As mulheres, os homens

As mulheres. Falemos então de “as mulheres”. São seres alados, bem sei, mas o que nelas nos tortura é a dúvida. Negam. Bem podem os sentidos delas dizer o contrário. Negam na mesma. O beijo que lhes pomos na boca, os nossos dedos a apertar-lhes onde a carne é macia, soube-lhes melhor que framboesas. Negam. Podia insistir. Não insisto, Kate Winslet é que confessa. A cantar.

Os homens. Falemos então de “os homens”. Seres de coração puro, líricos. Seres sofridos, tanto faz que seja a cappela ou com orquestra e coro. A violência dos trabalhos, a áspera barba, o grosseiro fato de macaco: tudo fragilidades quando se arranha a superfície. Movem-se como ursos: bailarinos inconfessados e insuspeitos. Mesmo num triciclo onde pedalam a sua inocência é já para o amor que pedalam porque é muito só o homem sem amor. Mesmo ou se canta e dança como James Gandolfini.

Os extractos são do peculiar “Romances and Cigarettes” realizado por bizarro John Turturro.

O tempo perdido

dor e glória

Bica Curta servida no CM, 3.ª, dia 10 de Setembro

O ovo de madeira que a mãe de Almodóvar usa para cerzir meias é igual ao que vi na mão de minha mãe. São iguais os ovos de madeira que os filhos viram na mão das mães de famílias pobres ou remediadas. O que é bonito no cinema é ele restituir-nos o tempo perdido, o velho cheiro da bica, o amor que a vida nos fez esquecer. “Dor e Glória”, o filme de Almodóvar, está carregado de passado: tão bonita a cena das mulheres a lavar roupa na ribeira.

O de Tarantino, “Era Uma vez em Hollywood”, também. No corpo, silêncio e vagar de Brad Pitt recuperamos o orgulho de termos sido rapazes, do nosso desembaraço viril, o orgulho de sermos homens.

A Guerra Fria em seis filmes

strangelove

Agora que se fala da Paz Quente, apetece-me lembrar a Guerra Fria. Convidaram-me, aliás, a escolher seis filmes que fizessem o retrato desse tempo de ameaça atómica, de espiões, de misseis em Cuba.  Tinha 800 caracteres com espaços para apresentar cada um dos que escolhesse – texto telegráfico, portanto. Escolhi estes, escrevendo o que se segue:

 

The Thing (1951)

É o filme de um monstro que ameaça a humanidade. Mas donde vem essa “coisa”? Os anos 50 foram, na América, uma década de histeria colectiva. E tinham medo de quê, os americanos? Dos monstros do espaço ou dos prosaicos monstros comunistas vizinhos? “The Thing” é um dos primeiros filmes de ficção científica a dizer nas entrelinhas o verdadeiro medo da década, o medo da escalada da Guerra Fria.

O alien de “The Thing” é um monstro agressivo. Legitima assim o ataque de um grupo de militares. A acção heróica deles não esconde uma viva desconfiança perante a ciência que tenta compreender o monstro. O apelo final do filme é um grito ineludível de propaganda anti-soviética: “Gritem ao mundo. Avisem toda a gente. Vigiem os céus em todo o lado. Vigiem sempre. Não deixem de vigiar os céus!”

North by Northwest
(Alfred Hitchcock, 1959)

Ninguém tratou a Guerra Fria com tão fina elegância como Alfred Hitchcock. Em “North by Northwest” é com delicadas luvas e imparável ironia que Hitchcock filma o imbróglio do monumental equívoco em que um inocente e nonchalant Cary Grant se vê envolvido por uma teia de espiões russos. Querem roubar da América um valioso, secreto e perigosíssimo microfilme que, ou Hitchcock não fosse Hitchcock, nunca saberemos o que continha.

Estava-se em plena corrida espacial, com os soviéticos em vantagem, e Hitchcock concebe espiões russos selectos, capazes de se mover nos ambientes mais sofisticados ou de assassinar um diplomata em plena ONU, sem deixar rasto. É a antítese da figuração ameaçadora que os filmes de ficção científica tinham oferecido desde 1951. A Guerra Fria entrava noutra fase.

One, Two, Three
(Billy Wilder, 1961)

Castigado por meter a pata na poça no Médio Oriente, James Cagney, na pele de executivo da Coca-Cola, é mandado a Berlim negociar um acordo que introduza a excelsa bebida americana na URSS. Secretaria-o uma adorável loira de 17 anos, filha do patrão, que às escondidas se casa com um jovem comunista de Berlim Leste.

Billy Wilder revisita alguns temas do argumento que escrevera para “Ninotchka”, de Lubitsch, nos anos 30, com gags arrancados aos choques ideológicos e comportamentais entre comunismo e capitalismo. A realidade atropelou-o: estava a filmar quando o Muro de Berlim foi construído, obrigando a equipa a mudar-se para Munique.

A velocidade dos gags é fabulosa: com misseis, tecnologia, corrida espacial, colonialismo, espiões e coca-cola não há cortina de ferro que aguente.

Dr. Strangelove or:
How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
(Stanely Kubrick, 1963)

O título! Que trepidante montanha russa é o longo título original. “Dr. Strangelove” é um filme inclinado a mascarar em sátira o seu realismo obsessivo. Basta ver os seus aviões B-52, cuja tecnologia era, então, assunto de segurança nacional.

