Meus Kambas: Eugénia de Vasconcellos

Eu já tinha dito, aqui, que Meus Kambas era uma varanda pequenina, com porta para a cozinha, que eu arranjei aqui, na Página Negra. Tenho hoje, a minha segunda visita, a poeta Eugénia de Vasconcellos. Não vem sozinha. Traz Veneza com ela. E bastava que trouxesse o perfume da sua escrita, sofisticada, riquíssima sempre, tão inovadora e desabrida como a de O quotidiano a secar em verso, tão contida e às vezes de um agónico êxtase, como a de Sete degraus sempre a descer, os seus dois últimos livres de poemas, que são da melhor poesia dos últimos anos publicado em Portugal. É um orgulho sentá-la a esta mesa.

EV

 

UM PASSO AO LADO
Eugénia de Vasconcellos

Veneza. Turistas em corrente infinda em grupos de dezenas avançam pelas ruas, as malas de quatro rodas low cost batem nas pedras e degraus. Todo o dia. E tomam conta das pontes e das praças para incontáveis selfies de canal à frente, canal ao lado, no centro do canal, da praça, ao centro da sala do palácio, da torre, da tela, da gôndola. Têm gorros com um enorme pompom e usam ténis. Fazem fila.

Há uma fila de cinquenta japoneses, alguns de máscaras hospitalares, para entrar no Florian.

Um passo lado, do outro lado, se fossem à salinha pequena do Gran Quadri, à esquerda de quem entra, quatro mesas e um balcão, não teriam máscaras, só café moído na hora – a melhor bica da minha vida e isto não é dizer pouco. Forte. Creme espesso. A perfeição das manhãs em chávena pequena.

E os restaurantes venezianos nas ruas de maior trânsito… são chineses. Pizza e pasta intragáveis de gordura pré-cozinhada. Basta olhar para perceber. E os menus com fotografias dos pratos plasmados nos vidros das janelas.

Mas um passo lado. Ruas vazias. Roupa nos estendais. Pombos dormentes. E filas só de copos altos de spritz, ao balcão do fim da tarde, nenhuma outra língua para além do italiano, nem um gorro de pompom maior do que o rabo de um coelho, nem um, as mulheres usam kubankas de raposa ou do que for, Laras Antipovas com Zhivagos a tiracolo ou de serviço, deslizam de saltos altos e casacos compridos de deixar a PETA à beira de um ataque de nervos.

À direita e à esquerda, tudo é belo. Até o estaleiro de gôndolas, acidental e fechado, longas pranchas de madeira amontadas a tomar nevoeiro como se fora sol.

Uma igreja aberta há mais de doze séculos, caída e levantada como nós, pias cheias de água benta, água suficiente para tanto mal, e nem um crente nem um visitante, e mesmo assim um mistério de velas acesas. Um passo ao lado, colado, viveu um alquimista e sobreviveram-lhe as pedras inscritas a claros símbolos enterradas nas paredes amarelas. Vielas estreitíssimas e decadentes. Belas na sombra húmida que nenhuma luz rasga. Pátios inesperados atrás de portões altos. Belos ao céu descoberto do tempo.

Nos edifícios, medalhas a torto e a direito: aqui viveu x, ali escreveu y, ali morreu z. As pessoas passam, as casas ficam. As ruas. Morrer, antes, parecia-me um escândalo, tinha a cabeça formatada em Cesário Verde, ai se eu não morresse nunca e eternamente buscasse a perfeição das coisas. Merda para isso. A eternidade não precisa de mim para nada.

Nem há Bach suficiente para nos salvar por muito que aqui cresça na acústica perfeita das igrejas. A beleza não salva ninguém nem quando os Tintoretto são mais do que os pintores de rua e as gaivotas se passeiam, de asas fechadas, passo a passo, a cabeça altiva, como orgulhosos cães sem dono.

Porém, na casa onde Peggy viveu, ainda está uma Maiastra de Brancusi. Essa ave cujo canto, não há romeno que o não saiba, resgata da escuridão quem a ouça.

Eugénia de Vasconcellos, Veneza, Natal de 2018

EV-V

Claude Le Petit, maldito poeta

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Das edi­ções que já fiz na minha lamen­tá­vel vida de editor, esta é uma das que me é mais que­rida. Caiu-me nas mãos um livro fran­cês, Le Bor­del des Muses, de Claude Le Petit. Foi logo tiro e queda. Mas não era mesmo nada líquido que o livro fran­cês pudesse dar um livro por­tu­guês. Não se publica poe­sia em Por­tu­gal — é pra­ti­ca­mente proi­bido por lei. E ainda menos se publica um fran­cês. Muito menos um fran­cês do século XVII.

