A invenção do sexo

woodstock

Todas as gerações crêem pia e firmemente (graças a Deus) ter descoberto o sexo e, logo, o desejo e a nudez. O desejo teria nascido, alegam, nos anos 50 do século XX, num acto de redenção das privações da guerra mundial da década anterior ou por força da Guerra Fria. Já a nudez, fruto do casamento entre o êxtase de Woodstock com o lema “é proibido proibir” do Maio de 68, teria vindo iluminar e encandear os nossos humaníssimos olhos na década de 60. Estava capaz de me autorizar uma observação impertinente. E autorizo: se o Maio de 68 tem sido adiado para o ano seguinte, outra teria sido a História futura.

Ora, se a História da Literatura ainda vale um intempestivo e comedido pelinho, há desmentidos substanciais a essa ideia de que o desbragamento canibal dos sentidos e dos corpos é um aquecimento sociológico e humano só experimentado pela humanidade do século vale tudo, que foi o século XX, e deste actual século de consentimento passado no notário.

Comecemos por Giacomo Casanova. Atravessou, sibarítico, o século XVIII. Deixemo-nos esmagar pela objectividade: ele seduziu mais ou menos dez mil mulheres. É uma tarefa inútil contá-las: não se faz essa desfeita à felicidade. Na autobiografia, Casanova relata 132 aventuras de amor, lençóis e leito e a vocação ecuménica, universalista é de uma nua evidência: Casanova dormiu, ou melhor, deitou-se e foi amado por mulheres de 99 nacionalidades. Rendamo-nos: é uma estatística amorosa, não discriminatória, globalizante avant la lettre.

Seduzia por actos. Pequenos gestos, uma benigna ajuda, uma interferência junto de um marido bruto ou de um pai autoritário, predispunham a senhora de tais cuidados à gratidão. A palavra amorosa, envolvente, suspirada, vinha depois, antecâmara da entrega e dos culminantes cometimentos afrodisíacos.

Nascido para amar o sexo oposto, “vítima dos seus sentidos”, Casanova fez da sedução o estandarte de uma vida, antecipando tudo o que julgamos ser próprio das nossas gerações, das maratonas de sete horas de sexo até ao alarde do desempenho olímpico de doze consumadas refregas com a mesma amante num só dia. Conviveu com papas, Voltaire, Mozart e Goethe e acabou, perplexo com a impotência que lhe atormentou os últimos anos, bibliotecário na Boémia, escrevendo as memórias para espantar o tédio que era a vida em meio rural. A dois passos da cova, disse: “Vivi como um filósofo, morro como um cristão.”

Espreitemos agora Guy de Maupassant. Quem o veja na fotografia dos 7 aninhos não adivinha o que ali está em embrião: casaquinho e uma saia de século XIX, cabelo penteado à menina, uns botins de género indecifrável, Guy de Maupassant é o retrato perfeito do menino burguês francês.

À mãe, Maupassant deve o gosto das letras e a tenra aprendizagem de Shakespeare. Mas donde lhe terá vindo o gigantesco apetite sexual? Uma lendária desmesura apontada ao seu atributo de género (chamemos-lhe assim) pode ter justificado a curiosidade alheia e feminina. Escreveu cartas a Flaubert, pormenorizando os gloriosos desempenhos com mais de mil mulheres, chegando a registar 19 cópulas em apenas três dias. Flaubert, com o incómodo de quem “com o gozo dos outros não gozo eu, nem mal nem bem”, terá pedido que parasse com tais delírios imaginativos. Diz-se que Maupassant contratou um oficial de justiça para o seguir e anotar cada uma das suas batalhas amorosas, enviando depois a Flaubert esse atestado de virilíssima autenticidade.

Há uma indiscutível geminação do sexo e da escrita. Qual delas determina a outra?

Publicado em “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

9 thoughts on “A invenção do sexo”

  1. “se o Maio de 68 tem sido adiado para o ano seguinte, outra teria sido a História futura.”
    🤣 Vivam as observações impertinentes

    “(…) consentimento passado no notário.”
    Esta também teria imensa piada se não fosse verdade.

    E agora, perdoe-me a ousadia de pôr as mãos em algo muito seu, mas massajo-lhe o ego: eu escrevo para mim, mas também com a ambição de despoletar em outro aquilo que a sua escrita em mim despoleta: um enorme sentimento de “awe”!! (Esta teve de ser em inglês porque não sei qual a palavra portuguesa – o Manuel concerteza saberá)

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  2. Esqueceu-se do D. Juan, este também tinha um criado Loporello para lhe contabilizar as conquistas. Stefan Zweig no ensaio sobre Casanova fala do D. Juan, comparando os métodos e a consideração pelo belo sexo, este dizia que as mulheres eram, na altura, “anges à l’église et singes au lit”, anjos somente na igreja e simiescamente sensuais no leito. Ora toma metoo!

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    1. Bom dia, meu caro Albertino, não foi bem esquecimento. Sabe que estas minhas crónicas são publicadas em jornais, com espaço bem delimitado. No caso, 3500 caracteres. O objectivo não pode, por isso, ser o elenco de tudo, mas sim escolher um ou dois casos e tirar uma conclusão 🙂
      Um abraço

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