Quando um homem ama uma mulher

O que me dava jeito é que antes de lerem a prosa que se segue, tivessem visto o filme “A Perfect World”, realizado por Clint Eastwood. Os dois personagens da minha crónica são Butch (Kevin Costner), um bandido suave, e Buzz, um miúdo adorável, que não há-de ter nunca mais de sete anos.

A Perfect World

“Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher.

Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado.

Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.

Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo, é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hamburguers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.

Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.

“Beijaste-a porquê?” Porque sabe bem, porque um tipo se sente bem, é o que Butch tenta explicar ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, científico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch percebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não beijei?!” Num mundo perfeito só devia ser adulto quem nunca perdesse uns inocentes olhos de criança.

O Hitler em nós

 Voltei às minhas velhas notas do tempo da Cinemateca e, às ordens e por despacho do Cineclube de Viseu e da revista Argumento, reescrevi um texto que tinha ficado perdido no tempo. Deu-me gozo. Mudei adjectivos, criei subtítulos, redimi alguns parágrafos, acrescentei outros – até Merkel foi para aqui chamada. Pior ainda, revi boa parte do filme. Fiquei com pena de não ter revisto tudo.

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Somos todos marionetas?

Hitler, um filme da Alemanha, filme realizado por Hans-Jürgen Syberberg, em 1977, é o quê? Sim, é um filme de sete horas, extravagância que não casa com as programações de cinematecas, festivais e cineclubes contemporâneos. Ou será que não casa, sobretudo, com o apressado e instantâneo Homem contemporâneo – e deixem-me vir já armado de maiúscula, para que neste H caibam homens e mulheres e o mais que de géneros se convoque e legitime.

Será Hitler uma evocação fascinada de terríveis fantasmas do passado? Um libelo contra a moral e a estética do mundo contemporâneo? Um relato, simultaneamente em tom hagiográfico e de farsa, à volta da vida do homem de anacrónico bigode que presidiu ao terceiro Reich? Ou será uma invocação e uma diatribe contra o cinema e a sua história? Talvez seja, e confirmá-lo-ia Angela Merkel, se o tivesse visto, a devassa do inconsciente colectivo da Alemanha. São muitas perguntas e eu diria, em três prosaicas linhas, que é o fim de uma trilogia (de que os outros painéis são Ludwig, Requiem para Um Rei Virgem e Karl May) cobrindo a história da nação alemã – e, logo, a da Europa – desde a industrialização no século passado até às sequelas, que chegam aos nossos dias, da queda do terceiro Reich.

Um filme em inflação cósmica
Tudo isto, e um fausto de símbolos e bandeiras, sobreposições, alegorias e fantasmas, é Hitler, filme de Hans-Jürgen Syberberg, ainda que a simples soma das facetas referidas, contraditórias e até paradoxais, seja insuficiente para designar o que, na sua globalidade, o filme efectivamente é. Hitler, um filme da Alemanha é uma suma em forma de oratória, articulando a história, o cinema, o teatro, as ideologias, e sobretudo esse fundo mítico e irracional que parece ser a fonte da nossa ansiedade e dos nossos medos, mas também a mola fulcral da nossa acção. Tudo cabe num filme, se o filme, como o universo, for passível de inflação cósmica.

E eis que Hitler vira as costas ao universo para ser só cinema. Hitler é o filme colagem em que se inscreve a memória ritualizada do cinema no cinema: perante um Hitler na tribuna do seu estádio, a uma velocidade de Jesse Owens, desfilam fantasmas, a naïveté de Méliès, a montagem de Eisenstein, a megalomania de Stroheim, a ascética culpa de Lang, a multidão da Riefenstahl, o servilismo funcional de Veit Harlan, o barroco prestidigitador de Orson Welles, o rigorismo de Stanley Kubrick, o rosto da Garbo, o sonho de Mary Pickford, os artefactos chaplinescos, alguma inocente magia circense, em que Ophüls e Lola Montés estão presente de parte inteira.

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Os cúmplices de Hitler
Lembro-me do que me lembro, diria João Bénard da Costa, e eu lembro-me de ter ido jantar com ele e com Syberberg ao Gambrinus, nesse tempo em que os restaurantes em Portugal não tinham estrelas Michelin e ainda à refeição se falava de Brecht, esse alemão dividido ao meio por um muro. Foi Syberberg que o chamou, a Brecht, à toalha da mesa, e o colou ao seu filme, invocando a distância – a celebrada distanciação brechtiana, aqui carregada em ombros por um negríssimo humor, artifício e marionetas. Deixo Syberberg explicar: «Brecht, por exemplo, em determinado momento das suas obras introduz uma canção: detém a história e um dos personagens avança até ao público e canta, para depois prosseguir a história. Penso que este ponto especial da história em que o personagem sai dela para dizer coisas, expondo pensamentos do autor e recolhendo ideias da audiência, para continuar a seguir, é muito interessante, porque é como uma encruzilhada de ideias.»

