Estava a sentir um ligeiro vazio cultural. Falavam-me de Black Castle, Winterfell, dos Lannisters e Starks, dos bastardos Ramsey e Jon Snow e eu, de cabeça rapada, a apanhar bonés. Em 18 dias bem contados, fiz a Guerra aos Tronos. Despachei 6 séries em três fins de semanas e umas noites arrancadas ao sono, mudando a hora de despertar das 7 para as 7:30. Estou hoje no episódio 10 da série 6. Vamos agora com calma, reservando a sétima série para o fim de semana que vem, que a Feira do Livro tem direitos adquiridos.
Uma coisa é certa, com a ficção em vias de deserotização, há muito tempo que, em filme ou série, televisão ou cinema, não se viam maminhas tão bonitas. E estou a ser injusto: rabinhos também.
Um dia, a propósito desta edição do livro “O Físico Prodigioso” de Jorge de Sena, disse o que agora, que o livro vai ser o ex-libris da Guerra e Paz, nesta Feira do Livro, volto a dizer. Com mais veemência e gosto, ainda.
Nós, ocidentais, temos desenvolvido um gosto extraordinário pela auto-expiação e não nos dá jeito nenhum, para esse fim incriminatório, ver o que há de pan-erótico no cristianismo, a começar no processo que esse extraordinário Deus trinitário arranjou para seduzir – com voz de anjo – a Virgem Maria. Com o seu exército de anjos, arcanjos, serafins, santos e santas em êxtase místico, o cristianismo, e em particular o catolicismo, quase transbordam de ademanes eróticos, o que a profusão de talha dourada, mantos de seda e cheirinho de incenso só reforçam e excitam. Poderia lá existir este texto de Jorge de Sena, este O Físico Prodigioso se não tivesse bebido nesse rio de água benta em que se banha o sagrado e o profano, o invisível Espírito Santo e o tão táctil demónio?
Tenho o fetiche da professora inglesa. Confesso e explico-me.
O sexo estampado na cara de Marilyn ou de Brigitte Bardot repugnava a Hitchcock. Preferia a sexualidade das britânicas. Uma professora inglesa – é ele a contar – vai connosco no táxi e, a meio da cândida conversa sobre o tempo e Henrique VIII é perfeitamente capaz, súbito e sem explicações, de nos atirar a mão à braguilha.
Truffaut, que o entrevistava, ficou de boca aberta até Hitchcock rematar: “Só com mulheres dessas pode haver descoberta do sexo.”
Na esperança de ser lido na ligeiramente puritana Fenprof, sugiro que as conversas de Hitchcock com Truffaut passem a ser obrigatórias na formação docente. Debate esclarecido nunca fez mal a ninguém.
Esta inocente concepção da sexualidade atinge o seu expoente em “Rear Window” e “To Catch a Thief “, protagonizados pela loiríssima, angelicamente linda, Grace Kelly. Com ela contracenam Jimmy Stewart e Cary Grant. Nenhum parece ter vontade de lhe tocar.
Stewart, no começo de “Rear Window”, tem uma perna engessada e senta-se à indiscreta janela a espiar os vizinhos, procurando na vida deles a excitação que a forçada reclusão não lhe dá. Também não o excita a ideia de casar com a rica Grace Kelly que acha fútil, vinda de um ambiente tão rarefeito como a nossa Quinta da Marinha, a cabeça feita em vestidos, jóias e jantares milionários.
O espectador já sabe isto tudo e ainda não viu Grace Kelly. Quando primeiro a vemos, o que vemos é a sua sombra. O imobilizado Stewart adormeceu. Sobre a rija perna de gesso desliza uma sombra humana que passa ao ventre, e avança pelo peito, até lhe tapar o rosto. O perfume dela acorda-o, abrem-se-lhe os olhos e vê-a. Nós também pelos olhos dele. E o que vemos é a perfeição. Por ela pecaria o Espírito Santo se a sua língua de fogo tivesse olhos.
