Uns ovinhos de perdiz

venda informal

Tinha os olhos postos na minha pilinha. Olhava-a com uma inquietação de oito anos de idade. Ali estávamos, ela de olhar mais cego, a interrogarmo-nos um ao outro: estaria a façanha, na sua complexa articulação e intrincado encadeamento, ao nosso alcance?

Quando vi o filme Stand by Me gritei de inveja: também queria, como aquele bando de miúdos, ter descoberto um cadáver numa mata, para o lado do aeroporto de Luanda, onde íamos caçar pássaros. O cadáver dos meus oito anos foi uma calçadeira. Deixemos, para já, a calçadeira ao pé do que era então o meu único par de sapatos.

Da escola da Missão de São Paulo, eu vinha de frescas sandálias ou de imaculados quedes em dias de ginástica. Bando negro com miúdo branco, atirávamo-nos, com uma convicção de Garrinchas, Matateus e Iaúcas, a trumunos de sarjeta. Ou seja, a sarjeta era a baliza e o objectivo era, quem estivesse na posse da bola – uma lata, caixa, um bom caroço de manga – enfiá-la no buraco. Fazíamos da caminhada ramerranesca uma jornada de glórias e humilhações pessoais e uma afronta à manutenção dos esgotos camarários.

Íamos deixando os colegas moradores no musseque Rangel onde desaguava a Avenida dos Combatentes, e sobrávamos dois. Vila Alice à vista, sentávamo-nos com um vendedor de kitaba, paracuca e quifufutila. Largávamos um angolar e a língua deliciava-se entre o picante e o doce, enquanto oferecíamos os ouvidos ao nosso mestre vendedor. Era um mais velho ainda novo, nada de kota, mas sabia já o que nós não sabíamos e queríamos saber: aquilo.

Fazia render as revelações, do manso farfalho a tirar as cuequinhas, até que um dia contou o que sonhávamos que nos contasse. Era assim: corpos nus, abria-se o que é de sua natureza abrir-se e penetrava o que para isso é cilíndrico e de inflada ponta. Depois, obtido o perfeito encaixe, com uma calçadeira, eis que se enfiavam os redondos complementos do impante membro. Os meus dois ovinhos de perdiz também entrariam, portanto, na festa.

Acreditámos. E a calçadeira assombrou tanto a minha infância, como o espectro que Marx dizia assombrar a Europa no revolucionário século XIX. Só havia uma calçadeira em casa e seria perverso tocar-lhe. Com que cara e dinheiro iria eu, oito anos, comprar uma? E diga cá – já os estava a ouvir –, para que quer o menino a calçadeira?

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Publicado no Expresso

Lição de antropologia com Elizabeth Taylor

natalie
um suave der­rame sen­ti­men­tal

Aca­bara de me apai­xo­nar por Nata­lie Wood. Vira-a, aco­lhe­dora, a dei­xar James Dean deitar-lhe a cabeça no colo, em “Rebel Without a Cause”. O que ela, ado­les­cente, fazia no filme, um sor­riso triste, bei­jos só de lábios a roça­rem lábios, sonhava eu que era comigo. E o que fazia era um suave der­rame sen­ti­men­tal, doce enjoo intrans­mis­sí­vel a terceiros.

Nes­sas férias de 68, nas noi­tes cacim­ba­das de Luanda, o cinema Impé­rio pas­sava um fes­ti­val de repo­si­ções. Jurara pro­mes­sas à ter­nura de Nata­lie Wood, mas noite é noite, a natu­reza mas­cu­lina, mesmo a ado­les­cente, é ins­tá­vel e fui à descoberta.

Exibia-se “The Sand­pi­per”. O filme, embora assi­nado por Vin­cente Min­nelli, não é extra­or­di­ná­rio. Ape­nas veí­culo para a arra­sa­dora pai­xão que Eli­za­beth Tay­lor e Richard Bur­ton viviam.

Já a vira Cléo­pa­tra, mas não con­se­gui ser romano sufi­ci­ente para que me aque­cesse mais do que arre­fe­cesse. Agora, em “The Sand­pi­per”, numa praia cali­for­ni­ana, Eli­za­beth era bas­tante menos do que a actriz de “Cléo­pa­tra”, era uma mulher.