Volto atrás, macaquinho de imitação desse corso-ricorso joyceano que Syberberg está sempre a tirar da manga ou do seu houdinesco chapéu mágico: a ideia de filme-colagem tem em Hitler uma ressonância mais profunda, a da colagem (e não se trata, entenda-se, da projecção) entre o espectador e o tema. O que incendeia o filme de Syberberg não é a personagem de um Hitler histórico, assepticamente apresentado. O que é avassalador e nos fere é que nós estamos também no filme e somos nós que retocamos a personagem de Hitler e lhe damos a última demão. A imagem de Hitler que Syberberg quer construir só se revela quando nós a completamos, nela nos reconhecendo, deixando ver – aflitivo espelho, aflitivo reflexo – o Hitler em nós, a escondida herança que ele nos deixou e que infiltra e impregna os nossos sentimentos, a nossa moral, as nossas instituições, a nossa arte, as nossas democracias.

Será legítima, ideológica e politicamente, a colagem de Hitler ao espectador que somos? Será legítima a “acusação épica de cumplicidade”, como lhe chamou Alberto Moravia? Somos ainda herdeiros, ainda mais agora, com este populismo palpitante que, à direita e à esquerda, se levanta em estandartes que se reclamam do povo e da boca do povo? Somos ainda os cúmplices, como nos acusa o céptico Moravia, filiado na nascente cultura da queixa, que o indefectível apreço moraviano pela alienação e pela incomunicabilidade já anunciavam?

Justiça estética
Não consigo, por não saber, responder. Mas se as emoções são uma resposta, ao ver o filme de Syberberg sinto que aquela colagem é esteticamente justa. Liminarmente justa. E talvez radique na “justiça estética” de Hitler, um filme da Alemanha o seu maior escândalo.

Donde vem a “justiça estética” do filme de Syberberg? Em meu entender, a sua principal fonte é Brecht. Na sua distância, na sua ironia (tantas vezes tintada do sarcasmo), na articulação histórica que segue simultaneamente um princípio de causalidade e um princípio dialéctico (refiro-me à pluralidade das “camadas do real” que Syberberg convoca), Hitler, um filme da Alemanha representa a concreção das premissas teóricas de Brecht numa grande obra de arte. O escândalo de Hitler, um filme da Alemanha talvez decorra, afinal, do facto de, tendo sido apontado como “um filme nazi”, ele ser, num improvável encontro paradoxal de beaux esprits, os de Syberberg, Wagner e Brecht, a maior, e quem sabe se não a única, grande obra de arte de raiz brechtiana já criada.

E ao espectador que fui, das várias vezes que vi o filme, não restam dúvidas, inspirado embora numa estética brechtiana, Hitler, um filme da Alemanha, por muito que nele pesem as referências (ou mesmo citações) teatrais, musicais, literárias e, por que não, circenses, tem como sua forma última e soberana o cinema.

Sob o signo do cinema, desde o monólogo inicial no “Black Maria”, o primeiro estúdio de Edison – a que Syberberg, ou alguém por ele, chama no filme “o estúdio negro da nossa imaginação” – desde as sucessivas interpretações de Hitler, (Frankenstein, Charlot), desde o monólogo que retoma o premonitório julgamento da personagem de Peter Lorre no M de Fritz Lang, até ao violento libelo contra Hollywood, contra os “seus Hitlers”, chamem-se Hayes ou McCarthy, Hitler, um filme da Alemanha, assombrado pela música de Wagner, é uma obra sobre a ascensão do cinema neste século, sobre a sua essência cósmica, a primordial lux in tenebris, terminando com o desejo de “projecção no buraco negro do futuro”.

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Syberberg, o realizador.

A grande alegria do Natal é a sua tristeza

Este é um longo artigo. Publico-o com prazer e pena. O prazer que me deu o convite do meu editor do Expresso, Miguel Cadete, para o escrever. A pena de ser, simbólica e nataliciamente, a minha despedida do Expresso. Despedida que se cumpre, em definitivo, com a publicação da crónica que sai hoje, sábado, dia 29 de Dezembro de 2018. A última. Saio por decisão minha, e para uma aventura que anunciarei no começo de 2019. Quando, para a semana que vem, publicar aqui a última crónica, a que sai este sábado, direi o muito bem que do semanário que acolheu a coluna “O Cinema Dá o que a Vida Tira” e de Francisco Pinto Balsemão tenho e quero dizer.

San Luis
Meet Me in Saint Louis

A grande alegria do Natal é a sua tristeza

O primeiro perfume de Natal foi um perfume de estábulo. Se quisermos ser fiéis ao evangelho segundo Lucas, diremos que foi numa manjedoura que nasceu o Jesus Menino, por estar então Belém como a hotelaria de Lisboa no Verão, com uma ocupação de cem por cento, não havendo lugar para a grávida Maria e para o abnegado José, nem sequer em hospedarias bed and breakfast. Para infelicidade da parturiente não se tinha ainda inventado a modalidade airbnb.

