Dois novos livros de Jorge de Sena

No centenário de Jorge de Sena, a Guerra e Paz tem a honra de anunciar a publicação, em breve, de dois novos livros do seu autor. Em primeiro lugar, a histórica correspondência trocada por Jorge de Sena com o capitão João Sarmento Pimentel. Depois, uma fotobiografia de Jorge de Sena. São edições que Isabel de Sena, a filha de Jorge de Sena, está a finalizar e que trazem nova luz, não só à obra de Sena e aos estudos senianos, mas também à História da oposição ao salazarismo.

Anunciamos estas novidades, hoje, no dia em que se comemora o centenário do nascimento de Jorge de Sena. Há pouco mais de 56 anos, Sophia de Mello Breyner Andresen, numa carta que Guerra e Paz publicou no livro, cuja capa podem ver aqui, em cima, escreveu-lhe assim: “Tenho andando muito soli­tá­ria, bas­tante desen­ga­nada de lite­ra­tos e sinto muito a sua falta, neste deserto inte­lec­tual. O saloísmo da mai­o­ria dos inte­lec­tu­ais por­tu­gue­ses é quase ina­cre­di­tá­vel e as for­tes desi­lu­sões que tenho tido fizeram-me per­der o ânimo.

Portugal ficou mais solitário. Perdemos Jorge de Sena há tanto tempo, e perdemos já, também, Sophia. Deixaram-nos as cartas – essa forma perdida de comunicação, cultura e afecto – de que a Guerra e Paz fez o seu primeiro livro, cartas que, ao longo de 19 anos, anos de exílio de Jorge de Sena, primeiro no Brasil, depois nos Estados Unidos da América, dois poetas maiores da língua portuguesa trocaram.

Se a correspondência entre Sena e Sophia é imprescindível, o copioso carteio que os poetas Eugénio de Andrade e Jorge de Sena trocaram, entre 1948 e 1978, é um monumento de informação poética, cívica e política e é outro dos grandes livros de Jorge de Sena publicado pela Guerra e Paz, a não perder.

Reúne uma correspondência de cerca de 30 anos, de 1949 a 1978. Por estas cartas e postais passa Portugal. As grandes batalhas literárias, os conflitos estéticos, o rumor pesado da Academia contra o qual Eugénio e Sena se batem, mas também a vida política, a falta de liberdade, a explosão dela no 25 de Abril, as esperanças e as frustrações que se lhe seguiram, que Eugénio, primeiro denuncia: “… a esquerda revolucionária já está a ser aproximada pelos bem pensantes do país, incluindo os comunistas, da mais sinistra reacção” e a que logo Sena responde “… revolução, que cada vez me parece mais um conluio de continuistas e de arranjistas, com alguns revolucionários parvos pelo meio, e muitos demagogos a agarrar os tachos com muita pressa…” de tudo isto há testemunho, vibrante, nestas cartas.

Esta é também, e sobretudo, a Correspondência de uma profunda e íntima amizade. São cartas de amor pelo tão emocionado amor que Sena e Eugénio têm pela literatura, pelo labor poético, pela forma como cantam e procuram a luz, que cega, da Beleza que pode haver num verso.

Melhor do que qualquer explicação, falam as cartas. Por exemplo estas duas que, com muito gosto, vos deixo ler, antes de correrem às livrarias para ficarem com um exemplar à cabeceira.

Carta de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena

21 de Maio de 1969

Querido Jorge:

