um para cima e outro baixo.”

Um para cima, outro para baixo, não há algarismos que se enlacem com tanta graciosidade e leveza como, cara a cara, ou talvez não, que quem vê caras não vê corações, se enlaçam o 6 e o 9. Tudo o que se estende e alonga é gracioso, seja um rio, seja a recta de uma estrada alentejana, ou só um corpo, sobretudo dois corpos. E esta é, bem se vê, a nostálgica reflexão de quem já tem a interminável idade de um longo rio, como esses intermináveis Tejo, Nilo ou Amazonas, e se deleita a “recordar que o tempo é outro rio” por ter aprendido com Jorge Luís Borges, “que nos perdemos como o rio e que os rostos passam como a água.”

Perdido no rio da memória, flutuando em reminiscências, há em todo o velho um desaustinado amor pela juventude. Do homem velho, pelas primaveris pernas das raparigas, pelo arfante seio. Da mulher velha, pela esplêndido candor juvenil dos rapazes que virtuosamente adopta como sobrinhos. E já mordo e cuspo a generalização, para me sentar e contemplar o escritor Philip Roth.

É com ele ou dele que quero falar. Foi o amor e o ódio da América. Era o escritor lá de casa dessa América, dita inculta, que lê 20 vezes mais do que se lê nas casas portuguesas. Cada palavra, cada acto de Roth era escrutinado com espanto ou escândalo, ao que os seus romances mais impeliam, por ser ele mesmo, quase sempre, o protagonista deles, através de indisfarçados alter-egos. E eis o que me intriga: eram os romances dele que lhe copiavam a vida ou será que Roth saía dos romances para os vir viver nesta de outro modo triste vida? Em “O Animal Moribundo”, o protagonista ama Consuelo, sua aluna, tão lancinantemente bela como jovem. E ele, embora dionisíaco, lânguida e religiosamente devoto do corpo dela, esplêndido amante, é velho. Muito mais velho. Prodigioso na prova da cama, não quer submeter-se à prova social: a visita à família dela atormenta-o pela censura e olhares turvos que certamente esperam um velho que chupa assim a tão fresca e aberta juventude de Consuelo!

Pura ficção? Puríssima, claro, e por isso se repetiu na puríssima da vida de Roth, mais do que uma vez. A última aos 72 anos. Quanto anos tinha ela? Vinte e cinco ou trinta? Uma embriaguez ética apoderou-se da família da ninfa e Roth foi apostrofado e repudiado. Mesmo o fascínio da sereia pelo hirsuto velho bode declinou e o fruto do amor, mordido pelo verme, tombou apodrecido. Foi, contou um amigo, o escritor Benjamin Taylor, a olhar na morgue para o cadáver de Roth, o seu último amor. Nesse amor rejeitado, deu-se a bifurcação do corpo, esse anti-69 a que todo o velho se resigna: abdicar do seu reinado erótico. Resta ao velho a memória dos rostos, dos corpos que passaram como água cristalina, memória que apaga ou disfarça os presságios da noite mais escura.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

Bem-aventurados livros que nos levam ao reino dos céus

A Guerra e Paz, em Maio, atira-se com toda a sede ao pote. Temos livros de combate e livros de puro prazer, para não dizer êxtase.

Lançamos-lhe um desafio. Faça uma pré-compra e beneficie de condições ultrajantemente excepcionais. É muito simples. Ora veja.

Não só tem um desconto de 10% em cada livro de que faça a pré-compra, como lhe oferecemos, se a sua compra for de 20€ ou mais, um livro lindíssimo, Contradança, com as cartas de Camões, e com a as ilustrações de um espião holandês que viajou para Goa infiltrado na corte do primeiro arcebispo português e, da Índia, mandou desenhos que revelavam a vida e os hábitos dos portugueses. São ilustrações extraordinárias desse terrível espião que dava pelo nome de Jan Huygen van Linschoten.

Se se entusiasmar e fizer uma pré-compra no valor de 40€ ou mais, não só lhe oferecemos a Contradança de Camões, como também um exemplar deste Livro de Agustina, a autobiografia que Agustina Bessa Luís escreveu pondo a língua portuguesa a roçar pelo mistério, insólito e contradições, como só ela era capaz de fazer.

E agora é só escolher os livros de combate e ideias ou os livros de prazer.

Nos primeiros, Combates pela Verdade, Portugal e os Escravos, da autoria de João Pedro Marques, é um livro que se confronta e ataca a leitura da escravatura proposta, por exemplo, por figuras como Fernando Rosas ou Fernanda Câncio. É um livro que se reivindica da História e dos seus métodos. Polémico em alto grau.

Testamento Vital, nos Dilemas Éticos do Fim da Vida, de um médico, J. Filipe Monteiro, traz-nos a uma discussão de que foi exemplo a recente situação da disponibilidade dos ventiladores em plena crise da Covid-19: até onde é que se deve levar a obsessão terapêutica e manter artificialmente ligado à máquina um doente sem cura. Saiba o que é o Testamento Vital.