Era de noite e, no divino estábulo a que o casal se abrigou, estariam recolhidos os rebanhos, que a imaginação popular transfigurou em burro e vaquinha, parelha ainda hoje presente em qualquer presépio que se preze. Dir-se-á que é um cenário estranho e humilíssimo para o nascimento de um ungido, de um príncipe messiânico, mas temos de convir que tudo nesta história roça uma hiperbólica estranheza.

A mãe do menino era Virgem e Virgem ficará, por séculos e séculos, tendo concebido por obra e graça de um espírito, naturalmente santo. Um anjo veio em sonhos sossegar a rude e básica relutância de José, pai putativo, eventual carpinteiro a quem tanta fantasia procriadora não deixou de fazer alguma espécie. Para efeitos de figuração, aquele penetrante espírito terá assumido a forma de uma imaculada pomba, de um fulgurante raio de luz ou, para consolo da teoria da suspeita freudiana, de um sopro ou subtil rabanada de vento – fascinantes hipóteses pelas quais só mesmo a minha especulativa mente escolástico-hollywoodiana digna interessar-se.

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Pesadelos de Tim Burton

O triunfo dos bichos

Ia falar dos Reis Magos, mas ponho rédea curta no meu digressivo nomadismo temático e centro-me no estábulo e no meu editor, Miguel Cadete. Pediu-me ele uma reflexão sobre os filmes de Natal. Fui ver a oferta dos cinemas e canais televisivos e a presença de animais ou monstros, de Grinches, Shreks, e Gremlins é ufana, pujante e significativa. Não vale a pena evocar a catwoman natalícia que, no “Batman Returns”, foi a Michelle Pfeiffer de outros tempos – estamos a falar de outra coisa. E nem sequer devemos compará-los a “The Nightmare Before Christmas”, de Tim Burton, todo chocalhado a ossos ou viscosa geleia de fantasmas, goblins, zombies, vampiros e lobisomens. Os filmes a que me refiro são de uma geração diferente: não há Menino Jesus de espécie alguma naqueles filmes tocados por uma distanciação do humano que esfrega ombros, para não dizer beiços, numa quase animalidade. Como diriam os virginais camaradas maoistas dos meus tempos revolucionários de Angola, esta natalícia escolha da bicheza, em última instância, não é inocente.

É assim nos filmes, mas é também assim na vida. Nem que o diga de cócoras, abraçado aos meus próprios joelhos e encostado a uma parede, mas tenho de o dizer desta forma brutal: os cães erradicaram o Menino Jesus do Natal. Há para aí dez anos, tive a alegria, primeira e última, de ler uma edição de domingo do Washington Post. Nesse ano, dizia o Post, os americanos espatifaram, e deixem-me escrever por extenso, cinquenta e quatro mil milhões de dólares. Gastaram-nos em anti-depressivos caninos, bem como em cirurgias ortopédicas e sessões de spa para cachorros (vamos ladrar-lhes, vamos ladrar-lhes, meu caro Centeno).

O cão de estimação arreganhou os dentes e arrebatou, no lar moderno, o lugar do filho. Alguém disse, depois de um pastrami, palitando os dentes e a sair do Katz’s Delicatessen, no Lower East Side: “… o filho, esse ersatz do animal de estimação.” Ainda tinha a dolorosa frase a cicatrizar em mim e eis que mordem ao Menino Jesus: mais de 56% dos cães eram, há dez anos, comprados no Natal. Compra ou prenda sopradas por um espírito santo de orelha, eis que o pet chega a casa e é deitado nas aveludadas palhinhas. À volta desse presépio, ajoelham-se o pai de estimação e a mãe de estimação. Está reconstruída a Sagrada Família e a televisão debita “Alvin e os Esquilos” ou “Angry Birds, o Filme”. Não se ouve, no pesadelo climatizado dos apartamentos, o grito da rua. Em pleno Times Square trocadilha e ecoa o grito de um obsoleto sem abrigo: “A nation under dog.”

Carol
Jim Carey é Scrooge

Quem inventou o filme de Natal?

Felizmente sei que o PAN, com o seu primígeno e requintado perfil filosófico, já percebeu que ironizo, nesta pobre escrita que, em verdade, em verdade vos digo, vai de rojo atrás da metáfora e da incipiente parábola. O que eu quero dizer não foi o que eu disse. Aqui está o que queria dizer: Charles Dickens inventou o filme de Natal! Ponho um ponto de exclamação nisto e já ouço o reparo mordaz: é falso, é falso, Charles Dickens morreu vinte e dois anos antes dos irmãos Lumière terem inventado o cinematógrafo!

