A água tudo lava

Já não sei há quantos séculos escrevi este texto. Nele se conjugava o meu amor pela forma de filmar de John Ford, esse intratável e inclassificável americano de sangue irlandês, e o meu concupiscente amor pelo rastejante rabo de Gene Tierney. Deve dizer-se que o rabo de Gene Tierney nunca foi verdadeiramente chamado para o cinema, toda a sua carreira tendo sido fundada no seu tão belo e sublime rosto. Foi preciso o sacana de um irlandês, católico arrevesado, para a tirar dos vestidos de cetim e casacos de arminho e, já o cinema todo se esfregava em technicolor, vesti-la de trapos, atirá-la para um chão de poeira e fazer dela uma rattlesnake papa nabos. (Se virem o filme, saberão o que quero dizer.)
Na imagem abaixo, as pernas dela são as mesma pernas que, depois, fim da década de 50, o anarquista (logo católico e ateu) Luis Buñuel, usaria na rapariga menor de idade de que ele, abusadamente, fez a protagonista desse filme que, de tão dúbio, teve dois títulos, La Joven e The Young One. 

gene tierney

Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.

A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.

A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao glamour calculado ou à complexidade psicológica de femme fatale que a quero ir raptar.

Roubo-a a “Tobacco Road, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.

Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.

Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto gourmet. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma sexualidade predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.

É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.

O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man cujo beijo Spielberg replicou em “E.T., costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidadose “La Joven, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.

No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.

Não há nada que a água não lave.

O sexo de Schiele

Poucas maneiras de acabar o ano me parecem mais justas e mais belas do que visitar as mulheres de Egon Schiele. Pudesse eu, e estaria agora, a 31 de Dezembro deste ano de 2018, a rever em Viena o que de Egon Schiele pudesse devorar. Esta é a revisitação nostálgica de uma viagem de 2017, a convite da extinta revista Epicur.

Sciele saias

Entra-se em Egon Schiele pela mulher de saias levantadas. A saia pode ser verde ou vermelha, mesmo azul, mas a paisagem que revela tem sempre as quatro impronunciáveis letras dessa coisa que outro pintor disse ser a origem do mundo. O sexo feminino, essa palavra de quatro letras que é a mais proibida, a mais subversiva de todas as palavras, abre-se e murcha, oferece-se e nega-se, incha ou seca, em centenas de telas de Schiele. Arrisco: durante um terço da sua vida os olhos de Schiele estiveram especados, ou melhor, avidamente enfiados numa juvenil, madura ou decadente vulva.

Quero, em defesa do meu bom nome, dizer aos meus leitores que estou a falar de arte. Falhei a vernissage por ter perdido o avião e pude assim, no dia seguinte, olhar descansado e sem falsos pudores para a exposição de Egon Schiele que o Albertina, um dos mil museus de Viena de Áustria, ofereceu ao mundo.

É um museu ecléctico, o Albertina, em cada piso uma exposição. Quando eu lá fui, desta vez, de elevador, fui da sala “Monet a Picasso” para a mostra de Arte Contemporânea, que junta Anselm Kiefer, Andy Warhol e o rato Mickey de Gottfried Helnwei. Um lance de escadas levou-me de Egon Schiele à mostra “De Poussin a David” e um cinéfilo como eu, antes de chegar à cave, tinha de se embasbacar com a colecção de fotografias da Cinemateca de Viena.

Orgulhemo-nos patrioticamente. Há uma mão portuguesa a sustentar tanta arte. Emanuel Teles da Silva, descendente pela parte da mãe dos Condes de Tarouca, filho do Embaixador português, tornou-se cidadão austríaco e conselheiro de Carlos VI, tutelando com devoção a educação da infanta Maria Teresa. A infanta não foi, depois de ser coroada imperatriz, insensível a tão esmerados cuidados pedagógicos, correndo o rumor de ter gratificado o mestre com a regular contemplação da mesma frondosa paisagem que Schiele obsessivamente pintou, tarefa que o conde Silva-Tarouca terá executado com discrição e reserva antónimas da tortura, convulsão e rasgada exuberância do pintor. A exuberância que mais se reconhece ao conde português foi então a da conversão do edifício que é hoje o Albertina num palácio para sua residência.

