Trair a raça

portugueses

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 18 de Julho

A racialização das relações sociais é perigosa. É o que está a acontecer no actual PREC, Polémica Racial em Curso. Brancos e negros precisam de um traço de identidade para serem uma comunidade. Tem de nos unir um projecto de futuro comum. O apelo multiculturalista a uma identidade primária, rácica, leva ao fechamento em clã, um passo para um fundamentalismo que converte quem não tem a mesma pele num inimigo a odiar. E, a seguir, inimigos serão também os que ousem pensar diferente, traidores da sua raça. Brancos e negros.

Para bebermos a bica curta juntos e construir um futuro comum temos de fintar a ratoeira do multiculturalismo.

O novo PREC

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Há uns anos tive o prazer de subir esta escadaria: UCLA

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 16 de Julho

O novo PREC, Polémica Racial Em Curso, tem um mérito: pôs a nu o medo na universidade. Num artigo veemente e frontal, o sociólogo Gabriel Mithá Ribeiro acusou a universidade de ostracizar quem não pensa pela cartilha de esquerda nas chamadas ciências humanas.

Mas o medo de falar – essa velha insídia salazarista – já passou da universidade à vida social. O espectro de décadas de pensamento unidimensional, a que a esquerda se rendeu, assombra cada conversa, cada bica curta. Há uma ameaça de censura e de exclusão, que não honram a liberdade de pensamento e a vontade de saber que esquerda e direita não extremistas têm de partilhar.

A bela pele negra

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Bica Curta servida no CM, na 4.ª feira, dia 10 de Julho

Dizem: os portugueses são racistas. Mas quais portugueses: os brancos ou os negros? Sabemos que a primeira reacção ao outro é hostil. Mas só a dos brancos ou a dos negros também? Medo e desdém são formas de nos vermos que separam e crispam. O combate ao racismo tem de ser holístico. Precisa de informação. Precisa da estatística do INE, à qual se furou um olho proibindo-se-lhe a recolha dos dados étnicos.

Certo umbiguismo das comunidades negras, a incomunicabilidade com a cultura portuguesa são tijolos que erguem outro muro de Berlim. Ou tomamos a bica juntos ou não beijaremos, os brancos a pele negra, os negros a pele branca.

Os valentes álamos do Sul

Quantas vezes já voltei a esta canção? Volto sempre, porque embora seja uma volta grande, uma volta que vai de Lisboa à América, é uma volta que acaba sempre em África. Talvez porque tudo na minha cabeça acaba e começa sempre em África.

linchamento

Era novo e comu­nista. Abel Mee­ro­pol era um jovem judeu do Bronx. Dava aulas no liceu ali ao lado. Foi ele, nes­ses anos pós-crash, que escre­veu o poema.

Tinha visto a foto das árvo­res nos jor­nais. Não viu, mas adi­vi­nhou, o balanço que o doce vento devia dar a tão estra­nha fruta pen­dendo dos ramos dos valen­tes álamos do Sul. Mais tarde, tudo a convidá-lo ao sofri­mento, compôs a música.

O Café Soci­ety era uma cave, no nº1, She­ri­dan Square, em Grenwhich Vil­lage. Bil­lie Holi­day era a atrac­ção e can­tava para uma pla­teia branca e negra – uma rari­dade no final dos anos 30.

Foi o dono, Bar­ney John­son, que apre­sen­tou o imper­ti­nente comu­nista à can­tora negra. Abel can­ta­ro­lou para Bil­lie que, dizem, pare­ceu pouco impres­si­o­nada. O des­men­tido veio dois dias depois. A voz de Bil­lie estendeu-se a todo o com­pri­mento das pala­vras. Tão dei­tada como sofrida. Uma voz a roçar a resignação.

Na pri­meira noite em que Bil­lie can­tou “Strange Fruit” não houve encore no Café Soci­ety: a feli­ci­dade amarga da razão fechou os olhos, cer­rou as mãos. Não se aplaude uma can­ção des­tas, disse um dia Bob Dylan a Marty Scorsese.

Nin­guém quis gra­var “Strange Fruit” até que um dia Bil­lie foi ter com o tio de Billy Cris­tal (sim, esse mesmo) e a can­tou a cap­pella. O disco converteu-se no seu maior sucesso.

O lin­cha­mento dos negros era uma festa de famí­lia no Sul. Vinham homens, mulhe­res e cri­an­ças bran­cas ver os cor­pos dan­çar nos ramos das árvo­res. A voz de Bil­lie Holi­day encosta-se a uma lenta amar­gura para evo­car a his­tó­ria. A sem­pre ter­rí­vel história.

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the lea­ves and blood at the root,
Black bodies swin­ging in the southern bre­eze,
Strange fruit han­ging from the poplar trees.

Pas­to­ral scene of the gal­lant south,
The bul­ging eyes and the twis­ted mouth,
Scent of mag­no­lias, sweet and fresh,
Then the sud­den smell of bur­ning flesh.

Here is the fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bit­ter crop.