Alice no país das maravilhas

alice, Tiago Albuquerque
Ilustração: Tiago Albuquerque

Não acho nada exaltante que despejem metáforas sexuais sobre a Alice de Lewis Carrol. É como dizerem que um avião é um símbolo fálico. Já andei em vários aviões, os velhos Dakota, os amplos Boeings, os confortáveis Airbus e posso garantir que, lá dentro, os aviões têm cadeiras, as pessoas sentam-se, comem, bebem, até dormem, ao mesmo tempo que os funcionais aparelhos voam, por cima ou por baixo das nuvens, às vezes pelo coração delas, até chegar a um qualquer destino. Um avião, se me permitem, é um lindo meio de transporte, como já se dizia no meu livrinho da 3ª classe quando a escola era primária. A Alice também. Salvo seja, claro: a Alice não é um meio de transporte. A Alice é um livro infantil.

Se a Alice, em vez da simples e natural história de uma menina que se deixa escorregar para o fundo do buraco dum coelho, tivesse a natureza sexual de um milhão das ensonadas interpretações que me dizem existir, seria uma seca moralizante. A Alice, escrita por um pastor anglicano que gostava de ser muito amável com meninas muito novinhas, é a história dum grande trambolhão protagonizado por uma menina, de facto novinha, mas muito valente: “…depois dum tombo como este, já não me incomoda cair por uma escada abaixo. Lá em casa hão-de ficar a saber que valente que eu sou!” disse ela mesma de si mesma.

A Alice apesar de ir “caindo, caindo, caindo” não se magoa nada, o que já não aconteceria se a história dela fosse sexual. Comparar a história que Alice não é com a história infantil que de facto é, faz-me pensar na zangada gritaria que a menina valente tem com o Chapeleiro quando este parvamente se põe a dizer que um corvo se parece com uma escrivaninha: “Eu digo o que quero dizer… pelo menos quero dizer o que digo…” explicaria a Alice.

Por outras palavras, Alice é um convite à confiança na letra e a algum voluntariado: se uma garrafa tem escrito BEBE-ME não faz mal nenhum bebê-la, se um bolo tem escrito COME-ME não faz mal nenhum comê-lo.

Também não gosto lá muito que se diga: Alice é uma história infantil amoral. Essa é a forma de falar de quem não sabe se deve ou não deitar-se de barriga para baixo, “como os três jardineiros”, quando passa o cortejo de soldados, cortesãos, meninos reais, o Coelho Branco e nele vêm, a fechar, o Rei e a Rainha de Copas. Descortês e mal-criada, Alice fica de pé: “… para que é que se serviam os cortejos, se todos tivessem que se deitar de barriga para baixo, de maneira a não poderem ver nada da procissão?” De si para si, assim pensando, Alice, que estava em pé, em pé ficou, e onde estava, para irritação da Rainha com tanta má-criação.

Mal criada, cheia de zangas e irritações absurdas, com uma Rainha que corta cabeças quando lhe apetece, Alice é a história de crianças a falar (em língua inglesa), mesmo ou sobretudo quando essas crianças são a Lagarta, o Dodo, o Gato de Cheshire. Falam lindamente, como se a língua fosse matemática e andássemos sempre e em cada palavra à procura do resultado certo. Foi o que disse a cabeça do poeta W.H. Auden. Lembrou também, com a cabeça em cima do corpo, que Alice e os companheiros passam o tempo em jogos e que os jogos são a maneira mais simples, e a primeira, de uma pessoa se organizar contra a anarquia e a incompetência.

Se eu pudesse, e se conseguisse arranjar o nome de um menino muito corajoso, defenderia Alice de todas as interpretações. Atacaria a indústria analítica que se põe a dizer tanta coisa mal intencionada que já cansa. Lembraria que Alice é uma história de pontualidade ou da falta dela: se o Coelho Branco não estivesse atrasado nunca teria passado à velocidade que passou pela Alice de Carroll. E sobretudo havia de discutir com todos os professores o mais divertido e sensato dos ensinamentos do pastor protestante que escreveu esta história sem cães (só um cachorro que não fala) por ter medo de cães, sem rapazes (os meninos reais não contam, pois não?) porque “boys are not in my line, i think they are a mistake.” Aprendemos com Alice que, por mais que gostemos do nosso gato, não devemos passar o tempo a impingi-lo a outros. Não se trata apenas de ser cansativo ou de enfastiarmos terceiros – o que acontece é que acabamos por ofendê-los.