Kubrick filmou já depois de ter secado o cimento do Muro de Berlim (1961) e estando ainda frescas as cólicas que os misseis de Cuba causaram aos intestinos do mundo.

Estaria ao alcance de um lunático com poder largar a bomba? Estava. Os poderes americanos riram-se a ver o filme, mas foram a correr tapar os buracos que o sistema tinha.

“A minha mão faz coisas que eu não quero fazer” é talvez o resumo justo da desbragada demência de peripécias e personagens que no filme veneram o pesadelo nuclear. A mão voltou a andar por aí e não há Kubrick para nos fazer rir.

From Russia With Love
(1963, Terrence Young)

O inefável 007 foi o herói da Guerra Fria. Venceu-a com fantasia, humor e a mais capciosa tecnologia. Também com a contribuição dos seus inescapáveis dry-martinis “shaken, not stirred”, de alguns admiráveis biquínis e ao volante de um Aston Martin.

Este foi o segundo 007, e a produção, sabendo que, dos livros de Ian Fleming, o favorito do presidente Kennedy era “From Russia With Love”, escolheu-o: prémio ao vencedor da Crise dos Misseis.

SPECTRE, a organização criminosa que 007 enfrenta, era a disfarçada cópia da agência de espionagem soviética. Bond, James Bond ensinou o Ocidente a ganhar a guerra: com prazer, sentido de humor, cama, bons fatos, tecnologia mais esperta e até risonha. Pode discutir-se se 007 está do lado do Bem, mas é indubitável que o seu lado é o lado do bem-estar.

A Boy and His Dog
(L. Q. Jones, 1975)

Da barriga da Guerra Fria nasceu um novo género: os apocalípticos filmes pós-nucleares. Podia escolher-se “Five”, ou o “On The Beach”, por causa de Ava Gardner, até mesmo um dos “Planeta dos Macacos”. Prevalece a irreverência de “A Boy and His Dog”, filmado depois de russos e americanos assinarem o tratado de redução de armas nucleares.

Um rapaz e um cão sobrevivem à IV Guerra Mundial. Prodígio: o cão fala com o rapaz por telepatia. O rapaz procura comida; em troca, o cão fareja raparigas que o rapaz viola. É um mundo devastado e bárbaro. À superfície, tudo é necrófago e a fome impera. Nos subterrâneos, em biosfera artificial, há um mundo puritano de privilegiados. Com um problema: sem sémen, os homens são incapazes de reprodução. O rapaz vai ser útil. Assustadoramente útil, descobrirá depois.

Publicado na Visão História

Jerry

E foi assim, há dois anos, quando soube que Jerry Lewis tinha morrido. Se fosse hoje, repetiria, palavra a palavra. Repito.

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Vou ser-te franco, Jerry, pensei que já tinhas morrido. Com a alarvidade do teu “O Morto Era Outro”, de 1969, vais responder-me que o meu problema é ainda ninguém se ter dado ao cuidado de me avisar de que bem morto estou eu. E estou. Onde é que está o candengue que eu era quando tu pela primeira vez me falaste – me atropelaste, melhor seria dizer –, tinha eu 11, 12 anos, no cinema da 7ª esquadra, em Luanda, já 8 ou 9 inteiros anos passados sobre o puro e rebelde assalto do 4 de Fevereiro.

Tu perguntas-me, com a tua americaníssima ignorância, que raio foi ou é o 4 de Fevereiro? E eu pergunto-te que raio de ideia te passou pela cabeça para me apareceres assim, a tentares esquizofrenizar-me, numas cenas Professor Julius Kelp, corpo todo retorcido, a pingares um recalcado desejo pela Stella Stevens, e noutras cenas, em fatos rutilantes, voz de rythm and blues, um Buddy Love sedutor, mentor, sexy e cantor?

Sim, encontrámo-nos nas Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl, a que chamaste The Nutty Professor. E tu, Jerry, era dois em um: de dia, o míope, cor­cunda e alu­ado prof. Julius Kelp e, à noite, depois de meteres à boca uma con­ve­ni­ente mis­tela aluci­no­gé­nea, eras o ego­ma­níaco e sedu­tor Buddy Love. Há quem diga que eras, num dos teus eus, um auto-vexatório Jerry e, no outro eu, a zur­zida cari­ca­tura de Dean Mar­tin, com quem tinhas feito dupla e uma daquelas amizades que nunca acaba.

Com o meu engas­gado estilo de Julius, logo me ape­te­ceu roubar-te a fama e o pro­veito de Buddy Love: esbo­fe­tear humi­lhan­te­mente quem me con­tra­ri­asse e tra­zer sem esforço as fres­cas bocas das lou­ras ado­les­cen­tes à minha boca. Não deves ter gostado nada de mim, mas eu gos­tei de ti, Jerry: per­ten­cias ao tempo em que vivía­mos e, sobre­tudo, pare­cias do tempo em que sonhá­va­mos viver.

Ado­rei, desculpa repetir-me, esqui­zo­fre­ni­ca­mente As Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl. Por ser um sonho de miúdo. O que eu que­ria era o que tu fazias no filme: ter outra e des­co­nhe­cida iden­ti­dade, ser o irre­cu­sá­vel, irre­sis­tí­vel, melhor de todos, entrar na dis­co­teca (ui, e logo o Pur­ple Pit; sim, lá na rua, logo lhe chamámos o pitinho púrpura) e a orques­tra parar, todos os olhos fixa­dos no pro­di­gi­oso fato azul celeste de cola­ri­nhos pre­tos, colete branco, camisa rosa e gra­vata azul-escuro com que, feito Buddy Love, irrompias, dei­xando esga­ze­a­dos os tam­bém azu­lís­si­mos olhos da Stella Ste­vens que, essa manhã, o estra­bismo de Julius sonhara des­pir de todas manei­ras e melhor feitio.