E se quer conhecer as ideias de uma legião de novos autores das mais diversas áreas artísticas, ligado à Sociedade Portuguesa de Autores, de Boss A.C. a Rita Redshoes, passando por David Fonseca ou Maria Inês Almeida e Rita Vilela. Leia já estas entrevistas de Lugar dos Novos, uma co-edição da SPA com a Guerra e Paz.

Mas passemos ao sonho. Oferecemos-lhe, antes de mais, uma versão única de O Principezinho. Além do texto original integral, com as maravilhosas ilustrações, esta edição contém uma parte final em que se viaja pelo livro clássico com a apresentação de enigmas, perguntas e aventuras propostas pelo editor Manuel S. Fonseca. Não há nenhuma edição igual em Portugal.

Há mais duas viagens de puro prazer, ambas por Angola, mas muito distantes no tempo e no tom. Leia, de Onofre Santos, A Vida e Morte do Comandante Raúl Morales. É um mimo de amor e guerra, de combate e dança, de sedução e drama. Onofre Santos revela a sua pulsão sedutora e erótica. Ou será o comandante cubano Raul Morales, o protagonista, que domina o autor e o leva para onde quer?

Por fim, Estamos Aqui, de Branca Clara das Neves – com ilustrações prodigiosas de Neusa Trovoada –, em três línguas, português, kicongo e francês, é uma viagem pela cosmogonia kongo. Um livro mágico, encantatório, carregado de simbolismo, uma preciosidade estética, combinatória de ficção em que seres humanos e esculturas se tocam e confundem, subindo rio Congo acima, com passagem pelos lugares míticos que são Nóqui e Matadi. Um livro para ter na mão.

Basta comprar dois destes livros e Camões vai logo consigo. Com mais um jeitinho, e ligeira abertura do porta moedas, a grande Agustina logo se junta a Camões. Só mesmo na Guerra e Paz editores.

De Abril a África, rompendo o cerco

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Foto de Alfredo Cunha

Estas foram as Bicas Curtas que servi no CM nos três últimos dias de Abril

O irritante de Abril
O irritante do 25 de Abril é o PCP. Armado em proprietário e patrão do 25 de Abril, o PCP exclui e afasta quem queira ter a visão aberta e larga da data, que consiste nestas duas coisas simples: deixámos de ter Pides e ganhámos a liberdade, para fazer dela o que quisermos. Ora, o PCP tem a visão reclusa do que chama “cumprir Abril”. Só que “cumprir Abril” é criar uma sociedade que, onde é feita, morre a liberdade e há novos e piores Pides.

Abril cumpriu-se: é a liberdade e a democracia. Poupem-nos à seca do catecismo vermelho e à seca do paleio reumático oficial. Abram a festa, pá, com mais beijos do que punhinhos fechados.

Romper o cerco
O confinamento rouba horizontes. Põe-nos sempre de dedo na ferida: ou gritamos contra os horrores de Trump ou contra a tutela da China, que tolheu a OMS. Lembro que Taiwan comunicou à OMS, a 31 de Dezembro, a transmissibilidade do Covid entre humanos. A OMS silenciou a informação até 20 de Janeiro. Taiwan não pode existir ou falar: a China proíbe.  Romperemos este cerco?

Faz hoje quase 6 séculos, Joana d’Arc rompeu o cerco de Orleães, e voltou a dar o sabor da vitória aos franceses na Guerra dos Cem Anos. Há 75 anos, os americanos libertaram o campo de concentração de Dachau. Eram cercos bem piores. Estamos obrigados à esperança.

A ciência salva
Um dos meus consolos contra o destrambelhado vírus, que nos fechou entre a cama e a cozinha, é ver que poupou África. Poucas vítimas, felizmente. E mais me alegra ver o africano Thierry Zomahoun, líder em iniciativas de educação, reclamar para África um papel de relevo na investigação científica, quer no Next Einstein Forum, em Dakar, quer no Instituto Africano de Ciências Matemáticas. Muitos alternativos e velhos progressistas anticoloniais diabolizam a entrada de África pela porta grande da ciência e tecnologia. Mas, que diabos, não é com micro financiamentos ou mini redes hidráulicas que a África sairá da cepa torta.

Queremos bons livros. O seu?

Também a Guerra e Paz passou pela quarentena. Uma das consequências foi não termos aceitado receber, durante Março e Abril, até hoje, dia 7 de Maio, os originais que autores ou candidatos a autores nos submeteram. Reabrimos hoje a recepção de originais. Os autores ou candidatos a autores podem enviar os seus potenciais livros para o email originais@guerraepaz.pt juntamente com uma sinopse e um mini-texto biográfico.

Um conselho que damos a todos os candidatos é o de lerem, primeiro, este texto sobre a nossa política de recepção de originais. É um texto pessimista, até um pouco desencorajador. Mas é um texto realista. Há, no mundo do livro, dois planetas distintos. Um é o da literatura. No romance, narrativa ou na poesia, um candidato a autor deve ser altamente exigente. Temos, na literatura mundial e na literatura em língua portuguesa, uma tradição que é preciso conhecer e depois pensar: conseguirei ombrear minimamente com essa tradição?

