Livros Amarelos e um argumento de bolso

amarelos

Dizem-nos que é a única colecção comparativista do mundo. Talvez seja – senão a única pelos menos uma das raras colecções em que, no mesmo livro, se juntam e comparam textos de autores diferentes. Chama-se Os Livros Amarelos. As capas, como podem ver na imagem, são amarelas, e amarelas e pintadas à mão são as faces do miolo. Na capa há um cortante que a rasga obliquamente deixando ver a cor das guardas. O que eu, como editor, vos quero dizer é que os livros, de pequeno formato, têm uma graça ágil, uma beleza serena, quase humilde. Pousam-nos sossegados na palma da mão como pássaro primaveril.

E aqui está o mais importante: são livros para ler. A colecção tem já oito livros e inclui contos, poemas, pequenos ensaios, Walt WhitmanMelvilleMark TwainKiplingOscar WildeJoyce, os portugueses PessoaEçaManuel LaranjeiraJorge de Sena ou textos bíblicos como O Canto dos Cânticos e O Apocalipse.

Em cada livro há dois textos de autores diferentes. Por exemplo, o maravilhoso conto que é A Célebre Rã Saltadora do Condado de Calaveras, de Mark Twain é logo seguido de um conto de Kipling, Rikki-Tikki-Tavi. O que cada Livro Amarelo faz é pôr estes textos a falar uns com os outros, mostrando como esses textos se relacionam ou rejeitam, se amam ou se odeiam, o que fica demonstrado através de ensaio de um autor contemporâneo – por exemplo, os professores Jeronimo Pizarro ou Ricardo Vasconcelos, mas também Helder Guégués e eu mesmoeste editor que vos escreve.

Quando lançámos esta colecção – a que mais elogios nos valeu, sobretudo vindos de professores de literatura de universidades estrangeiras – dissemos que cada Livro Amarelo era um paparazzo: por desvendar as relações comprometedoras e clandestinas que os textos de diferentes autores e de diferentes épocas mantinham sem que o leitor se dê conta.

Já são muitas razões para ter na sua mão não um, mas todos os oito Livros Amarelos:

– são deliciosamente bonitos;

– têm o descaramento de mostrar a literatura a fazer amor;

– são livros amantes carregados de emoções e de humor;

– são os únicos livros de leitura dupla, como disse Jeronimo Pizarro, o que Jorge Luis Borges confirma: lê-se o segundo texto para confirmar e desviar sensivelmente a leitura do primeiro;

– são a prova de vida de textos de diferentes épocas e de diferentes literaturas.

Decidimos que era altura de juntarmos um argumento de bolso às razões para ter e ler, não um, mas todos os livros da colecção: eis que estamos praticamente a oferecê-los.

A sensibilidade não tem preço, mas neste caso, pelo preço de um grande livro (40€ não é?), leva oito pequenos livrosde gigantes da literatura.

Oh que amor tão calado que é o da morte

Bécquer
A 22 de Dezembro de 1870, assistia a atónita Espanha a um total eclipse do sol, morreu Gustavo Adolfo Bécquer. O seu Romantismo tardio fundou a moderna poesia espanhola, mérito que partilha com Rosalia de Castro, poeta galega sua contemporânea. Escreveu: “Oh que amor tão calado que é o da morte! / Que sono o do sepulcro tão tranquilo!”.

As suas “Rimas” são de uma elegância e de um refinamento inultrapassáveis. Como neste curto poema (“La mejor poesia escrita, es la que no se escribe”), esplendidamente irónico e subtil:

Asomaba a sus ojos una lágrima,
y a mi labio una frase de perdón;
habló el orgullo y se enjugó su llanto,
y la frase en mis labios expiró.

Yo voy por un camino, ella por otro;
pero al pensar en nuestro mutuo amor,
yo digo aún: “¿Por qué callé aquel día?”
Y ella dirá: “¿Por qué no lloré yo?

Ou seja, e mal vertido para português

Assomava a seus olhos uma lágrima,
a meus lábios uma frase de perdão;
falou o orgulho e enxugou-se o seu pranto,
e a frase nos meus lábios expirou.