Sei bem que não sabes, mas deixa-me contar-te, agora que já não podes partir-te todo à minha frente, a rir-te ou, pior ainda, a gritar como gritavas no The Ladie’s Man. Quando o João Bènard me convidou para a Cinemateca, o primeiro ciclo que organizei, com o João Lopes, foi em tua homenagem (ou à tua custa, dirás tu).  Não minto. Tens aqui a capa do catálogo que é de Julho de 1981.

A sala da Cinemateca tinha ardido e fomos fazer o ciclo ao Quarteto, ainda eu estava longe de saber o amigo do peito que o Pedro Bandeira Freire acabaria por ser. O catálogo é humildemente deslumbrado, quase uma plaquete estudantil, de 52 páginas, a custarem uns caros 80 escudos, que os teus luxos pagam-se. Mas era, se um catálogo fosse a foz de um rio, um delta de amizade. O que não copiámos e traduzimos dos Cahiers du Cinèma (sim, aquela revista que embrulhou os filmes no papel celofane que põe os teus reticentes compatriotas de olhos em alvo), pedimos aos amigos que escrevessem, a começar pelo Camacho Costa: “Era uma vez um palhaço, tinha um nome e um rosto e um corpo. O resto era só a alegria de se descobrir mergulhado nessa vertigem imensa que é inventar do outro lado a nossa própria loucura.” E convidámos, o João e eu, dois Gabriéis. O João, um psicanalista, o José Gabriel Pereira Bastos. Eu, um filósofo, o José Gabriel Trindade Santos, meu eterno professor. Escrevemos também nós. E lembro-te o que o João Lopes começava por dizer: “Herbert H. Heerbert, o “homem das mulheres” de Jerry Lewis, tem medo do cão que ruge, esse “Baby” (bebé) que tantas preocupações traz à sempre presente e dominadora Mrs. Welenmelon.”

O João Lopes tinha razão: tinhas medo desse cão, Baby, que não podia soltar-se, nem ver-se E nem era preciso que Mrs. Welemelon te tivesse prevenido. O rugido de Baby e a fome insaciável de Baby perseguiram-te a vida toda, os filmes todos. Baby, o cão, está agora à tua espera. Deus só pode ser esse bebé que ruge. E o céu é, de certeza, um cenário quase tão prodigioso como o de The Ladies Man. O que Baby, ou Deus, não sabe é o susto que vai levar quando descobrir que tu és o que és e o que não és. E o que és? Julius Kelp ou Buddy Love?

The-Nutty-Professor

A humilde voz de Charles Laughton

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Charles Laughton e Carole Lombard em They Knew What They Wanted

Charles Laughton é para aí avô de Francis Coppola. Em 1940, vestindo a pele de Tony Patucci, o actor Charles Laughton foi dono de uma vinha em Napa Valley. Coppola tinha então menos de um ano e vivia em Detroit, longe de saber o que era um cacho de uvas e uma garrafa de vinho e mais longe ainda de saber o que o século XXI faria a Detroit.

Tony Patucci era um imigrante italiano que Sidney Howard tirara das suas meninges de dramaturgo, fazendo dele o protagonista de “They Knew What They Wanted”, peça com que ganhou o Pulitzer. O realizador Garson Kanin fez da peça filme e, com lógica inatacável, convidou o britânico Charles Laughton para ser esse imigrante italiano de grandes patorras para pisar uvas. Note-se, Laughton era todo Shakespeare e Old Vic, e no cinema fora o desmedido Henrique VIII, o obcecado capitão do “Motim na Bounty”, o humilhado Quasímodo  do “Corcunda de Notre Dame”.

Laughton era grande, desajeitado, maior do que a vida e um arrogante senhor de si mesmo como é qualquer pessoa insegura se a virmos sem a lente de aumento. Apareceu a Kanin já maquilhado e com um sotaque italiano de estarrecer Umberto Eco. O sotaque era execrável, mas a maquilhagem era muito boa, a começar num delicioso bidoginho negro, todo olive oil. Foi o que lhe disse Kanin: “Eles fizeram um grande trabalho.” “Eles quem?”, estranhou Laughton, esquecendo-se do sotaque. “A maquilhagem”, sussurrou Kanin. “Só fizeram o que mandei”, encrespou-se Laughton.

Mas o pior era o sotaque. Kanin explicou que não era nada daquilo, que tinha de aprender com um jovem italiano, amigo dele, era esse o método… “O meu método – interrompeu-o Laughton – é estudar a pintura de Miguel Ângelo, escutar apenas Vivaldi e ler Dante em voz alta no original.”

Kanin fez uma semana de ensaios e o sotaque de Laughton gelou todos os actores: Dante deu meia-volta no túmulo, Don Corleone, se existisse, ter-se-ia arrependido dos seus crimes. Em segredo, o enorme actor aceitou o método de Kanin: teve aulas do jovem italiano. O filme estreou e o New York Times perguntou a Laughton: “Como é que conseguiu um sotaque italiano tão perfeito?” E logo se ouviu a humilde voz de Laughton: “Segui o meu método, estudei a pintura de Miguel Ângelo, escutei apenas Vivaldi e li Dante em voz alta no original.”

