Homens e Mulheres: uma lista

Ora isto foi um desafio que me fizeram em tempos. E eu respondi. Pensei actualizar e logo desisti. cassius-clay.jpg

Lista dos homens que gostava que fossem meus irmãos… e das mulheres que nunca Deus permita tal coisa

Dava-me jeito o Bogart como irmão mais velho: hey kid, não tens idade para whisky, mas ensino-te a pescar e a way with girls.

Não me dava jeito nenhum a Bacall como sister mesmo in-law. Nem mesmo em pensamento gostava de sentir coisas que fizessem o meu irmão mais velho corar como um tomate.

O Clooney sim: maninho, o que poupava em café. Ainda melhor, o Rui Nabeiro, que o Delta é o melhor café do mundo.

Dos pais da Keira Knightley nem filho adoptivo aceitava ser. Visita da casa, sim, a roçar-me pelas paredes, torpe, voyeur, na eterna esperança de que pelo menos um daqueles ínvios olhares do “Atonement” se estampasse nos meus olhos.

Escolhia Allan Bloom, professor meu irmão, homossexual as they say, para me educar em Shakespeare, nos dead white male, na beleza do amor hetero, da courtship, do casamento e do compromisso, revolucionário na vida, conservador na cultura. (Com a vantagem de vir lá a casa, de vez em quando, o Saul Bellow.)

Ó, o que eu acredito em temperamentos religiosos. Pela Christina Rossetti, minha prima pré-rafaelita, rejeitava o conforto agnóstico, teria sido devoto High Anglican, e saberia que My heart is gladder than all these / Because my love is come to me.

Andaria, andei pelas ruas de Louisville de mão dada contigo, Cassius Clay, Muhammad Ali, my brother, e aprendi a mexer os pés como um bailarino, a assustar os fortes, o desdém dos camiões de músculos.

Irmã coisa nenhuma: sonho-te minha vizinha do lado. Virgem de brincar aos enfermeiros, quando tivemos, Winona e eu, a idade da inocência.

Nem que fosse só meio-irmão, queria ser, de John Fitzgerald. Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que podes fazer pelo teu país. Também para ter a Marilyn na festa de anos.

Da Jean Seberg irmão é que não. Sonhei que esbarrava nela, em St. Germain (caíste?), e um quarto esconso, dégueulasse, rue du Bac.

Teria muito orgulho na tua voz profunda, sonora, Lord Jim, senhor, meu irmão. Talvez me tivesses deixado ir ter contigo ao Oriente para conhecer, como tu, a “mágica monotonia da existência entre céu e água”.

Angelina Jolie, querida irmã, totem ou tabu?

Saudades do Escrever é Triste

Um dia destes, na RTP 2, há de aparecer um programa sobre o Escrever é Triste. Com a ágil e emotiva realização do Ricardo Espírito Santo. O Escrever é Triste é, como sabem, um blog. Que se prolonga na página homónima do facebook e, por simpatia, nesta minha Página Negra. Antecipo as saudades que nesse programa evoquei. Ah, où sont-ils les amis d’antan?

hiperbole

A Amizade 

A amizade não é nenhum fogo que arda sem se ver. A amizade que juntou os Tristes do Escrever é Triste é um lume brando, lareira que nunca se apaga. Não estamos à espera de ser todos raptados pelo Daesh e virem os nossos Pedros, Norton ou Bidarra, de kalashnikovs na mão, à Schwarzenegger, salvar-nos o pêlo. A amizade não tem, nem precisa, desse heroísmo, porque a amizade é constante e rotineira, como o primeiro café da manhã.

A amizade não é excepcional. Excepcionais são os superpoderes da Wonder Woman. Não queremos que as nossas Vasconcellos, a Eugénia e a Rita, saltem de prédios, mergulhem da Ponte 25 de Abril e persigam à espada os fantasmas que nos ameaçam.

A amizade é melosa e preguiçosa. Não tem pressa, vem a pé e, às vezes, nem sequer vem, basta-lhe telefonar ou mandar uma sms. A amizade farta-se de desejar. Cada Triste do Escrever é Triste deseja silenciosamente o bem dos outros. A amizade é um quieto e sossegado ficar feliz com a felicidade de cada Triste.

Dinis Machado

Há dez anos, a 4 de Outubro, escrevi este texto de adeus – farewell my lovely – ao Dinis Machado. Não me levem a mal , mas vou juntar aqui as orações fúnebres dedicadas aos meus amigos que se meteram pelos labírinticos caminhos entre nuvens e estrelas. Temos de ir mantendo a conversa em dia: se faltam, é para aí 20 anos, até ir ter convosco. Um pingo de tempo, grão de areia da vossa eternidade.
Ps – Dinis, lembrei-me de te reenviar esta prosa ao tropeçar com as fotos de um fim de ano, na minha antiga casa da Teófilo Braga. Lembras-te? Era uma casa pequena, mas tinha um pavilhão lá atrás, a seguir a um quintal com canteiros e flores. Se estavas bem nas fotos? Lindo. Mas estávamos todos, éramos uns 14 ou 15, tão bem vestidas as mulheres, colos em que pousava a dourada cintilação de um colar, pernas felizes, bem torneadas. Há amor nos olhares. Que belas fotos. tenho de as mostrar ao António Setúbal, o nosso Gutierres, no próximo jantar.

dinis machado

Gostávamos todos do Dinis. Estabelecemos o pacto – pacto de grupo – em Tróia, no clássico festival de cinema, e depois andámos anos em jantares e aniversários. Bom sinal, tanto nos juntou a alegria de sucessos, como a tristeza dos fracassos.

Gostávamos todos do Dinis. Mas havia dois que o amavam. Primeiro, a Dulce, carinhosa e vigilante. Depois, o Pedro Bandeira Freire, que era, Dinis, teu irmão mais novo e teu irmão mais velho. Nunca vi ninguém tão desinteressadamente atento como ele o foi contigo. A vossa amizade, franca e forte, é uma das lições da minha vida. E iluminou-me mais do que tudo o que, de há uns anos a esta parte, tenho ouvido dizer de ti.

Sei bem que escreveste livros – que, aliás, li com gosto, eu que só tenho metade da mania de ler que tu cultivaste até à exaustão. Mas se queres que te diga, hoje que fui contigo dar a última volta até ao Alto de São João, do que me recordo mais é mesmo de teres sempre continuado a ser um puto de Lisboa (sei que eras do Bairro Alto, mas insisto que também eras de Alcântara, onde ias jogar pelo Atlético). Um puto de bairro, um bocadinho envergonhado com a gentileza que te inundava.

É disso que me vou recordar por mais uns anos, espero. E dos teus casacos de tweed, como o que levavas hoje. Das cigarrilhas, a que hoje te poupaste.

Morreste porque todos temos de morrer, é mesmo assim. Mas escolheste morrer como o Bogart, que morreu de cancro de pulmão por causa de milhões de cigarros e de whiskies a que nunca lhe passou pela cabeça resistir.

Morreste com estilo – “Encostei a cabeça para trás e fechei os olhos.” – como sempre escreveste com estilo.

Acreditavas na sorte. Com sorte, o Pedro está lá a tua espera. O Hammett de um lado e o Chandler do outro, que é a guarda de honra que mereces. Espero que gostes de um bom dry martini. Foi o que lhes sugeri para começo de conversa. With an olive, está claro.