Meus Kambas: o Velho

Meus Kambas é uma varanda pequenina, com porta para a cozinha, que eu arranjei aqui, na Página Negra. Todas as semanas, ou mais ou menos, conforme os amigos apareçam, virá um amigo que eu convide sentar-se à trémula mesa dessa varanda, numa das cadeiras (na outra sento-me eu), para petiscarmos o que seja, uma alheira de caça que o forno faça suar, um queijinho de Serpa ou um que o meu cunhado me traga de Pinhel. Uma taça de tinto a riscar liquidamente a linha de horizonte.

Velho com gato

Já convidei vários amigos, eis que chega o primeiro. Fernando Jorge Machado Antunes será o que ele muito bem queira e o que, numa vida rica e cheia, construiu. Para mim é só o Velho, nome de guerra com que e pelo qual o conheci, naqueles anos de brasa que foram os anos da dipanda. Somos de Luanda, se ser de Luanda foi sonhar uma Nação, um Povo que soltasse algemas. O Velho sonhou muito e sonhou alto: deu o corpo ao sonho. Tanto que podia até granada ter sido seu caixão. Há gente assim, que poderia mesmo ter morrido em Angola para não morresse nunca em Angola.

Hoje, o sonho transformado em poesia, autor de Amores em LuaLis, o Velho, meu kamba, no seu modo descalço e caluanda, deambula pelas palavras, o amor de Luanda, inexclusivo, a amar tanto Lisboa. Pedi-lhe que escrevesse um texto e o viesse aqui conversar, a esta fragilíssima mesa da Palavra Negra. Eis o que ele nos quis dizer.

Fernando

LISBOA, ESTA MENINA JÁ MOÇA
Fernando Jorge Machado Antunes ( “Velho” )  

De uma forma empírica, avessa à filosofice da definição, pode-se dizer que uma cidade é cosmopolita, ou caminhará para tal, quando transcende a(s) sua(s) qualidade(s)  de dentro e se abre ao diferente e aos diferentes de fora. Quando passa a ser uma cidade do mundo, maior ou menor, mega ou a atirar mais para o mini. Não se preocupem, nem sintam comichões com desejos de precisão filosófica da definição. Que eu também não.

Escorrendo apenas pelo “lado bom da coisa” – que é sempre “coisa boa” – digamos, então, que  Lisboa abriu-se ao cosmos, fechada aos ismos dos tempos perigosos que correm. Beneficiou, é certo, das arestas quebradas e dos alicerces roídos de outros lugares, flagelados que foram pelos ventos semeados pelos que querem caos e não sossego.

E aproveitou. É a vida… Chegou a sua vez! Tocou os sinos, sorriu, convidou para comer e beber, que a sua comida só do cheiro enfeitiça o visitante, ajudando o bom vinho à degustatividade em trânsito fluído, sem “relevés” de maus circuitos. E abraçou, como sabe fazer, incondicionalmente hospitaleira (… contando, cá para nós, que não a piquem lá no duodeno dos seus). E porque é linda, na sua luz, sons e tons, cheiros e coisas suas.

Miscigenada, a caminho, arranhem-se os puristas, da mestiçagem.

Lisboa, terra, rio e mar

  Podia-te chamar Lisrio
num calafrio
de corpo e pele
Tejo, voz e mel
nos dedos, nos lábios
sábios
de melodias
todos os dias…
como se fosse lá na canção
fado da gente fugindo do não…
cheiro a gaivotas e canoa.

Podia-te chamar de Lismar
oceano de encorajar
gentes idas
mãos sorridas
sabor a cheiro
mar inteiro
estrela aos céus
sal dos choros teus…
como se fosse lá na poesia
sul num sol de fantasia…
ao leme de uma qualquer proa.

Podia-te chamar Lisluz
sol do rio que seduz
mestiçagem, perfume
lume
de aqui e de acolá
jacarandá
dias de cores
noites de amores…
como se fosse lá no cinema
cidade branca, azul e poema…
sol amigo e lua boa.

Podia-te chamar só Lisboa…

Pode filmar-se a poesia?

atonement

Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar.

Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: “… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.” A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir.

Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Natalie Wood em “Splendor in the Grass”. No poema, as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de “Perfect World”, de Clint Eastwood.

Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de “Bonjour Tristesse”, se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.

Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:

“Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
Pelo orvalho parado da noite.”

Já vi estes versos no cinema: homens a correr “pelo orvalho parado da noite”. Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no “Target”, de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, “Man Hunt”, irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.

Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de “Os Passos em Volta”. “Polícia” é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, “a criatura mais só da terra”, num sítio onde “as putas e os chuis eram mais do que as mães”. Leio e penso: já vi!  

Mas onde é que já vi dois amantes nus a atravessar, a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Foi num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no “They Live by Night” de Nicholas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger leu e se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: num filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, uma francesa de Lyon.

O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes que os dois nascessem, no poema destes primeiros versos:

“As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.”

O cinema arde quando é dito assim.

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Claude Le Petit, maldito poeta

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Das edi­ções que já fiz na minha lamen­tá­vel vida de editor, esta é uma das que me é mais que­rida. Caiu-me nas mãos um livro fran­cês, Le Bor­del des Muses, de Claude Le Petit. Foi logo tiro e queda. Mas não era mesmo nada líquido que o livro fran­cês pudesse dar um livro por­tu­guês. Não se publica poe­sia em Por­tu­gal — é pra­ti­ca­mente proi­bido por lei. E ainda menos se publica um fran­cês. Muito menos um fran­cês do século XVII.

A minha sorte e a sorte de Le Petit é que ele foi quei­mado na fogueira por obs­ce­ni­dade. Ora isso é logo uma carta de nobreza. Pen­sei que se arran­jasse mais uns títu­los nobi­liár­qui­cos a coisa se podia arran­jar. Fui à cata de aris­to­cra­tas. Pri­meiro, para lhe dar forma poé­tica em por­tu­guês, des­co­bri a Eugé­nia de Vas­con­cel­los. É poeta e palpitou-me for­te­mente que ela era capaz de dar aos arrou­bos obs­ce­nos de Le Petit uma equi­va­lên­cia em lín­gua de Pes­soa que fosse irmã humana da poe­sia fran­cesa. Depois, bati à porta de outro artista, João Cuti­leiro, e pedi-lhe que rein­ven­tasse este Le Petit em dese­nho. Cuti­leiro não o ilus­trou, pre­fe­riu ir descobrir-lhe a gen­ti­leza que está sem­pre por trás da por­no­gra­fia quando ela é poética.

O que a Eugé­nia e o João fize­ram é tão bonito que me comove. E o tanto que me como­veu e exal­tou pode ver-se nos mate­ri­ais em que este livro está feito, no gra­fismo, no papel. Não me che­gou. Não quis ficar de fora na festa de sen­ti­dos que este livro já era. Escrevi um texto, até para dizer quem era este Le Petit que agora, assim, entra na lín­gua e na edi­ção por­tu­gue­sas. É um ape­ri­tivo. Para que leiam, intei­ri­nho, este (tão bonito, não é?) o Bor­del das Musas ou as nove don­ze­las putas, do grande Le Petit.  

 

Bordel capa
Para ler intei­ri­nho, um poeta de outro lado a entrar na nossa língua

Claude Le Petit foi quei­mado vivo no pri­meiro dia de Setem­bro de 1662, na Praça de Grève, em Paris. Diga-se: com 23 ten­ros anos de idade. A fogueira onde ardeu era car­te­si­ana: queimaram-lhe o corpo por causa dos peca­dos da alma.

Filho de um alfai­ate, Le Petit tinha na escrita o seu maior talento. Um talento trans­bor­dante, irre­ve­rente, físico, car­nal. Escre­veu desal­ma­da­mente, mas as hipó­te­ses de publi­ca­ção foram escas­sas e mal pagas. A estu­dar Direito em Paris, com uma reles bolsa paterna, Le Petit deixou-se sedu­zir pelos meios e con­ví­vio liber­ti­nos. Numa França de Luí­ses, o XIII e o XIV, de poder fer­re­a­mente cen­tra­li­zado, o liber­tino – trans­gres­sivo e a roçar-se filo­so­fi­ca­mente pelo ateísmo – é um livre-pensador que faz pas­sar a liber­dade de espí­rito pela prova do debo­che e dis­so­lu­ção do corpo. É por isso lógico que, para Le Petit, o mag­ní­fico corpo humano, falo, cona e cus, jun­ta­mente com o tinir das moe­das, e sobre­tudo a omi­nosa falta de cheta, sejam as obses­sões maiores.