Texto publicado há uns 10 anos, numa revista online, Alice, entretanto extinta. A Alice, por culpa da Maria João Freitas  era a coisa mais inovadora e bonita, mesmo bonita, que o palato do net já saboreou.

Pacto com o diabo

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Ainda Brian Jones estava vivo. Pôs Keith Richards a ouvir um álbum. “Quem é este gajo?” “Robert Johnson”, respondeu Brian. Keith insistiu: “Yeah,  mas e o gajo que está a tocar com ele”. E Keith explica que estava a ouvir dois guitarristas “e precisei de um bom bocado para perceber que o tipo fazia aquilo tudo sozinho”.

Está apresentado Robert Johnson (Um génio! Pura lenda segundo Marty Scorsese). Agora ouçam-no.

Este blues, sublime, junta a dor da perda e a dor do reencontro. Ela foi-se embora com o melhor amigo dele e não voltará. Nunca mais. Mas depois, a tanta angústia, junta-se a muito maior aflição da recolha da “woman in trouble” que o inverno abandonou à porta de casa.

Quem será? A que “babe” é que Johnson diz, plangente, “you better come on in my kitchen, it’s goin’ to be rainin’ outdoors”? Blues de infidelidade ou de aceitação? Dor de corno ou amor redentor? Decidam.

E, sobretudo, gostem muito deste mais famoso entre os mais famosos Delta Blues Singers. Johnson terá vendido a alma ao diabo para aprender a tocar guitarra – aprendeu de um dia para o outro, a uma velocidade impossível! – e tinha um catarata num olho, o seu “evil eye”, prova definitiva das suas relações luciferinas. Tinha 27 anos quando o Mestre das Trevas o veio buscar, no escrupuloso cumprimento do Faustiano acordo. Dizem que uivou à lua na noite em que morreu.

Há também um pessoal mais prosaico que explica tantos mistérios com o simples facto de Johnson ser um tipo excepcionalmente tímido, o que terá alimentado todas as lendas. Na sua campa funerária pode ler-se: “When I leave this town, I’m ‘on” bid you fare… farewell. When I return again you’ll have a great long story to tell.”

Os Rolling Stones gravaram, dele, pelo menos e assim de cor, “Love in Vain”, no album Let It Bleed. E o Mick Jaegger cantava o primeiro verso deste “Come On In…” no filme “Performance” de Nicholas Roeg.

Nunca casou comigo

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Clare Boothe Luce

As duas mulheres levantam-se e dirigem-se à porta. Não é uma porta qualquer. É uma porta que abre para uma rua nova-iorquina dos anos 30. Qual das duas mulheres, Dorothy Parker ou Clare Boothe Luce, sairá primeiro? Qual delas dará prioridade à outra depois de uma primeira conversa que mais parecia uma venenosa batalha de talentos?

Dorothy Parker, escritora judia, educada em escola católica, perfumou de irreverência décadas da vida intelectual americana, de Nova Iorque a Hollywood. E tenho de me vergar à verdade cristã: Dorothy foi expulsa da escola católica. Terá descrito o delicado mistério da Imaculada Concepção como – oh, minha Nossa Senhora! – um fenómeno de “combustão espontânea”, provocando, e isto sou eu a inventar, o tombo e traumatismo craniano da Madre Superiora.

Mas é a tão bela Clare, agora, à porta, que cede a passagem a Dorothy, dizendo-lhe, com voluptuosa inocência: “A idade antes da beleza!” A intrépida e sarcástica Dorothy avança e responde: “As pérolas antes dos porcos!”

