O corpete e a inútil bengala

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Rolla, Henri Gervex

A propósito de taxas de juros e outras trocas monetaristas e de coisinhas da silly season, tomem lá  o apogeu da procura e oferta do corpo feminino, no quadro de um tempo em que o bordel começou a rivalizar com a igreja como lugar de destino e culto. Visitem este quadro de Henri Gervex (que hoje nos cheira, se permitem que meta o nariz onde não se deve, a academismo).

“Rolla” (1878) foi pintado alguns anos depois da “Olympia” de Manet, e inspirado por um poema de Alfred de Musset. O centro do quadro é Marie, a prostituta pela qual Rolla, consumido pela paixão, pagou uma noite de amor. Dissipou assim as últimas notas, conseguidas com a venda da sua pistola, e algumas emprestadas pelos amigos aos quais jurara que, obtidos os favores de Marie (Marion), a luz do sol já não o voltaria a encontrar com vida. Cara, muito cara, Marie. Agora, a morte espera o apavorado Rolla enquanto o corpo macio de Marie se delicia com um sono tão lascivo como a satisfeita noite que os lábios entreabertos denunciam.

Gosto do luxo do leito, da invasora luz matinal, do corpete caído no sofá (diz-se que por sugestão de Degas), atravessado pela cana da inútil bengala. Para além da portada aberta, Paris, o boulevard.

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Henri Gervex em auto-retrato: Discussão de Amantes

A mulher casada

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Nicolas um ano antes do fim

Matou-se. Lançou-se de um terraço, em Antibes. Era órfão, exilado e príncipe russo. Pintor sobretudo. Do terraço fatal via-se o mar, essa oscilante antecipação da eternidade.

O suicida, Nicolas de Staël, tinha só 41 anos. Há dois anos que os americanos tinham desatado a comprar-lhe telas: a fanfarra da glória começava a tocar a seus pés, logo a ele que, entre guerras e em Paris, chupara a miséria e mastigara a fome.

Em 1953, ano em que nasci, ainda eu não sabia o que era uma mulher e muito menos uma mulher casada, Nicolas apaixonou-se pela casadíssima Jeanne Mathieu. Era morena, uma luz boa para cegar poetas e pintores, a mesma luz que fizera Staël viver um ano em Marrocos e descobrir as cores, ponta de lança da sua pintura.

Nicolas não lhe tocara com um dedo e já o invadia uma reaccionaríssima paixão: possessiva, ubíqua, omnipresente. Tal como eu vi o fulgor tropical da transcendência nas praias e mangais do km 36, entre Luanda e a Barra do Kwanza, a imagem de Jeanne foi a limalha incandescente no olho e coração de Nicolas. Queria-a, verbo que passou a conjugar com veemência sussurrante.

Mandado e recomendado pelo amicíssimo poeta René Char, seu gémeo em altura, Staël viera com mulher e filhos, passar férias à quinta onde os Mathieu criavam bichos-da-seda. Os Mathieu, pais de Jeanne, eram família patrícia, com gosto pela cultura. Recebiam Char e Albert Camus, melhor amigo de Urbain Polge, marido de Jeanne. O molho vinagrete de Jeanne salvou Camus do tédio de Sartre e salvou meia literatura.

No fim da estada, Staël alugou uma camioneta e viajou a Itália com mulher e filhos, convidando Jeanne a vir com eles. Ela, com a liberdade patrícia de 1953, aceitou. Viagem de tormento familiar, de amor reprimido, garrote apertado no desejo. Regressam e ele despacha a família para Paris. Quer ficar sozinho para pintar, diz. Quer ficar e fica sozinho com Jeanne. Libertou-se o desejo em todas as assoalhadas, sala, cadeirões, varanda, quarto, talvez cama. Não invento: basta ver como Nicolas desatou a pintar nus. Nu de Pé, Nu Deitado, Nu Deitado Azul, Nu Jeanne, e esse Nu Deitado (Nu) que, em 2011, se leiloou por mais de sete milhões de euros.

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fabulosas cores de Nu Deitado (Nu)

Mas Nicolas, príncipe russo, alma dostoievekiana, abomina o pecado. Quer e quer e quer casar com Jeanne. Ela assusta-se e foge para o marido gentil e camusiano. Arde nos pulmões e no estômago de Nicolas um fogo do inferno. Não pode já viver sem a amada. A rejeição do casamento é um punhal que, virasse-se ele de costas, lhe veríamos cravado entre os ombros.