Desconfie da ideia de que tem jeito para a escrita. Desconfie dos amigos que acham muito giro tudo o que escreve, uns versinhos sobre a amizade, o sol e a lua. A escrita, em particular o romance a a poesia, exige novidade, surpresa, arrebatamento, emoção. Exige um invulgar domínio da língua portuguesa para não recorrer às frases mil vezes batidas, à fácil metáfora de um “fio de luz” ou do “homem lobo do homem”. O romance e a poesia são criação e só as grandes vivências, muitíssima leitura dos grandes livros e abundante transpiração de anos e anos de escrita autorizam a ideia de publicar.

Outro planeta, completamente diferente, é o da não-ficção. Nesta área, a Guerra e Paz está mais aberta a novos autores. Queremos publicar livros de actualidade, livros de sociedade, livros práticos, livros sobre temas históricos, sociológicos, económicos, ou até desportivos, que tragam informação e que sejam assinados por autores que têm conhecimento e experiência dos temas que abordam. Queremos livros que informem, que discutam as ideias feitas, seja sobre política, seja sobre a justiça, a violência, a guerra, as drogas, os conflitos étnicos ou de género. E sim, temos uma inclinação muito especial para livros que não sejam politicamente correctos.

Privilegiamos, é claro, livros que tragam apoios, livros que com facilidade permitam parcerias com entidades, sobretudo privadas, mas também públicas, parcerias que passem por compras prévias, por acordos que ampliem a divulgação na Imprensa ou nas redes sociais. Há quem se indigne com esta ideia de buscarmos condições financeiras prévias à publicação. É um preconceito que até a História da literatura do século XX desmente. O primeiro livro do poeta Philip Larkin, poeta genial e controverso, nasceu assim. E quem tenha lido as maravilhosas cartas que trocaram Jorge de Sena e o capitão João Sarmento Pimentel leu e leu bem que ambos pagaram, do seu bolso quando os editores (e eram prestigiados editores) não conseguiram viabilizar as edições.

Há, por fim, a regra fundamental: não queira saber de conselhos, nem os dos amigos, nem os da pessoa amada, e ainda menos destes que por aqui derramei. Acredite em si, obsessiva, teimosamente, e mande-nos o seu original. Já!

O top de Abril: livros, a ténue vida

For Ezra Pound, Il Miglior Fabbro

 I. The Burial of the Dead
April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.

Para Ezra Pound, il miglior fabbro

I. O Enterro dos Mortos
Abril é o mais cruel dos meses, arrancando
lilases à terra morta, misturando
memória e desejo, atiçando
raízes entorpecidas com a chuva da Primavera.
O Inverno manteve-nos quentes, cobrindo
a Terra de neve desvanecida, alimentando
a ténue vida com tubérculos secos.

Nunca o mês de Abril fez tanta justiça ao começo do poderoso Waste LandTerra Devastada, de T. S. Eliot, que me atrevi a traduzir assim, ali em cima. Foi, este nosso mês de Abril de 2020, o mais cruel dos meses, mês do nosso desconcerto e tão fundo descontentamento, deixando-nos impotentes perante a morte, o ténue fio da vida quase a despedir-se das ruas, das estradas, da nossas casas e cidades.

Aqueceu-nos, neste gélido mês de medo e de ausência, o calor dos livros. E nós, na Guerra e Paz, sentimos esse pequeno orgulho de ter ajudado. Batemos à porta dos nossos leitores e entregámos-lhes livros. É com muito gosto que vos trazemos o top 12 dos livros que os nossos leitores mais pediram no nosso site:

Moby-Dick, de Herman Melville (tradução de Maria João Madeira)
Antologia de Poesia Romena Contemporânea
Gramática Para Todos, de Marco Neves
Madame Bovary, de Gustave Flaubert (tradução de Helder Guégués)
Lord Jim, de Joseph Conrad (tradução de João Moita)
Orgulho e Preconceito, de Jane Austen (tradução de Diogo Ourique)
As Meninas, de Agustina Bessa Luis
Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio
Correspondência 1949-1978: Jorge de Sena e Eugénio de Andrade
Correspondência 1959-1978: Jorge de Sena e João Sarmento Pimentel
Fama E Segredo na História de Portugal, de Agustina Bessa Luís
São Paulo, Prisão de Luanda, de Carlos Taveira (Piri)

A sofisticação das escolhas dos nossos leitores deixa-nos felizes. Em primeiro lugar, porque esta lista realça os grandes valores da literatura mundial, de Herman Melville a Joseph Conrad, com traduções novas em que a Guerra e Paz investiu, e da literatura portuguesa, de Agustina a Sena, passando por Eugénio de Andrade. É também uma escolha atenta aos excelentes trabalhos de dois linguistas ligados à Guerra e Paz, Fernando Venâncio e Marco Neves. E há esse sinal de atenção ao mundo, à história recente que é o caso específico do livro de prisão de Carlos Taveira. O nosso orgulho é termos publicado estes livros e tê-los no nosso catálogo.

Esta é uma bela lista: a lista com que os leitores nos mostram o que esperam da Guerra e Paz editores.