Os macacos

 

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Marega e a nobreza do herói

Bica Curta servida no CM, na 4.ª feira, 19 de Fevereiro

Ulular como um macaco a um jogador negro é baixo racismo. O que os adeptos fizeram em Guimarães tem um nome: um cobarde acto de racismo. Marega saiu do estádio com a nobreza de um herói.

Dar daqui o salto para a generalização é tentador para agendas políticas identitárias. Mas é abusivo. Um exemplo: se um delinquente negro assaltar e ferir um taxista, isso não autoriza os emocionados taxistas virem dizer que Portugal tem um problema estrutural de assaltos da comunidade negra. Não tem. Os bandidos de Guimarães devem ser presos e expulsos dos estádios: fiquem a ulular em casa que os brancos são tão macacos como os negros.

Eis o verdadeiro nome de Bruno Lage: campeão

 

bruno
Foto Record, com a devida vénia

Já sabia, com uma certeza de menino, que íamos ser campeões. Os minutos que tive de esperar pelo centésimo golo deste campeonato – rotação de cento e oitenta graus de Seferović e bola a casar, metafórica, com a rede –, foi só o sereno e atempado acerto dos ponteiros da realidade universal com o relógio ansioso da minha sonhadora subjectividade. Aliás, num gesto de indigna agiotagem, tentei criar uma bolha: convidei a família e amigos a apostar em quem marcaria o primeiro golo e adiantei logo o nome dos dois pés do goleador suíço.

Mas deixem-me voltar ao menino, à minha certeza de menino, que é de meninos e da certeza dos meninos que quero falar. Wittgenstein já não era menino quando escreveu as notas do livrinho a que se deu por título Über Gewissheit, que dito em português se traduziria por Sobre a Certeza. A filosófica certeza de Wittgenstein está nos antípodas da minha rubra certeza de menino. A certeza de Wittgenstein é céptica e epistemológica. A minha certeza é cândida e de um radioso optimismo. E é, porém, uma certeza behaviorista, decorrente da cristalina sucessão dos factos e dos comportamentos. Já falei do golo do bósnio-herzegovino Seferović. Deixem-me falar do segundo golo. O seu autor, João Félix, tal como o Tolstoi de Guerra e Paz, o Cervantes do Quixote, não sacrificou, nessa jogada, um átomo de estética, de rutilante beleza, a uma pretensa eficácia. Um tecnocrata “chuta já”, um calculista “enfia-lhe um biqueiro”, se algum anjo do mal soprou essas ignomínias ao ouvido juvenil de João Félix, foi como opor um castelinho de areia à intravável liberdade das ondas do mar. O interesseiro óbvio bem pode ulular que João Félix está, a começar pelo seu pé direito, apaixonado pela beleza. O pé direito de Félix puxou a bola como se fosse um jogo de futebol do meu bairro de Luanda, e o defesa… uatobo*… aterrou na relva, buelo* de perplexidade, se me perdoam a redundância luso-angolana. E logo o pé esquerdo, numa fracção einsteiniana, ilude o tempo e o espaço de outro defesa e do guarda-redes, inventando um ângulo alto, limpo, vasto por onde a bola viaja, em luxo, volúpia, clamorosa harmonia e pulcritude. Os dicionários chamam-lhe golo. O povo chama-lhe golaço, fogo, golão.

 Mas peço-vos que acreditem em mim. A minha certeza de menino não segue a canónica cronologia. A minha certeza não é de causa a efeito. A minha certeza de que seríamos campeões fundou-se no que sabia que aconteceria e aconteceu: nas lágrimas profusas, adultas, cheias de gratidão e felicidade do camisola 10, Jonas, à espera de entrar, junto à linha lateral. A minha certeza de menino decorre da íntima antecipação da alegria dos abraços, do gigante Jardel a correr aos saltinhos como uma menina de liceu, depois de passar a taça a um companheiro. A minha certeza de menino já sabia que Eliseu voltaria com estilo e banga na sua resplandecente lambreta e que Gabriel havia de segurar no ar o menino que é Rafa, pegando-lhe pelos cueiros e pela inrasgável camisola vermelha.

E peço-vos que acreditem, a minha certeza campeã, a minha certeza de menino nada tem que ver com as vitórias do passado, tem tudo que ver com a certeza das vitórias do futuro. Quando vejo e ouço Bruno Lage vejo outra vez um futebol menino, o futebol do prazer de jogar, o prazer de abraçar o adversário, o prazer de dizer o nome do adversário, o Futebol Clube do Porto, o Sporting Clube de Portugal, com a certeza de que a nossa vitória é inútil se eles não forem também grandes.

Eu sei que as certezas de menino são descartáveis como fraldas sem nome, mas hoje, a acrescentar à velocíssima beleza das pernas de Rafa, à socrática maiêutica com que Samaris aborda a batalha de meio-campo, à generosidade gigante de André Almeida, à forma como a as nossas leis fecham os olhos permitindo a presença em campo de putos de infantário como o Rúben, Ferro, Florentino, Gedson, Félix ou Jota, Bruno Lage deixou cair um pingo de História no título de campeão. Lage convidou-nos a dizer o nome do adversário. É um gesto que faz dele ainda mais campeão. Lage, hoje, engrandeceu o futebol. Restitui-o à sua condição de desporto, um divertimento cuja nobreza radica no fair-play dos seus praticantes.

Eis a minha certeza de menino: já sabia que íamos ser campeões, mas não sabia que, com Bruno Lage, era todo o futebol português que seria campeão com o Sport Lisboa e Benfica.

Foto paulo calado record
Foto Paulo Calado, Record, com a devida vénia

* Uatobo – exclamação de gozo; solta-se batendo com a mão na boca; o mesmo que “és parvo!”
Buelo – diz-se de quem fica mesmo espantado, de boca aberta.

Bruno Lage, treinador

bruno lage
Bruno, o treinador

«Obrigado por fazerem de mim treinador.» Quem disse estas seis exactas e nobres palavras foi Bruno Lage, treinador do Sport Lisboa e Benfica*, o meu clube, agradecendo aos seus jogadores. Tinha aos seus pés, de joelhos, um sufocado e exangue  Futebol Clube do Porto, que acabava de vencer na sua própria fortaleza, o estádio do Dragão.  Com a displicência e discreta fé de um Lancelote, Galaad ou Perceval, de um Bogart ou de um Harrison Ford, Bruno Lage reconduziu-nos à maravilhosa tradição cavaleiresca e aos seus códigos de honra, de humildade, de cortesia, justiça e respeito. Ofereceu o mérito aos seus Cavaleiros da Távola Redonda. Para si, quis nada e pediu coisa nenhuma.

Não me digam que a doçura de Bruno Lage não é deste tempo. A doçura de Bruno Lage é um convite para deixarmos que o maravilhoso, o encantamento e a sua grandeza voltem a inundar a nossa vida. Estamos a tempo. Que orgulho.

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Com a devida vénia, foto do Record
*  Quero dizer que bebi até à última gota o cálice Rui Vitória. Defendi-o à outrance. Sobretudo por ter vencido com mérito dois campeonatos e por ver que ele acreditava na renovação, trazendo à equipa os pagens: Renato Sanches, Nelson Semedo, Gonçalo Guedes, por exemplo. Até se chegar, como sempre se chega, ao fim. Estava longe de adivinhar que na formação, além dos jogadores, havia também o incógnito e insuspeito treinador.