Eusé­bio da Silva Fer­reira, meu Deus

Eusébio da Silva Ferreira morreu a 5 de Janeiro de 2014. Fará seis anos, daqui a  três meses. Eu é que não consigo esperar e quero já deixar aqui o texto que escrevi mal soube da sua morte. Já o publiquei até num livro. Mas tem de ficar aqui, aconchegado, nesta Página Negra.

Eusébio

Se Eusé­bio mor­reu hoje, como dizem as infa­ti­gá­veis notí­cias, mor­reu hoje o que res­tava dos meus anos 60 e o que res­tava de Por­tu­gal ter sido um império.

E embora mor­rendo hoje, como dizem as indes­men­tí­veis notí­cias, as cores do mito – esse belo negro da sua pele, esse ver­me­lho vivo da sua cami­sola – não dei­xa­rão nunca mor­rer Eusé­bio. E nem é pre­ciso dizer aqui a pala­vra Ben­fica, por­que a pala­vra Eusé­bio e a pala­vra Ben­fica beijam-se, fundem-se, são uma com­bi­na­ção amo­rosa de que a gra­má­tica tem ciúmes.

Eusé­bio era feito da mesma terra ver­me­lha dos heróis. A força de per­nas de um Hér­cu­les, veloz como Ulis­ses, o joe­lho onde Aqui­les tinha o cal­ca­nhar. Há romance, mis­té­rio e aven­tura em toda a sua vida. Vejam como, da cidade colo­nial de Lou­renço Mar­ques, o tra­zem para Lisboa.

Numa noite de tró­pi­cos, um jipe leva-o à porta do avião. Clan­des­tino quase. E em Lis­boa escondem-no da bruxa má. Tudo por­que Eusé­bio, per­so­ni­fi­ca­ção da bon­dade, fez o que um filho deve fazer, a von­tade à sua mãe. O clube onde jogava que­ria mandá-lo à expe­ri­ên­cia para outro clube. Mas a mãe, como todas as mães, deci­diu pela von­tade do filho: recu­sar vir à expe­ri­ên­cia por­que, como todos os ver­da­dei­ros humil­des, Eusé­bio sabia o que valia.

E o que valia Eusé­bio? Outros dirão muito melhor do que eu. Eu conto-vos só as minhas per­ple­xi­da­des. Eu nunca con­se­guia saber se era o seu pé esquerdo, se o seu pé direito que chu­tava. Por­que, em boa ver­dade, não era ele que chu­tava. A velo­ci­dade rema­tava por ele. E já estou a men­tir ou a enganar-me, por­que, em boa ver­dade, foi com Eusé­bio que a velo­ci­dade apren­deu a jogar à bola. Num tempo em que os car­ros tinham qua­tro velo­ci­da­des, Eusé­bio já tinha a sexta.

Dei­xem deliciar-me ver­go­nho­sa­mente no vício das minhas recor­da­ções. Estou a vê-lo, em Ams­ter­dão, ali­nhado com Águas, Coluna, Simões, antes da final com o Real Madrid come­çar. Está per­fi­lado, a cara­pi­nha cor­tada quase rente, a cabeça redonda de menino, pre­ci­o­sa­mente dese­nhada e bonita, a pele negra bri­lhante, nobre, afri­cana. E era, menino de Moçam­bi­que, o melhor joga­dor por­tu­guês. E eu tenho muito orgu­lho em que o melhor joga­dor por­tu­guês seja um afri­cano, raio de um ex-império que nem um depu­tado negro con­se­gue ter.

Nesse jogo, mar­cou dois golos, os dois, juram-me, e eu não teria tan­tas cer­te­zas, com o pé direito. Pus­kas, Gento e o semi-deus que era Di Ste­fano caí­ram aos seus pés. Eusé­bio, herói com­pas­sivo, foi ao chão bus­car a cami­sola de Di Ste­fano. Pediu-lha, a esse semi-deus aba­tido. Di Ste­fano deu-lha, con­so­lado por aquele pedido de menino, e Eusé­bio guardou-a, por­que Eusé­bio é o guar­dião de todos os símbolos.

Eusé­bio foi o pri­meiro fute­bo­lista a jus­ti­fi­car os 110 metros de com­pri­mento de um campo de fute­bol. Se não fos­sem já essas as medi­das, o campo teria de ser esti­cado. Eusé­bio comia com ale­gria metros de relva. Eusé­bio era um bicho dos gran­des espa­ços, uma pan­tera que que­ria savana. Foi com ele que o fute­bol des­co­briu que a África existia.

Cor­ria em linha recta ou em elipse, fazendo meias-luas, rápi­das mudan­ças de direc­ção, rein­ven­tando a velo­ci­dade, baixando-a, subindo-a. Percebia-se assim, final­mente, por que razão um campo de fute­bol deve ter 75 metros de lar­gura, uma área de 8250 metros qua­dra­dos. Cor­ria e nas per­nas dele cor­ria a pala­vra Ben­fica. Mas tam­bém a pala­vra Portugal.