Não admira que, sem des­me­re­cer a pai­xão, tenha escrito por dinheiro. A pri­meira vez que lhe paga­ram foi por um poema. Outro autor, Michel Mil­lot, divertira-se a escre­ver um diá­logo obs­ceno, L’École des fil­les ou la phi­lo­sophie des dames. Pedi­ram a Le Petit que redigisse,como ao tempo era hábito, um elo­gio ao autor do livro, para a aber­tura. Le Petit escre­veu o madri­gal cujo pri­meiro verso reza «Autor fodido de um livro fodido…» que os lei­to­res desta Página Negra pode­rão ler se com­pra­rem o livro. Um desen­ten­di­mento entre edi­to­res e tipó­gra­fos pôs o livro nas lava­das mãos das auto­ri­da­des, que o pros­cre­ve­ram como ímpio, tendo Mil­lot, seu autor, sido con­de­nado à morte na fogueira, de que escapa, fugindo para sem­pre de Paris. Quase por mila­gre e por não estar assi­nado o seu madri­gal tão esplen­di­da­mente fodi­tivo, Le Petit pas­sou como um anjo por este inci­dente. Nem foi iden­ti­fi­cado ou preso, nem se castrou.

De pena pis­to­leira, pronta para ser alu­gada, foi então con­vi­dado a escre­ver numa gazeta, La Muse de la Cour,diri­gida pelo livreiro Ale­xan­dre Les­se­lin. Era mal pago, mas era pago, e Le Petit, a troco de qua­tro ou cinco pis­to­las, edi­fi­cante nome de uma moeda da época, de 1 de Setem­bro a 28 de Outu­bro de 1656, foi o pro­lí­fico autor de oito núme­ros dessa gazeta. Um san­grento inci­dente inter­rom­peu a con­for­tá­vel e cur­tís­sima car­reira. Le Petit tra­vou forte rela­ção com um jovem frade agos­ti­nho. Fosse qual fosse a des­co­nhe­cida natu­reza da rela­ção, sobre a qual as cró­ni­cas guar­dam silên­cio de santo, houve uma briga de alto lá com ela entre os dois. Le Petit não foi de intri­gas. Escon­dido, espe­rou que o frade viesse pre­pa­rar a igreja do con­vento para as mati­nas e espetou-lhe uma faca, matando-o como a um cevado. Dor­miu ao lado do cadá­ver na igreja fechada e, quando os fra­des a vie­ram abrir de manhã, escapuliu-se sem ser visto. Temendo a inves­ti­ga­ção poli­cial, o poeta assas­sino exilou-se. O péri­plo de exí­lio começa em Espa­nha e passa por Itá­lia, pela Boé­mia, Ale­ma­nha, Holanda e Lon­dres. Adver­tido de que o assunto do defunto frade fora arqui­vado pela polí­cia, regressa a Paris. Tinham pas­sado pouco mais de três anos, estava-se em Feve­reiro de 1661.

Volta aos meios liber­ti­nos, con­ju­gando o amor da carne com a devo­ção cató­lica, apos­tó­lica e romana, e volta à penú­ria do cos­tume. Ora, toda a gente sabe que é muito chato ser pobre em França. Vendo que a poe­sia não ren­dia, consta que Le Petit esta­ria já na dis­po­si­ção de aban­do­nar a vai­dade e as misé­rias do mundo laico e ir mis­ti­ca­mente rezar as vés­pe­ras para um con­vento, tese à qual dá con­sis­tên­cia o livro Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, que nessa altura se dizia ter escrito. Mas é sabido que, num ora foda-se, o diabo apa­rece e as tece quando e onde menos se espera. Estava Le Petit em reco­lhi­mento, na Aba­dia de Saint-Germain-des-Prés, e vem desinquietá-lo um tal Cha­bat com uns mais isto e mais aquilo e que era uma pena que o olvido e a gaveta ou as cin­zas sepul­tas­sem para todo o sem­pre a viri­li­dade das satí­ri­cas rimas de um livro como O Bor­del das Musas. Diz estas ver­da­des todas e tira do bolso cin­quenta pis­to­las – o que a prata e o ouro bri­lham à luz mor­tiça de uma igreja! – dizendo publico-to eu.

