Tout, rien du tout

As mulheres são diferentes dos homens por quererem tudo. Tout. O que, claro, a qualquer homem parece logo rien du tout. Traduzindo, e nem é preciso ser para esperanto, os homens querem ontologicamente a mesma coisa: só que para os homens qualquer coisa, a mais pequenina coisa, é já tudo. O homem é holográfico: basta-lhe a fina abertura do decote e fica logo na veemente excitação de quem já viu a eternidade – um nimbado mamilo e, valha-nos Deus, os sonhos de toda a corte celestial!

Mas querem os dois, masculinos e femininos, a mesma coisa – os homens a mais pequena partícula, que acarinham como se fosse tudo, porque é tudo; as mulheres querem tudo com medo que o tudo seja menos do que a soma das mais pequeninas partes.

Vamos lá ser pedagógicos e ouvir cada um — uma mulher, um homem – pedir a mesma coisa. Vão ouvir que cada um, pedindo o mesmo, pede coisas diferentes.

Ladies first, claro, com mil perdões pelo execrável visual do vídeo – não vejam, ouçam só:

Ouviram? Claro que é lindo. Mas perceberam o artifício, a pose, o subtil prazer de tirar mais dor da contemplação da dor do que da própria dor? Ouçam lá agora um homem a querer a mesma coisa:

Claro que já viram a diferença. Até lhe custa começar, de tão fundo vem a voz. Rouca de emoção pela coisa que se quer. Nenhum cuidado com a expressão, toda a atenção vai direitinha para o coração um bocadinho partido da silly girl – ó, a forma como o rapaz aconchega a silly girl entre a língua e o céu da boca!

 A canção foi composta por Tom Waits para um dos meus filmes de culto, o One From the Heart, de Francis Coppola. Infelizmente, não consegui encontrar o momento mais comovente do filme, quando a personagem de Frederic Forrest, que não sabe cantar, do que a namorada sempre se queixava, canta o You’re my sunshine no aeroporto para que ela, arrebatada por um cantor, pianista, bailarino (tudo!), não o deixe.

Lição de antropologia com Elizabeth Taylor

natalie
um suave der­rame sen­ti­men­tal

Aca­bara de me apai­xo­nar por Nata­lie Wood. Vira-a, aco­lhe­dora, a dei­xar James Dean deitar-lhe a cabeça no colo, em “Rebel Without a Cause”. O que ela, ado­les­cente, fazia no filme, um sor­riso triste, bei­jos só de lábios a roça­rem lábios, sonhava eu que era comigo. E o que fazia era um suave der­rame sen­ti­men­tal, doce enjoo intrans­mis­sí­vel a terceiros.

Nes­sas férias de 68, nas noi­tes cacim­ba­das de Luanda, o cinema Impé­rio pas­sava um fes­ti­val de repo­si­ções. Jurara pro­mes­sas à ter­nura de Nata­lie Wood, mas noite é noite, a natu­reza mas­cu­lina, mesmo a ado­les­cente, é ins­tá­vel e fui à descoberta.

Exibia-se “The Sand­pi­per”. O filme, embora assi­nado por Vin­cente Min­nelli, não é extra­or­di­ná­rio. Ape­nas veí­culo para a arra­sa­dora pai­xão que Eli­za­beth Tay­lor e Richard Bur­ton viviam.

Já a vira Cléo­pa­tra, mas não con­se­gui ser romano sufi­ci­ente para que me aque­cesse mais do que arre­fe­cesse. Agora, em “The Sand­pi­per”, numa praia cali­for­ni­ana, Eli­za­beth era bas­tante menos do que a actriz de “Cléo­pa­tra”, era uma mulher.

Com a Nata­lie Wood de “Rebel”, que em Por­tu­gal se cha­mou “Fúria de Viver”, tive a ilu­são de que uma namo­rada não pode­ria ter mais de 20 anos e era uma coisa de olhar nublado e sor­riso melan­có­lico que se ins­ta­lava na nossa cabeça, mais pre­ci­sa­mente no cora­ção que temos na cabeça. Ao ver a Tay­lor de “The Sand­pi­per”, em por­tu­guês cha­mado “Adeus Ilu­sões”, vi a fúria de viver do corpo sexu­ado de Tay­lor e senti esse “ser mulher” a injectar-se-me nas veias e nesse vaga­bundo cora­ção que não direi onde é que, no corpo de um homem, se pode encontrar.

Eli­za­beth já tinha 33 anos, o que, em mea­dos dos anos 60, a fazia bal­za­qui­ana. A per­so­na­gem dela era como ela, como o corpo dela, com redon­das doçu­ras a tes­te­mu­nhar que aquela boca não se proi­bia nenhum pra­zer. Era, no filme, uma artista livre, a viver iso­lada na praia (uma casa assom­brosa) e mãe sol­teira por­que, como expli­cava: “Não fui aban­do­nada pelo pai, foi o pai que foi aban­do­nado por mim”.

the-sandpiper
redondas doçuras

Vestia-se a cami­so­las leves que o amo­roso volume do peito erguia como estan­dar­tes, ou então uma camisa de homem a decotá-la com exu­be­rân­cia, as per­nas nuas na areia da praia. E olhava. Do azul vio­leta do olhar de Eli­za­beth Tay­lor saíam des­car­gas eléc­tri­cas. Não ape­nas o mis­té­rio que se evola dos olhos de uma gata abis­sí­nia. O olhar dela, no filme, res­suma sedu­ção, uma huma­nís­sima ani­ma­li­dade que lhe flui, pagã, dos ombros para as coxas more­nas. Richard Bur­ton, casado, pas­tor pro­tes­tante, sucumbe. A mim, passou-me o eté­reo enjoo com a ado­les­cente Natalie.

Minha pri­meira lição antro­po­ló­gica: terá sido esta ani­ma­li­dade pal­pi­tante, mas gen­til, quase domés­tica, a fazer-nos tro­car a selva, a caça, o raio do ar livre, pelo suado calor de uma cama.