adieu to you, ladies of Spain

Borges

Senhoras da Nossa Idade é um blogue escrito pela Céu. Aqui há atrasado, como se costuma dizer, a Céu, muito simpaticamente, convidou-me, como já convidou mais de uma centena de pessoas, a responder a um inquérito. Um inquérito feito à medida de alguém que gosta de ler. Respondi e acho que, mesmo mais de um ano depois não é despropositado depositar as respostas nesta Página Negra. Agradecendo muito à Céu e às Senhoras da Nossa Idade o convite e dizendo que foi uma alegria responder e ver tudo publicado num blogue tão bem frequentado, convido-vos a irem lá fazer uma visita. Vão, estou certo, ficar clientes.

E agora o inquérito.

1. O que está a ler neste momento?

Estou a ler, por obrigação profissional e por gosto a Economia do Bem Comum, um livro de Jean Tirole, Prémio Nobel da Economia, que vou publicar já no dia 15 de Maio. Uma lição: só há serviço aos outros onde há pensamento e inteligência. Mas no fim de semana comecei também a ler, de um americano de ascendência russa, Yuri Slezkine, um livro monumental, de 1290 páginas, que se há-de vir a chamar, se for um dia traduzido para português, A Casa do Governo, A Saga da Revolução Russa. Um livro prodigioso sobre um fenómeno criado por Estaline. Estão a ver o edifício das Amoreiras? Bom, ele mandou fazer uma construção monumental desse tipo: 505 apartamentos, para as famílias bolcheviques no poder, com biblioteca, refeitório, teatro, courts de ténis, correios. Estava ali a elite e estava ali o modo de vida quotidiano comunista. Ali se beijava a boca comunista da glória e ali se caía em desgraça e se era preso por traição. Que inveja raivosa Shakespeare teria deste teatro vivo de sangue, tortura e lágrimas que faz de Hamlet e Macbeth meninos de coro.

2. O que leu antes e o que vai ler a seguir?

Li antes uma biografia de Louis B. Mayer, Merchant of Dreams, de Charles Higham, e vou ler agora, de Alain Tapié, Vanité, Mort Que Me Veux-Tu?, um livro-catálogo, lindíssimo, que acompanhou, em 2010, a exposição homónima da Fundação Bergé-Yves St. Laurent. É das Éditions de la Martinière, que tem a ousadia de editar certos livros na linha das edições de luxo da minha Guerra e Paz editores, mas com dinheiro à séria.

3. Conte-nos uma memória de infância relacionada com livros

Li um livro de Zane Gray, Ouro do Deserto, julgo, que metia uma misteriosa, doce e tensa mulher mexicana chamada Mercedes, um bandido chamado Rojas e um índio Yaqui que se fundia com as sombras, as ervas e o vento. Quis ser esse índio e é provável que ainda hoje eu ame Mercedes como jamais algum homem amou uma mulher.

4. Que livros marcaram a sua adolescência?

O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. A Náusea, de Sartre. Tortilla Flat e A Leste do Paraíso, de John Steinbeck. Lord Jim, de Joseph Conrad. Terna é a Noite, de Fitzgerald. Os indecorosos livros proibidos do Vilhena. Alguns poemas de Fernando Pessoa ditos por João Villaret. Os Centuriões e Os Pretorianos, de Jean Lartéguy. O Canto IX de Os Lusíadas. Salambó, de Gustave Flaubert.

5. Um local público onde goste de ler

Gosto de ler nos jardins da Gulbenkian. Gostaria de poder ter lido nas calles que Jorge Luis Borges cantou no seu Fervor de Buenos Aires.

6. O seu recanto preferido de leitura (em casa)

Quando era miúdo, em Luanda, na Vila Alice, lia sentado, horas seguidas, nos ramos da mangueira do meu quintal. Não é fantasia, é mesmo verdade. Agora, com três almofadas, na vasta planície que é a minha cama.