Le Petit não resis­tiu. Um ano antes dedi­cara um soneto a Jac­ques Chaus­son, maiús­culo  sodo­mita que a ten­ta­tiva de vio­la­ção de um moci­nho nobre levara aos acri­mo­ni­o­sos tri­bu­nais seis­cen­tis­tas. Chaus­son fora con­de­nado à fogueira, na Praça de Grève, local em que a amena popu­la­ção pari­si­ense se reu­nia para ver assar ateus, ímpios, vio­la­do­res e mais gente com incli­na­ção para uma des­na­tu­rada rebal­da­ria. O cheiro do epi­só­dio chaus­so­ni­ano e a memó­ria do mila­gre com que Deus o des­pen­du­rou da asso­ci­a­ção ao enfor­cado Mil­lot deviam ter avi­sado Le Petit que tal­vez não fosse avi­sado for­çar a sorte. Mas Le Petit não era capaz de resis­tir a cinco moe­das, quanto mais a cin­quenta. E disse que sim ao insi­di­oso Cha­bat, man­dando que se fizesse a priá­pica e clan­des­tina edi­ção. Em home­na­gem a Théophile de Viau, lumi­ná­ria da poe­sia liber­tina, assi­na­ria, com o pseu­dó­nimo de Théophile Le Jeune, este Bor­del das Musas, de que agora temos nas mãos os poe­mas que sobreviveram.

O que tinha de cor­rer mal cor­reu evi­den­te­mente mal. Fosse por­que Cha­bat tinha a lín­gua com­prida – é o que diz Fré­dé­ric Lachè­vre, no seu sério e majes­toso estudo Les Oeu­vres Liber­ti­nes de Claude Le Petit –, fosse pelas for­tui­tas cir­cuns­tân­cias que sem­pre favo­re­cem cen­so­res e inqui­si­do­res, a obra foi estatelar-se debaixo do olho rigo­roso e cir­cuns­pecto da polí­cia de cos­tu­mes pari­si­ense. Poupo-vos a por­me­no­res. Claude Le Petit era o meio men­di­cante filho de um pau­pér­rimo alfai­ate, o que em nada o reco­men­dava – a filha da puta da pobreza nunca sal­vou nin­guém. A arre­ba­tada e túr­gida ele­va­ção dos seus ver­sos esca­pava ao raci­o­nal dos seus cen­so­res e só o enter­rava mais. Em menos de um fós­foro, se assim se pode dizer, a célere jus­tiça fran­cesa con­de­nou Le Petit à fogueira. Deve­ria, antes, ser-lhe cor­tada a mão direita pelo punho, julga-se que em alu­são à prá­tica da escrita, embora nunca se saiba lá muito bem o que pas­sa­ria pela grave cabeça de magis­tra­dos daqueles.

Assim foi. A 1 de Setem­bro de 1662, Claude Le Petit ardeu na fogueira. Mas ao arder, já ardeu morto. Por pie­dade, crê-se, foi-lhe con­ce­dido o mimo de ser estran­gu­lado antes.

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Cuti­leiro foi descobrir-lhe a escon­dida gentileza

O poeta Claude Le Petit inte­gra uma cor­rente filo­só­fica e lite­rá­ria – os liber­ti­nos – cuja tra­di­ção tem raí­zes em Oví­dio, ganhando expres­são maior em França, no século xvii. Essa cor­rente teve o seu prin­ci­pal expo­ente na obra poé­tica de Théophile de Viau.