Por não ver na sombra a essência de Grace é que Stewart a não quer. Vê o gelo louro e a pele imaculada. Mas não ouve o vulcão que o sussurrado adágio da voz dela anuncia. “Como vai a tua perna?” pergunta. “E o teu estômago?” diz a seguir. É uma voz de sombras macias que promete correr-lhe a anatomia toda.
Grace Kelly toma a iniciativa também em “To Catch a Thief”. Cary Grant é ou foi um ladrão de jóias. Grace traz ao pescoço um colar refulgente que chama nomes ao seu decote. Se o paraíso é uma voz então é o paraíso que da boca dela convida Grant: “Toca-lhe!” E a mão dela a oferecer à dele a exposta jóia: “Agarra-a”.
Nesses filmes de crimes e roubos, Hitchcock fez de Grace Kelly a mais erótica jóia da sua colecção. A forma civilizadíssima e elegante como a filma só realça a húmida convulsão que a faz dizer a Stewart: “Quando quero um homem, quero tudo o que ele tem.”
Por estes sonhos ninfomaníacos de Hitchcock perpassa a sombra de uma professora inglesa.
Eu não estava lá. Eu não estava lá na noite em que fui concebido.
Sobre esta falha, sobre essa imagem que nunca vimos e que nunca veremos, sobre a falta dessa imagem que a miríade de imagens que nos cerca e sufoca não consegue fazer esquecer, Pascal Quignard fez um livro.
Chamou-lhe “La Nuit Sexuelle” e é um livro de muitas imagens. Ia dizer que neste álbum deslumbrante prevalecem as imagens doutras noites, iguais porventura à noite fundadora a que, por impossibilidade lógica, dificilmente poderíamos ter assistido. E acrescento que nas espessas noites que as imagens de Quignard reproduzem, julgamos escutar, tementes e trementes, repulsiva e fascinadamente, o eco da imagem que jamais se revelará aos nossos olhos… “Maintenant je désire m’engloutir dans cette nuit qui d’entrée de jeu comuniqua sa couleur à ces pages.” Comunicará cor, certo, mas essa “noite sensorial”, presente embora, não é, ao longo de “La Nuit Sexuelle”, nem avassaladora, nem sequer dominante.
Livro apetecível (os olhos gostam, as mãos acariciam), nele se cruzam, tão bem reproduzidos, quadros de Caravaggio e Rubens, de Leonardo e Ticiano, de Goya e Picasso, de Regnier e Van Den Hoecke. A par de um texto minimal, deliciosa e insensatamente francês (if you know what I mean), vão correndo desenhos anónimos do sec. XV ou do séc XVII, anónimos chineses e anónimos egípcios, e desfilam também Pietás e Massacres de Inocentes, e, upsss!, há mãos que empunham falos, há ninfas empaladas e sacrifícios satúrnicos.
Quando chegamos ao fim dos 27 capítulos de “La Nuit Sexuelle”, depois do nosso olhar ter viajado por mais de duzentas reproduções de pinturas em que habitam a nudez, o crime, o voyeurismo e a carnalidade, sabemos que toda essa visualidade não nos revelou ainda a “cena invisível”, Mas sabemos (ou começamos a acreditar) que essa “cena” está na origem da pintura, tanto mais quanto, em latim, pénis (penicillus) quer até dizer “pequeno pincel”.
“La Nuit Sexuelle” é o livro de uma alegria negra, como negras são, literal e graficamente, as suas páginas de couché tão suave como a pele em que, numa noite que nunca vimos, dedos se perderam, outros dedos se encontraram.
Primeiro de outros (poucos) beaux livres que gosto que sejam meus, este foi editado, com brio e farto investimento, pela Flammarion. Tem 19,5 cm de comprimento por 28 de largura. A encadernação, com sobrecapa, abriga 279 páginas gloriosas, às vezes tórridas. Custava, há 12 anos, 85€. Já só custa 27. Mas valia e vale o raio do dinheiro.