7. Uma biblioteca importante para si

A tão bonita biblioteca do mais belos dos liceus, o Salvador Correia, onde li O Crime do Padre Amaro, joelho contra joelho de uma colega de longas pernas. A Biblioteca da Câmara Municipal de Luanda – vinha cá para fora, para o relvado sobre a Mutamba, e foi assim que li As Vinhas da Ira. Depois, a Biblioteca Nacional de Angola, dirigida pelo professor Carmo Vaz, no começo dos anos 70. Foi lá que ao ouvido me sussurraram o 25 de Abril que houvera na distante Lisboa.

8. As livrarias que costuma visitar

A minha primeira livraria fornecedora foi a livraria Goya, na Avenida dos Combatentes, em Luanda, só depois a Lello, na Baixa. Agora, em Lisboa, passo muitos fins de tarde na Bertrand Picoas-Plaza, mas a apresentar livros. Gostava da Pó dos Livros. Gosto da Livraria Francesa, devia ir lá mais vezes.

9. Uma editora de que goste particularmente

Da Guerra e Paz editores, está claro 🙂 . Mas gosto da Dom Quixote, da Quetzal, da Relógio de Água, da Porto Editora, da Presença, da Tinta da China, da Leya, da Bertrand, da Gradiva, da Antígona, da Imprensa Nacional, da Paulinas, da Sistema Solar, da Planeta e da Penguin. Gosto da diferença entre os grandes e os pequenos editores. Gosto dos editores que chamam negócio ao negócio e gosto dos editores que julgam ser sacerdotes dominicanos em defesa dos happy few. E, olhem, tenho saudades da Assírio do Hermínio Monteiro. Podiam ser insustentáveis, mas eram uns tempos deliciosos, uma espécie de kir royal de fim de tarde.

10. Que livros gostaria de reler?

Estou sempre a reler o raio de um livro que o meu professor de Filosofia Antiga e História e Filosofia das Ciências, o José Gabriel Trindade dos Santos, me deu em Novembro de 1980. É um calhamaço verde, da Emecé Editores, e tem parte da Obra Completa (1923-1972) de um poeta cego rendido «a los espejos, laberintos y espadas» e também a «el outro y el olvido». O velho volume já se vai desfazendo, soltam-se páginas, apagam-se algumas letras, mesmo um inteiro verso. Na decadência dele, a minha decadência: morreremos nos braços um do outro.

11. Que livros está a guardar para ler na velhice?

Já nada guardo, nem tão pouco a velhice. Se é para o apocalipse, apocalipse now.

12. Acessórios de leitura que não dispensa

Já dispenso muitas vezes os óculos de ver ao perto. Voltei a ler de olhos nus, sem intermediação, as piedosas pestanas a roçar a meiga página.

13. E se um livro não prende, põe-se de lado ou insiste-se?

Nada de promiscuidade, já só leio por amor.

14. Costuma ler sobre livros? Quais são as suas fontes?

Claro, claro. Na Le Point, belíssima revista francesa de centro-direita. Num filosófico agregador australiano, o Arts & Letters Daily que me selecciona o que de melhor se pode ler diária ou semanalmente no TLS, Aeon, New Yorker, Beirut Daily Star, Arion, Jerusalem Post, Cabinet, Fortnightly Review, Laphams Quarterly, Philosophy & Literature, enfim uma snobeira desatada que já me aconteceu descambar em simplicidade e beleza.

15. Uma citação inesquecível que queira dedicar às Senhoras da Nossa Idade

Se me permitem, cantar-lhes-ei uma canção:
Farewell and adieu to you, Spanish ladies
Farewell and adieu to you, ladies of Spain;
For we have received orders
For to sail to old England,
And we may ne’er see you fair ladies again.

DesertGold

O elogio dos pequeníssimos livros

chá

Aqui me têm sempre pronto a fazer o louvor de belos e desmesurados livros que precisam de sólida mesa para serem lidos e de um guindaste para lhes virar cada página. O tamanho é a primeira qualidade deles, a que mais realça as outras. Mas tenho também uma (ou outra) certa e fiel paixão pelos pequeníssimos livros.