A minha sorte e a sorte de Le Petit é que ele foi quei­mado na fogueira por obs­ce­ni­dade. Ora isso é logo uma carta de nobreza. Pen­sei que se arran­jasse mais uns títu­los nobi­liár­qui­cos a coisa se podia arran­jar. Fui à cata de aris­to­cra­tas. Pri­meiro, para lhe dar forma poé­tica em por­tu­guês, des­co­bri a Eugé­nia de Vas­con­cel­los. É poeta e palpitou-me for­te­mente que ela era capaz de dar aos arrou­bos obs­ce­nos de Le Petit uma equi­va­lên­cia em lín­gua de Pes­soa que fosse irmã humana da poe­sia fran­cesa. Depois, bati à porta de outro artista, João Cuti­leiro, e pedi-lhe que rein­ven­tasse este Le Petit em dese­nho. Cuti­leiro não o ilus­trou, pre­fe­riu ir descobrir-lhe a gen­ti­leza que está sem­pre por trás da por­no­gra­fia quando ela é poética.

O que a Eugé­nia e o João fize­ram é tão bonito que me comove. E o tanto que me como­veu e exal­tou pode ver-se nos mate­ri­ais em que este livro está feito, no gra­fismo, no papel. Não me che­gou. Não quis ficar de fora na festa de sen­ti­dos que este livro já era. Escrevi um texto, até para dizer quem era este Le Petit que agora, assim, entra na lín­gua e na edi­ção por­tu­gue­sas. É um ape­ri­tivo. Para que leiam, intei­ri­nho, este (tão bonito, não é?) o Bor­del das Musas ou as nove don­ze­las putas, do grande Le Petit.  

 

Bordel capa
Para ler intei­ri­nho, um poeta de outro lado a entrar na nossa língua

Claude Le Petit foi quei­mado vivo no pri­meiro dia de Setem­bro de 1662, na Praça de Grève, em Paris. Diga-se: com 23 ten­ros anos de idade. A fogueira onde ardeu era car­te­si­ana: queimaram-lhe o corpo por causa dos peca­dos da alma.

Filho de um alfai­ate, Le Petit tinha na escrita o seu maior talento. Um talento trans­bor­dante, irre­ve­rente, físico, car­nal. Escre­veu desal­ma­da­mente, mas as hipó­te­ses de publi­ca­ção foram escas­sas e mal pagas. A estu­dar Direito em Paris, com uma reles bolsa paterna, Le Petit deixou-se sedu­zir pelos meios e con­ví­vio liber­ti­nos. Numa França de Luí­ses, o XIII e o XIV, de poder fer­re­a­mente cen­tra­li­zado, o liber­tino – trans­gres­sivo e a roçar-se filo­so­fi­ca­mente pelo ateísmo – é um livre-pensador que faz pas­sar a liber­dade de espí­rito pela prova do debo­che e dis­so­lu­ção do corpo. É por isso lógico que, para Le Petit, o mag­ní­fico corpo humano, falo, cona e cus, jun­ta­mente com o tinir das moe­das, e sobre­tudo a omi­nosa falta de cheta, sejam as obses­sões maiores.

Não admira que, sem des­me­re­cer a pai­xão, tenha escrito por dinheiro. A pri­meira vez que lhe paga­ram foi por um poema. Outro autor, Michel Mil­lot, divertira-se a escre­ver um diá­logo obs­ceno, L’École des fil­les ou la phi­lo­sophie des dames. Pedi­ram a Le Petit que redigisse,como ao tempo era hábito, um elo­gio ao autor do livro, para a aber­tura. Le Petit escre­veu o madri­gal cujo pri­meiro verso reza «Autor fodido de um livro fodido…» que os lei­to­res desta Página Negra pode­rão ler se com­pra­rem o livro. Um desen­ten­di­mento entre edi­to­res e tipó­gra­fos pôs o livro nas lava­das mãos das auto­ri­da­des, que o pros­cre­ve­ram como ímpio, tendo Mil­lot, seu autor, sido con­de­nado à morte na fogueira, de que escapa, fugindo para sem­pre de Paris. Quase por mila­gre e por não estar assi­nado o seu madri­gal tão esplen­di­da­mente fodi­tivo, Le Petit pas­sou como um anjo por este inci­dente. Nem foi iden­ti­fi­cado ou preso, nem se castrou.