Foi em 1966, não dou novi­dade nenhuma a nin­guém. Mas vejam outra vez as cores do mito a pin­tar Eusé­bio. Houve um sor­teio dos núme­ros das cami­so­las. Saiu-lhe o 11, ao peque­nino e mara­vi­lhoso Simões o 13. Simões que­ria jogar com o seu habi­tual 11 e, com a ver­dade, deu a volta a Eusé­bio: “Já viste o que é, se joga­res com o 13 e fores, como vais ser, o melhor mar­ca­dor e o melhor joga­dor do mundo?” E foi, com esse número que devia ser fatí­dico, com esse número da fei­ti­ceira Circe, o melhor mar­ca­dor, o melhor joga­dor, o Melhor. As cores do mito, os núme­ros do mito, escolhem-no, querem-no como filho dilecto.

Vi o segundo golo dele ao Bra­sil num filme exi­bido no cinema Impé­rio, em Luanda. Uma obra de arte gigan­tesca em que potên­cia e explo­são se enla­çam. Um golo que ajo­e­lhou o Bra­sil, esse impé­rio romano do fute­bol. De novo e sem­pre as cores do mito: com esse golo, aos pés ala­dos de Eusé­bio, caía Pelé, uma lança espe­tada no flanco.

No jogo com a Coreia do Norte, Eusé­bio car­re­gou, como Hér­cu­les, o mundo aos ombros. Ainda nem a meio da pri­meira parte íamos e a Coreia, aba­lando a ordem do céu e terra, de mares e ares, ganhava por três a zero. Eusé­bio recons­ti­tuiu minu­ci­o­sa­mente a ordem do mundo, todo o uni­verso. Agar­rou nos des­tro­ços e com per­se­ve­rança jun­tou as par­tes. Cor­reu, dri­blou, foi atin­gido vio­len­ta­mente, mas triun­fou. Qua­tro golos foram os tra­ba­lhos de Eusé­bio nessa tarde de gló­ria que aca­ba­ria, dias depois, nas lágri­mas de Wem­bley, momento mais bonito, mais lírico ou ele­gíaco do que qual­quer vitó­ria. Lágri­mas de Eusé­bio que a cami­sola de Por­tu­gal reco­lhe e esconde. Nenhum outro gesto, outras lágri­mas, pode­rão ser tes­te­mu­nho de mais amor.

Mor­reu hoje Eusé­bio da Silva Fer­reira, meu Deus.

Eusebio
Eusébio tem capela cá em casa

 

As raízes

Cristo
Cristo, Diego Velazquez

Há um século, andava eu por um blog que era um cemitério de boa gente morta, escrevi este post que pretendia fazer um mínimo de justiça, justiça que julgo ser-lhe devida, ao papel do cristianismo nos fundamentos da nossa cultura e civilização.

Não creio que o tema seja mais do que um dos gostos anacrónicos e saudosistas com que ocasionalmente envergonho o sanitário mundo em que vivemos. Atendendo à magnitude do tópico, segue-se um lençol que tentei encurtar o mais que pude para não aborrecer muito os meus pacientíssimos leitores.

Começo copiando os manuais de antropologia: as religiões são criações, não dos deuses, mas do homem, cujo indeclarado e primeiro objectivo foi a gestão da violência imanente às sociedades humanas. As religiões não são um movimento obscurantista, mas sim uma criação que amplia o imaginário humano (é delas que nasce a estética, a ética) e funda comportamentos que se inserem numa lógica evolucionista. Parte da sobrevivência dos seres humanos passou e foi garantida pelas religiões. O movimento a que hoje assistimos, de ansiosa procura de transcendência cabe inteiro no paradigma de busca das melhores soluções para a nossa sobrevivência: o mundo contemporâneo, na aparência tão tecnológico e científico, é desvairadamente religioso, por mais bizarras e ridículas que sejam as suas “fés”, e essa parece ser uma escolha de equilíbrio individual e colectivo.

O cristianismo foi, ao surgir, uma revolução. Moisés descera da Montanha com a tábua de leis numa mão e a outra a apagar o fogo que se pegara à túnica e lhe começava a aquecer as partes baixas. Exigia-nos que não matássemos, não roubássemos, não praticássemos adultério. Tudo isto, que já vai contra a “natureza” humana e que, com o monoteísmo, fez o distinguo do judaísmo, é violentamente acelerado por Jesus, o Cristo, quando nos pede para amarmos o próximo como a nós mesmos. Foi noutra Montanha, e com um Sermão, que este galileu de 30 anos, talvez depois de ter bebido ou mastigado erva daninha, propôs: a) que perdoássemos aos que nos fazem mal (vá lá!); b) que déssemos a outra face (convenhamos, já dói um bocadinho); c) e, o que é estarrecedor, amássemos não apenas os nossos amigos (e algumas amigas bem o merecem) mas que amássemos os nossos inimigos.

