Um menino de 6 anos

Outras Bicas Curtas que tinham ficado para aqui esquecidas. Acolheu-as o CM e eu, hoje, uma semana e meia depois, trago-as aqui para a conversa.

Sleeping Woman With a Cat by Władysław Ślewiński
mulher a dormir, com gato, de Władysław Ślewiński

Um menino de 6 anos

Confiança. Puxei pela memória e era essa, quando tinha 6 anos, a palavra-passe para enfrentar o mundo. Eu tinha confiança no que o meu pai me dizia. Em Maio, teremos de sair de casa com confiança, vencendo o medo, como um menino de 6 anos.

Confiança para os pais deixarem os filhos à escola e voltarem ao trabalho. Confiança num Governo que reconheça que esta primeira refrega foi um hercúleo esforço para evitar a ruptura de um SNS tão heróico como debilitado. Confiança num Governo que tenha a coragem de nos dizer que teremos de coabitar com um vírus vagabundo, a um passo da infecção, por vezes da morte, e que a isso se chama vida.

A  herança

Com 30 anos de idade, a minha filha já me está a dar uma abada: 4 a 1 em traumas. Eu, aos 20, vivi e participei na independência de Angola, o que pôs de pantanas todo um mundo e um modo de vida. Mas a minha filha já soma quatro traumas, em idade juvenil: o 11 de Setembro, que pintou os nossos dias com a sombra do terrorismo; a crise do subprime, com a sua bolha imobiliária a arrastar a banca pela rua da amargura; a crise das dívidas soberanas que pôs Portugal de joelhos; e agora este vírus vadio.

Quatro crises, tantas sombras, muitos sonhos adiados.  A geração da minha filha, dos nossos filhos, merecia ter recebido outra herança.

A professora inglesa

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E o que vemos é a perfeição

Tenho o fetiche da professora inglesa. Confesso e explico-me.

O sexo estampado na cara de Marilyn ou de Brigitte Bardot repugnava a Hitchcock. Preferia a sexualidade das britânicas. Uma professora inglesa – é ele a contar – vai connosco no táxi e, a meio da cândida conversa sobre o tempo e Henrique VIII é perfeitamente capaz, súbito e sem explicações, de nos atirar a mão à braguilha.

Truffaut, que o entrevistava, ficou de boca aberta até Hitchcock rematar: “Só com mulheres dessas pode haver descoberta do sexo.”

Na esperança de ser lido na ligeiramente puritana Fenprof, sugiro que as conversas de Hitchcock com Truffaut passem a ser obrigatórias na formação docente. Debate esclarecido nunca fez mal a ninguém.

Esta inocente concepção da sexualidade atinge o seu expoente em “Rear Window” e “To Catch a Thief “, protagonizados pela loiríssima, angelicamente linda, Grace Kelly. Com ela contracenam Jimmy Stewart e Cary Grant. Nenhum parece ter vontade de lhe tocar.

Stewart, no começo de “Rear Window”, tem uma perna engessada e senta-se à indiscreta janela a espiar os vizinhos, procurando na vida deles a excitação que a forçada reclusão não lhe dá. Também não o excita a ideia de casar com a rica Grace Kelly que acha fútil, vinda de um ambiente tão rarefeito como a nossa Quinta da Marinha, a cabeça feita em vestidos, jóias e jantares milionários.

O espectador já sabe isto tudo e ainda não viu Grace Kelly. Quando primeiro a vemos, o que vemos é a sua sombra. O imobilizado Stewart adormeceu. Sobre a rija perna de gesso desliza uma sombra humana que passa ao ventre, e avança pelo peito, até lhe tapar o rosto. O perfume dela acorda-o, abrem-se-lhe os olhos e vê-a. Nós também pelos olhos dele. E o que vemos é a perfeição. Por ela pecaria o Espírito Santo se a sua língua de fogo tivesse olhos.

Por não ver na sombra a essência de Grace é que Stewart a não quer. Vê o gelo louro e a pele imaculada. Mas não ouve o vulcão que o sussurrado adágio da voz dela anuncia. “Como vai a tua perna?” pergunta. “E o teu estômago?” diz a seguir. É uma voz de sombras macias que promete correr-lhe a anatomia toda.

Grace Kelly toma a iniciativa também em “To Catch a Thief”. Cary Grant é ou foi um ladrão de jóias. Grace traz ao pescoço um colar refulgente que chama nomes ao seu decote. Se o paraíso é uma voz então é o paraíso que da boca dela convida Grant: “Toca-lhe!” E a mão dela a oferecer à dele a exposta jóia: “Agarra-a”.

Nesses filmes de crimes e roubos, Hitchcock fez de Grace Kelly a mais erótica jóia da sua colecção. A forma civilizadíssima e elegante como a filma só realça a húmida convulsão que a faz dizer a Stewart: “Quando quero um homem, quero tudo o que ele tem.”

Por estes sonhos ninfomaníacos de Hitchcock perpassa a sombra de uma professora inglesa.