A bela virgem

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Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 20 de Novembro

Foi antes da bica curta, século XIII. Após longa guerra, Luís VIII, católico rei francês, venceu uma seita herética. Voltava a casa, mas apanhou uma disenteria de alto lá que o baile não pára. O precário Serviço Nacional de Saúde da época declarou: a doença era do jejum sexual, dormir com uma virgem curava-o. Hesitariam os ministros de Costa, Macron ou Boris?  Não hesitaram os ministros do rei: meteram-lhe na cama uma bela virgem. O rei, com mansa gentileza, afastou-a. Preferiu morrer do que curar-se à custa de um pecado mortal.

Que pecados mortais se enfiam hoje na cama do poder? Afastarão com mansa gentileza as belas virgens?

Jonathan Demme

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Por favor, deixem-me contar-vos como é que conheci, nunca o conhecendo, Jonathan Demme. Coisas do século passado, já tinha escrito sobre ele para o “Expresso”, a propósito de um filme estimável, “Melvin e Howard”, pequena delícia monocasta, todo feitinho em cima de um único e improvável fait-divers: quem o viu sabe que é o filme de um tipo que, na highway 95, pára para dar uma aflita mijinha e encontra estatelado numa valeta, se assim se pode dizer, o ultramilionário e incógnito Howard Hughes, que espatifou a moto em que vinha a zunir. Para começo de conversa é mais do que bem caçado. Jonathan Demme caçava e bem.

Poucos depois, e não foi para dar uma aflita mijinha, vou a Los Angeles. Aboletei-me, nesses anos 80 do século XX, em Westwood, bairro selecto e universitário, todo encavalitado na UCLA. E mergulhei nas salas de cinema.

Os cine­mas de que eu mais gostava fica­vam ao lado de uma gela­ta­ria drive-in. Lembro-me: de carro em carro, as sau­dá­veis per­nas das moci­nhas gira­vam, ágeis e velo­zes, em cima de patins. Transfigurados anos 80, na irreal Los Ange­les.

Naquele tempo, via os gené­ri­cos dos fil­mes até ao fim. Nesse cinema de Westwood, ecrã cheio de nomes, últi­mos acor­des da banda sonora, de repente leio em mili­tan­tís­simo português, “A Luta Con­ti­nua”. Por cima, a figura de um velho guer­ri­lheiro ou, quem sabe, um jamai­cano cer­zido a reggae.

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Sem­pre des­con­fiei que o pas­sado se dana por nos pre­gar par­ti­das, mas nunca o ima­gi­nei a atropelar-me, em L.A., no “Something Wild”, de Jonathan Demme. O filme começa com Char­lie (Jeff Dani­els), exe­cu­tivo cer­ti­nho que esconde um grão de rebel­dia no mais acrisolado dos seus ven­trí­cu­los. Almo­çou rapi­di­nho e, revolta de menino, sai rapidinho sem pagar a conta. Lulu (Mela­nie Grif­fith) viu e gos­tou. More­nís­sima, franja negra a reiterar o nome, boca de fru­tos ver­me­lhos, Lulu vai dar guita à rebel­dia de Char­lie. Mal dá conta e Char­lie está como Deus o man­dou ao mundo, em sítio onde Deus não cos­tuma estar e se dis­pensa que esteja. Char­lie já tem um par de alge­mas a prender-lhe as mãos à cabe­ceira da cama, Lulu está de lábios e mãos livres, o indesculpável pecado das pernas, a dar-nos vontade de estar onde está, não sei se humilde ou humilhado, o rebelde Charlie. Chega de humildade e pequemos: com a guita com que estão, Charlie e Lulu voam tão alto como os papa­gaios da minha infân­cia. Coi­sas des­tas sabem bem e, depois de a lín­gua as tocar, quem é que quer saber de empre­gos e famí­lia. Char­lie já não quer e é nisto que o cinema dá vinte a zero à vida.

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“Something Wild” começa assim, ame­ri­cano, mas a grande surpresa vem no fim. A música do genérico amarra-nos o rabo à cadeira, e deixamo-nos ficar a ver os mil nomes dos técnicos até que, num por­tu­guês que nenhum americano na sala beijou, inalou ou fumou, surgiu um gigantesco “A Luta Con­ti­nua”. Onde, Demme, é que foste buscar isto, este “A Luta Continua”, que me fez chei­rar África e, de África, a more­nís­sima Angola, Lulu dos meus 20 anos? Nem emprego, nem famí­lia, lembrei-me da noite da independên­cia de Angola, 11 de Novembro de 1975, em Novo Redondo, a bater estrada, como Howard Hughes (querias, não querias?) a caminho de Luanda. Noite dor­mida em cama de estre­las, céu e mar, os miú­dos das Fapla a faze­rem das Kalaches o fes­tivo fogo-de-artifício. A luta con­ti­nua e, olha Char­lie, se aos 20 anos não fores anar­quista, aos 40 nem chefe de bombei­ros hás-de ser.

Enganei-me no sabor a África de “Something Wild”? Li, e acho que ainda anda pela Wikipé­dia, que a frase, repe­tida por Demme em “Mar­ried to the Mob”, “Silence of the Lambs” e “Phi­la­delphia”, seria tri­buto ao 25 de Abril. Estra­nhei: não parece, não é, a língua dele.

Vai daí, um dia apa­nho o Demme e o Neil Young a tro­ca­rem pra­ze­res per­ver­sos e cul­pa­dos. O Neil Young dizia os fil­mes favo­ri­tos dele, o Demme respondia-lhe com a sua lista de canções preferidas. E eis que o Demme esco­lhe o jamai­cano Big Youth e dele um álbum com título em por­tu­guês: “A Luta Con­ti­nua”. Big Youth e Demme falam o mesmo idi­oma, falam reg­gae. Ao reg­gae, a Luta Con­ti­nua che­gou de Angola e Moçam­bi­que, via Miriam Makeba. Sem África, Demme nunca teria assi­nado em por­tu­guês, mas com can­tado sotaque jamaicano, o final dos seus fil­mes.

Não me enga­nei quando, num cinema de L.A., a boca me soube a África. No fim do filme, já muda­dos, Char­lie e Lulu reencontram-se. Queixa-se ele de que ela não lhe che­gara a dizer adeus. Ela jura: “Claro, eu nunca te quis dizer adeus”. Nem eu à terra morena da luta continua, nem a ti Jonathan Demme, que nos morreu no dia 26 de Abril de 2017.

E a luta, meu kamba? Há dois anos que nos deixaste para aqui com o “Silêncio dos Inocentes”, o “Married to the Mob”, o “Philadelphia”, deixaste-nos para aqui com o intenso, leve e adorável canibalismo familiar de “Rachel Getting Married”, mas e a luta, a luta não continua?