No tempo dos automóveis

Agora que não só os automóveis estão em extinção, como é anacrónica a ideia de um ser humano guiar um carro, lembrei-me de uma velha crónica sobre automóveis e sexo, cujo maior defeito era não falar do mais onanista dos filmes automobilísticos já feito.
Falo de “Drive”,
rea­li­zado por Nicho­las Win­ding Refn, belís­simo filme a caval­gar a obra-prima, todo feito à mão por Ryan Gosling.

Drive

A forma como con­du­zi­mos um carro é reve­la­dora do modo como ace­le­ra­mos na cama. É cien­tí­fico, asseguram-me. Ou seja, con­du­zir um carro é, vá lá, sexo meta­fó­rico. A ser assim, nos fil­mes, a devas­si­dão come­çou com “Bul­lit”, em 1968, nas ruas de San Fran­cisco, entre um Ford Mus­tang GT e um Dodge Char­ger 440 R/T.

No Dodge, dois homens pati­bu­la­res. Ao volante do Mus­tang, Steve McQueen. Os car­ros cir­cu­lam, sua­ves, mais longe do que perto, numa valsa de engate. A música embala, com o rumor duma batida ner­vosa em fundo. Os pati­bu­la­res percebem-se segui­dos, McQueen é o per­se­gui­dor. De repente, plano de por­me­nor no inte­rior dum carro: um cinto de segu­rança aperta-se. Num tempo em que mal havia cin­tos de segu­rança e nin­guém os aper­tava, era um indí­cio de obscenidade.

A par­tir daí é à des­ca­rada: dois car­ros em cio. A geo­gra­fia de San Fran­cisco, mon­ta­nha russa, favo­rece a orgia. Há ace­le­ra­ções súbi­tas que fazem explo­dir os moto­res, um tam­pão que salta, as qua­tro rodas no ar, sus­pen­sões que se esma­gam con­tra o asfalto. Ai, ui, de pneus e aço. Nenhuma pala­vra ou som humano, como se ape­nas a intensa com­bus­tão das máqui­nas contasse.

E saem da cidade. Na estrada, aparece-lhes uma moto de frente, e sabe-se como as rela­ções apai­xo­na­das se dão mal com a pre­sença de ter­cei­ros. O Mus­tang morde a poeira e conhece o ciúme do des­piste. Volta vin­ga­tivo, e vê-se na mão dos per­se­gui­dos a pro­messa orgás­tica duma caça­deira negra. Os car­ros estão lado a lado, num vai­vém de bater um con­tra o outro. Ombro a ombro, pela frente, por trás, um toque de qua­dris. Dois, três tiros dos per­se­gui­dos não che­gam para evi­tar o vio­lento espasmo de ancas que o Mus­tang de McQueen lhes dá: o Dodge voa pelos ares, embate vio­lento con­tra uma bomba de gaso­lina e explode em ver­me­lho de fogo, clí­max que até a pé, quanto mais de carro, todos perseguimos.

Foi a “pri­meira vez”. Até hoje, já vimos muito mais. No “Duel”, de Spi­el­berg, há um camião, que devia ter ver­go­nha naquele cor­pan­zil, em assé­dio, abuso e cas­tigo a uma via­tu­ra­zi­nha, flor da estrada. Um carro per­verso tira dos car­ris um com­boio, em “French Con­nec­tion”. Num claro caso de S&M, uma “pick-up” humi­lha e faz afo­ci­nhar um caça F-35, no último “Die Hard”.

Sinal dos tem­pos, no “Tomor­row Never Dies”, Bond já não toca, nem com um dedo, no volante. Dei­tado no banco tra­seiro do BMW 750i, con­trola, no ecrã de um pré ipad, cho­ques pro­mís­cuos com car­ros volup­tu­o­sos. No fim, salta mesmo do carro que faz voar do alto de um arranha-céus, levando-o, por con­trolo remoto, a espetar-se, em espec­tá­culo contra-natura, numa mon­tra da Avis rent-a-car. Foi o plano mais ren­tá­vel de toda a his­tó­ria do cinema. Afi­nal, mesmo moto­ri­zado e a ipad, o sexo rende sempre.