Estri­ba­dos num cep­ti­cismo epi­cu­rista e tam­bém, mas não neces­sa­ri­a­mente, num ateísmo con­victo, os liber­ti­nos do século XVII fran­cês foram um exem­plo de anti­con­for­mismo e de eru­di­ção, que expres­sa­ram em obras satí­ri­cas, pro­fa­nas, de grande liber­dade de costumes.

Tudo isso, acres­cido de uma viru­lên­cia extrema, que faz dele um prín­cipe do obs­ceno, está na poe­sia de Le Petit. E, não obs­tante, os seus ver­sos não se podem redu­zir ao estrondo dessa obs­ce­ni­dade. Os ver­sos que escre­veu são tam­bém inter­ro­ga­ção, por vezes escar­ne­cida, sobre a con­di­ção humana e a per­ma­nente mudança do mundo e das coi­sas. A escrita de Le Petit, sabo­ro­sa­mente eru­dita, infor­mada por uma vasta cul­tura clás­sica e por uma muito polí­tica aten­ção à His­tó­ria e ao século, é uma escrita que com­bina iro­nia e sar­casmo, por vezes um toque abjec­ci­o­nista. Com uma ima­gé­tica des­bor­dante, os seus poe­mas são o exem­plo do bom uso de uma certa arte da repe­ti­ção – uma pala­vra, uma expres­são criam um ritmo encan­ta­tó­rio –, no que se poderá ver uma herança de Le Viau (e de Villon?).

Já se disse que os liber­ti­nos casam epi­cu­rismo, mate­ri­a­lismo, umas pin­ce­la­das de filo­só­fico maqui­a­ve­lismo, com um ateísmo mili­tante. Mas a repres­são vio­lenta, pas­sando pela morte na fogueira, a que alguns mem­bros da cor­rente foram sujei­tos, fez emer­gir uma dupli­ci­dade tea­tral no movi­mento. Mui­tos liber­ti­nos assu­mi­ram uma más­cara pública que os pro­te­gesse da imi­nente vio­lên­cia. Todo o liber­tino pas­sou a ser um actor. Terá sido assim com Le Petit? Terá o seu cato­li­cismo sido uma más­cara pública para ocul­tar a pode­rosa afir­ma­ção da carne, do sexo, que a sua poe­sia exibe, cami­nhando em estado de arro­gante erec­ção sobre a Cristandade?

Se, antes da publi­ca­ção do seu Bor­del das Musas, pare­cia estar divi­dido entre o cato­li­cismo e o ideal liber­tino ao ponto de ter escrito um devoto Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, tam­bém sabe­mos que, já conhe­cendo a sen­tença que o con­de­nava à fogueira, pediu para falar com o barão de Schil­de­beck, seu amigo dos tem­pos de exí­lio ale­mão, e lhe disse onde estava escon­dido o que con­se­guira sal­var de Le Bor­del des Muses. Arran­cou ao amigo ale­mão a pro­messa de que sal­va­ria esse ori­gi­nal e o publi­ca­ria, o que o ale­mão cum­priu, publicando-o dois anos depois, em Ley­den, na Holanda.

Nessa con­versa com o fiel ale­mão, Le Petit, sal­vando o seu livro, garan­tiu a eter­ni­dade. Quando, a cami­nho da fogueira, parou em frente à Igreja de Notre-Dame e, de rojo na imensa praça, fez a ora­ção de arre­pen­di­mento que o tri­bu­nal deter­mi­nara, quem se arre­pen­dia era o cató­lico que de facto havia nele ou a más­cara liber­tina que o século exi­gia? Mas se era actor, de que maneira é que o actor pode fin­gir, a não ser deve­ras sen­tindo as dores, mesmo as dores cató­li­cas, que o actor representa?

As cró­ni­cas dizem que avan­çou com sere­ni­dade exem­plar para a fogueira que, em plena Praça de Grève, o espe­rava. Já estava morto quando o quei­ma­ram – fogo que ardeu sem que ele o sentisse.