Schiele-casas

Schiele não pintou palácios, mas pintou paredes de casas pobres. O que me deliciou foi que as pintou com a mesma deformação, as mesmas cores, a mesma intensidade com que pintou o sexo das suas modelos. São paredes vivas e em drama, como as mulheres nuas que levantam as saias, às vezes muito, como Schiele faz questão de escrever nos títulos que deu a cada uma das suas obras. Levantam muito as saias e abrem desmesuradamente os olhos, com excepção da mulher que se masturba, um dedo tão mais tacteante quanto os olhos se cerram.

masturbation

Há outros nus no Albertina, mas nenhum se compara aos nus em ferida de Schiele. Basta subir ao piso de cima e ver os rabos femininos que os impressionistas pintaram entre ervas e árvores. Há neles um naturalismo sem metafísica, quase um retrato. No piso de baixo, Schiele deforma, aumenta, confronta-se, convulso, com a visceralidade da realidade.   Quando se trata da mulher nua, eu diria que é muito melhor estar um piso abaixo do que um piso acima.

Egon Schiele foi um pintor austríaco. A sua obra fez-se, no essencial, entre 1910 e 1918, ano em que a gripe espanhola o palmou da vida e o levou para o inferno que é a morte. Em menos de dez anos, olhos postos onde já disse, arrancou a ferros a imortalidade.

Busby Berkeley: o erotismo em delírio

berkeley

Caramba, vamos lá começar bem o dia. Sentem à mesa do pequeno-almoço um tipo cheio de fantasia, irreprimível na ousadia, adepto da multiplicação.

Há três razões para gostarmos dele:

inventou a dança nos filmes;
inundou o ecrã com delirantes visões eróticas;
celebrou no cinema o milagre da multiplicação das pernas femininas.

Estou a a falar de Busby Berkeley. Ou seja, ninguém! Pelo menos para qualquer pessoa que não tenha passado os cinco últimos anos fechado num arquivo de cinemateca. Ou então, alguém! O maior artista americano do século XX  para Andy Warhol.

Era dance director, fosse lá o que isso fosse (mas era alguma coisa), quando chegou a Hollywood. E, vindo da Broadway, chegou desconfiado. Não é fácil de explicar, mas os filmes dos outros que ele fez, passaram a ser dele. Trabalhou, nos anos 30, com a explosão do sonoro, para a Warner Bros e para o produtor Daryl F. Zanuck. Cabia-lhe imaginar e executar as coreografias dos números musicais de filmes com histórias convencionalíssimas. Só queria, como disse, fazer as pessoas felizes nem que fosse por uma hora. Sem essas coreografias os pobres desses filmes estariam a arder em lume brando num purgatório perto de si.

O que é que Berkeley fez, então? Juntou água, mulheres, bandeiras, soldados, mulheres, noites, camas, pianos, mulheres e transfigurou tudo com uma poética a que podemos aplicar os qualificativos que quisermos – surreal, vanguardista, místico-freudiana – mas que só é explicável se usarmos o termo certo: hollywoodiana.

footlight

Poética hollywwodiana. De brancos imaculados, escuríssimos negros, combinatórias prováveis, mas tão deslumbrantes, de repuxos e nudez, da câmara colocada no ponto de vista de Deus com trompe l’oeil magníficos, imensas paradas de pijamas e ceroulas, centenas de pares sentados em cadeiras de balouço. Acreditem, essa multiplicação, feita com precisão geométrica, pode ser – era e é – a mais erótica, a mais carnal, das visões. Nas palavras directas e talvez tocadas por um módico de ciúme, doutro coreógrafo mais tardio, Berkeley “arranjava montes de louras e filmava-as de todas as maneiras aceitáveis para a classe média. Não as podia despir completamente, mas punha-as de pernas abertas e com os seios pendentes. Tudo aquilo era a sua maneira de olhar eroticamente para mulheres esplêndidas, servindo a câmara de substituto do pénis.