Concordo, é verdade, não se desse o caso da verdade se deixar, por vezes, inundar por ondas de dúvida metafísicas. Charles Dickens, antes de morrer, deixou escrito o argumento do primeiro, do último e de todos os filmes de Natal. É um livrinho, umas 150 páginas singelas, chamado “A Christmas Carol”, que carrega o subtítulo “A Ghost Story of Christmas”, e de que é protagonista um riquíssimo Ebenezer Scrooge, que tem no coração um pólo norte e na mente o desprezo pelos pobres e pelo mundo. Digamos que esse livro é como uma mesa de cirurgia. Dickens amputa ao ventre natalício o fígado religioso, criando e dando autonomia ao espírito de Natal, que logo aterra noutro corpinho secular, moralizante, comovente, grávido de generosidade e melhores intenções – é o corpo dos nossos dias. Sai Jesus e entra a boa vontade.

Não foram só as adaptações literais, e contam-se já nove, a últimas das quais, assinada pela Disney, em 2009, com o desconexo Jim Carey, que tanto é o malvado e ganancioso Ebenezer Scrooge, como é cada um dos três fantasmas que o vêm atormentar e resgatar. A ideia e a alegoria de “A Christmas Carol” é uma mancha que alastra por dezenas de outros filmes e serviu até de base à transformação desse implacável Scrooge político, que era o florentino analista e maquiavélico conspirador Marcelo Rebelo de Sousa, no omnibondoso presidente que humanizou Portugal, amado até pelos comunistas e, porventura, pelas manas do Bloco.

Estou quase a conseguir dizer o que quero dizer. Há mais Menino Jesus no poema do vagamente pagão Alberto Caeiro, que vê o Jesus menino descer à Terra num meio-dia de fim de Primavera, do que em todos os filmes de Natal de Hollywood e dos outros estreitos arredores onde também se fazem filmes. Os grandes filmes de Natal são dickensianos e paz na terra aos homens de boa vontade. Começo a repetir-me: Jesus, menino ou moço, nem vê-lo.

Há quem, usando o chamado argumento hitleriano, diga que isso se deve ao facto de os judeus terem dominado Hollywood e, tolerantes de espírito, encantados pelas festas familiares cristãs, pelo saturnino calor com que as fogueiras e lareiras alegram as casas, quererem por simpatia celebrar a quadra e o cheirinho que da quadra estava no ar, trocando o odor do bíblico estábulo inicial pelo aroma de bolos e peru assado do século XX.

E é verdade que o tão judeu e ainda mais genial Irving Berlin escreveu as belas canções de Natal de “Holliday Inn”, dançadas pelas dúcteis pernas judias de Fred Astaire. Berlin, aliás, escreveu também a canção das canções, “White Christmas”, para o filme homónimo que o olho judio do severo Michael Curtiz realizou e o desajeitado judeu Danny Kaye interpretou. E para não falar apenas de clássicos da idade de ouro de Hollywood, “Elf”, talvez o filme natalício mais popular deste século (2003), tem realização de Jon Favreau e foi escrito por Daniel Berenbaum, ambos judeus.

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Jimmy Stewart, o suicida de It’s a Wonderful Life

 Paz na Terra e boa vontade

   Ora, nem tudo o que parece é – exactamente o que Galileu Galilei quis dizer quando se saiu com o célebre Eppur si muove, com que bem lixou para a posteridade o Papa e o Santo Ofício. Essa sanitária celebração da quadra natalícia desligada da Natividade não é um exclusivo de produtores e realizadores judeus, estando presente no mais esmagadoramente natalino dos filmes, “It’s a Wonderful Life”, obra a que o italiano Frank Capra, de catolicíssima e pecadora educação, deu sublime realização.

É certo que logo num dos primeiros planos do filme de Capra há uma conversa celestial entre dois asteróides. O argumento do filme classifica-os como dois anjos da mais elevada estirpe, mas eu sempre acharei, salvo desmentido pessoal e por escrito de Frank Capra, que são, um, o Senhor Deus nosso criador, e o outro, pelo buraco negro que nele se adivinha, o honesto e perplexo José, esposo de Maria. Estão ambos preocupados com as orações que lhes chegam. As orações são uma espécie de código morse que permite aos humanos mandar mensagens clandestinas para o céu, fazendo lobby anti-meritocrático na tentativa de alterar as leis naturais; as orações que os estelares ouvidos de Deus e São José escutam, no começo desse filme de Capra, são todas a rogar pelo inexcedível de virtuoso que é a personagem de Jimmy Stewart. Sequela avant la lettre do caso BPN ou BES – que sei eu! –, Jimmy Stewart está à beira da falência e vê recusado um empréstimo por um banqueiro scroogiano. (E não, malta de esquerda letrada, a expressão banqueiro scroogiano não é nenhuma tautologia!)

Seja como for, alheio a esta minha imprecação estilístico-ideológica, Jimmy Stewart decide suicidar-se e eis que cheguei onde queria chegar: há outros filmes de Frank Capra com o Natal a servir-lhes de paisagem de fundo, caso de “Meet John Doe”, sendo o suicídio, no caso o de Gary Cooper, o laço temático que o ata a “It’s a Wonderful Life”. Esse laço que os ata aos dois é um laço natalício e dickensiano.