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Um dos mais belos pen­sa­men­tos de Santo Agostinho

Herberto Helder

Tenho de me lembrar e sublinhar, a mim mesmo, uma coisa. Esta Página Negra nasceu para aqui se reunirem, como náufragos numa ilha deserta, todos os textos que eu fui escrevendo nestes últimos quarenta anos. Escrevi este, sobre Herberto Helder, que eu nunca conheci, apesar de ser tão próximo, de conspirativos cafés e ócio, de amigos meus, quando ele fez oitenta anos. Faria hoje 88. Depois disso, novos livros dele instigaram-me a outros textos. Mas queria deixar este assim, como em 2010 o publiquei.

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Só há uma forma de falar de Herberto Helder. É ser simples e claro. Hoje [2010], o calendário comemora-lhe o 80º aniversário do nascimento. Nasceu e cresceu como era obrigação dele e nada disso vem ao caso. Interessa é que, desde 1958, a língua portuguesa escrita tem de lhe estar agradecida. Quando publicou “O Amor em Visita”, Herberto Helder mudou a geografia da língua, a sua moral. Nesse poema e na Poesia Toda que é a obra dele, introduziu uma riqueza lexical que nenhum outro escritor da língua, brasileiros incluídos, se sentira autorizado até então a utilizar. Com Herberto, a língua visitou o interior do corpo humano, desceu ao fundo escuro da terra, viajou cósmica, sem deixar de ser radicalmente vegetal.

Não há um qualificativo que consiga exprimir a estatura da revolução que a poesia de Herberto operou. Deixem-me utilizar a palavra moderno, apesar da debilidade e insuficiência semânticas. Herberto fez moderna a língua. Grande parte da literatura do século XX escrita em língua portuguesa, sem prejuízo do sentimento, da emoção ou, mais ocasionalmente, do pensamento que gera, é lexicalmente serôdia. Mesmo reportando-nos a figuras maiores, quando lemos Pascoaes ou Aquilino, talvez menos mas também Tomaz de Figueiredo, encontramos um sarro rural, uma culpa miserabilista, um esqueleto de piedoso realismo que ao desinspirar-se descamba no neo-realismo de Redol e Soeiro Pereira Gomes. É uma literatura de samarra e, se espreitarmos bem, de ceroulas. Não critico quem pleite pela necessidade desse retrato social ou da inspiração telúrica, e que, a muitos, tudo isso sincera e muito paroquialmente comova.

A língua portuguesa de Herberto é outra. Diferente mesmo da de Pessoa que, sobretudo em ele-mesmo ou Álvaro de Campos, a fez futurista e universal. Diferente da língua do contemporâneo Jorge de Sena que a fez discursiva e capaz de dialogar com Debussy ou com Goya. A língua que nos poemas de Herberto se escreve é o triunfo universal da imaginação, é a língua utilizada por um cérebro que usa a metade esquerda e a metade direita. Amoral, a língua de Herberto Helder exibe a volúpia do luxo, a volúpia da liberdade.

O luxo é, essencialmente, lexical: nele não há rasto das palavras que à exaustão foram o estandarte realista. Na poesia de Herberto surgem harpas, crateras, pólipo, mamilo, mãe, fenda, sexo, metamorfose, carne, veias, menstruação, pérolas, prata, planetas, átomos, constelações.

A liberdade é gramatical e associativa. Como um centurião romano se permitia o prazer reconfortante da sauna, assim Herberto ofereceu à gramática a entrada na literatura. Os adjectivos e os advérbios sentem os músculos soltar-se, gerúndios e particípios passados descobrem que afinal funcionam articulações que julgavam ossificadas.

Mas a liberdade maior é a associativa: a sua poesia dá a uma jovem mulher um arbusto de sangue, a figueiras pulmões de esponja branca. Na língua de Herberto pode sentar-se a paisagem numa cadeira e lê-la com extrema violência.

