Amor estendido entre a luz e a escuridão

3D Book Uma Pedra sobre a boca

A violência que perpassa nestes poemas! A poesia de João Moita não nos põe só uma pedra sobre a boca. Esta é uma poesia que drena gangrenas, incuba miasmas. Eis um novo livro de poemas e vejam que nele regressa a voz mais íntima e física que a tradição poética universal nos soube dar.

João Moita, com a publicação de “Uma Pedra sobre a Boca”, oferece-nos a sua poesia toda: os primeiros livros, agora refundidos, todos os seus últimos poemas. Esta é uma poesia em que “os cães ladram com o bafo quente / das entranhas…” Repito, esta é uma poesia que murmura violência, que se esconde da sua própria, íntima e funda violência, como o mastim que dorme com as marcas dos nossos dentes sobre o dorso. E é uma poesia dolorosa, liturgicamente sexualizada, de amor estendido entre a luz e a escuridão.

João Moita nasceu em Alpiarça e tem 35 anos. Traduziu outros poetas, Saint-John Perse, Rimbaud, Whitman, Gamoneda, mas neste “Uma Pedra sobre a Boca” quer traduzir-se a si mesmo. Traduz-se em silêncio, sangue e volição. Eis a poesia de um falso monge, com o corpo a arder de vontade. João Mota parece querer privar-se do mundo, remeter-se à sua fome, caminhar com um anjo ferido pelos passos da escrita. Essa é a sua errância, uma errância que reconhece e quer reconciliar-se com a beleza ázima do mundo. Na sua céptica e escassa alegria confessa;

«Pôs-se uma manhã limpa como o escárnio,
estou prestes a ser feliz.»

“Uma Pedra sobre a Boca”, de João Moita, chegou hoje às livrarias portuguesas. Livro e autor juntam-se a uma colecção inaugurada por Eugénia de Vasconcellos (O Quotidiano a Secar em Verso e Sete Degraus sempre a Descer) e continuada pelo romeno Dinu Flamand (Sombras e Falésias) e por Tchiangui Cruz (Guardados numa Gaveta Imaginária).

A ler, com urgência. A tanto nos incita este poema que aqui vos deixo:

«Estou curado da minha juventude. Uma longa agonia precedeu uma repentina
convalescença. Receitaram-me doses cavalares de cinismo, fui aconselhado a
tomar exemplo nos cobardes, a aproveitar o estatismo da inquietação, a modorra
da desistência, a ebriedade do dever. Nada disso foi preciso. Sou autodidacta da
madurez: caio da árvore pelo meu próprio pé, e a árvore abate-se sobre mim.»

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A inenarrável beleza de Orpheu

Sou franco, só sei que escrevi esta prosa a roçar o indecente em 2015. Mas não sei porquê ou para quê. E nem sei se a publiquei em lugar algum. Publico-a, agora, por falar de Notre Dame de Paris. Ou melhor, de Nossa Senhora de Paris. Nem é bem o que estarão a pensar e espero que ninguém se ofenda: PIM e PUM.

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Orpheu

O que é ou foi “Orpheu”? É preciso esclarecer o pessoal que frequenta cervejarias, é preciso esclarecer o português que anda indeciso entre o Uber e o táxi canónico. “Orpheu” era uma revista de poesia. Era uma revista e lá dentro, nas páginas (por de páginas e de papel se fazer uma revista, que é como um livro, mas mais molinho), havia textos, coisas escritas. É bom dizer isto porque muita incauta gente, apanhada distraída, pode pensar que “Orpheu” era uma ONG, uma coisa parecida com a “Abraço”, ou um partido político desasado. Mas não, “Orpheu” não é o CDS ou o PCP, que seriam, talvez, os partidos políticos que os portugueses conhecem mais próximos de um ideal poético. E, no caso de “Orpheu” ser poesia, então o Bloco de Esquerda – PUM – é a coisa mais anti-poética que pode haver: PIM! PAM! PUM!

Salazar e Cunhal foram, no século XX, os políticos mais próximos de um ideal poético. Porque, à poesia, quando lhe dá para a puta de um ideal, logo descamba para o totalitário, para palácios de inverno e noites de cristal. Mário Soares e Francisco Sá Carneiro foram os únicos políticos que tivemos que podiam ser esparramados na capa de um romance. O romance são 200 ou 800, 400 ou mil páginas de gente cheia de dúvidas, gente persistente e estraçalhada de pecadilhos, mas com uma humanidade que enternece, homens e mulheres fiéis até no ledo, doce e amoroso engano. Mas isto não interessa nada, porque “Orpheu” não é um romance, por muito que em prosa sejam certos poemas de “Orpheu”.

É preciso que as pessoas tenham ideia de que a poesia são palavras em fogo e que palavras em fogo não são, necessariamente, a coisa mais próxima da verdade. No romance, as palavras são mais brandas e macias, e pode muito bem um brutal substantivo deixar-se ficar de beicinho caído por um subtil adjectivo. Para já não falar de advérbios ou de um pretérito mais que perfeito. E já me perdi, e já reconheço o engano, como o ouriço-cacheiro, que dizia “Qualquer um se pode enganar”, descendo, desalentado, da escova do cabelo. Sim, quando não se fode é melhor sair de cima.