A invenção do sexo

woodstock

Todas as gerações crêem pia e firmemente (graças a Deus) ter descoberto o sexo e, logo, o desejo e a nudez. O desejo teria nascido, alegam, nos anos 50 do século XX, num acto de redenção das privações da guerra mundial da década anterior ou por força da Guerra Fria. Já a nudez, fruto do casamento entre o êxtase de Woodstock com o lema “é proibido proibir” do Maio de 68, teria vindo iluminar e encandear os nossos humaníssimos olhos na década de 60. Estava capaz de me autorizar uma observação impertinente. E autorizo: se o Maio de 68 tem sido adiado para o ano seguinte, outra teria sido a História futura.

Ora, se a História da Literatura ainda vale um intempestivo e comedido pelinho, há desmentidos substanciais a essa ideia de que o desbragamento canibal dos sentidos e dos corpos é um aquecimento sociológico e humano só experimentado pela humanidade do século vale tudo, que foi o século XX, e deste actual século de consentimento passado no notário.

Comecemos por Giacomo Casanova. Atravessou, sibarítico, o século XVIII. Deixemo-nos esmagar pela objectividade: ele seduziu mais ou menos dez mil mulheres. É uma tarefa inútil contá-las: não se faz essa desfeita à felicidade. Na autobiografia, Casanova relata 132 aventuras de amor, lençóis e leito e a vocação ecuménica, universalista é de uma nua evidência: Casanova dormiu, ou melhor, deitou-se e foi amado por mulheres de 99 nacionalidades. Rendamo-nos: é uma estatística amorosa, não discriminatória, globalizante avant la lettre.

Seduzia por actos. Pequenos gestos, uma benigna ajuda, uma interferência junto de um marido bruto ou de um pai autoritário, predispunham a senhora de tais cuidados à gratidão. A palavra amorosa, envolvente, suspirada, vinha depois, antecâmara da entrega e dos culminantes cometimentos afrodisíacos.

Nascido para amar o sexo oposto, “vítima dos seus sentidos”, Casanova fez da sedução o estandarte de uma vida, antecipando tudo o que julgamos ser próprio das nossas gerações, das maratonas de sete horas de sexo até ao alarde do desempenho olímpico de doze consumadas refregas com a mesma amante num só dia. Conviveu com papas, Voltaire, Mozart e Goethe e acabou, perplexo com a impotência que lhe atormentou os últimos anos, bibliotecário na Boémia, escrevendo as memórias para espantar o tédio que era a vida em meio rural. A dois passos da cova, disse: “Vivi como um filósofo, morro como um cristão.”

Espreitemos agora Guy de Maupassant. Quem o veja na fotografia dos 7 aninhos não adivinha o que ali está em embrião: casaquinho e uma saia de século XIX, cabelo penteado à menina, uns botins de género indecifrável, Guy de Maupassant é o retrato perfeito do menino burguês francês.

À mãe, Maupassant deve o gosto das letras e a tenra aprendizagem de Shakespeare. Mas donde lhe terá vindo o gigantesco apetite sexual? Uma lendária desmesura apontada ao seu atributo de género (chamemos-lhe assim) pode ter justificado a curiosidade alheia e feminina. Escreveu cartas a Flaubert, pormenorizando os gloriosos desempenhos com mais de mil mulheres, chegando a registar 19 cópulas em apenas três dias. Flaubert, com o incómodo de quem “com o gozo dos outros não gozo eu, nem mal nem bem”, terá pedido que parasse com tais delírios imaginativos. Diz-se que Maupassant contratou um oficial de justiça para o seguir e anotar cada uma das suas batalhas amorosas, enviando depois a Flaubert esse atestado de virilíssima autenticidade.