Permito-me a doçura de um lamento. A poesia de Herberto é curvamente narrativa. Povoada de corpos, um torcido dorso à volta da sua dor, anuncia histórias, a metamorfose de personagens, o espasmo de uma felicidade por vezes amarga. Essa dimensão romanesca testou-a o poeta num livro de contos, Os Passos em Volta, que é uma das mais belas experiências ficcionais da língua portuguesa. Em “Polícia”, um dos contos, vivido por um clandestino em Bruxelas, conhecemos a amante com que sempre sonhámos, Annemarie, aquela a quem foi concedido o dom da poesia subversiva: “Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falámos longamente da chuva, do amor e das leis”. A poética desses contos faz-nos sonhar com o que poderia ter sido um romance de Herberto Helder. A forma alucinante e tão precisa como descreve, a surpresa das situações (“Eu digo o teu cabelo. Ela está agachada junto à cama, procurando um sapato que se extraviou”), a simetria das frases, os finais assertivos, deveriam ter-nos dado o romance que, depois de Eça, a língua portuguesa precisava de ter para se juntar aos romances de Agustina e à excepção de Os Sinais de Fogo de Sena.

Basta que nos tenha dado a poesia toda. Deu-nos lume, o incêndio de versos longos. Esta exuberância, esta criação límpida é única na língua portuguesa. Podemos encontrar-lhe fôlegos de Whitman, a intensidade de Dylan Thomas, ou procurar-lhe nos versos o rumor humano, antiquíssimo, de François Villon. Em português não, não tem antepassados: Herberto Helder está condenado à brancura explosiva da originalidade.

Drummond e Sena: beijos, lábios e língua

beijos

Não se diga da poe­sia de lín­gua por­tuguesa que é del­i­cada e para del­i­ca­dos. Dois poetas pelo menos, o brasileiro Jorge de Sena e o por­tuguês Car­los Drum­mond de Andrade – e se me dis­serem que me enganei, aos dois declaro nasci­dos e glo­riosa­mente mor­tos na mes­mís­sima lín­gua tan­tas vezes a por­tugue­ses e brasileiros estranha – Sena e Drum­mond, dizia, can­taram o amor com essa sub­lime e priv­i­le­giada indel­i­cadeza que só o é para quem já não tem a inocên­cia de acred­i­tar que com casti­dade se abrem coxas ou que mão apal­pante deslize pura pela perna que pronta­mente responde.
Leio estes dois poe­mas e o que deles mais gosto é que são livres e sabem a desinibido quotidiano.

Era Manhã De Setem­bro
Car­los Drum­mond de Andrade


Era manhã de setem­bro
e
ela me bei­java o membro.

Aviões e nuvens pas­savam
coros negros rebramiam
ela me bei­java o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruza­dos flo­riam junto

Ela me bei­java o membro

Um pas­sar­inho can­tava,
bem den­tro da árvora, den­tro
da terra, de mim, da morte

Morte e pri­mav­era em ramo
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me bei­jando o membro

Tudo o que eu tivera sido
quando me fora defeso
já não for­mava sentido

Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me bei­jar o membro

Dos bei­jos era o mais casto
na pureza despo­jada
que é própria das coisas dadas

Nem era pre­ito de escrava
enrodil­hada na som­bra
mas pre­sente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como bei­java uma santa
no mais divino trans­porte
e num solene arrepio

bei­java bei­java o membro

Pen­sando nos out­ros homens
eu tinha pena de todos
apri­sion­a­dos no mundo

Meu império se esten­dia
por toda a praia deserta
e a cada sen­tido alerta

Ela me bei­java o membro

O capí­tulo do ser
o mis­tério do exi­s­tir
o des­en­con­tro de amar

eram tudo ondas cal­adas
mor­rendo num cais longín­quo
e uma cidade se erguia

radi­ante de pedrarias
e de ódios apazigua­dos
e o espasmo vinha na brisa

para con­sigo furtar-me
se antes não me des­fol­hava
como um cabelo se alisa

e me tor­nava dis­perso
todo em cír­cu­los con­cên­tri­cos
na fumaça do universo

Bei­java o mem­bro
bei­java
e se mor­ria bei­jando
a renascer em dezembro

beijo_b

Beijo
Jorge de Sena

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes lín­guas
tão pen­e­trantes quanto lín­guas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se aper­tando del­i­ca­dos.
É lín­gua que na boca se agi­tando
irá de um corpo inteiro desco­brir o gosto
e sobre­tudo o que se oculta em som­bras
e nos recan­tos em cabe­los vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

pacto de sangue dos happy few

Sete Degraus_

Gostava de vos convidar a irem em duas diferentes direcções. Bem sei que vos estou a pedir para se partirem ao meio, mas há momentos na vida em que, se queremos arrebatamento ou mergulhos no mais fundo que de fundo a transcendência tenha, temos de arriscar o corpo para ganharmos a alma.