Despreza a glória e os cifrões americanos. Pinta, obsessivo, 254 telas e 300 desenhos. Vive a cada semana uma revolução estética, que deixa os compradores mais estupefactos do que Moisés ao ver a sarça-ardente.

Nicolas não compreende e ainda menos aceita que Jeanne fuja do desejo e do seu amor sinfónico. Está só, abandonou a família e abandonou-o o amigo, um reprovador René Char. Com quem pode Staël falar que o compreenda? Talvez Deus! Queima, então, toda a papelada, menos as cartas que recebeu de Jeanne. Vai entregar-lhas. Jeanne, vestida de medo, manda o marido à porta recebê-las. Nicolas entrega-lhas e diz: “Ganhaste!”

Volta ao apartamento de Antibes e pinta, três dias e três noites, uma tela gigantesca, de 6×3 metros, o Grande Concerto, imponente piano negro à esquerda, contrabaixo dourado à direita, fundo vermelho. O dostoievskiano Nicolas escrevera numa carta: “Preciso desta mulher para me atirar ao abismo!” Acabado o Grande Concerto, subiu ao terraço e mergulhou.

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fulgurante Grande Concerto

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Mona Lisa

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Daniel Arasse, historiador e teórico de arte francês, que morreu em 2003, desafiou-me e desafia-nos, se o lermos, para um exercício que é prova provada de que surpresas, surpresas, as melhores vêm-nos do cemitério.

Já viste a Mona Lisa?”, perguntou-me. Olhei-lhe para o cadáver com superior vivacidade. Não ligou nenhuma e continuou: “Deixa-me descrever-te o quadro e não te admires do monte de coisas que vais admitir que nunca tinhas visto.” Tenho pena que não possam estar a vê-lo e ouvi-lo. Conto eu que não é mesmo a mesma coisa, mas é o que se arranja.

Ele disse-me e percebi logo que era verdade: a Gioconda, Lisa del Giocondo, está sentada numa varanda. Não vemos, mas há uma coluna à esquerda e outra à direita, típicas colunas duma loggia fechada por um murete baixo que no quadro, atrás dela, não distinguimos.

Ela, a Mona Lisa, está sentada num cadeirão (de verga, claro) de braços altos, num dos quais apoia (vejam!) o braço esquerdo. A loggia está num ponto alto – só pode,  porque a perspectiva é a de um fundo distante, difuso, de rochas, terra e água, de difícil legibilidade. Eu, por exemplo, juro que à esquerda da cabeça e do misterioso sorriso da Gioconda vejo uma massa em que se fundem rochas e árvores, enquanto Arasse diz que não senhor, nem uma árvore, só a linha fina de um lago, e nenhuma construção humana, nenhuma presença humana. O que, explica-me o paradoxal Arasse, não é verdade. O olhar de Gioconda denuncia a presença do pintor, de Leonardo Da Vinci? Sim, como o de quase todos os modelos. Mas não há só um olhar, há também um sorriso. (Arasse ensinou-me, mas desconfio da informação, que foi o primeiro sorriso da história da pintura). E o sorriso, digo agora eu, não está dirigido na exacta direcção do olhar.

Lisa Gherardini sorri para Francesco del Giocondo, seu marido, que, de pé, três passos atrás de Leonardo, a contempla, orgulhoso dela e dos dois filhos varões que ela lhe deu. Estão lá os dois, Leonardo no olhar, Francesco no sorriso. Nos dedos longos, os da mão direita entreabertos de acariciar a seda da manga, no peito que, depois de sofregamente beijado por Francesco, já amamentou, na alta testa, na pele ainda tão fresca, perpassa a felicidade de uma mulher que se cumpriu e que sabe que é modelo de uma pintura que vai colocar no novo palácio que Francesco comprou. Não sabe ainda, não pode adivinhar, que Da Vinci, vizinho deles, nunca lhe irá entregar o quadro.

Não grites

O que faríamos de Edvard Munch se  “O Grito” tivesse sido definitivamente roubado?  (E sim, as duas versões que Munch pintou foram ambas roubadas. Depois, felizmente, recuperadas.) Deixaríamos de o admirar e venerar como pintor?

Munch

Haverá menos angústia nesta “Separação” em que  desapareces silenciosa e branca e me deixas de atormentados olhos cegos? A mão, a minha mão, segura o quê, o peito cavo, o queimado coração?