Já escritora e dramaturga famosa, Clare dirá que, nessa única vez com Dorothy, estava aterrorizada, tanta era a fama daquela mulher de esquerda, que o macartismo perseguiria, a única a sentar-se à mesa dos escritores machos do Hotel Algonquin, de artigos devastadores na “New Yorker”, onde partilhava com o cronista Robert Benchley um cubículo tão pequeno que, dizia, “menos dois centímetros e seria um caso de adultério”.

Não correu melhor o encontro de Clare com o dramaturgo Bernard Shaw. Admirava-o e sentia-se discípula dele: “Ah, Senhor Shaw, sem si, eu não estaria agora aqui.” E logo Shaw, com uma doçura irlandesa: “Ah, sim? Qual é que era mesmo o nome da sua querida mãe?”

Ora, de sonsice em sonsice, estou é com vergonha de dizer quem era Clare Boothe Luce. Era anti-nazi, antes de mais. Anti-colonialista, mal visitou, na Índia, o Império britânico. Anti-comunista, assim que viu as tropas soviéticas no teatro da II Guerra Mundial. Era, portanto, sensata e conservadora, alinhando-se primeiro com a política de Roosevelt, logo a seguir com os republicanos, causa que serviu, chegando a ser a primeira mulher embaixadora americana. Em Itália, no pós-guerra.

A guerra dela com Dorothy Parker era política, claro. Mas ditada também pela deslealíssima combinação que Clare incarnava: a sua escrita tinha êxito e ela nadava em dinheiro. Clare casou duas vezes e nenhuma delas comigo. Não por eu não ser um partido sedutor e nonchalant: não sou é o multimilionário que cada marido dela foi. Luce, seu apelido, é o do segundo marido e imperial fundador da “Time” e da “Life”. Diz-se que Clare teve a ideia da “Life” e, da sua influência na revista, alguém comentou com Dorothy Parker que a terrível Clare uma coisa tinha, era gentil com os inferiores. “E onde é que ela os descobre?” quis saber Dorothy.

Aforística como uma Agustina que tivesse uma costela de Vasco Pulido Valente, Clare, nos anos 30, tinha uma sumptuária segurança financeira e um êxito estrondoso, com a peça “The Women”, só com mulheres em palco, 40 se contei bem. Convertida ao catolicismo, foi libérrima nos costumes, com uma bela fila de amantes, que lá pelo meio meteu o pai dos Kennedy, e não escondeu as experiências com LSD. Eis o retrato de uma inteligente e combativa mulher de direita a que a esquerda intelectual americana fez fine bouche. Inquieta, depois de ter tido tudo, dinheiro, artes, sexo, política, Clare, vendo a beleza a extinguir-se, tentou três vezes o suicídio, belo pingo trágico para selar uma biografia.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

O maior dos direitos

Bica Curta servida no CM, 5.ª, dia 1 de Agosto

indignados

A indignação, o malabarista direito à indignação, está gordo de sobrevalorizado. A indignação é, tantas vezes, a forma de atribuir aos outros, sejam quem forem, a responsabilidade de todos os males. Pilatos também se indignou e até lavou as mãos. Quando nos indignamos, se ao mesmo tempo não agirmos e não dermos soluções, não estaremos a usar as vítimas como estandartes da nossa boa consciência? O caminho da verdade é melhor do que o da indignação.

Quem vale mais? Quem se indigna ou quem resolve? Só onde se cria saber, riqueza, diversidade e abundância é que diminuem as vítimas. Eis o maior dos nossos direitos: ter deveres.

Logo à noite, vou ser uma das mil palavras

Às 23:58 de hoje, quinta-feira, dia 8 de Agosto, na RTP 2, sou eu que dou o corpo às balas. No 6.º episódio do programa Mil Palavras Não Fazem uma Árvore, a Eugénia de Vasconcellos, autora e apresentadora do programa, entrevista-me. Dela todos esperamos o melhor. De mim, já se sabe que sou e farei fraca figura. Mas lá que gostei da conversa, isso juro-vos que gostei. Mérito de quem nos guia e põe à vontade.

A graça é que me apresentam assim, com franca gentileza.