Há uma indiscutível geminação do sexo e da escrita. Qual delas determina a outra?

Publicado em “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Dá-me o teu sofrimento

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Lou Salomé com Paul Rée e Nietzsche, em sugestiva encenação

Andava ele a matar Deus quando a conheceu. E nem foi ele que a descobriu, mas um Espírito Santo de orelha, o seu amigo Paul Rée. Adiante hei de falar eu da afrontosa trindade que juntos incarnaram. Agora apresento-os: ele é o filósofo Friedrich Nietzsche e ela é Lou Salomé, russa-alemã, romancista, poeta, filósofa, mais tarde psicanalista.

Lou Salomé foi uma fulgurante antecipação do século XXI no final do século XIX. A 13 de Maio de 1882, andava a Virgem Maria de agência em agência a ver se marcava viagem para Fátima, Rée e Lou encontraram-se com Nietzsche na Basílica de São Pedro, em Roma. A meia beleza tão moderna dela, que uns grandes olhos incendiavam, deixou Nietzsche de boca aberta. Eis o que disse: “De que estrelas caíste para nos encontrarmos agora aqui, tu e eu?” Lou esfaqueou-lhe logo a veia lírica: “Vim só de Zurique!”

Reparem, isto é tudo gente que estava em Itália, exilados, inquietos, gente com agulhas no rabo e na alma, acolhendo-se, em Sorrento, ao salão literário da prussiana Malwida von Meysenburg, livre pensadora, mulher que exerceu e gozou direitos antes que lhos reconhecessem. Foi lá que a total independência de Lou deu de caras com Rée. Logo lhe pediu que viesse viver com ela. E, ao esbarrar em Nietzsche, disse-lhe que onde cabiam dois muito mais felizes seriam três.

O triangular escândalo, concebido por uma mulher de 22 anos, cegou o plácido olhar burguês do tempo. Só que cegava também o grande olho boémio: Lou rivalizava em virgindade com Nossa Senhora. Em Sorrento, e sei do que falo, o azul mediterrânico a fundir-se no cítrico aroma a laranjas, Lou explicou a Rée e depois a Nietzsche que era de irmãos espirituais o amor dela. Ambos lhe propuseram casamento, o que Lou rejeitou com fúria amazónica: ofereceu-lhes o fogo da alma e o gelo do corpo. Defendia a sua virgindade como Joana d’Arc defendeu a França, única forma de garantir a plenitude intelectual, criadora, poética. Lou rejeitava o casamento, a monogamia, o masculino teleologofalicismo (bem sei, até dói!). Atormentado, Nietzsche já não sabia como amá-la. Lou esclareceu-o em verso: “Se já não tens mais felicidade para dar, dá-me então o teu sofrimento…” Não admira que Nietzsche tenha degolado o Senhor omnipotente.

Não obstante, aos 26 anos, Lou casou-se. O marido, um orientalista arménio, Andréas, experimentou a mesma exacta ardente paixão fria que congelou Rée e Nietzsche. Se me permitem uma nota de menor elevação direi, e é verdade, que teve filhos da criada. Uma das filhas seria a herdeira de Lou.

Só aos 30 anos, com um político, Georg Ledebour, Lou conheceu as delícias e os tormentos da carne. Lou cedeu o gelo do corpo. Mas só aos 36, com um jovem poeta, Lou se fundiu, carne e espírito, tocando a unidade primordial, essa mínima centelha de divindade que todos buscamos. Esse poeta, René Maria Rilke, entregou-lhe os sonhos e o vigor dos 22 anos. Ela acolheu-o, rejeitou mais um pedido de casamento, mudou-lhe o nome para Rainer, levou-o num périplo espiritual a conhecer a Rússia e Tolstoi. Lou mandou-o embora quatro anos depois.