Já viram “O Culto do Chá”, de Venceslau de Morais? As 60 páginas da edição japonesa (que custou uns duzentos mil réis) vieram a público em 1905, com ilustrações de Iochiaqui, gravadas por Gotô Seikodô. É um livrinho lindíssimo, cujo aflitivo bom gosto a editora frenesi (assim, com minúsculas, por favor) reproduziu com a fidelidade que o original exigia. Naquele tempo, em 1905, vieram para Portugal mil exemplares e o livro, ironizava Morais, era tão bom que nenhum livreiro o queria. Em recente leilão vendeu-se um exemplar dessa 1ª edição por 850 euros.

animal

E mudo de mão. São 75 as páginas em que ardentemente respira Herberto Helder na “Vocação Animal”, editado pelas “publicações dom quixote” (assim também, em minúsculas na capa), em Maio de 1971, livro de poemas dedicado “a uma devagarosa mulher de onde surgem os dedos, dez e queimados por uma forte delicadeza.” Não se encontra, creio, essa dedicatória, na Poesia Toda que reúne a Obra do poeta, como não se encontram os versos originais que não reproduzirei, mas que na versão actual chegaram a esta menos escatológica versão: “Aprendi como é devagar – comer devagar, sorrir, dormir devagar, pensar e morrer – aprendi devagar.

São 43 todas as páginas de que a Assírio & Alvim precisou para publicar um dos mais famosos e perturbantes monólogos do século XX, “A Voz Humana”, escrito por Jean Cocteau sem precisar de outra coisa que não fosse um telefone e a angústia de uma mulher que se despede do amante. A tradução que tenho é de Carlos de Oliveira e o finíssimo livro faz parte da colecção Gato Maltês.

Gosto muito da capa dura do “Giotto”, pequenina edição da World’s Masters Series, coordenada por Anthony Bertram, com a chancela da The Studio Publications, London, New York. Giotto é apresentado em 15 páginas e nas outras 49 há estampas a preto e branco com os seus quadros ou pormenores deles. “The small mind is always hungry to admire the small and to exagerate its importance. Small things have their place in great events, but it is a small place. Giotto is always busy with great events and never allows his genuine interest in these small things to distract his attention from them. If they distract ours, that is because of our pettiness, our inability to keep proportion.” Só mesmo em 1951, data da edição desta minha miniatura, se tratavam os leitores com tamanha desconsideração e se lhes dava, para seu benefício, tal raspanete.

novios

Impresso na tipografia Herder & Co, em Frisburg, corria o ano de 1939 (e suponho que antes de começar a Guerra), gosto muito de ter “Los Novios”, a versão espanhola do sexto de uma série de tomitos de arte publicados pelo Dr. Heinrich Lützler e que para castelhano foram vertidos pelo Dr. Francisco Carillo Guerrero. Em seis páginas, o Senhor Professor Lützer perora sobre a representação dos noivos na pintura, ao que se segue, a cores e a preto e branco, a reprodução de 25 quadros, incluindo “Novios Portugueses”, fragmento de um quadro de Rembrandt que acima reproduzi.

Muito mais recente, de 1985, é o livrinho de 10 por 14 cm, editado pela apaginatantas. Pequenino é verdade, mas contendo o que João Barrento no prólogo chama “Priapreia Gotheana”, título que me poupa a dizer o nome do autor, e que, na capa, tem o menos vigoroso título “Erótica & Curiosa”. Li e, assim acabando, ofereço para mote estes versos:

Se a moça te esquece, volúvel, ligeira.
Anda, vê se agarras o tempo passado,
Que o seio da segunda, quando for beijado,
Mais doce é ainda do que o seio da primeira.

Calcinhas

Mailer e Norris
Com Norris

Norman Mailer está nu e morto há quase 12 anos, desde Novembro de 2007. Li nestas curtíssimas férias, o livro que escreveu sobre o célebre combate de Muhammad Ali e George Foreman, em Kinshasa. Chama-se, sem mais, “O Combate”. Escrita directa, cada frase um gancho, às vezes de direita, às vezes de esquerda. Uma paixão sem freio por Ali.

Sobre Mailer, e sem punhos de renda, escreveram-se, pouco depois da sua morte, dois livros. Um é da sua mulher, Norris Church Mailer. O outro, da sua amante, Carole Mallory, que ele amou, e ela a ele, durante nove anos. “A Ticket to the Circus” chama-se um, “Loving Mailer” o outro.