Já não sei há quantos séculos escrevi este texto. Nele se conjugava o meu amor pela forma de filmar de John Ford, esse intratável e inclassificável americano de sangue irlandês, e o meu concupiscente amor pelo rastejante rabo de Gene Tierney. Deve dizer-se que o rabo de Gene Tierney nunca foi verdadeiramente chamado para o cinema, toda a sua carreira tendo sido fundada no seu tão belo e sublime rosto. Foi preciso o sacana de um irlandês, católico arrevesado, para a tirar dos vestidos de cetim e casacos de arminho e, já o cinema todo se esfregava em technicolor, vesti-la de trapos, atirá-la para um chão de poeira e fazer dela uma rattlesnake papa nabos. (Se virem o filme, saberão o que quero dizer.)
Na imagem abaixo, as pernas dela são as mesma pernas que, depois, fim da década de 50, o anarquista (logo católico e ateu) Luis Buñuel, usaria na rapariga menor de idade de que ele, abusadamente, fez a protagonista desse filme que, de tão dúbio, teve dois títulos, La Joven e The Young One.
Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.
A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir”. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.
A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao glamour calculado ou à complexidade psicológica de femme fatale que a quero ir raptar.
Roubo-a a “Tobacco Road”, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.
Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.
Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto gourmet. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma sexualidade predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.
É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.
O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man” cujo beijo Spielberg replicou em “E.T.”, costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidados” e “La Joven”, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.
No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.
Poucas maneiras de acabar o ano me parecem mais justas e mais belas do que visitar as mulheres de Egon Schiele. Pudesse eu, e estaria agora, a 31 de Dezembro deste ano de 2018, a rever em Viena o que de Egon Schiele pudesse devorar. Esta é a revisitação nostálgica de uma viagem de 2017, a convite da extinta revista Epicur.
Entra-se em Egon Schiele pela mulher de saias levantadas. A saia pode ser verde ou vermelha, mesmo azul, mas a paisagem que revela tem sempre as quatro impronunciáveis letras dessa coisa que outro pintor disse ser a origem do mundo. O sexo feminino, essa palavra de quatro letras que é a mais proibida, a mais subversiva de todas as palavras, abre-se e murcha, oferece-se e nega-se, incha ou seca, em centenas de telas de Schiele. Arrisco: durante um terço da sua vida os olhos de Schiele estiveram especados, ou melhor, avidamente enfiados numa juvenil, madura ou decadente vulva.
Quero, em defesa do meu bom nome, dizer aos meus leitores que estou a falar de arte. Falhei a vernissage por ter perdido o avião e pude assim, no dia seguinte, olhar descansado e sem falsos pudores para a exposição de Egon Schiele que o Albertina, um dos mil museus de Viena de Áustria, ofereceu ao mundo.
É um museu ecléctico, o Albertina, em cada piso uma exposição. Quando eu lá fui, desta vez, de elevador, fui da sala “Monet a Picasso” para a mostra de Arte Contemporânea, que junta Anselm Kiefer, Andy Warhol e o rato Mickey de Gottfried Helnwei. Um lance de escadas levou-me de Egon Schiele à mostra “De Poussin a David” e um cinéfilo como eu, antes de chegar à cave, tinha de se embasbacar com a colecção de fotografias da Cinemateca de Viena.
Orgulhemo-nos patrioticamente. Há uma mão portuguesa a sustentar tanta arte. Emanuel Teles da Silva, descendente pela parte da mãe dos Condes de Tarouca, filho do Embaixador português, tornou-se cidadão austríaco e conselheiro de Carlos VI, tutelando com devoção a educação da infanta Maria Teresa. A infanta não foi, depois de ser coroada imperatriz, insensível a tão esmerados cuidados pedagógicos, correndo o rumor de ter gratificado o mestre com a regular contemplação da mesma frondosa paisagem que Schiele obsessivamente pintou, tarefa que o conde Silva-Tarouca terá executado com discrição e reserva antónimas da tortura, convulsão e rasgada exuberância do pintor. A exuberância que mais se reconhece ao conde português foi então a da conversão do edifício que é hoje o Albertina num palácio para sua residência.
Schiele não pintou palácios, mas pintou paredes de casas pobres. O que me deliciou foi que as pintou com a mesma deformação, as mesmas cores, a mesma intensidade com que pintou o sexo das suas modelos. São paredes vivas e em drama, como as mulheres nuas que levantam as saias, às vezes muito, como Schiele faz questão de escrever nos títulos que deu a cada uma das suas obras. Levantam muito as saias e abrem desmesuradamente os olhos, com excepção da mulher que se masturba, um dedo tão mais tacteante quanto os olhos se cerram.