Os homens abandonados por Lou davam à luz um livro nove meses depois. Nietzsche e Rilke confirmam: um escreveu “Assim Falava Zaratustra”, o outro “O Livro das Horas”.

Lou Andréas Salomé, já no século XX, ainda inquietaria Freud, a primeira mulher a entrar no círculo psicanalítico de Viena. Casada com Andreas até ao fim da vida, deixou-se morrer dias depois da Gestapo lhe confiscar a biblioteca, tão cheia de “autores judeus”.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Calcinhas

Mailer e Norris
Com Norris

Norman Mailer está nu e morto há quase 12 anos, desde Novembro de 2007. Li nestas curtíssimas férias, o livro que escreveu sobre o célebre combate de Muhammad Ali e George Foreman, em Kinshasa. Chama-se, sem mais, “O Combate”. Escrita directa, cada frase um gancho, às vezes de direita, às vezes de esquerda. Uma paixão sem freio por Ali.

Sobre Mailer, e sem punhos de renda, escreveram-se, pouco depois da sua morte, dois livros. Um é da sua mulher, Norris Church Mailer. O outro, da sua amante, Carole Mallory, que ele amou, e ela a ele, durante nove anos. “A Ticket to the Circus” chama-se um, “Loving Mailer” o outro.

Coincidem em vários pontos, relatando as lendárias antipatias do escritor, a raiva que tinha a certos advérbios e, por razões menos gramaticais, a certos contraceptivos. Tem piada, ambas lhe agradecem a forma como, mentor, as animava a escrever. Ambas se lembram da escandaleira que foi a primeira noite de sexo: “Take off your panties, I want to experience your soul” lembra-se Carole de ele lhe ter dito.

Ambas suavizam a ideia de que Mailer tenha sido – pelo menos com elas – um tipo violento, e Norris até confessa que foi ela quem lhe acertou um murro no queixo, numa discussão. Ambas tiveram outras aventuras, Norris com Bill Clinton, antes de Mailer a conhecer, Carole uma longa lista de Oscarizados, incluindo Robert De Niro,  Clint Eastwood e Warren Beatty. A chave, a verdadeira chave da paixão, confessam Norris e Carole, foi a mesma.

Norris fala do peito peludo dele que lhe servia de almofada, mas sobretudo do “splendid cock” que ele possuía.

Para Carole, Mailer parecia o Humpty Dumpty, quase ridículo, mas com um trunfo apreciável: “if his penis weren’t so beautiful, I would have left.”

Nenhuma o deixou o que não é certamente a pior homenagem que se pode prestar a um escritor.

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Com Carole

 

 

F ?

F e F
F atrás de F

Kafka, nome impossível de apenas duas consoantes e uma vogal. Kafka, essa len­ga­lenga infan­til a que só um insi­di­oso F evita a ridícula caco­fo­nia, pro­ta­go­ni­zou pai­xões ini­ma­gi­ná­veis. Por muito que nos custe aceitá-lo, o autor de A Meta­mor­fose ou de O Pro­cesso, apaixonou-se e amou à maneira dos filmes a que tanto ia, como mostra Hanns Zischler no documentário “Kafka goes to the movies”. Várias, tan­tas vezes. Conto uma.  

De Praga a Ber­lim não eram dois pas­sos, mas foi quando os deu que Kafka encon­trou Felice Bauer, este­nó­grafa ber­li­nense, dora­vante F, amiga de Max Brod, amigo do F entre kápas que por acaso era Kafka.

Tam­bém era 1912 e F e F fala­ram toda a noite. De olhos nos olhos só vol­ta­riam a estar jun­tos muito pou­cas vezes. O que não impe­diu que, de 1912 a 1914, Kafka lhe escre­vesse duas a três car­tas por dia. Car­tas lon­gas, de várias pági­nas. Por­me­nor de filme: F, por acaso Kafka, envi­ava as car­tas para a empresa onde este­no­gra­fava F, fintando a vigi­lân­cia da mamã da nubente, inde­se­jada lei­tora que se ofendia com os excessos de tanto F.