Coincidem em vários pontos, relatando as lendárias antipatias do escritor, a raiva que tinha a certos advérbios e, por razões menos gramaticais, a certos contraceptivos. Tem piada, ambas lhe agradecem a forma como, mentor, as animava a escrever. Ambas se lembram da escandaleira que foi a primeira noite de sexo: “Take off your panties, I want to experience your soul” lembra-se Carole de ele lhe ter dito.

Ambas suavizam a ideia de que Mailer tenha sido – pelo menos com elas – um tipo violento, e Norris até confessa que foi ela quem lhe acertou um murro no queixo, numa discussão. Ambas tiveram outras aventuras, Norris com Bill Clinton, antes de Mailer a conhecer, Carole uma longa lista de Oscarizados, incluindo Robert De Niro,  Clint Eastwood e Warren Beatty. A chave, a verdadeira chave da paixão, confessam Norris e Carole, foi a mesma.

Norris fala do peito peludo dele que lhe servia de almofada, mas sobretudo do “splendid cock” que ele possuía.

Para Carole, Mailer parecia o Humpty Dumpty, quase ridículo, mas com um trunfo apreciável: “if his penis weren’t so beautiful, I would have left.”

Nenhuma o deixou o que não é certamente a pior homenagem que se pode prestar a um escritor.

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Com Carole

 

 

Biblioteca transumante

biblioteca

Desafiaram-me um dia a confessar quais eram os meus livros itinerantes. Por outras palavras, se eu tivesse uma biblioteca transumante, que biblioteca seria essa. E fizeram-me uma séria advertência: que não era para cá para desfiar títulos de livros de viagem. O que me era exigido é que dissesse que livros é que me acompanhariam em viagem. Esta é , portanto, a lista da minha biblioteca para viagens

Com a sorna manha que é meu timbre,  obedeço. Mas desobedeço também ao escolher, logo para abrir, um livro que baralha qualquer GPS e para que não há bússola que nos valha. É o Dictionary of Imaginary Places assinado por Alberto Manguel e Gianni Guadalupe. Gostava, por exemplo, de viajar com os visitantes da Página Negra a alguns dos prodigiosos lugares descritos com minúcia e obsessão por Manguel e Guadalupe. Estou a ver-nos entrar no “Castelo Sem Nome” que Diderot ergueu, solitário, algures na costa francesa. A assombrosa porta abre-se lenta e lemos no frontão um presságio de eternidade: “Pertenço a todos e a ninguém; antes de entrares aqui, gentil viajante, já estás aqui e aqui continuarás quando julgares sair.”

Visitaríamos também a ilha de Cyril e beberíamos gin com o capitão Kidd. Só se sabe que lá chegámos quando se vê do mar (qual?) sair um fogo do vulcão ou do céu cair densa chuva de estrelas cadentes. É tanto o fogo e a lava que só conseguimos andar guiados pelas lanternas dos únicos habitantes, crianças que vivem e morrem sem nunca envelhecer.

O meu segundo livro é The Atlas of Literature, editado por Malcolm Bradbury. A geografia pode ser a mesma, coordenadas e azimutes coincidentes, mas nem Montaigne entraria sem uma dor de alma nos cafés existencialistas de Paris, nem Sartre dormiria descansado no castelo onde pernoitava Michel Seigneur de Montaigne, Chevalier de l’Ordre du Roy et Gentil-homme ordinnaire de la Chambre. Este Atlas empurra o viajante. É um tipo de empurrão muito raro, a dois tempos: um empurrão no espaço, outro empurrão no tempo. Weimar sim, mas a dos Românticos alemães. A Londres de Shakespeare, mas logo a seguir, outro mundo, a de Dickens. E o Yorkshire selvagem das Brontë terá alguma coisa a ver, um oceano pelo meio, com a Nova Inglaterra de Emerson e Hawthorne?