Eu vou por um caminho, ela por outro;
mas ao pensar no nosso mútuo amor,
digo ainda “Por que me calei aquele dia?”
E ela dirá: “Por que não chorei eu?

Um poeta cai ao mar

Cheguei a gostar muito de William Carlos Williams. Nasceu a 17 de Setembro de 1883. Fui reler e tomara que tudo resistisse assim ao tempo:

LANDSCAPE WITH THE FALL OF ICARUS
According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings’ wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning

 

Bruerghel
Paisagem com a queda de Ícaro, Brueghel o velho

LIBERTAD! IGUALDAD! FRATERNIDAD!
You sullen pig of a man
you force me into the mud
with your stinking ash-cart!

Brother!
–if we were rich
we’d stick our chests out
and hold our heads high!

It is dreams that have destroyed us.

There is no more pride
in horses or in rein holding.
We sit hunched together brooding
our fate.

Well–
all things turn bitter in the end
whether you choose the right or
the left way
and–
dreams are not a bad thing.

Servidões, Herberto Helder

Texto escrito no dia 15 de Junho de 2013, poucos dias depois da saída deste penúltimo livro de Herberto Helder. A quente. Sem rede.

Servidões

 

Sem­pre houve morte na poe­sia dele, nunca tanta como em “Ser­vi­dões”. Em 10 pági­nas de inclas­si­fi­cá­vel prosa, a que se somam outras 98 com 73 poe­mas, escreve-se um homem e a sua morte.

As dez pági­nas de prosa, esses pas­sos em volta antes da con­vulsa cor­rida dos poe­mas, são insis­tente e desa­fi­a­do­ra­mente auto­bi­o­grá­fi­cas. E, não obs­tante, estão aquém e além da bio­gra­fia. “Ser­vi­dões”, o livro que Her­berto Hel­der publi­cou em Maio de 2013, dois anos antes da sua morte, começa na infân­cia, num relato de perda de ino­cên­cia que nos pre­para para a via-sacra de esta­ções em que o poeta encara, com natu­ra­li­dade, que a morte esteja agora, sobe­rana e apa­ren­te­mente sem pressa, a observá-lo. Morte fera e benigna, farta de saber que a presa não lhe fugirá. Que me lem­bre, só um resig­nado e estóico poema de Lar­kin, “Aubade”, nos tinha dado, da morte, esse tão sereno, certo e seguro olhar. Em Her­berto, como o car­teiro de Lar­kin, um arma­zém espera pelo corpo que há-de che­gar num saco um pouco maior do que o seu tamanho.

Ser­vi­dões” é uma auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia não for des­file de acon­te­ci­men­tos. Auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia puder ser a visu­a­li­za­ção e ver­ba­li­za­ção simul­tâ­nea do mundo e dos pro­ces­sos que um corpo usa para perceber, receber e rea­gir a esse mundo.

Na maior parte da arte con­tem­po­râ­nea o mundo é vazio. Se não o mundo, a repre­sen­ta­ção dele. O mundo da poe­sia – e da prosa – de Her­berto Hel­der é um mundo ple­tó­rico, cheio de ani­mais, medos e ale­grias pri­mi­ti­vas, as gran­des coro­las dos giras­sóis, basal­tos, mêns­truo e espumas.

Povo­a­dís­simo de coi­sas, ani­mais e pes­soas, “Ser­vi­dões”, como a “Poe­sia Toda” de mais de 50 anos que a pre­cede, é o livro de uma escrita à pro­cura da radi­cal ver­dade do humano e, como há muito tempo se dizia, da sua con­di­ção. No poema de aber­tura (ou se pre­fe­ri­rem na prosa de aber­tura) o poeta estende um porco sel­va­gem na mesa da cozi­nha, ani­mal que o poema logo reta­lha a cute­los e faca­lhões. Fecha­mos os olhos – na poe­sia de Her­berto Hel­der fecha­mos mui­tas vezes os olhos – e res­pi­ra­mos, abas das nari­nas bem aber­tas: há um odor a bar­bá­rie, um sau­doso odor a san­gue e bar­bá­rie em que nos reco­nhe­ce­mos e, por voca­ção ani­mal, nos revol­ve­mos. É um cheiro que vem da infân­cia, dessa nossa obs­cura, per­dida e funda infân­cia. Cheiro da cru­el­dade orgâ­nica de um miúdo que, sem nojo, mexe no que da vida é vis­ce­ral. Um cheiro de um entu­si­asmo des­con­tro­lado, o mesmo de uma “cri­ança de cabeça zoo­ló­gica” que des­co­bre a calei­dos­có­pica e ale­a­tó­ria magia.