 

Quando um homem ama uma mulher

O que me dava jeito é que antes de lerem a prosa que se segue, tivessem visto o filme “A Perfect World”, realizado por Clint Eastwood. Os dois personagens da minha crónica são Butch (Kevin Costner), um bandido suave, e Buzz, um miúdo adorável, que não há-de ter nunca mais de sete anos.

A Perfect World

“Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher.

Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado.

Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.

Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo, é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hamburguers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.

Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.

“Beijaste-a porquê?” Porque sabe bem, porque um tipo se sente bem, é o que Butch tenta explicar ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, científico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch percebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não beijei?!” Num mundo perfeito só devia ser adulto quem nunca perdesse uns inocentes olhos de criança.

O Hitler em nós

 Voltei às minhas velhas notas do tempo da Cinemateca e, às ordens e por despacho do Cineclube de Viseu e da revista Argumento, reescrevi um texto que tinha ficado perdido no tempo. Deu-me gozo. Mudei adjectivos, criei subtítulos, redimi alguns parágrafos, acrescentei outros – até Merkel foi para aqui chamada. Pior ainda, revi boa parte do filme. Fiquei com pena de não ter revisto tudo.

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Somos todos marionetas?

Hitler, um filme da Alemanha, filme realizado por Hans-Jürgen Syberberg, em 1977, é o quê? Sim, é um filme de sete horas, extravagância que não casa com as programações de cinematecas, festivais e cineclubes contemporâneos. Ou será que não casa, sobretudo, com o apressado e instantâneo Homem contemporâneo – e deixem-me vir já armado de maiúscula, para que neste H caibam homens e mulheres e o mais que de géneros se convoque e legitime.

Será Hitler uma evocação fascinada de terríveis fantasmas do passado? Um libelo contra a moral e a estética do mundo contemporâneo? Um relato, simultaneamente em tom hagiográfico e de farsa, à volta da vida do homem de anacrónico bigode que presidiu ao terceiro Reich? Ou será uma invocação e uma diatribe contra o cinema e a sua história? Talvez seja, e confirmá-lo-ia Angela Merkel, se o tivesse visto, a devassa do inconsciente colectivo da Alemanha. São muitas perguntas e eu diria, em três prosaicas linhas, que é o fim de uma trilogia (de que os outros painéis são Ludwig, Requiem para Um Rei Virgem e Karl May) cobrindo a história da nação alemã – e, logo, a da Europa – desde a industrialização no século passado até às sequelas, que chegam aos nossos dias, da queda do terceiro Reich.

Um filme em inflação cósmica
Tudo isto, e um fausto de símbolos e bandeiras, sobreposições, alegorias e fantasmas, é Hitler, filme de Hans-Jürgen Syberberg, ainda que a simples soma das facetas referidas, contraditórias e até paradoxais, seja insuficiente para designar o que, na sua globalidade, o filme efectivamente é. Hitler, um filme da Alemanha é uma suma em forma de oratória, articulando a história, o cinema, o teatro, as ideologias, e sobretudo esse fundo mítico e irracional que parece ser a fonte da nossa ansiedade e dos nossos medos, mas também a mola fulcral da nossa acção. Tudo cabe num filme, se o filme, como o universo, for passível de inflação cósmica.

E eis que Hitler vira as costas ao universo para ser só cinema. Hitler é o filme colagem em que se inscreve a memória ritualizada do cinema no cinema: perante um Hitler na tribuna do seu estádio, a uma velocidade de Jesse Owens, desfilam fantasmas, a naïveté de Méliès, a montagem de Eisenstein, a megalomania de Stroheim, a ascética culpa de Lang, a multidão da Riefenstahl, o servilismo funcional de Veit Harlan, o barroco prestidigitador de Orson Welles, o rigorismo de Stanley Kubrick, o rosto da Garbo, o sonho de Mary Pickford, os artefactos chaplinescos, alguma inocente magia circense, em que Ophüls e Lola Montés estão presente de parte inteira.

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Os cúmplices de Hitler
Lembro-me do que me lembro, diria João Bénard da Costa, e eu lembro-me de ter ido jantar com ele e com Syberberg ao Gambrinus, nesse tempo em que os restaurantes em Portugal não tinham estrelas Michelin e ainda à refeição se falava de Brecht, esse alemão dividido ao meio por um muro. Foi Syberberg que o chamou, a Brecht, à toalha da mesa, e o colou ao seu filme, invocando a distância – a celebrada distanciação brechtiana, aqui carregada em ombros por um negríssimo humor, artifício e marionetas. Deixo Syberberg explicar: «Brecht, por exemplo, em determinado momento das suas obras introduz uma canção: detém a história e um dos personagens avança até ao público e canta, para depois prosseguir a história. Penso que este ponto especial da história em que o personagem sai dela para dizer coisas, expondo pensamentos do autor e recolhendo ideias da audiência, para continuar a seguir, é muito interessante, porque é como uma encruzilhada de ideias.»