Peço-vos que deixem metade do vosso corpo ir atrás dos poemas com que Eugénia de Vasconcellos armadilhou um livro a que chamou Sete Degraus sempre a Descer. Descobrirão que, estando em páginas de livros que se fazem em tipografias, a poesia é outra coisa, porque

A poesia não é coisa das páginas dos livros –
não se faz na tipografia.
Ainda que seja nas páginas dos livros que
se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel –
é sempre de amor que se faz um corpo,
é por amor que um corpo se dá.
A poesia é da vida. É de quem tem.
A dor é de quem tem. O amor é de quem?
A alegria?
De quem tem.

E peço-vos que, esse «coração já rico em fogo», deixem que as vossas veias se deslarguem do vosso corpo e corram a ouvir a voz, o rio de palavras, que um grande escritor brasileiro contemporâneo, poeta e romancista, ensaísta e académico, quis generosamente juntar aos poemas de Eugénia. O poeta do outro lado do Atlântico chama-se Marco Lucchesi e da poesia de Sete Degraus sempre a Descer disse:

«Sete Degraus sempre a Descer é um livro de alta poesia. Alta, porque marcada pelo descenso, ensaio de ousadia, pacto de sangue dos happy few. A viagem de Alceste e Orfeu pertinaz, solitária, ao longo de uma incontornável cerimónia de adeus. Como um rito de passagem, a descida de Eugénia coincide com a noite dos sentidos, de Al Berto e João da Cruz, as Moradas de Teresa e o de mundo et partibus de Adélia Prado. Baixar sete degraus, como no Purgatório: eis aqui a génese da transmutação, a travessia da selva escura, enquanto Eugénia espera a iminência da aurora, aunque es de noche.»

E sentimos a suspensão de Lucchesi, respiração travada de quem ganha fôlego, para logo a seguir, um parágrafo à frente, a torrente encantada voltar:

«Eugénia possui uma poesia sísmica, de larga magnitude, mesmo quando parece dizer o contrário, mesmo quando voluntariamente arrefece, no intervalo dos versos, no rumor de fundo que organiza seu canto, ao sabor de uma unidade descontínua, nas ligaduras, que soltam e amarram seus fragmentos, as falhas geológicas, o incessante vulcanismo de lava e lapíli.

Eugénia de Vasconcellos é detentora de uma voz profunda e cristalina, livre e rigorosa, humilde e altiva, filha e mãe das leituras que a atravessam, convocadas pela vida, estratos e camadas de presente, como o mármore de Bernini para Teresa em Santa Maria della Vittoria.»

Por vezes, quando nela há grandeza (que é tentação do abismo) e vida (que é um sereno roçar pela morte), a poesia é física, fusão da palavra, símbolo e metáfora com uma carne exposta, com um corpo inquieto, de insatisfeita satisfação. A poesia de Eugénia de Vasconcellos é essa poesia.

Pode filmar-se a poesia?

splendor
Natalie Wood

Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar.

Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: “… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.” A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir.

Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Natalie Wood em “Splendor in the Grass”. No poema, as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de “Perfect World”, de Clint Eastwood.

Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de “Bonjour Tristesse”, se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.

Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:

“Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
Pelo orvalho parado da noite.”

Já vi estes versos no cinema: homens a correr “pelo orvalho parado da noite”. Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no “Target”, de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, “Man Hunt”, irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.

Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de “Os Passos em Volta”. “Polícia” é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, “a criatura mais só da terra”, num sítio onde “as putas e os chuis eram mais do que as mães”. Leio e penso: já vi!

Mas onde é que já vi dois amantes nus a atravessar, a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Foi num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no “They Live by Night” de Nicholas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger leu e se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: num filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, uma francesa de Lyon.

O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes que os dois nascessem, no poema destes primeiros versos:

“As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.”

O cinema arde quando é dito assim.

they live by night
They live by night