E mesmo que “O Grito” tivesse sido estropiado, retalhado, não tremeríamos com a mesma ansiedade perante a intimidade desta “Maddona” tão serena e consentida a oferecer-se à Luz que do alto desce a nimbar-lhe as eróticas formas para que, feita senhor a tua vontade, hajas tu menino jesus?

Madonna

Vénus em larga escala

Quando escrevi o que aqui escrevi sobre Manet e Ticiano, devia ter feito justiça ao modelo inicial, à primeira representação numa tela de larga escala (um metro e oito por um e setenta e cinco) de uma Vénus em total e abençoada nudez. Pintada por Giorgione, pintor que se funde coma Veneza do seu tempo.

Vénus
Vénus adormecida

Antes de Ticiano (que terá finalizado o quadro por morte de Giorgione), por mais que a mão tape, ou porque tanto a mão tapa, o que esta adormecida Vénus reclama é o nosso olhar. Mesmo que feche os olhos ou, por isso, fecha os olhos.

É Vénus, mas de Veneza, duma cidade rica, católica e insolente. Ainda é Vénus, como poderia ser a Virgem se a Virgem pudesse ser pintada nua. Ainda é Vénus mas já é o corpo de uma mulher. Ticiano, levando-a para o interior da casa, deitando-a no leito conjugal como dama despida, completou essa lavagem do olhar.

Mas sem Veneza, sem a sensualidade e liberdade de Veneza, “cidade das mil e uma noites do catolicismo” como Sollers a chamou, não teríamos aqueles olhos fechados, aquela Vénus adormecida. Madame de Pompadour terá perguntado a Casanova, numa noite de Paris, “Você, vem lá de baixo, não é?”. E Casanova, gentil “Veneza não é lá em baixo, é lá em cima, Madame!”
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Um pouco de pão, uma garrafa de tinto

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Kiki de Montparnasse inventou a mulher livre antes que alguém explicasse ao mundo o que era a mulher livre. Em Paris, aos 15 anos, por dez cêntimos, mostrava os seios, ainda mais bonitos do que os do busto da nossa República. Resgatou-a um miserável pintor expressionista da escola de Paris, Chaim Soutine. Para a aquecer, Soutine escavacou e pôs na lareira a última mesa, o que lhe restava de cadeiras. Eis o que devia fazer de todos nós defensores acérrimos do expressionismo francês.

Filha de mãe solteira, ou como ela diria, filha de uma coisinha de nada, Alice Prin, a futura Kiki, foi criada pela avó e veio ter com a mãe a Paris, aos 14 anos. Lavou pratos em restaurantes e deu-se mal com ordens e abusos. Tinha um corpo de Scarlett Johansson e ofereceu-se como modelo de escultores. A mãe, a visão da arte de um Santo Inácio de Loyola ou de um Santo Estaline, tomou aquilo por prostituição e pô-la no gélido olho da rua.

Soutine tirou-a da rua, aqueceu-a e vestiu-a. Alice logo posou para a alcateia de pintores que uivava, famélica, pelas vielas de Montparnasse. De Alice a Kiki, seu imortal nome artístico, foi um passo. Pintaram-na Modigliani, Kiesling, o franco-japonês Foujita. Oferecia-lhes um ventre lisinho, ainda sem um pêlo púbico sequer. Foujita vinha olhá-la de muito perto na esperança de assistir ao nascimento do primeiro.

E estou a ser cobarde, escondendo o essencial. Kiki veio posar por amar as artes. Sem estudos, descobriu na liberdade dos escultures e pintores, a sua liberdade. Fundiu-se nas artes e as artes nela com um primitivismo feroz. A primeira vez que foi, por 40 cêntimos, posar para Foujita, tirou o casaco comprido e logo ficou numa nudez de origem do mundo, mas mandou Foujita pôr-se com dono e, nuíssima, começou ela a desenhá-lo. Cantava, dançava, comia pão e camembert. No fim, cobrou o seu dinheiro, vestiu o casaco e levou o desenho. No café, um marchand, para espanto de Foujita, pagou uma pipinha de massa por ele.