De pena pis­to­leira, pronta para ser alu­gada, foi então con­vi­dado a escre­ver numa gazeta, La Muse de la Cour,diri­gida pelo livreiro Ale­xan­dre Les­se­lin. Era mal pago, mas era pago, e Le Petit, a troco de qua­tro ou cinco pis­to­las, edi­fi­cante nome de uma moeda da época, de 1 de Setem­bro a 28 de Outu­bro de 1656, foi o pro­lí­fico autor de oito núme­ros dessa gazeta. Um san­grento inci­dente inter­rom­peu a con­for­tá­vel e cur­tís­sima car­reira. Le Petit tra­vou forte rela­ção com um jovem frade agos­ti­nho. Fosse qual fosse a des­co­nhe­cida natu­reza da rela­ção, sobre a qual as cró­ni­cas guar­dam silên­cio de santo, houve uma briga de alto lá com ela entre os dois. Le Petit não foi de intri­gas. Escon­dido, espe­rou que o frade viesse pre­pa­rar a igreja do con­vento para as mati­nas e espetou-lhe uma faca, matando-o como a um cevado. Dor­miu ao lado do cadá­ver na igreja fechada e, quando os fra­des a vie­ram abrir de manhã, escapuliu-se sem ser visto. Temendo a inves­ti­ga­ção poli­cial, o poeta assas­sino exilou-se. O péri­plo de exí­lio começa em Espa­nha e passa por Itá­lia, pela Boé­mia, Ale­ma­nha, Holanda e Lon­dres. Adver­tido de que o assunto do defunto frade fora arqui­vado pela polí­cia, regressa a Paris. Tinham pas­sado pouco mais de três anos, estava-se em Feve­reiro de 1661.

Volta aos meios liber­ti­nos, con­ju­gando o amor da carne com a devo­ção cató­lica, apos­tó­lica e romana, e volta à penú­ria do cos­tume. Ora, toda a gente sabe que é muito chato ser pobre em França. Vendo que a poe­sia não ren­dia, consta que Le Petit esta­ria já na dis­po­si­ção de aban­do­nar a vai­dade e as misé­rias do mundo laico e ir mis­ti­ca­mente rezar as vés­pe­ras para um con­vento, tese à qual dá con­sis­tên­cia o livro Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, que nessa altura se dizia ter escrito. Mas é sabido que, num ora foda-se, o diabo apa­rece e as tece quando e onde menos se espera. Estava Le Petit em reco­lhi­mento, na Aba­dia de Saint-Germain-des-Prés, e vem desinquietá-lo um tal Cha­bat com uns mais isto e mais aquilo e que era uma pena que o olvido e a gaveta ou as cin­zas sepul­tas­sem para todo o sem­pre a viri­li­dade das satí­ri­cas rimas de um livro como O Bor­del das Musas. Diz estas ver­da­des todas e tira do bolso cin­quenta pis­to­las – o que a prata e o ouro bri­lham à luz mor­tiça de uma igreja! – dizendo publico-to eu.

Le Petit não resis­tiu. Um ano antes dedi­cara um soneto a Jac­ques Chaus­son, maiús­culo  sodo­mita que a ten­ta­tiva de vio­la­ção de um moci­nho nobre levara aos acri­mo­ni­o­sos tri­bu­nais seis­cen­tis­tas. Chaus­son fora con­de­nado à fogueira, na Praça de Grève, local em que a amena popu­la­ção pari­si­ense se reu­nia para ver assar ateus, ímpios, vio­la­do­res e mais gente com incli­na­ção para uma des­na­tu­rada rebal­da­ria. O cheiro do epi­só­dio chaus­so­ni­ano e a memó­ria do mila­gre com que Deus o des­pen­du­rou da asso­ci­a­ção ao enfor­cado Mil­lot deviam ter avi­sado Le Petit que tal­vez não fosse avi­sado for­çar a sorte. Mas Le Petit não era capaz de resis­tir a cinco moe­das, quanto mais a cin­quenta. E disse que sim ao insi­di­oso Cha­bat, man­dando que se fizesse a priá­pica e clan­des­tina edi­ção. Em home­na­gem a Théophile de Viau, lumi­ná­ria da poe­sia liber­tina, assi­na­ria, com o pseu­dó­nimo de Théophile Le Jeune, este Bor­del das Musas, de que agora temos nas mãos os poe­mas que sobreviveram.

