Calcinhas

Mailer e Norris
Com Norris

Norman Mailer está nu e morto há quase 12 anos, desde Novembro de 2007. Li nestas curtíssimas férias, o livro que escreveu sobre o célebre combate de Muhammad Ali e George Foreman, em Kinshasa. Chama-se, sem mais, “O Combate”. Escrita directa, cada frase um gancho, às vezes de direita, às vezes de esquerda. Uma paixão sem freio por Ali.

Sobre Mailer, e sem punhos de renda, escreveram-se, pouco depois da sua morte, dois livros. Um é da sua mulher, Norris Church Mailer. O outro, da sua amante, Carole Mallory, que ele amou, e ela a ele, durante nove anos. “A Ticket to the Circus” chama-se um, “Loving Mailer” o outro.

Coincidem em vários pontos, relatando as lendárias antipatias do escritor, a raiva que tinha a certos advérbios e, por razões menos gramaticais, a certos contraceptivos. Tem piada, ambas lhe agradecem a forma como, mentor, as animava a escrever. Ambas se lembram da escandaleira que foi a primeira noite de sexo: “Take off your panties, I want to experience your soul” lembra-se Carole de ele lhe ter dito.

Ambas suavizam a ideia de que Mailer tenha sido – pelo menos com elas – um tipo violento, e Norris até confessa que foi ela quem lhe acertou um murro no queixo, numa discussão. Ambas tiveram outras aventuras, Norris com Bill Clinton, antes de Mailer a conhecer, Carole uma longa lista de Oscarizados, incluindo Robert De Niro,  Clint Eastwood e Warren Beatty. A chave, a verdadeira chave da paixão, confessam Norris e Carole, foi a mesma.

Norris fala do peito peludo dele que lhe servia de almofada, mas sobretudo do “splendid cock” que ele possuía.

Para Carole, Mailer parecia o Humpty Dumpty, quase ridículo, mas com um trunfo apreciável: “if his penis weren’t so beautiful, I would have left.”

Nenhuma o deixou o que não é certamente a pior homenagem que se pode prestar a um escritor.

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Com Carole

 

 

F ?

F e F
F atrás de F

Kafka, nome impossível de apenas duas consoantes e uma vogal. Kafka, essa len­ga­lenga infan­til a que só um insi­di­oso F evita a ridícula caco­fo­nia, pro­ta­go­ni­zou pai­xões ini­ma­gi­ná­veis. Por muito que nos custe aceitá-lo, o autor de A Meta­mor­fose ou de O Pro­cesso, apaixonou-se e amou à maneira dos filmes a que tanto ia, como mostra Hanns Zischler no documentário “Kafka goes to the movies”. Várias, tan­tas vezes. Conto uma.  

De Praga a Ber­lim não eram dois pas­sos, mas foi quando os deu que Kafka encon­trou Felice Bauer, este­nó­grafa ber­li­nense, dora­vante F, amiga de Max Brod, amigo do F entre kápas que por acaso era Kafka.

Tam­bém era 1912 e F e F fala­ram toda a noite. De olhos nos olhos só vol­ta­riam a estar jun­tos muito pou­cas vezes. O que não impe­diu que, de 1912 a 1914, Kafka lhe escre­vesse duas a três car­tas por dia. Car­tas lon­gas, de várias pági­nas. Por­me­nor de filme: F, por acaso Kafka, envi­ava as car­tas para a empresa onde este­no­gra­fava F, fintando a vigi­lân­cia da mamã da nubente, inde­se­jada lei­tora que se ofendia com os excessos de tanto F.

Kafka expu­nha, à letra e com fulgor cinematográfico, o seu dilema – e o seu dilema era o sexo. Em mais de 500 car­tas, o checo F expli­cou à ber­li­nense F que o coito era pouco mais do que “a puni­ção pela feli­ci­dade de estar­mos jun­tos”. Ora, F!

Foram noi­vos, os dois F, F de Felice, F de Franz – duas vezes F, duas vezes noi­vos. A pri­meira vez, até com anún­cio público. F de Franz veio a Ber­lim, hospedando-se no Aska­ni­che Hof, pronto para a festa que deve­ria ser na 2.ª feira, a seguir ao Pen­te­cos­tes. Mas não foi, embora fosse já 21 de Abril de 1914. A festa converteu-se em jul­ga­mento fami­liar de F de Franz que ras­gou o com­pro­misso. Com a famí­lia vin­di­ca­tiva veio a melhor amiga de F de Felice, Grete Bloch, sem F que se veja, mas que se diz ter sido mãe de filho cujo puta­tivo pai terá sido o nosso F entre Ka e Ka. Lúbrica vingança de F?