Era boa e era livre. Foi o que descobriu Man Ray, pluralíssimo artista americano, pintor e fotógrafo. Conheceram-se num café e foram esconder o inconfessado desejo num cinema. Man Ray quis fotografá-la em esplendor bebé. Kiki recusou: a fotografia era uma reprodução mecânica da realidade e se ela se despia era para se dar à imaginação e à transfiguração. Ray demorou cinco dias a convencê-la. Convenceu-a e ela disse-lhe, com uma timidez de me fazer chorar, que não tinha púbis. Ele sorriu: “Tanto melhor, menos problemas temos com a censura.” Agora, num tabuleiro lá de casa, eu tomo o pequeno-almoço, todos os meus santos dias, sobre as costas nuas de Kiki, esse violino de Ingres, a mais famosa fotografia de Man Ray, que lhe assegurou a terna eternidade.

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Violon d’ Ingres, a célebre fotografia de Man Ray

Foram amantes no sobressalto de seis e mais dois anos. Mas Kiki de Montparnasse foi mais do que a amante e modelo de Man Ray.

A primeira exposição de desenhos e pinturas dela vendeu todos os quadros. Fez espectáculos em Paris e Berlim, rivalizando ao tempo com a Piaf. Publicou as suas memórias, que Hemingway quis prefaciar. Deu fama ao corte de cabelo que Louise Brooks usaria no erotíssimo filme “Loulou”, do alemão Pabst. Usava as mesmas egípcias sobrancelhas de Cleópatra, o escândalo de uma boca escarlate, meias e ligas negríssimas nas actuações de cabaret.

Foi a alma e a rainha de Montparnasse nos loucos anos 20, há cem anos, guiada por uma filosofia simples: “Só preciso de uma cebola, um pouco de pão, uma garrafa de tinto e vou sempre ter alguém que mos ofereça.”

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Kiki de Montparnasse: à esquerda por Kees van Dongen; à direita por Moise-Kisling

Publicado em Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Confraria do vermute, do conhaque e do traçado

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Imaginemos que alguém se lembrava de dar música à pin­tura de Hop­per. E imaginemos que alguém se lembrava de criar uma banda sonora para Edward Hop­per armando a estra­nha com­bi­na­ção de Frank Sina­tra e Nel­son Gon­çal­ves. Que a mim me parece até bem lógica. Olhem lá para cima para Hopper e ouçam aqui em baixo Sinatra.

Dir-me-ão – já me disseram – Sina­tra sim, mas porquê Nel­son Gon­çal­ves?

Só sei que esse bra­si­leiro, filhos de pobres pais por­tu­gue­ses, homem de cin­quenta modes­tís­si­mos ofí­cios e de cem rotun­dos falhan­ços, tem uma voz antiga, trá­gica, operática. Voz hiper­bó­lica onde a de Sina­tra é de uma angus­ti­ada harmonia.

Não quero saber, e quando o nosso santo corpo e os nossos pacientes ouvidos não querem saber é por­que têm razão! E jura­ria que ambos, Sinatra e Gonçalves fazem parte “dessa estra­nha con­fra­ria do ver­mute, do conha­que e do tra­çado”. É natu­ral que tenham bebido jun­tos no soli­tá­rio bar de Hopper.

Judite e Holofernes

JUdith

É já dia 27 que vai a leilão esta bíblica Judite, a cortar o pescoço ao general assírio Holofernes. Viúva, a judia Judite, para salvar a sua cidade, Betúlia, cercada pelos assírios, seduz o general inimigo, embebeda-o e, com um golpe de espada, decapita-o. Regressa, depois, a Betúlia com a cabeça, que os judeus exibem às tropas adversárias, vencendo-as.

O quadro, descoberto há poucos anos, tem sido objecto de controvérsia. No dia 27, será leiloado como um Caravaggio genuíno. A base do leilão é de 30 milhões de euros, mas espera-se que ele acabe comprado por 100 a 120 milhões.

Caravaggio pintara, alguns anos antes, julga-se uma tela com esse mesmo tema, a viúva Judite de branco e ao centro. Na pintura a leilão, Judite está à direita e veste-se de negro.

Quero avisar já os leiloeiros, em Toulouse, que não licitarei. O valor está ligeiramente acima das minhas possibilidades, como largamente acima das minhas possibilidades está dizer se este “Judite e Holofernes” é ou não autoria do mais apaixonantes dos pintores ou se é de um discípulo franco-flamengo, Louis Finson. A olhar para o negro de uma e de outra das duas belíssima telas, gostaria de acreditar que a mão de Caravaggio, pincel como uma espada, pintou as duas.

udit_y_Holofernes,_por_Caravaggio