Treze anos de Guerra e Paz

Este é o texto com que a Guerra e Paz editores, a minha editora, comemorou, hoje, o 13ª aniversário. Uma festa com um pedido realista e sensato: comprem livros.

quem ama o livro

A Guerra e Paz editores faz hoje 13 anos. O nosso mundo é o mundo dos livros, o mundo do amor aos livros, o mundo do prazer do papel, do cheiro do papel, do deslumbramento com uma capa sedutora, o divertimento (claro) com uma paginação inovadora.

O mundo dos livros é, hoje, um mundo ameaçado. Em todo o mundo. Muito ou muitíssimo em Portugal. Desaparecem livrarias, os circuitos de distribuição reduzem-se, as vendas caem, a forte rotatividade dos livros em livraria faz com que os títulos se esfumem sem que ninguém os veja, a crítica literária fecha-se em tribo, a Imprensa, ela mesma em crise, retira o espaço à divulgação do livro. O mundo virtual, com gratificação instantânea e com prazeres de meio minuto, falsamente gratuitos, oferece um modelo de entretenimento de consome e deita fora que parece dispensar a leitura.

A sobrevivência do livro passa também – e muito – por cada um de nós, leitores. Se queremos que haja autores, que haja romancistas e poetas, se queremos que haja editores que os publiquem com dignidade, se queremos que haja livrarias arejadas e espaçosas, vivas, é preciso que se comprem livros. O livro, o mundo do livro precisa que à volta dele se reúnam boas intenções, que sobre ele se pronunciem excelentes e belos discursos, mas nada disso lhe serve se o oxigénio – a compra do livro pelos leitores – lhe for cortado.

Em Portugal, compramos muito poucos livros. Uma média de 1,4 livros por habitante. Em Espanha, para darmos só um exemplo, cada espanhol compra sete vezes mais livros. Só ama o livro quem compra livros. Temos de amar mais os livros. Para ganharmos todos. Para termos um país mais rico de sensibilidade, mais forte no conhecimento, mais consciente da sua identidade, diversidade e universalidade.

A Guerra e Paz editores orgulha-se de ter, neste último ano, publicado livros de filosofia (Estudos sobre Heidegger e dois livros de Michel Serres), economia (de um Prémio Nobel, A Economia do Bem Comum), ensaio literário (sobre José Cardoso Pires), livros de vida e obra (o cientista Carlos Fiolhais, a pintora Graça Morais, o escritor Mário de Carvalho em diálogo com José Jorge Letria), livros sobre língua portuguesa (Palavras que o Português Deu ao Mundo e Dicionário de Erros Falsos, ambos de Marco Neves).

A Guerra e Paz orgulha-se de se ter aventurado no mundo da emoção poética, com um admirável livro de Eugénia de Vasconcellos (Sete Degraus sempre a Descer) e a mundivivência africana de Tchiangui Cruz (Guardados Numa Gaveta Imaginária), o lirismo sereno de Howard Altmann (Enquanto a Fina Neve Cai).

Orgulhamo-nos, enfim, das apostas no romance, em autores como Luis Rainha (Adeus.), Luís Pedro Cabral (A Cidade dos Aflitos), no tão bonito livro de Maria João Carrilho (A Solidão de Sermos Dois) ou no intrincado romance de João Nuno Azambuja (Provocadores de Naufrágios). Para não falar no intenso, poderoso e confessional “Mãe, Promete-me Que Lês”, de Luís Osório.

Estes são apenas alguns dos títulos que publicámos, exemplo das apostas em escritores portugueses, das apostas no romance ou na poesia, ou das apostas em disciplinas que vão da filosofia à economia, passando pela sociologia. É este o nosso amor ao livro. Sem a compra dos leitores é um amor não correspondido. Andamos aqui, a amar, há treze anos: dê-nos a mão.

Bica Curta: odes e martírios

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Esta é a minha terceira semana a servir bicas curtas. De 3ª a 5ª, viajei da pretensa censura a Álvaro de Campos à cidade mártir de Mossoul. Com paragem noutro secreto lugar mártir, esse silêncio doméstico onde há atentados cobardes a mulheres. Ah, sempre de chapéu posto. 