Estava nas cartas que F e F não se juntariam. A culpa, se cul­pas há em haver F em Franz e F em Felice, tam­bém foi da senho­ri­nha Bauer, pre­su­mi­vel­mente adi­vi­nhada pela expe­ri­ente senhora Bauer sua mãe que de F já tudo sabia. Quando, pela pri­meira vez, F disse a F que F apai­xo­na­da­mente para sem­pre a F que­ria (e para casar!), os ter­mos da amo­rosa carta foram estes, exal­tan­tes e pro­me­te­do­res: “Casa-te comigo e vais lamentá-lo. Não te cases comigo e hás-de lamentá-lo. Cases ou não te cases comigo e vais lamentar-te, não importa o que esco­lhas.

F de Felice fugiu, claro, a mui­tos sete pés de tão arre­ba­tado e apocalíptico F por ele ela­bo­rar, assim, con­ju­gal­mente, avisando-a que, juntos os F, seriam infe­li­zes para sempre.

Nunca casa­ram. F sem F é de lamen­tar, não se desse o caso de terem ficado 511 car­tas que F de Felice, ape­sar de sem F, guar­dou e publi­cou em Nova Ior­que, e três geni­ais roman­ces que, nes­ses anos, F de Franz letra a letra escre­veu com todos os F que para os escre­ver eram pre­ci­sos. Por­que enquanto F pen­sou, enfim, que F em F pudes­sem um só F ser, escre­veu A Sen­tença (será que se cha­mou assim em por­tu­guês, se em por­tu­guês foi publi­cado?) que a F dedi­cou, e a Meta­mor­fose e o Pro­cesso?! Bem se vê o que a F, F deve, e o que nós e a lite­ra­tura do mundo todo seri­a­mos se em cada livro não hou­vesse o que de algum F cada F espera.

franzkafka

 

O ponto G

samantha-sex-robot

Nenhum homem heterossexual voltará a ficar sozinho. A indústria sextech está imparável. Esqueçam lá as bonecas insufláveis: a tecnologia já oferece parceiros sexuais humanóides.

Rostos perfeitos, curvas de valha-me nosso senhor. Para não falar de competências: sexo oral com base em 16 técnicas escolhidas (à mão?) do estudo dos melhores 1200 vídeos da especialidade. Há até uma robot dotada da louvável fantasia que é o ponto G.  Gemem. Bebem a bica curta. Também conversam. Tão compreensivas, tão disponíveis, há casos de paixão assolapada de homens pela sua robot sexual. Nenhum homem voltará a estar sozinho na sua imensa solidão.

Bica Curta publicada no CM

Meus kambas: Pedro Bidarra

Já disse duas vezes, aqui e aqui, que Meus Kambas é uma varanda pequenina com porta para a cozinha, onde recebo os amigos. Não é fácil sentar o Pedro Bidarra nessa varanda, como não é fácil sentar o Pedro Bidarra em lugar nenhum. Ninguém em seu perfeito juízo tenta sentar o Pedro Bidarra, porque ele é energia instável, movimento em estado puro, insentável. Nem a escrita dele, imitando-o, se senta, inquieta, em busca, como sabem todos os que o leram, no Escrever é Triste ou no romance (e não seria, por indefinível transumância de géneros, uma novela?) que dele publiquei, Rolando Teixo de seu título, emergentes ramos e raízes escondidas no seu conteúdo. Leiam agora este texto que ele me mandou, excerto de uma narrativa mais vasta em gestação.

cisne
Leda e o Cisne, Paolo Veronese

Os deuses em trânsito
Pedro Bidarra

7.

Os deuses e as deusas, que na persecução dos seus enredos divinos tomam corpos mortais e neles habitam enquanto e como querem, para seu gozo e prazer, no fim abandonam-nos cruelmente, deixando-lhes apenas memórias do tempo em que aquela carne foi tocada pelo divino.

