Faça dos meus os seus poetas

Esta é a nossa colecção de poesia. Capas de uma beleza despojada. O que eu gostava que os lessem.

poesia_collection

 

As capas são de uma beleza franciscana. Mas abrem -se as capas e entra-se num revolto e negro mar de Adamastor. O poema é uma fala e as palavras de um poeta são as palavras que andam nas bocas do mundo, mas no poema, e só assim o poema se faz poema, a palavra ganha esse mesmo fogo rutilante que arde na cauda de um cometa, a mesma luz desse inquieto espasmo ou cintilação das estrelas.

É essa a luz que ilumina estes versos de Tanta Luz, poema de Eugénia de Vasconcellos:

Na hora mais madura do sol,
tanta luz, e na curva da duna
nem uma nesga de sombra
onde guardar a saudade:
o tempo passou.

a mesma que se incendeia no poema de João Moita:

Os campos extasiados de luz,
um verde ferino.
O calor de um sol em zénite
pousa ao de leve sobre a pele,
mas refracta-se no solo:
é a armadura do Outono
à superfície da terra.

Deixe-me dizer, meu caro leitor, que razões há para ler estes cinco livros de poesia. São cinco, como os dedos da mão, e não queira saber o toque de veludo que a polpa dos seus dedos reconhecerá nas capas destes livros. E há, depois, o inenarrável prazer da surpresa e da incontida carga de emotividade: há neles a beleza das coisas naturais. E há, por fim, o insustentável peso do coração, da aprendizagem, alegria e perda do amor.

Estes são os meus poetas. Gostava que os lesse. O que eles nos trazem de fulgurante inspiração merece ser pago. É com a leitura que se paga aos poetas a alegria primordial que nos dão.

quem ama o livro

A pequena ordem do meu mundo

Capa

Não fora um centímetro a mais na largura e seria um enorme quadrado, de 33 por 33 centímetros. Assim, por um centímetro é um livro de 33×34, metamorfose do quadrado em rectângulo. Não fora um poema da portuguesa Eugénia de Vasconcellos e Like a Tree Let the Dead Leaves Drop seria um livro com a pintura da sul-africana Jacqueline Alma, tão marcada pela vivência, enquanto criança, com a proximidade aos animais selvagens da imensa África.

A Pequena Ordem do Meu Mundo, Amigo Demócrito, o poema de Eugénia de Vasconcellos, autora da Guerra e Paz, ocupa oito páginas do livro, metade na versão portuguesa, metade na versão inglesa, traduzida por Margaret Jull Costa, tradutora também de Sophia de Mello Breyner Andresen, de António Lobo Antunes e de José Saramago.

Há, no poema de Eugénia de Vasconcellos uma aceitação da vida de um sereno dramatismo, olhar tão lúcido como céptico para o fluxo dos seres e das coisas, esse rio dos dias em que a poeta e nós habitamos.  E cito:

E Eva saí de manhã
vi um lobo na varanda,
dois tigres na estrada:
fazemo-nos domésticos por amor,
fazemo-nos pequenos para seja grande
o que o nosso amor ilumina:
um filho, um homem, uma cidade,
uma ideia, uma obra, uma civilização.

Como a dádiva do Lobo ao Homem,
fê-lo dono, fê-lo amo, fez-se cão.

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Ou, em inglês:

And I, Eve, set out early
and saw a wolf in the balcony,
and two tigers in the road:
we make ourselves domestic out of love,
we make ourselves small so that
what our love illuminates can be big:
a child, a man, a city,
na idea , a work of art, a civilization.

Like the gift the Wolf gave to Man,
made him his lord, made him his master, and made himself dog.

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Recebi este livro e no livro um poema. Um poema bastaria a Eugénia de Vasconcellos, sobretudo este poema de conversa com o mistério do mundo. Mas não. Eugénia tem também, a “um verso de cada vez”, dois livros maiores publicados na Guerra e Paz editores, O Quotidiano a Secar em Verso e Sete Degraus sempre a Descer. Vem o terceiro a caminho.