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Bica Curta
3ª feira,  22/1/2019

A pior das censuras
O cadáver futurista de Álvaro de Campos, que por acaso está dentro do cadáver do prestidigitador Fernando Pessoa, deve estar a revirar-se eufórico e a gritar odes no cemitério. Já morto armou um escândalo: há um manual para meninos e meninas que leva truncado um poema triunfal dele.

Uma multidão de Vestais clama censura. Luxos de quem confunde censura com falta de jeito. Portugal não tem censura, haja Deus. Melhores ou piores, deve ter, sim, critérios pedagógicos. Ameaça de censura é ninguém ler e comprar livros. Ameaça de censura é um editor já não conseguir publicar poesia a não ser subsidiada. Não ler, eis a pior das censuras.

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Iraqis gather at a cultural café named “Book Forum” in the former embattled city of Mosul on January 6, 2018 six months after Iraqi forces retook the northern city from Islamic State (IS) jihadists. / AFP PHOTO / Ahmad MUWAFAQ (Photo credit should read AHMAD MUWAFAQ/AFP/Getty Images)

Bica Curta
3ª feira,  23/1/2019

O Daesh que nos mói
Deslarguem-me, deixem-me ir tomar a bica a Mossoul, cidade mártir do Iraque. Os terroristas puseram-na em cacos, queimaram todos os livros. Na cidade libertada, dois loucos criaram uma livraria. Vencido o Daesh, dir-se-ia que havia outras prioridades. Mas há alguma coisa mais importante do que ler e sonhar? Os dois sonhadores venderam tudo, até as jóias das mulheres, e a livraria nasceu. À meia-noite, ainda aqui se lê, recita, toca, há chá e café. Sentam-se muçulmanos e cristãos, homens e mulheres. Que lição: em média um português compra 1,2 livros por ano contra os 9 que compra um espanhol. Temos um Daesh a moer-nos por dentro.

violencia

Bica Curta
3ª feira,  24/1/2019

Não é de homem
Hoje é bica escaldada, em honra de meu pai, que tocava bandolim, só tinha a 4ª classe e tanto me ensinou. Ensinou-me que não se bate a quem dizemos amar. Usar a superioridade física para bater a uma mulher é cobardia. Uns merdas, dizia-me ele. E morrem mais de 20 mulheres por ano.

Ouço muita treta e rainha da cocada preta, alto paleio sociológico à conta da violência doméstica, o flagelo e coisa e tal, mas a lição do meu pai brilha como sol no céu e não há cá eclipses: o homem que bate é cobarde. Ou covarde, que a besteira não é ortográfica, a besteira é de quem não mete na cachimónia matumba que bater numa mulher não é de homem.

Publicado no CM, Correio da Manhã

Os editores são um zero à esquerda

lolita

Zero. À esquerda. O que sabem editores, perguntaria Camilo se andasse para aqui a escrever na blogosfera. Basta fazer uma passagem aleatória pela ava­li­a­ções dos edi­to­res no momento da publi­ca­ção de ori­gi­nais.

“Lolita”, de Vladimir Nabokov, por exemplo. Reparem, foi recu­sado por vários edi­to­res que lhe deram sonoramente com os pés. Como, nou­tro tempo e por outros edi­to­res, foi recu­sado o “Pride and Pre­ju­dice” de Jane Aus­ten. Pior (ou melhor?): houve 22 edi­to­res que recu­sa­ram o “Dubli­ners” de James Joyce. Mesmo o con­sen­sual “War of the Worlds”, de H. G. Wel­les, levou uma redonda nega de um redondo edi­tor. E a editora Har­court Brace (de San Diego, Nova Ior­que e Orlando), desdenhou o “The Cat­cher in the Rye”, de J.D.Salinger, que have­ria de fazer a feli­ci­dade de outra editora, a Lit­tle, Brown, de Bos­ton e Nova Ior­que.

Digo isto e sei que exagero. É fácil ati­rar pedras aos edi­to­res, que cos­tu­mam ser pre­sos por ter cão e por não ter cão. Mas lembrem-se do vexame por que pas­sou uma pres­ti­gi­ada revista lite­rá­ria (e conto como me con­ta­ram) a que um cínico enviou um poema de e. e. cum­mings, cui­da­do­sa­mente rees­crito de trás para a frente: o comité da revista deu-lhe o pri­meiro pré­mio do seu con­curso para a elei­ção de novos talen­tos. Mal por mal e nunca fiando, antes o mau feito de uma escar­rado não.