Se chamo Dickens ao caso é porque, celebrando a quadra, foi ele que nos ensinou a desembocar, como o comovente “It’s a Wonderful Life” desemboca, na porta do happy-end decorada a azevinho e redentora boa vontade. Cumprida a regra dos três actos de toda a boa ficção, superados os obstáculos que constroem a trama, Dickens e os filmes que ele inspirou, judeus ou cristãos, abrem-se a um angelismo que predispõe ao humaníssimo abraço, a agradáveis expansões libatórias e a um cândido consumismo. Que o humano abraço esteja em vias de extinção, substituído pelo afago e enroscanço do animal de estimação é só uma contingente nota de rodapé.

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O Evangelho segundo Pasolini

Uma natividade de papelão

Estava a escrever tudo isto, ia agora, enfim, falar dos Reis Magos, e avassala-me um anseio de justiça. Do fundo de mim mesmo, há uma voz rebelde que clama: “Diz a verdade Manuel S. Fonseca.” E a verdade nua e crua é que a morte de Jesus é estarrecedoramente mais bela e mais cinematográfica do que o seu nascimento. Não é que o cinema não tenha tentado recriar o presépio, narrar a anunciação, a ida de Maria e José para Belém, o precário parto, a ameaça de Herodes, a luz da singela estrela que guia reis e pastores, os bem-aventurados de espírito. Do “King of the Kings”, de Cecil B. DeMille a “The Greatest Story Ever Told”, de George Stevens, passando pelo tão popular “Ben-Hur”, o cinema tentou e falhou. Papelão e pastelão.

Há mil Paixões, mil mortes de Cristo e – valha-me Deus, que não é de mal-entendidos – Jesus morre sempre tão bem. Já o seu nascimento é adramático porque os principais elementos de tensão, a presença do Pai ou do Espírito Santo, a concepção de Maria, são de infilmável invisibilidade, a menos que seja Godard a traduzi-los para a contemporaneidade, com o escândalo e a blasfémia do seu “Je Vous Salue Marie”, ainda assim um filme mais mariano do crístico.

No “Il Vangelo Secondo Matteo”, Pasolini foi quem esteve mais perto de restituir, com um olhar de medida escassez poética, o que no nascimento de Jesus possa haver de transfiguração e espiritualidade. Há quem diga que o fez por ter o rigoroso olhar marxista dos anos 60 e 70. Diria que também o ajudou o ascetismo das personagens e do cenário, a pedra transmontana dos casebres – a lembrar, às vezes, o “Trás-os-Montes”, de António Reis – como o ajudou a sua imensa fé nos grandes planos, na candura firme dos olhares e no silêncio. E não vás daqui, Pier Paolo Pasolini, a dizer que não louvei, assim, a tua superior e esquecida humildade de poeta.

Fanny and Alexander
Fanny e Alexandre

Qual é a maior alegria do Natal?

Mas vejamos: corrida esta prosa a cães e morte, não deixa de ser Natal e, Deus seja louvado, nem o PAN há-de morrer, nem a gente deixará de almoçar e querer ver um filme a seguir e outro na noite de Consoada.

A um amigo, eu diria, vê o “Fanny e Alexandre”, de Ingmar Bergman. Como quando vamos ver o mar e as águas estão perladas de pequeninas cristas brancas, assim “Fanny e Alexandre” está perlado de pequenas angústias, todas revestidas pelas mais variadas alegrias, as puras, as nostálgicas, as infantis, as risonhas e maliciosas. O jantar de Natal culmina com a mais prodigiosa celebração da flatulência que o cinema já imaginou. Um velho tio, para gáudio dos sobrinhos meninos, tem a arte de soltar um poderoso peido contra uma vela, rasgando, no escuro das escadas onde se esconderam, uma miríade de estrelas que nos resgatam do tédio e conferem ao desprezado traseiro humano a mesma dignidade mágica que qualquer Messias gostaria de conferir à humanidade que queira salvar.

E não me venham dizer que há, em “Fanny e Alexandre”, sexo a mais para uma noite de Natal. A consoada é efusiva e quem tenha uma casa grande, de preferência duplex ou com bons arrumos, sabe bem do que falo. A vontade de abraçar, de beijar, a comunhão mística que nos lança num amplexo universal, se as autorizamos à mente e ao coração, como diabo poderemos proibi-las a tudo o que no nosso térreo corpo o sangue irriga?