Há outros nus no Albertina, mas nenhum se compara aos nus em ferida de Schiele. Basta subir ao piso de cima e ver os rabos femininos que os impressionistas pintaram entre ervas e árvores. Há neles um naturalismo sem metafísica, quase um retrato. No piso de baixo, Schiele deforma, aumenta, confronta-se, convulso, com a visceralidade da realidade. Quando se trata da mulher nua, eu diria que é muito melhor estar um piso abaixo do que um piso acima.
Egon Schiele foi um pintor austríaco. A sua obra fez-se, no essencial, entre 1910 e 1918, ano em que a gripe espanhola o palmou da vida e o levou para o inferno que é a morte. Em menos de dez anos, olhos postos onde já disse, arrancou a ferros a imortalidade.
Caramba, vamos lá começar bem o dia. Sentem à mesa do pequeno-almoço um tipo cheio de fantasia, irreprimível na ousadia, adepto da multiplicação.
Há três razões para gostarmos dele:
inventou a dança nos filmes; inundou o ecrã com delirantes visões eróticas; celebrou no cinema o milagre da multiplicação das pernas femininas.
Estou a a falar de Busby Berkeley. Ou seja, ninguém! Pelo menos para qualquer pessoa que não tenha passado os cinco últimos anos fechado num arquivo de cinemateca. Ou então, alguém! O maior artista americano do século XX para Andy Warhol.
Era dance director, fosse lá o que isso fosse (mas era alguma coisa), quando chegou a Hollywood. E, vindo da Broadway, chegou desconfiado. Não é fácil de explicar, mas os filmes dos outros que ele fez, passaram a ser dele. Trabalhou, nos anos 30, com a explosão do sonoro, para a Warner Bros e para o produtor Daryl F. Zanuck. Cabia-lhe imaginar e executar as coreografias dos números musicais de filmes com histórias convencionalíssimas. Só queria, como disse, fazer as pessoas felizes nem que fosse por uma hora. Sem essas coreografias os pobres desses filmes estariam a arder em lume brando num purgatório perto de si.
O que é que Berkeley fez, então? Juntou água, mulheres, bandeiras, soldados, mulheres, noites, camas, pianos, mulheres e transfigurou tudo com uma poética a que podemos aplicar os qualificativos que quisermos – surreal, vanguardista, místico-freudiana – mas que só é explicável se usarmos o termo certo: hollywoodiana.
Poética hollywwodiana. De brancos imaculados, escuríssimos negros, combinatórias prováveis, mas tão deslumbrantes, de repuxos e nudez, da câmara colocada no ponto de vista de Deus com trompe l’oeil magníficos, imensas paradas de pijamas e ceroulas, centenas de pares sentados em cadeiras de balouço. Acreditem, essa multiplicação, feita com precisão geométrica, pode ser – era e é – a mais erótica, a mais carnal, das visões. Nas palavras directas e talvez tocadas por um módico de ciúme, doutro coreógrafo mais tardio, Berkeley “arranjava montes de louras e filmava-as de todas as maneiras aceitáveis para a classe média. Não as podia despir completamente, mas punha-as de pernas abertas e com os seios pendentes. Tudo aquilo era a sua maneira de olhar eroticamente para mulheres esplêndidas, servindo a câmara de substituto do pénis.”
Não será um artista como de Man Ray ou de Matisse se diz que são artistas. É talvez um sargento, ou um jovem tenente (o que bate certo com a sua formação na Academia Militar), com a obsessão das formaturas, mas nos jardins suspensos de Busby Berkeley, no começo dos anos 30, no glorioso preto e branco da Warner Bros, surgiu uma arte pop avant la lettre: a águia americana e as stars and stripes de Jasper Johns, os tintados retratos de celebridades de Warhol, já tinham sido imaginados e delirantemente sonhados em Footlight Parade, Dames, 42nd Street e nas Gold Diggers de Busby Berkeley, nascido em 1895 e chegado ao paraíso a 15 de Março de 1976. Presumo que o velho e perverso Jeová lhe tenha entregue as coreografias celestes: julgo tê-los visto, aos dois, a deslizar pelos túneis que Berkeley montou com milhares de angélicas pernas abertas.