É ape­nas um livro, pala­vras, a intrin­cada ari­dez da gra­má­tica, que usa explo­si­va­mente a orto­gra­fia que, agora, mangas-de-alpaca jul­gam pertencer-lhes. Só que, como desde “O Amor em Visita”, e como na melhor poe­sia que já se escre­veu, de Vil­lon a Rim­baud, de Rilke a René Char, de Yeats a Dylan Tho­mas, em “Ser­vi­dões”, a riqueza ver­bal, as sur­pre­sas semân­ti­cas, uma certa pro­di­ga­li­dade meta­fó­rica e meto­ní­mica, meta­bo­li­zam as emo­ções, rein­ven­tam e redi­men­si­o­nam o real. A pala­vra carne é mais do que a pala­vra carne e os ver­sos enchem-se de incon­ti­dos cinco litros de san­gue, dez metros de san­gue, de mães lou­cas que nunca dei­xa­ram de habi­tar a obra de Her­berto, de um orva­lho que pre­nun­cia a última manhã. A abe­ce­dá­ria poe­sia assalta o real, confundindo-se e não se con­fun­dindo com ele,.

Enquanto espera a noite, a amarga noite, que há-de vir e há-de des­fa­zer, a memó­ria con­ti­nua a fazer o seu tra­ba­lho e estende-se na cama a sau­dade da pequena puta dei­tada. E as pala­vras de Her­berto, que em pó, poeira, poa­lha ali­te­ram a morte, abrem-se à fêmea oferecendo-lhe outra, dife­rente, bila­bial ali­te­ra­ção: branca, brusca, brava, encar­nada. Só Sena e Drum­mond aflo­ra­ram assim, em abe­ce­dá­ria lín­gua por­tu­guesa, a carne tré­mula, essa carne em que “eu sei quanto depressa morro”.

Nos ver­sos ou na prosa de Her­berto Hel­der cami­nha­mos entre ritos mági­cos e bár­ba­ros. Como se toda a his­tó­ria do humano fosse um poema, “Ser­vi­dões” é o cálice de uma tra­di­ção. Um cálice de sacri­fí­cio san­grento e de êxtase, de uma longa insó­nia de tabu e incesto. Saí­mos de um tor­por antro­po­ló­gico. Os poe­mas de “Ser­vi­dões” con­tam his­tó­rias. Remo­tas e actu­ais. His­tó­rias ances­trais em que as árvo­res devo­ram cadá­ve­res ou a his­tó­ria de um poeta con­tem­po­râ­neo, órfão de Rim­baud, a quem ape­nas sobra a mise­ri­cór­dia de um tiro na cabeça. Há, houve sem­pre, uma África a insinuar-se na poe­sia de Her­berto. Neste seu livro, escuta-se a lenda afro-carnívora, a soli­dão majes­tá­tica do imbon­deiro na inter­mi­ná­vel estepe. Pressente-se o elo­gio de uma certa per­sis­tên­cia vege­tal e, com a escas­sez de um haiku, as folhas de uma welwits­chia escon­dem “no deserto entre as for­na­lhas” uma japo­nesa gota de orvalho.

Ser­vi­dões” é tam­bém um livro à pro­cura da radi­cal ver­dade do poema e do poeta. Poema e poeta sabem que dis­cor­rer sobre o mundo, sobre a sua ordem, é menos do que nomear. Esse conhe­ci­mento con­fere vozes dís­pa­res e ambas se escre­vem neste livro: uma leveza his­trió­nica, uma angús­tia monás­tica. Tal­vez a alma não exista, mas esse obs­curo fré­mito que nos chega a fazer pen­sar que a alma existe, está, menos do que nome­ado, na peque­nina frac­tura ou ferida que separa o gesto cómico do mes­tre Zen que tan­tas vezes é o poema, e a reli­gada e lúcida tor­rente ver­bal, “cor­dão de san­gue à volta do pes­coço”, que sufoca poema, poeta e leitor.