O livro é uma prenda de Natal perigosamente infectada de passado

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Dito de outro modo, a Guerra e Paz não é Luis XIV e muito menos o Estado sou eu. Mas confesso que entre mim e a Guerra e Paz há um conflito de interesses, afectos e até mesmo de uma certa permeabilidade genética. É só por essa razão, que são três, que eu copio o email que “eles” (ou ela) mandou à Imprensa e aos amigos. 

Sugestões de Natal II

O livro é uma prenda de Natal perigosamente infectada de passado
Guerra e Paz editores

A Guerra e Paz editores não se atreveria a sugerir que no Natal se oferecessem esses anacrónicos objectos chamados livros. É uma tecnologia antiga e as pessoas que entram em contacto com ela arriscam-se a sofrer emoções fortes. As autoridades têm feito todos os esforços para erradicar pessoas atingidas por esses artefactos do passado, mas infelizmente ainda é possível verem-se vítimas agarradas a esses pedaços de folhas revestidos por uma capa rindo-se perdidamente, chorando copiosamente, enternecendo-se sem a desculpa de nenhum advérbio de modo.

Mas, por se saber que há ainda uma comunidade significativa de sinistrados, e sucedendo-nos ter recebido cerca de cem e-mails (não estamos a contar sms, nem tuíteres) a pedir conselhos na escolha de livros da Guerra e Paz para oferecer no Natal, somos forçados a meter-nos na máquina do tempo. Só não sabemos se estamos a viajar em direcção ao passado ou ao futuro.

Sublinho: os e-mails pediam-nos livros da Guerra e Paz editores. Foi o que nos pediram e nós, pelos amigos da Guerra e Paz e pelos nossos leitores, estamos disposto a arrostar com tempestades na terra, no céu e no mar.

E vamos lá ser sérios, escolher bem é escolher para alguém. As nossas sugestões foram, por isso, pensadas pessoa a pessoa, tomando em conta as idiossincrasias, que é como quem diz, o gosto e o feitiozinho de cada um.

O Luxo
A pessoa a quem quer oferecer um livro não só gosta de grandes nomes da literatura, Fernando Pessoa, Agustina, Jorge de Sena, como gosta de livros bonitos, que sejam uma festa visual, com materiais incríveis (até madeira, veja lá)? Ofereça-lhe um destes três livros: Tabacaria, Fernando Pessoa; As Meninas, de Agustina, com pintura de Paula Rego; O Físico Prodigioso, bela novela erótica de Jorge de Sena, com pintura de Mariana Viana.

Nacional, ou seja, o que é nosso
Mas se a pessoa a quem quer dar um livro privilegia o que é nosso, os nossos hábitos, costumes, as nossas tradições, nós temos uma colecção, É Nacional e É Muito Bom, da qual escolhemos estes títulos perfeitos: Almanaque Português Almanaque de Natal, Contos Tradicionais PortuguesesLendas de Amor Portuguesas. E acrescentamos-lhe, para transmontanos e nativos da beira transmontana, como é o caso do nosso editor, o Dicionário de Palavras Soltas do Povo Transmontano.

Riso, afecto e nostalgia
Mas é Natal e a pessoa de quem gosta quer é rir-se, festejar, encher o mundo de carinhos e abraços? Há três livros que são uma auto-estrada para:
a) uma noite de gargalhadas imparáveis e estamos a pensar no Pequeno Livro dos Grandes Insultos;
b) uma noite de expansões ternurentas e ai-tão-querido está já garantida com o nosso Pequeno Livro dos Cães Mais Famosos;
c) uma noite de saudades das férias grandes e das tardes livres cheias de aventura da juventude, é o que terá se ficar a ler e a folhear em família o Livro Perigoso para Rapazes.

Socialmente sério
Pois bem, mas há quem, mesmo no Natal – e, por vezes, sobretudo no Natal – esteja preocupado com o mundo em que vivemos e com o firme propósito de não cometermos no presente e no futuro os clamorosos erros do passado. Tem dois livros, o Manifesto Comunista e o Mein Kampf, livros acompanhados de textos de contextualização e muitas imagens para acertar as suas contas com a História. Não é só uma oferta séria. É uma oferta seriíssima.

