Bernardo Bertolucci, último tango

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Sentei-me na mesma mesa dele, uma noite, em Cannes, na esplanada do Carlton. Culpa do senhor Manoel de Oliveira, e também, sejamos justos, do Paulo Branco, magnânimo nos convites. Eram os meus tempos de jovem crítico de cinema, tarefa para que não tinha competência, por não haver nenhuma competência em ser-se crítico. Bernardo Bertolucci, que marcou o imaginário da minha geração com o Último Tango em Paris, estava nessa mesa e tenho agora pena de não o ter conhecido uma migalha que fosse das migalhas que dessa mesa possam ter caído. Lembro-me que discutia com Oliveira e a Isabel Branco as minhas objecções, mais emocionais do que críticas, ao Non ou a Vã Glória de Mandar. E discutimos tanto que saímos dali, em peripatética parlamentação, ao longo da Croisette, do Carlton para o Majestic, levando a deitar o senhor, magnífico e tolerante Manoel de Oliveira.

Bernardo Bertolucci pertence a essa geração de realizadores literariamente muito bem formados, uma mão em Stendahl outra em Borges, com um sentido da transgressão que absorveu Bataille e a Sade chama meu próximo. Visualmente formado em Pasolini e Francis Bacon, com a sombra de Godard em cima. Não se veja nisto nenhuma ironia em ainda menos depreciação. Veja-se apenas aquilo que é e que os filmes de Bertolucci reclamam: pertencer a um tempo.

Em três filmes, 1900, Último Tango em Paris, O Último Imperador, filmando tempos diferentes, filmou sempre o nosso tempo, a nossa moralidade ou amoralidade, a nossa angustiada misantropia (lembrem-se de Marlon Brando no Tango), a nossa insólita reclusão (lembrem-se da cidade proibida do Imperador), o nosso fascínio pelos requebros irracionais da ideologia (do Conformista a 1900). Podemos querer mais do cinema, como queremos e sabemos que Stendahl e Borges nos dão mais do que o tempo que foi o tempo deles, mas um cinema que nos restitui o nosso tempo e nos restitui ao nosso tempo, merece ser saudado pela sua inteligência. Morreu hoje Bernardo Bertolucci: nos filmes dele tinha morrido a derradeira visão trágica do sexo no cinema.

LASTEMPEROR

Dez grandes cenas do cinema: Persona

E estou quase a chegar ao fim. Eis a nona das dez cenas que escolhi para o fantástico evento a que o Nuno Artur Silva chamou O Gosto dos Outros

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PERSONA (1966), de Ingmar Bergman
monólogo de Bibi Andersson narrando a orgia com outra rapariga e dois rapazes

Se só devêssemos à Suécia o Ikea já não seria pouco, mas a verdade é que devemos muito mais. Sem o cinema mudo sueco não teríamos, por exemplo, o Pedro Norton sentado nesta sala, e o imaginário erótico do Pedro Norton, como o meu e o de muitas gerações. Nenhum de nós teria chegado à idade adulta, ainda a suspirar como uma criança, se não fosse a contribuição escandinava.

Ingmar Bergman e o seu Morangos Silvestres não só nos ofereceram algumas das mais esplêndidas e aberta imagens desse erotismo, como centraram o erotismo na vivência da mulher adulta, segura de si, consciente do seu prazer. É melhor vermos e ouvirmos. Vamos ver uma cena de Persona, filme que nos mostra o relacionamento de uma actriz de teatro, em crise, que se recusa a falar, e da enfermeira que a acompanha e que fala obsessivamente, contando os mais íntimos episódios da sua vida à sua ouvinte silenciosa e esfíngica. Ingmar Bergman concebeu a história no hospital, convalescendo de uma pneumonia, e depois de Bibi Andersson, com quem já trabalhara e de que fora amante, lhe ter apresentado Liv Ullman, de quem Bergman viria, está claro, a ser também amante.

Para usar uma frase feita: este é o filme em que o erotismo e a sexualidade atingem no cinema um estado adulto. Um cenário despido, grandes planos dos rostos, close-ups tão intensos e fortes como os de Dreyer na Joana d’Arc, uma utilização soberba da fala, contrastada com um osbtinado silêncio, uma assunção do prazer e do orgasmo feminino que utiliza sem pedir licença a excitação masculina, no caso a de dois rapazinhos de 13 e 16 anos, o que hoje contaria como pedofilia.

Os produtores resistiram a esta cena, mas Bergman, com o entusiástico apoio de Bibi Andersson, não deu abébias à censura. Filmaram a cena em duas horas e o texto foi adaptado pela actriz para soar genuinamente feminino. Para que se perceba bem a radicalidade de Persona, no filme, que é de 1965, Alma, a personagem de Bibi, conta que dessa relação com o rapazinho engravida, abortando a seguir.

O quase murmúrio da actriz que fala, aquele tom baixíssimo de voz com que narra os passos da pequena orgia, enchem-nos de nostalgia juvenil, celebrando o que no sexo pode haver de livre, descomprometido e envergonhadamente ingénuo.