Das edições que já fiz na minha lamentável vida de editor, esta é uma das que me é mais querida. Caiu-me nas mãos um livro francês, Le Bordel des Muses, de Claude Le Petit. Foi logo tiro e queda. Mas não era mesmo nada líquido que o livro francês pudesse dar um livro português. Não se publica poesia em Portugal — é praticamente proibido por lei. E ainda menos se publica um francês. Muito menos um francês do século XVII.
A minha sorte e a sorte de Le Petit é que ele foi queimado na fogueira por obscenidade. Ora isso é logo uma carta de nobreza. Pensei que se arranjasse mais uns títulos nobiliárquicos a coisa se podia arranjar. Fui à cata de aristocratas. Primeiro, para lhe dar forma poética em português, descobri a Eugénia de Vasconcellos. É poeta e palpitou-me fortemente que ela era capaz de dar aos arroubos obscenos de Le Petit uma equivalência em língua de Pessoa que fosse irmã humana da poesia francesa. Depois, bati à porta de outro artista, João Cutileiro, e pedi-lhe que reinventasse este Le Petit em desenho. Cutileiro não o ilustrou, preferiu ir descobrir-lhe a gentileza que está sempre por trás da pornografia quando ela é poética.
O que a Eugénia e o João fizeram é tão bonito que me comove. E o tanto que me comoveu e exaltou pode ver-se nos materiais em que este livro está feito, no grafismo, no papel. Não me chegou. Não quis ficar de fora na festa de sentidos que este livro já era. Escrevi um texto, até para dizer quem era este Le Petit que agora, assim, entra na língua e na edição portuguesas. É um aperitivo. Para que leiam, inteirinho, este (tão bonito, não é?) o Bordel das Musas ou as nove donzelas putas, do grande Le Petit.
Para ler inteirinho, um poeta de outro lado a entrar na nossa língua
Claude Le Petit foi queimado vivo no primeiro dia de Setembro de 1662, na Praça de Grève, em Paris. Diga-se: com 23 tenros anos de idade. A fogueira onde ardeu era cartesiana: queimaram-lhe o corpo por causa dos pecados da alma.
Filho de um alfaiate, Le Petit tinha na escrita o seu maior talento. Um talento transbordante, irreverente, físico, carnal. Escreveu desalmadamente, mas as hipóteses de publicação foram escassas e mal pagas. A estudar Direito em Paris, com uma reles bolsa paterna, Le Petit deixou-se seduzir pelos meios e convívio libertinos. Numa França de Luíses, o XIII e o XIV, de poder ferreamente centralizado, o libertino – transgressivo e a roçar-se filosoficamente pelo ateísmo – é um livre-pensador que faz passar a liberdade de espírito pela prova do deboche e dissolução do corpo. É por isso lógico que, para Le Petit, o magnífico corpo humano, falo, cona e cus, juntamente com o tinir das moedas, e sobretudo a ominosa falta de cheta, sejam as obsessões maiores.
Não admira que, sem desmerecer a paixão, tenha escrito por dinheiro. A primeira vez que lhe pagaram foi por um poema. Outro autor, Michel Millot, divertira-se a escrever um diálogo obsceno, L’École des filles ou la philosophie des dames. Pediram a Le Petit que redigisse,como ao tempo era hábito, um elogio ao autor do livro, para a abertura. Le Petit escreveu o madrigal cujo primeiro verso reza «Autor fodido de um livro fodido…» que os leitores desta Página Negra poderão ler se comprarem o livro. Um desentendimento entre editores e tipógrafos pôs o livro nas lavadas mãos das autoridades, que o proscreveram como ímpio, tendo Millot, seu autor, sido condenado à morte na fogueira, de que escapa, fugindo para sempre de Paris. Quase por milagre e por não estar assinado o seu madrigal tão esplendidamente foditivo, Le Petit passou como um anjo por este incidente. Nem foi identificado ou preso, nem se castrou.