Mesmo “Eyes Wide Shut”, essa perversão kubrickiana para que foram arrastados Nicole Kidman e Tom Cruise passa-se, afinal, no Natal. E lembro essa preciosidade de 1966, a preto e branco, que dá pelo nome de “Le Pére Noel a les Yeux Bleues”. Filmou-o um transgressivo, breve e suicidário Jean Eustache. Jean-Pierre Léaud é o protagonista. Quer comprar o sobretudo dos seus sonhos e para arranjar a massa de que qualquer sonho é feito, aceita vestir-se de Pai Natal e fazer fotografias de rua com quem passa. Descobre que as raparigas, que para ele, antes, nem uma pestana abriam, agora se encostam à sua fofice de Pai-Natal e que não se importam que ele deixe as suas mãos natalícias deambular festivamente pela alcantilada geografia do corpo delas.

Já não tenho espaço para continuar a falar de perversões, nem, bem sei, para falar dos Reis Magos. Regresso, por isso, à inocência de quem tem filhos para criar. Se querem deixar-lhes uma ferida incurável, que eles guardem em humaníssima carne viva, legado de um imaginário de ternura, um módico de bondade, um fraterno amor pelo humano nosso vizinho, ponham os vossos filhos ao colo e vejam com eles “The Sound of Music”, “Mary Poppins”, o “E.T.”, o “Elf”, “The Muppet Christmas Carol”, o “Home Alone”, até o “National Lampoon’s Christmas Vacation” ou “The Polar Express”. Se eles já não se sentam ao colo, atirem-se ao “Die Hard”, ao “About a Boy”, ao “Batman Returns”, ao “Harry Potter”.

Mas se me deixam, como as raparigas a Jean-Pierre Léaud, meter a mãozinha, a minha pessoalíssima escolha é “Meet Me in Saint Louis”. Um pai de família é promovido na empresa e anuncia à mulher e filhas que, depois do Natal, partirão para a grande Nova Iorque, deixando a cidadezinha de Saint Louis. Esse é o último Natal que as quatro filhas passam com os amigos, os amores, os vizinhos que as mimam, essa intrincada rede de sentimentos e júbilo da pertença que as liga à cidade, ao bairro, à rua onde nasceram e crescem. E, tendo ficado lá fora, no jardim, os desolados bonecos de neve, quando no calor do quarto, uma das irmãs, Judy Garland, canta à maninha mais nova o “Have Yourself a Merry Little Xmas”, toda a turbulenta e antecipada emoção da despedida, da perda, do tempo que passa, tombam sobre as personagens e sobre nós. Judy Garland canta e diz que next year all our troubles will be miles away… Derrama-se no filme e do filme uma tristeza de seda. Choro eu, choramos todos: é Natal e a maior alegria do Natal é a sua tão belíssima e nocturna tristeza.

Publicado no Expresso

Sobre filmes de Natal

Xmas Carol

O “Expresso”, o jornal onde comecei a escrever em 1981 (com duas saídas e dois regressos), convidou-me para escrever sobre filmes de Natal. Se ainda não compraram o jornal e a revista, experimentem ir ler aqui. O artigo leva por título “A grande alegria do Natal é a sua tristeza” e o meu editor, o Miguel Cadete, meu amigo também, avisou a navegação do que ali vem, antepondo-lhe este lead: «Uma reflexão nada inocente sobre os filmes de Natal onde se conclui que Charles Dickens, antes de morrer, deixou escrito o argumento do primeiro, do último e de todos os filmes de Natal. É um livrinho, umas 150 páginas singelas, chamado “A Christmas Carol”.»

O prazer que me deu escrever esta prosa.

Sem estes filmes eu nem vida tinha

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Sacado, com a devida vénia, do site do American Cinematographer

Um dia, num blog que infelizmente já acabou, o Jorge Silva, que já foi da Guerra &Paz, convidou-me para eu escolher os filmes da minha vida e responder a um breve inquérito. Levei tudo muito a sério e, por ele me ter pedido uma curtíssima autobiografia, escrevi estas linhas:

Manuel S. Fonseca foi aprendiz e mau na oficina de  João Bénard da Costa, na Cinemateca. Escreveu, como crítico, coisas imperdoáveis no “Expresso” durante alguns anos. Depois passou pela televisão, pela produção de telefilmes e de longas-metragens assumidamente comerciais e, sobretudo, viajou muito. Isso tudo já passou e hoje não faz mal a uma mosca. Tem uma coluna nostálgica no “Expresso” e escreve num blog lúdico e sumptuário chamado “Escrever é Triste”.

É bom de ver que ainda não nascera este lugar obscuro e cavernoso que é a Página Negra. Trago por isso, para aqui, para memória futura, as escolhas que fiz nesse ano de 2013, no 1º de Maio. Regressemos, então ao passado.