       Sobre o cisne que Zeus encarnou para comer a Leda nada mais se soube depois de consumado o acto e do rei dos deuses se ter posto a andar de volta ao Olimpo. Podemos apenas especular que terá retomado a sua existência meramente aviária, grasnando estonteado atrás do bando pelos jardins e lagos do palácio do rei Tíndaro, tentando contar-lhes os quinze minutes, se tanto, de êxtase e glória; da sorte que lhe havia calhado quando, ao fugir de uma águia, caiu nos braços da Leda toda nua; e como depois foi só comê-la, estando ela, como estava, pronta e desconsolada pela negligência do consorte — quiçá motivada pelos sempre prementes assuntos do estado ou, talvez, pelas putas. Terá o desacreditado cisne levado o resto da vida a contar aos outros que era pai da Helena e dos Dioscuros? Por ventura. É claro que nenhum cisne, no seu bom senso aviário, terá crido em tão inverosímil narrativa; muito menos a companheira que, com toda a certeza, o terá para sempre olhado como o gabiru e ido fazer ninho com outro, talvez um cisne preto, para sublinhar a negrito o despeito e a vingança. Se foi assim que as coisas se passaram — o que terá uma probabilidade, no mínimo, tão grande quanto um cisne ter comido a Leda — só podemos especular.

       E o que dizer do caso que envolve Anquises, Afrodite e uma anónima e princesa virgem que Afrodite encarnou para seduzir o bonito apascentador de cavalos? Sobre a princesa encarnada, e depois de consumada a união com Anquises, pouca história reza. Houve um parto, isso é certo, e a deusa, também é certo, ter-se-á desinteressado do assunto como é mister dos divinos. À pobre princesa terá restado um corpo com estrias, um ventre proeminente do alargamento que a gravidez sempre provoca, mamas descaídas e maltratadas pelas mordidas do bebé Eneias e tudo um pouco flácido; corpo que Anquises terá trocado, a fazer fé em hábitos que são de hoje e de sempre, por outras mais novas e frescas conquistas; até ser fulminado por um raio de Zeus, quando resolveu dar-se ares e, mesmo avisado, se pôs a contar o assunto à rapaziada: “Vocês sabem lá, eu comi uma deusa.” Quem não contaria? Ficou manco, o desbocado, rezam os mitos.

       Afrodite é a mais cruel de todos e todas. Hoje habita a Beatriz, como outrora habitou a Madalena e a Patrícia. As artes da Beatriz são as mesmas artes, os mesmos truques hipnotizantes com que a Patrícia e a Madalena outrora me derreteram. Mas olhe-se a Madalena de hoje e veja-se toda a crueldade de Afrodite; encarna um corpo por uns tempos, uns anos na melhor das hipóteses, dá-lhe inelutáveis poderes de sedução, uma presença etérea, uma aura principesca, a capacidade de caminhar quase sem tocar o chão, uma autoconfiança que resulta da inconsciência da efemeridade, e depois farta-se, desencarna e resulta a velha Madalena. Como, a seu tempo, resultará a velha Beatriz. No caso da Madalena, como em tantos outros que todos tão bem conhecemos, os corpos abandonados pela deusa são por fim tomados por Harpias estridentes que debicam a paciência das vítimas até à cirrose, ao AVC, ao cancro ou à loucura. Mas até lá, enquanto Afrodite as habita, não há como resistir-lhes.

       A Beatriz estava no meio das mulheres. Mais uma vez, sentindo a minha presença, virou a cabeça sobre o ombro e olhou-me como a Kalipigos. Depois virou-se e avançou na minha direcção, sorridente, fresca, muito bela, sem tocar com as sandálias no chão, deixando atrás de si a entourage alcoviteira a mirar-me dos pés à cabeça. Senti-me pegar fogo. Ainda sim, e pela primeira vez, consegui articular uma palavra na sua presença:

       — Olá — disse.

       — Olá tio.

       O cumprimento escorreu como balde de água fria lançado sobre o fogo que acabara de atear. Mas um homem feito não foge; fica posto e aguenta a humilhação. Sorri o meu mais jovial sorriso.

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Leda e o cisne, François Boucher

Bernardo Bertolucci, último tango

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Sentei-me na mesma mesa dele, uma noite, em Cannes, na esplanada do Carlton. Culpa do senhor Manoel de Oliveira, e também, sejamos justos, do Paulo Branco, magnânimo nos convites. Eram os meus tempos de jovem crítico de cinema, tarefa para que não tinha competência, por não haver nenhuma competência em ser-se crítico. Bernardo Bertolucci, que marcou o imaginário da minha geração com o Último Tango em Paris, estava nessa mesa e tenho agora pena de não o ter conhecido uma migalha que fosse das migalhas que dessa mesa possam ter caído. Lembro-me que discutia com Oliveira e a Isabel Branco as minhas objecções, mais emocionais do que críticas, ao Non ou a Vã Glória de Mandar. E discutimos tanto que saímos dali, em peripatética parlamentação, ao longo da Croisette, do Carlton para o Majestic, levando a deitar o senhor, magnífico e tolerante Manoel de Oliveira.