A escrita de Her­berto foi sem­pre devo­ra­dora de tudo, da carne, cama e mundo. Em “Ser­vi­dões” apodera-se dela, por vezes, uma sere­ni­dade romana. Escrevem-se mais deva­gar os poe­mas. Mas as anti­gas explo­sões, a ver­ti­gem ver­bal de “A Máquina Lírica” ou “Antro­po­fa­gias” regres­sam ainda, nuas, cruas, sexu­ais, lumi­no­sas, nos 32 ver­sos que, irmãos huma­nos que depois de mim vive­reis, invo­cam Vil­lon, ou quando, na página 97 e seguin­tes, tomado por uma dor faulk­ne­ri­ana, no mais orgás­tico e xamâ­nico momento deste livro, o poema se entrega a um con­solo de antes o inferno do que nada, para se cer­rar no mais belo post scrip­tum que já se ofe­re­ceu à lín­gua por­tu­guesa: “meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcan­çado.

Este é o poeta, o que deva­gar tomou o poema em suas mãos e, dando gra­ças, o repar­tiu dizendo: tomai, e lede todos, fazei isto em memó­ria de mim.

As duas metades de um corpo

Millay_

Quem cantou o Sexo Todo Poderoso foi Edna St. Vincent Millay. Cantou-o em verso e em público, na cama e fora da cama. A mãe dela, Cora, despachou um pai impertinente e, sozinha, criou Edna e as irmãs com hinos à natureza humana. Com a franqueza e sinceridade que nenhum ministro das finanças, nem mesmo o nosso heróico Centeno, há-de ter, Cora disse isto um dia: “Sou uma slut e criei as minhas filhas para serem umas sluts.” Ora bem, a semântica do português não faz justiça à gíria americana: slut está entre puta e vadia, termos moralizantes e depreciativos, que não honram o livre gosto do impreconceituoso amor desta mãe e filha, Cora e Edna, no começo do século XX, há cem anos.

Poeta amadíssima, como é raro acontecer a poetas, e logo mulheres, Edna era pequena, linda, duas destacadas colinas ao peito, um cabelo púrpura, e deslizava pelo mel do amor como hoje os louros adolescentes surfam as águas da Nazaré, em vertigem e a bater records. Dou um exemplo: Edmund Wilson, escritor, viril divulgador de Faulkner e Hemingway, de Rimbaud e T.S.Eliot, já tinha 25 anos e só uma ejaculação a ler um livro, o que o assustara e levara a consultar o médico, quando perdeu com ela a virgindade, assim descobrindo o esplendor e luz perpétua do sexo, do qual se tornou mais fanático do que eu pelo meu glorioso SLB.

 Edna deu a provar à língua de Wilson o delicado óbolo, logo lhe mostrando da moeda as duas faces. O escritor descobriu que, deitando-se com ele, Edna não deixava de se deitar com quem queria, em particular com o seu melhor amigo, outro poeta, John Peale Bishop, colega de universidade em Princeton, como ele soldado na I Grande Guerra. Terá havido estupefacção, como se chamava à surpresa em 1914, choro e ranger de dentes. Prefiro trazer aos meus leitores um momento de lânguida ternura.

Edna decidiu viajar para a Europa e despediu-se dos dois amados, a quem chamava “os meus meninos do coro do Inferno”. Com aquele mórbido gosto que todo o Casanova tem na ruptura, despediu-se deles no quarto. Deitou-se nos braços dos dois, oferecendo a Bishop o seu corpo da cintura para cima, a Wilson da cintura para baixo, pedindo que lhe prodigalizassem firmes gentilezas e a doce gota da cortesia, cada um devendo provar que tinha ficado com a melhor parte. Eis o que me parece ser um programa para um mundo melhor, pelo qual merecem erguer-se estandartes e sonhar amanhãs que cantam.