Kafka expu­nha, à letra e com fulgor cinematográfico, o seu dilema – e o seu dilema era o sexo. Em mais de 500 car­tas, o checo F expli­cou à ber­li­nense F que o coito era pouco mais do que “a puni­ção pela feli­ci­dade de estar­mos jun­tos”. Ora, F!

Foram noi­vos, os dois F, F de Felice, F de Franz – duas vezes F, duas vezes noi­vos. A pri­meira vez, até com anún­cio público. F de Franz veio a Ber­lim, hospedando-se no Aska­ni­che Hof, pronto para a festa que deve­ria ser na 2.ª feira, a seguir ao Pen­te­cos­tes. Mas não foi, embora fosse já 21 de Abril de 1914. A festa converteu-se em jul­ga­mento fami­liar de F de Franz que ras­gou o com­pro­misso. Com a famí­lia vin­di­ca­tiva veio a melhor amiga de F de Felice, Grete Bloch, sem F que se veja, mas que se diz ter sido mãe de filho cujo puta­tivo pai terá sido o nosso F entre Ka e Ka. Lúbrica vingança de F?

Estava nas cartas que F e F não se juntariam. A culpa, se cul­pas há em haver F em Franz e F em Felice, tam­bém foi da senho­ri­nha Bauer, pre­su­mi­vel­mente adi­vi­nhada pela expe­ri­ente senhora Bauer sua mãe que de F já tudo sabia. Quando, pela pri­meira vez, F disse a F que F apai­xo­na­da­mente para sem­pre a F que­ria (e para casar!), os ter­mos da amo­rosa carta foram estes, exal­tan­tes e pro­me­te­do­res: “Casa-te comigo e vais lamentá-lo. Não te cases comigo e hás-de lamentá-lo. Cases ou não te cases comigo e vais lamentar-te, não importa o que esco­lhas.

F de Felice fugiu, claro, a mui­tos sete pés de tão arre­ba­tado e apocalíptico F por ele ela­bo­rar, assim, con­ju­gal­mente, avisando-a que, juntos os F, seriam infe­li­zes para sempre.

Nunca casa­ram. F sem F é de lamen­tar, não se desse o caso de terem ficado 511 car­tas que F de Felice, ape­sar de sem F, guar­dou e publi­cou em Nova Ior­que, e três geni­ais roman­ces que, nes­ses anos, F de Franz letra a letra escre­veu com todos os F que para os escre­ver eram pre­ci­sos. Por­que enquanto F pen­sou, enfim, que F em F pudes­sem um só F ser, escre­veu A Sen­tença (será que se cha­mou assim em por­tu­guês, se em por­tu­guês foi publi­cado?) que a F dedi­cou, e a Meta­mor­fose e o Pro­cesso?! Bem se vê o que a F, F deve, e o que nós e a lite­ra­tura do mundo todo seri­a­mos se em cada livro não hou­vesse o que de algum F cada F espera.

franzkafka

 

O ponto G

samantha-sex-robot

Nenhum homem heterossexual voltará a ficar sozinho. A indústria sextech está imparável. Esqueçam lá as bonecas insufláveis: a tecnologia já oferece parceiros sexuais humanóides.

Rostos perfeitos, curvas de valha-me nosso senhor. Para não falar de competências: sexo oral com base em 16 técnicas escolhidas (à mão?) do estudo dos melhores 1200 vídeos da especialidade. Há até uma robot dotada da louvável fantasia que é o ponto G.  Gemem. Bebem a bica curta. Também conversam. Tão compreensivas, tão disponíveis, há casos de paixão assolapada de homens pela sua robot sexual. Nenhum homem voltará a estar sozinho na sua imensa solidão.