O que tinha de cor­rer mal cor­reu evi­den­te­mente mal. Fosse por­que Cha­bat tinha a lín­gua com­prida – é o que diz Fré­dé­ric Lachè­vre, no seu sério e majes­toso estudo Les Oeu­vres Liber­ti­nes de Claude Le Petit –, fosse pelas for­tui­tas cir­cuns­tân­cias que sem­pre favo­re­cem cen­so­res e inqui­si­do­res, a obra foi estatelar-se debaixo do olho rigo­roso e cir­cuns­pecto da polí­cia de cos­tu­mes pari­si­ense. Poupo-vos a por­me­no­res. Claude Le Petit era o meio men­di­cante filho de um pau­pér­rimo alfai­ate, o que em nada o reco­men­dava – a filha da puta da pobreza nunca sal­vou nin­guém. A arre­ba­tada e túr­gida ele­va­ção dos seus ver­sos esca­pava ao raci­o­nal dos seus cen­so­res e só o enter­rava mais. Em menos de um fós­foro, se assim se pode dizer, a célere jus­tiça fran­cesa con­de­nou Le Petit à fogueira. Deve­ria, antes, ser-lhe cor­tada a mão direita pelo punho, julga-se que em alu­são à prá­tica da escrita, embora nunca se saiba lá muito bem o que pas­sa­ria pela grave cabeça de magis­tra­dos daqueles.

Assim foi. A 1 de Setem­bro de 1662, Claude Le Petit ardeu na fogueira. Mas ao arder, já ardeu morto. Por pie­dade, crê-se, foi-lhe con­ce­dido o mimo de ser estran­gu­lado antes.

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Cuti­leiro foi descobrir-lhe a escon­dida gentileza

O poeta Claude Le Petit inte­gra uma cor­rente filo­só­fica e lite­rá­ria – os liber­ti­nos – cuja tra­di­ção tem raí­zes em Oví­dio, ganhando expres­são maior em França, no século xvii. Essa cor­rente teve o seu prin­ci­pal expo­ente na obra poé­tica de Théophile de Viau.

Estri­ba­dos num cep­ti­cismo epi­cu­rista e tam­bém, mas não neces­sa­ri­a­mente, num ateísmo con­victo, os liber­ti­nos do século XVII fran­cês foram um exem­plo de anti­con­for­mismo e de eru­di­ção, que expres­sa­ram em obras satí­ri­cas, pro­fa­nas, de grande liber­dade de costumes.

Tudo isso, acres­cido de uma viru­lên­cia extrema, que faz dele um prín­cipe do obs­ceno, está na poe­sia de Le Petit. E, não obs­tante, os seus ver­sos não se podem redu­zir ao estrondo dessa obs­ce­ni­dade. Os ver­sos que escre­veu são tam­bém inter­ro­ga­ção, por vezes escar­ne­cida, sobre a con­di­ção humana e a per­ma­nente mudança do mundo e das coi­sas. A escrita de Le Petit, sabo­ro­sa­mente eru­dita, infor­mada por uma vasta cul­tura clás­sica e por uma muito polí­tica aten­ção à His­tó­ria e ao século, é uma escrita que com­bina iro­nia e sar­casmo, por vezes um toque abjec­ci­o­nista. Com uma ima­gé­tica des­bor­dante, os seus poe­mas são o exem­plo do bom uso de uma certa arte da repe­ti­ção – uma pala­vra, uma expres­são criam um ritmo encan­ta­tó­rio –, no que se poderá ver uma herança de Le Viau (e de Villon?).

Já se disse que os liber­ti­nos casam epi­cu­rismo, mate­ri­a­lismo, umas pin­ce­la­das de filo­só­fico maqui­a­ve­lismo, com um ateísmo mili­tante. Mas a repres­são vio­lenta, pas­sando pela morte na fogueira, a que alguns mem­bros da cor­rente foram sujei­tos, fez emer­gir uma dupli­ci­dade tea­tral no movi­mento. Mui­tos liber­ti­nos assu­mi­ram uma más­cara pública que os pro­te­gesse da imi­nente vio­lên­cia. Todo o liber­tino pas­sou a ser um actor. Terá sido assim com Le Petit? Terá o seu cato­li­cismo sido uma más­cara pública para ocul­tar a pode­rosa afir­ma­ção da carne, do sexo, que a sua poe­sia exibe, cami­nhando em estado de arro­gante erec­ção sobre a Cristandade?

Se, antes da publi­ca­ção do seu Bor­del das Musas, pare­cia estar divi­dido entre o cato­li­cismo e o ideal liber­tino ao ponto de ter escrito um devoto Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, tam­bém sabe­mos que, já conhe­cendo a sen­tença que o con­de­nava à fogueira, pediu para falar com o barão de Schil­de­beck, seu amigo dos tem­pos de exí­lio ale­mão, e lhe disse onde estava escon­dido o que con­se­guira sal­var de Le Bor­del des Muses. Arran­cou ao amigo ale­mão a pro­messa de que sal­va­ria esse ori­gi­nal e o publi­ca­ria, o que o ale­mão cum­priu, publicando-o dois anos depois, em Ley­den, na Holanda.