Recebi simultaneamente a tua carta e original de Cavafy, há já alguns dias, mas não tive ocasião de te escrever logo após a leitura dos poemas, como gostaria de ter feito. Comparei mesmo alguns poemas com a tradução do Pontani. Como imaginava, a tua tradução é incomparável, particularmente, os poemas breves, os mais difíceis de traduzir, pelo risco que alguns correm de se transformarem numa quase banalidade madrigalesca, o que acontecia com as traduções francesas, a que não escapam mesmo as traduções mais belas. É um prodígio o que consegues. E se podes afirmar, apoiado em Goethe, que não há grande poema que não possa ser traduzido, seria indispensável juntar que tudo vai do tradutor. Ora o Cavafy teve a sorte de te encontrar no caminho. Se dou mais relevo às traduções dos «eróticos » (achando igualmente notável o que fizeste dos três poemas do Cavafy que prefiro – «O deus abandona Marco António», «Ítaca» e «À espera dos bárbaros») é tão-só porque considero a tradução de tais poemas mais difíceis que os outros. A matéria, além de muito frágil é, em outro sentido, delicada. Tu resolves tudo com uma franqueza, uma elegância e uma frescura verdadeiramente notáveis. Reparo até que os poemas têm uma força explosiva que só intuíra nas traduções francesas ou italianas, receando até que tais poemas constituam um pequeno escândalo, justamente, como muito bem referes no teu prefácio, que é muito corajoso, pela nobreza moral que revelam, isentos, como são, dos perversos conceitos de «pecado».

As traduções deram-me uma grande alegria. Este livro pertence–me. A primeira vez que traduziste o Cavafy, lembras-te?, foi para mim, numa noite em tua casa, talvez depois da leitura de As Evidências. Quando apareceram as tuas primeiras traduções no Comércio, estimulei-te, através de correspondência, no sentido de publicares novas traduções. Quando o editor me pediu a indicação de alguns poetas estrangeiros para a colecção que iniciou com o Lorca, o Cavafy, traduzido por ti, foi dos primeiros nomes que apontei. «Um deus abandona Marco António» e «A origem» são poemas que me acompanham desde a tua tradução no Comércio. (Pude assim notar agora as variantes, importantíssimas, lendo agora «A Origem» neste teu volume).

Felizmente que a alegria que me deu o teu livro me compensou da melancolia da tua carta. O que sobretudo lamento, nesta história do prémio, é que por via de o não receberes sejamos privados de nova visita tua. Tu já sabes o descrédito que tem para mim a chamada glória literária. Ser-se Namora, para me servir da tua expressão, é coisa que suponho não interessa a ninguém. Que importa o êxito? Tu não és um escritor para multidões, não no fundo o desejaste nunca ser. De um certo êxito suponho que terás até desprezo. Podes estar tranquilo: a tua obra está aí, e brilha, e aquece. Ela pertence aos melhores, como bem sabes. É pena, realmente, que a tal ilha, Taiti ou outra qualquer (a minha fica no mar grego), não esteja nunca senão no nosso desejo. Que havemos de fazer? Suportar é tudo – não foi o Rilke que disse? Suportar – não há para nós outra solução sob pena de abdicarmos de sermos homens.

Na próxima carta já te direi quais são os teus 50 poemas que prefiro. Tenho o maior gosto em indicar-tos.

Lembranças afectuosas à Mécia. Para ti o maior abraço do muito

teu, Eugénio

Carta de Jorge de Sena a Eugénio de Andrade

Madison, Wis., USA, 25 de Maio de 1969

Querido Eugénio

Ontem chegou a tua carta com as tuas impressões do Cavafy traduzido, e a certeza de que ele aportou ao Porto em paz. Entretanto terá chegado a Emily Dickinson, criatura (e volume) menos alentada mas não menos grande à sua maneira. Creio ter-te dito que o novo livro de poemas (**) já foi, também pronto, para a Portugália. E todo o meu trabalho se concentrou furiosamente, depois disso, na revisão e cópia (e também conclusão de coisas começadas às vezes e não acabadas nunca) da Primeira Parte das minhas outras traduções: uma massa de cerca de 60 poetas desde 600 AC até 1900… com cerca de 200 poemas (mas muitos são poemas brevíssimos), que dará um volume de 200 e tantas páginas, com algumas das coisas mais belas que fiz na matéria e como «tour de force»: uma dezena de gregos, meia dúzia de romanos, dois chineses, dois provençais, uma dezena de italianos, outro tanto de franceses, cinco espanhóis, outro tanto de alemães, um japonês, uma dezena de gente em inglês. Gente de primeiríssima: Eurípedes, Horácio, Catulo, Li Po, Dante, Miguel Ângelo, Ronsard, Tasso, Góngora, Shakespeare, Bashô, Blake, Goethe, Leopardi, Heine, Mallarmé, Verlaine, Rimbaud, Nietzsche… Quase tudo inédito em letra de forma (só uma dúzia destas traduções todas foi alguma vez publicada, pois que, sobretudo «didacticamente», mais publiquei sempre os modernos que são outro tanto, mas mais concentrados em Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Itália, com alguma França).