 Num dos seus mais belos poemas, Edna cantou essa amorosa dissolução: “Que lábios meus lábios beijaram, e onde, e porquê, / Já não sei, nem que braços repousaram / Sob a minha cabeça até amanhecer…” Procurava amantes muito jovens, cuidando que não se encontrassem à sua porta e rifando-os depois com magnanimidade. Chamava-lhes “frescos destroços de naufrágio” quando vinham uivar à sua janela. Muito gostando, para o resto da vida, de Wilson e de Bishop, sempres lhes reprovou que, por ela, não tivessem espatifado a sua amizade masculina.

Casou com um industrial holandês de café que amou e a amava com uma liberalidade que faz espécie a este nosso tempo de assexuada vigilância raivosa. Outro poeta, George Dillon, mais novo 14 anos, foi a sua última aventura. Traduziram juntos As Flores do Mal, de Baudelaire. Não invento, foi Edna que escreveu: beijar a boca de Dillon era tão macio como beijar o mamilo de uma rapariga. Mas Dillon fez o que só Edna podia fazer: rejeitou-a. Antes dos 40, Edna via desvanecer-se o seu prodigioso poder erótico. Nos últimos 20 anos de vida, morfina, álcool e drogas vieram dormir à sua cama.

E-Millay

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Jorge de Sena, minha guerra, minha paz

Ontem, a Cinemateca Portuguesa convidou-me para falar de Jorge de Sena, na sessão de inauguração do ciclo de cinema comemorativo do centenário de Jorge de Sena. Por ter sido eu, em 1987, o organizador de um livrinho, Jorge de Sena e o Cinema, que reunia os textos que o autor escreveu sobre filmes. Este ciclo da Cinemateca cruza-se com outro ciclo, o da comemoração do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen. Sena e Sofia tinham uma electiva afinidade e trocaram uma correspondência brilhante, lindíssima, reunida num livro de que eu sou o editor. É uma das mais belas correspondências da literatura portuguesa. Gosto muito das outras correspondências de sena que publiquei, com Gaspar Simões, Delfim Santos, Raul Leal e Eugénio de Andrade, mas há um lirismo, uma veemência, uma poética na Correspondência Sena-Sophia que, aposto, as letras portuguesas não voltarão a repetir. E agora o texto da minha intervenção, ontem, na Cinemateca. 

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Um dia, num dos seus textos, Jorge de Sena comparou a esmagadora e secular grandeza das sequóias com a risível aparência do arbusto a que chamamos pilriteiro. Pois bem, eu hoje, aqui, a falar-vos nesta sessão, sinto-me um pilriteiro. E fui ver se o daninho arbusto tinha outros nomes e tem. Chamam-lhe cambrulheiro, combroeiro, escalheiro, estrapoeiro. Nenhum destes nomes é muito motivador ou digno. Só me resta, na minha condição de pilriteiro ou estrapoeiro, pedir-vos desculpa. Vamos todos esquecer o arbusto e pôr os olhos na sequóia.

Agradeço ao Eng. José Manuel Costa, director da Cinemateca, e à Cinemateca, o convite que me dirigiu para eu estar presente nesta homenagem a Jorge de Sena. Quero dizer a Isabel de Sena que é uma honra partilhar este momento e que foi um prazer ter já editado três livros com ela, na sua condição de guardiã da obra do poeta, romancista e ensaísta. Toca-me também estar ao lado de Gastão Cruz, cuja Teoria da Fala marcou poeticamente o final da minha adolescência, isto para não falar da leitura obsessiva, em 73, dos textos da Poesia Portuguesa Hoje, seu pequeno livro de ensaios. E saúdo a Antónia Fonseca, se bem sei relações públicas da Cinemateca, que faz o favor de formar comigo um casal heterossexual, por razões que adiante se verão.

Em 1984 ou 1985, já não sei bem, João Bénard da Costa pespegou-me com uma catrefa de caixotes contendo uns bons milhares de páginas dactilografadas, se é que alguém aqui ainda sabe o que é uma página dactilografada. Vinham com agrafos, alguns já ferrugentos, e estavam riscadas a lápis azul e lápis vermelho da censura, com muitas notas manuscritas. Era o acervo do JUBA, Jardim Universitário de Belas Artes, uma organização que promovia um evento, as terças-feiras clássicas, nas quais uma personalidade da cultura portuguesa falava sobre um filme de qualidade.