Ah, os insubstituíveis clássicos
A pessoa a quem quer dar um livro, talvez dois, prefere os clássicos, os grandes autores? Estes dois títulos, inscritos no mais alto céu da literatura – Moby-Dick, de Herman Melville, e O Vermelho e o Negro, de Stendhal – são obras soberbas e infalíveis. Principezinho é, por seu lado, um clássico suave, capaz de cativar a imaginação do leitor mais distraído. E há ainda, se quiser pôr uma nota de transgressão na sua prenda, a possibilidade de oferecer uma antologia que acabou de sair, Não a ti, odeio ou menos prezo, que reúne o que Fernando Pessoa escreveu sobre Cristo, o que inclui o Menino Jesus.

E não há romance?
Não, a pessoa que quer surpreender não gosta de nada disto. Gosta é de coisas actuais, romances dos nossos dias. Bom, começamos por lhe aconselhar o que é mais do que um romance, uma viagem convulsa à relação com a mãe, espelho de todas as relações de filhos e mães, propondo-lhe que ofereça um livro que tornará inesquecível o Natal de 2018: ofereça Mãe, promete-me que lês, de Luis Osório.
É também da busca de uma mãe que trata Essa Dama Bate Bué, de Yara Monteiro, que aconselhamos a todos os que tenham conhecido, vivido em África.
Se a pessoa espera que o Pai Natal lhe traga outra literatura, mais disruptiva, como agora se diz, Adeus., de Luis Rainha, com as suas 23 narrativas de separação, pode ser a prenda ideal.
E deixem-nos sugerir – bastaria o título – o belo romance Quando Perdes Tudo Não Tens Pressa de Ir a Lado Nenhum, estreia literária de Dulce Garcia. Sem pressas, para ganhar tudo.

Um toque poético
Ah, a pessoa a quem quer dar um livro não é especial, é especialíssima, gosta do que é primordial e profundo, saboreia em cada palavra a criação do mundo? Ofereça, num pequeno livro de 56 páginas, a poesia de Eugénia de Vasconcellos, o seu Sete Degraus sempre a Descer. Um pequenino livro, um enorme presente.

Este Natal dê um livro. E leia. Não é pela sua saúde, é pela sua mente, inteligência e emoções.

O que lemos e quando lemos

Old Books

Batalhas sangrentas, estadistas megalómanos, os mais utópicos dos profetas, alguns laboriosos cientistas, bombistas coléricos, talvez mesmo predicantes economistas, antropólogos ou criminosos em série influenciaram, em algum momento, o curso do mundo em que viveram, moldando assim o que cada um de nós é hoje e, por tabela, o mundo em que vivemos. Tenho a certeza de que o meu interesse perverso por Billy the Kid – que aos 21 anos registava a tétrica contabilidade de um morto por cada ano de vida – o meu fascínio cheio de segundas intenções por Madame Curie, uma camisa que, em teenager, usei com colarinho à Dr. Jivago, terão influenciado o que sou hoje e que, confesso, oscila entre a vontade de ser um assassino com ética, o desejo de me fechar no primeiro laboratório com a mais radioactiva das físicas e o nobre idealismo individualista do médico de Pasternak.

Por maioria de razão, os livros que lemos acabam por pintar, a cores mais alegres ou mais sombrias, a personalidade que temos. Os livros que lemos e quando os lemos, tal qual como os que não lemos quando os devíamos ter lido.

Escrevo isto enquanto folheio, de Andrew Taylor, um livro de despretensiosa divulgação, Books That Changed the World. Folheio-o com uma mão, enquanto com a outra ergo, triunfal e autoritário, Porquê Ler os Clássicos de Italo Calvino. Descobri, assim, apavorado, que a minha vida podia ter sido diferente.