Para usarmos uma linguagem que deixaria o filho do carpinteiro de cara à banda, no Sermão da Montanha anuncia-se a realização de um “eu” que deve abnegar de “si mesmo” por amor à transcendência. E está a propor-se que, pela aprendizagem do amor ao inimigo (ainda que sejam os nossos carrascos) se interrompa e elimine, pela primeira vez na História, o ciclo da vingança que fundara o mundo como existia.

Cristo dá, a seguir, com o seu exemplo, o segundo passo. As sociedades, até aí, fundavam-se num acto sacrificial exterior ao seu seio – sacrificar o outro, sacrificar um culpado – como forma de apaziguamento da violência da comunidade, sacrifícios que perpetuavam o ciclo de ressentimento e vingança. Cristo, ao oferecer-se inocente ao sacrifício (ou nas palavras da doutrina, Deus ao oferecer o seu Filho), quebra aquele ciclo e funda uma religião baseada na misericórdia, dispensando as vítimas dos actos sacrificiais e detendo o ciclo de vingança. O mundo em que vivemos nasceu nesse gesto revolucionário, o do perdão do outro: “Perdoa-lhes Pai porque não sabem o que fazem”. (Já agora, a Santíssima Trindade é uma fórmula deliciosa para desestruturar o mito edipiano, e antecipar o complexo homónimo que faria a fortuna de Freud, ao incorporar numa só pessoa o pai autoritário e o filho em revolta, pela gratia de um terceiro, o espírito, que garante a mediação do conflito).

Com base neste gesto fundador a(s) Igreja(s) Cristã(s) praticaram e popularizaram uma doutrina da caridade que leva a fazer o bem ao outro sem que essa forma de amor (a “caritas”) exija vínculos familiares, eróticos ou tribais, estabelecendo e firmando a insubstituibilidade do outro.

No plano histórico, as igrejas cristãs criaram (com hospícios, hospitais, asilos, orfanatos) as bases práticas que o Estado Social há-de vir a institucionalizar.

Inicia-se também um processo de democratização: no que eram então as humildes igrejas cristãs, a comunidade reunia-se sem distinção de classe, a mesma lei universal de um só Deus sujeitando todos os membros. Tinham um objectivo:  erradicar o pecado (o mal) através da associação de todos como comunidade. Veja-se por exemplo esta recomendação, no caso de na igreja entrar um pobre ou estrangeiro sem recursos: “… e tu bispo, procurarás de todo o coração arranjar-lhe um lugar, mesmo que tu próprio tenhas de te sentar no chão.” Isto é, o mundo deve ao cristianismo a centralidade da pessoa humana, a valorização do trabalho e condenação da preguiça, o conceito de solidariedade.

Mas a construção das nações soberanas tem de fazer também uma vénia ao cristianismo que foi o intermediário do Direito Romano, bem como da moralidade e instituições greco-romanas, fazendo-as adoptar pelos nossos ancestrais. Tem graça: hoje fala-se de uma ideia de soberania absoluta da nação e do risco da sua perda na Europa, mas se olharmos para a História verificamos que a soberania instigada e legitimada pela Igreja Cristã foi no começo, e continuou longamente, limitada por uma jurisdição eclesiástica transnacional (Deus acima do soberano), papel que agora, secularmente, é ocupado pelo direito internacional, ou por instituições planetárias como a ONU, ou pela UE (às vezes só pela encantadora sereia que é Angela Merkel) à dimensão europeia.

A herança do cristianismo assume formas inesperadas e, por vezes, radicalizadas. Na sua componente mais utópica, por exemplo, o marxismo é um espelho em fogo, radicalizado, do cristianismo. A vontade de justiça social é uma réplica messiânica e a concretização de uma sociedade sem classes, de igualdade e superação da necessidade, espelha a edénica abundância perdida, a que cristãmente voltaremos após a salvação.

Aliás, o cristianismo foi um vigoroso impulsionador do racionalismo. A uma sociedade que, herdada do Império Romano, era, nas suas práticas, astrológica e mágica, o cristianismo respondeu, em particular na Idade Média, desenvolvendo um racionalismo (Agostinho, Aquino) que a filosofia moderna, a partir de Descartes, recebeu, mastigou e engordou até ao colesterol que nos aflige. Esse racionalismo foi, igualmente, a base para o desenvolvimento científico que deve ao cristianismo o ambiente (de que o escândalo de Galileu faz parte) para o seu estabelecimento, vindo em muitos casos os praticantes directamente do clero.