Fiquei profundamente comovido e sensibilizado com o teu entusiasmo pelas e a tua apreciação das minhas traduções do Cavafy. Tens razão com a explosividade de muitos dos poemas dele, ante que todos os tradutores sempre preferiram recuar, ainda quando o admirassem e compreendessem. As variantes que encontraste nalguns poemas resultaram do intensivo confronto das versões e dos originais (com o meu grego analfabetismo), em que os eternos eufemismos se me desmascaram. O mal é que a maior parte das pessoas que traduz não são suficientemente poetas: e assustar-se-iam menos com um palavrão que com a franqueza de um poeta que do sexo fale como só aventura. Como o sentimentalismo romântico é um disfarce da moral burguesa (o melado João de Deus que o diga)! E como a «respeitabilidade» não é senão a manutenção dos mitos eróticos. Por isso, como verás, me consolei anos e anos a traduzir poetas que diziam o contrário: e nenhum que tenha sacrificado, pelo menos no poema que traduzisse, à hipocrisia idealizadora, eu jamais traduzi.

Na verdade, este livro pertence-te. E mais do que julgas. Podes estar certo que foi pensando no gosto que terias, que traduzi bastante mais Cavafy, apesar de quanto o admiro como poeta (e creio que o meu prefácio e as minhas notas o analisam bem – também nisso há algo de especial gosto, dada a fragilidade crítica de quase tudo que se escreveu sobre ele). A propósito: não te esqueças de inserir na lista bibliográfica aquela edição do Pontani, que foi a única que não consegui obter nem consultar e tu tens.

Em matérias de glórias, eu sou, francamente, um sujeito contraditório: ao mesmo tempo as pessoas incomodam-me (e muitas vezes até quando escrevem admirativamente a meu respeito, sem que nisto vá ingratidão), o êxito parece-me risível, e sei melhor que ninguém a que várias circunstâncias pode dever-se. Mas a hostilidade com que lutei desde a primeira hora, ou que suscitei sem querer (ou muitas vezes por querer), deu-me também uma sede de triunfo, de mundo a meus pés – talvez pelo que de outcast tenho sido sempre de grupos literários ou profissionais. E isso o não sinto menos na minha vida universitária, onde, no fundo, os meus «colegas» de cá e de lá não me perdoam que eu tenha entrado na profissão «por cima», por força de uma bagagem maior que a deles todos juntos. Mas tudo me fere: fui sempre a vida inteira o mesmo menino esquecido e jogado entre os pais, sedento de atenção e de amor, dividido entre estar só e acompanhado. Ainda há pouco, com o melhor dos sorrisos, um dos velhos daqui me dizia que, com o tempo, talvez eu até desse filologia (visto que, especialista de literatura que a si mesmo se fez, tenho só a filologia que sempre achei precisa só para ela, mas não posso evidentemente, a não ser que me desse uma veneta que não vale a pena, ensinar a dita cuja)…  Quem me dera ter a suprema isenção de um Eça, atento à Inglaterra e à França literárias, mas despegadamente longe de vidas literárias que não eram a sua (aliás, tenho-a por orgulho, pois que faço o mesmo, e não tenho relações literárias na América) – para suportar a babação dos meus colegas de espanhol ante um qualquer escritor espanhol de segunda ordem, comigo ao lado, que nunca leram. E havias de ver a fúria deles, quando um dos doutorandos, no exame escrito, sobre literatura contemporânea portuguesa, se referiu aos meus contos…

E o que mais me dói é o desprezo por tudo o que é português, como se fôssemos uma espécie de leprosos do universo, sem interesse algum. Ainda por cima, tenho de dar cursos de literatura brasileira, em que a maior parte dos admirados escritores não são de modo algum aos nossos superiores: há-os grandes, e isso é outra conversa – mas quanta coisa menor tenho de tratar, e trato, a sério! E é o que irremediavelmente me separa na profissão de professor. O homem de carreira estima tudo o que lhe disseram ou a bibliografia diz que é estimável, sem gastar nisso paixão ou gosto literário.