Gostava também de dizer que “Orpheu” é uma coisa da língua para fora. A língua serve para tudo. Para andar por aí – ai, ai, a fazer queixas, ui, ui, a lamber botas! Falada, é portuguesa, a língua de milhões de uma malta de carne e osso que na sua esmagadora maioria nem é portuguesa. “Orpheu” para ser portuguesa foi também brasileira, porque nada é português se não for ao mesmo tempo outra coisa.

“Orpheu” nasceu em Portugal ainda havia um czar na Rússia. Nessa altura, bem esticada e indecente, pusessem os poetas de fora uma língua portuguesa, uma língua russa ou francesa, queriam e não queriam czares. Os poetas nunca sabem o que querem e isso, às vezes, pode ser mesmo muito chato. O poeta sonha com um czar onde o não haja e odeia o czar que houver. Viva o Czar, puta que pariu o Czar. O poeta é tão contraditório que tropeça nos próprios sapatos e só não tropeça nos atacadores porque o poeta de “Orpheu” não estava autorizado a usar atacadores para não se suicidar.

O poeta de “Orpheu” suicidou-se, aristocrático, em Paris. Enterrou-se no seu esoterismo e exilou-se nos salões sem janelas de uma beleza visceral, mental e palpitante, vestida a caprichos de cetim, que trazia, na cabeça, um roxo capacete de ferro.

“Orpheu” tinha sexo, o de Nossa Senhora de Paris, cheirinho a maresia. Cai-nos por ela, agora, um braço e, do lado da janela, velam pela Senhora três donzelas. Mas isto não é para meninos, nem meninas. Explodem tumultos nas ruas, assaltam-se as padarias de 1915 por causa do aumento do preço do pão e Pessoa & Campos, Mário Sá-Carneiro e Almada põem “Orpheu” de saias arregaçadas, a lavar as pernas da poeira das estradas. Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, ou não fosse “Orpheu” a nossa Ode Triunfal.

“Orpheu” acabou, “Orpheu” continua, “Orpheu” está adiado sine dia. E também eu sou dessa maravilhosa gente humana que vive com os cães. E bem vos digo: a poesia não faz sentido nenhum e é isso que faz a inenarrável, pasmosa beleza de “Orpheu”. O resto, as ceroulas de malha dos partidos, concubinos e ciganões, as munições de manguitos dos telejornais… Ora PIM, ora PUM.

A poética solidão de Renato Sanches

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Alguma da melhor poesia contemporânea sai dos pés de geniais e jovens futebolistas. Ainda agora, a ver o Real Madrid-Ajax, quando o dinamarquês Lasse Schone marcou de livre o quarto golo da equipa de Amsterdão, um livro batido não sei bem se em vólei, se em pontapé de rugby, numa longa, livre, calma e ininterceptável viagem da bola sobre o guarda-redes Courtois, só me vinha à cabeça este verso de Ruy Belo, «um ramo oscila ao vento é a vida que começa», do longuíssimo poema que leva por título A Margem da Alegria.

Mas se pouco me surpreendem os admiráveis versos que os pés de João Félix e de Florentino Gomes ou as cabeças de Ferro ou Ruben Dias criam, o que me tem surpreendido é a nova qualidade poética que perpassa pela linguagem de quem saiu da academia do Benfica. Há dias, o treinador Bruno Lage, com elegância metonímica,  alterando o sentido natural dos termos, explicou o seu êxito recorrendo ao uso do efeito em vez da causa, agradecendo aos seus jogadores por fazerem dele o treinador que estava a começar a ser. Agora, Renato Sanches, elaborando sobre um conceito tão abstracto como o de decepeção, isolou o momento mais doloroso e íntimo da sua carreira, lesionado em Swansea, dizendo, como se possuído de um espírito de Herberto Helder, apenas isto:

«… all of a sudden I was out for months, sitting alone in an apartment in Swansea watching it rain all day.» Que é como diz «Fiquei de fora meses, num apartamento de Swansea, sentado a ver a chuva cair, sozinho, o dia inteiro.»

Há uma linha de um conto, n’ Os Passos em Volta, que recordo: «Choveu sempre. Sentíamos a chuva sobre a terra inteira. Éramos invencíveis.» Herberto, perdão, Renato, deixa-me dizer-te uma coisa, deixa que chova em Swansea, deixa que caia toda a chuva de Dezembro, «lenta, patética»: há em ti uma poesia que te torna invencível. Tu vais triunfar.

do not go gentle into that good night

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A certas horas da noite a morte seduz e assusta-nos. Mas há convites a que não se pode ceder sem uma boa luta. Mesmo que o sonoro convite seja dito em “g” de gentle, consoante que o meu Aurélio diz ser fricativa palatoalveolar quando precede a vogal “e”, como é o caso neste poema de Dylan Thomas.

Gosto do ritmo, das rimas e do trovão de érres que se repete em  “Rage, rage against the dying of the light”.

Entre a doçura e a fúria, Thomas terá escrito este poema, inundado de vogais abertas, quando o pai adoeceu gravemente. Só o publicou depois dele ter morrido.