Os Filmes da Minha Vida

Os dez mais que, por esta desordem, agora me vêm à cabeça:

Broken Blossoms, D. W. Griffith
City Lights, Chaplin
Pierrot le fou, Jean-Luc Godard
The Searchers, John Ford
M, Fritz Lang
Playtime, Jacques Tati
Ordet, Carl Th. Dreyer
Rear Window, Alfred Hitchcock
Close Encounters, Steven Spielberg
The Godfather, Francis Coppola

Fiz esta lista e comentei, logo a seguir, jogando à defesa:

Os melhores filmes deviam ser como os menus dos restaurantes. Uns estariam sempre na carta e outros deviam mudar como os pratos do dia. Amanhã, por exemplo, já constaria o Singin’ n the Rain, o Der Blaue Engel e depois de amanhã o Some Like it Hot, o To Have and Have Not, o Citizen Kane, o A Matter of Life and Death, o Casque d’or, o Senso ou o The River do Renoir. E na montra do restaurante, em vez de “Hoje há passarinhos” apareceria escrito, a letras garrafais, “Hoje há Brigitte Bardot”.

E agora leia-se o cerrado interrogatório a que o meu amigo Jorge Silva me submeteu:

— O filme da sua vida…
Talvez seja o “How Green Was My Valley”, a mais perfeita cristalização de um mundo de harmonia que, por nunca ter existido, Deus se viu obrigado a criar através de John Ford, seu filho dilecto.

— Realizador favorito
John Ford, por ter ajudado Deus a corrigir algumas imperfeições da Criação. O mundo ficou melhor com a aldeia galesa de “How Green…” e ainda melhor com o povoado irlandês de “The Quiet Man”.

— Actor favorito
Richard Dreyfuss, pelo “American Graffiti”, pelo riso e pelas canções no bote de “Jaws”.

— Actriz favorita
Jean Seberg, pela nuca rapada de “Saint Joan”, pelos shorts de “Bonjour Tristesse” e por ser tão adoravelmente dégueulasse em “A Bout de Souffle”.

— Personagem que gostava de encarnar se fosse possível “entrar” no ecrã…
Pierrot, perdão, Ferdinand no “Pierrot le Fou”.

— Filme que mais o marcou no momento do seu visionamento…
Posso dizer dois? Primeiro, enternecido, quando vi a Natalie Wood a fazer beicinho para o James Dean no “Rebel Without a Cause”. Nesse mesmo Verão, duas ou três semanas depois, foi um incêndio, ao ver a Elizabeth Taylor a fazer, quais olhinhos, o corpo inteiro, ao Burton, no “The Sandpiper”.

— Obra-prima clássica (ou nem tanto) com que embirre particularmente…
Embirro razoavelmente com o William Wyler (Best Years of Our Lives e  High Noon) e irrazoavelmente com o Eisenstein a quem prefiro a Sarita Montiel.

— O filme-choque da sua vida…
Sem ponta de ironia, um filme polaco belissimamente incompleto, “Pasazerka”, de Andrzej Munk

— Filme do qual possa dizer “a vida é muito parecida com isto”…
Um filme terno e cruel, simples, infantil e adulto, chamado “Stand by Me”, de Rob Reiner.

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Pasazerka, Andrezej Munk

Os sinais de fumo da realidade

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Eis o que faz do cinema uma arte, o involuntário humor da realidade. Cinco histórias.

A vingança dos índios. O produtor do western “Fabulous Texan”, esganado de autenticidade, contratou índios autênticos para criarem os sinais de fumo com mensagens correctas. Os índios foram impecáveis e o produtor desfez-se em agradecimentos. Diz-lhe um: “Oh, foi fácil, aprendemos a fazer os sinais com os vossos westerns.”

Casamento proibido. O produtor de “That Hagen Girl” fez um teste com público antes da estreia. Numa cena, Ronald Reagan dizia, com voz de manteiga, à namoradinha da América, Shirley Temple: “Casas comigo?” A sala veio abaixo com um raivoso coro de “Oh, não, não, não.” A cena foi cortada do filme.

Os donos de Casablanca. Os manos Marx pensaram numa sátira ao glorioso “Casablanca”, de Bogart e Ingrid Bergman. Os manos Warner, produtores do original, inquietaram-se, ameaçando com um processo. O intelectualíssimo Groucho Marx respondeu-lhes: “Não sabia que os irmãos Warner eram os proprietários de Casablanca. Mas mesmo que decidam reexibir agora vosso filme, julgo que o espectador médio vai conseguir, com o tempo, distinguir Ingrid Bergman de Harpo Marx.”

À bomba ou a tiro? Os americanos não papam a realidade nua a que os europeus se obrigam. Vejamos. Em 1946, no atol de Bikini, fizeram o ensaio atómico que mitificou o local. Roubando o nome à personagem a que Rita Hayworth deu o corpo que a divina genética lhe desenhou, chamaram Gilda à bomba atómica. Fantasia nuclear.

Agora, o cru realismo europeu. O filme “La Bataille du Rail” homenageava a resistência francesa. Os meios eram precários, não havia acessórios, nadinha, nem balas simuladas. Os figurantes eram mesmo resistentes e, numa cena de ataque a um comboio, disparavam sobre uma carruagem com balas reais, supondo-a vazia. Lá dentro, o técnico de som, Constantin Evangelou, escapou por um triz com vida.