Eu estimo o que é admirável, ou, por interesse de cultura, o que seja significativo. Só peço aos deuses que o curso que, no ano próximo, vou dar no Departamento de Literatura Comparada, sobre o Maneirismo e o Barroco (Itália, Inglaterra, Alemanha, França, Espanha, Portugal, América Latina, e as artes juntamente), seja um êxito – porque possa eu passar-me, e os medíocres que venham consolar-se de mediocridade em Português, no meu lugar. Mas teria então raivas de pensar nisso. Tudo isto ainda é – ridiculamente – lamúria por causa do prémio. Não é grande coisa, nenhum é aí. Mas tapava a boca a muita gente, abria-me muitas portas, e teria enorme repercussão aqui, porque a essas coisas a americanada é sensível, vem no jornal. Uma das coisas que nunca perdoei nem perdoarei ao Brasil foi, para lá do prestígio dos meus artigos, das minhas ligações, das minhas artes de professor, nunca ter cuidado efectivamente de saber quem eu era. E o prémio seria também uma bofetada para lá. Paciência, boa para a vista, como dizia a minha avó. E o dinheiro, meu filho, neste inferno sem saída que é financeiramente a minha vida com a família que tenho ([…] que não posso ter dinheiro para educar universitariamente, se eles não arranjam notas que lhes garantam bolsas – e que, sem tal, nos tempos que correm, acabam a lavar pratos ou carros), donde venha faz-me arranjo. Que sou honesto, firme, etc., quando há tantos governos deste mundo para que se pode trabalhar chorudamente – mas eu estou sempre do lado dos que caem ou não sobem…

Logo que o volume das traduções esteja pronto – ficá-lo-á esta semana que entra, em que começam curtas férias antes dos cursos de verão –, mandar-to-ei, para que saboreies muito do que lá está. Passá-lo-ás depois ao Cruz Santos, a quem Deus e Mercúrio dêem vida e saúde e dinheiro.

Afectuosas lembranças da Mécia. E o grande abraço muito amigo

do Jorge

(**) Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta (Lisboa: Portugália Editora, 1969).

Jorge de Sena, minha guerra, minha paz

Ontem, a Cinemateca Portuguesa convidou-me para falar de Jorge de Sena, na sessão de inauguração do ciclo de cinema comemorativo do centenário de Jorge de Sena. Por ter sido eu, em 1987, o organizador de um livrinho, Jorge de Sena e o Cinema, que reunia os textos que o autor escreveu sobre filmes. Este ciclo da Cinemateca cruza-se com outro ciclo, o da comemoração do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen. Sena e Sofia tinham uma electiva afinidade e trocaram uma correspondência brilhante, lindíssima, reunida num livro de que eu sou o editor. É uma das mais belas correspondências da literatura portuguesa. Gosto muito das outras correspondências de sena que publiquei, com Gaspar Simões, Delfim Santos, Raul Leal e Eugénio de Andrade, mas há um lirismo, uma veemência, uma poética na Correspondência Sena-Sophia que, aposto, as letras portuguesas não voltarão a repetir. E agora o texto da minha intervenção, ontem, na Cinemateca. 

3d-Sena-Sophia

Um dia, num dos seus textos, Jorge de Sena comparou a esmagadora e secular grandeza das sequóias com a risível aparência do arbusto a que chamamos pilriteiro. Pois bem, eu hoje, aqui, a falar-vos nesta sessão, sinto-me um pilriteiro. E fui ver se o daninho arbusto tinha outros nomes e tem. Chamam-lhe cambrulheiro, combroeiro, escalheiro, estrapoeiro. Nenhum destes nomes é muito motivador ou digno. Só me resta, na minha condição de pilriteiro ou estrapoeiro, pedir-vos desculpa. Vamos todos esquecer o arbusto e pôr os olhos na sequóia.