De pena pistoleira, pronta para ser alugada, foi então convidado a escrever numa gazeta, La Muse de la Cour,dirigida pelo livreiro Alexandre Lesselin. Era mal pago, mas era pago, e Le Petit, a troco de quatro ou cinco pistolas, edificante nome de uma moeda da época, de 1 de Setembro a 28 de Outubro de 1656, foi o prolífico autor de oito números dessa gazeta. Um sangrento incidente interrompeu a confortável e curtíssima carreira. Le Petit travou forte relação com um jovem frade agostinho. Fosse qual fosse a desconhecida natureza da relação, sobre a qual as crónicas guardam silêncio de santo, houve uma briga de alto lá com ela entre os dois. Le Petit não foi de intrigas. Escondido, esperou que o frade viesse preparar a igreja do convento para as matinas e espetou-lhe uma faca, matando-o como a um cevado. Dormiu ao lado do cadáver na igreja fechada e, quando os frades a vieram abrir de manhã, escapuliu-se sem ser visto. Temendo a investigação policial, o poeta assassino exilou-se. O périplo de exílio começa em Espanha e passa por Itália, pela Boémia, Alemanha, Holanda e Londres. Advertido de que o assunto do defunto frade fora arquivado pela polícia, regressa a Paris. Tinham passado pouco mais de três anos, estava-se em Fevereiro de 1661.
Volta aos meios libertinos, conjugando o amor da carne com a devoção católica, apostólica e romana, e volta à penúria do costume. Ora, toda a gente sabe que é muito chato ser pobre em França. Vendo que a poesia não rendia, consta que Le Petit estaria já na disposição de abandonar a vaidade e as misérias do mundo laico e ir misticamente rezar as vésperas para um convento, tese à qual dá consistência o livro Les plus belles pensées de saint Augustin, que nessa altura se dizia ter escrito. Mas é sabido que, num ora foda-se, o diabo aparece e as tece quando e onde menos se espera. Estava Le Petit em recolhimento, na Abadia de Saint-Germain-des-Prés, e vem desinquietá-lo um tal Chabat com uns mais isto e mais aquilo e que era uma pena que o olvido e a gaveta ou as cinzas sepultassem para todo o sempre a virilidade das satíricas rimas de um livro como O Bordel das Musas. Diz estas verdades todas e tira do bolso cinquenta pistolas – o que a prata e o ouro brilham à luz mortiça de uma igreja! – dizendo publico-to eu.
Le Petit não resistiu. Um ano antes dedicara um soneto a Jacques Chausson, maiúsculo sodomita que a tentativa de violação de um mocinho nobre levara aos acrimoniosos tribunais seiscentistas. Chausson fora condenado à fogueira, na Praça de Grève, local em que a amena população parisiense se reunia para ver assar ateus, ímpios, violadores e mais gente com inclinação para uma desnaturada rebaldaria. O cheiro do episódio chaussoniano e a memória do milagre com que Deus o despendurou da associação ao enforcado Millot deviam ter avisado Le Petit que talvez não fosse avisado forçar a sorte. Mas Le Petit não era capaz de resistir a cinco moedas, quanto mais a cinquenta. E disse que sim ao insidioso Chabat, mandando que se fizesse a priápica e clandestina edição. Em homenagem a Théophile de Viau, luminária da poesia libertina, assinaria, com o pseudónimo de Théophile Le Jeune, este Bordel das Musas, de que agora temos nas mãos os poemas que sobreviveram.
O que tinha de correr mal correu evidentemente mal. Fosse porque Chabat tinha a língua comprida – é o que diz Frédéric Lachèvre, no seu sério e majestoso estudo Les Oeuvres Libertines de Claude Le Petit –, fosse pelas fortuitas circunstâncias que sempre favorecem censores e inquisidores, a obra foi estatelar-se debaixo do olho rigoroso e circunspecto da polícia de costumes parisiense. Poupo-vos a pormenores. Claude Le Petit era o meio mendicante filho de um paupérrimo alfaiate, o que em nada o recomendava – a filha da puta da pobreza nunca salvou ninguém. A arrebatada e túrgida elevação dos seus versos escapava ao racional dos seus censores e só o enterrava mais. Em menos de um fósforo, se assim se pode dizer, a célere justiça francesa condenou Le Petit à fogueira. Deveria, antes, ser-lhe cortada a mão direita pelo punho, julga-se que em alusão à prática da escrita, embora nunca se saiba lá muito bem o que passaria pela grave cabeça de magistrados daqueles.