Bica Curta publicada no CM

Meus kambas: Pedro Bidarra

Já disse duas vezes, aqui e aqui, que Meus Kambas é uma varanda pequenina com porta para a cozinha, onde recebo os amigos. Não é fácil sentar o Pedro Bidarra nessa varanda, como não é fácil sentar o Pedro Bidarra em lugar nenhum. Ninguém em seu perfeito juízo tenta sentar o Pedro Bidarra, porque ele é energia instável, movimento em estado puro, insentável. Nem a escrita dele, imitando-o, se senta, inquieta, em busca, como sabem todos os que o leram, no Escrever é Triste ou no romance (e não seria, por indefinível transumância de géneros, uma novela?) que dele publiquei, Rolando Teixo de seu título, emergentes ramos e raízes escondidas no seu conteúdo. Leiam agora este texto que ele me mandou, excerto de uma narrativa mais vasta em gestação.

cisne
Leda e o Cisne, Paolo Veronese

Os deuses em trânsito
Pedro Bidarra

7.

Os deuses e as deusas, que na persecução dos seus enredos divinos tomam corpos mortais e neles habitam enquanto e como querem, para seu gozo e prazer, no fim abandonam-nos cruelmente, deixando-lhes apenas memórias do tempo em que aquela carne foi tocada pelo divino.

       Sobre o cisne que Zeus encarnou para comer a Leda nada mais se soube depois de consumado o acto e do rei dos deuses se ter posto a andar de volta ao Olimpo. Podemos apenas especular que terá retomado a sua existência meramente aviária, grasnando estonteado atrás do bando pelos jardins e lagos do palácio do rei Tíndaro, tentando contar-lhes os quinze minutes, se tanto, de êxtase e glória; da sorte que lhe havia calhado quando, ao fugir de uma águia, caiu nos braços da Leda toda nua; e como depois foi só comê-la, estando ela, como estava, pronta e desconsolada pela negligência do consorte — quiçá motivada pelos sempre prementes assuntos do estado ou, talvez, pelas putas. Terá o desacreditado cisne levado o resto da vida a contar aos outros que era pai da Helena e dos Dioscuros? Por ventura. É claro que nenhum cisne, no seu bom senso aviário, terá crido em tão inverosímil narrativa; muito menos a companheira que, com toda a certeza, o terá para sempre olhado como o gabiru e ido fazer ninho com outro, talvez um cisne preto, para sublinhar a negrito o despeito e a vingança. Se foi assim que as coisas se passaram — o que terá uma probabilidade, no mínimo, tão grande quanto um cisne ter comido a Leda — só podemos especular.

       E o que dizer do caso que envolve Anquises, Afrodite e uma anónima e princesa virgem que Afrodite encarnou para seduzir o bonito apascentador de cavalos? Sobre a princesa encarnada, e depois de consumada a união com Anquises, pouca história reza. Houve um parto, isso é certo, e a deusa, também é certo, ter-se-á desinteressado do assunto como é mister dos divinos. À pobre princesa terá restado um corpo com estrias, um ventre proeminente do alargamento que a gravidez sempre provoca, mamas descaídas e maltratadas pelas mordidas do bebé Eneias e tudo um pouco flácido; corpo que Anquises terá trocado, a fazer fé em hábitos que são de hoje e de sempre, por outras mais novas e frescas conquistas; até ser fulminado por um raio de Zeus, quando resolveu dar-se ares e, mesmo avisado, se pôs a contar o assunto à rapaziada: “Vocês sabem lá, eu comi uma deusa.” Quem não contaria? Ficou manco, o desbocado, rezam os mitos.