Agradeço ao Eng. José Manuel Costa, director da Cinemateca, e à Cinemateca, o convite que me dirigiu para eu estar presente nesta homenagem a Jorge de Sena. Quero dizer a Isabel de Sena que é uma honra partilhar este momento e que foi um prazer ter já editado três livros com ela, na sua condição de guardiã da obra do poeta, romancista e ensaísta. Toca-me também estar ao lado de Gastão Cruz, cuja Teoria da Fala marcou poeticamente o final da minha adolescência, isto para não falar da leitura obsessiva, em 73, dos textos da Poesia Portuguesa Hoje, seu pequeno livro de ensaios. E saúdo a Antónia Fonseca, se bem sei relações públicas da Cinemateca, que faz o favor de formar comigo um casal heterossexual, por razões que adiante se verão.

Em 1984 ou 1985, já não sei bem, João Bénard da Costa pespegou-me com uma catrefa de caixotes contendo uns bons milhares de páginas dactilografadas, se é que alguém aqui ainda sabe o que é uma página dactilografada. Vinham com agrafos, alguns já ferrugentos, e estavam riscadas a lápis azul e lápis vermelho da censura, com muitas notas manuscritas. Era o acervo do JUBA, Jardim Universitário de Belas Artes, uma organização que promovia um evento, as terças-feiras clássicas, nas quais uma personalidade da cultura portuguesa falava sobre um filme de qualidade.

A ordem era que eu tirasse daquele imbróglio um conjunto de publicações que permitissem às gerações futuras saber que e como a intelectualidade dos anos 50 se relacionou com o cinema. Estavam ali textos de Vitorino Nemésio, Delfim Santos, Vieira de Almeida entre outros.

Confesso, eu só tive olhos para a sequóia chamada Jorge de Sena. Os textos dele constituíam um corpo literário, crítico e teórico coerente, imagem da sua cinefilia, mas também um quadro comparativo, tão ao gosto de Sena, da relação daqueles filmes com o seu tempo social e político e com as outras artes, a literatura e o teatro, umas vezes as artes desse tempo, na maior parte das vezes recorrendo a ousados paralelos com as grandes figuras de um passado que nem poderia adivinhar que existiria cinema, de Caldéron a Shakespeare.

E lá fui eu, com a minha arrogância de pilriteiro, dizer a João Bénard o que ele queria ouvir: devíamos publicar os textos por autores e o primeiro livro tinha de ser o desse pasmoso e inenarrável Jorge de Sena. O João Bénard levantou-me ao colo, deu-me o nihil obstat e mandou-me falar a quem de direito, à sequóia mãe, Mécia de Sena.

Uns dias depois, para resumirmos e acelerarmos, eu estava a bater à porta do 939 Randolph Road, Santa Barbara California 93111-1031 USA. A porta abriu-se e eu logo pus um pé na casinha japonesa, como costumo dizer tantos eram os vidros, paredes e janela a abrirem-se para o exterior, na bela sala forrada a livros e discos onde vivera Jorge de Sena.

E descobri uma mulher prodigiosa, um dragão a defender o seu castelo, uma torrencial vontade de conversar, um conhecimento avassalador do meio literário português, capaz de falar de tudo isso na sua cozinha americana e armar um jantar para 10 pessoas, enquanto divagava de Óscar Lopes a Eduardo Lourenço, de um ciclo de cinema de Taiwan a uma ópera de Verdi.

 A Dona Mécia de Sena devo muita coisa, ter-me levado pela mão a fazer este livro com os textos de cinema de Sena, ter-me instado a escrever a notinha que o antecede, e ter-me proposto outros livros de Sena que depois publiquei.

Mas deixem que recorde com ternura, ao meu estilo pilriteiro, o piquenique que ela e Maria de Lurdes Belchior me prepararam e que com elas partilhei numa das missões espanholas que pontuam a estrada de Santa Barbara a São Francisco. Quem comeu na América um piquenique com ovos verdes e bolinhos de bacalhau?

E agora tenho de entrar por caminhos mais confessionais. A minha entusiástica escolha dos textos de Jorge de Sena para o meu primeiro livro das terças feiras clássicas tinha um perigoso antecedente. No meu périplo seniano há um episódio erótico que, por fim, desvelo.