Com alguma comiseração biográfica, Goethe escreveu Os Sofrimentos do Jovem Werther em 1774. Escassos anos depois, dois apenas, Adam Smith redigiu, com porfiado método, a A Riqueza das Nações. O que é que me terá levado, em data incerta, entre 68 e 70, a ler o suicidário Werther, desconhecendo olimpicamente o ensaio de Smith? O romance de Goethe, que li em tradução brasileira e livro de bolso, por mais que eu queira, não me sai da cabeça e, por mais que eu não queira, virá sempre atrapalhar-me no amor. Não me arrasta para o suicídio exasperado e romântico, é certo, mas faz-me imaginar que leio os cantos de Ossian à mulher amada, com a consequente e arrebatada erupção amorosa, “beijos vorazes” e proibidos (ou porque proibidos?), afogados gritos e fuga para reservados aposentos.

Se eu tivesse então lido A Riqueza das Nações a que outros arrebatamentos teria sido transportado? Estaria eu muito mais interessado na “mão invisível do mercado” do que nos “lábios trémulos e balbuciantes” de Charlotte?

Li Moby Dick de Melville em vez de ter lido Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie de Karl Marx, apesar de ambos serem delirantes ficções escritas na segunda metade do século XIX.

Seis anos separam o Ulisses de O Amante de Lady Chatterly, um e outro escritos na modernista década de 20, no século passado. Atraído pelas lições de classe e sexo de D. H. Lawrence, desrespeitei a cronologia e deixei para adiadas calendas a hermética subversão das convenções narrativas proposta por James Joyce.

Se, rapazinho, frescas faces e cheio de vida, tenho lido primeiro Das Kapital em vez do pescador de baleias, se tenho lido primeiro Ulisses em vez das saudáveis descrições sexuais de Lawrence, será que estaria hoje, num caso em revolta contra a globalização e o G-20 e, no outro, enterrado num departamento de estudos semióticos?

Feliz por ter lido o que li, e quando li, tranquiliza-me o que, de Calvino, tenho todo o gosto em citar-vos: “Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos, mas quem leu primeiro os outros e depois lê esse, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

Nunca tinha feito uma venda de garagem

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Era uma coisa que me andava a atazanar: nunca na minha vida, tinha feito uma venda de garagem. Nem sequer, nos tempos de estudante de bolsa aflitivamente seca, fui fazer vendas de 3ª feira, Feira da Ladra.  Ora, e como popularmente se diz, um homem não deve morrer estúpido. E foi por isso que desinquietei a minha soberba equipa da Guerra e Paz a fazer uma venda de garagem. O argumento decisivo surgiu na reunião, em sonoro português: “É muita giro.”

E, por ser muita giro, hoje, passo aqui o dia, a falar com os leitores que queiram vir – entrou agora um casalinho “muita giro”.

Vendemos livros, alguns raros ou desaparecidos em combate e eu tenho até o prazer de, pela primeira vez estar a escrever um post no horário de trabalho. Ah, mas que transgressão!

E pronto, aqui, estou surpreendido em flagrante, em pleno acto. Já fiz a minha primeira venda de garagem. Já não morro estúpido.

A primeira frase

Em louvor da primeira frase dos romances, escrevi este texto há dez anos. De lá para cá, pé em 2016, pé em 2017, já publiquei três dos livros que então citava. Nos meus clássicos Guerra e Paz. Dois com traduções novinhas em folha: O Amante de Lady Chatterley e Orgulho e Preconceito. O outro, El Rei Junot, em bom português, costas voltadas ao desgraçado Acordo Ortográfico de 90. 

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Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Se eu fosse autor destas duas frases, a minha crónica terminaria aqui. Mas não, não sou. A feliz conjugação saiu armada e imortal da imaginação de um russo, anárquico e prodigioso. É assim que começa “Anna Karenina”, um dos romances maiores (são todos) de Leão Tolstoi. Parafraseando o que em tempos disseram os nossos Correios, numa campanha ganhadora aliás, começar bem é meio caminho andado.

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Há, na história da literatura, alguns começos extraordinários. D. H. Lawrence abria o seu controverso “O Amante de Lady Chatterley” com uma frase severa: “A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério”. O livro encabeçado por esta frase, relatando no miolo a fusão tórrida de um guarda florestal com uma aristocrata, foi levado tão a sério que, publicado pela primeira vez, em 1928, na católica Florença, só em 1960 teve impressão autorizada no liberal Reino Unido. Claro que o facto da dita fusão ser, na prosa de Lawrence, reduzida a uma palavra inglesa com quatro letras explica em parte a trágica proibição.

