Para a boca, só de Paris

francois-villon

De François Villon, poeta francês do século XV, não há selfies e sabe-se tão pouco. Orfão de pai, nasceu estava a cleresia a atirar a milagrosa Joana d’Arc para a fogueira. Eram maus tempos para recalcitrantes e um patrono generoso enfiou Villon na Faculdade de Paris, com o objectivo salutar de que ele, no futuro, fosse dos que queimam e não dos que ardem.

Já o conformado Villon encarreirava no consolo da vida académica, eis que o rei Charles VII, sabe-se lá se por cativação de Centeno ou desígnio de alguma troika, fecha a faculdade. A Villon deu-lhe para a boémia e no meio dela mata um padre. Motivo: saias. Umas saias que a grande História omite, saias que, ó irritante, nunca levantaremos, mas cuja fresca intimidade o jovem François e o ardiloso padre terão, sem suspeita, partilhado.

Villon, em fuga e de lábio rachado, tinha 24 anos, metade da esperança de vida de então. Mas o perdão real era mais fácil do que hoje o indulto de um Putin ou Trump. O rei perdoou-lhe no ano em que reabilitou a heróica Joana d’Arc, o mesmo ano em que os navegadores portugueses (que o mais certo era Villon olimpicamente ignorar) chegavam ao Golfo da Guiné, o que hoje, por igual ignorância e muito mais má-fé, tanto nos criticam. O perdoado Villon regressa a Paris, Natal de 1456, e logo assalta o Collège de Navarre, roubando um cofre recheado de ouro, o que lhe assegurou um fatídico futuro de crime e infâmia.

Do primeiro crime até à sua morte putativa (se algum dia morreu e não se limitou a desaparecer para garantir a eternidade), escorreram oito anos. Oito anos que a lenda preenche com um sortido de roubos e violência que culminam na sua condenação à morte por enforcamento. Estes oito anos horribilis, de 1455 a 1463, foram os anos que, começando na “Balada das Contra Verdades” e quase terminando justamente na “Balada dos Enforcados”, fizeram de François Villon o glorioso, maior e mais fulgurante poeta desse final de Idade Média, forjando, a carne e sangue, o mito do poeta maldito, o primeiro de uma raça a que Rimbaud, o nosso Luiz Pacheco, Bukowski emprestaram iconoclastia, por vezes abjecção.

Num tempo de penúria e epidemias em que os livros começavam a ser impressos em tipografia, o fugitivo Villon escreveu alguns dos poemas mais comoventes que ler se podem. Digo eu, que o li no fim dos meus exaltados 20 anos, no cenário certo, a Angola de 1975 a ferro e fogo, em livrinho comprado na ABC de Luanda.

Nos poemas de Villon, batemos de frente, boca contra boca, com o infecto esplendor do humano: o crime, a dissolução moral, um humor que roça a negra sordidez, uma angustiada e poética consciência do transitório e efémero da vida, do seu sentido, do seu destino. E, sobre ou sob tudo, as mulheres:

Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveria dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
– Para a boca, só de Paris”

Foram as mulheres de Villon, “minha menina do nariz torto”, ou essas “damas do tempo longínquo” que me ensinaram a saudade dos amores do passado, ainda eu de amor mal soletrava o presente: “ah, onde estão as neves de antigamente”. Ou ainda, e desta maneira de que fiquei fiel devoto: “corpo feminino, que é tão tenro, Delicado, suave e precioso”.

 Iam enforcar Villon e ele escreveu, então, o mais angustiante epitáfio da literatura. Por piedade comutaram-lhe a pena. De Villon, criminoso, infame e poeta, nada mais se soube. Tinha 31 anos e desapareceu. Ficaram, imortais, os versos. E as saudades do poeta maldito.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

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