A ordem era que eu tirasse daquele imbróglio um conjunto de publicações que permitissem às gerações futuras saber que e como a intelectualidade dos anos 50 se relacionou com o cinema. Estavam ali textos de Vitorino Nemésio, Delfim Santos, Vieira de Almeida entre outros.

Confesso, eu só tive olhos para a sequóia chamada Jorge de Sena. Os textos dele constituíam um corpo literário, crítico e teórico coerente, imagem da sua cinefilia, mas também um quadro comparativo, tão ao gosto de Sena, da relação daqueles filmes com o seu tempo social e político e com as outras artes, a literatura e o teatro, umas vezes as artes desse tempo, na maior parte das vezes recorrendo a ousados paralelos com as grandes figuras de um passado que nem poderia adivinhar que existiria cinema, de Caldéron a Shakespeare.

E lá fui eu, com a minha arrogância de pilriteiro, dizer a João Bénard o que ele queria ouvir: devíamos publicar os textos por autores e o primeiro livro tinha de ser o desse pasmoso e inenarrável Jorge de Sena. O João Bénard levantou-me ao colo, deu-me o nihil obstat e mandou-me falar a quem de direito, à sequóia mãe, Mécia de Sena.

Uns dias depois, para resumirmos e acelerarmos, eu estava a bater à porta do 939 Randolph Road, Santa Barbara California 93111-1031 USA. A porta abriu-se e eu logo pus um pé na casinha japonesa, como costumo dizer tantos eram os vidros, paredes e janela a abrirem-se para o exterior, na bela sala forrada a livros e discos onde vivera Jorge de Sena.

E descobri uma mulher prodigiosa, um dragão a defender o seu castelo, uma torrencial vontade de conversar, um conhecimento avassalador do meio literário português, capaz de falar de tudo isso na sua cozinha americana e armar um jantar para 10 pessoas, enquanto divagava de Óscar Lopes a Eduardo Lourenço, de um ciclo de cinema de Taiwan a uma ópera de Verdi.

 A Dona Mécia de Sena devo muita coisa, ter-me levado pela mão a fazer este livro com os textos de cinema de Sena, ter-me instado a escrever a notinha que o antecede, e ter-me proposto outros livros de Sena que depois publiquei.

Mas deixem que recorde com ternura, ao meu estilo pilriteiro, o piquenique que ela e Maria de Lurdes Belchior me prepararam e que com elas partilhei numa das missões espanholas que pontuam a estrada de Santa Barbara a São Francisco. Quem comeu na América um piquenique com ovos verdes e bolinhos de bacalhau?

E agora tenho de entrar por caminhos mais confessionais. A minha entusiástica escolha dos textos de Jorge de Sena para o meu primeiro livro das terças feiras clássicas tinha um perigoso antecedente. No meu périplo seniano há um episódio erótico que, por fim, desvelo.

A 10 de Junho de 1977, Jorge de Sena fez um discurso na Guarda. No seu estilo arrebatado defendeu a imagem de um Camões de amor e tolerância, um Camões que, “tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências se fosse em vida o nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou”, para glória máxima da língua que falamos.

Jorge de Sena lançava ao vento estas palavras e ouviam-nas os meus ouvidos e ouviam-nas os ouvidos da Antónia Fonseca. E ali estávamos os dois, num apartamento da Costa da Caparica, olhos semicerrados ao mar de Junho, cada vez mais de mão na mão, a contar dedos de duas mãos, e a dar dez, ainda longe desse poema de Sena em que há um dedo a mais.

Já levamos 42 anos de evidências, metamorfoses e exorcismos. Como Sena também podemos dizer, Conheço o sal que resta em minha mãos, / como nas praias o perfume fica / quando a maré desceu e se retrai.

Como editor, que nunca esperei ser, nem nesse dia 10 de Junho, de Sena publiquei inéditos, correspondências, poesia, conto e novela, um total de oito livros, já três com Isabel de Sena.

E a imagem da sequóia não me sai da cabeça. Sena é uma floresta de sequóias. A sua poesia é grande na poesia portuguesa. Poesia discursiva, poesia de ideias, poesia que se combina com outras artes; poesia que nunca abdicando da inteligência não deixa de ser lírica, pungente e emotiva.