Nessa con­versa com o fiel ale­mão, Le Petit, sal­vando o seu livro, garan­tiu a eter­ni­dade. Quando, a cami­nho da fogueira, parou em frente à Igreja de Notre-Dame e, de rojo na imensa praça, fez a ora­ção de arre­pen­di­mento que o tri­bu­nal deter­mi­nara, quem se arre­pen­dia era o cató­lico que de facto havia nele ou a más­cara liber­tina que o século exi­gia? Mas se era actor, de que maneira é que o actor pode fin­gir, a não ser deve­ras sen­tindo as dores, mesmo as dores cató­li­cas, que o actor representa?

As cró­ni­cas dizem que avan­çou com sere­ni­dade exem­plar para a fogueira que, em plena Praça de Grève, o espe­rava. Já estava morto quando o quei­ma­ram – fogo que ardeu sem que ele o sentisse.

cutileiro_fim
Um dos mais belos pen­sa­men­tos de Santo Agostinho

pacto de sangue dos happy few

Sete Degraus_

Gostava de vos convidar a irem em duas diferentes direcções. Bem sei que vos estou a pedir para se partirem ao meio, mas há momentos na vida em que, se queremos arrebatamento ou mergulhos no mais fundo que de fundo a transcendência tenha, temos de arriscar o corpo para ganharmos a alma.

Peço-vos que deixem metade do vosso corpo ir atrás dos poemas com que Eugénia de Vasconcellos armadilhou um livro a que chamou Sete Degraus sempre a Descer. Descobrirão que, estando em páginas de livros que se fazem em tipografias, a poesia é outra coisa, porque

A poesia não é coisa das páginas dos livros –
não se faz na tipografia.
Ainda que seja nas páginas dos livros que
se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel –
é sempre de amor que se faz um corpo,
é por amor que um corpo se dá.
A poesia é da vida. É de quem tem.
A dor é de quem tem. O amor é de quem?
A alegria?
De quem tem.

E peço-vos que, esse «coração já rico em fogo», deixem que as vossas veias se deslarguem do vosso corpo e corram a ouvir a voz, o rio de palavras, que um grande escritor brasileiro contemporâneo, poeta e romancista, ensaísta e académico, quis generosamente juntar aos poemas de Eugénia. O poeta do outro lado do Atlântico chama-se Marco Lucchesi e da poesia de Sete Degraus sempre a Descer disse:

«Sete Degraus sempre a Descer é um livro de alta poesia. Alta, porque marcada pelo descenso, ensaio de ousadia, pacto de sangue dos happy few. A viagem de Alceste e Orfeu pertinaz, solitária, ao longo de uma incontornável cerimónia de adeus. Como um rito de passagem, a descida de Eugénia coincide com a noite dos sentidos, de Al Berto e João da Cruz, as Moradas de Teresa e o de mundo et partibus de Adélia Prado. Baixar sete degraus, como no Purgatório: eis aqui a génese da transmutação, a travessia da selva escura, enquanto Eugénia espera a iminência da aurora, aunque es de noche.»

E sentimos a suspensão de Lucchesi, respiração travada de quem ganha fôlego, para logo a seguir, um parágrafo à frente, a torrente encantada voltar:

«Eugénia possui uma poesia sísmica, de larga magnitude, mesmo quando parece dizer o contrário, mesmo quando voluntariamente arrefece, no intervalo dos versos, no rumor de fundo que organiza seu canto, ao sabor de uma unidade descontínua, nas ligaduras, que soltam e amarram seus fragmentos, as falhas geológicas, o incessante vulcanismo de lava e lapíli.

Eugénia de Vasconcellos é detentora de uma voz profunda e cristalina, livre e rigorosa, humilde e altiva, filha e mãe das leituras que a atravessam, convocadas pela vida, estratos e camadas de presente, como o mármore de Bernini para Teresa em Santa Maria della Vittoria.»

Por vezes, quando nela há grandeza (que é tentação do abismo) e vida (que é um sereno roçar pela morte), a poesia é física, fusão da palavra, símbolo e metáfora com uma carne exposta, com um corpo inquieto, de insatisfeita satisfação. A poesia de Eugénia de Vasconcellos é essa poesia.