Com a Nata­lie Wood de “Rebel”, que em Por­tu­gal se cha­mou “Fúria de Viver”, tive a ilu­são de que uma namo­rada não pode­ria ter mais de 20 anos e era uma coisa de olhar nublado e sor­riso melan­có­lico que se ins­ta­lava na nossa cabeça, mais pre­ci­sa­mente no cora­ção que temos na cabeça. Ao ver a Tay­lor de “The Sand­pi­per”, em por­tu­guês cha­mado “Adeus Ilu­sões”, vi a fúria de viver do corpo sexu­ado de Tay­lor e senti esse “ser mulher” a injectar-se-me nas veias e nesse vaga­bundo cora­ção que não direi onde é que, no corpo de um homem, se pode encontrar.

Eli­za­beth já tinha 33 anos, o que, em mea­dos dos anos 60, a fazia bal­za­qui­ana. A per­so­na­gem dela era como ela, como o corpo dela, com redon­das doçu­ras a tes­te­mu­nhar que aquela boca não se proi­bia nenhum pra­zer. Era, no filme, uma artista livre, a viver iso­lada na praia (uma casa assom­brosa) e mãe sol­teira por­que, como expli­cava: “Não fui aban­do­nada pelo pai, foi o pai que foi aban­do­nado por mim”.

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redondas doçuras

Vestia-se a cami­so­las leves que o amo­roso volume do peito erguia como estan­dar­tes, ou então uma camisa de homem a decotá-la com exu­be­rân­cia, as per­nas nuas na areia da praia. E olhava. Do azul vio­leta do olhar de Eli­za­beth Tay­lor saíam des­car­gas eléc­tri­cas. Não ape­nas o mis­té­rio que se evola dos olhos de uma gata abis­sí­nia. O olhar dela, no filme, res­suma sedu­ção, uma huma­nís­sima ani­ma­li­dade que lhe flui, pagã, dos ombros para as coxas more­nas. Richard Bur­ton, casado, pas­tor pro­tes­tante, sucumbe. A mim, passou-me o eté­reo enjoo com a ado­les­cente Natalie.

Minha pri­meira lição antro­po­ló­gica: terá sido esta ani­ma­li­dade pal­pi­tante, mas gen­til, quase domés­tica, a fazer-nos tro­car a selva, a caça, o raio do ar livre, pelo suado calor de uma cama.

O uso da pena e o desempenho do gládio

giacomo-casanova

 

Há quem pense que, num homem, talentos poéticos e dotes de escrita indiciam uma clara e preocupante sublimação da sexualidade. Está a chegar o Inverno, e não vejo que venha mal ao mundo em discutir-se já a tese.

Haverá, de facto, alguma relação causal entre o uso da pena e o desempenho do gládio? O arrebatamento com que um homem se entrega às elegantes e cursivas expansões da escrita implicará um murcho e recolhido cativeiro da sua potência sexual?

A pergunta é muito mais embaraçosa do que parece. Qualquer tentativa de argumentação – ainda por cima na forma escrita – arrisca-se a mal entendidos e a destruir a mais férrea e viril das reputações.

Opto por oferecer-vos uma lista concludente e irrebatível de histórias de êxito em batalhas de lençóis. Sim, é possível, como vão ver, passar horas a escrever e outras tantas entregue a inconfessáveis apetites. Espero, assim, dar um contributo cultural indelével para que jovens e promissoras vocações não deixem de cumprir-se por venal temor de uma insidiosa e infundada acusação.

Lembro-vos, para começar, o caso famoso de Giacomo Casanova. Escreveu 28 volumes de memórias. Nelas revela 132 casos de sedução ardente. Pormenor saboroso: era, avant la lettre, um homem de e da globalização, já que essas 132 mulheres que lhe concederam favores eram de 99 nacionalidades diferentes. Chamo a atenção para o facto destas memórias serem só a ponta (em todo o caso firme e meritória) do iceberg. Consta que Casanova terá dormido (e, sem ofensa, presumo que nalguns casos tenha sido apenas isso) com cerca de 10 mil angélicas representantes do sexo oposto.

Outro exemplo. Dois escritores franceses de inabalável estirpe, Guy de Maupassant e Georges Simenon, parecem ter-se fixado num número fetiche: as mil mulheres. Com elas gozaram delícias venusianas. Há diferenças que convirá realçar. Maupassant auto-imputava-se o dom de múltiplos orgasmos e músculo para levantar bem alto a bandeira por toda uma noite. Já Simenon, para perfazer a milenar contabilidade, não se eximiu a arredondar a cifra arregimentando prostitutas.