Volto atrás, macaquinho de imitação desse corso-ricorso joyceano que Syberberg está sempre a tirar da manga ou do seu houdinesco chapéu mágico: a ideia de filme-colagem tem em Hitler uma ressonância mais profunda, a da colagem (e não se trata, entenda-se, da projecção) entre o espectador e o tema. O que incendeia o filme de Syberberg não é a personagem de um Hitler histórico, assepticamente apresentado. O que é avassalador e nos fere é que nós estamos também no filme e somos nós que retocamos a personagem de Hitler e lhe damos a última demão. A imagem de Hitler que Syberberg quer construir só se revela quando nós a completamos, nela nos reconhecendo, deixando ver – aflitivo espelho, aflitivo reflexo – o Hitler em nós, a escondida herança que ele nos deixou e que infiltra e impregna os nossos sentimentos, a nossa moral, as nossas instituições, a nossa arte, as nossas democracias.

Será legítima, ideológica e politicamente, a colagem de Hitler ao espectador que somos? Será legítima a “acusação épica de cumplicidade”, como lhe chamou Alberto Moravia? Somos ainda herdeiros, ainda mais agora, com este populismo palpitante que, à direita e à esquerda, se levanta em estandartes que se reclamam do povo e da boca do povo? Somos ainda os cúmplices, como nos acusa o céptico Moravia, filiado na nascente cultura da queixa, que o indefectível apreço moraviano pela alienação e pela incomunicabilidade já anunciavam?

Justiça estética
Não consigo, por não saber, responder. Mas se as emoções são uma resposta, ao ver o filme de Syberberg sinto que aquela colagem é esteticamente justa. Liminarmente justa. E talvez radique na “justiça estética” de Hitler, um filme da Alemanha o seu maior escândalo.

Donde vem a “justiça estética” do filme de Syberberg? Em meu entender, a sua principal fonte é Brecht. Na sua distância, na sua ironia (tantas vezes tintada do sarcasmo), na articulação histórica que segue simultaneamente um princípio de causalidade e um princípio dialéctico (refiro-me à pluralidade das “camadas do real” que Syberberg convoca), Hitler, um filme da Alemanha representa a concreção das premissas teóricas de Brecht numa grande obra de arte. O escândalo de Hitler, um filme da Alemanha talvez decorra, afinal, do facto de, tendo sido apontado como “um filme nazi”, ele ser, num improvável encontro paradoxal de beaux esprits, os de Syberberg, Wagner e Brecht, a maior, e quem sabe se não a única, grande obra de arte de raiz brechtiana já criada.

E ao espectador que fui, das várias vezes que vi o filme, não restam dúvidas, inspirado embora numa estética brechtiana, Hitler, um filme da Alemanha, por muito que nele pesem as referências (ou mesmo citações) teatrais, musicais, literárias e, por que não, circenses, tem como sua forma última e soberana o cinema.

Sob o signo do cinema, desde o monólogo inicial no “Black Maria”, o primeiro estúdio de Edison – a que Syberberg, ou alguém por ele, chama no filme “o estúdio negro da nossa imaginação” – desde as sucessivas interpretações de Hitler, (Frankenstein, Charlot), desde o monólogo que retoma o premonitório julgamento da personagem de Peter Lorre no M de Fritz Lang, até ao violento libelo contra Hollywood, contra os “seus Hitlers”, chamem-se Hayes ou McCarthy, Hitler, um filme da Alemanha, assombrado pela música de Wagner, é uma obra sobre a ascensão do cinema neste século, sobre a sua essência cósmica, a primordial lux in tenebris, terminando com o desejo de “projecção no buraco negro do futuro”.

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Syberberg, o realizador.

A grande alegria do Natal é a sua tristeza

Este é um longo artigo. Publico-o com prazer e pena. O prazer que me deu o convite do meu editor do Expresso, Miguel Cadete, para o escrever. A pena de ser, simbólica e nataliciamente, a minha despedida do Expresso. Despedida que se cumpre, em definitivo, com a publicação da crónica que sai hoje, sábado, dia 29 de Dezembro de 2018. A última. Saio por decisão minha, e para uma aventura que anunciarei no começo de 2019. Quando, para a semana que vem, publicar aqui a última crónica, a que sai este sábado, direi o muito bem que do semanário que acolheu a coluna “O Cinema Dá o que a Vida Tira” e de Francisco Pinto Balsemão tenho e quero dizer.

San Luis
Meet Me in Saint Louis

A grande alegria do Natal é a sua tristeza

O primeiro perfume de Natal foi um perfume de estábulo. Se quisermos ser fiéis ao evangelho segundo Lucas, diremos que foi numa manjedoura que nasceu o Jesus Menino, por estar então Belém como a hotelaria de Lisboa no Verão, com uma ocupação de cem por cento, não havendo lugar para a grávida Maria e para o abnegado José, nem sequer em hospedarias bed and breakfast. Para infelicidade da parturiente não se tinha ainda inventado a modalidade airbnb.

Era de noite e, no divino estábulo a que o casal se abrigou, estariam recolhidos os rebanhos, que a imaginação popular transfigurou em burro e vaquinha, parelha ainda hoje presente em qualquer presépio que se preze. Dir-se-á que é um cenário estranho e humilíssimo para o nascimento de um ungido, de um príncipe messiânico, mas temos de convir que tudo nesta história roça uma hiperbólica estranheza.

A mãe do menino era Virgem e Virgem ficará, por séculos e séculos, tendo concebido por obra e graça de um espírito, naturalmente santo. Um anjo veio em sonhos sossegar a rude e básica relutância de José, pai putativo, eventual carpinteiro a quem tanta fantasia procriadora não deixou de fazer alguma espécie. Para efeitos de figuração, aquele penetrante espírito terá assumido a forma de uma imaculada pomba, de um fulgurante raio de luz ou, para consolo da teoria da suspeita freudiana, de um sopro ou subtil rabanada de vento – fascinantes hipóteses pelas quais só mesmo a minha especulativa mente escolástico-hollywoodiana digna interessar-se.