       Afrodite é a mais cruel de todos e todas. Hoje habita a Beatriz, como outrora habitou a Madalena e a Patrícia. As artes da Beatriz são as mesmas artes, os mesmos truques hipnotizantes com que a Patrícia e a Madalena outrora me derreteram. Mas olhe-se a Madalena de hoje e veja-se toda a crueldade de Afrodite; encarna um corpo por uns tempos, uns anos na melhor das hipóteses, dá-lhe inelutáveis poderes de sedução, uma presença etérea, uma aura principesca, a capacidade de caminhar quase sem tocar o chão, uma autoconfiança que resulta da inconsciência da efemeridade, e depois farta-se, desencarna e resulta a velha Madalena. Como, a seu tempo, resultará a velha Beatriz. No caso da Madalena, como em tantos outros que todos tão bem conhecemos, os corpos abandonados pela deusa são por fim tomados por Harpias estridentes que debicam a paciência das vítimas até à cirrose, ao AVC, ao cancro ou à loucura. Mas até lá, enquanto Afrodite as habita, não há como resistir-lhes.

       A Beatriz estava no meio das mulheres. Mais uma vez, sentindo a minha presença, virou a cabeça sobre o ombro e olhou-me como a Kalipigos. Depois virou-se e avançou na minha direcção, sorridente, fresca, muito bela, sem tocar com as sandálias no chão, deixando atrás de si a entourage alcoviteira a mirar-me dos pés à cabeça. Senti-me pegar fogo. Ainda sim, e pela primeira vez, consegui articular uma palavra na sua presença:

       — Olá — disse.

       — Olá tio.

       O cumprimento escorreu como balde de água fria lançado sobre o fogo que acabara de atear. Mas um homem feito não foge; fica posto e aguenta a humilhação. Sorri o meu mais jovial sorriso.

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Leda e o cisne, François Boucher

Bernardo Bertolucci, último tango

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Sentei-me na mesma mesa dele, uma noite, em Cannes, na esplanada do Carlton. Culpa do senhor Manoel de Oliveira, e também, sejamos justos, do Paulo Branco, magnânimo nos convites. Eram os meus tempos de jovem crítico de cinema, tarefa para que não tinha competência, por não haver nenhuma competência em ser-se crítico. Bernardo Bertolucci, que marcou o imaginário da minha geração com o Último Tango em Paris, estava nessa mesa e tenho agora pena de não o ter conhecido uma migalha que fosse das migalhas que dessa mesa possam ter caído. Lembro-me que discutia com Oliveira e a Isabel Branco as minhas objecções, mais emocionais do que críticas, ao Non ou a Vã Glória de Mandar. E discutimos tanto que saímos dali, em peripatética parlamentação, ao longo da Croisette, do Carlton para o Majestic, levando a deitar o senhor, magnífico e tolerante Manoel de Oliveira.

Bernardo Bertolucci pertence a essa geração de realizadores literariamente muito bem formados, uma mão em Stendahl outra em Borges, com um sentido da transgressão que absorveu Bataille e a Sade chama meu próximo. Visualmente formado em Pasolini e Francis Bacon, com a sombra de Godard em cima. Não se veja nisto nenhuma ironia em ainda menos depreciação. Veja-se apenas aquilo que é e que os filmes de Bertolucci reclamam: pertencer a um tempo.

Em três filmes, 1900, Último Tango em Paris, O Último Imperador, filmando tempos diferentes, filmou sempre o nosso tempo, a nossa moralidade ou amoralidade, a nossa angustiada misantropia (lembrem-se de Marlon Brando no Tango), a nossa insólita reclusão (lembrem-se da cidade proibida do Imperador), o nosso fascínio pelos requebros irracionais da ideologia (do Conformista a 1900). Podemos querer mais do cinema, como queremos e sabemos que Stendahl e Borges nos dão mais do que o tempo que foi o tempo deles, mas um cinema que nos restitui o nosso tempo e nos restitui ao nosso tempo, merece ser saudado pela sua inteligência. Morreu hoje Bernardo Bertolucci: nos filmes dele tinha morrido a derradeira visão trágica do sexo no cinema.

LASTEMPEROR