Ao cristianismo devemos, e mais ou menos por esta ordem, o fundamento antropológico que nos retirou do ciclo de sacrifício e vingança, a centralidade da pessoa humana, a solidariedade e o estado social, a aceitação da instância transnacional para limitar a soberania do Estado, o racionalismo como base para o desenvolvimento da ciência. “Ensinamos às nossas crianças que deixámos de perseguir as feiticeiras porque a ciência se impôs ao homem. Ora, o que aconteceu foi o contrário: a ciência impôs-se ao homem porque, por razões morais, religiosas, deixámos de perseguir as feiticeiras.

Já nem falo, por ser provavelmente a mais pacífica das desculpas, mesmo para jacobinos exaltados que gostariam de transformar todas as catedrais em discotecas techno, do que ao cristianismo deve a arte ocidental, ou o que por arte universalmente entendemos.

E o que é, a meu ver, mais extraordinário, devemos ao cristianismo as bases para a secularização e laicidade: a democratização referida e a separação da igreja do estado (de César e de Deus), com o estímulo à criação de nações soberanas foram passos essenciais, num movimento que, ao privatizar a lei religiosa (e por isso Jesus sofreu a perseguição da autoridade religiosa judaica) inicia um processo que culmina na emergência do ateísmo cuja substância e “invenção” estão contidas no próprio cristianismo, essa estranha religião que começa, no seu acto fundador, pela “morte de Deus”.

Terminei. Mas faço declaração de interesses em dois pontos:

  1. Não professo qualquer tipo de religião desde os 18 anos de idade e estou, céptico, chato e sem graça, bem longe de cegar a caminho de Damasco Por maioria de razão não me anima nenhum proselitismo e estou consciente do longo rol de malfeitorias e crimes que, a ferro e fogo, em nome do cristianismo, e tantas vezes a partir das suas igrejas, foram cometidos. Em causa, aqui, apenas os fundamentos.
  2. O que escrevi, eventualmente mal digerido e mal explicado, pode ser encontrado em prosa decente e argumentação lógica em textos de George Steiner, Gianni Vattimo, René Girard, Roger Scruton, entre outros, uns cristãos, outros coisa nenhuma. As asneiras que tenha escrito são, obviamente, da minha inteira responsabilidade.

A mulher casada

Nicolas-Stael
Nicolas um ano antes do fim

Matou-se. Lançou-se de um terraço, em Antibes. Era órfão, exilado e príncipe russo. Pintor sobretudo. Do terraço fatal via-se o mar, essa oscilante antecipação da eternidade.

O suicida, Nicolas de Staël, tinha só 41 anos. Há dois anos que os americanos tinham desatado a comprar-lhe telas: a fanfarra da glória começava a tocar a seus pés, logo a ele que, entre guerras e em Paris, chupara a miséria e mastigara a fome.

Em 1953, ano em que nasci, ainda eu não sabia o que era uma mulher e muito menos uma mulher casada, Nicolas apaixonou-se pela casadíssima Jeanne Mathieu. Era morena, uma luz boa para cegar poetas e pintores, a mesma luz que fizera Staël viver um ano em Marrocos e descobrir as cores, ponta de lança da sua pintura.

Nicolas não lhe tocara com um dedo e já o invadia uma reaccionaríssima paixão: possessiva, ubíqua, omnipresente. Tal como eu vi o fulgor tropical da transcendência nas praias e mangais do km 36, entre Luanda e a Barra do Kwanza, a imagem de Jeanne foi a limalha incandescente no olho e coração de Nicolas. Queria-a, verbo que passou a conjugar com veemência sussurrante.

Mandado e recomendado pelo amicíssimo poeta René Char, seu gémeo em altura, Staël viera com mulher e filhos, passar férias à quinta onde os Mathieu criavam bichos-da-seda. Os Mathieu, pais de Jeanne, eram família patrícia, com gosto pela cultura. Recebiam Char e Albert Camus, melhor amigo de Urbain Polge, marido de Jeanne. O molho vinagrete de Jeanne salvou Camus do tédio de Sartre e salvou meia literatura.

No fim da estada, Staël alugou uma camioneta e viajou a Itália com mulher e filhos, convidando Jeanne a vir com eles. Ela, com a liberdade patrícia de 1953, aceitou. Viagem de tormento familiar, de amor reprimido, garrote apertado no desejo. Regressam e ele despacha a família para Paris. Quer ficar sozinho para pintar, diz. Quer ficar e fica sozinho com Jeanne. Libertou-se o desejo em todas as assoalhadas, sala, cadeirões, varanda, quarto, talvez cama. Não invento: basta ver como Nicolas desatou a pintar nus. Nu de Pé, Nu Deitado, Nu Deitado Azul, Nu Jeanne, e esse Nu Deitado (Nu) que, em 2011, se leiloou por mais de sete milhões de euros.