Não será um artista como de Man Ray ou de Matisse se diz que são artistas. É talvez um sargento, ou um jovem tenente (o que bate certo com a sua formação na Academia Militar), com a obsessão das formaturas, mas nos jardins suspensos de Busby Berkeley, no começo dos anos 30, no glorioso preto e branco da Warner Bros, surgiu uma arte pop avant la lettre: a águia americana e as stars and stripes de Jasper Johns, os tintados retratos de celebridades de Warhol, já tinham sido imaginados e delirantemente sonhados em Footlight Parade, Dames, 42nd Street e nas Gold Diggers de Busby Berkeley, nascido em 1895 e chegado ao paraíso a 15 de Março de 1976.  Presumo que o velho e perverso Jeová lhe tenha entregue as coreografias celestes: julgo tê-los visto, aos dois, a deslizar pelos túneis que Berkeley montou com milhares de angélicas pernas abertas.

Claude Le Petit, maldito poeta

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Das edi­ções que já fiz na minha lamen­tá­vel vida de editor, esta é uma das que me é mais que­rida. Caiu-me nas mãos um livro fran­cês, Le Bor­del des Muses, de Claude Le Petit. Foi logo tiro e queda. Mas não era mesmo nada líquido que o livro fran­cês pudesse dar um livro por­tu­guês. Não se publica poe­sia em Por­tu­gal — é pra­ti­ca­mente proi­bido por lei. E ainda menos se publica um fran­cês. Muito menos um fran­cês do século XVII.

A minha sorte e a sorte de Le Petit é que ele foi quei­mado na fogueira por obs­ce­ni­dade. Ora isso é logo uma carta de nobreza. Pen­sei que se arran­jasse mais uns títu­los nobi­liár­qui­cos a coisa se podia arran­jar. Fui à cata de aris­to­cra­tas. Pri­meiro, para lhe dar forma poé­tica em por­tu­guês, des­co­bri a Eugé­nia de Vas­con­cel­los. É poeta e palpitou-me for­te­mente que ela era capaz de dar aos arrou­bos obs­ce­nos de Le Petit uma equi­va­lên­cia em lín­gua de Pes­soa que fosse irmã humana da poe­sia fran­cesa. Depois, bati à porta de outro artista, João Cuti­leiro, e pedi-lhe que rein­ven­tasse este Le Petit em dese­nho. Cuti­leiro não o ilus­trou, pre­fe­riu ir descobrir-lhe a gen­ti­leza que está sem­pre por trás da por­no­gra­fia quando ela é poética.

O que a Eugé­nia e o João fize­ram é tão bonito que me comove. E o tanto que me como­veu e exal­tou pode ver-se nos mate­ri­ais em que este livro está feito, no gra­fismo, no papel. Não me che­gou. Não quis ficar de fora na festa de sen­ti­dos que este livro já era. Escrevi um texto, até para dizer quem era este Le Petit que agora, assim, entra na lín­gua e na edi­ção por­tu­gue­sas. É um ape­ri­tivo. Para que leiam, intei­ri­nho, este (tão bonito, não é?) o Bor­del das Musas ou as nove don­ze­las putas, do grande Le Petit.  

 

Bordel capa
Para ler intei­ri­nho, um poeta de outro lado a entrar na nossa língua

Claude Le Petit foi quei­mado vivo no pri­meiro dia de Setem­bro de 1662, na Praça de Grève, em Paris. Diga-se: com 23 ten­ros anos de idade. A fogueira onde ardeu era car­te­si­ana: queimaram-lhe o corpo por causa dos peca­dos da alma.

Filho de um alfai­ate, Le Petit tinha na escrita o seu maior talento. Um talento trans­bor­dante, irre­ve­rente, físico, car­nal. Escre­veu desal­ma­da­mente, mas as hipó­te­ses de publi­ca­ção foram escas­sas e mal pagas. A estu­dar Direito em Paris, com uma reles bolsa paterna, Le Petit deixou-se sedu­zir pelos meios e con­ví­vio liber­ti­nos. Numa França de Luí­ses, o XIII e o XIV, de poder fer­re­a­mente cen­tra­li­zado, o liber­tino – trans­gres­sivo e a roçar-se filo­so­fi­ca­mente pelo ateísmo – é um livre-pensador que faz pas­sar a liber­dade de espí­rito pela prova do debo­che e dis­so­lu­ção do corpo. É por isso lógico que, para Le Petit, o mag­ní­fico corpo humano, falo, cona e cus, jun­ta­mente com o tinir das moe­das, e sobre­tudo a omi­nosa falta de cheta, sejam as obses­sões maiores.

