O preço da democracia

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Bica Curta bebida no CM, na 3ª feira, dia 2 de Abril

A bica, curta ou cheia, não é famosa em Londres. É pior ainda no resto do Reino Unido. Mas, por mais palatáveis razões de queixa que tenhamos do café inglês, não os podemos acusar de falta de literacia. O Reino Unido tem um povo educado. Sabe ler bem, tem bons jornais, a progressiva BBC. Todavia, votaram o que votaram no Brexit por falta de informação. Pior: paparam desinformação como se fossem fish & chips. Votaram contra os seus interesses: não sabiam o preço a pagar.

O Brexit bem pode ser o espelho da nossa democracia: o único voto consciente é o voto de quem sabe o que vai comprar e, sobretudo, de quem sabe o preço a pagar.

A nova burca

 

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O dedinho espetado é coisa que me chateia. Mesmo a segurar a bica curta. Mas vá um pobre de Cristo por onde vá, hoje há dedos espetados por todo o lado. Dedos acusadores esburacam a vida pessoal, o foro íntimo. Usando a “justiça social” como burca, os novos fundamentalistas primeiro reprimem, depois oprimem. O slogan “tudo é político” voltou em modo histérico e infesta o ambiente, a cama, a paisagem étnica.

Tudo é unilateralmente político e se alguém questiona os temas militantes, uma chusma de dedos culpabilizantes arrasa o recalcitrante, arrastando-o pelas amargas ruas da intolerância. A verdade já viveu melhores dias.

Bica Curta publicada no CM em 14 de Março

A fome é uma arma

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Mais insustentável do que a leveza do ser é o peso da fome. Na Venezuela, o insustentável peso da fome é ditado pela decisão dos homens. Há fome porque um homem quer que haja fome. É insustentável a fome ser arma política.

Maduro herda numa velha tradição revolucionária. A arma cega da fome tem uma genealogia tão distinta como infame: usou-a Lenine, massacrando milhões de soviéticos, só aceitando reduzida ajuda internacional, e foi usada pelo velho Mao na China. Arma cega, a fome? Não. Maduro tem meios. Usa-os como cenouras a distribuir só aos que, caninos, o sigam. A barbárie é móvel, tanto vem da direita como da esquerda.

Bica Curta, publicada no CM, há duas semanas

A jovem amante

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Felix Faure tomba no seu teatro de guerra

Ainda os genes do nosso Marcelo e do primeiro Costa peregrinavam pelos seus ancestrais e já Félix Faure era presidente da França. Exaurido pela governação, Félix, em vez de relaxar com uma bica curta, estendia-se ao comprido, com uma jovem amante, Margarite. Faz agora 120 anos, Marguerite veio ao palácio e, botão a botão, soltou a virilidade dos 58 anos do presidente, mimando-o com o acto a que o povo, sensível, dá o nome de uma jóia de peito. A meio, Félix estremece e grita “Sufoco”. E sufocou mesmo, exalando o último suspiro, calças caídas, para comoção da França.

Confesso uma gota de nostalgia face à velha forma de fazer política.

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A jovem Marguerite

Bica Curta publicada no CM