A 10 de Junho de 1977, Jorge de Sena fez um discurso na Guarda. No seu estilo arrebatado defendeu a imagem de um Camões de amor e tolerância, um Camões que, “tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências se fosse em vida o nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou”, para glória máxima da língua que falamos.

Jorge de Sena lançava ao vento estas palavras e ouviam-nas os meus ouvidos e ouviam-nas os ouvidos da Antónia Fonseca. E ali estávamos os dois, num apartamento da Costa da Caparica, olhos semicerrados ao mar de Junho, cada vez mais de mão na mão, a contar dedos de duas mãos, e a dar dez, ainda longe desse poema de Sena em que há um dedo a mais.

Já levamos 42 anos de evidências, metamorfoses e exorcismos. Como Sena também podemos dizer, Conheço o sal que resta em minha mãos, / como nas praias o perfume fica / quando a maré desceu e se retrai.

Como editor, que nunca esperei ser, nem nesse dia 10 de Junho, de Sena publiquei inéditos, correspondências, poesia, conto e novela, um total de oito livros, já três com Isabel de Sena.

E a imagem da sequóia não me sai da cabeça. Sena é uma floresta de sequóias. A sua poesia é grande na poesia portuguesa. Poesia discursiva, poesia de ideias, poesia que se combina com outras artes; poesia que nunca abdicando da inteligência não deixa de ser lírica, pungente e emotiva.

A sua ficção, e em particular Os Sinais de Fogo, tem um fulgor narrativo raro, e uma linguagem que nos lava do sarro e ceroulas de tanta prosa portuguesa.

Sena escreveu sobre Marx, Maquiavel, sobre Rimbaud, Cavafy , Rilke e escreveu até uma admirável história da literatura inglesa. Mas é quando escreve sobre a literatura portuguesa, sobre Camilo ou Fialho, Eça ou Garrett, que percebemos a sequóia que tanto hoje aqui evoquei.

Nesses ensaios, os Estudos de Literatura Portuguesa, reunidos em três volumes, o brilhante comparativista que ele é, tira os nossos escritores do nosso gulag literário e obriga-nos a compará-los com Balzacs e Flauberts, com Dickens ou Pushkins, Keats ou Leopardis, cruzando o nosso tempo com o tempo social, tecnológico, económico e político das Franças ou das Américas, das Rússias ou das Espanhas, das Inglaterras ou das Alemanhas, por mais que essa comparação nos encandeie, nos cegue ou nos deslumbre.

Esses seus ensaios, em particular o soberbo Uma Canção de Camões, recriaram Camões, libertando-o, para indignação de muitos, de um eruditismo bacoco e de um nacionalismo serôdio. E recriaram ainda Fernando Pessoa, dando-lhe nos dois volumes de Fernando Pessoa e Companhia Heterónima, o dispositivo conceptual e interpretativo que põe Pessoa na história da literatura mundial.

Este é o Jorge de Sena para que levanto os olhos. É uma sequóia, mas não nos deve assustar. Devemos é sentar-nos, viver, amar, ler e adormecermos encostados ao seu vasto tronco. Eu acho que era isso exactamente o que Mécia de Sena me quis dizer quando me ofereceu o piquenique nas missões espanholas de El Camino Real.

Ou a literatura, os livros, os poemas, contos e romances nos entram pela vida e pelo corpo dentro ou não são sequóias. Jorge de Sena defendeu e louvou as conexões com a cultura, com a história, com a linguagem. Com a vida também e mais do que nenhuma outra, que é da vida que colhemos uma alegria imensa.

Ou como ele disse neste poema, provavelmente dedicado à Isabel:

Às vezes, com minha filha no chão junto de mim,
fecho os olhos numa acção de graças…

Mas logo ela galreia;
nem isso me consente.

E regresso um pouco triste a uma alegria imensa.

 DSC_0556

Este é o outro livro que toca a mais sensível corda do meu coração. Publiquei, por imensa gentileza de Isabel de Sena, O Físico Prodigioso. Nesta edição a ouro.

Ademanes eróticos

Um dia, a propósito desta edição do livro “O Físico Prodigioso” de Jorge de Sena, disse o que agora, que o livro vai ser o ex-libris da Guerra e Paz, nesta Feira do Livro, volto a dizer. Com mais veemência e gosto, ainda.

DSC_0544

Nós, ocidentais, temos desenvolvido um gosto extraordinário pela auto-expiação e não nos dá jeito nenhum, para esse fim incriminatório, ver o que há de pan-erótico no cristianismo, a começar no processo que esse extraordinário Deus trinitário arranjou para seduzir – com voz de anjo – a Virgem Maria. Com o seu exército de anjos, arcanjos, serafins, santos e santas em êxtase místico, o cristianismo, e em particular o catolicismo, quase transbordam de ademanes eróticos, o que a profusão de talha dourada, mantos de seda e cheirinho de incenso só reforçam e excitam. Poderia lá existir este texto de Jorge de Sena, este O Físico Prodigioso se não tivesse bebido nesse rio de água benta em que se banha o sagrado e o profano, o invisível Espírito Santo e o tão táctil demónio?

Drummond e Sena: beijos, lábios e língua

beijos

Não se diga da poe­sia de lín­gua por­tuguesa que é del­i­cada e para del­i­ca­dos. Dois poetas pelo menos, o brasileiro Jorge de Sena e o por­tuguês Car­los Drum­mond de Andrade – e se me dis­serem que me enganei, aos dois declaro nasci­dos e glo­riosa­mente mor­tos na mes­mís­sima lín­gua tan­tas vezes a por­tugue­ses e brasileiros estranha – Sena e Drum­mond, dizia, can­taram o amor com essa sub­lime e priv­i­le­giada indel­i­cadeza que só o é para quem já não tem a inocên­cia de acred­i­tar que com casti­dade se abrem coxas ou que mão apal­pante deslize pura pela perna que pronta­mente responde.
Leio estes dois poe­mas e o que deles mais gosto é que são livres e sabem a desinibido quotidiano.

Era Manhã De Setem­bro
Car­los Drum­mond de Andrade


Era manhã de setem­bro
e
ela me bei­java o membro.

Aviões e nuvens pas­savam
coros negros rebramiam
ela me bei­java o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruza­dos flo­riam junto

Ela me bei­java o membro

Um pas­sar­inho can­tava,
bem den­tro da árvora, den­tro
da terra, de mim, da morte

Morte e pri­mav­era em ramo
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me bei­jando o membro

Tudo o que eu tivera sido
quando me fora defeso
já não for­mava sentido

Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me bei­jar o membro

Dos bei­jos era o mais casto
na pureza despo­jada
que é própria das coisas dadas

Nem era pre­ito de escrava
enrodil­hada na som­bra
mas pre­sente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como bei­java uma santa
no mais divino trans­porte
e num solene arrepio

bei­java bei­java o membro

Pen­sando nos out­ros homens
eu tinha pena de todos
apri­sion­a­dos no mundo

Meu império se esten­dia
por toda a praia deserta
e a cada sen­tido alerta

Ela me bei­java o membro

O capí­tulo do ser
o mis­tério do exi­s­tir
o des­en­con­tro de amar

eram tudo ondas cal­adas
mor­rendo num cais longín­quo
e uma cidade se erguia

radi­ante de pedrarias
e de ódios apazigua­dos
e o espasmo vinha na brisa

para con­sigo furtar-me
se antes não me des­fol­hava
como um cabelo se alisa

e me tor­nava dis­perso
todo em cír­cu­los con­cên­tri­cos
na fumaça do universo

Bei­java o mem­bro
bei­java
e se mor­ria bei­jando
a renascer em dezembro

beijo_b

Beijo
Jorge de Sena

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes lín­guas
tão pen­e­trantes quanto lín­guas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se aper­tando del­i­ca­dos.
É lín­gua que na boca se agi­tando
irá de um corpo inteiro desco­brir o gosto
e sobre­tudo o que se oculta em som­bras
e nos recan­tos em cabe­los vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.