Inútil

 

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George Holz

De tão pleno, essencial, indedicável e inescutável rumor, o poema é o mais esplendidamente inútil de todos os gestos. Dos que conheço, pelo menos. O poema aparta a tua mão da minha, mas também, a noite, a alba, o dia…

De Jorge Luis Borges
La Víspera

Millares de partículas de arena,
Ríos que ignoran el reposo, nieve
Más delicada que una sombra, leve
Sombra de una hoja, la serena
Margen del mar, la momentánea espuma,
Los antiguos caminos del bisonte
Y de la flecha fiel, un horizonte
Y otro, los tabacales y la bruma,
La cumbre, los tranquilos minerales,
El Orinoco, el intrincado juego
Que urden la tierra, el agua, el aire, el fuego,
Las leguas de sumisos animales,
Apartarán tu mano de la mía,
Pero también la noche, el alba, el d

Véspera

Milhares de partículas de areia,
Rios que ignoram o repouso, neve
Mais delicada que uma sombra, leve
Sombra de uma folha, a serena
Margem do mar, a momentânea espuma,
Os antigos caminhos do bisonte
E da flecha fiel, um horizonte
E outro, os tabacais e a bruma,
O cume, os tranquilos minerais,
O Orinoco, o intrincado jogo
Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo,
As léguas de submissos animais,
Apartaram a tua mão da minha,
Mas também a noite, a alba, o dia…

A sórdida fama

Bica Curta servida no CM, 4.ª, dia 31 de Julho

carl-beech-defence

Carl Beech foi violado pelo seu padrasto, um militar, conluiado com outras altas figuras da finança e da política britânicas. Alguns jornalistas e a polícia levaram-no ao colo. Beech arrasou reputações de gente da alta, acusou até um ex-primeiro-ministro e as suas emotivas aparições levaram os ingleses às lágrimas.

Descobriu-se agora que da boca do justiceiro Beech só saíram mentiras descaradas: o tribunal provou que não foi vítima coisa nenhuma e condenou-o a 18 anos de prisão. Assustador é, hoje, ser o estatuto de vítima a dar os famosos 15 minutos de fama de Andy Warhol. Terrível para a justiça e para as vítimas verdadeiras.

Um elefante para o Papa Francisco

reiManuel
rei felicíssimo

Não sei se, com os seus protestados e sinceros votos de pobreza, o papa Fran­cesco tem o nosso rei D. Manuel I em boa conta. Espero que sim. Por­que se algum dia o Cas­telo de Sant’Angelo viveu um momento de ale­gria e gló­ria ao nosso rei o deve.

Não vou gabar a vir­tude de D. Manuel, o Feli­cís­simo, rei sur­presa por obra e graça da mor­tan­dade em que uma certa idi­os­sin­cra­sia cons­pi­ra­tiva mer­gu­lhou D. João II. Com razão ou sem, D. João II viu fan­tas­mas em todos os recan­tos, sobre­tudo no seio, pelos vis­tos insi­di­oso, da famí­lia, tendo exi­lado ou assas­si­nado, em casos extre­mos pela sua mão, os her­dei­ros direc­tos do trono. Sobrou-lhe este primo direito, D. Manuel, que D. João II fez ques­tão de nomear her­deiro legí­timo da coroa.

Esco­lha acer­tada. No rei­nado deste sobe­rano quase por acaso, o Gama fez, pela pri­meira vez na his­tó­ria da huma­ni­dade, o cami­nho marí­timo que levava de Lis­boa à Índia e Pedro Álva­res Cabral, pre­me­di­tada ou oca­si­o­nal­mente, che­gou ao Bra­sil, por mais que, agora, um município brasileiro tenha escolhido para seu descobridor um virginal andaluz saleroso, um tipo de Palos de la Frontera, logo ali ao lado dessa Huelva de tão bom jámon.