Não admira que, sem des­me­re­cer a pai­xão, tenha escrito por dinheiro. A pri­meira vez que lhe paga­ram foi por um poema. Outro autor, Michel Mil­lot, divertira-se a escre­ver um diá­logo obs­ceno, L’École des fil­les ou la phi­lo­sophie des dames. Pedi­ram a Le Petit que redigisse,como ao tempo era hábito, um elo­gio ao autor do livro, para a aber­tura. Le Petit escre­veu o madri­gal cujo pri­meiro verso reza «Autor fodido de um livro fodido…» que os lei­to­res desta Página Negra pode­rão ler se com­pra­rem o livro. Um desen­ten­di­mento entre edi­to­res e tipó­gra­fos pôs o livro nas lava­das mãos das auto­ri­da­des, que o pros­cre­ve­ram como ímpio, tendo Mil­lot, seu autor, sido con­de­nado à morte na fogueira, de que escapa, fugindo para sem­pre de Paris. Quase por mila­gre e por não estar assi­nado o seu madri­gal tão esplen­di­da­mente fodi­tivo, Le Petit pas­sou como um anjo por este inci­dente. Nem foi iden­ti­fi­cado ou preso, nem se castrou.

De pena pis­to­leira, pronta para ser alu­gada, foi então con­vi­dado a escre­ver numa gazeta, La Muse de la Cour,diri­gida pelo livreiro Ale­xan­dre Les­se­lin. Era mal pago, mas era pago, e Le Petit, a troco de qua­tro ou cinco pis­to­las, edi­fi­cante nome de uma moeda da época, de 1 de Setem­bro a 28 de Outu­bro de 1656, foi o pro­lí­fico autor de oito núme­ros dessa gazeta. Um san­grento inci­dente inter­rom­peu a con­for­tá­vel e cur­tís­sima car­reira. Le Petit tra­vou forte rela­ção com um jovem frade agos­ti­nho. Fosse qual fosse a des­co­nhe­cida natu­reza da rela­ção, sobre a qual as cró­ni­cas guar­dam silên­cio de santo, houve uma briga de alto lá com ela entre os dois. Le Petit não foi de intri­gas. Escon­dido, espe­rou que o frade viesse pre­pa­rar a igreja do con­vento para as mati­nas e espetou-lhe uma faca, matando-o como a um cevado. Dor­miu ao lado do cadá­ver na igreja fechada e, quando os fra­des a vie­ram abrir de manhã, escapuliu-se sem ser visto. Temendo a inves­ti­ga­ção poli­cial, o poeta assas­sino exilou-se. O péri­plo de exí­lio começa em Espa­nha e passa por Itá­lia, pela Boé­mia, Ale­ma­nha, Holanda e Lon­dres. Adver­tido de que o assunto do defunto frade fora arqui­vado pela polí­cia, regressa a Paris. Tinham pas­sado pouco mais de três anos, estava-se em Feve­reiro de 1661.

Volta aos meios liber­ti­nos, con­ju­gando o amor da carne com a devo­ção cató­lica, apos­tó­lica e romana, e volta à penú­ria do cos­tume. Ora, toda a gente sabe que é muito chato ser pobre em França. Vendo que a poe­sia não ren­dia, consta que Le Petit esta­ria já na dis­po­si­ção de aban­do­nar a vai­dade e as misé­rias do mundo laico e ir mis­ti­ca­mente rezar as vés­pe­ras para um con­vento, tese à qual dá con­sis­tên­cia o livro Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, que nessa altura se dizia ter escrito. Mas é sabido que, num ora foda-se, o diabo apa­rece e as tece quando e onde menos se espera. Estava Le Petit em reco­lhi­mento, na Aba­dia de Saint-Germain-des-Prés, e vem desinquietá-lo um tal Cha­bat com uns mais isto e mais aquilo e que era uma pena que o olvido e a gaveta ou as cin­zas sepul­tas­sem para todo o sem­pre a viri­li­dade das satí­ri­cas rimas de um livro como O Bor­del das Musas. Diz estas ver­da­des todas e tira do bolso cin­quenta pis­to­las – o que a prata e o ouro bri­lham à luz mor­tiça de uma igreja! – dizendo publico-to eu.