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fabulosas cores de Nu Deitado (Nu)

Mas Nicolas, príncipe russo, alma dostoievekiana, abomina o pecado. Quer e quer e quer casar com Jeanne. Ela assusta-se e foge para o marido gentil e camusiano. Arde nos pulmões e no estômago de Nicolas um fogo do inferno. Não pode já viver sem a amada. A rejeição do casamento é um punhal que, virasse-se ele de costas, lhe veríamos cravado entre os ombros.

Despreza a glória e os cifrões americanos. Pinta, obsessivo, 254 telas e 300 desenhos. Vive a cada semana uma revolução estética, que deixa os compradores mais estupefactos do que Moisés ao ver a sarça-ardente.

Nicolas não compreende e ainda menos aceita que Jeanne fuja do desejo e do seu amor sinfónico. Está só, abandonou a família e abandonou-o o amigo, um reprovador René Char. Com quem pode Staël falar que o compreenda? Talvez Deus! Queima, então, toda a papelada, menos as cartas que recebeu de Jeanne. Vai entregar-lhas. Jeanne, vestida de medo, manda o marido à porta recebê-las. Nicolas entrega-lhas e diz: “Ganhaste!”

Volta ao apartamento de Antibes e pinta, três dias e três noites, uma tela gigantesca, de 6×3 metros, o Grande Concerto, imponente piano negro à esquerda, contrabaixo dourado à direita, fundo vermelho. O dostoievskiano Nicolas escrevera numa carta: “Preciso desta mulher para me atirar ao abismo!” Acabado o Grande Concerto, subiu ao terraço e mergulhou.

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fulgurante Grande Concerto

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Um agónico Jesus Cristo

Cristo túmulo

Reflexões, se assim se pode dizer, a partir da Deposição de Cristo no Túmulo, de Giambattista Tiepolo, quadro do Museu Nacional de Arte Antiga

O dia desta tela de Giambattista Tiepolo está chuvoso e agónico. Olho e vejo-o, um corpo. Está ali, desfalecido, descido da cruz, de frágil e modesta mortalidade, a carne exposta e pálida, as pernas tristemente pendentes. Eis um homem a ser metido no seu túmulo. Decido trazê-lo para aqui, sentá-lo connosco, consciente de que me vou meter em trabalhos.

Não é um morto como os outros. Volta não volta, ressuscita, o que nos vai obrigar a aturada vigilância para que não ande por aí, sempre ao laréu. E nem posso dizer que não fui avisado. Alertou-me voz amiga que ele adorava caminhar: metia-se pelo deserto, descia ao longo do rio Jordão e, com uma ousadia que mesmo ao mais ousado dos nossos políticos não lembra, conseguia andar sobre as águas.

Olho e vejo a azáfama à volta do corpo despido. Já foi muito popular, conta-me o pessoal que o tenta encaixar na arca fúnebre mal amanhada – agora, há dúvidas de identidade e já nem o nome se sabe. Biografia errática, chegaram a dá-lo nascido numa vaga cidade da Judeia, embora a família fosse da Galileia. A paternidade é duvidosa, com insinuações de inseminação artificial, de acordo com espíritos mais prosaicos. Outros, arrebatados, falam de anjos serenos e anunciadores, de um mítico sopro que semeia a vida.

Do pouco que lhe consegui saber sobre a infância, o mais credível é o testemunho de um empregado de escritório português, alcoólico nas horas vagas, que diz tê-lo visto, menino, a chapinhar nas águas (apurando futura técnica, já se vê) e a levantar as saias às raparigas. Ainda que para dizer isto, o empregado de escritório se tenha negado a si mesmo, usando outra identidade.

(Há um curioso paralelo entre a heteronímia a que, em delírio, este empregado de escritório se entregou e a ideia de que o nosso morto era uma trindade una e indivisível, segundo informação que consta de cartas encontradas em Tarso).

No primeiro acto público parecia aprontar carreira promissora, tendo surpreendido uma sedenta multidão de convidados, num casamento, em Canaã, com o primeiro tinto monocasta de que há memória. Embalado pelo sucesso, abriu olhos a cegos, ouvidos a surdos, fez coxos andarem e pôs mudos a discursar (esta última, prática perniciosa que ainda hoje infesta televisões e parlamentos).

Embora a sua actividade tenha desencadeado vibrantes e histéricas resistências sindicais, primeiro com a menina dos olhos de Jairo, depois com o filho de uma obscura viúva, e por fim com Lázaro, em Betânia, os problemas com o sistema de justiça começaram quando lhe deu para ressuscitar mortos. Puseram-lhe escutas, providência cautelar e, por fim, em sentença de lava mãos, na cabeça uma coroa ecológica e, ao corpo, morte carpinteira, de pregos e madeiro.