Bernardo Bertolucci pertence a essa geração de realizadores literariamente muito bem formados, uma mão em Stendahl outra em Borges, com um sentido da transgressão que absorveu Bataille e a Sade chama meu próximo. Visualmente formado em Pasolini e Francis Bacon, com a sombra de Godard em cima. Não se veja nisto nenhuma ironia em ainda menos depreciação. Veja-se apenas aquilo que é e que os filmes de Bertolucci reclamam: pertencer a um tempo.

Em três filmes, 1900, Último Tango em Paris, O Último Imperador, filmando tempos diferentes, filmou sempre o nosso tempo, a nossa moralidade ou amoralidade, a nossa angustiada misantropia (lembrem-se de Marlon Brando no Tango), a nossa insólita reclusão (lembrem-se da cidade proibida do Imperador), o nosso fascínio pelos requebros irracionais da ideologia (do Conformista a 1900). Podemos querer mais do cinema, como queremos e sabemos que Stendahl e Borges nos dão mais do que o tempo que foi o tempo deles, mas um cinema que nos restitui o nosso tempo e nos restitui ao nosso tempo, merece ser saudado pela sua inteligência. Morreu hoje Bernardo Bertolucci: nos filmes dele tinha morrido a derradeira visão trágica do sexo no cinema.

LASTEMPEROR

Dez grandes cenas do cinema: Persona

E estou quase a chegar ao fim. Eis a nona das dez cenas que escolhi para o fantástico evento a que o Nuno Artur Silva chamou O Gosto dos Outros

persona

PERSONA (1966), de Ingmar Bergman
monólogo de Bibi Andersson narrando a orgia com outra rapariga e dois rapazes

Se só devêssemos à Suécia o Ikea já não seria pouco, mas a verdade é que devemos muito mais. Sem o cinema mudo sueco não teríamos, por exemplo, o Pedro Norton sentado nesta sala, e o imaginário erótico do Pedro Norton, como o meu e o de muitas gerações. Nenhum de nós teria chegado à idade adulta, ainda a suspirar como uma criança, se não fosse a contribuição escandinava.

Ingmar Bergman e o seu Morangos Silvestres não só nos ofereceram algumas das mais esplêndidas e aberta imagens desse erotismo, como centraram o erotismo na vivência da mulher adulta, segura de si, consciente do seu prazer. É melhor vermos e ouvirmos. Vamos ver uma cena de Persona, filme que nos mostra o relacionamento de uma actriz de teatro, em crise, que se recusa a falar, e da enfermeira que a acompanha e que fala obsessivamente, contando os mais íntimos episódios da sua vida à sua ouvinte silenciosa e esfíngica. Ingmar Bergman concebeu a história no hospital, convalescendo de uma pneumonia, e depois de Bibi Andersson, com quem já trabalhara e de que fora amante, lhe ter apresentado Liv Ullman, de quem Bergman viria, está claro, a ser também amante.

Para usar uma frase feita: este é o filme em que o erotismo e a sexualidade atingem no cinema um estado adulto. Um cenário despido, grandes planos dos rostos, close-ups tão intensos e fortes como os de Dreyer na Joana d’Arc, uma utilização soberba da fala, contrastada com um osbtinado silêncio, uma assunção do prazer e do orgasmo feminino que utiliza sem pedir licença a excitação masculina, no caso a de dois rapazinhos de 13 e 16 anos, o que hoje contaria como pedofilia.

Os produtores resistiram a esta cena, mas Bergman, com o entusiástico apoio de Bibi Andersson, não deu abébias à censura. Filmaram a cena em duas horas e o texto foi adaptado pela actriz para soar genuinamente feminino. Para que se perceba bem a radicalidade de Persona, no filme, que é de 1965, Alma, a personagem de Bibi, conta que dessa relação com o rapazinho engravida, abortando a seguir.

O quase murmúrio da actriz que fala, aquele tom baixíssimo de voz com que narra os passos da pequena orgia, enchem-nos de nostalgia juvenil, celebrando o que no sexo pode haver de livre, descomprometido e envergonhadamente ingénuo.