Le Petit não resis­tiu. Um ano antes dedi­cara um soneto a Jac­ques Chaus­son, maiús­culo  sodo­mita que a ten­ta­tiva de vio­la­ção de um moci­nho nobre levara aos acri­mo­ni­o­sos tri­bu­nais seis­cen­tis­tas. Chaus­son fora con­de­nado à fogueira, na Praça de Grève, local em que a amena popu­la­ção pari­si­ense se reu­nia para ver assar ateus, ímpios, vio­la­do­res e mais gente com incli­na­ção para uma des­na­tu­rada rebal­da­ria. O cheiro do epi­só­dio chaus­so­ni­ano e a memó­ria do mila­gre com que Deus o des­pen­du­rou da asso­ci­a­ção ao enfor­cado Mil­lot deviam ter avi­sado Le Petit que tal­vez não fosse avi­sado for­çar a sorte. Mas Le Petit não era capaz de resis­tir a cinco moe­das, quanto mais a cin­quenta. E disse que sim ao insi­di­oso Cha­bat, man­dando que se fizesse a priá­pica e clan­des­tina edi­ção. Em home­na­gem a Théophile de Viau, lumi­ná­ria da poe­sia liber­tina, assi­na­ria, com o pseu­dó­nimo de Théophile Le Jeune, este Bor­del das Musas, de que agora temos nas mãos os poe­mas que sobreviveram.

O que tinha de cor­rer mal cor­reu evi­den­te­mente mal. Fosse por­que Cha­bat tinha a lín­gua com­prida – é o que diz Fré­dé­ric Lachè­vre, no seu sério e majes­toso estudo Les Oeu­vres Liber­ti­nes de Claude Le Petit –, fosse pelas for­tui­tas cir­cuns­tân­cias que sem­pre favo­re­cem cen­so­res e inqui­si­do­res, a obra foi estatelar-se debaixo do olho rigo­roso e cir­cuns­pecto da polí­cia de cos­tu­mes pari­si­ense. Poupo-vos a por­me­no­res. Claude Le Petit era o meio men­di­cante filho de um pau­pér­rimo alfai­ate, o que em nada o reco­men­dava – a filha da puta da pobreza nunca sal­vou nin­guém. A arre­ba­tada e túr­gida ele­va­ção dos seus ver­sos esca­pava ao raci­o­nal dos seus cen­so­res e só o enter­rava mais. Em menos de um fós­foro, se assim se pode dizer, a célere jus­tiça fran­cesa con­de­nou Le Petit à fogueira. Deve­ria, antes, ser-lhe cor­tada a mão direita pelo punho, julga-se que em alu­são à prá­tica da escrita, embora nunca se saiba lá muito bem o que pas­sa­ria pela grave cabeça de magis­tra­dos daqueles.

Assim foi. A 1 de Setem­bro de 1662, Claude Le Petit ardeu na fogueira. Mas ao arder, já ardeu morto. Por pie­dade, crê-se, foi-lhe con­ce­dido o mimo de ser estran­gu­lado antes.

cutileiro_gentileza
Cuti­leiro foi descobrir-lhe a escon­dida gentileza

O poeta Claude Le Petit inte­gra uma cor­rente filo­só­fica e lite­rá­ria – os liber­ti­nos – cuja tra­di­ção tem raí­zes em Oví­dio, ganhando expres­são maior em França, no século xvii. Essa cor­rente teve o seu prin­ci­pal expo­ente na obra poé­tica de Théophile de Viau.

Estri­ba­dos num cep­ti­cismo epi­cu­rista e tam­bém, mas não neces­sa­ri­a­mente, num ateísmo con­victo, os liber­ti­nos do século XVII fran­cês foram um exem­plo de anti­con­for­mismo e de eru­di­ção, que expres­sa­ram em obras satí­ri­cas, pro­fa­nas, de grande liber­dade de costumes.