Mais moderado foi Balzac. É verdade que escrevia cerca de 15 horas por dia e que o tempo, mesmo para o autor dos 100 romances da “Comédia Humana”, não estica. Tudo esticado, na carnal matéria em apreço, a ele deu-lhe para mais de 10 e menos de 20 amantes ao longo da vida. Mas, note-se, com atenção dedicada e sustentada.

A outro símbolo da bela França, Victor Hugo, louva-se a alvoroçada diligência com que encarou a noite de núpcias, em que terá levado à glória, por 9 vezes, a sua bem amada Adele Foucher. O autor de “Os Miseráveis” foi também, num precursor referendo feito aos bordéis gauleses, considerado o patrono das prostitutas. Quando morreu, o governo autorizou aquelas horizontais eleitoras a acompanharem o funeral. Vieram, cobrindo com lenços negros as partes anatómicas mais sinceramente enlutadas.

Poderia invocar o maldito nome de Sade, os insaciáveis apetites de Robert Louis Stevenson e de Lord Byron, a infidelidade crónica de Kingley Amis, o sexo sem nexo de Henry Miller. Não interessa. Creio ter já provado o meu ponto. Lá fora, o mundo continua esplêndido, a pedir mais do que argumentos literários. Ou, nas calorosas palavras do mesmo Miller: “I hear not a word because she is beautiful and I love her and now I am happy & willing to die.

A noite sexual

quignard

Eu não estava lá. Eu não estava lá, na noite em que fui concebido.

Sobre esta falha, sobre essa imagem que nunca vimos e que nunca veremos, sobre a falta dessa imagem que a miríade de imagens que nos cerca e sufoca não consegue fazer esquecer, Pascal Quignard fez um livro.

Chamou-lhe La Nuit Sexuelle e é um livro de imagens. Ia dizer que neste álbum deslumbrante prevalecem as imagens doutras noites, iguais porventura à noite fundadora a que dificilmente poderíamos assistir, e que, nas espessas noites que as imagens de Quignard reproduzem, julgamos escutar, tementes e trementes, repulsiva e fascinadamente, o eco da imagem que jamais se revelará aos nossos olhos… “Maintenant je désire m’engloutir dans cette nuit qui d’entrée de jeu comuniqua sa couleur à ces pages.” E, no entanto, essa “noite sensorial”, presente embora, não é, ao longo de La Nuit Sexuelle, nem avassaladora, nem sequer dominante.
Livro soberbo, nele se cruzam, maravilhosamente reproduzidos, quadros de Caravaggio e Rubens, de Leonardo e Ticiano, de Goya e Picasso, de Regnier e Van Den Hoecke. Correndo a par de um texto minimal, deliciosa e insensatamente francês (if you know what I mean), há também desenhos anónimos do sec. XV ou do séc XVII, anónimos chineses e anónimos egipcíos, há Pietás e Massacres de Inocentes, há mãos que empunham falos, há ninfas empaladas e sacríficios satúrnicos.

Quando chegamos ao fim dos 27 capítulos de La Nuit Sexuelle, depois do nosso olhar ter viajado por mais de duzentas pinturas em que habitam a nudez, o crime, o voyeurismo e a carnalidade, sabemos que toda essa visibilidade não nos revelou ainda a “cena invisível”, Mas sabemos talvez que essa “cena” está na origem da pintura, tanto mais quanto, em latim, pénis (penicillus) quer até dizer “pequeno pincel”.
La Nuit Sexuelle é o livro de uma alegria negra, como negras são, literal e graficamente, as suas páginas de um couché tão suave como a pele em que, numa noite que nunca vimos, dedos se perderam, outros dedos se encontraram.
Prometo vir aqui, regularmente, dar conta dos meus gostos obsessivamente optimistas e desenvergonhadamente encantados. Calhou ser outra vez um livro. Este foi editado, com brio e farto investimento, pela Flammarion. Tem 19,5 cm de comprimento por 28 de largura. A encadernação, com sobre-capa, abriga 279 páginas gloriosas, às vezes tórridas. Custa 85€. Abençoado dinheiro.