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Pesadelos de Tim Burton

O triunfo dos bichos

Ia falar dos Reis Magos, mas ponho rédea curta no meu digressivo nomadismo temático e centro-me no estábulo e no meu editor, Miguel Cadete. Pediu-me ele uma reflexão sobre os filmes de Natal. Fui ver a oferta dos cinemas e canais televisivos e a presença de animais ou monstros, de Grinches, Shreks, e Gremlins é ufana, pujante e significativa. Não vale a pena evocar a catwoman natalícia que, no “Batman Returns”, foi a Michelle Pfeiffer de outros tempos – estamos a falar de outra coisa. E nem sequer devemos compará-los a “The Nightmare Before Christmas”, de Tim Burton, todo chocalhado a ossos ou viscosa geleia de fantasmas, goblins, zombies, vampiros e lobisomens. Os filmes a que me refiro são de uma geração diferente: não há Menino Jesus de espécie alguma naqueles filmes tocados por uma distanciação do humano que esfrega ombros, para não dizer beiços, numa quase animalidade. Como diriam os virginais camaradas maoistas dos meus tempos revolucionários de Angola, esta natalícia escolha da bicheza, em última instância, não é inocente.

É assim nos filmes, mas é também assim na vida. Nem que o diga de cócoras, abraçado aos meus próprios joelhos e encostado a uma parede, mas tenho de o dizer desta forma brutal: os cães erradicaram o Menino Jesus do Natal. Há para aí dez anos, tive a alegria, primeira e última, de ler uma edição de domingo do Washington Post. Nesse ano, dizia o Post, os americanos espatifaram, e deixem-me escrever por extenso, cinquenta e quatro mil milhões de dólares. Gastaram-nos em anti-depressivos caninos, bem como em cirurgias ortopédicas e sessões de spa para cachorros (vamos ladrar-lhes, vamos ladrar-lhes, meu caro Centeno).

O cão de estimação arreganhou os dentes e arrebatou, no lar moderno, o lugar do filho. Alguém disse, depois de um pastrami, palitando os dentes e a sair do Katz’s Delicatessen, no Lower East Side: “… o filho, esse ersatz do animal de estimação.” Ainda tinha a dolorosa frase a cicatrizar em mim e eis que mordem ao Menino Jesus: mais de 56% dos cães eram, há dez anos, comprados no Natal. Compra ou prenda sopradas por um espírito santo de orelha, eis que o pet chega a casa e é deitado nas aveludadas palhinhas. À volta desse presépio, ajoelham-se o pai de estimação e a mãe de estimação. Está reconstruída a Sagrada Família e a televisão debita “Alvin e os Esquilos” ou “Angry Birds, o Filme”. Não se ouve, no pesadelo climatizado dos apartamentos, o grito da rua. Em pleno Times Square trocadilha e ecoa o grito de um obsoleto sem abrigo: “A nation under dog.”

Carol
Jim Carey é Scrooge

Quem inventou o filme de Natal?

Felizmente sei que o PAN, com o seu primígeno e requintado perfil filosófico, já percebeu que ironizo, nesta pobre escrita que, em verdade, em verdade vos digo, vai de rojo atrás da metáfora e da incipiente parábola. O que eu quero dizer não foi o que eu disse. Aqui está o que queria dizer: Charles Dickens inventou o filme de Natal! Ponho um ponto de exclamação nisto e já ouço o reparo mordaz: é falso, é falso, Charles Dickens morreu vinte e dois anos antes dos irmãos Lumière terem inventado o cinematógrafo!

Concordo, é verdade, não se desse o caso da verdade se deixar, por vezes, inundar por ondas de dúvida metafísicas. Charles Dickens, antes de morrer, deixou escrito o argumento do primeiro, do último e de todos os filmes de Natal. É um livrinho, umas 150 páginas singelas, chamado “A Christmas Carol”, que carrega o subtítulo “A Ghost Story of Christmas”, e de que é protagonista um riquíssimo Ebenezer Scrooge, que tem no coração um pólo norte e na mente o desprezo pelos pobres e pelo mundo. Digamos que esse livro é como uma mesa de cirurgia. Dickens amputa ao ventre natalício o fígado religioso, criando e dando autonomia ao espírito de Natal, que logo aterra noutro corpinho secular, moralizante, comovente, grávido de generosidade e melhores intenções – é o corpo dos nossos dias. Sai Jesus e entra a boa vontade.

Não foram só as adaptações literais, e contam-se já nove, a últimas das quais, assinada pela Disney, em 2009, com o desconexo Jim Carey, que tanto é o malvado e ganancioso Ebenezer Scrooge, como é cada um dos três fantasmas que o vêm atormentar e resgatar. A ideia e a alegoria de “A Christmas Carol” é uma mancha que alastra por dezenas de outros filmes e serviu até de base à transformação desse implacável Scrooge político, que era o florentino analista e maquiavélico conspirador Marcelo Rebelo de Sousa, no omnibondoso presidente que humanizou Portugal, amado até pelos comunistas e, porventura, pelas manas do Bloco.