Olho e vejo o peito magro, as costelas marcadas na pele macilenta. É corpo de poeta. Foi o que o perdeu. Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra, bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. Devia dizer estes versos com voz de tenor, ao mesmo tempo que advogava, na mão uma pedra e uma linda mulher de rastos na poeira do caminho, uma poética do perdão, sem o triste espectáculo do ressentimento nem faca e alguidar de vingança. Só perdão entre iguais de amai-vos uns aos outros como eu vos amei.

Olho e vejo-o: a pele branca, anémica. Trago-o para aqui, para ser mais um entre nós, com a condição de que não ressuscite e não fale por parábolas. Mas pode muito bem ensinar-nos a ser humildes de espírito para que seja nosso, na terra, o reino dos céus.

 

O decepado

bobbit
Bobbitt merecia a igualdade no amor – todos merecemos

Bica curta servida no CM, 5.ª feira, dia 27 de Junho

Há um quarto de século, Lorena Bobbitt foi violada pelo marido, ex-marine que já só invadia as ociosas tascas da rua. Saciada a braguilha, o homem ressonava sem charme, sem paixão. Nem a bica curta o acordaria. Ela, numa desiludida revolta, pegou numa faca e cortou-lhe o pénis. Como louca, meteu-se no carro e, dando conta de que trazia na mão o membro decepado, atirou-o às silvas.

Passaram 26 anos. A simbólica facada de Bobbitt espelha a castração do homem contemporâneo. A culpa maior é do próprio homem, dos maridos violadores de Bobbitts, que perdem a arte de sedução, a faísca da aventura, a alegria da igualdade no amor.

Nelson Rodrigues, a cujos pecados me confesso

 

 

Nelson
Aos 13 anos, Nel­son come­çou a escre­ver repor­ta­gens poli­ci­ais no jor­nal de que seu pai era direc­tor

Voltar a este texto é, para mim, como rezar pai-nossos e avé-marias quando era adolescente. Rezava-os, consolado pela remissão dos pecados a que, assim, podia voltar com redobrado vigor e de alma limpa. Eu pecador a Nelson Rodrigues me confesso.
O texto sofreu, como sofriam esses pecados, refinamentos perversos. Anda a ser escrito desde que me estreei na blogosfera e até pelo velho Expresso já passou. Esta é a versão longa.

Nelson, Rodrigues, O Anjo Pornográfico
por Manuel S. Fonseca

 “Ou a mulher é fria ou morde. Sem den­tada não há amor possível.”

Estava no meio de um almoço e entre gene­ra­li­za­ções eu disse que gos­tava de ser um escri­tor. “Batata!” rea­gi­ram os ami­gos com comi­se­ra­ção. Não é um escri­tor quem quer. Só é um escri­tor quem a bio­gra­fia ajuda.

Dou o exem­plo do per­nam­bu­cano Nel­son Rodri­gues. Bio­gra­fi­ca­mente ele vai ser sem­pre cari­oca, prova ululante que só depois de viver­mos muito é que devía­mos deci­dir onde nas­cer. Para o que conta, para ser um escri­tor, Nel­son nas­ceu no Rio, viveu cari­oca e cari­oca morreu.

É só o começo. Um escri­tor inventa. Nel­son inven­tou o moderno tea­tro bra­si­leiro ao escre­ver a peça Ves­tido de Noiva e ainda teve tempo para inven­tar, com seu irmão, jor­na­lista des­por­tivo, o derby de futebol do Rio, o Fla-Flu que ainda hoje, da campa onde se enerva, ele deve ver com muito dis­tor­cida pai­xão pó de arroz, fluminense portanto, já que, como jurava Nelson, “a morte não exime nin­guém de seus deve­res clu­bís­ti­cos”.

Mas não é isto o que quero dizer. A bio­gra­fia tem de dar certo muito cedo. Nel­son tinha catorze irmãos. Ter catorze irmãos, esta sim, é já uma asser­ção bíblica, um arran­que lite­rá­rio. No Rio foram morar na Rua Ale­gre, e só o nome da rua é um facto bio­grá­fico de indis­far­çá­vel volú­pia. Nel­son era menino, pou­cos anos. Os vizinhos, naquele tempo, eram uma família. Mas um dia, a vizi­nha do lado, dona Cari­dade, entrou sem bons-dias pela casa de Nel­si­nho e decla­rou à mãe de catorze des­cen­den­tes: “Todos os seus filhos podem fre­quen­tar a minha casa, dona Esther. Menos o Nel­son.” O que Dona Cari­dade disse a seguir, é dito por quem sabe que está já a sub­si­diar uma voca­ção lite­rá­ria: vira Nel­son aos bei­jos em cima dos três ani­nhos de sua filha Odé­lia. Não em pé ou de lado; em cima. E acrescentou um sublinhado pormenor, em movi­mento. Qual­quer um dirá: imaginem o que vai ser este Rodrigues sabendo-se que, sem nunca se ter posto em cima, Fer­nando Pes­soa é quem é.