Vale a pena ouvi-lo na pessoalíssima voz (tão teatral) do poeta galês.

 

o mundo já é de fusão, mestiço, mulato

O Velho é meu kamba. Apresentei-o aqui e ele presenteou-nos com prosa a preceito. Hoje, nestas voltas de rescaldo natalício, encontrei esta prosa, que escrevi e li na apresentação do livro dele, Amor(es) em Lualis. Aqui fica, nesta Página Negra, para memória futura.

AMORESEMLUA

O Fernando Machado Antunes, figura sereníssima e lúcida, que, nos tempos imemoriais de Luanda, eu e todos conhecíamos pelo carinhoso nome de Velho, teve um momento fracativo e, nesse momento fracativo, convidou-me para apresentar este seu livro de poemas, “Amores em Lualis”.

Eu bem disse ao Fernando que a minha reputação não é famosa e a minha experiência a apresentar livros de poemas é nula. Mas, agora que os dados estão lançados e a maka está instalada, vamos ter de superar a difícil situação e, no fim, peço que perdoem ao Velho, porque a culpa do que correr mal é só minha. Vamos então, virar a página e entrar nos finalmente deste livro.

A verdade é que, aberto o livro e passada a dedicatória, o leitor de “Amores em Lualis” encontra uma introdução. É só uma página, mas nessa singela página de introdução, o leitor encontra, e eu encontrei também, matéria declarativa em que logo ficamos a saber ao que o autor vem e ao que o leitor vai.

Fernando Machado Antunes declara, assertivo, que a sua vocação é narrativa – ele quer e vai contar-nos estórias. Percebemos que nessas estórias está uma vida inteira – a vida dele, a vida de poeta Fernando Machado Antunes, do poeta que é só o alter ego do meu amigo de Luanda e Lisboa, a quem todos chamamos Velho.

“Amores em Lualis” é, portanto, um livro de poemas, um livro de 60 poemas em que se espelha e se conta uma biografia. Como não vos quero induzir em erro, ao contrário do que possa ter-vos até agora sugerido, tenho de voz dizer que essa biografia não é romanesca. Ou seja, não conta, de cabo a rabo, os episódios que aconteceram. Neste livro, está uma biografia simbólica: superamos os incidentes que a espuma dos dias levou e ficamos só, nos versos do Fernando, com a essência.

Explico-me. Há lugares, mas o que neste seu livro o Fernando conserva e nos dá é o perfume dos lugares. Há acções de infância, adolescência e dessa idade adulta que já quase só é idade de memória, mas mais do que as acções o que o poeta retém é o estado de espírito, é a alma dessas acções.

Vamos então à biografia simbólica que “Amores em Lualis” nos conta. E, no princípio, vamos quase descobrir o poeta de bibe. Fernando Machado Antunes foi menino e é esse menino que primeiro nos aparece. Em seis linhas de prosa poética, Fernando faz o preâmbulo da sua meninice. Logo ali, nessas seis linhas, o poeta nos diz e mostra qual é a sua língua portuguesa. A língua portuguesa do Fernando Machado Antunes é, para minha profunda alegria, uma língua portuguesa inventiva, branca e negra, uma língua que vai do alcatrão ao musseque, uma língua que tem consciência da secular tradição de onde vem, mas que se abre, abraça e beija a novidade dos trópicos, a inventada palavra angolana.

O poeta Fernando Machado Antunes que me desculpe, mas eu sabia que aqui, na linguagem, o Velho, o meu amigo Velho ia impor a sua marca. Ao ler, como leio, nessa belíssima página 9 esta expressão: “Quando barulhávamos na ingenuidade do início do caminho”, o meu cérebro voltou a ser o atleta que era em Luanda e deu um enorme salto, à Nelson Évora.

Eh pá, Velho, essa palavra “barulhávamos” não existe, meu! Ou existe? Essa inventada palavra, palavra de candengues que brincam com a linguagem, se não existia, merece existir. É visual como um ideograma chinês, é sonora como tudo o que é infantil tem de ser sonoro.

“Barulhávamos” sim. Basta dizer “barulhávamos” e sabemos que estamos no recreio de uma escola com miúdos aos gritos, a correr e a jogar à bola – a bulhar, a fazer barulho, a baralhar o mundo. Às vezes é preciso uma palavra completamente nova para dizer com exactidão uma realidade que as velhas palavras já não conseguem descrever e nomear.

São muitas as palavras novas do poeta de “Amores em Lualis”. Há descompromissos, há quitandeiras goiabando-se no pregão. Goiabando é um gerúndio que traz um frutado perfume à nossa língua. E a língua portuguesa só pode agradecer essa ecologia, esse doce sabor africano.

Por muito mal que isto esteja a correr, devo dizer em minha defesa, que já consegui dizer duas coisas muito sinceras: em primeiro lugar que este livro é uma biografia simbólica, uma espécie de canção em que só se ouve a música instrumental, uma cavatina em que o cantor se reserva ao silêncio. E acabei agora de dizer que este livro inventa palavras, oferece novas palavras sonoras, perfumadas e frutadas à velha língua do nosso velho Camões.