D. Manuel I, e ainda não é disto que venho falar, foi Senhor do Comér­cio, da Con­quista e da Nave­ga­ção da Ará­bia, Pér­sia e Índia, o que sig­ni­fica que tinha os cofres bem mais reche­a­dos do que agora o nosso rigoroso minis­tro Centeno. Tal­vez nunca tenha­mos sido tão ricos, tão impe­ri­ais e expan­si­o­nis­tas, tudo afa­gado pelo tem­pero abso­lu­tista (mas ilu­mi­nado) com que esta coro­ada cabeça pla­neou e cum­priu o seu reinado.

guloseimasPapa
o menino e as guloseimas

Che­guei então onde que­ria. Em 1514, com pompa e cir­cuns­tân­cia, com luxo e exo­tismo, D. Manuel esma­gou Roma com a embai­xada que enviou ao Papa Leão X. O cor­tejo de rique­zas, de pedras finas e jóias, de teci­dos ultra­jan­te­mente macios (falam-me de seda lavrada e mati­zada), de bro­ca­dos e fili­gra­nas, bas­ta­ria para que os olhi­nhos de Leão X bri­lhas­sem de muito mate­rial ale­gria (isenta de alienação marxista).

D. Manuel capri­chou como nenhum por­tu­guês pode­ria hoje capri­char. O nobre Tris­tão da Cunha que diri­gia a sump­tu­osa embai­xada – acom­pa­nhado por tão íncli­tas figu­ras como Diogo de Pacheco e Gar­cia de Resende – levava con­sigo mais esplên­di­dos e lúdi­cos pre­sen­tes. Um cavalo persa mon­tado por um caça­dor de Ormuz, uma pan­tera domes­ti­cada, o escan­da­loso mul­ti­co­lo­rido de papa­gaios e ara­ras, o indis­ci­pli­nado equi­li­brismo de maca­cos foram a mais exó­tica expres­são do poder e da riqueza com que D. Manuel quis, mani­fes­tando a obe­di­ên­cia de fiel servo, cati­var o Papa para os fins polí­ti­cos que tinha em vista, os do reco­nhe­ci­mento das des­co­ber­tas e con­quis­tas dos ter­ri­tó­rios que cons­ti­tuíam o impé­rio, esse nosso impé­rio que, então, com as asas do sol se media.

o elefante
a tromba no balde

Ter­mi­nei? Falta às péro­las e ouro o toque sump­tuá­rio: Leão X que era sen­sí­vel às coi­sas do mundo (o que Lutero, o aus­tero e seco Lutero, muito lhe cen­su­rou) viu o des­file de tanta tão rica sur­presa como um menino a rece­ber gulo­sei­mas. E o momento mais insu­por­ta­vel­mente açu­ca­rado teve lugar no fecho da parada, quando sur­giu um ele­fante.

Hanno, o ele­fante branco, foi o modo que o nosso ven­tu­roso rei encon­trou para cumu­lar de gozo o brando espí­rito papal. Hanno, o branco ele­fante, quando viu o Papa, ajo­e­lhou três vezes e, conta o Padre Manuel Ber­nar­des, logo meteu a tromba num balde de água (de rosas, claro) que um servo ao lado tra­zia, bor­ri­fando com ela o séquito car­di­na­lí­cio e, a seguir, o espa­ven­tado povo romano que assis­tia. Hanno, com as suas guar­ni­ções de ouro maciço, tocou o cora­ção venal de Leão X, que o con­ser­vou como sua mas­cote. Viti­mado por uma angina, mor­re­ria, na corte pon­ti­fí­cia a 8 de Junho de 1516.

Ainda hoje, na lin­gua­gem popu­lar ita­li­ana há um ingrato e equívoco resquí­cio de tanta gala e osten­ta­ção. Chama-se por­tughese aos bor­lis­tas, às pes­soas que ten­tam infiltrar-se sem pagar em espec­tá­cu­los ou fes­tas e afins. Há quem pense que isso se deve à con­di­ção humilde e vaga­mente manhosa dos por­tu­gue­ses con­tem­po­râ­neos, entre os quais me conto. Mas não. O que acon­te­ceu, em 1514, foi que, des­lum­bra­dos pelo espec­tá­culo que lhe ofe­re­cê­ra­mos, nas fes­ti­vi­da­des que se segui­ram, os roma­nos, quando apa­re­ciam os por­tughese, mesmo sem con­vite, davam-lhes entrada ime­di­ata e gratuita. Era uma honra ter nas festas esta gente que invadira Roma a tigres, papagaios e um elefante.