Pre­nún­cio da tra­gé­dia cari­oca de que Nel­son faria a sua dra­ma­tur­gia, foi a redac­ção com que o futuro cronista assom­brou a pro­fes­sora e uma inteira escola primária. O menino escre­veu uma his­tó­ria de adul­té­rio. Con­tou, na sua infantil redacção, como um marido, com pressa de cha­mar “meu anjo” à esposa amada, chega mais cedo a casa e a sur­pre­ende nua, esten­dida de ofe­re­cida na cama, enquanto um vulto, inso­lente mas só um vulto, sal­tava viril­mente pela janela para a madru­gada indi­fe­rente e cálida. Sem per­der um milí­me­tro de tanto amor, faca cega na mão, o marido mata a mulher e tomba ajo­e­lhado aos pés da cama, a pedir-lhe “perdoa-me por me traí­res”. Estava em jogo uma bio­gra­fia: a escola não dei­xou que nin­guém lesse a redacção do menino, mas concedeu-lhe um pré­mio, pre­ve­nindo gló­ria futura.

Aos 13 anos, Nel­son come­çou a escre­ver repor­ta­gens poli­ci­ais no jor­nal de que seu pai era direc­tor. Num dia de Natal, final dos anos 20 do século que pas­sou, com falta de assunto para pri­meira página, o pai e outros três irmãos mais velhos, todos jor­na­lis­tas, deci­di­ram que a maté­ria de aber­tura seria o des­quite de um casal de pública cele­bri­dade. (Já havia jetset e “famosos” no Rio de Janeiro dos anos 20.) No dia seguinte, a dama visada avan­çou com toda a sua ofensa pela redac­ção. Não encon­trando o patri­arca, viu Roberto, o irmão mais velho, e puxou o gati­lho do revól­ver novi­nho da com­pra dessa manhã. Não sei se, antecipando o estilo de Nelson, ela terá dito: “Tome o seu pre­sente de Natal!” À frente dos olhos de Nel­son, a tra­gé­dia cari­oca consumou-se: o irmão mor­reu e o pai ago­ni­za­ria 67 dias depois, con­su­mido pela dor e por uma trom­bose cere­bral. Nesse dia, Nel­son só que­ria uma coisa: mor­rer. Ferida bio­grá­fica, nunca mais sarou.

Mesmo sabendo que não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, Nel­son Rodri­gues amou. No começo, com a matu­ri­dade dos 14 anos e numa lógica ina­ta­cá­vel, apaixonava-se por actri­zes e dor­mia com pros­ti­tu­tas. Eram amo­res de bei­jos e solu­ços. A bai­la­rina argen­tina de olhos azuis, a estu­dante de Copa­ca­bana, a pro­fes­sora de Ipa­nema. Divi­diu com o irmão Jof­fre a pai­xão por outra bai­la­rina, Eros Volú­sia – vejam: com nomes e fac­tos bio­grá­fi­cos des­tes é fácil ser-se escritor.

Já a Rua Ale­gre lhe tinha dado ajuda em maté­ria sen­ti­men­tal. Nel­son sem­pre lem­brava o sujeito de bigo­di­nho (pode ser que não tivesse, diria ele se aqui estivesse) que a mulher xin­gava à vista do bairro todo. Uma humi­lha­ção mul­ti­pli­cada, de anos. Um dia o sujei­ti­nho débil desa­mar­rou a culpa e, tam­bém na rua, bem no meio dela, bateu. De cinto, até. A vizi­nhança cor­reu para o espec­tá­culo: “bate mais, bate mais” pediam as mulhe­res. E ele bateu com a eufo­ria de um anjo ressentido, até se can­sar. Não foi só o mulhe­rio que aplau­diu. Ela, sofrida e orgu­lhosa, atirou-se-lhe aos pés e desa­tou a beijá-lo. “Toda mulher gosta de apa­nhar” filo­so­fou o ado­les­cente Nelson.

Sexo e morte, sublime e sór­dido – que outra coisa é que pode ser uma bio­gra­fia? Casou. Um dia, regres­sando ao jor­nal o Globo, depois de cura no sana­tó­rio, disseram-lhe: “Tem uma mulher na redac­ção, 19 anos, mora­dora do Está­cio e dura na queda”. “Pode dei­xar, está no papo” disse logo o des­lei­xado e indo­lente Nel­son. Era Elza, meia-siciliana, com uma famí­lia que a Nel­son nem vê-lo, numa rejei­ção que põe logo uma man­cha de honra numa bio­gra­fia. Casaram-se clan­des­ti­nos, no horá­rio de tra­ba­lho, come­mo­rando a torradas e café com leite, e jurando que noite de núp­cias só com o casa­mento reli­gi­oso. Cum­pri­ram. Des­ca­sa­riam muito mais tarde. Depois de outros dois casa­men­tos dele, vol­ta­ram a casar. Quando Nel­son mor­reu, Elza, ainda em vida, colo­cou como lhe pro­me­tera, o nome na lápide ao lado do nome dele, logo debaixo da ins­cri­ção: “Uni­dos para além da vida e da morte. É só.” Por­que, como toda a sua obra reclama, amor que acaba não era amor.