Mas vamos em frente que o miúdo Fernando à página 17 já é um adolescente. Como nos aconteceu a todos, também o poeta adolescente descobre o desejo e o desejo do desejo. São 6 poemas em que o “eu” domina. O “eu”, diz ele, desliza por entre as trepadeiras do vento e veste-se de ternura. Em 6 poemas, o “eu” do poeta descobre as meninas, descobre-as de coração na garganta e confessa que tem vontade de lhes cerzir o corpo de veludo.  Quem não teve?!

São poemas de segredos adolescentes e de murmúrios adolescentes. Aviso já os leitores que tenham a minha provecta idade que esses poemas nos causam uma avassaladora saudade. Quiçá mesmo uma dolorosa saudade. A consciência de que não voltaremos a ter esse genuíno, ingénuo, inocente e vital encantamento, bate forte dentro de nós. A mim bateu! Bate cá em cima e lá em baixo e dói bué, meu.

Mas por falar em consciência, peço-vos que abram o livro na página 22 e leiam o poema que começa com este verso: “Jurámos passear o mundo…” Poema de adolescência também, é o primeiro poema em que o Fernando nos dá um sinal da sua consciência do mundo e eu acho muito curioso que ele o faça, já não usando o “eu” protagonista dos outros poemas adolescentes, mas sim dando a palavra a um “nós” que talvez seja o “nós” de um par amoroso, mas também pode ser o “nós” de um grupo, de um grupo de amigos que partilham o mesmo ideal, o mesmo sonho. E leio:

Jurámos desalgemar a inocência
libertar o verso e o silêncio
beijar o pôr-do-sol
nas nuvens.
Penugens
de asas por voar.

         Se as asas do poeta aqui ainda são de penugem, a verdade é que já estão firmes à página 25, quando ele nos apresenta ao tempo de entrada na idade adulta, período a que ele chama “Pelos tempos e contratempos dos amores e das paixões”. Os poemas desse ciclo são poemas de fruição, os mais físicos de todo o livro, carnais, ao ponto de o poeta evocar anoiteceres que gemiam melodia. E leio-vos, para não estarem a pensar que vos minto:

Fizemos anoitecer
gemendo melodia
de acontecer.
E acontecia
o que um e outro
queria…

         “Amor casado a dois” é o conjunto de poemas que se segue. Conta-nos a que, hoje em dia, é a meu ver a mais subversiva das experiências, a do amor casado, legítimo, o amor da rotina e repetição infindável dos dias. Fernando Machado Antunes canta o casamento como uma viagem e um bom porto. Mas é com ternura e lucidez, com um estoicismo romano, que ele identifica também os perigos, o risco de uma sonolenta banalidade:

Sei, meu amor, que me inquietam os dias
ficando palavras por dizer
e que das tranquilas sonolências das poesias
não nascem melodias
poéticas
de amor e bemdizer…

Sei meu amor, que me desassossegam as horas
ficando gestos por aparecer
e que de olhos perdidos em lonjuras
não nascem auroras

         É já um poeta em plena maturidade, seguro da sua linguagem, seguro dos seus amores, seguro da sua visão do mundo, que depois vai ao reencontro do seu passado. Primeiro ao encontro dos seus amigos, depois em revisitação a Luanda, Coimbra e Lisboa, esses lugares chave da sua biografia. O poeta entra, como ele mesmo confessa, “nos mambos da amizade”. Amizade a pessoas que vêm com mãos de dar, reconhecimento das ruas de Luanda, “lugar da minha vida”, “terra de cheiros, tons e sons e chão”, Luanda mil vezes cantada, mil vezes traída e Lisboa, cidade “toda menina, toda moça”.

         O poeta Fernando Machado Antunes tudo isto canta, poética e sinceramente. Mas, de repente, o Velho, o meu amigo Velho dos tempos imemoriais de Luanda, volta a tomar conta deste seu primeiro livro de poemas. E faz irromper a utopia. O mundo que viveu é tão rico que não o quer perder. Reinventa, por isso, esse mundo de memórias, esse mundo em que sonhar a invenção de um mundo novo fazia sentido e era permitido. E surge o ciclo de poemas que encerra o livro. Chama-se “Em Lualis”. Em cinco poemas e uma coda, o poeta, que já para a infância e adolescência inventara palavras novas, inventa agora uma cidade virtual, uma cidade utópica, cidade mestiça, fusão lindamente mulata de Luanda e Lisboa. 

Leio-vos uma estrofe:

Queria imaginar uma avenida
de porto a porto, mestiça de voar
mil desejos e um olhar
vinda dos caminhos de ontem
aos amanhãs da vida…

         Será ingénuo o desejo de Fernando Machado Antunes? Nem é preciso ser muito céptico para se dizer que sim, que a vida não é assim, que isto é conversa de poeta e que essa cidade nunca há-de existir. Se querem que vos diga, não estou tão certo. Existe o que existe nas nossas cabeças e até eu, de vez em quando, já vejo essas ruas mestiças, já na minha pituitária se cruzam cheiros, regressam ao meu palato o sabor nostálgico da paracuca ou do calulu.

Fecho este “Amores em Lualis” com a quase certeza de que este livro e o seu autor estão certos. Não há vencedores, nem vencidos: no mundo que o Velho, poeta de Lualis, quer, cai champagne dos céus.

E o mundo vai dar-lhe razão. O mundo que está à nossa frente ou é um mundo de amores ou não será mundo. O mundo que está à nossa frente ou é de fusão, mestiço, mulato, ou não será mundo. Obrigado, Velho, pela lição.

Meus Kambas: o Velho

Meus Kambas é uma varanda pequenina, com porta para a cozinha, que eu arranjei aqui, na Página Negra. Todas as semanas, ou mais ou menos, conforme os amigos apareçam, virá um amigo que eu convide sentar-se à trémula mesa dessa varanda, numa das cadeiras (na outra sento-me eu), para petiscarmos o que seja, uma alheira de caça que o forno faça suar, um queijinho de Serpa ou um que o meu cunhado me traga de Pinhel. Uma taça de tinto a riscar liquidamente a linha de horizonte.

Velho com gato

Já convidei vários amigos, eis que chega o primeiro. Fernando Jorge Machado Antunes será o que ele muito bem queira e o que, numa vida rica e cheia, construiu. Para mim é só o Velho, nome de guerra com que e pelo qual o conheci, naqueles anos de brasa que foram os anos da dipanda. Somos de Luanda, se ser de Luanda foi sonhar uma Nação, um Povo que soltasse algemas. O Velho sonhou muito e sonhou alto: deu o corpo ao sonho. Tanto que podia até granada ter sido seu caixão. Há gente assim, que poderia mesmo ter morrido em Angola para não morresse nunca em Angola.

Hoje, o sonho transformado em poesia, autor de Amores em LuaLis, o Velho, meu kamba, no seu modo descalço e caluanda, deambula pelas palavras, o amor de Luanda, inexclusivo, a amar tanto Lisboa. Pedi-lhe que escrevesse um texto e o viesse aqui conversar, a esta fragilíssima mesa da Palavra Negra. Eis o que ele nos quis dizer.

Fernando

LISBOA, ESTA MENINA JÁ MOÇA
Fernando Jorge Machado Antunes ( “Velho” )  

De uma forma empírica, avessa à filosofice da definição, pode-se dizer que uma cidade é cosmopolita, ou caminhará para tal, quando transcende a(s) sua(s) qualidade(s)  de dentro e se abre ao diferente e aos diferentes de fora. Quando passa a ser uma cidade do mundo, maior ou menor, mega ou a atirar mais para o mini. Não se preocupem, nem sintam comichões com desejos de precisão filosófica da definição. Que eu também não.

Escorrendo apenas pelo “lado bom da coisa” – que é sempre “coisa boa” – digamos, então, que  Lisboa abriu-se ao cosmos, fechada aos ismos dos tempos perigosos que correm. Beneficiou, é certo, das arestas quebradas e dos alicerces roídos de outros lugares, flagelados que foram pelos ventos semeados pelos que querem caos e não sossego.

E aproveitou. É a vida… Chegou a sua vez! Tocou os sinos, sorriu, convidou para comer e beber, que a sua comida só do cheiro enfeitiça o visitante, ajudando o bom vinho à degustatividade em trânsito fluído, sem “relevés” de maus circuitos. E abraçou, como sabe fazer, incondicionalmente hospitaleira (… contando, cá para nós, que não a piquem lá no duodeno dos seus). E porque é linda, na sua luz, sons e tons, cheiros e coisas suas.

Miscigenada, a caminho, arranhem-se os puristas, da mestiçagem.

Lisboa, terra, rio e mar

  Podia-te chamar Lisrio
num calafrio
de corpo e pele
Tejo, voz e mel
nos dedos, nos lábios
sábios
de melodias
todos os dias…
como se fosse lá na canção
fado da gente fugindo do não…
cheiro a gaivotas e canoa.

Podia-te chamar de Lismar
oceano de encorajar
gentes idas
mãos sorridas
sabor a cheiro
mar inteiro
estrela aos céus
sal dos choros teus…
como se fosse lá na poesia
sul num sol de fantasia…
ao leme de uma qualquer proa.

Podia-te chamar Lisluz
sol do rio que seduz
mestiçagem, perfume
lume
de aqui e de acolá
jacarandá
dias de cores
noites de amores…
como se fosse lá no cinema
cidade branca, azul e poema…
sol amigo e lua boa.

Podia-te chamar só Lisboa…

Pode filmar-se a poesia?

atonement

Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar.

Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: “… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.” A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir.

Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Natalie Wood em “Splendor in the Grass”. No poema, as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de “Perfect World”, de Clint Eastwood.

Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de “Bonjour Tristesse”, se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.

Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:

“Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
Pelo orvalho parado da noite.”

Já vi estes versos no cinema: homens a correr “pelo orvalho parado da noite”. Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no “Target”, de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, “Man Hunt”, irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.

Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de “Os Passos em Volta”. “Polícia” é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, “a criatura mais só da terra”, num sítio onde “as putas e os chuis eram mais do que as mães”. Leio e penso: já vi!  

Mas onde é que já vi dois amantes nus a atravessar, a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Foi num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no “They Live by Night” de Nicholas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger leu e se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: num filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, uma francesa de Lyon.

O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes que os dois nascessem, no poema destes primeiros versos:

“As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.”

O cinema arde quando é dito assim.

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Claude Le Petit, maldito poeta

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Das edi­ções que já fiz na minha lamen­tá­vel vida de editor, esta é uma das que me é mais que­rida. Caiu-me nas mãos um livro fran­cês, Le Bor­del des Muses, de Claude Le Petit. Foi logo tiro e queda. Mas não era mesmo nada líquido que o livro fran­cês pudesse dar um livro por­tu­guês. Não se publica poe­sia em Por­tu­gal — é pra­ti­ca­mente proi­bido por lei. E ainda menos se publica um fran­cês. Muito menos um fran­cês do século XVII.

A minha sorte e a sorte de Le Petit é que ele foi quei­mado na fogueira por obs­ce­ni­dade. Ora isso é logo uma carta de nobreza. Pen­sei que se arran­jasse mais uns títu­los nobi­liár­qui­cos a coisa se podia arran­jar. Fui à cata de aris­to­cra­tas. Pri­meiro, para lhe dar forma poé­tica em por­tu­guês, des­co­bri a Eugé­nia de Vas­con­cel­los. É poeta e palpitou-me for­te­mente que ela era capaz de dar aos arrou­bos obs­ce­nos de Le Petit uma equi­va­lên­cia em lín­gua de Pes­soa que fosse irmã humana da poe­sia fran­cesa. Depois, bati à porta de outro artista, João Cuti­leiro, e pedi-lhe que rein­ven­tasse este Le Petit em dese­nho. Cuti­leiro não o ilus­trou, pre­fe­riu ir descobrir-lhe a gen­ti­leza que está sem­pre por trás da por­no­gra­fia quando ela é poética.

O que a Eugé­nia e o João fize­ram é tão bonito que me comove. E o tanto que me como­veu e exal­tou pode ver-se nos mate­ri­ais em que este livro está feito, no gra­fismo, no papel. Não me che­gou. Não quis ficar de fora na festa de sen­ti­dos que este livro já era. Escrevi um texto, até para dizer quem era este Le Petit que agora, assim, entra na lín­gua e na edi­ção por­tu­gue­sas. É um ape­ri­tivo. Para que leiam, intei­ri­nho, este (tão bonito, não é?) o Bor­del das Musas ou as nove don­ze­las putas, do grande Le Petit.  

 

Bordel capa
Para ler intei­ri­nho, um poeta de outro lado a entrar na nossa língua

Claude Le Petit foi quei­mado vivo no pri­meiro dia de Setem­bro de 1662, na Praça de Grève, em Paris. Diga-se: com 23 ten­ros anos de idade. A fogueira onde ardeu era car­te­si­ana: queimaram-lhe o corpo por causa dos peca­dos da alma.

Filho de um alfai­ate, Le Petit tinha na escrita o seu maior talento. Um talento trans­bor­dante, irre­ve­rente, físico, car­nal. Escre­veu desal­ma­da­mente, mas as hipó­te­ses de publi­ca­ção foram escas­sas e mal pagas. A estu­dar Direito em Paris, com uma reles bolsa paterna, Le Petit deixou-se sedu­zir pelos meios e con­ví­vio liber­ti­nos. Numa França de Luí­ses, o XIII e o XIV, de poder fer­re­a­mente cen­tra­li­zado, o liber­tino – trans­gres­sivo e a roçar-se filo­so­fi­ca­mente pelo ateísmo – é um livre-pensador que faz pas­sar a liber­dade de espí­rito pela prova do debo­che e dis­so­lu­ção do corpo. É por isso lógico que, para Le Petit, o mag­ní­fico corpo humano, falo, cona e cus, jun­ta­mente com o tinir das moe­das, e sobre­tudo a omi­nosa falta de cheta, sejam as obses­sões maiores.

Não admira que, sem des­me­re­cer a pai­xão, tenha escrito por dinheiro. A pri­meira vez que lhe paga­ram foi por um poema. Outro autor, Michel Mil­lot, divertira-se a escre­ver um diá­logo obs­ceno, L’École des fil­les ou la phi­lo­sophie des dames. Pedi­ram a Le Petit que redigisse,como ao tempo era hábito, um elo­gio ao autor do livro, para a aber­tura. Le Petit escre­veu o madri­gal cujo pri­meiro verso reza «Autor fodido de um livro fodido…» que os lei­to­res desta Página Negra pode­rão ler se com­pra­rem o livro. Um desen­ten­di­mento entre edi­to­res e tipó­gra­fos pôs o livro nas lava­das mãos das auto­ri­da­des, que o pros­cre­ve­ram como ímpio, tendo Mil­lot, seu autor, sido con­de­nado à morte na fogueira, de que escapa, fugindo para sem­pre de Paris. Quase por mila­gre e por não estar assi­nado o seu madri­gal tão esplen­di­da­mente fodi­tivo, Le Petit pas­sou como um anjo por este inci­dente. Nem foi iden­ti­fi­cado ou preso, nem se castrou.

De pena pis­to­leira, pronta para ser alu­gada, foi então con­vi­dado a escre­ver numa gazeta, La Muse de la Cour,diri­gida pelo livreiro Ale­xan­dre Les­se­lin. Era mal pago, mas era pago, e Le Petit, a troco de qua­tro ou cinco pis­to­las, edi­fi­cante nome de uma moeda da época, de 1 de Setem­bro a 28 de Outu­bro de 1656, foi o pro­lí­fico autor de oito núme­ros dessa gazeta. Um san­grento inci­dente inter­rom­peu a con­for­tá­vel e cur­tís­sima car­reira. Le Petit tra­vou forte rela­ção com um jovem frade agos­ti­nho. Fosse qual fosse a des­co­nhe­cida natu­reza da rela­ção, sobre a qual as cró­ni­cas guar­dam silên­cio de santo, houve uma briga de alto lá com ela entre os dois. Le Petit não foi de intri­gas. Escon­dido, espe­rou que o frade viesse pre­pa­rar a igreja do con­vento para as mati­nas e espetou-lhe uma faca, matando-o como a um cevado. Dor­miu ao lado do cadá­ver na igreja fechada e, quando os fra­des a vie­ram abrir de manhã, escapuliu-se sem ser visto. Temendo a inves­ti­ga­ção poli­cial, o poeta assas­sino exilou-se. O péri­plo de exí­lio começa em Espa­nha e passa por Itá­lia, pela Boé­mia, Ale­ma­nha, Holanda e Lon­dres. Adver­tido de que o assunto do defunto frade fora arqui­vado pela polí­cia, regressa a Paris. Tinham pas­sado pouco mais de três anos, estava-se em Feve­reiro de 1661.

Volta aos meios liber­ti­nos, con­ju­gando o amor da carne com a devo­ção cató­lica, apos­tó­lica e romana, e volta à penú­ria do cos­tume. Ora, toda a gente sabe que é muito chato ser pobre em França. Vendo que a poe­sia não ren­dia, consta que Le Petit esta­ria já na dis­po­si­ção de aban­do­nar a vai­dade e as misé­rias do mundo laico e ir mis­ti­ca­mente rezar as vés­pe­ras para um con­vento, tese à qual dá con­sis­tên­cia o livro Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, que nessa altura se dizia ter escrito. Mas é sabido que, num ora foda-se, o diabo apa­rece e as tece quando e onde menos se espera. Estava Le Petit em reco­lhi­mento, na Aba­dia de Saint-Germain-des-Prés, e vem desinquietá-lo um tal Cha­bat com uns mais isto e mais aquilo e que era uma pena que o olvido e a gaveta ou as cin­zas sepul­tas­sem para todo o sem­pre a viri­li­dade das satí­ri­cas rimas de um livro como O Bor­del das Musas. Diz estas ver­da­des todas e tira do bolso cin­quenta pis­to­las – o que a prata e o ouro bri­lham à luz mor­tiça de uma igreja! – dizendo publico-to eu.

Le Petit não resis­tiu. Um ano antes dedi­cara um soneto a Jac­ques Chaus­son, maiús­culo  sodo­mita que a ten­ta­tiva de vio­la­ção de um moci­nho nobre levara aos acri­mo­ni­o­sos tri­bu­nais seis­cen­tis­tas. Chaus­son fora con­de­nado à fogueira, na Praça de Grève, local em que a amena popu­la­ção pari­si­ense se reu­nia para ver assar ateus, ímpios, vio­la­do­res e mais gente com incli­na­ção para uma des­na­tu­rada rebal­da­ria. O cheiro do epi­só­dio chaus­so­ni­ano e a memó­ria do mila­gre com que Deus o des­pen­du­rou da asso­ci­a­ção ao enfor­cado Mil­lot deviam ter avi­sado Le Petit que tal­vez não fosse avi­sado for­çar a sorte. Mas Le Petit não era capaz de resis­tir a cinco moe­das, quanto mais a cin­quenta. E disse que sim ao insi­di­oso Cha­bat, man­dando que se fizesse a priá­pica e clan­des­tina edi­ção. Em home­na­gem a Théophile de Viau, lumi­ná­ria da poe­sia liber­tina, assi­na­ria, com o pseu­dó­nimo de Théophile Le Jeune, este Bor­del das Musas, de que agora temos nas mãos os poe­mas que sobreviveram.

O que tinha de cor­rer mal cor­reu evi­den­te­mente mal. Fosse por­que Cha­bat tinha a lín­gua com­prida – é o que diz Fré­dé­ric Lachè­vre, no seu sério e majes­toso estudo Les Oeu­vres Liber­ti­nes de Claude Le Petit –, fosse pelas for­tui­tas cir­cuns­tân­cias que sem­pre favo­re­cem cen­so­res e inqui­si­do­res, a obra foi estatelar-se debaixo do olho rigo­roso e cir­cuns­pecto da polí­cia de cos­tu­mes pari­si­ense. Poupo-vos a por­me­no­res. Claude Le Petit era o meio men­di­cante filho de um pau­pér­rimo alfai­ate, o que em nada o reco­men­dava – a filha da puta da pobreza nunca sal­vou nin­guém. A arre­ba­tada e túr­gida ele­va­ção dos seus ver­sos esca­pava ao raci­o­nal dos seus cen­so­res e só o enter­rava mais. Em menos de um fós­foro, se assim se pode dizer, a célere jus­tiça fran­cesa con­de­nou Le Petit à fogueira. Deve­ria, antes, ser-lhe cor­tada a mão direita pelo punho, julga-se que em alu­são à prá­tica da escrita, embora nunca se saiba lá muito bem o que pas­sa­ria pela grave cabeça de magis­tra­dos daqueles.

Assim foi. A 1 de Setem­bro de 1662, Claude Le Petit ardeu na fogueira. Mas ao arder, já ardeu morto. Por pie­dade, crê-se, foi-lhe con­ce­dido o mimo de ser estran­gu­lado antes.

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Cuti­leiro foi descobrir-lhe a escon­dida gentileza

O poeta Claude Le Petit inte­gra uma cor­rente filo­só­fica e lite­rá­ria – os liber­ti­nos – cuja tra­di­ção tem raí­zes em Oví­dio, ganhando expres­são maior em França, no século xvii. Essa cor­rente teve o seu prin­ci­pal expo­ente na obra poé­tica de Théophile de Viau.

Estri­ba­dos num cep­ti­cismo epi­cu­rista e tam­bém, mas não neces­sa­ri­a­mente, num ateísmo con­victo, os liber­ti­nos do século XVII fran­cês foram um exem­plo de anti­con­for­mismo e de eru­di­ção, que expres­sa­ram em obras satí­ri­cas, pro­fa­nas, de grande liber­dade de costumes.

Tudo isso, acres­cido de uma viru­lên­cia extrema, que faz dele um prín­cipe do obs­ceno, está na poe­sia de Le Petit. E, não obs­tante, os seus ver­sos não se podem redu­zir ao estrondo dessa obs­ce­ni­dade. Os ver­sos que escre­veu são tam­bém inter­ro­ga­ção, por vezes escar­ne­cida, sobre a con­di­ção humana e a per­ma­nente mudança do mundo e das coi­sas. A escrita de Le Petit, sabo­ro­sa­mente eru­dita, infor­mada por uma vasta cul­tura clás­sica e por uma muito polí­tica aten­ção à His­tó­ria e ao século, é uma escrita que com­bina iro­nia e sar­casmo, por vezes um toque abjec­ci­o­nista. Com uma ima­gé­tica des­bor­dante, os seus poe­mas são o exem­plo do bom uso de uma certa arte da repe­ti­ção – uma pala­vra, uma expres­são criam um ritmo encan­ta­tó­rio –, no que se poderá ver uma herança de Le Viau (e de Villon?).

Já se disse que os liber­ti­nos casam epi­cu­rismo, mate­ri­a­lismo, umas pin­ce­la­das de filo­só­fico maqui­a­ve­lismo, com um ateísmo mili­tante. Mas a repres­são vio­lenta, pas­sando pela morte na fogueira, a que alguns mem­bros da cor­rente foram sujei­tos, fez emer­gir uma dupli­ci­dade tea­tral no movi­mento. Mui­tos liber­ti­nos assu­mi­ram uma más­cara pública que os pro­te­gesse da imi­nente vio­lên­cia. Todo o liber­tino pas­sou a ser um actor. Terá sido assim com Le Petit? Terá o seu cato­li­cismo sido uma más­cara pública para ocul­tar a pode­rosa afir­ma­ção da carne, do sexo, que a sua poe­sia exibe, cami­nhando em estado de arro­gante erec­ção sobre a Cristandade?

Se, antes da publi­ca­ção do seu Bor­del das Musas, pare­cia estar divi­dido entre o cato­li­cismo e o ideal liber­tino ao ponto de ter escrito um devoto Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, tam­bém sabe­mos que, já conhe­cendo a sen­tença que o con­de­nava à fogueira, pediu para falar com o barão de Schil­de­beck, seu amigo dos tem­pos de exí­lio ale­mão, e lhe disse onde estava escon­dido o que con­se­guira sal­var de Le Bor­del des Muses. Arran­cou ao amigo ale­mão a pro­messa de que sal­va­ria esse ori­gi­nal e o publi­ca­ria, o que o ale­mão cum­priu, publicando-o dois anos depois, em Ley­den, na Holanda.

Nessa con­versa com o fiel ale­mão, Le Petit, sal­vando o seu livro, garan­tiu a eter­ni­dade. Quando, a cami­nho da fogueira, parou em frente à Igreja de Notre-Dame e, de rojo na imensa praça, fez a ora­ção de arre­pen­di­mento que o tri­bu­nal deter­mi­nara, quem se arre­pen­dia era o cató­lico que de facto havia nele ou a más­cara liber­tina que o século exi­gia? Mas se era actor, de que maneira é que o actor pode fin­gir, a não ser deve­ras sen­tindo as dores, mesmo as dores cató­li­cas, que o actor representa?

As cró­ni­cas dizem que avan­çou com sere­ni­dade exem­plar para a fogueira que, em plena Praça de Grève, o espe­rava. Já estava morto quando o quei­ma­ram – fogo que ardeu sem que ele o sentisse.

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Um dos mais belos pen­sa­men­tos de Santo Agostinho