Com uma risonha, luminosa epígrafe – Pour la Grande Petite Jolie Belle Beauté – Philippe Sollers começa o terceiro livro da minha Biblioteca: o Dictionnaire Amoureux de Venise. Sollers ama Veneza. Com um amor viril e seguro de si: está ali para durar e não há, do corpo de Veneza e da alma de Veneza, uma réstia que ele não visite, que ele não faça chorar de glória. Cruelmente amoroso, faz tudo isso por ordem alfabética, do A da Accademia, com o dedo direitinho logo a tocar a convulsa e materna nudez da “Tempestade” de Giorgione, ao Z de Zattere, o cais em que lua e sol se mostram juntos em perfeita simetria.

Que outros livros, ou parte deles, um conto que seja, me fazem ou fariam viajar? Dou só quatro exemplos, tão humildes de brevidade que nem chegam a ser romances. E para que teriam de ser romances se num parágrafo já inventam um mundo!

A Léah, de José Rodrigues Migués, que me obrigaria a dormir numa chambre à louer de qualquer decadente pensão de Bruxelas com cheiro a fritos e uma brasserie na esquina mais próxima.

Outra vez a Bruxelas, num quarto sobre a Gare du Nord, só por causa de Polícia, conto de Os Passos em Volta, de Herberto Helder. Desde que chovesse, chovesse sempre.

Hei-de ir a Paraíba. Gostava de ir lá, a essa extrema ponta ocidental da América, conhecer Dona Rolinha, do conto homónimo de Agostinho da Silva, essa mulher certa e perseverante no desprezo ao trabalho como forma de subsistência. Há-de estar em João Pessoa, a Dona Rolinha que uma vida inteira esperou o regresso do seu militar a que se prometera em casamento, se casamento fosse de ambos a desistência de “ganhar a vida”, voto de pobreza dos dois (quem sabe, de castidade!), e a oportunidade de ser freira sim, mas fora de um convento.

Gostava de subir o Hudson até às montanhas Kaatskills, “ramo desmembrado da grande cordilheira dos Apalaches”. Lá estaria Rip Van Winkle, rival de Dona Rolinha “na invencível aversão a toda a espécie de trabalho profícuo” e como ela sempre solícito na ajuda a um vizinho necessitado, a um viandante perdido. É ele que, portentosa criação de Washington Irving, depois de beber uma bela garrafa de genebra se vai descobrir O Homem que Dormiu Vinte Anos. Ao contrário de Ulisses, nem o seu cão o espera, nem uma impertinente Penépole tece a malha que lhe aqueça a velhice.

E se a leitura fosse como a garrafa de genebra de Rip Van Winkler e a cada livro saltássemos, num sono ou sonho, vinte anos?

Sunset e meia-noite

Hoje, os seguidores, amigos e leitores dos livros e dos autores da Guerra e Paz, têm um belo fim de tarde garantido e uma meia-noite excitante. Comecemos, então, pelo sunset. Ora vejam, às 18:00, na sala da UCCLA, a Sofia Cochat Osório, apresenta o seu livro de estreia na Guerra e Paz editores, O pequeno livro dos grandes heróis.

sofia

E quando começarem a bater as badaladas da meia noite, na RTP 2, a poeta Eugénia de Vasconcellos vai emergir do tão bom escuro das letras e das artes e dar início ao primeiro de dos seus 13 programas com o título Mil palavras não fazem uma árvore. Com um convidado de grande renome, o poeta, escrito, ensaísta e académico brasileiro Marco Lucchesi.

Mil palavras

Eu, se fosse aos meus amigos, não perderia nenhum destes eventos. Vão ser coisas lindas.

Pés pelas mãos

ball

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 20 de Junho

O que têm os pés de João Félix que as mãos de Agustina, Lobo Antunes, Camões, juntas, não têm?