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Nas leituras adolescentes, um dos começos que mais me impressionou foi o da “Reivindicação do Conde Julião”, romance assinado por Juan Goytisolo. Em minúsculas – o estilo é o homem – Goytisolo punha na boca do seu narrador, que do alto de uma colina em Tânger se dirigia à Espanha de Franco, esta amargura anti-patriótica: “terra ingrata, espúria e mesquinha entre todas, jamais voltarei a ti”. À direita e à esquerda, poucos lhe pouparam a traição delirante que a invectiva supunha. A mim, esta maldição forçou-me a devorar cada página. De uma vez por todas, passei a corar sempre que lia a palavra patriotismo.

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Conheci-a há oito anos. Era minha aluna”. Esta é, para mim, a melhor abertura de um romance de Philip Roth. “O Animal Moribundo”, um belo romance, não será o melhor do escritor. Mas o arranque anuncia uma glorificação do sexo que, à medida que viramos as páginas, nos leva a crer que a “verdade do orgasmo” talvez seja a única verdade capaz de suspender a morte. Ou precipitá-la?el-rei-junotO meu romance português preferido, “El-Rei Junot”, que Raúl Brandão escreveu em 1912, tem um arranque que rima com o tema pungente da invasão francesa: “A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos”. Mais do que um romance histórico, “Junot” é o trabalho de um artista que pinta a tragédia humana com uma combinação improvável de farsa, grotesco, comicidade e metafísica.

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Não sei se acabe com Jane Austen ou com James Joyce. No mais ilegível dos seus romances, “Finnegans Wake”, a primeira frase do irlandês contem todos os mistérios do mundo: “riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay…”, o que em português tentativamente dá “riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía…”. E poucas vezes a escrita terá fluído como este rio, ancestral e a abrir-se sobre o mar, de sibilante para redonda e doce aliteração (“from swerve of shore to bend of bay”).

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Mas para acabar, e agora é que é, escolho a epítome do amor romântico que é “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa.” Porque é que nada neste nosso mundo é já tão seguro e certo como os padrões desse velho mundo em que tudo era reconhecimento e segurança?

Venda de garagem

Não querem aparecer nesta venda de garagem?  Ora leiam o que a minha Guerra e Paz propõe.

Um convite é um convite é um convite… e isto é um convite: venha conhecer uma editora por dentro e veja com os seus olhos as aventuras, as malfeitorias, o êxtase da sublime vida editorial. Na 6ª feira, dia 30 de Novembro, das 14 às 19 horas, e no sábado, dia 1 de Dezembro,  das 11 às 19, pode entrar pela Guerra e Paz dentro e falar com o editor, o designer gráfico, assistente editoriais, os directores comercial e financeiro e, mesmo ou sobretudo, com alguns dos autores que estejam de passagem, e podem muito bem ser alguns.

Nunca viu uma editora por dentro? A Guerra e Paz oferece-lhe essa experiência extrema. Mas há mais, pode juntar ao agradável o muito útil: temos uma venda de garagem. Surpreendente e inconcebível.

Provavelmente não sabe, mas a Guerra e Paz teve, antes de 2006, uma mãe. Chamava-se Três Sinais e pretendia ser a mais pequena editora do mundo. Fez livros de luxo de Jorge de Sena, Agustina, uma Bíblia em caixa de acrílico. Tudo esgotadíssimo? E se aparecer um exemplar raro?

E se das Flores do Mal, livro de capa de madeira, houver um exemplar com defeito, ainda mais raro do que os já de si raros? E se, de livros que já saíram do mercado houver exemplares resgatados e únicos?

Às raridades, vamos juntar promoções escandalosas para os livros no nosso actual catálogo. Estão cá todos, que nenhum quia falhar uma venda de garagem.

Uma experiência única. Pode ver, falar e tocar (mesmo apalpar). É na Guerra e Paz editores, Rua do Conde de Redondo, nº 8, 5º Esquerdo, esquina com a Rua Gonçalves Crespo, em Lisboa. Basta tocar à campainha. Até 6ª feira.