Tudo isso, acres­cido de uma viru­lên­cia extrema, que faz dele um prín­cipe do obs­ceno, está na poe­sia de Le Petit. E, não obs­tante, os seus ver­sos não se podem redu­zir ao estrondo dessa obs­ce­ni­dade. Os ver­sos que escre­veu são tam­bém inter­ro­ga­ção, por vezes escar­ne­cida, sobre a con­di­ção humana e a per­ma­nente mudança do mundo e das coi­sas. A escrita de Le Petit, sabo­ro­sa­mente eru­dita, infor­mada por uma vasta cul­tura clás­sica e por uma muito polí­tica aten­ção à His­tó­ria e ao século, é uma escrita que com­bina iro­nia e sar­casmo, por vezes um toque abjec­ci­o­nista. Com uma ima­gé­tica des­bor­dante, os seus poe­mas são o exem­plo do bom uso de uma certa arte da repe­ti­ção – uma pala­vra, uma expres­são criam um ritmo encan­ta­tó­rio –, no que se poderá ver uma herança de Le Viau (e de Villon?).

Já se disse que os liber­ti­nos casam epi­cu­rismo, mate­ri­a­lismo, umas pin­ce­la­das de filo­só­fico maqui­a­ve­lismo, com um ateísmo mili­tante. Mas a repres­são vio­lenta, pas­sando pela morte na fogueira, a que alguns mem­bros da cor­rente foram sujei­tos, fez emer­gir uma dupli­ci­dade tea­tral no movi­mento. Mui­tos liber­ti­nos assu­mi­ram uma más­cara pública que os pro­te­gesse da imi­nente vio­lên­cia. Todo o liber­tino pas­sou a ser um actor. Terá sido assim com Le Petit? Terá o seu cato­li­cismo sido uma más­cara pública para ocul­tar a pode­rosa afir­ma­ção da carne, do sexo, que a sua poe­sia exibe, cami­nhando em estado de arro­gante erec­ção sobre a Cristandade?

Se, antes da publi­ca­ção do seu Bor­del das Musas, pare­cia estar divi­dido entre o cato­li­cismo e o ideal liber­tino ao ponto de ter escrito um devoto Les plus bel­les pen­sées de saint Augus­tin, tam­bém sabe­mos que, já conhe­cendo a sen­tença que o con­de­nava à fogueira, pediu para falar com o barão de Schil­de­beck, seu amigo dos tem­pos de exí­lio ale­mão, e lhe disse onde estava escon­dido o que con­se­guira sal­var de Le Bor­del des Muses. Arran­cou ao amigo ale­mão a pro­messa de que sal­va­ria esse ori­gi­nal e o publi­ca­ria, o que o ale­mão cum­priu, publicando-o dois anos depois, em Ley­den, na Holanda.

Nessa con­versa com o fiel ale­mão, Le Petit, sal­vando o seu livro, garan­tiu a eter­ni­dade. Quando, a cami­nho da fogueira, parou em frente à Igreja de Notre-Dame e, de rojo na imensa praça, fez a ora­ção de arre­pen­di­mento que o tri­bu­nal deter­mi­nara, quem se arre­pen­dia era o cató­lico que de facto havia nele ou a más­cara liber­tina que o século exi­gia? Mas se era actor, de que maneira é que o actor pode fin­gir, a não ser deve­ras sen­tindo as dores, mesmo as dores cató­li­cas, que o actor representa?

As cró­ni­cas dizem que avan­çou com sere­ni­dade exem­plar para a fogueira que, em plena Praça de Grève, o espe­rava. Já estava morto quando o quei­ma­ram – fogo que ardeu sem que ele o sentisse.

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Um dos mais belos pen­sa­men­tos de Santo Agostinho

Drummond e Sena: beijos, lábios e língua

beijos

Não se diga da poe­sia de lín­gua por­tuguesa que é del­i­cada e para del­i­ca­dos. Dois poetas pelo menos, o brasileiro Jorge de Sena e o por­tuguês Car­los Drum­mond de Andrade – e se me dis­serem que me enganei, aos dois declaro nasci­dos e glo­riosa­mente mor­tos na mes­mís­sima lín­gua tan­tas vezes a por­tugue­ses e brasileiros estranha – Sena e Drum­mond, dizia, can­taram o amor com essa sub­lime e priv­i­le­giada indel­i­cadeza que só o é para quem já não tem a inocên­cia de acred­i­tar que com casti­dade se abrem coxas ou que mão apal­pante deslize pura pela perna que pronta­mente responde.
Leio estes dois poe­mas e o que deles mais gosto é que são livres e sabem a desinibido quotidiano.

Era Manhã De Setem­bro
Car­los Drum­mond de Andrade


Era manhã de setem­bro
e
ela me bei­java o membro.