O Atlético de Madrid pagou 120 milhões e uma bica para ter João Félix na sua lustrosa estante. É o que os portugueses pagam, num ano, pelos livros das estantes lá de casa. Os pés de um miúdo de 19 anos valem quase o mesmo que o nosso miserável mercado do livro. Benfiquista, e editor, confesso: adoro os pés de Félix, as mãos de Agustina e Lobo Antunes. Mas o livro, ao contrário do pé de Félix, já não marca golos. O livro está fora de jogo: mais um penalty e morre. Grito e não é golo: livros e livrarias são bichos em extinção. Alerta!

joao-felix

Meninas, bruxas, sabbats, Agustina e Paula Rego

Aqui fica, para memória futura, o nascimento e making of de As Meninas, livro de Agustina com a pintura de Paula Rego. Foi na mais pequena edi­tora do mundo, a Três Sinais, que fui edi­tor do mais belo dos meus livros. O mérito, já vão ver, é de Agus­tina, Paula Rego, Manuel de Brito, Luis Miguel Cas­tro, da Grá­fica de Coim­bra, do impa­rá­vel Padre Valen­tim que a diri­gia, do Manuel Gân­dara que tudo sabia de papéis, panos, tin­tas e offset.

ABLcapa

Ainda mal tinha dado um beijo ao século XXI, seria Feve­reiro ou Março do ano 2000, quando me ape­te­ceu dar um beijo a Agus­tina Bessa-Luís e outro a Paula Rego. A Três Sinais edi­to­res, a mais pequena edi­tora do mundo, estreara-se com Jorge de Sena e andava a fazer, com a ajuda pre­ci­osa da rea­li­za­dora Joana Pon­tes e do Coro­nel Sousa e Cas­tro, um bonito livro com o diá­rio que o sol­dado Etel­vino escre­vera na guerra de África — que eu, sem África, não sou nada. Sabe Deus porquê terei pen­sado: mas quem são, hoje que já não há tropa, os nos­sos generais?

Se essa arre­ve­sada arte da escrita e essa outra arte de rupes­tre­mente se pin­ta­rem gran­des telas, se as artes por­tu­gue­sas têm gene­rais, esses gene­rais são, digo eu, gene­rais de saias. Eu via dois gene­rais no meio da flo­resta negra, dois gene­rais bru­xas, de sab­bats orgía­cos, de sols­tí­cios e mis­sas negras. E fui, pequeno pole­gar, falar com elas. Devo aliás dizer que fui falar com ela, por­que a chave era mesmo a mara­vi­lhosa alqui­mista Agus­tina. Se bem me lem­bro foi comigo um sócio — um dos três sinais – e poeta, o Gil de Car­va­lho. Agus­tina recebeu-nos a chá das cinco na sua casa da Bue­nos Aires, em Lis­boa. Ficou para mais tarde o Gól­gota. Fiz-lhe uma pro­posta que ela não pode­ria recu­sar, riu-se, cons­pi­rou, falou de Sara­mago, de Israel, de Eugé­nio e de Oli­veira e disse que sim.

Nas­cia este livro, “As Meni­nas”, texto de Agus­tina sobre Paula Rego, cru­zando a pin­tura e a bio­gra­fia, cru­zando a objec­ti­vi­dade das telas com uma desem­bes­tada e infor­ma­dís­sima fan­ta­sia que envol­via ritu­ais, famí­lia, sala­za­rismo, tou­ros pre­tos e cro­co­di­los bran­cos. Digo coi­sas em cifra? Expe­ri­men­tem ler e vão ver que com­pre­en­dem tudo.

Podia ser só um livro de Agus­tina. Mas o glá­dio de Agus­tina pedia — estava mesmo a pedi-las — figu­ras, meni­nas, cães e anjos, mulheres-avestruzes de Paula Rego. Mais reser­vada, Paula, a lon­drina, mandou-nos falar com Manuel Brito, seu gale­rista, mítico gale­rista da 111. E tive­mos o segundo sim. Agora, a escrita de Agus­tina podia ser um dese­nho e o dese­nho de Paula Rego podia ser uma escrita.

ABLmiolo

Os meses que demo­rá­mos a fazer este livro foram, tal­vez, os dias mais feli­zes da vida do meu grá­fico des­ses tem­pos, o Luís Miguel Cas­tro. Tinha nas mãos a pin­tura de Paula. Era um menino a deglu­tir doces. Se não ficou dia­bé­tico então, nunca mais o Luís ficará dia­bé­tico em dias da sua vida. Tínha­mos rece­bido esplên­di­dos sli­des — toda a obra foto­gra­fada e Manuel Brito apoiava-nos em tudo. As pági­nas gigan­tes do livro — tínha­mos ali spre­ads de 60 cen­tí­me­tros e oh, se o tama­nho conta — abriam-se à vir­gin­dade das noi­vas de Paula, ao infan­ti­cí­dio do seu Padre Amaro. Éra­mos cri­an­ças e, como subli­nhou Agus­tina, o pecado para a cri­ança é um ingé­nuo desen­vol­vi­mento do desejo que se obtém com o choro e o bater dos pés no chão. Pecá­mos larga, desmedidamente.