Assim foi. A 1 de Setembro de 1662, Claude Le Petit ardeu na fogueira. Mas ao arder, já ardeu morto. Por piedade, crê-se, foi-lhe concedido o mimo de ser estrangulado antes.
Cutileiro foi descobrir-lhe a escondida gentileza
O poeta Claude Le Petit integra uma corrente filosófica e literária – os libertinos – cuja tradição tem raízes em Ovídio, ganhando expressão maior em França, no século xvii. Essa corrente teve o seu principal expoente na obra poética de Théophile de Viau.
Estribados num cepticismo epicurista e também, mas não necessariamente, num ateísmo convicto, os libertinos do século XVII francês foram um exemplo de anticonformismo e de erudição, que expressaram em obras satíricas, profanas, de grande liberdade de costumes.
Tudo isso, acrescido de uma virulência extrema, que faz dele um príncipe do obsceno, está na poesia de Le Petit. E, não obstante, os seus versos não se podem reduzir ao estrondo dessa obscenidade. Os versos que escreveu são também interrogação, por vezes escarnecida, sobre a condição humana e a permanente mudança do mundo e das coisas. A escrita de Le Petit, saborosamente erudita, informada por uma vasta cultura clássica e por uma muito política atenção à História e ao século, é uma escrita que combina ironia e sarcasmo, por vezes um toque abjeccionista. Com uma imagética desbordante, os seus poemas são o exemplo do bom uso de uma certa arte da repetição – uma palavra, uma expressão criam um ritmo encantatório –, no que se poderá ver uma herança de Le Viau (e de Villon?).
Já se disse que os libertinos casam epicurismo, materialismo, umas pinceladas de filosófico maquiavelismo, com um ateísmo militante. Mas a repressão violenta, passando pela morte na fogueira, a que alguns membros da corrente foram sujeitos, fez emergir uma duplicidade teatral no movimento. Muitos libertinos assumiram uma máscara pública que os protegesse da iminente violência. Todo o libertino passou a ser um actor. Terá sido assim com Le Petit? Terá o seu catolicismo sido uma máscara pública para ocultar a poderosa afirmação da carne, do sexo, que a sua poesia exibe, caminhando em estado de arrogante erecção sobre a Cristandade?
Se, antes da publicação do seu Bordel das Musas, parecia estar dividido entre o catolicismo e o ideal libertino ao ponto de ter escrito um devoto Les plus belles pensées de saint Augustin, também sabemos que, já conhecendo a sentença que o condenava à fogueira, pediu para falar com o barão de Schildebeck, seu amigo dos tempos de exílio alemão, e lhe disse onde estava escondido o que conseguira salvar de Le Bordel des Muses. Arrancou ao amigo alemão a promessa de que salvaria esse original e o publicaria, o que o alemão cumpriu, publicando-o dois anos depois, em Leyden, na Holanda.
Nessa conversa com o fiel alemão, Le Petit, salvando o seu livro, garantiu a eternidade. Quando, a caminho da fogueira, parou em frente à Igreja de Notre-Dame e, de rojo na imensa praça, fez a oração de arrependimento que o tribunal determinara, quem se arrependia era o católico que de facto havia nele ou a máscara libertina que o século exigia? Mas se era actor, de que maneira é que o actor pode fingir, a não ser deveras sentindo as dores, mesmo as dores católicas, que o actor representa?
As crónicas dizem que avançou com serenidade exemplar para a fogueira que, em plena Praça de Grève, o esperava. Já estava morto quando o queimaram – fogo que ardeu sem que ele o sentisse.
Um dos mais belos pensamentos de Santo Agostinho