Aviões e nuvens pas­savam
coros negros rebramiam
ela me bei­java o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruza­dos flo­riam junto

Ela me bei­java o membro

Um pas­sar­inho can­tava,
bem den­tro da árvora, den­tro
da terra, de mim, da morte

Morte e pri­mav­era em ramo
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me bei­jando o membro

Tudo o que eu tivera sido
quando me fora defeso
já não for­mava sentido

Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me bei­jar o membro

Dos bei­jos era o mais casto
na pureza despo­jada
que é própria das coisas dadas

Nem era pre­ito de escrava
enrodil­hada na som­bra
mas pre­sente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como bei­java uma santa
no mais divino trans­porte
e num solene arrepio

bei­java bei­java o membro

Pen­sando nos out­ros homens
eu tinha pena de todos
apri­sion­a­dos no mundo

Meu império se esten­dia
por toda a praia deserta
e a cada sen­tido alerta

Ela me bei­java o membro

O capí­tulo do ser
o mis­tério do exi­s­tir
o des­en­con­tro de amar

eram tudo ondas cal­adas
mor­rendo num cais longín­quo
e uma cidade se erguia

radi­ante de pedrarias
e de ódios apazigua­dos
e o espasmo vinha na brisa

para con­sigo furtar-me
se antes não me des­fol­hava
como um cabelo se alisa

e me tor­nava dis­perso
todo em cír­cu­los con­cên­tri­cos
na fumaça do universo

Bei­java o mem­bro
bei­java
e se mor­ria bei­jando
a renascer em dezembro

beijo_b

Beijo
Jorge de Sena

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes lín­guas
tão pen­e­trantes quanto lín­guas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se aper­tando del­i­ca­dos.
É lín­gua que na boca se agi­tando
irá de um corpo inteiro desco­brir o gosto
e sobre­tudo o que se oculta em som­bras
e nos recan­tos em cabe­los vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

a tua boca entreaberta

LeahSe estivesse vivo (está?) teria 117 anos. José Rodrigues Miguéis foi o nosso único (ou o primeiro?) escritor de Bruxelas. Agora que Bruxelas é praticamente nossa, deixem-me evocar o conto da literatura portuguesa em que mais Bruxelas nos aparece de sexualidade cálida e generosa.

São só 28 páginas. Quase todas passadas no interior de uma pensão de Bruxelas. Vinte e oito páginas de lirismo sensível e “coagulado”, nas palavras do próprio, o hoje quase ignorado José Rodrigues Miguéis, que andou “clandestino” pela Europa, e se auto-exilou na América, onde acabou por morrer, bem longe da ditosa pátria que a ele a ditadura tornara tão desamada.

A história passa-se, claro, em Bruxelas – terá sido entre 1929 e 33 que Miguéis lá viveu – quando a Europa era um desunido e inconciliável puzzle de nações. Local da acção: já disse que era uma pensão, acrescento que tinha “o que quer que fosse de decadente, descuidado e boémio.

O narrador, uma voz quase apática, de olhar distraído e ânimo sufocado (num desconsolo que hesitava entre as três e as quatro da tarde), é surpreendido por um rosto, um corpo, uma mulher, o centro de uma narrativa tão ágil que se atreve a apresentá-la através de interrogativa, no meio de um monólogo sobre os méritos da vida em solidão e em lugares longínquos: “Mas esta dialéctica da misantropia (ou timidez) não será demasiado especiosa para ti, Léah?

Nós, de Léah, até aí, não tínhamos sequer ouvido falar. E quase nada continuaremos a ouvir dizer, a não ser apanhar-lhe o rumor de um riso, o nome dela gritado por outros hóspedes, farrapos de conversas a meia voz. E silêncios que talvez sejam os dela.

Já vamos a um terço do conto (ou novela?), quando a raiva de um quarto por arrumar faz o narrador gritar, “com todo o meu fôlego de português da serra: — Léaaaaah!

