Enigmas e haikus

 

Bebedor Nocturno

 

Por pudor ou liber­dade, Her­berto Hel­der diz na capa que são poe­mas muda­dos para por­tu­guês. O livro chama-se, uma ima­gem feli­cís­sima, “O Bebe­dor Noc­turno”. Nele se reu­nem poe­mas mexi­ca­nos e can­ções indo­né­sias, enig­mas maias e hai­kus japo­ne­ses. Em todos per­passa a lín­gua por­tu­guesa naquela forma única que ganha quando Her­berto a escreve ou diz. É um livro que paira num lugar inlo­ca­li­zá­vel: está acima da cul­tura, da lite­ra­tura, da aca­de­mia, situando-se na nómada curva da alegria.

Volto a lê-lo, em meias-horas de volú­pia silen­ci­osa, tão dife­rente e tão igual ao riso com que, no pri­meiro ano da década de 70, entre Luanda e a barra do Kwanza, o lia aos gri­tos na areia a fer­ver das praias do km 36 ou, Jesus Cristo sobre as ondas, no kayak a des­li­zar sozi­nho pelas águas quase rasas dos mangais.

Por exem­plo, tão bonito este enigma asteca:

– Uma coisa que vai pelos vales fora, batendo as pal­mas das mãos como uma
mulher que faz tor­ti­lhas?
– A bor­bo­leta voando.

Ou então este haiku:

Libé­lula ver­me­lha.
Tira-lhe as asas:
Um pimen­tão.

Foi o que, cor­ri­gindo a natu­reza, escre­veu Kikaku. Mas logo o sábio Bashô lhe cor­ri­giu a correcção:

Pimen­tão ver­me­lho.
Põe-lhe umas asas:
Libé­lula.

E é Bus­son que, pela mão, põe a minha feli­ci­dade de lei­tor na sua ver­da­deira casa:

Ah, o pas­sado.
O tempo onde se acu­mu­la­ram
os dias lentos.

As ancas de John Wayne

john-wayne

Era mais fácil falar das pernas de Angie Dickinson, mas vou obrigar-me a só olhar para o cinturão, coldre e colt de John Wayne. Sei do que falo, xerife foi a primeira coisa que fui na vida, revólver à cintura, uma longa cana de mamoeiro a fazer de Winchester. Também fui índio e bandido, mas xerife era a minha devoção, meio John Wayne, meio Buck Jones, insofismável semi atestado da minha caretice infantil.

O cinturão de Wayne, de que não tiro os olhos, atravessa em lento bamboleio o “Rio Bravo”, que Howard Hawks filmou, em 1959, a fechar a década em que um vivíssimo amarelo, mais amarelo do que o “Cristo Amarelo”, de Gauguin, se derramava nos melhores westerns. Amarelíssima era a camisa de Joan Crawford em “Johnny Guitar” e do mesmo glorioso amarelo era a blusa de Feathers, personagem de Angie Dickinson que, em “Rio Bravo”, mostra os negros collants a Wayne.

Mas não é dos collants e das pernas louva-as Deus de Angie Dickinson que venho falar. Se tenho palavras é para o cinturão, coldre e colt que cingem as vastas ancas de Wayne. Foi por causa desse xerife e do sólido andar dele que Hawks fez o filme.

“Rio Bravo” foi a arma de que Hawks puxou para abater Fred Zinnemann, autor do célebre “High Noon”. Medíocre, como quase todos os filmes célebres, pensou Hawks. “High Noon” tinha um xerife, Gary Cooper. Prendera um poderoso facínora e um regimento de fora-da-lei vinha atacar o acossado xerife e resgatar o seu führer ou secretário-geral. Gary Cooper ia, de porta em porta, tentando montar a sua geringonça. Todos lhe viravam as costas, até a branca e radiosa noiva, Grace Kelly.

Ouçam a zanga épica de Hawks: “Um bom xerife não vai pela cidade, como galinha tonta a pedir ajuda a toda a gente para ser salvo no fim pela noiva quaker.” Os heróis de Hawks são profissionais e estão sentados nas suas angústias: Wayne na solidão, Dean Martin na bebida, Walter Brennan na perna coxa, os 18 anos de Ricky Martin num “que-se-lixismo” inocente. Buscam a redenção individual, encontram-na no grupo, salvando a cidade cercada, num filme quase sem grandes planos.

Para xerifes diferentes, filmes diferentes: os planos de “High Noon” estão cheios de significado, os de “Rio Bravo” estão cheios de alegria; os enquadramentos de Zinnemann são a régua e esquadro, os de Hawks são uma festa de cor.

Angie-

Ah, no Lloyds of London, um milhão de dólares segurava as pernas de Angie Dickinson.

 

Um puto vadio

Bica Curta servida no CM (mesmo ao pé do Estádio da Luaz, na 5ª feira, dia 25 de Abril

maninho

O pé direito de João Félix é ainda do século XX: nasceu no fim de 1999. É esse pé, do século de Pelé, Maradona e Eusébio, que faz o génio de Félix. O futebol do século XXI, todo tiki taka, é geométrico e táctico. Menos João, que é um vadio. Lá vai Jesus Cristo, onde estão os discípulos? Também João, peregrino, aparece por milagre onde ninguém o espera. Bebe a bica, multiplica os pães: e é cá cada pão! Mesmo a bola, certinha com os outros jogadores, ao cheirar o pé dele logo se converte, romântica, numa Maria vai com o Félix.

Há um puto vadio no estádio: faz o que gosta, chora, ri e saca tempo para dar beijinhos ao irmão.