De onde vem a música? Hitchcock não queria música no seu “Lifeboat”. Era o filme de um minúsculo salva-vidas na vasta solidão do oceano. O espectador, irritou-se Hitchcock, vai perguntar, defraudado, de onde raio é que vem a música. David Raksin, compositor lendário de Hollywood, ripostou com lógica: “Que me diga onde raio é que, no meio do oceano, pode estar a câmara, e logo lhe direi de onde vem a música.”

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publicado no Expresso

Pode filmar-se a poesia?

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Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar.

Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: “… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.” A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir.

Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Natalie Wood em “Splendor in the Grass”. No poema, as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de “Perfect World”, de Clint Eastwood.

Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de “Bonjour Tristesse”, se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.

Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:

“Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
Pelo orvalho parado da noite.”

Já vi estes versos no cinema: homens a correr “pelo orvalho parado da noite”. Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no “Target”, de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, “Man Hunt”, irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.

Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de “Os Passos em Volta”. “Polícia” é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, “a criatura mais só da terra”, num sítio onde “as putas e os chuis eram mais do que as mães”. Leio e penso: já vi!  

Mas onde é que já vi dois amantes nus a atravessar, a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Foi num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no “They Live by Night” de Nicholas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger leu e se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: num filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, uma francesa de Lyon.

O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes que os dois nascessem, no poema destes primeiros versos:

“As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.”

O cinema arde quando é dito assim.

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O chapéu de Dean Martin

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Dean Martin coleccionava melhores amigos. Foi o melhor amigo de Jerry Lewis. Se não foi, parece ter sido o melhor amigo de Frank Sinatra e de Sammy Davis Jr. Mal o viu, Howard Hawks gostou logo dele, como se fossem amigos de infância.

Pode fazer-se jogging pelo actual cinema americano e não se encontram amigos assim. Não há rasto de Dean Martin, um olhar como o dele, um chapéu como deve ser.

George Clooney é um homem bonito, mas transpira marketing e o abominável nespresso. Um dia gostava de o apanhar distraído para saber se, de facto, existe.

Prefiro-lhe Matt Damon. Não sei como será se deixar de parecer jovem e de cheirar a universidade e a melhor aluno. À aplicação competente, junta um humor ágil, letrado. Leu livros e Dean Martin, que se saiba, e sabe-se, nunca leu nenhum.

Volto ao melhor amigo. Dean Martin nasceu Dino Crocetti, filho de imigrantes italianos, tão cercado de família que só aprendeu inglês na escola. Talvez por isso, um eco latino impregna as falas que lhe ouvimos nos filmes, os versos das mil canções em que derrete a voz.

Era um cantor. As italianas vinham ouvi-lo. E logo as irlandesas, as judias, as mulheres todas. Mistério: os homens também. O seu segredo era não dar importância nenhuma ao que fazia. Para ele, e vou fazê-lo dar um grito lá no céu onde dorme, cantar era intranscendente. As canções românticas, cantava-as, aliás, em dueto com Jerry Lewis, cómico histérico, num acto de desconstrução a que a América respondeu em delírio.

Hollywood também. Mas o “isto é cinema!”que é arte e alimenta sonhos tardou a apanhá-lo. Em três filmes roçou a poesia, a melhor prosa. Um, o sublime “Rio Bravo” não cabe numa crónica. Falo dos outros dois.

Em “Some Came Running”, Minelli filmou-lhe a negligência que era onde deitava a sua masculinidade. A negligência pede pouco, a preguiça exige esforço. Se o Alberto Caeiro de “há metafísica bastante em não pensar em nada”, se esse Caeiro jogasse às cartas e bebesse uísque, então o heterónimo pessoano assentaria a Dean Martin como tão bem lhe assenta o chapéu omnipresente.

“Kiss Me Stupid” explora-lhe a fama de mulherengo. Dean faz de Dino, cantor famoso que, se não for para a cama com uma mulher por noite, tem violentas enxaquecas. Dois compositores querem vender-lhe uma canção e conhecem-lhe a incansável fraqueza. Um deles consegue tirar a mulher de casa por uma noite e contratar a prostituta Polly, fazendo-a passar pela esposa, para seduzir Dino. Nada corre como planeado. Billy Wilder, o realizador, explica: entre uma pega que sonha jantar com um homem e ficar para lavar a louça e uma esposa farta de a lavar, doida por beber um copo com um desconhecido e meter-se na cama com ele, triunfa a discreta virtude. Polly não o seduz, mas a noite passa, Dino acorda sem dores de cabeça e, para surpresa do marido astuto, compra-lhe a canção.

Vejam o filme se desconfiam, mas Billy Wilder jura que a imponderável virilidade de Dean Martin nunca quebraria a mais cristalina das esposas. Ou não fosse essa a história do cinema de Wilder e da vida de Martin.