A sua ficção, e em particular Os Sinais de Fogo, tem um fulgor narrativo raro, e uma linguagem que nos lava do sarro e ceroulas de tanta prosa portuguesa.

Sena escreveu sobre Marx, Maquiavel, sobre Rimbaud, Cavafy , Rilke e escreveu até uma admirável história da literatura inglesa. Mas é quando escreve sobre a literatura portuguesa, sobre Camilo ou Fialho, Eça ou Garrett, que percebemos a sequóia que tanto hoje aqui evoquei.

Nesses ensaios, os Estudos de Literatura Portuguesa, reunidos em três volumes, o brilhante comparativista que ele é, tira os nossos escritores do nosso gulag literário e obriga-nos a compará-los com Balzacs e Flauberts, com Dickens ou Pushkins, Keats ou Leopardis, cruzando o nosso tempo com o tempo social, tecnológico, económico e político das Franças ou das Américas, das Rússias ou das Espanhas, das Inglaterras ou das Alemanhas, por mais que essa comparação nos encandeie, nos cegue ou nos deslumbre.

Esses seus ensaios, em particular o soberbo Uma Canção de Camões, recriaram Camões, libertando-o, para indignação de muitos, de um eruditismo bacoco e de um nacionalismo serôdio. E recriaram ainda Fernando Pessoa, dando-lhe nos dois volumes de Fernando Pessoa e Companhia Heterónima, o dispositivo conceptual e interpretativo que põe Pessoa na história da literatura mundial.

Este é o Jorge de Sena para que levanto os olhos. É uma sequóia, mas não nos deve assustar. Devemos é sentar-nos, viver, amar, ler e adormecermos encostados ao seu vasto tronco. Eu acho que era isso exactamente o que Mécia de Sena me quis dizer quando me ofereceu o piquenique nas missões espanholas de El Camino Real.

Ou a literatura, os livros, os poemas, contos e romances nos entram pela vida e pelo corpo dentro ou não são sequóias. Jorge de Sena defendeu e louvou as conexões com a cultura, com a história, com a linguagem. Com a vida também e mais do que nenhuma outra, que é da vida que colhemos uma alegria imensa.

Ou como ele disse neste poema, provavelmente dedicado à Isabel:

Às vezes, com minha filha no chão junto de mim,
fecho os olhos numa acção de graças…

Mas logo ela galreia;
nem isso me consente.

E regresso um pouco triste a uma alegria imensa.

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Este é o outro livro que toca a mais sensível corda do meu coração. Publiquei, por imensa gentileza de Isabel de Sena, O Físico Prodigioso. Nesta edição a ouro.

A eternidade nunca mais acaba

Rimbaud
Arthur Rimbaud

Elle est retrouvée.
Quoi ? — L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.

Estes quatro versos pertencem a um poema, L’eternité, de Jean-Arthur Rimbaud. Escreveu-o em Maio de 1872. Dois anos depois, retocou-o, mudando para mêlée o que antes dissera allée.

A transcendência que exala destes versos diminuirá se soubermos que a razão prosaica que os inspirou foi a paixão carnal do jovem Rimbaud pelo mais maduro Verlaine, outro poeta, a quem queria convencer que saísse de casa, abandonando a jovem mulher, para vir viver com ele?

Um mês depois, a verdade é que Verlaine deixou Mathilde. Mêlée onde antes estava allée.

Rimbaud morreu cedo. Viveu a mais paradoxal das vidas. Foi o breve e indelével relâmpago que sabemos na poesia francesa. Explorou-se a si mesmo ao limite, num je est un autre físico que quase ofusca o seu motto poético: fugas sucessivas de casa, viagens intranquilas e extenuantes por toda a Europa, a experiência da miséria, a fadiga do vagabundo.

Amante de Verlaine (que depois o baleou e se converteu ao catolicismo), Rimbaud, por delicadeza ou incandescente desejo de aventura, deixou tudo – deixou Verlaine, deixou a poesia, deixou a França – e partiu aos 22 anos para a Etiópia onde (na apócrifa biografia de que eu gosto) traficou escravas, guardando algumas delas como amantes. As biografias mais rigorosas confirmam as amantes, mas dizem que era de armas e café o tráfico a que se dedicava, na expectativa de enriquecer de vez (com a mesma poética ganância de qualquer Madoff).

