David e a cabeça de Golias

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Nada é real. Um rapaz, túnica presa de um só ombro, tem uma tranquila espada na mão direita enquanto a esquerda segura pelos cabelos uma cabeça de homem, apenas uma surpreendida cabeça de homem, sem corpo. Poderia ser de uma violência inaudita – se fosse real. Mas nada é real.

As figuras saem do negro, um negro saturado. Não é um negro de noite, é um negro inventado por olhos iníquos, olhos de bas-fond. O negro donde emergem o rapaz e a cabeça do homem, digo, David e a cabeça de Golias – negro tão liso, tão cego – só pode ser um negro completamente pintado. Houve quem dissesse que pintar assim era destruir a pintura.

E, no entanto, David, a espada e a cabeça de Golias vêem-se tão bem, tão definitiva e vivamente recortados. E basta olharmos um segundo para sabermos que não há nenhuma forma física da luz os iluminar desta maneira. Nem é preciso. Esta é uma pintura anterior ao fiat lux do Génesis: a luz não vem, não tem de vir de lado nenhum: a luz é o que, por pura ilusão, pensamos ser os corpos. O braço, o torso, o linho branco da túnica de David, David ele mesmo, o fio da espada, são luz. Luz de dentro, não luz de fora. Teatro negro, teatro de luz. Sem uma única sombra.

 Não admira que, corria o ano de 1609 e tendo Caravaggio 38 anos, tenha sido uma das suas obras finais.

Judite e Holofernes

JUdith

É já dia 27 que vai a leilão esta bíblica Judite, a cortar o pescoço ao general assírio Holofernes. Viúva, a judia Judite, para salvar a sua cidade, Betúlia, cercada pelos assírios, seduz o general inimigo, embebeda-o e, com um golpe de espada, decapita-o. Regressa, depois, a Betúlia com a cabeça, que os judeus exibem às tropas adversárias, vencendo-as.

O quadro, descoberto há poucos anos, tem sido objecto de controvérsia. No dia 27, será leiloado como um Caravaggio genuíno. A base do leilão é de 30 milhões de euros, mas espera-se que ele acabe comprado por 100 a 120 milhões.

Caravaggio pintara, alguns anos antes, julga-se uma tela com esse mesmo tema, a viúva Judite de branco e ao centro. Na pintura a leilão, Judite está à direita e veste-se de negro.

Quero avisar já os leiloeiros, em Toulouse, que não licitarei. O valor está ligeiramente acima das minhas possibilidades, como largamente acima das minhas possibilidades está dizer se este “Judite e Holofernes” é ou não autoria do mais apaixonantes dos pintores ou se é de um discípulo franco-flamengo, Louis Finson. A olhar para o negro de uma e de outra das duas belíssima telas, gostaria de acreditar que a mão de Caravaggio, pincel como uma espada, pintou as duas.

udit_y_Holofernes,_por_Caravaggio