Estou quase a conseguir dizer o que quero dizer. Há mais Menino Jesus no poema do vagamente pagão Alberto Caeiro, que vê o Jesus menino descer à Terra num meio-dia de fim de Primavera, do que em todos os filmes de Natal de Hollywood e dos outros estreitos arredores onde também se fazem filmes. Os grandes filmes de Natal são dickensianos e paz na terra aos homens de boa vontade. Começo a repetir-me: Jesus, menino ou moço, nem vê-lo.

Há quem, usando o chamado argumento hitleriano, diga que isso se deve ao facto de os judeus terem dominado Hollywood e, tolerantes de espírito, encantados pelas festas familiares cristãs, pelo saturnino calor com que as fogueiras e lareiras alegram as casas, quererem por simpatia celebrar a quadra e o cheirinho que da quadra estava no ar, trocando o odor do bíblico estábulo inicial pelo aroma de bolos e peru assado do século XX.

E é verdade que o tão judeu e ainda mais genial Irving Berlin escreveu as belas canções de Natal de “Holliday Inn”, dançadas pelas dúcteis pernas judias de Fred Astaire. Berlin, aliás, escreveu também a canção das canções, “White Christmas”, para o filme homónimo que o olho judio do severo Michael Curtiz realizou e o desajeitado judeu Danny Kaye interpretou. E para não falar apenas de clássicos da idade de ouro de Hollywood, “Elf”, talvez o filme natalício mais popular deste século (2003), tem realização de Jon Favreau e foi escrito por Daniel Berenbaum, ambos judeus.

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Jimmy Stewart, o suicida de It’s a Wonderful Life

 Paz na Terra e boa vontade

   Ora, nem tudo o que parece é – exactamente o que Galileu Galilei quis dizer quando se saiu com o célebre Eppur si muove, com que bem lixou para a posteridade o Papa e o Santo Ofício. Essa sanitária celebração da quadra natalícia desligada da Natividade não é um exclusivo de produtores e realizadores judeus, estando presente no mais esmagadoramente natalino dos filmes, “It’s a Wonderful Life”, obra a que o italiano Frank Capra, de catolicíssima e pecadora educação, deu sublime realização.

É certo que logo num dos primeiros planos do filme de Capra há uma conversa celestial entre dois asteróides. O argumento do filme classifica-os como dois anjos da mais elevada estirpe, mas eu sempre acharei, salvo desmentido pessoal e por escrito de Frank Capra, que são, um, o Senhor Deus nosso criador, e o outro, pelo buraco negro que nele se adivinha, o honesto e perplexo José, esposo de Maria. Estão ambos preocupados com as orações que lhes chegam. As orações são uma espécie de código morse que permite aos humanos mandar mensagens clandestinas para o céu, fazendo lobby anti-meritocrático na tentativa de alterar as leis naturais; as orações que os estelares ouvidos de Deus e São José escutam, no começo desse filme de Capra, são todas a rogar pelo inexcedível de virtuoso que é a personagem de Jimmy Stewart. Sequela avant la lettre do caso BPN ou BES – que sei eu! –, Jimmy Stewart está à beira da falência e vê recusado um empréstimo por um banqueiro scroogiano. (E não, malta de esquerda letrada, a expressão banqueiro scroogiano não é nenhuma tautologia!)

Seja como for, alheio a esta minha imprecação estilístico-ideológica, Jimmy Stewart decide suicidar-se e eis que cheguei onde queria chegar: há outros filmes de Frank Capra com o Natal a servir-lhes de paisagem de fundo, caso de “Meet John Doe”, sendo o suicídio, no caso o de Gary Cooper, o laço temático que o ata a “It’s a Wonderful Life”. Esse laço que os ata aos dois é um laço natalício e dickensiano.

Se chamo Dickens ao caso é porque, celebrando a quadra, foi ele que nos ensinou a desembocar, como o comovente “It’s a Wonderful Life” desemboca, na porta do happy-end decorada a azevinho e redentora boa vontade. Cumprida a regra dos três actos de toda a boa ficção, superados os obstáculos que constroem a trama, Dickens e os filmes que ele inspirou, judeus ou cristãos, abrem-se a um angelismo que predispõe ao humaníssimo abraço, a agradáveis expansões libatórias e a um cândido consumismo. Que o humano abraço esteja em vias de extinção, substituído pelo afago e enroscanço do animal de estimação é só uma contingente nota de rodapé.

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O Evangelho segundo Pasolini

Uma natividade de papelão

Estava a escrever tudo isto, ia agora, enfim, falar dos Reis Magos, e avassala-me um anseio de justiça. Do fundo de mim mesmo, há uma voz rebelde que clama: “Diz a verdade Manuel S. Fonseca.” E a verdade nua e crua é que a morte de Jesus é estarrecedoramente mais bela e mais cinematográfica do que o seu nascimento. Não é que o cinema não tenha tentado recriar o presépio, narrar a anunciação, a ida de Maria e José para Belém, o precário parto, a ameaça de Herodes, a luz da singela estrela que guia reis e pastores, os bem-aventurados de espírito. Do “King of the Kings”, de Cecil B. DeMille a “The Greatest Story Ever Told”, de George Stevens, passando pelo tão popular “Ben-Hur”, o cinema tentou e falhou. Papelão e pastelão.

Há mil Paixões, mil mortes de Cristo e – valha-me Deus, que não é de mal-entendidos – Jesus morre sempre tão bem. Já o seu nascimento é adramático porque os principais elementos de tensão, a presença do Pai ou do Espírito Santo, a concepção de Maria, são de infilmável invisibilidade, a menos que seja Godard a traduzi-los para a contemporaneidade, com o escândalo e a blasfémia do seu “Je Vous Salue Marie”, ainda assim um filme mais mariano do crístico.

No “Il Vangelo Secondo Matteo”, Pasolini foi quem esteve mais perto de restituir, com um olhar de medida escassez poética, o que no nascimento de Jesus possa haver de transfiguração e espiritualidade. Há quem diga que o fez por ter o rigoroso olhar marxista dos anos 60 e 70. Diria que também o ajudou o ascetismo das personagens e do cenário, a pedra transmontana dos casebres – a lembrar, às vezes, o “Trás-os-Montes”, de António Reis – como o ajudou a sua imensa fé nos grandes planos, na candura firme dos olhares e no silêncio. E não vás daqui, Pier Paolo Pasolini, a dizer que não louvei, assim, a tua superior e esquecida humildade de poeta.

Fanny and Alexander
Fanny e Alexandre

Qual é a maior alegria do Natal?

Mas vejamos: corrida esta prosa a cães e morte, não deixa de ser Natal e, Deus seja louvado, nem o PAN há-de morrer, nem a gente deixará de almoçar e querer ver um filme a seguir e outro na noite de Consoada.

A um amigo, eu diria, vê o “Fanny e Alexandre”, de Ingmar Bergman. Como quando vamos ver o mar e as águas estão perladas de pequeninas cristas brancas, assim “Fanny e Alexandre” está perlado de pequenas angústias, todas revestidas pelas mais variadas alegrias, as puras, as nostálgicas, as infantis, as risonhas e maliciosas. O jantar de Natal culmina com a mais prodigiosa celebração da flatulência que o cinema já imaginou. Um velho tio, para gáudio dos sobrinhos meninos, tem a arte de soltar um poderoso peido contra uma vela, rasgando, no escuro das escadas onde se esconderam, uma miríade de estrelas que nos resgatam do tédio e conferem ao desprezado traseiro humano a mesma dignidade mágica que qualquer Messias gostaria de conferir à humanidade que queira salvar.

E não me venham dizer que há, em “Fanny e Alexandre”, sexo a mais para uma noite de Natal. A consoada é efusiva e quem tenha uma casa grande, de preferência duplex ou com bons arrumos, sabe bem do que falo. A vontade de abraçar, de beijar, a comunhão mística que nos lança num amplexo universal, se as autorizamos à mente e ao coração, como diabo poderemos proibi-las a tudo o que no nosso térreo corpo o sangue irriga?

Mesmo “Eyes Wide Shut”, essa perversão kubrickiana para que foram arrastados Nicole Kidman e Tom Cruise passa-se, afinal, no Natal. E lembro essa preciosidade de 1966, a preto e branco, que dá pelo nome de “Le Pére Noel a les Yeux Bleues”. Filmou-o um transgressivo, breve e suicidário Jean Eustache. Jean-Pierre Léaud é o protagonista. Quer comprar o sobretudo dos seus sonhos e para arranjar a massa de que qualquer sonho é feito, aceita vestir-se de Pai Natal e fazer fotografias de rua com quem passa. Descobre que as raparigas, que para ele, antes, nem uma pestana abriam, agora se encostam à sua fofice de Pai-Natal e que não se importam que ele deixe as suas mãos natalícias deambular festivamente pela alcantilada geografia do corpo delas.

Já não tenho espaço para continuar a falar de perversões, nem, bem sei, para falar dos Reis Magos. Regresso, por isso, à inocência de quem tem filhos para criar. Se querem deixar-lhes uma ferida incurável, que eles guardem em humaníssima carne viva, legado de um imaginário de ternura, um módico de bondade, um fraterno amor pelo humano nosso vizinho, ponham os vossos filhos ao colo e vejam com eles “The Sound of Music”, “Mary Poppins”, o “E.T.”, o “Elf”, “The Muppet Christmas Carol”, o “Home Alone”, até o “National Lampoon’s Christmas Vacation” ou “The Polar Express”. Se eles já não se sentam ao colo, atirem-se ao “Die Hard”, ao “About a Boy”, ao “Batman Returns”, ao “Harry Potter”.

Mas se me deixam, como as raparigas a Jean-Pierre Léaud, meter a mãozinha, a minha pessoalíssima escolha é “Meet Me in Saint Louis”. Um pai de família é promovido na empresa e anuncia à mulher e filhas que, depois do Natal, partirão para a grande Nova Iorque, deixando a cidadezinha de Saint Louis. Esse é o último Natal que as quatro filhas passam com os amigos, os amores, os vizinhos que as mimam, essa intrincada rede de sentimentos e júbilo da pertença que as liga à cidade, ao bairro, à rua onde nasceram e crescem. E, tendo ficado lá fora, no jardim, os desolados bonecos de neve, quando no calor do quarto, uma das irmãs, Judy Garland, canta à maninha mais nova o “Have Yourself a Merry Little Xmas”, toda a turbulenta e antecipada emoção da despedida, da perda, do tempo que passa, tombam sobre as personagens e sobre nós. Judy Garland canta e diz que next year all our troubles will be miles away… Derrama-se no filme e do filme uma tristeza de seda. Choro eu, choramos todos: é Natal e a maior alegria do Natal é a sua tão belíssima e nocturna tristeza.

Publicado no Expresso