Morreu jovem, aos 37 anos, por muito o amarem os deuses ou por, quem sabe, já não terem paciência para o aturarem. “Par delicatesse j’ai perdu ma vie”, foi frase que deixou para que lha escrevessem no epitáfio.

FantinLatour
Sentado, Verlaine é o 1º à esq, Rimbaud ao seu lado, também sentado. Quadro de Fantin-Latour.

 

Para a boca, só de Paris

francois-villon

De François Villon, poeta francês do século XV, não há selfies e sabe-se tão pouco. Orfão de pai, nasceu estava a cleresia a atirar a milagrosa Joana d’Arc para a fogueira. Eram maus tempos para recalcitrantes e um patrono generoso enfiou Villon na Faculdade de Paris, com o objectivo salutar de que ele, no futuro, fosse dos que queimam e não dos que ardem.

Já o conformado Villon encarreirava no consolo da vida académica, eis que o rei Charles VII, sabe-se lá se por cativação de Centeno ou desígnio de alguma troika, fecha a faculdade. A Villon deu-lhe para a boémia e no meio dela mata um padre. Motivo: saias. Umas saias que a grande História omite, saias que, ó irritante, nunca levantaremos, mas cuja fresca intimidade o jovem François e o ardiloso padre terão, sem suspeita, partilhado.

Villon, em fuga e de lábio rachado, tinha 24 anos, metade da esperança de vida de então. Mas o perdão real era mais fácil do que hoje o indulto de um Putin ou Trump. O rei perdoou-lhe no ano em que reabilitou a heróica Joana d’Arc, o mesmo ano em que os navegadores portugueses (que o mais certo era Villon olimpicamente ignorar) chegavam ao Golfo da Guiné, o que hoje, por igual ignorância e muito mais má-fé, tanto nos criticam. O perdoado Villon regressa a Paris, Natal de 1456, e logo assalta o Collège de Navarre, roubando um cofre recheado de ouro, o que lhe assegurou um fatídico futuro de crime e infâmia.

Do primeiro crime até à sua morte putativa (se algum dia morreu e não se limitou a desaparecer para garantir a eternidade), escorreram oito anos. Oito anos que a lenda preenche com um sortido de roubos e violência que culminam na sua condenação à morte por enforcamento. Estes oito anos horribilis, de 1455 a 1463, foram os anos que, começando na “Balada das Contra Verdades” e quase terminando justamente na “Balada dos Enforcados”, fizeram de François Villon o glorioso, maior e mais fulgurante poeta desse final de Idade Média, forjando, a carne e sangue, o mito do poeta maldito, o primeiro de uma raça a que Rimbaud, o nosso Luiz Pacheco, Bukowski emprestaram iconoclastia, por vezes abjecção.

Num tempo de penúria e epidemias em que os livros começavam a ser impressos em tipografia, o fugitivo Villon escreveu alguns dos poemas mais comoventes que ler se podem. Digo eu, que o li no fim dos meus exaltados 20 anos, no cenário certo, a Angola de 1975 a ferro e fogo, em livrinho comprado na ABC de Luanda.

Nos poemas de Villon, batemos de frente, boca contra boca, com o infecto esplendor do humano: o crime, a dissolução moral, um humor que roça a negra sordidez, uma angustiada e poética consciência do transitório e efémero da vida, do seu sentido, do seu destino. E, sobre ou sob tudo, as mulheres:

Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveria dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
– Para a boca, só de Paris”

Foram as mulheres de Villon, “minha menina do nariz torto”, ou essas “damas do tempo longínquo” que me ensinaram a saudade dos amores do passado, ainda eu de amor mal soletrava o presente: “ah, onde estão as neves de antigamente”. Ou ainda, e desta maneira de que fiquei fiel devoto: “corpo feminino, que é tão tenro, Delicado, suave e precioso”.

 Iam enforcar Villon e ele escreveu, então, o mais angustiante epitáfio da literatura. Por piedade comutaram-lhe a pena. De Villon, criminoso, infame e poeta, nada mais se soube. Tinha 31 anos e desapareceu. Ficaram, imortais, os versos. E as saudades do poeta maldito.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios