Meus Kambas: Paulo Nogueira

 Eu sempre me lembrarei do Paulo em Tróia. Ele a escrever sobre o festival de cinema para o iconoclasta O Independente, e eu, já não me lembro, talvez para o Semanário, a efémera Face, a RDP ou já de regresso ao Expresso. O riso do Paulo, o ar de gozo do Paulo, a alegria do Paulo quando me viu de calções, os joelhos desajeitados a tirarem o tapete às minhas pretensões de vir a ser um crítico vetusto, um Mencken ou por aí.
E depois, como um cometa, o Paulo Nogueira, nascido em São Paulo, atravessou tudo, a imprensa portuguesa, a televisão, a literatura. O Paulo é nosso e o Brasil roubou-o, ou talvez tenha só vindo cá buscar o que nos emprestara e não tivemos unhas para merecer. Sei é que nos faz agora tanta falta. 
O Paulo veio hoje visitar-me. A prosa dele, a invenção em cada frase, a sintaxe que me troca as voltas, o léxico cheio de sabor, restituem-me a alegria dos anos 80. Leiam-no. Um dia, hei-de ser editor dele e ele meu autor.

Camus-Goleiro

Albert Camus, o guarda-redes, assinalado pelo círculo

Gols de letra
Paulo Nogueira

Outro dia o Telegraph pontificou sobre escritores que foram torcedores inflamados do venerando esporte bretão. Mais aí eu roubei a bola e resolvi extrapolar para um gol de placa. Escalei uma espécie de seleção da FIFA de prosadores – que, no banco, tem o melhor treinador do mundo. É mole?

– ALBERT CAMUS, o craque das letras francesas que morreu em 1960 num acidente de automóvel (se transfigurando no James Dean da pena) foi o único goleiro da história a embolsar o Nobel de Literatura (1957). Ainda dente de leite, fechava o gol do Racing Universitaire, um time universitário da Argélia que faturou a Copa dos Campeões do Norte da África. Uma certa frase de Camus sobre a modalidade reverbera até hoje, inclusive em camisetas e posters: “Tudo o que sei de mais importante sobre moral e dever devo ao futebol”. Nota-se que ele nunca frequentou a CBF.

– SIR ARTHUR CONAN DOYLE – O criador do Sherlock também foi goleiro – do Portsmouth. Jogou sob o pseudônimo de A. C. Smith, e não deixava passar nem pensamento. Como espírita praticante (escreveu livros sobre o tema), Conan Doyle sabia de cor e salteado a importância do Sobrenatural de Almeida (fantasma criado por Nelson Rodrigues, que habitava o Maracanã e aprontava à beça durante os jogos).

– SALMAN RUSHDIE bota banca de torcedor do Tottenham desde criancinha. Em 1999, escreveu um artigo de oito páginas na revista New Yorker (O Jogo do Povo – a Educação de um Fã do Futebol) que continha uma baita abobrinha: que o técnico do Manchester United tinha morrido na queda daquele avião que matou o elenco do time. Não tinha.

– J. K. ROWLING vai ver partidas do West Ham disfarçada (e quando o time perde ela vira um Valdemort e xinga a mãe do juiz). Esse clube aflora no primeiro volume da saga Potteriana, A Pedra Filosofal, e no quarto, O Cálice de Fogo. Quando perguntada nos EUA se realmente se referia ao time inglês, ela resmungou: “Pombas, por acaso esse troço de futebol americano tem alguma equipa chamada West Ham?”

– NICK HORNBY – Tiete imbatível do batível Arsenal, e autor de um dos mais sumarentos livros sobre futebol: Fever Pitch.

– MARTIN AMIS – Alinhavou uma sacada bacana e penetrante: “Os intelectuais que curtem futebol vivem num mato sem cachorro – são desprezados tanto pelos intelectuais puros e duros como pelos torcedores comuns, que encaram nosso apreço pelo jogo como afetado, pseudo-proletário e até meio abichalhado.”
Numa entrevista recente em Nova Iorque (onde vive atualmente), Amis chorou as pitangas: “A coisa de que mais sinto saudades da Inglaterra é de um bom joguinho de futebol.”

– JULIAN BARNES – O vencedor do Booker Prize de 2011 é torcedor do Leicester City desde os tempos da chupeta. Já explicou que “seguir as campanhas do City é o meu jeito especial de me manter ligado ao cenário da minha infância.” Ah, então não é por que ele quer ser campeão invicto. Ah, conta outra, vai!

– IAN MCEWAN – A paixão pelo futebol fez McEwan pagar um mico daqueles. Durante a final da Liga dos Campeões de 2010, entre o Barcelona e o Manchester City, ele vendia seu peixe numa feira literária em Londres. Aí não aguentou: se esgueirou furtivamente para a tenda da Sky Television, afivelou uns óculos 3-D (parecidos com aqueles os jogadores de vôlei de praia usam) e babou ovo diante da classe daquele clássico. Não deu outra: foi filmado, fotografado, etc. e tal. Como se não bastasse, os espanhóis deram um baile nos ingleses.

– GEORGE ORWELL – Orwell era um cara tão legal que, embora tísico (morreu aos 47 anos), fazia o possível para manter o corpo são na mente sã. No quarto do sanatório em que esticou as canelas, tinha uma vara de pescar encostada à parede – para estar disponível quando ficasse bom. No entanto, como era também honesto e perspicaz, escreveu palavras amargas sobre o esporte-rei: “Se quisermos exacerbar a má vontade internacional, basta organizarmos uma série de partidas de futebol entre Judeus e Árabes, Alemães e Checos, Indianos e Britânicos, Russos e Poloneses, etc. – cada jogo assistido por umas 100 mil pessoas. O futebol não tem nada a ver com fair play. Está contaminado pelo ódio, inveja, boçalidade, desrespeito a qualquer tipo de regras e prazer sádico com a violência. Por outras palavras, é a guerra menos os canhões.” Hã, por falar em menos: menos, George, menos.

– JEAN PAUL SARTRE – Sim, o filósofo meteu o bedelho no futebol. E saiu-se com uma frase fenomenal, em plena Critique de La Raison Dialectique: “Em uma partida de futebol, tudo é complicado pela presença do outro time.” Ô, Sartre! Pede pra sair! Pendura as chuteiras!

– OSCAR WILDE – Parece estranho dada sua reputação de decadentista, mas a verdade que o divino Oscar mandou bem sobre o esporte bretão, com a verve brilhante de sempre: “O futebol está muito bem para garotas rudes, mas não é adequado para rapazes delicados.” E esta: “O rugby é um jogo para bárbaros praticado por cavalheiros. Já o futebol é um jogo para cavalheiros praticado por bárbaros.”

ENRIQUE VILA-MATAS – Adepto do Barcelona, já declarou que o futebol é a atividade mais inteligente da contemporaneidade. Por outro lado, justificou a carência de grandes romances sobre esse esporte invocando a imprevisibilidade das partidas. Numa FLIP, o catalão deu uma de Galvão Bueno: “O que nos atrai, como torcedores, é o imponderável de cada partida, algo que nenhum escritor foi capaz de captar.” Fale por você, mané.

GUARDIOLA – É, Guardiola! E daí, vai encarar? O futebol está infestado de mentecaptos, mas também tem suas massas cinzentas. Armando Nogueira flagrou Beckenbauer lendo Shakespeare na concentração da Alemanha, na Copa de 70. O argentino Jorge Valdano, campeão do mundo em 1986, escreve melhor do que muito literato emproado, e Menotti, também argentino e campeão mundial em 1978, sabe na ponta da língua parágrafos inteiros de seu autor predileto, Ernesto Sábato. Para não mencionar Tostão, que às vezes mata umas frases de canela mas é praticamente o único cara a conseguir comentar táticas de maneira inteligível e sugestiva. Enfim, todos eles (e mais alguns) refutam aquele epigrama malvado: “Precisei fazer um transplante de cérebro e então exigi os miolos de um jornalista desportivo. Assim tinha a certeza de que nunca haviam sido usados.”
Pois bem: Josep Guardiola i Sala publicou um livro muito atraente: Mi Gente, Mi Fútbol, uma espécie de autobiografia assaz encantadora (sem falar nas crônicas que escreveu para o El País, durante a Copa de 2006).
Guardiola é tão cultivado que inúmeros escritores catalães (torcedores do Barça, por supuesto) ficaram compinchas dele. Entre eles, o indefectível Vila Matas. Foram apresentados por David Trueba (prefaciador de Mi Gente, Mi Fútbol e irmão do cineasta Fernando Trueba) e, segundo o próprio escritor, quando se encontram só papeiam “de Joyce para cima”

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A multidão que canta

Crónica escrita há uns anos. Talvez dois. Eram anos Mitroglou. Embora, em boa verdade, os anos que sempre contam sejam os anos de Eusébio da Silva Ferreira.

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O pé esquerdo de Eusébio é a mão direita com que escrevo esta crónica. Escrevo à mão, aparo da caneta a raspar o papel, como o pé de Eusébio a aflorar, veloz manso e forte, a relva. Escrevo ao vivo como o pé de Eusébio chutava no paraíso que é, ao vivo, um jogo de futebol. É desse estádio cheio, da multidão que ulula, da multidão que venera, da multidão que canta, que eu hoje quero falar. Falar o quê?! Falar coisa nenhuma, deixem-me é incensar o prazer da multidão que canta.

Não há prazer comparável. Dizem-me que há multidões azuis e verdes. Mas a minha multidão é religiosa: vai à Catedral e, entre Céu e Terra, fica ali cantando como quem reza, vestida de vermelho.

Já ouço o político e o académico que rosnam o seu temor à multidão. A multidão é má. A multidão atropela-se. Imaginem a multidão no Louvre: as mil bocas da sua respiração embaciam os quadros, os mais gigantones tapam a vista da Mona Lisa aos mais baixinhos. A multidão de museu é uma multidão que faz de cada um o anão de si mesmo.

No estádio… quero dizer, na Catedral, a multidão é gloriosa. Canta toda para o mesmo lado, é toda da mesma altura, o que faz com que cada um veja com os olhos de todos. Quando Eusébio marcava um golo, ou agora Jonas ou Mitroglou, a multidão é rasgada pelo mesmo frémito estético. Não é igual à beleza superficial das montras da Avenida da Liberdade, é mais como a beleza feiticeira e sanguínea de Macbeth, como o sentimento épico dos primeiros versos de Os Lusíadas. E, de resignada e incorrespondida paixão, a multidão estremece quando os caprichos dos deuses fazem a bola embater com estrondo no poste da baliza adversária.

A desfraldada multidão vermelha da Catedral é carinhosa. A primeira vez que levei a minha filha a ver o SLB, tinha ela 6 anos. Baptismo na Catedral. Acontecesse o que acontecesse no relvado, a minha filha não parava de gritar. Expliquei-lhe: “Filha, só gritas quando a bola estiver nos pés dos nossos rapazes vermelhos, e só depois de passarem aquela linha de meio-campo, ao aproximarem-se da linha da área adversária.”

Era muita linha e a minha filha ficou confusa. A bola já estava nos pés de João Vieira Pinto, menino de ouro da minha filha, e ela perguntou: “Pai, posso começar a gritar?” A multidão virou para mim um olhar crítico e regalou a minha filha com um sorriso protector. Eram velhos benfiquistas com anos de estádio, com doutoramento de multidão, e disseram num clamor: “Amigo, não seja ditador, deixe gritar a miúda! Grita, princesa, grita sem medo.” Foi a mais bela censura da minha vida: o coração chorava-me de alegria a cada vermelho grito da minha filha.

Este não é o calcanhar de Aquiles

vitoriatoque

Com a devida vénia à amada e venerada BTV,  roubei a imagem que nos deixa ver um centésimo do que, de facto, se passou no Estádio da Luz, no clássico Benfica versus FCP. Houve uma disputa e um corte que fez sair a bola, em balão, pela linha lateral. Rui Vitória, esse treinador tão contestado como Aquiles o foi nas duras batalhas de Tróia, viu o esférico vir pelo ar, deu um passo atrás e rodou, como o compacto e bailarino Gene Kelly rodaria, e tocou a redondinha, devolvendo-a ao relvado, com uma chulipa, um golpe de calcanhar como eu só vi no campo pelado de São Paulo, em Luanda, lá bem perto da igreja capuchinha de São Domingos, ou nos campos traseiros do Liceu Salvador Correia, em jogos nos quais o resultado era sumptuário e o que verdadeiramente movia corações e mentes era o perfume tropical do gesto hábil e da finta circense dos meus irmãos caluandas. Uatobo, uatobuéee, meu irmão.

E perdoem-me se, falando de futebol, falando do jogo, o comparei à guerra de Tróia. Fui criado na ideia de que este é o jogo por excelência, combinação de ética e de estética. Nada o aproxima da guerra, e muito menos da cruel guerra de Tróia, como aliás bem se viu: o admirável calcanhar de Rui Vitória não tem a debilidade do calcanhar de Aquiles.