E em três curtos parágrafos, o tempo de subir escadas, de se acelerar o coração, vemo-la – “vi-te: pela primeira vez” diz com mais propriedade o narrador – e a luz em cheio na cara revela “A tua boca entreaberta de espanto, viva e carnuda…” No mesmo parágrafo vemos mais, ficando a saber de seios, fortes e salientes, e da curva criadora e firme das ancas

Na vida deste narrador sem qualidades, Léah, a criada da pensão, falando o “francês aveludado de Pas de Calais”, é uma explosão que se “abre e rescende como uma flor”, como é (na minha mal informada opinião) a primeira afirmação na literatura portuguesa de uma sexualidade desinibida, sendo seguramente a celebração de uma “carne comunicativa, terna e compassiva”.

O narrador e Léah amam-se, a partir daí, todas ou quase todas as noites, ou mesmo às quatro da tarde – cabeça de quem reclinada sobre o regaço de quem? boca sincera e solícita dela a apaziguar a lusitana exasperação dele, a quem ela chama Monsieur Carlôss.

Léah oferece-se tépida e pagã, como pagã vai depois oferecer, a Monsieur Carlôss, a irmã, levantando-lhe devagar a saia: “Não é verdade que é linda?… E ainda é virgem” e pedindo-lhe que a beije, o primeiro beijo que a fará sofrer.

Léah, para que conste, tem um pauv’ Fe’dinand, de bom emprego e pressa de casar, que ela não ama, mas de quem gosta, por bonito e decente.

Foi pela irmã, pelo pauv’ Fe’dinand resignadamente contente só de sair com ela, ou foi por causa de Madame Lambertin, a patroa flamenga de maneiras livres e em cujo colo o narrador antes – antes de ti, Léah, antes de ti – tomara equivalentes liberdades – por quem ou por que foi não sabemos, mas ao narrador e Léah acontece-lhes o primeiro beijo funesto: “por dentro de mim eram tristes e amargos” diz desse beijo e dos que se seguem o eu que Miguéis pôs a contar-nos a história.

Quem, como na canção patética de William Blake, terá, primeiro, acolhido no acendrado colo o imundo verme do egoísmo e do medo?

Léah, francesa de Pas de Calais, criada de pensão em Bruxelas ama, em liberdade e plenitude juvenil, um narrador que se diz português e enfronhado em experiências de biólogo difuso. Ele sofre as dores do pauv’ Fe’dinand e passa a julgar-se “réu de traição e deslealdade”.

Ela talvez visse no amor dele a fuga a uma existência mesquinha e monótona. Ele esquiva-se, buscando na fuga alívio de um amor que estilhaça o egoísmo da sua convicta misantropia. E separam-se.

Passam dias, semanas, meses, um ano ou mais, “quando, um pouco atrás de mim, uma voz familiar exclamou com surpresa:
– Monsieur Carlôss”
Voltei-me. Eras tu.

Para o fim da história faltam mais de uma dúzia de parágrafos, o que dá, com bom espaçamento e letra de corpinho decente, duas páginas e meia. É o que vos peço que leiam depois de terem lido as emotivas 26 páginas que as antecedem. “Léah” é um conto escrito num português simples e cristalino. Límpido, disse Jorge de Sena. Está no volume “Léah e Outras Histórias, nas Obras Completas de José Rodrigues Miguéis, da Editorial Estampa. A 6ª edição, a que conservei, é de 1981.

Miguéis
Miguéis

Egon Schiele

Schiele

O titilante laço vermelho que força os quatro buracos da capa e contracapa é de bom augúrio. Falo-vos de um pequeno álbum de 16,5 por 22 centímetros, cartonado e com selo da Prestel Verlag. O livrinho faz parte da série, “Erotische Skizzen”. Dos três que sei existirem, só tenho o de Egon Schiele, mas hei-de descobrir os que foram dedicados aos “esboços eróticos” de Picasso e Rembrandt.

Abre-se este “Erotische Skizzen Egon Schiele” e o sexo surge nu, exposto e vermelho. Uma nudez que impele e repele. Percebe-se que estes corpos, a roçar o grotesco, tenham provocado alguns amargos de boca aos austríacos do começo do século XX.

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Schiele era o protegido de Klimt – herdou-lhe a amante de 17 anos – e pintou numa claustrofóbica Viena a que Freud já começar a levantar a tampa. Casou, pintou a mulher como tinha pintado a amante e antes pintara as adolescentes que levaram os juízes a acusá-lo de sedução e abuso. Absolvido pelos tribunais, a Europa das artes sentenciou-o à genialidade de que esta erótica, aqui guardada em livro, é prova cabal.

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