ABLpagina

Capa car­to­nada reves­tida a pano, um papel Pop Set de 170 gra­mas (ainda se fará hoje?) que, mate, acei­tava muito bem a cor, repro­du­zindo com fide­li­dade (uma fide­li­dade de Grá­fica de Coim­bra, que o Padre Valen­tim e o nosso amigo Gân­dara garan­tiam) as tex­tu­ras das telas de Paula Rego, pagi­ná­mos com liber­dade e libe­ra­li­dade, dando gran­deza e soberba a por­me­no­res, tanto aos da pin­tura, como mesmo a alguns dos mais ins­pi­ra­dos ou cho­can­tes afo­ris­mos com que o texto de Agus­tina nos des­lum­brava ou sufo­cava — o que é que se há-de dizer quando “as mulhe­res cons­pi­ram, ins­pec­ci­o­nando a sua roupa de baixo.”

ABLpernas

É que bas­tava virar a capa. Virava-se e entrava-se nas guar­das que podem ver abaixo, puzzle, repe­ti­ção, espe­lho que mul­ti­plica o que seria o mesmo rosto se pudesse haver dois ros­tos iguais ou se um só rosto pudesse sem­pre ser o mesmo rosto. Virava-se a capa, entrava-se nas guar­das e nenhum rosto, nesta falsa mul­ti­pli­ca­ção, é o único ou o mesmo rosto.

E depois chegava-se ao fim. 142 pági­nas a desa­guar num colophon com o logo três sinais da Teresa Con­cei­ção. As assi­na­tu­ras de Paula Rego e de Agus­tina jura­vam que esta era uma edi­ção de 2.600 exem­pla­res, devi­da­mente nume­rada. Uma edi­ção rara, hoje esgo­tada, de alto valor bibliófilo.

ABLguardas

Há Guerra na Feira do Livro, e Paz também

Levaram-me numa visita guiada ao pequenino pavilhão D 48, onde, na Feira do Livro, mora a Guerra e Paz. É tão pequenino que tem de se ver à lupa. E descobre-se que grandes só os livros.

É esta a frente do pavilhão D 48, Guerra e Paz editores. Estão aqui retratadas duas colecções chave para nós. À esquerda, a nossa colecção de clássicos, a aproximar-se dos 40 títulos, de Gil Vicente a Joseph Conrad, de Stendhal a Machado de Assis, de Camões a Melville, Mark Twain ou Jane Austen. À direita, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores, a colecção “o fio da memória”, 18 títulos com a vida e obra de grandes figuras da cultura portuguesa, de Eduardo Lourenço, Urbano Tavares Rodrigues a Cruzeiro Seixas, José Augusto França, Lídia Jorge, Graça Morais, Carlos Fiolhais. São livros contados de viva voz pelos próprios, em entrevistas d José Jorge Letria. Para memória futura.

Esta é uma das cartelas que encima o pavilhão. Os livros sobre a língua portuguesa, dicionários, ou gramática, começam já a ter um volume estimável no nosso catálogos. Têm assinaturas de prestígio como as de Hélder Guégués e Marco Neves; um foco muito preciso, como o de termos de Trás-os-Montes, ou o dos palavrões e insultos.

E esta é a outra cartela. Com duas colecções distintas, mas que têm em comum um trabalho gráfico que vai até aos mais ínfimos pormenores. À esquerda os livros infanto-juvenis em que se recontam livros clássicos maravilhosos a um público dos 8 aos 12 anos, a colecção Os Livros Estão Loucos. Na outra, os Livros Amarelos, reunindo cada um dois textos de diferentes autores, oferecendo-se ao meio a interpretação de um especialista.