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“Pode dei­xar, está no papo” disse logo o des­lei­xado e indo­lente Nel­sonsira um título

Podia con­ti­nuar: a bio­gra­fia de Nel­son Rodri­gues é inul­tra­pas­sá­vel de copi­osa. Angustia-me uma pequena dúvida: foi mesmo a bio­gra­fia que o obri­gou a ser o escri­tor que é, cri­ando um ima­gi­ná­rio de sexo punido e puni­tivo, trai­ção, incesto, cru­eza, sen­ti­men­tos torturados, ou é por ser o escri­tor que é, que Nel­son Rodri­gues teve esta bio­gra­fia exces­siva, auto-paródica, isenta de tédio e tão ter­ri­vel­mente cheia de quotidiano?! Mas parece que não é bem assim e há mui­tas reservas…

Sim, mas há quem ponha reser­vas a Nel­son, segredam-me. Por patri­o­tismo lin­guís­tico, rejeito a mínima reserva, aviso já. Nenhuma reserva a Nel­son Rodri­gues é per­mi­tida, auto­ri­zada, mesmo a título de omis­são pre­sente ou inten­ção futura! A mínima reserva a Nelson é pecado mortal.

Reserva polí­tica? Atire a pri­meira pedra o que sou­ber resol­ver o dilema de quem era amigo de gene­rais e pai de guer­ri­lheiro.

Reserva artística? O tea­tro, coisa e tal? Mas vejam e quem não viu por­que não pode, leia que foi o que eu fiz, o “Álbum de Famí­lia”! Oh, o fim do 2º acto com Gui­lherme dis­pa­rando o revól­ver sobre a irmã Glo­ri­nha – duas vezes, meus ami­gos, duas vezes – com ciú­mes do pai. E leiam a “Engra­ça­di­nha!” e as cró­ni­cas. Des­me­su­rado, injusto, con­tra­di­tó­rio, isso tudo e mais o que seja, o autor cari­oca foi sobre­tudo alguém que reve­lou — antes do tempo — algu­mas arma­di­lhas do pen­sa­mento então domi­nante (se me per­mi­tem des­taco dois dos mai­o­res equí­vo­cos do pen­sa­mento político-mediático da altura, Sar­tre e Dom Hél­der da Câmara, que ele tra­tou como duas bes­tas qua­dra­das). Aben­ço­a­da­mente incor­recto nessa maté­ria, Nel­son foi cor­rec­tís­simo a escre­ver sobre o tumulto das rela­ções fami­li­a­res e amo­ro­sas. Adi­vi­nhou tudo: o dead end da classe média, o inferno dos trau­mas fami­li­a­res, o fim de um mundo base­ado na len­ti­dão dos “bon­des que não che­gam nunca”.

Foi ele mesmo que disse: “O artista tem que ser génio para alguns e imbe­cil para outros. Se puder ser imbe­cil para todos, melhor ainda.” Seja­mos unâ­ni­mes e con­ce­da­mos a Nel­son o esta­tuto de “melhor ainda” que é o que faz dele um dos mai­o­res pro­sa­do­res da lín­gua por­tu­guesa do século XX. Não se me ponham a olhar para os lírios do campo: olhem mas é para cada uma das fra­ses dele e delirem com a adjec­ti­vada jus­tiça que as molda, rindo-se das subs­tan­ti­vas injus­ti­ças que por­ven­tura con­te­nham. Ah, o que ainda hoje, sau­dosa, a lín­gua chora por ter per­dido a desar­vo­rada exci­ta­ção e afro­di­síaca sur­presa de um amante assim. Faz-lhe muita falta um homem lá em casa. À língua.

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a desar­vo­rada exci­ta­ção e afro­di­síaca sur­presa de um amante assim

Não é separação, é solidão

E_Hopper

Bem sei que é de Cole Por­ter. Bas­ta­ria para que fosse His­tó­ria. E há can­ções de que gos­ta­mos por terem sido História. Tê-la can­tado Ella Fitz­ge­rald só a faz ainda mais His­tó­ria.

Perdoem-me se penso e me atrevo a dizer que K. D. Lang arran­cou “So in Love” da His­tó­ria e fez con­tem­po­râ­nea a pai­xão que Por­ter lou­vou em 1948. Pouco inte­ressa que o céu se encha de estre­las: é negrís­sima noite o que sai da voz de Lang. Quem aqui ama, ama com abso­luta cons­ci­ên­cia de amar sozi­nho. Não é uma sepa­ra­ção que se chora, é lúcida memó­ria num oce­ano de soli­dão o que sai da boca desta mulher .